talvez ainda dê tempo de reiniciar

Mathew Schwartz

uma manchete sobre uma ameaça de golpe paira na tela lado a lado com segredos e dicas para:

a) comprar o melhor celular
b) investir o auxílio emergencial
c) economizar dinheiro
d) melhorar a nota no Serasa
e) se tornar um empreendedor
f) dormir bem
g) cortar carboidratos
h) emagrecer
i) se manter produtivo

não tem nada sobre ganhar dinheiro dormindo
ninguém acredita mais nisso
mas ainda tem quem creia em cloroquina cápsulas de vitamina D anitta
e em um certo Messias

no pé da página
as notícias dizem:
bilionários cada vez mais ricos
extrema pobreza em ascensão
violência doméstica também

clique aqui se você está ciente e não quer continuar


Esse poema foi selecionado para antologia antifascista da Hecatombe, selo da Urutau. Para saber mais sobre a publicação que vai vir, convido todos a acompanharem as redes sociais da editora.

Coisas para não fazer durante uma quarentena

talvez listas poéticas

Eduard Militaru — Unsplash

deixar a louça acumular

ir ao supermercado sem lista

esquecer de comprar verdura batata feijão arroz macarrão

e chocolatinho porque a vontade sempre vem

ouvir o presidente

sair de casa

lembrar da vida lá fora

esquecer da vida lá fora

deixar escapar pela janela a vontade de sonhar e ter pesadelos no lugar

se tornar planta

porque planta precisa de sol e dessa janela quase nenhuma luz entra nessa época do ano

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Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte 
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles 
tenta 
fazer desaparecer
a presença
de quem 
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras 
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto por balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança 
é o alvo


#MariellePresente — 15/03/2018, poema escrito um dia após a brutal execução de Marielle Franco, vereadora do PSOL e militante de direitos humanos com foco no combate do genocídio da população negra e contra abusos estatais, e do motorista Anderson Pedro Gomes.

Origamis de utopia

Imagem retirada da matéria “Barco de papel gigante é criado para transportar pessoas em um lado na Inglaterra”

Depois de tudo
sigo como se fosse em linha reta
mas a estrada parece a da serra de Ubatuba
1ª marcha
e freio
para sobreviver
no passar das curvas

Seguimos atrás de uma promessa
tão bonita
dessas construídas no papel
como um origami de palavras
cheia de dobras
de vírgulas
de praias paradisíacas

Escrevo, recorto
dobro a folha
e crio um barquinho
Ele segue nas águas
se encharca
até naufragar
O papel se foi
mas o que foi escrito ainda não

Tsuru ou avião
só existem se uma mão
dobrar, dobrar e dobrar
Diz a lenda que é preciso mil tsurus
para conseguir ter um desejo atendido
Quero mil pessoas
fazendo mil tsurus
porque almejam a mesmíssima coisa
viver o sonho fantástico
do justo, do belo, do igualitário

Sonhar é meu trabalho
não remunerado


Esse poema foi feito por causa do Desafio do Editor proposto pela Revista Subjetiva. Fui uma das autoras desafiadas a escrever sobre utopia em forma de poema, tendo as palavras “distopia”, “realidade” e futuro” como opcionais.


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Tomate

Ilustração minha. Descrição: vários tomates feitos de canetinha soltos pela página.

Não sou suave, sou pesada e mais densa que a água.

Nas profundezas, eu habito. Aqui rio, canto, choro, vivo, amo e morro, enquanto mergulho num líquido que mais parece um molho.

Viajo no escuro, entre o medo e a coragem e sentindo gosto de tomate.


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