Assunto: Um cotidiano transformador

Para: lisatsilveira@empresaficticia.com.br e outros 57 contatos.

Poltrona bonita by namedesignstudio on Etsy

Tudo começou há uns dois meses atrás, cheguei em um restaurante sozinha e tentei chamar o garçom várias vezes sem sucesso.

Eu olhava para o garçom, que me ignorava, e tinha certeza que se surgisse moscas, ele daria atenção para elas e não para mim. Sabia, inclusive, que se ele notasse um pernilongo, ele mataria para só depois conferir se era ou não um aedes aegypti. Ali, eu era mais invisível que um inseto.

Meu namorado chegou e o garçom veio todo solícito. Só registrou meus pedidos quando o meu parceiro os repetiu. Fiquei visível por um único momento: quando a Coca Zero do meu namorado chegou. O garçom a colocou na minha frente e eu pensei “Ele já não me vê e quer que eu diminua ainda mais?”. No fim desse dia, minha mobilidade estava prejudicada. Eu senti meus ossos mais duros, menos flexíveis, menos móveis. Minha bunda estava quadrada quase no formato da cadeira em que passei o jantar sentada.

Depois, durante uma happy hour com o pessoal do trabalho, essa sensação se repetiu de forma ainda mais intensa. Sentei na mesa com Marcos e Guilherme para ver um jogo do Atlético na TV e, toda vez que eu fazia algum comentário, eu me sentia invisível como eu estive para o garçom. Durante o intervalo do jogo, eles conversavam entre eles sobre o primeiro tempo como se eu não estivesse ali falando. Em algum momento dessa noite, olhei de relance para meu reflexo no vidro e me vi transformada numa cadeira de bar.

Hoje aconteceu de novo. Eu estava numa reunião do trabalho apresentando alguns relatórios, análises e ideias. Todo mundo olhou para mim e me ouviu até que eu sentei na mesa. Quando terminei, Guilherme se levantou e apresentou seus dados. Quando Michele foi fazer o mesmo, meu chefe não percebeu a presença dela e seguiu a reunião discutindo os pontos levantados pelos funcionários anteriores. Incomodada e sem graça, ela se sentou novamente, coisa que só eu pareço ter visto.

A reunião seguiu e meu chefe começou a falar dos meus relatórios, análises e ideias como se fossem conclusões do grupo e não minhas. Quando fui me manifestar sobre, notei que tinha perdido a voz.

Eu gritei sem sair som, gesticulei e quando fui me levantar, percebi que minha bunda e minhas pernas agora eram feitas de um estofado macio. Desesperada, olhei para Michele e ela tinha se tornado uma linda poltrona estampada.

A reunião acabou e todos saíram sem perceber nossa ausência.

Ainda tenho cabeça, braços e mãos e consigo escrever esses estranhos acontecimentos em meu computador. Mas me pergunto até quando, já que mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar sentando em cima de mim como acabaram de fazer com a Michele.

Logo, meu nome deixará de constar nos documentos de recursos humanos da empresa e uma poltrona elegante assinada por Carla Silva Cunha e José Costa Madeira, meus pais, será incluída no ativo não circulante da firma.

Quando eu terminar de virar poltrona, eu serei azul marinho com poás pequenos e brancos. Estou na Av. Afonso Pena, no prédio 1208, 3º andar, sala 12. Acredito que voltarei ao meu formato humano se alguém falar meu nome ao me ver poltrona.

Me ver é essencial para que eu volte a ser gente. Me ajudem.

Atenciosamente,

Marília Cunha Madeira.

mariliacmadeira@setorempresarialficticio.com.br

PS: isso não é uma pegadinha.

Enviado às 16:32, 12 de abril de 2017.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Janela indiscreta

Fotografia de Michael Wolf.

Era verão e eu queria sentir o vento fresco do início da noite bater em meu rosto. Escancarei a janela, respirei fundo e deixei o ar preencher meus pulmões, enquanto encarava o prédio ao lado. Passei os olhos pelos apartamentos iluminados e me deparei com dois corpos pendurados e sem cabeça.

Senti meu corpo tensionar, tremer e quase cheguei a suar frio e então percebi que eram apenas dois ternos suspensos num cabide fora do armário.


Publicado originalmente na minha página do Facebook.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O caso do homem explicador

Ilustração minha.

Tirei a chave da ignição, peguei a bolsa no banco ao lado, abri a porta e desci. Andei uns dois metros e vi que um homem me olhava fixamente e andava em minha direção. Imediatamente comecei a pensar em tudo que eu poderia fazer caso ele chegasse mais perto e me planejei tendo em mente o que eu via: um homem que andava com pouca firmeza e com duas mãos livres. Não foi preciso de tempo para me preparar, já que os planos de fuga brotam junto com o medo toda vez que uma mulher se depara sozinha com um homem numa rua deserta.

Segui meu caminho e alguns passos depois, ele estava bem próximo e eu sabia que era naquele momento que ia acontecer algo, caso essa fosse a intenção do homem. E era. Ele passava ao meu lado quando me abordou colocando a mão em meus ombros como se ele fosse me abraçar. Naquela hora, eu fiz tudo que arquitetei ao olhar pra ele dois minutos antes: me desvencilhei e o empurrei para fora da calçada, enquanto gritava “TIRA A MÃO DE MIM, VOCÊ NÃO ME CONHECE”, corria olhando para trás pra ver se ele estava ao meu encalço e mostrava de forma ameaçadora minha chave e repetia o meu jargão.

Vi o homem se levantar e correr para a direção contrária. O alívio ainda ia demorar a chegar. Sentia medo e tentava racionalizar se ele ia me roubar ou se ele ia me agredir sexualmente. Não sabia, não tinha como saber. Minha única certeza era que ele tinha me abordado e eu tinha conseguido me livrar, ao menos temporariamente. Temia, mas também me sentia uma pequena heroína, afinal, eu salvei meu dia.

Continuei andando com a chave em punho e, bem no fim da rua, um homem aleatório falou comigo “CUIDADO MOÇA!”. E eu já fui logo olhando para trás, esperando o homem anterior, pronta para lutar pela minha vida.

Não tinha nada atrás de mim, mas na frente tinha um cara que continuou a frase me informando que eu tinha sido abordada, me contando como foi e afirmando que a rua está perigosa demais, que não dá mais pra andar na rua naquele horário (incríveis e assustadores 19:50 no horário de verão).

Ele continuou falando essas coisas, enquanto eu encarava incrédula aquele espécime de homem que achou de bom tom me parar para explicar que eu, a mulher que tinha empurrado, gritado e corrido de um homem minutos antes, tinha sido abordada. Em tom de julgamento, ele finalizou seu blablabla dizendo “e ainda anda de bolsa?” e eu não consegui segurar um “pode deixar que na próxima vou guardar minhas coisas no cu”. Mais uma vez salvando o dia.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Ainda bem que eu estava de botas

Fotografia editada de uma ilustração minha. Arquivo pessoal.

Morar no centro de uma cidade grande é lidar diariamente com a possibilidade de encontrar bichos como ratos, baratas e pombos de tamanhos irreais e, ao interagir com eles, viver uma infinidade de histórias que unem algumas características da ficção científica, do gênero terror e, vamos ser sinceros, da comédia também.

Uma dessas histórias aconteceu em algum dia chuvoso há cerca de dois anos atrás. Eu descia a Guajajaras com rapidez, porque temia que aquela chuvinha aumentasse e a sombrinha meio quebrada que me protegia não fosse o suficiente. Enquanto eu andava, eu ouvi um “crec” ao pisar. Olhei para baixo esperando ver a haste de um óculos quebrado ou algo assim, mas eu encarei algo que parecia mais com um pesadelo.

No “crec”, eu me percebi em cima de algo feito de grades, provavelmente um bueiro, e baratinhas bem pequenas saíam desesperadas de dentro dele. Na pisada, eu matei umas duas, mas elas eram muitas e com a água da chuva entrando pelas grades, elas trepavam no primeiro lugar que viam, que a partir de agora eram minhas pernas, felizmente protegidas por uma legging. Elas não paravam de subir e a única reação possível foi correr balançando as pernas e pisando com força até meu prédio. Ao chegar, falei para o porteiro “Ainda tem barata em mim?” Não tinha. Fiquei aliviada por estar de botas e segui para o elevador.

O outro caso que eu vou contar mostra que às vezes as aparências enganam, especialmente quando está chovendo, seus óculos estão fracos e você tem um coração predisposto a amar bichos.

Mais uma vez chovia e eu vi um pischer gordo correndo perto dos carros na São Paulo. Achei que podia ser um animal perdido e quis resgatá-lo e fui atrás dele até ele entrar debaixo de um carro parado. Abaixei chamando o bichinho com uma voz macia, tentando acalmá-lo, e me deparei com a maior ratazana que já vi na vida fazendo um barulhinho nada amigável.

O tamanho dela era inconcebível! Só podia ser fruto de mutações por contato com algum tipo de material químico que foi jogado fora de forma irresponsável ou resultado de testes genéticos de laboratório. Qualquer outra opção não tem como fazer sentido.

Me assustei, dei uns passos para trás e me afastei, enquanto via uma mulher, que com certeza enxergava melhor que eu, rir porque ela sempre soube que o bichinho que atraiu minha atenção era uma ratazana de tamanho inacreditável.

A grande lição que podemos tirar disso tudo é que não importa se o mineiro nasceu na zona rural ou urbana, se ele mora numa cidade que só tem uma igrejinha e uma praça ou na capital, o que faz um bom mineiro é a capacidade de fazer qualquer coisa virar um “causo”, inclusive encontros com esses bichos de cidade grande.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet

Pasta de contos de terror — Arquivo pessoal.

Enquanto vasculhava todos os cômodos da minha casa em busca de um documento, eu encontrei um mundo de lembranças.

Entre revistas adolescentes, uma agendinha, um certificado do PROERD, um caderno de caligrafia e um papel que dizia que eu tinha concluído todo o curso de natação do clube, encontrei uma pasta com os dizeres “Contos de terror” toda desenhadinha por mim e recheada com meus primeiros contos de terror e de exercícios escolares de construção de personagens, ambientação e afins.

Ser escritora é um sonho que me acompanha desde a infância, encontrar esses papéis é reconhecer quem fui e redescobrir a força do meu anseio que permanece atual. Eu tinha nove anos quando esses textos foram feitos e sei que eles foram os primeiros de terror, mas não os primeiros de tudo. A história começou antes disso.

Descobri que eu escrevia e usava canetinha para fazer as letras escorridas, desenhar uns fantasminhas e adicionar detalhes como morcegos, escorpiões e aranhas. Tudo isso com muito vermelho. Aparentemente, eu era uma fã da estética do terror e sempre quis ilustrar o que escrevo. No meio dessa papelada, descobri o perfil do personagem chamado “O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet”. Descrevi suas práticas, suas armas, seu corpo e até mesmo a origem do seu nome e sua história. Ele era inicialmente um homem chamado Gem que foi transformado em ET, mas fugiu no meio do processo, caiu no fogo e ficou assim, feio e ruim. Ri do nome, me surpreendi com a riqueza de detalhes e com as referências que já davam as caras. Quadrilevegentet usa uma máscara de hóquei, assim como Jason. Filme que só fui ver anos depois, mas a icônica máscara do filme, que eu já conhecia pelas propagandas e posteres da locadora, já me fazia arrepiar de medo e valia como descrição de personagem malvado.

Planetaril Quadrilevegentet — Arquivo pessoal.

Contei histórias de maldições, ets, bruxas, casas mal assombradas e elas estão aqui guardadas para me lembrar que o medo, a construção do que é horror e ruim e de quem eu quero ser já se faziam presentes antes de eu saber que eu viro passado.

31 de outubro, dia das bruxas, precisei revirar memórias bem hoje e depois de anos arrumando o armário sem encontrar meus escritos infantis de terror, eles apareceram. Acho que as bruxas querem me dizer que eu devo continuar escrevendo.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Crise existencial protocolar

Arquivo pessoal. Ilustração feita por mim.

Desde o registro do nascimento no boletim médico, nós recebemos um número que nos identifica. Data, hora, peso, altura, protocolo de entrada da gestante (ainda somos um pouco nossas mães). Poucos dias depois, alguém nos registra e o cartório informa ao mundo o nome e sobrenome que a família escolheu e nos dá um número que servirá de base para tudo, o de matrícula. Agora temos uma certidão de nascimento. O Estado e o direito nos reconhece. Com ele, conseguimos ter os números que abrem as portas para tudo: o de registro geral e o do cadastro de pessoas físicas. Nesse meio tempo, somos registrados em cada instituição que pisamos: escola, faculdade, banco, plano de saúde, cursinho de idiomas, trabalho, clube, outro país. Do passaporte à carteira nacional de habilitação. Também somos o ddd e o número do celular.

Seu nome, seus números. Para acessar qualquer direito, para comprar várias coisas, contratar serviços, receber salário, para atravessar a fronteira, a gente precisa de se afirmar como uma sequência de algarismos. Existimos enquanto números, enquanto achamos que somos nomes.

Um dia tememos o bug do milênio, os computadores eram programados para entender os anos com apenas dois dígitos e 00 podia ser 1900 ou 2000. Datas erradas, números binários, falência, juros negativos, investimentos perdidos: era a previsão de uma desordem no sistema econômico mundial sem precedentes. O ano virou sem o apocalipse financeiro e seguimos com medo dos próximos fins do mundo.

O meu fim do mundo ocorreu numa segunda-feira, ao descobrir que mais de dois anos da minha vida tinham sumido de um sistema. Foi um bug que passou despercebido por ter atingido só a parte de um todo e se alimentou da incompetência alheia e da minha negligente mania de adiar tudo e não conferir nem troco. Tenho ou tinha a ingenuidade de quem se acha mais que número. Sempre achei que eu era gente e que era meu nome que carregava minha história. Eu não sabia que nome não é garantia de existência. Puff, nenhum dos tantos protocolos que um dia tive que anotar consta como registrado, tudo apagado. Em algum aspecto deixei de existir. Minha percepção de quem eu sou perpassa por esses anos perdidos, mas eles não existem mais. São feitos de memórias sem fé pública. Qualquer coisa feita pra corrigir será fora de hora. Tudo será refeito com uma nova data. Os anos continuarão vagos. Um lapso temporal que soa como anos sabáticos. A nova data valerá para documentos e constará no sistema, mas um pedaço de mim desapareceu. Ainda existe pra mim, mas oficialmente sumiu. Sou o que consta ou o que aconteceu?

Um bug de consequências burocráticas que num mundo de números e documentos afeta até os batimentos cardíacos e o funcionamento do intestino. Somos mais número que imaginamos. O acesso ao mundo depende deles. Somos afetados, somos dependentes.

Depois dessa, não sei por quanto tempo me sentirei confortável sem uma conta de banco e um cartão de crédito. Por não existir em termos capitalistas ou corporativos, fui rejeitada na hora de contratar alguns serviços algumas vezes. Nunca tinha me incomodado com isso antes, achava que era só uma bizarrice boa pra virar “causo”. Agora temo que a cada ano sem, eu passe a existir menos, independente de eu ter me tornado ou não mais gente. Afinal, é um número a menos e somos todos feitos por eles.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Conexão é a palavra.

Pedaço de uma mini-zine que fiz. Arquivo pessoal.

Mesmo muito antes daquele cdzinho do discador da IG, conexão já era uma palavra que tinha tudo a ver conosco. Conexão é aquele zunido bizarro da internet discada, inserir a senha do wi fi e ler conectado, mas também é cada ponto das nossas histórias que tocam as histórias dos outros.

Somos bicho humano e a gente sempre arruma um jeito de conectar. Os espaços de conexão são vários e todos parecem uma grande colcha de retalhos. Na cidade, os percursos são diversos, as pessoas também, eles se encontram e desencontram. De tanto se esbarrar, cria-se uma conexão. Ora são zés e marias ninguém, ora são aqueles do ônibus 9410, aqueles do twitter, aqueles do grupo de vídeos e fotos de bichos fofinhos.

Nesse mundo feito de esbarrões, onde linhas invisíveis unem e desunem pessoas, a gente existe e as conexões se fazem. Nem sempre entre pessoas. A gente se conecta até com os prédios bonitos que contemplamos no caminho. Basta ter tempo de olhar, olhar mesmo, para o cérebro criar uma lembrança nomeada prédiohistóricobonito.neurônio. Com o tempo, nossas histórias se tornam parte da cidade. A praça não é só a praça Nome Masculino de Um Cara Branco e Rico, ela é a praça onde a gente andou pela primeira vez de bicicleta, onde se quebrou o dente na infância, onde todo mundo joga pokémon Go.

A história começa no funcionamento dos neurônios. Os dendritos captam sinais elétricos e os retransmitem para o axônio e o axônio se conecta com outros neurônios ou mesmo com células de diferentes tecidos. Isso feito inúmeras vezes e em todo o tecido nervoso. Conexões múltiplas que juntas criam nossa percepção e memória. E o que seria da memória sem um punhado de ligações entre nós, os outros e as coisas?


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Chuva na janela

Imagem encontrada aqui

Hoje parei para pensar em tanta coisa. Acordei e contemplei o som da chuva batendo na janela fechada e os uivos causados pelo vento passando no corredor que os prédios formam nos centros das cidades. O barulhinho da água caindo camuflava os sons urbanos. Não dava para ouvir o vai e vem de carros. As coisas pareciam calmas, simples. Tudo pairava. O tempo e a cidade pareciam suspensos. O mundo parecia nosso. Tudo parecia um sonho. Tudo parecia certo.

Voltei a dormir, a chuvinha me ninou até que o dia nasceu de vez. Nem a chuva e nem os uivos de vento nesse horário são capazes de camuflar a cidade. As buzinas chamam atenção e lembram que a cidade parou, mas o tempo não, ele corre, independentemente de ter alguém parado na frente dele. Nesses casos, ele passa por cima.

A cidade foi interrompida no seu fluxo cotidiano. Nem ela, nem eu, podemos nos dar o luxo de descontinuar o que tem para hoje. O movimento é obrigatório, todo mundo está proibido de estacionar e finalmente conseguir ver qual é o melhor caminho no meio do caos da chuva e da cidade. Somos baratas tontas, corremos em círculos buscando a rua que não está engarrafada. Pelo menos agora tem Waze e Google Maps para ajudar.

O destino é certo. Vou para o ponto de ônibus, espero, avisto o veículo e corro para fechar a sombrinha e me enfiar no meio dos outros tantos que querem entrar logo naquela caixa de metal que não cabe todo mundo. Entro, sinto cheiro de gente molhada, suada, cansada, sigo, desço, vivo, mas sei que tem hora que todo esse movimento é só estagnação. Sei porque mais cedo estava pairando no ar e pensei que o sonho segue vivo, por mais que às vezes eu esqueça de tentar.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O universo alimentado pelo grão de arroz

Imagem retirada de uma publicação da Revista Globo Rural

Sentei em frente ao computador para almoçar. Entre uma garfada e outra, eu lia notícias e trocava mensagens com meus contatos. Concentrada na leitura, deixei cair um grão de arroz no teclado. Ele caiu bem entre as teclas, já se ajeitando para ficar bem longe dos meus dedos. Funcionou. Quanto mais eu tentava tirá-lo dali, mais ele se encaixava e se enfiava, até que perdi o arroz de vista.

“Por que narrar um pequeno acontecimento desses?”, você pode se perguntar. E eu responderei que por mais simples que seja um acontecimento, ele pode virar uma história. “Mas o que pode estar por trás de um grão de arroz caindo num teclado?”

Alguns diriam que essa é só mais uma história da lei de Murphy agindo, diriam até que essa era uma tragédia anunciada. Tudo que pode dar errado, dará. Comer em cima do teclado é um risco. Retirar o pendrive sem remover hardware com segurança também. Risco do século XXI, sabe? Outros, como eu, acham que pode até ter a atuação da lei em questão, mas suspeitam que tem uma história por trás desse arroz irresgatável.

Dizem “não coma em cima do teclado, qualquer farelo pode atrair um mundo de formigas”. E quem não ouve esse conselho acaba se chocando com as tantas poeirinhas, nojeirinhas, sujeirinhas e claro, as bactérias, ácaros e vírus, que não podemos ver, que encontramos ao fazer uma limpeza do teclado. Para mim, tantas migalhas reunidas é um indício de que há um universo além do nosso em cada teclado.

Esse universo se sustenta com os pedaços de pele morta que deixamos para trás a cada toque, com os pedacinhos de comida que deixamos cair, com o que o vento leva para ele e com as várias outras formas de juntar sujeira que existem. Note a importância do arroz nesse contexto: ele é uma enorme fonte de alimento que não surge todo dia. E agora você vê como a narrativa desse acontecimento bobo pode ser diferente?

O arroz caiu e foi impossível pegá-lo para jogá-lo no lixo, porque o universo presente ali e invisível aos meus olhos, o arrastava para debaixo das teclas. Eles queriam aquele arroz. Eles precisavam daquele arroz. Quando ele caiu, um mundo de possibilidades de novas vidas surgiram e por isso ninguém queria deixá-lo escapar. E agora? Agora eu preciso limpar meu teclado antes que esse universo fique grande demais e engula um cômodo do meu apartamento.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O mundinho por trás da anulação da vez

Imagem do Congresso Nacional retirada da Wikpedia

09 de maio, 2016.

O horário de almoço do brasileiro foi marcado por conversas em que todos os presentes teorizavam sobre a manchete “Presidente em exercício da Câmara anula votação do impeachment da Dilma”. Antes da última garfada, havia mais teorias sobre o que motivou Maranhão, presidente interino da Câmara agora que Cunha foi afastado, do que especulações sobre o que vai acontecer na série Game of Thrones.

Todos querem saber o vai acontecer e, de tão acostumados com esse clima político semelhante ao da série House of Cards, todos também querem presumir quais as articulações nortearam esse acontecimento. A sociedade clama por uma cobertura próxima ao que o site Ego faz dos famosos para saber detalhes dos últimos dias de Waldir Maranhão e assim alimentar suas suposições. Todos querem saber com quem Waldir Maranhão fez suas últimas refeições. Todos querem sabem se ele teve um encontro secreto e com quem. “Será que foi Cunha querendo mostrar seu poder na Câmara mesmo afastado?”, perguntam vários. Enquanto outros largaram as especulações de lado ao lembrarem que a comida ia acabar esfriando e optaram por parar de presumir e começar a mastigar.

Eu, narradora onipresente, dona dessa história, sei muito bem o que está por trás disso tudo. Para entender o que aconteceu, a gente precisa voltar ao fatídico dia 17 de abril de 2016.

Durante a votação pela admissibilidade do impeachment da presidenta Dima Rousself, a maioria dos deputados citaram deus e membros de suas famílias em seus votos. Um deputado, ao citar vários e vários familiares, se esqueceu justamente de seu filho e tentou corrigir o erro voltando ao lugar onde se proferia os votos e citando o nome do menino esquecido. Ele, esse mesmo, o cara que esqueceu de falar do rebento, é o articulador da anulação da votação. Liderados por esse deputado, parlamentares agiram para que uma nova votação acontecesse só para esse senhor voltar a ter paz nos grupos de família do Whatsapp.

Eu, a narradora que tudo vê e ouve, mais uma vez dei uma de intrometida e por isso ouvi todos esses caras confessando uns para os outros coisas como “Minha filha me pediu para citar a amiga imaginária dela nessa nova votação e eu não consegui dizer não” e “Meu tio-avó não me deixa mais em paz, ele quer ser lembrado por mim numa votação em que o Brasil inteiro está assistindo e todo mundo sabe que a maioria das pessoas só descobriu que tinha um tv Câmara na votação do impeachment, o que eu faço agora?”. São essas e muitas outras falas do mesmo teor é que foram a origem da articulação do plot twist da vez.

E eu, ingênua, por alguns momentos, enquanto ouvia os desabafos dos deputados, imaginei que algum deles concluiria que não deveria ter citado nenhum de seus familiares num voto em primeiro lugar. Achei que ouviria um “é, é isso que ganhamos quando misturamos o privado com o público”, imaginei que algum aprendizado ia sair dessa série de lambanças, mas descobri que essa visão patrimonialista pautada pela “Tradição, Família e Propriedade” also know as “Boi, Bíblia e Bala” não fraqueja nunca.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.