Aqui na rua tem um ipê amarelo conhecido por ser atrasado em sua floração. Ele, além de tudo, é miúdo em relação a todos os outros. Eu não entendo nada de botânica, mas como uma pessoa adulta menor do que todas as outras, eu não consigo olhar para ele sem pensar que é uma sacanagem tremenda supor que ele é como é simplesmente porque ainda não se desenvolveu por completo ou tem algum problema.
A gente fala, fala e fala em respeitar as diferenças, vive argumentando que cada um de nós funciona de um jeito, mas quando a gente se depara com um ipê pequenininho e atrasado em relação aos seus colegas tão vistosos e já floridos, a gente ainda tende a supor que ele, que não se encaixa na trajetória linear ou mais correta segundo sei lá quem, só não se encontrou ainda. Ou teve uma infância difícil demais e cheia de traumas. Ou qualquer outra coisa que no fim das contas será usada para diminui-lo de maneira condescendente.
As pessoas sempre querem um porquê. Quase como se fosse um atestado que você leva para o trabalho para justificar que não deu para você chegar na hora como todos os outros. As pessoas não podem ver o diferente e simplesmente pensar “ok”. Elas sempre vão querer uma justificativa para aquilo, de preferência uma justificativa que evoque um papagaio dizendo “ô coitado!”. Sem isso, o que sobra é a zombaria direta e irrestrita.
Uma vez me perguntaram se eu passei fome na infância e por isso acabei tão pequena. Foi estranho. Ser toda inha, inclusive branquinha, sempre me fez ser colocada como bibelô, o que é inevitavelmente uma coisa meio patricinha. Dessa vez foi diferente. Muito pior. E olha que eu tenho um trauma não superado de ser vista como bonequinha. A pessoa ao me olhar pensou que somente a desnutrição justificaria a minha existência em paz, que eu precisava de ter um background de sofrimento para me tornar factível como personagem. O paternalismo de sempre se mostrou uma piedade feia, essa que alguns cristãos adoram sentir pelos outros quando dizem que vão ajudar alguém. A mesma piedade feia que eu vejo quando as pessoas olham para o ipê amarelo da esquina da minha casa e diz mesmo sem ser em voz alta algo como: “coitado, ele não é como todos os outros”.
Estamos em julho agora e a floração dos ipês já começou. Ao menos entre os adiantados. Eles, os ipês amarelos melhores da classe, já estão entre nós. Eles, os ipês capa da Vogue, já enfeitam as ruas. Eles, os ipês geniais, já estão sendo fotografados por quem passa com máscara na cara — ou no queixo — perto deles. Já os ipês de floração em agosto e setembro seguem seus processos ainda carregados de estigmas somados a pressão de, quando florescerem, florescerem bem. Todos os ipês vão ficar floridos por mais ou menos quinze dias, independente de quando começarem, mas não importa, porque até entre os ipês se impôs uma corrida de produtividade, modelo, status e essas coisas todas.
Todo mundo quer florescer primeiro. Todo mundo quer florescer melhor. E alguém ainda vai dizer que pensar assim é o mindset do sucesso. E quem, por qualquer motivo que seja, demora mais ou, quando floresce, não floresce tão bonito, se torna um fracassado que precisa apresentar justificativas até para si mesmo por não ser como o primo bonito, concursado e com a vida e família pronta. Sendo a melhor justificativa sempre algo que evoque dó, porque ela dá a ilusão de empatia para quem ainda quer olhar para os outros sempre de cima.
Eu ia chamar os ipês adiantados de Einstein, porque ele é o nome que todo mundo aprendeu como sinônimo de gênio, mas eu lembrei que existe um mito sobre ele na verdade ter sido um péssimo aluno, só que é um mito somente e não ia dar para tirar nenhuma lição bonita da história dele, porque não importa se o atrasado vai brilhar muito um dia, a gente tem que parar de querer cobrar que os outros sigam essa régua única que parece ter sido inventada para que a maioria sempre perca. Fora que aquele meme do “e aquela criança era ninguém mais, ninguém menos, do que Albert Einstein” estragou tudo.
Era para esse texto ser engraçadinho, mas acho que não funcionou.
Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.
Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.
Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.
Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.
Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.
Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.
Toda vez que faço compras online, eu fico muito tensa com medo de algo acontecer e eu não receber meu produto em casa. Não gosto de achar que perdi dinheiro. Nem imagino como deve ser investir na bolsa e conviver com variações diárias de perdas, mesmo que às vezes tenha ganhos. Muitos ganhos. Ganhos que provavelmente eu nunca vou ter, porque não invisto na bolsa e dinheiro para poder fazer isso com tranquilidade me parece uma ficção. Na verdade, especulação. Gostou da piada ruim? Fiz para te fazer pensar que talvez eu entenda o suficiente para ser pessimista tendo trinta anos e vivendo o capitalismo tardio. Me parece desperdício de tempo, energia e grana. Quem quer arriscar perder grana? Sei lá. Quem quer aprender ganhar dinheiro com tragédia? Todo mundo? Me parece errado correr esses riscos, financeiros e morais.
Mesmo nos meus dias mais loucos, eu devo ser conservadora nos meus costumes bancários. Se bem que nem tanto. Eu amo conta digital, carteiras que oferecem cashback quando você gastar e essas praticidades novas. Teve uma época que até segui o Picpay nas redes sociais e bem recentemente tentei edital cultural de banco tradicional. Na verdade, eu até sei o que é LCI, fundo de investimento e corretora. Eu já até investi dinheiro, pouco, claro, mas é porque não dá para deixar na poupança também, entende?
Eu só não gosto de achar que vou perder dinheiro. Quando faço uma compra online, eu morro de medo que o produto desapareça no mundo e eu não consiga reembolso, ou até consiga, mas só depois de tempo demais de espera e dúvida. Tem hora que o temor muda e se torna um medo de esquecer de pedir o reembolso porque passei muita raiva, troquei muito e-mail, li e ouvi mil vezes que o produto foi enviado e eles não podem se responsabilizar por mais nada além daquilo. Talvez eu me assuste com a possibilidade do tempo passar e eu esquecer para que precisava daquilo quando tocarem o interfone me avisando que minha encomenda chegou. Na verdade, eu tenho receio mesmo é de acabar apagando o e-mail que eu precisava para confirmar o número do meu pedido ou ter errado na hora de preencher o meu próprio endereço. Ou algo assim.
Eu não sou muito organizada, sabe? E nada que eu faça me impede de receber muito spam e eu já acatei que o meu destino é ter sempre uma Caixa de Entrada caótica. Eu também tenho medo de pagar o boleto. Ou pagar repetido. Inclusive já paguei uma vez e vi minha conta seguinte vir abatida depois de uma conversa tranquila com uma atendente de telemarketing com sotaque pernambucano que nem me julgou por ser tão lerda.
Nada me dá segurança numa compra online. Nada. E isso me faz me sentir meio negacionista, meio meu pai, meio como se eu me tornasse cada dia uma boomer, ou pior, uma millennial-boomer. Nada me dá mais medo do que isso, ainda que eu saiba que o tempo passa e quem nasceu no século XIX já deve estar rindo de mim usando o celular. Nem tiktok eu tenho instalado.
Semana passada sonhei que eu cortava uma franjinha curta, ficava uma bosta e estava tudo bem. Depois, eu sonhei que fazia parte de uma espécie de máfia feminina que existia para resgatar mulheres de situações perigosas decorrentes do machismo. O grupo era conhecido como Amazonas.
Nesse último sonho, eu sempre começava minhas abordagens com muita gentileza. Eu sabia que os caras iam me ignorar ou vir com grosseria ou achar que eu estava dando em cima deles e isso me daria a justificativa perfeita para eu poder aloprar como nunca. Eu lutava muito bem e estava sempre pronta para espionar, manipular situações, argumentar, dar uns murros e também amparar as mulheres que precisavam. Eu era forte, hábil e circulava na cidade com aquela postura típica de quem não tem medo e usa roupas e calçados bonitos e confortáveis.
Tenho a impressão que as pessoas sonham umas coisas super elaboradas, inteligentes, cheias de símbolos e interpretações, enquanto eu só tenho dois tipos de sonho: os completamente cotidianos ou os roteirizados pelo meu eu criança de dez anos que sempre gostou de coisas de detetive, espionagem, máfia, bicho, ação e correria, mas sempre sentiu falta de personagens mulheres fazendo todas essas coisas. Especialmente mulheres pequenas sem salto alto.
Meu inconsciente adoraria uma versão de Velozes e Furiosos só de mulheres comuns que sabem lutar. Bastaria adicionar alguma investigação, projeto ou entrega urgente e muito importante no meio na trama e pronto. Na verdade, talvez o meu inconsciente ia gostar ainda mais se adicionassem algum animal falante no meio disso tudo.
Sei que fantasia não costuma combinar muito com filmes de ação com carros, mas, essa noite, meu eu-onírico esteve envolvido em uma missão para matar dois homens ricos e violentos em um evento de ópera. O plano deu um pouco errado e quando eu acordei, talvez ainda inebriada pelo sono, eu achei a trama interessante. Capivara, Cachorro e Crocodilo, meus companheiros, não conseguiram fazer a parte deles porque dormiram no caminho provavelmente enfeitiçados. Talvez, se saísse essa história em filme, eu encontraria a explicação para esse cochilo involuntário e para a estátua de leão que ruge para alertar que estamos em casa ou chegando, ainda que estejamos a dois quarteirões do nosso QG.
Dentro de mim, há um desejo por porradaria e um gosto por lutinha, aventura, animais falantes e correria que só pode ter vindo dos anos e anos que passei vendo Dragon Ball Z, Samurai X, Sailor Moon, Sakura Card Captors e outros desenhos. Talvez eu devesse usar esses sonhos como uma fonte de histórias para escrever roteiros, contos e poemas. Talvez eu devesse entrar numa aula de defesa pessoal assim que rolasse uma oportunidade. Nem que fosse via EAD. Talvez eu devesse entender que eu só queria mesmo me sentir forte e o quanto isso se relaciona mais com um desejo de poder e segurança do que com meu corpo pequeno e frango ou minha imaginação.
Só sei que é possível que essa noite eu sonhe que comi espinafre, como Popeye, fazendo encontrar meu desejo pela força com o cotidiano que me enfeitiça apesar de tudo. Sei lá, o sabor é bom e talvez ajude com a imunidade, né?
Sabe quando você decide projetar uma bela casa no The Sims com auxílio do código Motherlode, aquele que te ajuda a ter dinheiro infinito, e descobre que sua habilidade só te permite fazer algo que se aproxima mais de um bloco estranho, meio feio e sem graça?
Você quer fazer uma mansão, pode ser clássica, pode ser gótica, pode ser pós-moderna, pode ser uma simulação tosca de algum projeto do Niemeyer — que é o único arquiteto que você conhece — pode ser qualquer coisa, porque não importa.
Se você não é um verdadeiro arquiteto de The Sims, você fará a mesma casa todas as vezes. A casa enorme, cheia de cômodos mais ou menos do mesmo tamanho, que, por mais esforço que você faça, sempre parece uma caixa feia, não uma caixa moderna, ainda que você tenha conseguido dar formato um pouco diferenciado para ela.
E quando você tenta fazer um segundo andar então? Surge um caroço, bem quadrado, nessa caixeta estranha que é o térreo. Isso depois de você passar horas tentando fazer uma escada que seu Sim, burro, seja capaz de usar. A sua casa vai ter piscina, pode também ter um lago, um ofurô, um jardim, tudo isso junto e mais um pouco, mas isso não vai mudar nada. O dinheiro infinito e ficcional não te faz adquirir uma habilidade. Sua casa nunca ficará como as outras casas do jogo. Sua casa será apenas uma caixa em que você vai colocar tudo do bom e do melhor. Seu Sim, completamente sem senso estético exatamente como eu e você, não vai se importar. A não ser que você se esqueça de colocar janelas. Eles gostam de ambientes claros e arejados. Pelo menos eles gostavam quando eu tinha um computador que me permitia jogar.
A casa, ao menos por fora, terá uma cor diferenciada. Talvez um mostarda. Algo próximo do amarelo. Você vai investir dinheiro nas portas mais caras, aquelas que às vezes dão um toque clássico ao seu bloco feio ou você vai tentar abraçar a modernidade e comprar tudo que seja simples, quase minimalista, pelo menos para quem olha de fora. E você vai passar raiva, porque seu Sim vai odiar seu banheiro, todo lindamente mobiliado com banheira de hidromassagem, pia, privada, chuveiro, tudo nível dez, porque só tem uma janelinha redonda e sem graça no cômodo. Ele vai querer mais luz e você, para agradar, vai colocar um tanto dessas janelinhas horrorosas do lado da outra no espaço que couber. E você sabe, né? Vai ficar terrível, como se você tivesse adicionado buraquinhos seguidos numa caixa de papelão colorida para seu gato brincar.
Você vai adicionar tudo que o dinheiro permitir e isso vai deixar o espaço amontoado de coisas que ficam pouco identificáveis de longe. Bem feio, sem qualquer sentido, sem qualquer distribuição pensada, mas não importa, porque o seu Sim terá tudo que o faz feliz na mão. Inclusive estantes enormes, bonitas, de madeira escura, brilhante, que lembram filmes que se passam em universidades antigas, do lado de uma geladeira de uma última geração prateada, como a modernidade deseja que seja. Como ela fez a gente imaginar que ia ser.
A verdade é que o único jeito de brincar de fazer algo bonito sem qualquer talento para construção virtual é a imaginação. Só nela nossos projetos ficam tão bem compostos, desenhados, completos e fotografáveis como a gente deseja.
Pense numa casa. Ela é ampla, tem espaço para tomar sol, tem um jardim, um lugar para fazer esportes, ela parece um hotel fazenda caríssimo. Ela tem detalhes em madeira, um toque country para combinar com o espaço verde, ela é bege ou gelo, ou alguma cor parecida com essas duas, mas que recebeu um nome muito diferente da empresa de marca de tintas. Ela tem uma porta ampla, também de madeira, madeira da mesma cor das vigas e enfeites. Tem janelas que abrem para fora, aquelas que possuem asas ou abas e se recolhem na hora de dormir, porque você tem que fechar tudo para que ninguém invada sua casa. Não há um tanto de janelas de banheiro seguidas. E mesmo as poucas que tem possuem esse toque de madeira presente em toda a casa. Você também pode mudar tudo e colocar a parede com textura, talvez até de tijolinhos. Ficaria rústico, né? E o telhado? Você colocaria uma certa assimetria nele, adicionaria chaminés e talvez um sótão. É sempre bom ter um sótão. Dá um ar mais antigo e cheio de mistério a um projeto novo e tem muita gente que liga isso à identidade. Essa casa dá para um terreno verde, com algumas pedras, árvores, tudo natural, tudo da vegetação do lugar que tem aquele toque mata atlântica. Você decide que tem que colocar piso formando caminhos entre a piscina, a churrasqueira, o chalé das visitas e a natureza que você vai querer ver mais de perto. Vai que vez ou outra aparece um tucano ou até uma arara ou um mico-leão-dourado. Você decide usar um piso que parece pedras para ligar a casa aos espaços externos. Para ficar bem natural, repito, porque é isso que você quer. Você começa a pensar em bangalôs, eles são lindos, com seus detalhes feitos de palha, tecido branco, mesinhas baixas de madeira e almofadas coloridas para sentar. Meio desconfortável isso, né? Mas muito bonito. Só que ninguém realmente gosta de sentar em lugares sem encosto. E então você começa a pensar que é um saco tudo muito natureba assim, porque não combina com a piscina. A piscina vai ter que ser aquelas naturais? Sem cloro? Com uns peixes no meio? Você vai pensar em trocar a piscina por um lago. Seu Sim vai ter que gostar de pescar, hein? Você começa a pensar que deveria fazer um negócio cheio de vidro, cor gelo, meio que sem telhado muito visível, aqueles projetos que parecem uma caixa, mas uma caixa estilosa, uma caixa que quer ser caixa e usa isso ao seu favor. Aquelas que tem dois andares, tem sacadinha, lugar para você olhar a natureza sem se aproximar muito. Desse jeito dá para colocar os móveis ultra modernos e prateados sem neurar que não combina, né? Você vai nessa, imagina, imagina, imagina e recomeça. Você faz isso eternamente até cansar e no fim nem joga The Sims. O que no meu caso é bom, porque meu computador não aguenta.
Esse texto foi feito a partir do dia 7 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia para inventar um lugar e descrevê-lo. Saiba mais sobre o desafio aqui.
Para ler enquanto toca “Free Money” da Patti Smith e depois emendar com “Money” do Pink Floyd
Cena do filme “Quem quer ser um milionário?”
Domingo era o dia de ouvir “É tele é tele é tele sena… eu vou… ganhar/na Tele Sena!” e ver a minha avó sonhar e comentar o programa do Silvio Santos inteirinho enquanto esperava para saber se era ou não dessa vez que ela ganharia um prêmio. Ou de pensar, de longe, que minha avó devia estar com a TV ligada na sua fantasia. Não me lembro se ela alguma vez ganhou alguma coisa, mínima que seja, na Tele Sena ou no jogo do bicho ou em qualquer outra loteria. Acho que eu não me ligava muito no resultado, já que ainda não entendia como a fortuna chegaria na carteira da minha avó. Eu me interessava mais pelo encantamento, pelos olhos brilhando de desejo, pela busca pela sorte. Na verdade, talvez eu era pequena demais até mesmo para entender essa ambição em ganhar dinheiro de maneira mágica, mas sei que com certeza já entendia a graça de receber presentes, mesmo as mais bobas lembrancinhas, sem esperar. A surpresa dá um gosto especial para qualquer coisa boa e eu via a Tele Sena como algo assim, ainda que hoje eu saiba que a compra do talão significava uma expectativa prévia que provavelmente nunca se concretizaria.
Tudo me parecia mais um jogo, por causa do jingle talvez. Não sei. Só sei que me lembro de pensar, a partir da ingenuidade infantil, que se fosse mesmo para ganhar dinheiro o melhor era tentar participar pessoalmente do programa para ver se pegava algum aviãozinho. Um aviãozinho de cem reais me parecia o suficiente para resolver todos os problemas da vida de uma pessoa.
O tempo passou. 25 anos após, eu sei que todo sábado, agora ligada em outra emissora, a minha avó acompanha o desejo de alguém de ganhar uma bolada. Se estou do lado dela, sei que vou ouvi-la contar sobre o porquê daquela pessoa precisar do dinheiro e então torceremos juntas para que as humilhações que o Luciano Huck ou qualquer outro apresentador preparou não sejam capazes de impedir o alcance do sonho daquele alguém.
Minha vó ama programas de auditório que possuem quadros em que os ricos apresentadores distribuem dinheiro para os pobres. Ela ama isso desde Topa Tudo por Dinheiro. Talvez ela amasse antes até. Essa é mais uma coisa que eu não sei e que não posso me esquecer de perguntar na próxima vez que a gente conversar. Quero que ela me conte todos os programas do tipo que ela acompanhou. Talvez tenha algo até da época da rádio. Quero ver a evolução do tipo. Quero ver como chegamos no Lata Velha e no Soletrando. Quero entender como eles brincam com o nosso desejo por redistribuição de renda usando prêmios como isca.
Até o momento só sei que o Luciano Huck meio que substituiu o Silvio Santos e que atualmente a minha avó deseja aquele dinheiro todo para os outros, inclusive para mim. Ela sempre insiste que eu deveria me inscrever no programa Quem quer ser um milionário?, porque segundo ela eu sou inteligente demais e seria uma das poucas a sair dos estúdios da Globo com o direito de receber a bolada máxima, aquela que é símbolo de tudo desde o Show do Milhão. Quando eu falo que não vou me inscrever, ela pede para eu convencer meu namorado de fazer isso. Ele também é inteligente, segundo ela, ele também sairia de lá milionário. Ela quer que a gente busque o direito a uma chance.
Minha vó sempre sonha comigo respondendo perguntas por grana. Isso porque nunca soube que na época do Show do Milhão eu jogava sem parar um jogo de computador que me treinou para viver esse momento. Até hoje vez ou outra ainda baixo o app para me testar. O problema é que o programa, no fim das contas, acabou me treinando para desejar acertar sempre. Ele não me ajudou a criar uma estratégia de pedir ajuda para os universitários na hora certa ou algo assim. Ele não me preparou para conseguir ganhar o prêmio máximo. Ele simplesmente me fez querer nunca errar e nunca correr o risco de errar, como se cada pergunta direcionada para mim sempre valesse um milhão de reais. Acho que aprendi a desejar algo mais impossível que um milhão de reais caindo no meu colo do nada.
A verdade é que eu jamais conseguiria participar de algo assim, ainda que não carregasse as minhas expectativas junto com as da minha avó. O Luciano Huck pergunta coisas demais e eu não gosto de ser inquerida sobre questões pessoais. Vai que eu respondo errado até nessa hora. Vai que eu mostro para o Brasil inteiro, inclusive para minha avó, que além de não saber responder questões sobre música sertaneja e pagar de inteligente, mas esquecer ou nunca ter sabido a capital de Azerbaijão, eu sequer sei como viver. Ou pior, eu sequer sei desejar um milhão de reais na minha conta da maneira correta.
Querer um milhão de reais caindo na sua conta do nada todo mundo quer, mas buscar a sorte em um programa de TV é outra história. É intimidador demais tentar, é expor a possibilidade do erro para todo mundo, é vender sua exposição e seu desejo para uma audiência por uma mera chance. Eu sei disso desde um episódio que vi do Show do Milhão em que um cara errou uma pergunta sobre a dupla ET & Rodolfo, dupla do momento, e virou chacota entre as crianças que eu conhecia. E agora sei disso ainda mais, sei tanto que nunca mais consegui ver The wall direito com minha avó. É sempre muita humilhação ou possibilidade de. É sempre nossa vida, nosso desejo, nosso sonho, a resolução de todos os nossos problemas, como um entretenimento que enriquece alguém muito mais do que vai nos locupletar. Eles ganham muita grana com a gente torcendo para que as bolas que fazem perder recursos caiam nas casas de menos de mil reais e assim o jogador perca menos, sendo que poderia não ter isso. Ele poderia não perder nada. Por que não manter só a possibilidade de ganhar?
Me perdoe, vó. Eu acho que prefiro deixar para tentar a Megasena na próxima vez que ela acumular e curtir agora sua companhia vendo uma partida de vôlei com você. É melhor sonhar com um milhão de reais ou mais sem a minha cara parar na TV. É melhor sintonizar numa partida esportiva com regras mais justas.
Esse texto foi feito a partir do dia 6 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia um miniconto escrito a partir de uma música e eu, como rebelde que sou, fiz uma crônica a partir de duas músicas e algumas memórias. Saiba mais sobre o desafio aqui.
Esses dias me deu uma vontade enorme de comer filé ao molho gorgonzola. Quando aconteceu, eu estava passando os olhos no feed e nos stories do Instagram, mas ao contrário do que você imaginou ao ler a frase anterior não foi uma foto marcada com a hashtag #pornfood que me fez salivar. Foi outra coisa.
Eu estava no ônibus, em mais uma das minhas viagens bairro-centro cotidianas, felizmente sentada dessa vez e, bem na minha frente, dois homens conversavam empolgadamente sobre onde iam almoçar assim que desse o horário. Eu não sei exatamente o que eles faziam da vida, o que conversavam anteriormente, se eram amigos ou somente colegas de trabalho voltando para firma depois de uma visita técnica ou algo assim, eu só sei que comecei a prestar atenção no bate-papo deles porque a forma que os dois descreviam comida era única. Tinha mais prazer nas palavras desses homens do que em qualquer “hmmmmmm” já emitido pela Ana Maria Braga ou comentário feito por jurado do Top Chef ou qualquer outro programa semelhante.
A dupla falou sobre escondidinhos de carne seca, parmegianas, lasanhas, molhos de alho, o famoso arroz e feijão, as boas tilápias da região e juntos elegeram o melhor prato executivo de BH. Quando eu achei que o assunto ia finalmente morrer e algum deles ia começar a falar de novela ou futebol, um virou para o outro, como se confessasse algo que somente o outro fosse capaz de compreender, e falou: “não tem jeito, cara, todo resto é bom, mas eu quero mesmo é filé ao molho gorgonzola”.
Dessa hora, até o meu ponto chegar, eles descreveram com prazer o prato de cada um dos restaurantes que eles experimentaram juntos e separados. Dando notas, inclusive. Cremosidade, maciez da carne, precisão no sabor da gorgonzola e preço foram as principais categorias. Tudo ia muito bem. Eu, além de entretida com as salivantes descrições, anotava nomes, endereços e referências dos eleitos como preferidos no celular, até que vi a simples frase “filé filé não era, mas…” criar discórdia. E que discórdia. O assunto e talvez até mesmo a amizade daqueles homens ficou por um fio. Mas, no fim, eles encontraram concordância de novo quando o mais resistente na briga assumiu que nunca pensou que um dia ia gostar tanto de algo que tem como ingrediente principal pedaços de queijo mofado.
Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do primeiro dia era escrever uma crônica sobre um tema banal e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ouno Medium, participe e se divirta.
“I always want to be dangerous” disse a moça do Fleabag numa capa da Vogue. Ainda não vi Fleabag, preciso confessar, mas juro que está na minha lista desde que fui avisada que é uma série curta e que eu vou me apaixonar pela atriz que é também um tanto de coisa relacionada ao mundo da criação, da escrita e tudo mais. A revista não está aqui comigo, não, não. Nenhuma sala de espera tem revista super atual assim, imagina se uma repartição de prédio público que está sofrendo cortes e ataques do governo para cavar uma privatização vai ter?
Pois é. Tá foda, né? Vigora nesse país uma lógica tão nefasta que não há energia que dê conta de se manter tempo o suficiente em um corpo sem se dissipar em uma ação automática, como uma reclamação, um lanche ou um meme. A sensação é que estamos em processo de zumbificação. Eu, pelo menos, estou.
Fomos domados. Agimos de forma previsível e quase adestrada e é por isso que a frase da moça do Fleabag ecoa na minha mente sem parar desde que a li. Eu sempre quis ser perigosa. Muito mais do que uma femme fatale, já que todo o perigo que elas apresentam segue uma lógica que é cruel com as mulheres e serve, no fim das contas, para alimentar fantasias masculinas de controle, dominação e narcisismo. Eu queria ser perigosa mesmo. Inflamável, tempestiva, ousada, imprevisível, mercurial e, principalmente, forte o suficiente para garantir que nenhuma dessas características e comportamentos me prejudicasse. Queria poder ser desagradável, eu acho. Poder fazer coisas comuns sem pintar um sorriso no rosto, ainda que falso, e responder daquele jeito quem me tratasse de maneira paternalista ou me assediasse. É isso. Queria poder reagir ao que é sutil, mas ainda assim mexe com minhas estruturas e afeta como eu me vejo e vejo as mulheres ao meu redor. E não só elas. Queria também reagir ao que é óbvio, mas que é perigoso demais. Como quebrar um banco ou bater de frente com juízes que defendem somente seus próprios interesses. Eu queria tanta coisa e todas elas se relacionam com enfrentar um poder sem medo. Então, o que eu queria mesmo era ter menos medo. De desagradar, de me machucar, de destruir, de descobrir que algo pode ser diferente e construir qualquer coisa a partir desse impulso.
Eu queria ser perigosa, moça do Fleabag, porque eu queria conseguir me proteger desse mundo que nos engole mesmo sem a gente perceber. Eu queria ser perigosa, porque fantasio com o dia que eu não serei mais tão covarde. Eu queria ser perigosa para não ser presa, fácil ou não.
Talvez a zumbificação esteja em mim e em nós e em todos há muito mais tempo do que a gente imagina. Talvez a gente precise descobrir o perigo que mora nessas nossas feridas feias que nunca cicatrizam. Talvez eu esteja chorando no banheiro. Talvez eu esteja com receio de chamarem o meu número enquanto seco as lágrimas disfarçadamente numa cabine apertada com cheiro de xixi velho misturado com desinfetante de lavanda. Isso tudo porque chorar em público é visto como uma espécie de perda da dignidade e eu quero evitar que pensem que perdi a minha agora. Eu perdi faz tempo. Provavelmente quando não fiz muita coisa para tentar barrar a Reforma Trabalhista. Ou foi a da Previdência? A decadência humana, na verdade, é não chorar, sentir, agir quando a gente sente esse impulso vital, constantemente sufocado, mas que ainda assim continua a chamar, a chamar, a chamar…
Esse texto foi originalmente publicado na terceira edição da minha newsletter. Se você gostou e agora quer receber meus envios diretamente na sua caixa de entrada, assine aqui e não se esqueça de confirmar pelo e-mail.
46 pessoas idosas atearam fogo em si mesmas com intenção de morrer em frente aos prédios públicos mais famosos de suas cidades somente nesse ano, dizem os jornais e as correntes nas redes sociais. A mídia só começou a divulgar depois que os números atingiram a terceira dezena. Antes disso acreditava-se que o melhor era omitir o que acontecia para não inspirar novos casos. Enquanto isso, a boataria circulava nas redes sociais desde a primeira ocorrência.
Tem quem acredite que esses atos são uma espécie de terrorismo, outros já acham que eles estão mais próximos de uma performance que conta com suicídios públicos e tem a finalidade de denunciar as condições físicas, psicológicas e financeiras de uma parcela da população, mas nenhum especialista sério teve coragem de cravar como verdade qualquer hipótese levantada para tentar explicar a natureza desses episódios cada vez mais frequentes. A maioria só diz que todos que esses eventos são um fenômeno multifatorial que envolve tudo o que conhecemos e também algo novo ainda invisível ao julgamento científico. Ou mesmo aos nossos olhos. Sejam eles estudados ou não.
O primeiro caso coletivo aconteceu hoje, apesar das proibições de manifestações políticas estarem vigentes desde muito antes da primeira vítima-algoz-suicida-terrorista surgir. Quatro mulheres e dois homens, todos com mais de setenta e cinco anos, como eu, se posicionaram em frente ao Ministério da Justiça e, completamente calados e sem cartazes, se queimaram. A polícia tentou impedir com a ajuda de bombeiros, mas não funcionou. Eles mal tinham começado a queimar quando foram apagados, mas ainda assim estavam mortos. Como todos os outros. Nenhum deles nunca sobrevivia.
540 idosos mortos nesses atos até então. Só com um número expressivo desses para o governo começar a olhar para os velhos. Agora, junto ao trabalho, eles recomendam o cárcere privado.
Eu não vou trabalhar até morrer. Consegui juntar documentos o suficiente para comprovar idade, tempo de contribuição e tudo mais e na próxima terça farei meu pedido oficial perante a Previdência Social. Tive sorte de ter trabalhado por muito tempo num lugar que repassava as contribuições dos empregados de fato. A maioria da minha geração não conseguiu nem isso.
A galera, no geral, tinha app como único chefe e se achava empreendedor por ter que arcar com todos os riscos e custos enquanto dividia seu pouco lucro com uns acionistas do Vale do Silício. Tudo na base do desespero. A autoenganação existia sim, não dá para ignorar, mas hoje vejo que era só uma forma da gente não ser obrigado a pensar na injustiça de tudo aquilo o tempo todo. Na verdade, ninguém conseguia ficar muito tempo empregado em qualquer lugar que assinava carteira e trabalhar com transporte de gente ou delivery era o que tinha. Mesmo quem tinha salário, quando precisava de uma grana extra, entrava nessas. Eu mesmo fiz muita corrida de bike alugada pela cidade.
Quem tinha emprego trabalhava como terceirizado nessas empresas rainhas em assédio moral e previsibilidade. Antes de você conseguir ser efetivado ou poder tirar férias ou algo do tipo, eles te despediam só para te contratarem de novo alguns meses depois e essa lógica se repetia até eles declararem falência e não pagarem ninguém. Três meses depois, se a gente tivesse sorte, arrumávamos um emprego numa pessoa jurídica irmã gêmea da antiga. Esse era o jogo e a pior surpresa a gente só veio descobrir uns 30 anos depois quando tentávamos nos aposentar e a Previdência nos avisava que não ia dar, porque não tinha contribuição paga em nosso nome durante aquele período todo. Perdi 2 anos de trabalho dessa forma, mas teve gente que perdeu 5, 10, 15 ou até mais.
Nenhuma surpresa que essas pessoas agora idosas e acabadas se incendeiem em atos públicos.
Quando finalmente vi a placa, mal posicionada e quase apagada pelo tempo, indicando a entrada do prédio, a lembrança de quando havia um tanto de gente querendo estudar para trabalhar como técnico ou analista do INSS me veio. Sentavam a bunda na cadeira e estudavam, estudavam e estudavam buscando o tão sonhando cargo público que logo passou a não valer mais nada. Eu mesmo tentei umas vezes, cheguei até a ser aprovado, mas nunca me chamaram. Deu ruim antes. Agora não tem mais quase ninguém aqui, nem como funcionário, nem como usuário. Não sei se aposentaram, se morreram, se queimaram, se adoeceram ou se simplesmente não há mais muito o que fazer.
Nem na época de ouro os prédios da Previdência Social eram bonitos. Nenhum palacete antigo todo reformado abrigou qualquer serviço da Seguridade Social na história, ao menos não aqui na minha cidade. Agora eles são ainda mais feios e nem ficam mais no centro.
Mesmo com o endereço em mãos e usando o Google Maps, foi difícil de encontrar. A portinha para o hall era bem pequena, quase invisível entre duas enormes lojas com nome estrangeiro. O saguão parecia imenso, como se alguém secretamente esperasse que um dia esse lugar voltaria a ser cheio, mas devia caber só umas quinze pessoas. O vazio faz tudo aparentar ser tão amplo.
Com meu envelope pardo e meu comprovante de agendamento em mãos, sentei numa das cadeiras, apertei um botão e esperei alguém aparecer. Quem apareceu não parecia saber mais como aposentar alguém.
Mostrei meus documentos: RG, CPF, Comprovante de Residência, PIS/PASEP, 48 carnês de recolhimento do INSS como contribuinte individual ou segurado facultativo, 17 holerites de pagamentos de salários do meu emprego atual e também meu Certificado de Reservista. Falei sobre o que eles comprovavam com veemência, mostrei conhecer os meus direitos e esperei acontecer alguma coisa. O homem na minha frente simplesmente se retirou sem falar qualquer coisa do procedimento e disse que ia chamar alguém. Antes de sumir por uma porta, ele enviou uma mensagem de voz para um de seus contatos pelo aplicativo de comunicação da moda da vez dizendo que tinha com ele ali um homem que se dizia aposentável. Ele falava como se eu só pudesse estar senil.
Durante a espera, eu passei os olhos ao redor de novo: poeira, cadeiras antigas demais, ar-condicionado extremamente barulhento e uma janela quebrada bem perto da entrada. Queria tentar entender melhor o meu desconforto com esse lugar. Não havia túmulos, mas ainda assim aquele vazio com seus computadores me lembrava um cemitério. Não havia macas, mas era inevitável pensar que entrei pela porta da frente em um hospital de pacientes terminais. Havia, na verdade, tantos indícios de abandono ali quanto no rosto de cada um dos idosos que ganharam manchetes no último ano.
Depois de pelo menos uns vinte minutos, o homem que me atendeu voltou sozinho. Ou ao menos foi isso que pensei. Ele sentou novamente bem na minha frente e deixou que o computador identificasse seu rosto, senha e digitais e perguntou novamente meu nome, minha data de nascimento e todos os meus números de identificação.
Enquanto dava minha resposta, vi uma cadeira estofada se arrastar e parar ao lado dele e ouvi uma voz feminina vir do vazio acima dela. Ela começou a me fazer perguntas, dar recomendações e explicar todo o processo. Eu ouvia bem o que ela dizia e a respondia quando era necessário. A dona da voz parecia realmente disposta a me ajudar, mas aos meus olhos a cadeira seguia vazia, apesar de vez ou outra eu ouvir o barulho de movimento de suas rodinhas.
Eu não era o único a ouvir o nada. A voz guiava o homem sobre protocolos, documentos e indicava até mesmo os códigos a serem utilizados para o meu caso. Ele obedecia e às vezes reclamava sobre como aquele software era antiquado. Eles, humano e nada, trabalhavam juntos, discutiam algumas coisas sobre meu pedido entre eles e vez ou outra comentavam sobre as últimas notícias do sistema ou do mundo comigo.
Eu suava frio, me sentia tonto e me preocupava mais com a possibilidade de ser um dos milhares inaposentáveis da minha geração do que com qualquer outra coisa. Era como se eu estivesse, enfim, pronto para morrer ou morrendo de fato, independente da resposta. Só que uma das mortes parecia ser bem mais dolorosa.
Foi um alívio ouvir que tudo indicava que eu tinha sim o direito de me aposentar e que, apesar de tudo, eu ia conseguir receber 64% do valor integral que me era devido. A Voz me avisou que a Carta de Concessão chegaria em mais ou menos um mês e me desejou boa sorte, boa vida.
Nessa hora, quando nós três nos levantávamos, eu vi um ser translúcido que parecia muito velho, muito mais velho que um dia eu seria, escorregar pela cadeira e ressurgir aos poucos enquanto flutuava em direção da porta. Ela comentava com o homem sobre eu provavelmente ser o último a conseguir me aposentar no país. Ela, morta, ainda estava trabalhando.
Quero saber quantas horas são, mas a bateria do celular acabou faz tempo e eu não uso relógio de pulso há quase uma década. Com o ponto cheio desse jeito, já deve ter passado das seis, imagino.
Ao sentir aquele aperto no intestino, a preocupação com a hora desaparece instantaneamente e retorna com maior intensidade após a conclusão de que o banheiro mais próximo está a uma viagem de ônibus de quarenta minutos de distância.
A barriga se remexe toda, faz uns ruídos constrangedores, os olhos se arregalam, viram e a boca só faz careta. A mensagem do corpo afeta também o rosto: essa cara de cu é apenas um reflexo involuntário de um organismo rebelde. Não é ódio, desprezo, arrogância, é só meu intestino grosso avisando que está trabalhando.
O ônibus chega. O cobrador dá um grito e pede para todo mundo se ajuntar. Alguém pergunta: “Mais?”. Rio sozinha pensando que ninguém ali nem imagina que uma bomba de bosta prestes a explodir embarcou junto com eles para essa aventura cotidiana que é ir para casa numa sexta-feira.
O balanço do coletivo piora tudo. Respiro fundo, rezo, conto cabritinhos. Sim, cabritinhos. Nessas horas todas as nossas manifestações mentais são sugestivas.
Desço do ônibus já com as chaves nas mãos. Acelero os passos. Subo as escadas do prédio no gás e corro para o banheiro.
Coitado dos vizinhos, o desespero foi tanto que deixei até a porta do apartamento aberta.