Antártida

De repente ninguém mais morreu de tiro, faca, bomba ou porrada. Nenhuma pessoa conseguia entender como o índice de violência mundial chegou ao marco incrível de 0%, mas todo mundo sabia que algo tinha acontecido. Antes de dormir, naquele momento em que a solidão se torna quase concreta, não tinha uma só pessoa na Terra que não percebia que algo estava diferente dentro dela.

Ninguém sabia responder o que tinha causado isso e, inicialmente, as pessoas fingiam não querer entender, apesar do mundo ter se tornado outro em menos de um mês. Viviam como se nunca tivesse havido todo derramamento de sangue que a humanidade sempre conheceu e ignoravam os intensos anos de culto à violência que vigoraram até então.

Quando uma cientista descobriu que um som misterioso foi emitido da Antártida para todo o planeta horas antes do fim da violência, ela levantou a hipótese de reprogramação da mente humana e apareceu em todos os jornais. Só isso foi capaz de fazer as pessoas assumirem que queriam entender o que tornou a humanidade esse povo pacífico e, dias depois, diversas excursões de pesquisadores começaram a partir de todos os lugares do globo para explorarem o continente gelado.

Depois de quinze dias de busca, o grupo sul-africano encontrou uma base enorme destruída. Frente aos destroços, havia uma bandeira lilás intacta posicionada. Nela estava inscrita a frase “finalmente paz”.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroTerra. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, TwitterWattpad, Tinyletter e Instagram.

Somos animais que migram no verão

Ilustração por Luiza Formagin.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves

Os termômetros marcam 30º Celsius. O asfalto quente de tanto sol e o ar parado nos dá a sensação de estarmos dentro de um forno. A cidade se dilata, enquanto as pessoas buscam algum destino mais refrescante.

Em algum momento do verão, a gente tira férias, faz as malas, confere se lembrou de pegar a escova de dentes e parte. Migramos em busca de sol, sombra e água fresca. Os destinos variam, mas todos envolvem a procura de uma forma melhor de lidar com as altas temperaturas. Quem mora em Minas Gerais, costuma escolher entre o lago de Furnas, alguma cachoeira, qualquer sítio com piscina, uma diária num clube ou o distante litoral.

Somos animais que migram em busca de água no verão. O Espírito Santo que o diga. Tomamos seus mares, lotamos suas areias e, se o dinheiro estiver curto, levamos marmitex para a praia. Quem não quer perder a pose, tupperware.

Parte do ano, as praias capixabas são um anexo de Minas Gerais. Ninguém pergunta para os nativos o que eles acham, se eles nos consideram invasores folgados ou se aceitam dividir o mar conosco de bom grado. A área simplesmente é ocupada. Quer dizer, a água.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves. Todos esses animais se movem por alguma razão durante determinadas épocas do ano, ainda que isso seja incompreensível para nós humanos. Suas jornadas sazonais ainda são cercadas de mistério. Mistérios que a gente parece querer entender por achar que suas respostas — ou a ausência delas — revelarão algo que pode nos ajudar a compreender melhor nós mesmos.

Biólogos implantam chips transmissores em baleias jubarte para assim conhecer suas rotas migratórias. Quantos quilômetros elas viajam? É sempre o mesmo caminho? É sempre o mesmo destino? O que elas tanto buscam? É possível que uma baleia decida simplesmente não ir? Como elas sabem o caminho e a hora de partir? Uma vai na frente e as outras simplesmente seguem? Para onde os estudiosos de baleias vão nas férias de verão? Como eles sabem para onde devem ir?

Nosso tempo nas águas é regulado pela legislação trabalhista. A gente fica o quanto pode. O quanto o chefe, as férias escolares e o saldo do banco deixam. A gente escolhe o destino de acordo com o que cabe no bolso. As jubartes não têm boletos para pagar. Elas simplesmente sabem o caminho e seguem o fluxo. Para fazer as rotas migratórias que o verão nos obriga a fazer, a gente precisa de estratégia. Muito se fala sobre humanos e a Arte da Guerra, mas não podemos esquecer jamais que o desejo de conseguir aproveitar a vida em pleno capitalismo nos fez desenvolver também a Arte das Férias.

Economiza aqui, se endivida ali, faz hora extra, se obriga a responder o e-mail do chefe no domingo depois do almoço, divide uma casa de praia com um banheiro com mais 20 pessoas. A gente faz tudo e mais um pouco para não ficar dias inteiros trabalhando em algum lugar sem ar condicionado quando os termômetros apontam 30º Celsius.


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Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

Casa limpa

A casa cheira a desinfetante. O cheiro é tão forte e a sala está tão organizada que nem dá para imaginar que ontem Flávio ainda engordurava as paredes, os azulejos e os demais móveis com suas mãos sujas de frango assado e cerveja, enquanto eu cozinhava e servia seus amigos.

O segredo para um chão tão limpo envolve mais que hábito e uma lista de produtos e marcas, abrange também ter uma motivação que torne aquilo uma tarefa que você faça com prazer. Tornar esse espaço um novo lar é o que me incentiva agora.

Daqui uns dias as coisas estarão fora do lugar e a casa vai aparentar ser habitada de novo, dessa vez só por mim, esposa desesperada pela volta do amado, e todo mundo, inclusive eu, vai descobrir que Flávio foi encontrado morto dentro de seu carro no extremo oposto da cidade após 30 horas de busca.

Vão me trazer a notícia em casa e eu vou pedir para sentar, fazer a policial me trazer um copo de água com açúcar e, aos prantos, contar mais uma vez que me sinto culpada, porque ele saiu bêbado atrás dos amigos após uma breve discussão comigo.

Arrasada, vou dizer que eu não consigo imaginar alguém que quisesse matá-lo. “Ele ficava meio valentão quando bebia, deve ter caçado briga com quem não devia”, eu direi, enquanto deixo as marcas do meu pescoço falarem por si mesmas.


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Hortifrúti

“Trinta ovos graúdos por dez reais” disse uma voz grave, rouca e mecânica. Me interessei, mas não parei por saber que teria que voltar para casa se comprasse algo e assim a caminhada acabaria ficando para outro dia.

Não dei nem três passos e ouvi “Temos batata, cebola, alho e manjericão”. “É, dá pra evitar uma ida ao supermercado”, pensei e fui procurar o carro de som. Não havia nenhum. “Maracujá baratinho”, a voz dizia enquanto eu andava pelo quarteirão sem achar qualquer estabelecimento aberto. Fui, então, atrás de alguma barraquinha, ambulante, ou qualquer coisa do tipo e não encontrei nem feirinha e nem vestígio de um homem com um megafone.

A voz agora anunciava batata baroa, ovos de codorna e tomatinhos por um preço nunca antes visto, mas eu já não queria mais saber. Segui o meu caminho, mas mesmo depois de três quarteirões, eu ainda ouvia o anúncio das promoções. E, de novo, não havia nada que indicasse de onde vinha o som ou onde estava a comida.

Tem quem comece a ouvir zumbidos um dia e passe a escutar esses sons o resto da vida. “Será esse o meu caso?”, cogitei enquanto refletia se os preço dos ovos nesses anúncios mentais continuaria o mesmo ou se modificaria por causa da inflação.

Corri para fugir desse pesadelo e, ao chegar na porta de casa, finalmente deixei de ouvir que as bananas pratas estavam no ponto.


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Uma sexta excepcional

Por Thaís Campolina

Toda sexta tem trânsito, correria e gente desesperada para chegar logo em seu destino. Dá quatro horas da tarde e as ruas se tornam impraticáveis. É muita gente, é muito carro e todos os ônibus estão lotados.

Nessa última, o caos foi especial e começou até mais cedo. O Brasil tinha se classificado para as quartas da Copa do Mundo e jogaria contra a Bélgica às 15 horas. Às 12:35, uma mulher loira entrou no ônibus certa de que não havia risco de perder nem um minuto do jogo. A certeza logo passou.

Pela janela do ônibus, se via gente vestida de verde e amarelo e uma quantidade absurda de carros, ônibus e até mesmo caminhões parados. Alguns com bandeirinhas, mas a maioria sem. Trânsito igual a esse só em véspera de feriado prolongado e com chuva.

Logo os passageiros começaram a gritar para o motorista acelerar, e o homem, aflito, respondia que pra isso teria que passar em cima da carraiada toda. A trocadora tentou tranquilizar as pessoas ao seu redor e comentou sobre a possibilidade de ouvir o jogo pela rádio. Não adiantou nada. A essa altura, o que apertava mesmo era a fome. O receio maior não era mais perder algum lance e sim aparecer no churrasco da família bem naquela janela de tempo em que não há carne nenhuma na churrasqueira.

Para distrair, as pessoas começaram a organizar um bolão e tentar antever placares. Era gente demais e chutes considerados possíveis de menos, por isso o papo acabou se transformando em um bolão de quando o ônibus chegaria no bairro.

Uma mulher, vestida com uma blusa que falava em Hexa 2014, disse que chegaríamos no final do primeiro tempo e que teríamos tomado dois gols. O que foi a hipótese mais pessimista feita pelo grupo e a mais próxima do placar final. Um cara de terno e gravata estimou que chegaríamos aos vinte minutos e veríamos o primeiro gol do Brasil assim que sentássemos no sofá. Todos que acompanhavam esse blablabla vibraram com essa.

Uma jovem de tranças coloridas consultou um aplicativo no celular e afirmou categoricamente que em 25 minutos estaríamos na rua principal do bairro. Uma idosa, toda vestida de amarelo e com um semblante muito parecido com o do Canarinho Pistola, sentenciou contra a estimativa feita pelo Maps e veio com o papo de que o ônibus chegaria no ponto final bem na hora do hino nacional.

No fim das contas, ninguém acertou nem placar final e nem horário de chegada, mas todos viram o sonho do Hexa 2018 acabar com dois gols para a Bélgica ainda no primeiro tempo, sendo um deles gol contra. Quando o Brasil marcou um, a expectativa da virada preencheu corações, casas e bairros, mas toda essa esperança não foi capaz de evitar a desclassificação.

Ainda assim, as vuvuzelas tocaram, as pessoas comeram e mais cerveja foi colocada no congelador. Fora o meio horário e a temática verde & amarela, foi quase igual toda sexta-feira.


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Galeria de constrangimentos literários

Fotografia da livraria El Ateneo — Retirada do texto “Conheça as 10 livrarias mais interessantes do mundo”

A galeria dos constrangimentos literários de Thaís Campolina está em constante construção, o que pode fazer esse texto chegar aos quinze minutos facilmente.

Decidi criar esse acervo após ler o livro [manual prático de bons modos em livrarias] e pensar em todas as minhas histórias constrangedoras que com uma modificação aqui e ali poderiam me transformar facilmente numa personagem pitoresca que incomoda livreiros.


O clássico encontra o contemporâneo

Eu passei semanas chamado o escritor Ricardo Lísias de Ricardo Lusíadas e achando meio estranho, mas legal, ele ter como sobrenome um título de um clássico da língua portuguesa. Achei que nunca mais ia errar o nome dele, mas semana passada, fui comentar essa história e chamei o cara de Ricardo Lisíadas. Acho que na próxima eu vou falar “Aquele autor que foi processado pelo Eduardo Cunha, sabe?” porque daqui a pouco eu meto um Odisseia no nome do cara.

Uma confusão entre senhoras

Uma vez, ainda no Ensino Médio, eu fui xingar o clássico “Senhora” e acabei xingando a senhora do político e ex-vice presidente do Brasil José Alencar. Só depois de ouvir o interlocutor falar várias coisas doidas, eu entendi que faltou um “de” e o coleguinha estava certo ao ter continuado o papo com informações sobre política.

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Dia de caça

Obrigada, Canva

De salto e terninho, me sentei em um bar conhecido por vender chopp em dobro para engravatados durante o happy hour. Rapidamente, um cara me abordou. Respondi “Não, eu não estou acompanhada, moço” e o jogo começou.

Trocamos palavras, muitos beijos e alguns sorrisos e eu falei para ele vir comigo. Peguei sua mão e com jeitinho o guiei para fora do bar. “Vamos para um lugar mais reservado?”, eu disse enquanto o levava para o meu carro.

Encontramos minhas amigas pouco tempo depois. No olho, avaliaram com muito gosto o material que eu tinha levado e brincaram dizendo “Esse vai dar um trabalho, hein?”. Ele riu todo faceiro, com a certeza que tinha tirado a sorte grande. Juntos brindamos com cosmopolitans nas mãos.

Meia hora após o brinde, ele acordou e se deparou com muito mato, pouca luz, comigo e com minhas amigas. Nenhuma de salto, todas vestidas para matar: calça, coturno e espingarda. Demos uns minutos para ele tentar se esconder e saímos à caça.

Acertei suas costas e subi três posições no placar. Na próxima semana, já alcanço o primeiro lugar. É tipo um Counter Strike, mas no lugar das balas, usamos dardos tranquilizantes e depois devolvemos o animal para seu habitat, o bar.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroJogo.


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Técnicas de sobrevivência

Desci do ônibus por volta das 23 horas. A rua estava deserta. A madrugada anterior tinha marcado incríveis 7ºC e hoje a noite prometia um novo recorde. As minhas chaves estavam apertadas entre meus dedos mais centrais, como sempre, e eu tentava me convencer que estava munida de um soco inglês com pontas capazes de cegar um estuprador desavisado.

Faltando um pouco mais de um quarteirão para chegar em casa, a rua ficou mais escura e um homem apareceu na esquina da frente e veio em minha direção. Eu não tinha para onde fugir. Ele falava comigo, mas o medo e o barulho do vento não me deixavam entender bem o que ele dizia.

“Quando ele abaixar a guarda, enfio a ponta da chave na bochecha dele com toda minha força, chuto as bolas do desgraçado e corro”, planejei.

Eu tinha algo capaz de rasgar a pele e força o suficiente para usar minha chave como arma graças aos meses de musculação. Ele estava cada vez mais próximo e meu corpo cada vez mais tenso. Íamos nos encontrar de frente em alguns metros, mas antes disso, ele parou e começou a gritar “Mariana, é você? Sou eu, Seu João, seu porteiro. A luz do poste queimou, fiquei preocupado e vim te buscar”.

Não foi nesse dia que tive que usar técnicas de sobrevivência para conseguir chegar em casa sã e salva.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroChave.


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O mundo das letras

Imagem do jogo Scrabble

Numa sucessão de golpes e de candidatos falastrões que odeiam minorias conquistando o poder, chegamos até aqui. Depois de tantas maracutaias para passar reformas, apoiar guerras e explorar pessoas para fazerem roupas de pouca qualidade, o capitalismo entrou em colapso. A descrença fez surgir na população cinismo, medo, memes e luta, e o resultado disso foram anos e anos em que o mundo foi dominado pelo aleatório.

Nessa época de transição, todos os atores acreditavam fielmente que faziam algo de fato, mas a maioria apenas agia de modo automático. Em busca de um pouco mais de igualdade, alguns lutaram e forçaram a aleatoriedade para transformar o capitalismo em outra coisa, num sistema que parecia mais justo, mas que acabou também se baseando na meritocracia e na sorte de nascer na família certa, no lugar certo.

O dinheiro se transformou. Inicialmente as trocas substituíram as notas e as contas correntes. A intenção era que voltássemos a viver com um senso comunitário aflorado, mas o fim do capitalismo não derrubou os privilégios e o poder totalmente, já que nunca houve uma ruptura de fato, e a antiga elite conseguiu influenciar na construção desse novo mundo. O dinheiro passou a ser a pontuação que o indivíduo conseguia jogando Scrabble. A antiga — e nova — elite dizia que a sorte em tirar a peça da letra certa tornava o sistema aleatório, logo, justo, mas ignorava que o conhecimento das palavras existentes e alguns lugares no tabuleiro continuavam inacessíveis para parte da população.

O mundo passou a ser dividido de acordo com os idiomas. Algumas línguas não se adaptaram bem ao jogo e hoje servem só para serem faladas, o que, na prática, é inútil na hora de fazer dinheiro. Acredito que esses idiomas desaparecerão com a morte de seus falantes, já que a língua agora serve ao utilitarismo. O inglês e o espanhol são as moedas de maior força, mas o português até vai bem, já que a China o adotou por influência de Macau e da agridoce aleatoriedade.

A elite é composta por quem consegue formar, com frequência, palavras usando todas as letras do banco e por aqueles que nasceram em lotes de palavras duplas ou triplas. O tabuleiro continuou o mesmo, mas criaram um mecanismo para definir onde cada jogador nasce nele. O jogador participa do jogo de acordo com o local em que mora na vida real, o que coloca a periferia sempre nas áreas com poucos bônus. Alguma coisa mudou?

Sou classe média. Muitas vezes nasço numa letra dupla ou tripla e por isso treino horas e horas fazendo palavras com letras como Z e X, de preferência. Como nem sempre a sorte ajuda, treino bastante as letras Q, V, F e outras que também pontuam bem.

O sistema político e jurídico também sofreu modificações, mas essas ainda estão em curso em todo o mundo. Até então, no Brasil, tivemos apenas uma eleição, que foi decidida através do programa Soletrando, apresentado pelo Lúcio Hick, num canal de Youtube braço da emissora Lobo. Lúcio se tornou uma espécie de mesário bem popular e que anda de táxi nas horas vagas. A produção do programa tem algumas atribuições do antigo TSE e os espectadores, como eu, acham que fiscalizam todo o processo. Teoricamente, se a gente notar alguma coisa estranha, a gente leva para a justiça e ela decide através de análises que envolvem linguistas, gramáticos e nossos votos. Ainda não aconteceu, provavelmente vai rolar algo nas eleições regionais, por elas serem mais numerosas. Não há mais eleições municipais, porque é impossível para o Lúcio Hick apresentar tudo, né?

Quando eu era criança, uns quarenta anos atrás, eu era a única pessoa fascinada por sopa de letrinhas que eu conhecia. Eu sonhava com esse alimento, mas na vida real só encontrava letra em livro e no prato apenas argolinha, Ave Maria, conchinha, espaguete, Pai Nosso e até penne. Agora, a sopa de letrinhas é o antigo feijão com arroz e sofreu toda espécie de gourmetização possível para se tornar o grande destaque dos cardápios dos melhores restaurantes. Sigo fascinada, já que agora a gente encontra até bago de feijão em formato de letra.

Para quem nasceu no fim dos anos 1980, como eu, é bem divertido ver os novos rituais que surgiram. Para mim, mineira do interior, o mais engraçado é a mudança das cerimônias cristãs. Hoje, durante a Crisma, a galera come pedaço de dicionário embebido no vinho para fortalecer a fé e o seu conhecimento.

Estranho uma das minhas antigas diversões ter se tornado isso. Nos dias de hoje trabalho para receber letras coringa, bem elas, que sempre quis evitar usar porque antes não valiam nada, a não ser a chance de colocar uma palavra maior. Hoje o coringa vale muito e, se antes tinha que se pensar muito antes de usar, agora tem até curso que ensina a hora certa. O mundo é outro, mas também é um pouco do mesmo que vivi. É a mesma época, são as mesmas gerações e a cultura foi pouco modificada. O Scrabble não é mais só um jogo de tabuleiro, é o jogo da vida.


Texto escrito com base em tweets que fiz em minha conta pessoal em Maio de 2017.


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Peripécias cotidianas olhadas com uma lupa

Elena Kalis — Underwater Fairytale

Da rodoviária de Montevidéu, peguei um táxi para meu destino. O motorista era um senhor idoso bem vestido, apesar das peças de roupa aparentarem serem bem antigas, assim como seu carro. Com as malas guardadas e o endereço informado, seguimos.

Assim que o veículo ligou, o aparelho de som começou a tocar “Sabe tchururuuuuu estou louco pra te veeeeeer, oh yessss, sabe tchururuuuuu entre nós dois um querer, eie…”

Entre os “tchururu”, os “olha eu te amoooo e quero tantoooooo beijar teu corpo nuuuu” e a informação prévia de que vivemos uma crise em nossa republiqueta, percebi como o Brasil anos 90 ainda vive até mesmo fora do país.


Quando eu era bem criança, minha mãe me disse que íamos para Belo Horizonte conhecer a Mônica. Esperei essa viagem com toda a ansiedade infantil que conhecer um ídolo pode causar. Chegando lá, descobri que Mônica, prima da minha mãe, não era a personagem dos gibis e sim uma mulher bem alta.

A decepção foi óbvia, mas a surpresa com o tamanho foi maior: “Nuh, que Monicão!”, eu falei.


Os pontos de ônibus das cidades servem como ambientação de diversas histórias. Na Curitiba, entre Augusto de Lima e Guajajaras, eu vi histórias de amores passageiros começarem com trocas de olhares apaixonados e terminarem com um dos amantes entrando no ônibus antes de qualquer “oi”. Parada ali, esperando o ônibus passar, também fiquei sabendo de roubos que rolaram no dia anterior e, com a contribuição de dois reais, fiz parte do momento em que um homem, em situação de rua, conseguiu adquirir um radinho para o grupo que fazia parte.

Uma vez, esperando ônibus às 06:40 da manhã nesse mesmo ponto, vi o amarelinho se aproximar vazio para o horário. Acenei, ele diminuiu a velocidade e passou por mim bem lentamente. O motorista me encarou, olhou no fundo dos meus olhos e acelerou. Diante desse sadismo cotidiano, o que pude fazer foi rir enquanto anotava a placa do veículo para fazer a denúncia mais tarde. Também sei ser sacana e transformar situações comuns em histórias de vingança


Muitos romances, filmes e até mesmo as novelas que passam na TV nos sugerem que a vida é feita de grandes emoções e momentos grandiosos. A verdade é que, na maioria das vezes, a maior emoção da semana é encontrar a cozinha e a área alagadas porque o cano da máquina de lavar saiu do lugar.


Nasceu uma afta na pontinha da minha língua e o meu medo agora é dar com a língua nos dentes.


Abri os olhos com preguiça essa manhã. A noite foi difícil. Acordei várias vezes durante a madrugada e, numa delas, descobri que fui servida como prato principal para um grupo bem numeroso de pernilongos famintos.

O despertador tocou novamente. Levantei relutante e fui ao banheiro. Ao me olhar no espelho, acabei me achando bem parecida com o Luan Santana. Com estranhamento, percebi que minha transformação no cantor sertanejo estaria completa se eu fizesse um coque desses que os caras estão usando e quase ri quando notei que meu cabelo está no comprimento ideal para isso. “Estou virando um galã feio!”, pensei enquanto encarava incrédula minha nova imagem.

A estranheza do momento passou quando cocei os olhos, embaçados pelo sono e pela miopia, e me percebi sem óculos.


Resfriada, cocei os olhos. Seria algo comum se eu não estivesse com o dedo sujo de molho de pimenta. O nome do molho? Brasinha.


Meu corretor troca Bolsonaro por Bolasterona sem eu nunca ter escrito isso na vida e eu fico rindo porque esse é o nome de um anabolizante descrito no google como uma droga ineficaz, muito perigosa e que deve ser evitada.


— Que barulho é esse, Thaís? Você ouviu?
— É jumento.
— Mas o som tá vindo aqui do banheiro!
— Ah, é jumento mesmo. Deve tá lá fora.

(Segundos depois, a gente descobriu que era a torneira da pia do banheiro e eu ri ainda mais porque o Lucas falou “tá vendo? Não era um jegue”)


Minha mãe acabou de me ligar para me contar que ela e o Billy, nosso doguinho, foram entrevistados quando faziam caminhada.

Minha mãe disse que perguntaram se eles faziam exercício sempre e ela respondeu que andam juntos todos os dias.

Reagi:
— Uai, o Billy não latiu nada não? Deixou você falar por ele? Não me parece muito do feitio dele isso não, hein?
E ela respondeu:
— Fora de casa ele é tímido.


Sábado vivi uma cena que caberia perfeitamente em um desses seriados de comédia que explora os pequenos absurdos do cotidiano como fonte de humor.

Um pouco antes de sair para comer canjica, dançar forró e curtir amigos, liberei o Billy, cão da minha família, para brincar um pouco na varanda. Enquanto ele mijava, cheirava tudo, corria e conferia se não tinha nenhuma lagartixa para caçar, fui me arrumar para a festa junina que me esperava.

Minutos depois, quando eu já estava com o rosto corado de blush, com minhas sardas falsas feitas, meu chapéu de palha com babadinho branco na ponta posicionado, meu cabelo em maria chiquinha na cabeça e vestido xadrez no corpo, corri para a varanda após ouvir o Billy, que é uma mistura de pinscher com chihuahua, logo muito barulhento e estridente, latir enlouquecidamente.

Ali me deparei com um cão, todo branquinho, peludinho, escovadinho e usando uma gravatinha xadrez fofíssima, rosnando, latindo e pulando na grade contra o Billy e Billy, tão bonitinho quanto, mas com certeza menos limpo, latindo de volta todo feroz. Antes de perceber o ridículo da situação, me envolvi nela e passei a correr, toda fantasiada, atrás do Billy mandando ele entrar logo em casa.

Todos estávamos muito irritados, inclusive eu pedindo silêncio. Todos estávamos muito pequenos, como sempre, e especialmente fofos, inclusive eu, que ralhava e perseguia o Billy que corria para onde cão felpudo com gravata ia.

A cena deve ter sido magnífica para os desavisados que passavam na porta curiosos com aquela barulhada.


O interfone tocou, eu atendi e o seguinte diálogo aconteceu:
— Quem é?
— Lucas?
— É você, amor?
— Uber Eats para o Lucas. (som de risadinha abafada)
— Ok. Tô indo pegar para ele. (som de constrangimento disfarçado)

Eu sou muito boa em passar vergonha, né?


Um dos meus erros preferidos de digitação e fala é chamar a tetralogia napolitana da Elena Ferrante de tretalogia.


Segundo minha mi band, hoje eu dormi melhor que 99% dos usuários. Venci a corrida de melhor dorminhoca do mundo.


Acordei com um estouro. Um gato jogou uma garrafa de Mate Couro no outro. A primeira coisa que fiz no dia foi tacar shampoo de banho a seco em um gato encharcado de refrigerante.

Tagore completamente ensopado de refrigerante ainda tentou fugir para debaixo da cama quando viu que queríamos pegá-lo. Paramos o bicho já quase em baixo do edredon. Agora ele se lambe todo, enquanto Adelaide nos observa de longe com uma expressão que diz “o que foi que eu fiz?”. Ela sabe que a situação foi criada por suas próprias patas.


Achei que tinha um vizinho distante cantando ópera na janela, mas é só uma Live do Bocelli em alto e bom som aqui do lado mesmo.


Minha mãe acabou de me mandar pelo WhatsApp um vídeo da minha vó. Pela data e pelas envolvidas, pensei que ia vir uma mensagem religiosa junto com palavras de conforto e saudade, mas no lugar veio um feliz Páscoa que uniu abraços virtuais para todos com um vídeo de recebidos de chocolate.


Decidi que vou fazer tai chi chuan, para a alegria do meu pai que defende a prática mais do que tudo, simplesmente porque ele me mandou um vídeo chamado “perfumado” que ensina movimentos com nomes maravilhosos como “dragão abana a cauda”.

VOU ABANAR MINHA CAUDA DEMAIS HOJE, AMIGUES

e não é dançando funk, é fazendo um movimento muito lento, muito lento mesmo, com os braços


Minhas habilidades na cozinha são bem na média: dá pra passar de ano, mas vez ou outra sou aterrorizada pela possibilidade de recuperação.


Tem hora que acho que estou sendo a própria Feiticeira com sua clássica mexidinha no nariz e na verdade eu estou é fazendo careta e explorando todos os limites dos meus músculos faciais. Tudo para tentar não me encostar. A rinite não dá trégua nem em tempo de pandemia.


Toda hora que lavo as minhas mãos, canto mentalmente “Dorime” em ritmo de forró, acabo dando uma dançadinha e me sinto vivendo num filtro de stories do Instagram e não no meio de uma pandemia.


A sinfonia da chuva tem vários sons característicos que todo mundo adora lembrar na hora de escrever ou contar caso, entre eles, o que tem mais cara de crônica é a barulhada de todo mundo correndo para fechar as janelas o mais rápido possível.

Ouso dizer que a movimentação humana para tirar roupa do varal, fechar as janelas rapidamente e outras atividades correlatas que unem chuva, urgência e cotidiano conseguem chamar mais atenção do que o barulho dos animais da vizinhança. E olha que pet tem carisma.


A crise na construção civil pode ser facilmente resolvida comigo fazendo uma tour pelo país. Se eu preciso de silêncio, todos ao meu redor conspiram para fazer uma reforma.


Todas as minhas histórias de terror terminam comigo descobrindo mais uma vez que aqueles sons estranhos que pareciam gemidos ou sussurros vinham da geladeira.

(Infelizmente a geladeira da casa dos meus pais, a grande protagonista dessas histórias, foi vendida e agora temos uma geladeira estranhamente silenciosa que acaba sendo mais assustadora que a barulhenta. A gente se acostuma com tudo mesmo, né?)


Acabei de ver uma mulher mais velha bem séria usando roupas “de adulta” saindo do trabalho, mas na blusa estava escrito “quebre as regras” em inglês e agora não consigo parar de imaginá-la obrigada a fazer um curso de compliance por causa dos comportamentos que ela incentiva talvez sem saber.


Eu adoro que a função real do vigia da padaria que frequento é a de acariciador de cães dos clientes.

Enquanto as pessoas compram pão e lanches, ele mima os pets.


Tenho me sentido um enorme clichê. Meu bloco de notas do celular está repleto de poemas sobre o fim do mundo e a minha cabeça não se cansa de produzir histórias de distopias que se passam no agora, agorinha.


Curte ler e ouvir “causos”? Então, confira meus textos “Janela indiscreta”, “O caso do homem explicador” , “Ainda bem que eu estava de botas” e “O brilho no olhar da mina que sempre vem comer coxinha”.

Todas as histórias postadas nesse texto foram publicadas originalmente na minha página do Facebook ao longo do tempo. Tenho copiado aqui histórias muito mais recentes do que a data da publicação desse texto. Se você gostou, me acompanhe também no Facebook, Twitter e Instagram.