Sei dizer quando comecei a me definir como feminista, mas sou incapaz de determinar qual foi a primeira vez que me senti em desvantagem em alguma situação por ser mulher.
A memória não é feita de arquivos de vídeos de momentos, nem é organizada em pastas por idade e não tem um anexo em escrito sobre nossas percepções da situação quando ela aconteceu. Por isso, é difícil precisar qual foi a primeira vez que eu tive consciência de que o mundo era machista. Pode ter sido quando me impediram de jogar futebol por ser menina, quando me falaram que eu tinha que lavar a louça e os meninos não ou alguma outra situação. Eu não sei. Apesar de lembrar de circunstâncias machistas que me aborreceram nessa época, eu percebo que muitas lembranças que hoje entendo como de situações relacionadas ao meu gênero passaram batido por anos até eu tomar consciência de que elas não eram naturais e/ou certas.
Meu incômodo com a desigualdade sempre existiu, mas estar inserida numa cultura machista pode nos fazer duvidar de que esse sentimento é justo. Leva tempo para gente compreender que não estamos sendo loucas de irmos contra o status quo que define como devemos nos portar e esse processo perpassa diferentes esferas. O caminho varia, mas geralmente a gente começa de onde o nosso calo aperta. A internet funcionou como um potencializador desse processo para muito gente, já que ampliou a possibilidade de mulheres dividirem suas experiências, preocupações e trajetórias.
O canal “Você é feminista e não sabe” tem como proposta aprofundar o tema feminismo por meio de diferentes recortes e fazer com que as pessoas percam o medo dessa palavra. Por meio de entrevistas com mulheres diversas, o mundo da Outra é apresentado e conhecer diferentes realidades nos ajuda a entender melhor o porquê do feminismo ser além do eu.
Através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, Angélica Kalil e Mariamma Fonseca querem colocar no papel quinze entrevistas feitas pelo canal. Com temas variados, como maternidade, violência doméstica, cultura do estupro, história, política, mulheres lésbicas, periféricas, negras e indígenas, o livro promete ser um ótimo companheiro para todos que querem refletir sobre a realidade das mulheres.
Angélica Kalil, criadora do canal e do livro, comentou que no livro será possível encontrar informações sobre a história do movimento, termos usados pelo feminismo, personagens históricas que questionaram seu lugar de gênero e dados/informações sobre a situação da mulher no Brasil e no mundo.
Além das entrevistas, a obra contará com textos de apoio e com mais de 60 desenhos de Mariamma Fonseca para ilustrar informações e fatos citados pelas entrevistadas. “As ilustrações estão como complementos das falas e deixam a narração dessas mulheres ainda mais marcantes”, conta Mariamma.
Capa do livro
A campanha encerrará no dia 30 de setembro e, até então, apenas 60% foi arrecadado*. Através de contribuição, você pode adquirir o livro e, dependendo do valor, ganhar recompensas como pôsteres, adesivos e marcadores.
“Você é feminista e não sabe” promete ser uma leitura que acrescenta muito para quem acabou de chegar no rolê e quer saber mais sobre diversos temas, e também para quem já é velha de guerra, mas gosta de entrar em contato com novas abordagens de temas já conhecidos. Só sei que com um livro desses publicado, conhecer e difundir o feminismo será algo mais simples do que foi um dia.
Arquivo Pessoal — foto do livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” — Adquira seu exemplar aqui.
Quantas mulheres nomeiam ruas, parques, avenidas, praças e viadutos na sua cidade? Quantos desses nomes você consegue lembrar sem esforço?
Moro em Belo Horizonte há alguns anos e consegui pensar na Avenida Tereza Cristina, na rua Stela de Souza, no viaduto Henriqueta Lisboa e em bairros com nomes de mulheres da religião, como Santa Tereza e Santa Efigênia. Todos os primeiros nomes que vieram na minha mente eram masculinos, como Afonso Pena, Bias Fortes, Augusto de Lima, Cristiano Machado, Silviano Brandão e Raul Soares. Só depois me lembrei dos bairros Jaqueline, Maria Helena e Juliana.
A dificuldade que tive de lembrar nomes de mulheres ao pensar na ruas, avenidas e viadutos da minha cidade não se deu por eu conhecer pouco daqui ou por mero esquecimento, aconteceu porque elas são minoria. Apenas 16% das ruas da cidade de São Paulo têm nomes de mulheres. Uma pesquisa feita na Espanha em 2007 apontou que apenas 5% das ruas de lá tinham nomes femininos. Já na França, um levantamento feito pelo grupo feminista “Osez le Féminisme!” apontou que apenas 2,6% das ruas parisienses homenageavam mulheres notáveis.
A matéria “Nomes de rua dizem mais sobre o Brasil que você pensa” do Nexo afirma que nas rodovias, um tipo de logradouro que exige bem mais investimento, os nomes masculinos dominam com 98% e que ao analisar os trinta nomes femininos de ruas mais populares do Brasil, somente quatro não eram de religiosas. Já entre os trinta nomes populares masculinos, dezesseis não faziam referência à religião.
Os nomes dos logradouros são uma amostra do apagamento das mulheres como referências, das relações de poder e das forças envolvidas nas decisões políticas. Além da ausência de mulheres e pessoas negras, no geral, vemos também a manutenção de nomes de bandeirantes, que dizimaram indígenas, e de torturadores e ditadores.
Os nomes presentes no espaço público são, em peso, masculinos. Percebe-se como eles são escolhidos de acordo com uma narrativa que privilegia a elite, composta principalmente por homens brancos, e seus ideais da época. Santas, mães e esposas são bem presentes entre as poucas homenageadas por representarem o ideal de mulher que eles apoiam, essa mulher que praticamente só se pode ser branca. Nossas referências não são necessariamente nomes de ruas, mas elas são parte de um todo machista, racista e elitista. Um todo que nos influencia. Afinal, quem são as nossas referências?
Gandhi, Nelson Mandela, John Lennon, Einstein, Tiradentes, Che Guevara, Jesus, Marx, Zumbi e diversos outros nomes masculinos são lembrados toda vez que fazem essa pergunta. Quando lembram de mulheres, falam a maioria das vezes de santas, mães e avós. As nossas referências podem não ser as mesmas dos nomes das ruas, mas ainda reproduzem a mesma lógica de que o espaço público é deles.
A maioria das pessoas cresce sem pensar que a ausência de nomes de mulheres na história é fruto da falta de oportunidades dadas a elas e da invisibilidade dada pela história aos seus feitos. Apesar do machismo — e o racismo e as questões de classe — terem negado educação e acesso para tantas, ainda assim muitas conseguiram ser escritoras, artistas, cientistas, fazer descobertas e lutar por melhorias. Principalmente no século XIX e XX, mas não só.
Conhecer e divulgar nomes de mulheres que fizeram parte da história, mas que são constantemente esquecidas, é importante porque as crianças que crescem sem essas referências acabam acreditando que o papel da mulher é o de subalterna, especialmente no caso de mulheres racialmente oprimidas que continuam sendo referenciadas na nossa cultura dessa maneira mesmo quando se passa a discutir temas como mulheres nos negócios com mais frequência. Que mulheres são essas englobadas por esse termo, né? Isso prejudica a autoestima das meninas e faz ambos os gêneros acreditarem que elas são menos capazes que eles.
Se os nomes que as crianças conhecem como inteligentes, marcantes, desbravadores e criadores são só de homens, as meninas nunca acharão que são boas o suficiente, enquanto os meninos seguirão acreditando que eles podem chegar lá. Se elas recebem menos estímulos que meninos para conhecerem coisas novas e para determinadas áreas, elas são afastadas dessas possibilidades.
Já na infância encontramos obstáculos específicos do nosso gênero e somos, desde muito novas, ensinadas a duvidar de nós mesmas. Uma dúvida que carrega em seu cerne o medo de falhar e acabar servindo como uma prova de que nosso gênero não é bom em algo.
Com a internet e tantas mulheres falando sobre representatividade, autoestima e machismo, surgiu uma necessidade e curiosidade coletiva por conhecer mais histórias de mulheres. As italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo perceberam isso e reuniram no livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” uma centena de nomes admiráveis de diversas áreas de atuação.
A obra foi idealizada por elas, mas só virou realidade por causa de uma campanha de financiamento coletivo. “Histórias de ninar para garotas rebeldes” foi o livro que arrecadou o maior valor na história do financiamento coletivo e contou com apoiadores de mais de 70 países. Esse recorde mostra que as pessoas têm percebido a importância de tirar a cortina da invisibilidade da história das mulheres e que muitos sentem falta de conhecer mulheres incríveis. O que é incrível, mas também nos faz pensar em como essa pauta pode ser facilmente capturada pelo capitalismo e por grupos com interesses antifeministas, principalmente a partir das escolhas de homenageadas.
Rainhas, atletas, cientistas, ativistas, escritoras, artistas e até piratas e espiãs recheiam as páginas da obra. Cada nome tem sua história e feitos contada começando com um “era uma vez”, num tom que aproxima o público infantil. Além dos textos, há também a participação de ilustradoras de diversos países.
Um livro encantador que, na minha opinião, peca no título. As histórias contidas nele servem para ninar crianças rebeldes, não só meninas. Sei que meninas são as maiores interessadas numa obra que fortalece a autoestima delas e também imagino que a intenção das autoras é que a obra seja para todas as crianças. Acredito, inclusive, até que há muitos meninos tendo contato com o livro por iniciativa de seus pais, porém, um título como esse reforça a ideia de que há coisas para meninas e coisas para meninos e que conhecer a história de mulheres notáveis não é algo importante para eles, sendo que é essencial que eles também tenham referências femininas para crescerem vendo mulheres como iguais.
Jarid Arraes — Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis. Divulgação. Adquira seu exemplar aqui.
Da escada, avistei uma fila de pessoas em torno de uma mesa. Elas compravam exemplares de “Heroínas Negras Brasileiras”, livro de Jarid Arraes que reúne 15 cordéis que contam a história de mulheres negras como Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela, Luísa Mahin e Aqualtune.
Sentei, junto com uma amiga, nas últimas duas cadeiras vazias e vi grupos se ajeitarem no chão, nos degraus ou ficarem em pé nas proximidades. De longe, se via muitos cabelos cacheados, crespos e anelados. A maioria do público era composto por mulheres negras. Eu era uma das poucas pessoas brancas da plateia.
Durante a roda de conversa, Jarid Arraes disse que escreveu essas biografias em forma de cordel e usou a palavra “heroínas” para definir essas mulheres por acreditar que a figura heroica tem o efeito de inspirar leitores e transmitir coragem para enfrentar adversidades. Ela ressaltou que o uso dessa palavra serve também para mostrar para todos que há heroínas negras bem perto de nós. Elas, como as homenageadas no livro, também resistem ao machismo, ao racismo e têm suas histórias marcadas pela resistência, coragem e talentos diversos, como a escrita e a liderança.
No evento que lotou o Sesc Palladium em Belo Horizonte, ela falou também um pouco sobre sua história pessoal, suas inspirações, contou um pouco mais sobre as mulheres que foram tema dos poemas de seu livro e expôs como o mercado editorial segue ignorando a presença das mulheres negras escritoras. Em seu discurso, ela evidenciou o efeito perverso que a invisibilidade das histórias das mulheres negras causa, já que o apagamento de uma narrativa como essa faz com que muitas pessoas cresçam sem referências de mulheres negras num mundo que continua perpetuando estereótipos de gênero e de raça.
No fim, Jarid comentou sobre seus futuros projetos em poesia e declamou o cordel que fala sobre a trajetória de Zacimba Gaba, uma princesa que foi traficada e depois torturada pelo escravocrata que a comprou por ele ter descoberto o passado dela. A princesa resistiu e envenenou o barão aos poucos e com a morte dele, liderou uma fuga e formou, junto com os demais fugitivos, um quilombo.
Ao terminar a leitura do poema, ela disse que quando escreveu “As lendas de Dandara”, seu primeiro livro publicado, narrou acontecimentos semelhantes com os feitos de Zacimba como pura ficção, porque ela ainda não conhecia essa história fantástica e real. E eu me pergunto, quantas histórias fantásticas e reais ainda não conhecemos? Quantas se perderam? Quantas ainda podemos resgatar e contar?
Nas últimas páginas de “Heroínas negras brasileiras”, há um espaço destinado para um cordel em sextilha e o convite para que nós contemos a história de uma mulher negra que nos marcou. Nessas linhas, feitos serão narrados e uma memória coletiva construída.
Muitas histórias começaram a ser lembradas ali, enquanto ainda ouvíamos a escritora apresentar seu trabalho, seus ideais e seu processo criativo. E várias já foram parar no papel um dia depois, na oficina de cordel ministrada pela autora. Entre professores, contadoras de história, fãs de cordel e especialistas no assunto, descobri como fazer sextilha, septilha e até décima com mote. Vi Jarid apresentar cada uma dessas possibilidades poéticas com trechos de seus cordéis engajados. Ela também falou sobre métrica e suas técnicas pessoais para garanti-la. E, enquanto pensávamos em quem íamos homenagear, ela leu, acompanhada de algumas participantes da oficina, vários cordéis presentes no livro.
Durante o lançamento da obra e também na oficina, Jarid ressaltou diversas vezes que a escrita não é um dom, ela é fruto de esforço e de treino. Para ela, todos nós podemos escrever. O discurso fez bem para mim, que estava ali numa missão de exploração de um novo jeito de escrever. Tentar algo novo é se expor ao erro e fiz essa oficina para conhecer mais sobre o processo de escrita da autora, experimentar um novo estilo e ampliar meus horizontes literários.
Com muita dificuldade, fiz meu primeiro cordel. Apanhei bastante da métrica e da rima, mas consegui prestar uma pequena homenagem para Adelina, uma mulher negra escravizada que ajudou a libertar cativos na luta abolicionista.
Meu primeiro cordel, como qualquer primeira coisa, ainda é uma tentativa, e apesar disso, dividirei o que fiz com vocês, já que acredito que a importância de compartilhar a história dessas mulheres é a mensagem primordial que Jarid quer passar. Sigo sem saber muito sobre literatura de cordel, mas com “Heroínas negras brasileiras” em mãos, percebo que vale a pena fazer parte desse partilhamento de histórias de mulheres notáveis e dessa valorização do cordel, enquanto parte da cultura brasileira. Vamos nos inspirar no trabalho de Jarid e apresentar para o mundo biografias de mulheres negras que admiramos?
Adelina, a charuteira
Vou contar neste cordel
uma história importante
de Adelina, a charuteira
e sua trajetória impactante
de luta abolicionista
contra todos ignorantes.
Filha de escravocrata
lidou com um tratante
Sua liberdade prometida
foi desprezada pelo arrogante
Trabalhou noite e dia
numa labuta esgotante.
Em São Luís do Maranhão
auxiliou os aflitantes
se tornou uma guia
nas ruas abundantes
ajudou muitos fugitivos
e deles foi informante.
Sobrenome não se sabe
mas seu feito foi brilhante
Vendendo uns charutos
se tornou uma militante
pela libertação dos escravos
e contra a exploração aviltante.
Desenhei, pintei, esculpi com papel machê. Li e escrevi. Cantei em coral, representei Pluft e falei em público. Joguei bola, dancei e toquei triângulo nas aulas de música da escola. Tive o privilégio de conhecer e experimentar uma gama de possibilidades de me apresentar ao mundo. Sem pretensão e medo de passar vergonha, eu entrei em contato com as mais diversas formas de contar histórias e manifestar sentimentos, vontades e opiniões.
Com meus ouvidos ansiosos para conhecer mundos reais e imaginários, eu escutava as narrativas adultas e infantis que eram detectadas no meu radar. Ouvi lendas, casos, cantigas antigas, risadas e adaptações de contos de fada. Com a leitura, eu descobri o que alguns estabelecimentos que faziam parte da paisagem que eu conhecia vendiam e passei a ser capaz de decodificar as letras dos livros até elas formarem palavras e mensagens.
Descobri uma infinidade de histórias e formas de contá-las. E, sem querer ou saber, me deparei com algo que faz parte da composição humana. Somos feitos de água, carbono, minerais e até nitrogênio. Somos feitos de memória e carregamos em cada célula histórias microscópicas que, em conjunto, se tornam visíveis a olho nu.
Bruxa Onilda, A Bruxinha Atrapalhada, O Fantástico Mistério de Feiurinha e várias outras obras infantis foram a porta de entrada para eu aprender a desbravar o mundo mediante a imaginação. Depois, a Agatha Christie e o suspense que mexe com a nossa necessidade de saber respostas me deixou apreensiva, com medo e curiosa. A J. K. Rowling me apresentou a possibilidade de crescer junto com os personagens de um livro com a série Harry Potter. Os livros da Coleção Vagalume me fizeram sonhar em conhecer o Egito e resolver mistérios; já Machado de Assis e sua capacidade de criar personagens humanos e ironizar nossa mesquinharia, me fez compadecer e desprezar um mesmo protagonista. Por meio da leitura, tomei conhecimento da capacidade humana de criar mundos, personagens e expor sentimentos e também provocá-los no leitor.
Em algum momento, depois de tanto ser tocada por cenas e acontecimentos escritos, eu quis ser escritora. Eu desejei afetar alguém como esses autores fizeram comigo. Eu já escrevia, mas não havia pretensão alguma de fazer desse ato algo além de uma forma de explosão. Continuei explodindo e expandindo no papel e na tela, enquanto tratava a vontade de ser escritora como um sonho desses que a gente tem dormindo.
Tirei a poeira desse sonho adormecido após ler o livro “Meus desacontecimentos”, da Eliane Brum. Na obra, ela interpreta a própria memória e nos apresenta sua infância rememorando pessoas próximas, situações e seu amor — antigo — pela escrita. O jeito que ela escreve, a forma que ela fala sobre escrever e o amor dela por ouvir e contar histórias me deu fôlego para arrancar o sonho do seu local confortável e onírico.
Li Eliane Brum relacionar a escrita dela com a raiva e me lembrei das vezes que incendiei a tela do computador quando escrevi porque tinha que escrever. Respondi escrevendo em fogo os absurdos que vi acontecer e usei, como combustível para as explosões, as dores que enxerguei no mundo e a ira que vive em mim. Lendo os desacontecimentos de Eliane, eu tive a noção do quanto a escrita vive em mim. Somos parte de uma só, porque em algum momento, eu a elegi como minha forma de me colocar no mundo. Todo mundo tem a sua, mas muitos sequer tomam consciência disso.
Expressar-se é marcar sua existência no mundo, talvez seja por isso que tantas mulheres encarem o ato de escrever — ou de pintar, ou de compor, ou de esculpir — como algo tão visceral. Tantos anos como musas, sendo apenas descritas, tendo sua educação negada ou sua capacidade literária questionada e servindo como deleite ou motivação de personagens masculinos de obras feitas por homens fez muitas de nós encararmos o ato de criar como uma forma de demarcar nosso território num mundo que disseram não ser o nosso.
Ler nos permite entrar em contato com personagens e acompanhar seus sentimentos, suas perspectivas e a realidade que foi imaginada para eles pelo autor. Além do lúdico, o escritor, muitas vezes, nos ensina a enxergar o Outro, quando nos permite vivenciar junto com um personagem mundos desconhecidos por nós. Quem escreve tem a possibilidade de ampliar a capacidade do leitor de encarar o mundo e enxergar vidas e histórias que ele não via antes e é por isso que quero tanto me definir assim. Quero fazer o invisível saltar aos olhos e contar as histórias que queria ler, que vivi ou mesmo que ouvi da boca da minha avó.
Este texto fez parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva.
Capa do livro “As cientistas — 50 mulheres que mudaram o mundo”. Adquira seu exemplar aqui.
Quando eu era criança, uma das coisas que eu gostava de fazer era passar horas e horas numa praça próxima da minha casa. Ali eu brincava na areia, no parquinho, jogava bola e observava insetos e plantas. Depois, o inseto observado era eternizado num papel com meus traços e ganhava um nome criado por mim, que era válido até eu descobrir a espécie dele ao consultar os livros de biologia do meu padrinho. Eu fazia isso por curiosidade e porque queria descobrir um animal ainda não encontrado. Adulta, por meio do livro “As cientistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky e traduzido por Sonia Augusto, descobri Maria Sibylla Merian, uma alemã que nasceu em 1647 e marcou a história da ciência com as descobertas que fez sobre insetos. Com a observação e a ilustração, ela documentou a metamorfose da borboleta e classificou diversas novas espécies dessas criaturas.
Entre as muitas profissões que pensei em seguir nessa época, as que se destacavam se relacionavam com minha curiosidade sobre fósseis e rochas. Eu tinha no quarto uma pequena réplica de um esqueleto de Tiranossauro Rex e, como brincadeira, adorava procurar e colecionar pedras diversas. Sabendo que sou de Minas Gerais, muitos podem se enganar e achar que o meu gosto por pedras e escavações se relacionava com ouro, diamante e esmeralda, mas a fonte disso tudo era meu amor por dinossauros, o fóssil Luzia ter sido encontrado relativamente perto da minha cidade, um documentário que vi sobre vulcões e uma visita às Grutas de Maquiné e Rei do Mato. Adulta, mais uma vez com o livro “As cientistas”, conheci a história de Mary Anning, uma inglesa nascida em 1799, que colecionava fósseis e foi uma paleontóloga. Ela descobriu os primeiros esqueletos de ictiossauros e de plesiossauros e seu trabalho foi importante para ajudar a provar que a extinção acontece.
Durante a leitura do livro de Rachel Ignotofsky, eu lembrei muito da minha infância e a cada nome e história que eu descobria, eu pensava em como saber disso antes poderia ter me feito bem. Apesar de ter inúmeras anedotas para contar que se relacionam de alguma forma com ciência, em algum momento da minha história, eu aprendi que esse espaço — e muitos outros — não era pra mim. Eu conhecia Einstein, Pitágoras, Tales e Galileu, ouvia falar dos navegadores com nomes masculinos e dos tantos presidentes homens da história e, sendo mulher, um dia tudo isso começou a soar como se eu fosse uma intrusa num mundo de homens. Se eu tivesse em minhas mãos essa obra há vinte anos atrás, talvez eu fosse uma cientista hoje ou apenas confiaria um pouco mais no meu taco.
Escrevo e pesquiso sobre mulheres notáveis há algum tempo. Faço isso por considerar essencial que mulheres conheçam a sua história e que homens aprendam a reconhecer meninas e mulheres como tão capazes quanto eles. “As cientistas” tira a cortina da invisibilidade de diversos nomes de mulheres que fizeram ciência e prova, para aqueles que ainda duvidam da capacidade feminina de descobrir, pesquisar e estudar, que somos inteligentes e curiosas.
Nomes conhecidos como Marie Curie, Ada Lovelace e Hipátia dividem espaço com Mae Jemison, Katia Krafft, Sau Lan Wu, Annie Easley e outras. Além das mini biografias, têm glossário, linha do tempo e dicas de fontes para quem quer pesquisar sobre. Quem gosta de saber mais sobre história das mulheres ou sobre descobertas científicas vai adorar ler esse livro e apreciar a linguagem didática, as fofas e coloridas ilustrações de Rachel e a linda edição que a editora Blucher preparou.