O que a pandemia tem a ver com feminismo?

Ou reflexões sobre mulheres, machismo e pandemia

Foto, feita por Marcha Noticias, de uma arte feita por Ailen Possamay inspirada numa famosa frase de Silvia Federici

Uma pandemia pode parecer um péssimo momento para falarmos sobre machismo, mas não é. A desigualdade, as opressões e os diversos fenômenos relacionados, todos já grandes conhecidos do período anterior ao isolamento social, agora se manifestam de maneira diferente, tornando a pandemia muitas vezes um intensificador de vulnerabilidades já existentes. Vulnerabilidades que agora parecem mais invisíveis, ainda que possivelmente mais intensas, e que tornam as discussões e as propostas de políticas públicas a respeito urgentes, visto que o isolamento, além de poder agravar certas situações, também afeta o acesso aos serviços essenciais de denúncia e a rotina pessoal de famílias.

A pandemia acentua os problemas sociais que a sociedade encarava até então como parte da normalidade. Os entregadores de aplicativos de delivery, por exemplo, já eram extremamente explorados antes e agora, com a pandemia, são vistos como um serviço essencial, mas continuam sendo pagos como se nada houvesse mudado. Ainda sem qualquer garantia de direito. Ainda como apenas um fator sem nome numa planilha de lucros que agradam acionistas. Com as mulheres não é muito diferente. A exploração do trabalho reprodutivo e doméstico já existia e agora, com muitas famílias em casa, a situação se intensificou. Especialmente nos lares com crianças e adolescentes, onde ainda há a cobrança de manter a rotina educativa e minimamente normalizada. Esse trabalho, ainda mais essencial agora, segue totalmente desvalorizado e ligado ao feminino, deixando mulheres exaustas com algo que poderia ser totalmente dividido, inclusive no quesito carga mental.

Um ótimo exemplo desse fenômeno é a matéria que saiu no site The Lily, que apresentou dados que mostram que durante a pandemia as mulheres têm enviado menos artigos científicos, enquanto homens estão enviando até 50% a mais. A sobrecarga do trabalho doméstico para as mulheres é um alívio para os homens que se comportam como se o trabalho doméstico e de cuidado não fosse responsabilidade deles. Eles lucram com essa vantagem, ainda que muitos consideram que dão uma mãozinha, porque eles, ajudando na louça ou não, saem na frente das mulheres que raramente vivem com alguém que divida tudo de forma igualitária.

O trabalho doméstico e reprodutivo segue considerado invisível, ignorado nos cálculos econômicos principais, enquanto a exploração, essencial para a manutenção do sistema, segue colocando homens, principalmente brancos, na frente. Nessa lógica, cabe às mulheres a obrigação de colocar a vida e o trabalho de seus parceiros como prioridade. Seguimos sempre acessórias.

Estar em casa é perceber que o trabalho doméstico não tem fim. Quando uma parte dele termina, como a finalização da lavagem de um banheiro, outra parte dele começa, enquanto a sujeira volta a se acumular. Todos sujam, poucas limpam, sendo esse um serviço sem fim, que deve ser feito a partir de cooperação, mas é colocado como um dever das mulheres que moram ali ou das profissionais de limpeza mesmo durante uma pandemia.

A desigualdade não se apresenta de maneira estanque. A mulher, dentro de uma família, é responsabilizada como a cuidadora do lar, dos filhos e dos demais doentes e vulneráveis, mas isso, no capitalismo, pode existir em outros formatos, como a contratação mal remunerada de babás, empregadas domésticas, faxineiras e cuidadoras. Se a pandemia fez mulheres como grupo geral trabalharem em dobro dentro de suas casas, ela atingiu de forma especial as mulheres que trabalham com limpeza, especialmente as que prestam serviços para hospitais, supermercados e farmácias ou para a casa de quem é egoísta demais para não dispensar, de maneira remunerada, a faxineira. Essas que são, geralmente, negras e pobres e tem como opção trabalhar ou trabalhar.

Ainda nesse sentido de trabalho e economia, é preciso ressaltar que grande parte dos profissionais de saúde, especialmente quando falamos de técnicos de enfermagem e enfermeiros, são mulheres. Fora as faxineiras, copeiras e atendentes que trabalham nos hospitais, supermercados e farmácias. Há uma certa feminilização de várias profissões que estão muito mais suscetíveis ao contágio, o que, além da possibilidade de contaminação e até morte, cria desafios especiais, inclusive financeiros, por causa da necessidade que essas profissionais possuem de se isolar de filhos e idosos que estão sob sua responsabilidade, sendo elas, muitas vezes, as únicas encarregadas pelo cuidado da família.

Outro ponto a ser levantado é que a informalidade atinge mulheres de uma maneira especial, o que contribui para a feminilização da pobreza e a gravidade dos impactos da Covid-19 no momento. Sendo esse fenômeno ligado ao fato de que o mercado de trabalho tende a ignorar mães como contratáveis e a ideia, ainda vigente, de pai de família provedor, que torna homens, ao menos na cabeça de muitos empregadores, mais importantes de serem mantidos como empregados em momentos de crise. Esse comportamento ainda é um padrão, mesmo quando as estatísticas apontam um número para lá de considerável de abandono paterno e famílias chefiadas por mulheres no Brasil e exista um entendimento, que embasa, inclusive, a previsão de regras específicas voltadas para mulheres nos benefícios sociais Bolsa Família e agora a Renda Emergencial, de que dinheiro nas mãos das mulheres ajuda a garantir a segurança alimentar das pessoas ao redor delas.

Toda essa questão econômica misturada com a crise sanitária tangencia um problema ainda mais grave: a violência doméstica. Com homens e mulheres dentro de casa em um contexto que envolve frustração, perda de poder econômico, pressões de todo tipo, dificuldade de acesso aos direitos básicos, medo e, claro, a ideia ainda vigente de que mulheres são inferiores, acessórias, devem obediência ou algo que significa isso aos homens, o número de denúncias de violência doméstica — e também divórcios, que podem pontuar desentendimentos comuns e saudáveis entre parceiros, mas também o fim de relacionamentos abusivos não denunciados — aumentou no mundo todo. Inclusive no Brasil.

O isolamento social intensifica pontos muito importantes quando falamos de violência familiar. Entre eles, merece destaque o fato de que relacionamentos já violentos, com essa proximidade forçada, podem se tornar ainda piores. Até porque a dificuldade de acesso aos serviços básicos de denúncia e atendimento pode ser encarada pelo agressor como uma possibilidade ainda maior de impunidade. A mulher, nessa situação, passa a viver numa espécie de cárcere privado com o seu agressor, o que pode dar um ritmo mais intenso ao ciclo da violência, bem em um momento em que o grupo de apoio dessa mulher não pode sequer perceber facilmente que algo está acontecendo. A vítima perde muito com essa falta de acesso ao mundo exterior: ela encontra obstáculos na hora de denunciar, se sente ainda mais solitária na situação, passa a considerar que não há para onde fugir e, muitas vezes, teme se afastar do lar, mesmo que por pouco tempo, e deixar o algoz junto com os filhos. O isolamento é um obstáculo para o pedido de ajuda. Especialmente quando o seu agressor mora com você.

O que antes separava a mulher da denúncia e a colocava numa situação de silêncio, aumentando a subnotificação, agora existe com um intensificador que envolve um isolamento que muitas vezes pode ser alienador. Nesse contexto, seria muito importante campanhas com a velha pegada do “em briga de marido e mulher, a gente mete a colher” para estimular vizinhos, amigos e familiares a denunciarem, caso suspeitassem de algo. Fora a criação de facilitadores de denúncia em ambientes como padarias, supermercados e até hospitais, como a França fez de acordo com essa matéria.*

O sofrimento das vítimas de violência doméstica não pode ser tratado como invisível, ainda que agora seja mais difícil perceber, por causa das paredes e das portas e janelas fechadas. Essa questão precisa ser encarada de frente. Só que com ou sem pandemia, o Brasil vive um momento em que questões como a violência contra a mulher são tratadas como sintomas de uma suposta degradação moral feminina ou até masculina. A agenda conservadora muitas vezes fala da violência dentro de relacionamentos como uma questão que surge por culpa da mulher ou simplesmente a simplifica, de maneira tola, e pega o que pode ser um desencadeador, como a frustração da perda financeira e o álcool, e coloca como culpados isolados, ignorando o vínculo desse tipo de agressão com o machismo e a misoginia.

A sensação é que o Estado parece ignorar que a situação atual, por ser diferente, precisa de respostas diferentes. Sendo que mesmo na antiga normalidade todo o sistema de proteção das mulheres era frágil demais. Serviços como o do aborto legal, que no Brasil existe voltado para casos de estupro, feto anencéfalo e risco de morte para gestante, sofreram tentativas de pausas em vários hospitais, sendo que nem os estupros e nem as gravidezes decorrentes deles pararam. Também nesse sentido, vale a pena refletir sobre a violência sexual e a possibilidade de aumento da subnotificação e piora ao acesso aos serviços de apoio e denúncia. Estupros maritais, que são parte da violência doméstica, podem ter crescido e o possível acesso facilitado pelo isolamento aos corpos de crianças e adolescentes que vivem com algum abusador é um fator importante a ser lembrado, principalmente porque a escola muitas vezes funciona como um local de possível amparo para muitas vítimas e agora esse contato, antes essencial, se acontece, é via computador e perto do possível agressor.

Os números atuais apontam para uma diminuição considerável de crimes relacionados com a ideia de segurança pública e um aumento daqueles crimes que estão centrados no lar, esse lugar, que apesar de ainda ser visto como um reino feminino, é também onde homens exercem seu poder, muitas vezes por meio da violência e do autoritarismo. Violência que também é voltada contra filhos, idosos e animais domésticos e que também reproduz lógicas como homofobia, lesbofobia e capacitismo.

A pandemia, apesar de ter mostrado a face solidária de muitas pessoas que hoje organizam ações diretas contra a fome e outras questões, infelizmente parece ter sido um catalisador das desigualdades já existentes. Um jovem negro, usando a máscara de pano na face, obrigatória em vários municípios brasileiros, teme levar um tiro da polícia, porque o racismo não tem pausa. Uma mulher, em total isolamento social, teme agora se contaminar e ver toda sua família doente, porque seu marido, seu pai ou seu irmão, seguem desrespeitando as regras de isolamento ainda que possam ficar em casa. Como comumente responsáveis pelo cuidado, a preocupação costuma ser maior entre as mulheres. E a frustração, tão desencadeadora de violência masculina, tende a ser mais perigosa para elas por ter tanta força e significado entre os homens.

Ao falar de pandemia e feminismo, especialmente quando temos Bolsonaro e Trump no poder, tudo que se relaciona com o poder masculino e sua relação com autoritarismo, negativa de fragilidade e negligência de cuidados parece ganhar destaque. Essa é masculinidade hegemônica, que ainda é colocada como admirada, e, infelizmente, imitada. É pela força, grosseria, indiferença, e completa falta de empatia que muitos homens se reafirmam como homens. E a casa parece ser o espaço mais acessível para muitos dos caras que ainda enxergam o mundo como deles se manifestarem e se validarem assim.

Até na negação da pandemia, há uma questão de gênero. Muitos homens se colocam como intocáveis até mesmo ao vírus. Muitos homens são incapazes de cuidar dos outros e de si mesmos e se negam a admitir que um vírus pode derrubá-los. Como se isso fosse uma manifestação de fraqueza impossível de caber nessa figura do macho que eles cultuam para si e para os outros. Pedir que eles ajam com cautela, higiene e sigam recomendações de saúde para proteger a coletividade é muito difícil, porque eles se consideram acima dela. Afinal, é isso que a masculinidade branca hegemônica ensina.

A antiga normalidade já é passado. O que vivemos agora é diferente e as políticas públicas e nossas discussões precisam levar isso em conta, até porque tudo indica que o mundo de antes não mais voltará, e agora é hora de trabalharmos o combate da desigualdade a fim de criar uma nova perspectiva. Uma perspectiva que não quer se acostumar em jogar esses problemas para debaixo do tapete só porque eles parecem menos visíveis agora. Uma perspectiva que cuida de quem cuida.

  • Nessa matéria, há uma lista de ações, virtuais ou presenciais, que têm ajudado mulheres em situação de violência doméstica. Se esse é o seu caso, saiba que uma vida sem violência é possível e conheça mais sobre essas políticas públicas, grupos de apoio e aplicativos de denúncia a partir do link.
  • Pessoalmente podemos amparar mulheres em relacionamento abusivo discorrendo sobre o assunto publicamente e de maneira geral e responsável para que essas mulheres, enquanto grupo, saibam que não estão sozinhas e que é possível viver uma vida sem violência. No caso de você conhecer uma possível vítima, ofereça de forma respeitosa apoio e atenção, ainda que virtualmente ou pelo telefone. Lembrando, sempre, que é preciso ter cuidado para não fazer com que a vítima se sinta envergonhada ou culpada pela situação. Mais dicas nessa thread da Anis Bioética.
  • Como já dizia Simone de Beauvoir, segundo relatos de feministas francesas e entrevista a Claudine Monteil em 1974, basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Agora temos a certeza que as crises sanitárias também entram nesse balaio. Segundo a Folha de São Paulo, no retorno à nova normalidade na Itália, organizações de pais e grupos de mulheres criticaram a ausência de alternativas para viabilizar a volta ao trabalho. Nesta semana (do dia 04/05), 75% dos que voltam a trabalhar são homens segundo um estudo com dados do Istat, evidenciando os impactos da economia do cuidado na vida das mulheres. Os homens voltam ao trabalho e as mulheres são obrigadas a ficar em casa para continuar fazendo o trabalho reprodutivo que segue invisível. Esse trabalho que encerra as mulheres em suas casas, não tem remuneração, nem valorização real e que tem tudo a ver com os papéis atribuídos aos gêneros.

Uma versão melhor desenvolvida desse texto saiu no livro “Pandemia e crises: percepções jurídicas e sociais”. Interessou? Acesse aqui.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Os homens explicam tudo até para Rebecca Solnit

Acervo pessoal — Foto do livro “Os homens explicam tudo para mim” da Rebecca Solnit. Adquira seu exemplar aqui.

Rebecca Solnit é jornalista, escritora e historiadora. Autora de mais de vinte livros sobre temas como política, arte, feminismo e outras questões sociais, ela é conhecida também por ter inspirado a criação do termo mansplaining através de seu ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que se tornou viral.

Numa festa com uma amiga, o dono da casa começa a puxar papo e pergunta sobre os livros dela. Ela comenta sobre o tema do mais recente e o homem a interrompe dizendo algo como “Já ouviu falar sobre aquele livro muito importante sobre isso que saiu esse ano?” e dispara a discorrer sobre e afirmar que ela deveria lê-lo. O famigerado livro citado era o dela. A amiga da escritora precisou dizer umas quatro vezes que a autoria da obra que ele tanto falava era de Solnit para ele, enfim, parar.

A escritora destaca que o tom usado pelo homem foi o mesmo que as pessoas costumam usar para falar com uma criança de sete anos sobre alguma aula que ela faz. Ao ler esse trecho, fiquei pensando que talvez a gente devesse começar a não usar esse tom nem com as crianças. Dá para incentivá-las sem tratá-las como bobas, não é?

Desse episódio, narrado com humor, ela inicia suas reflexões sobre silenciamento, apagamento e descrédito das mulheres. Em poucas páginas, ela expõe o quanto o silenciamento é parte de um todo feito de abusos de poder cometidos contra mulheres. Os homens que explicam tudo para nós fazem isso por nos verem como esponjas ansiosas para aprenderem com eles, porque a cultura patriarcal nos coloca nesse lugar e eles seguem encarando esse lugar como naturalmente feminino.

O ensaio seguinte, “A guerra mais longa”, fala da violência masculina de uma forma mais direta, e expõe que o assassinato de mulheres é uma questão autoritária, de controle. Notícias são citadas, estatísticas também. Esse texto é um retrato de uma realidade que muitos se negam a ver. O texto mais forte de todo o livro.

As reflexões continuam, os assuntos variam, a data dos ensaios também, mas é interessante como o livro todo se conecta, apesar da ausência de algumas temáticas essenciais infelizmente não trabalhadas na obra. A situação de mansplaining narrada por ela faz parte da teia que compõe a opressão feminina, que inclui atos como o desaparecimento dos nomes das mulheres nas árvores genealógicas, credibilidade das vítimas, estupro e assassinato. Assuntos também lembrados no livro.

“A caixa de Pandora e a polícia voluntária” é o título que finaliza a obra. Nele, lemos sobre os desafios que ainda permanecem e os caminhos que o feminismo está criando para as mulheres. Caminhos esses que se ramificaram tanto que parece impossível pará-los. As mudanças estão em trânsito, apesar dos pesares.

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Onde estão as mulheres em nossas referências?

Arquivo Pessoal — foto do livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” — Adquira seu exemplar aqui.

Quantas mulheres nomeiam ruas, parques, avenidas, praças e viadutos na sua cidade? Quantos desses nomes você consegue lembrar sem esforço?

Moro em Belo Horizonte há alguns anos e consegui pensar na Avenida Tereza Cristina, na rua Stela de Souza, no viaduto Henriqueta Lisboa e em bairros com nomes de mulheres da religião, como Santa Tereza e Santa Efigênia. Todos os primeiros nomes que vieram na minha mente eram masculinos, como Afonso Pena, Bias Fortes, Augusto de Lima, Cristiano Machado, Silviano Brandão e Raul Soares. Só depois me lembrei dos bairros Jaqueline, Maria Helena e Juliana.

A dificuldade que tive de lembrar nomes de mulheres ao pensar na ruas, avenidas e viadutos da minha cidade não se deu por eu conhecer pouco daqui ou por mero esquecimento, aconteceu porque elas são minoria. Apenas 16% das ruas da cidade de São Paulo têm nomes de mulheres. Uma pesquisa feita na Espanha em 2007 apontou que apenas 5% das ruas de lá tinham nomes femininos. Já na França, um levantamento feito pelo grupo feminista “Osez le Féminisme!” apontou que apenas 2,6% das ruas parisienses homenageavam mulheres notáveis.

A matéria “Nomes de rua dizem mais sobre o Brasil que você pensa” do Nexo afirma que nas rodovias, um tipo de logradouro que exige bem mais investimento, os nomes masculinos dominam com 98% e que ao analisar os trinta nomes femininos de ruas mais populares do Brasil, somente quatro não eram de religiosas. Já entre os trinta nomes populares masculinos, dezesseis não faziam referência à religião.

Os nomes dos logradouros são uma amostra do apagamento das mulheres como referências, das relações de poder e das forças envolvidas nas decisões políticas. Além da ausência de mulheres e pessoas negras, no geral, vemos também a manutenção de nomes de bandeirantes, que dizimaram indígenas, e de torturadores e ditadores.

Os nomes presentes no espaço público são, em peso, masculinos. Percebe-se como eles são escolhidos de acordo com uma narrativa que privilegia a elite, composta principalmente por homens brancos, e seus ideais da época. Santas, mães e esposas são bem presentes entre as poucas homenageadas por representarem o ideal de mulher que eles apoiam, essa mulher que praticamente só se pode ser branca. Nossas referências não são necessariamente nomes de ruas, mas elas são parte de um todo machista, racista e elitista. Um todo que nos influencia. Afinal, quem são as nossas referências?

Gandhi, Nelson Mandela, John Lennon, Einstein, Tiradentes, Che Guevara, Jesus, Marx, Zumbi e diversos outros nomes masculinos são lembrados toda vez que fazem essa pergunta. Quando lembram de mulheres, falam a maioria das vezes de santas, mães e avós. As nossas referências podem não ser as mesmas dos nomes das ruas, mas ainda reproduzem a mesma lógica de que o espaço público é deles.

A maioria das pessoas cresce sem pensar que a ausência de nomes de mulheres na história é fruto da falta de oportunidades dadas a elas e da invisibilidade dada pela história aos seus feitos. Apesar do machismo — e o racismo e as questões de classe — terem negado educação e acesso para tantas, ainda assim muitas conseguiram ser escritoras, artistas, cientistas, fazer descobertas e lutar por melhorias. Principalmente no século XIX e XX, mas não só.

Conhecer e divulgar nomes de mulheres que fizeram parte da história, mas que são constantemente esquecidas, é importante porque as crianças que crescem sem essas referências acabam acreditando que o papel da mulher é o de subalterna, especialmente no caso de mulheres racialmente oprimidas que continuam sendo referenciadas na nossa cultura dessa maneira mesmo quando se passa a discutir temas como mulheres nos negócios com mais frequência. Que mulheres são essas englobadas por esse termo, né? Isso prejudica a autoestima das meninas e faz ambos os gêneros acreditarem que elas são menos capazes que eles.

Se os nomes que as crianças conhecem como inteligentes, marcantes, desbravadores e criadores são só de homens, as meninas nunca acharão que são boas o suficiente, enquanto os meninos seguirão acreditando que eles podem chegar lá. Se elas recebem menos estímulos que meninos para conhecerem coisas novas e para determinadas áreas, elas são afastadas dessas possibilidades.

Uma pesquisa, publicada na Science, afirma que meninas, a partir dos seis anos, têm dificuldade de acreditar que são brilhantes, apesar de achar isso dos meninos. Outra pesquisa apresenta a informação de que professores dão notas melhores para meninas se eles não sabem que elas são meninas. Ambos estudos mostram como os estereótipos de gênero influenciam na vida e na autoestima delas. Lembrando aqui que há pesquisas que mostram que estereótipos de raça também afetam a maneira que os professores olham para crianças: Crianças negras são mais vistas como “bravas” do que crianças brancas e esse estereótipo atinge mais meninas negras que meninos negros.

Já na infância encontramos obstáculos específicos do nosso gênero e somos, desde muito novas, ensinadas a duvidar de nós mesmas. Uma dúvida que carrega em seu cerne o medo de falhar e acabar servindo como uma prova de que nosso gênero não é bom em algo.

Com a internet e tantas mulheres falando sobre representatividade, autoestima e machismo, surgiu uma necessidade e curiosidade coletiva por conhecer mais histórias de mulheres. As italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo perceberam isso e reuniram no livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” uma centena de nomes admiráveis de diversas áreas de atuação.

A obra foi idealizada por elas, mas só virou realidade por causa de uma campanha de financiamento coletivo. “Histórias de ninar para garotas rebeldes” foi o livro que arrecadou o maior valor na história do financiamento coletivo e contou com apoiadores de mais de 70 países. Esse recorde mostra que as pessoas têm percebido a importância de tirar a cortina da invisibilidade da história das mulheres e que muitos sentem falta de conhecer mulheres incríveis. O que é incrível, mas também nos faz pensar em como essa pauta pode ser facilmente capturada pelo capitalismo e por grupos com interesses antifeministas, principalmente a partir das escolhas de homenageadas.

Rainhas, atletas, cientistas, ativistas, escritoras, artistas e até piratas e espiãs recheiam as páginas da obra. Cada nome tem sua história e feitos contada começando com um “era uma vez”, num tom que aproxima o público infantil. Além dos textos, há também a participação de ilustradoras de diversos países.

Um livro encantador que, na minha opinião, peca no título. As histórias contidas nele servem para ninar crianças rebeldes, não só meninas. Sei que meninas são as maiores interessadas numa obra que fortalece a autoestima delas e também imagino que a intenção das autoras é que a obra seja para todas as crianças. Acredito, inclusive, até que há muitos meninos tendo contato com o livro por iniciativa de seus pais, porém, um título como esse reforça a ideia de que há coisas para meninas e coisas para meninos e que conhecer a história de mulheres notáveis não é algo importante para eles, sendo que é essencial que eles também tenham referências femininas para crescerem vendo mulheres como iguais.


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Descobrindo vozes

Daniela Vaz

Lady Francisco, atriz de 82 anos, já havia relatado no passado que sofreu dois estupros em sua vida e recentemente falou mais sobre. Disse que foi estuprada por um diretor da TV Globo há cerca de 50 anos e ao ser perguntada sobre o porquê de não ter denunciado respondeu: “Naquela época? Quem acreditaria em mim? Iam dizer: “Essa aí, mal chegou e já está aprontando”. Mas hoje eu faria um escândalo”.

Ela comentou também que admira o quanto mulheres tem lutado contra a violência sexual: “Tenho muito orgulho de ver o quanto a mulher evoluiu na defesa da própria dignidade. No meu tempo, a gente era estuprada e tinha de ficar quieta; hoje, um assédio repercute de tal maneira que o agressor tem de reconhecer publicamente”.

Apesar dos números de violência contra a mulher continuarem altíssimos, do machismo ser a nossa realidade e da culpabilização das vítimas de violência de gênero ainda guiar maior parte da sociedade, as coisas estão mudando lentamente. A fala de Lady Francisco evidencia isso.

O discurso do “não é não” está na boca das mulheres, juntas estamos aprendendo que a culpa da violência que sofremos não é nossa e vendo que apesar de muitos continuarem nos culpando, há quem nos apoie. Estamos assimilando que é preciso apoiar umas às outras e somando nossas vozes na hora de denunciar a violência sistêmica que nos acomete.

Quando uma mulher faz uma denúncia, bota a boca no trombone, outras mulheres se sentem encorajadas a também denunciar, falar sobre, quebrar o silêncio. Nossas histórias estão, enfim, saindo debaixo do tapete. E esses relatos nos ajudam a compreender que o machismo é estrutural e que é preciso combatê-lo em todas as esferas. Essa tomada de consciência é o que nos faz perceber a importância de colocar em prática a frase “Mexeu com uma, mexeu com todas”.


Publicado originalmente em minha página do Facebook.

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10 dicas para um bom carnaval

Imagem da campanha #CarnavalSemAssédio.

1 — Se hidrate e vista roupas e calçados confortáveis.

2 — Mulheres vão para a folia por diversos motivos. Algumas querem ficar com pessoas, outras querem só dançar, algumas vão só para beber, outras vão pelas fantasias. A mulher estar ali não quer dizer que ela quer ficar com alguém e muito menos que esse alguém tem que ser você. Afinal, querer dar uns pegas não é querer dar uns pegas em qualquer um.

3 — A fantasia da moça é curta? Isso não quer dizer nada! O shortinho dela não é um convite e ela não merece menos respeito que ninguém por causa dele.

4 — Viu dois homens ficando? Viu duas mulheres se beijando? Respeite! E respeitar inclui não insistir para participar ou ficar encarando, viu? Deixe as minas em paz, a sexualidade delas não existe para seu entretenimento.

5 — Se interessou por alguém? Quer chegar mais? Troque olhares, flerte, converse, seja criativo. Puxão de cabelo e de braço não tem vez! E, lembre-se, beijo forçado, mão na bunda e afins não só te faz um babaca, te faz também um criminoso.

6 — Na hora de chegar mais, saiba que o não é sempre uma possibilidade e o respeite. Insistir não é respeitar, beleza?

7 — Não tem essa de “vou embebedar a mina pra ver se ela dá mais fácil”, viu? Se a pessoa está embriagada demais para consentir é estupro de vulnerável. Cu de bêbado tem dono sim!

8 — A pessoa topou? Aproveite, mas lembre-se que todo mundo pode mudar de ideia no meio do caminho, inclusive você. O “não” tem validade mesmo depois de um “sim”.

9 — Use camisinha, proteja-se.

10 — Lembre-se de que fantasiar-se de estereótipos de grupos oprimidos não é algo legal e nem engraçado, é ofensivo. Deixe o que você chama de “fantasia de nega maluca” em casa.


Texto meu originalmente publicado no Ativismo de Sofá em apoio à campanha #CarnavalSemAssédio.

O caso do homem explicador

Ilustração minha.

Tirei a chave da ignição, peguei a bolsa no banco ao lado, abri a porta e desci. Andei uns dois metros e vi que um homem me olhava fixamente e andava em minha direção. Imediatamente comecei a pensar em tudo que eu poderia fazer caso ele chegasse mais perto e me planejei tendo em mente o que eu via: um homem que andava com pouca firmeza e com duas mãos livres. Não foi preciso de tempo para me preparar, já que os planos de fuga brotam junto com o medo toda vez que uma mulher se depara sozinha com um homem numa rua deserta.

Segui meu caminho e alguns passos depois, ele estava bem próximo e eu sabia que era naquele momento que ia acontecer algo, caso essa fosse a intenção do homem. E era. Ele passava ao meu lado quando me abordou colocando a mão em meus ombros como se ele fosse me abraçar. Naquela hora, eu fiz tudo que arquitetei ao olhar pra ele dois minutos antes: me desvencilhei e o empurrei para fora da calçada, enquanto gritava “TIRA A MÃO DE MIM, VOCÊ NÃO ME CONHECE”, corria olhando para trás pra ver se ele estava ao meu encalço e mostrava de forma ameaçadora minha chave e repetia o meu jargão.

Vi o homem se levantar e correr para a direção contrária. O alívio ainda ia demorar a chegar. Sentia medo e tentava racionalizar se ele ia me roubar ou se ele ia me agredir sexualmente. Não sabia, não tinha como saber. Minha única certeza era que ele tinha me abordado e eu tinha conseguido me livrar, ao menos temporariamente. Temia, mas também me sentia uma pequena heroína, afinal, eu salvei meu dia.

Continuei andando com a chave em punho e, bem no fim da rua, um homem aleatório falou comigo “CUIDADO MOÇA!”. E eu já fui logo olhando para trás, esperando o homem anterior, pronta para lutar pela minha vida.

Não tinha nada atrás de mim, mas na frente tinha um cara que continuou a frase me informando que eu tinha sido abordada, me contando como foi e afirmando que a rua está perigosa demais, que não dá mais pra andar na rua naquele horário (incríveis e assustadores 19:50 no horário de verão).

Ele continuou falando essas coisas, enquanto eu encarava incrédula aquele espécime de homem que achou de bom tom me parar para explicar que eu, a mulher que tinha empurrado, gritado e corrido de um homem minutos antes, tinha sido abordada. Em tom de julgamento, ele finalizou seu blablabla dizendo “e ainda anda de bolsa?” e eu não consegui segurar um “pode deixar que na próxima vou guardar minhas coisas no cu”. Mais uma vez salvando o dia.


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