O corpo dela e outras farras: a misoginia em evidência

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Carmen Maria Machado, em seu livro “O corpo dela e outras farras”, usa a linguagem, a quebra de fronteiras entre gêneros literários e a potência política de se abordar o corpo feminino em oito contos narrados por elas. Ao menos na edição brasileira feita pela Planeta, na página que antecede cada um deles, há a imagem de um corpo feminino marcado em segmentos como se fosse carne de açougue, deixando claro que o fio condutor entre as narrativas parte do tratamento que mulheres recebem pelo mundo a partir disso.

Por mais diferentes que as histórias sejam umas das outras, todas elas abordam o lado sombrio de ser mulher. A violência que permeia a existência feminina aparece, ainda que camuflada num cotidiano de naturalizações que implicam sempre em mais do que se vê num primeiro momento, como em “Ponto do Marido”, “Mulheres de Verdade Têm Corpos” e “Oito bocados”.

As dores e dilemas se fazem presentes, mas Carmen Maria Machado não trata o corpo somente dessa forma. Suas personagens gostam de sexo, sentem tesão e a maioria se atrai ou se relaciona com outras mulheres, o que é tratado com naturalidade pela obra. Essa abordagem, entretanto, não é usada para evitar tratar de como certos terrores femininos se relacionam também com o exercício da sexualidade e a vulnerabilidade que ela pode significar.

A inadequação e o sentimento de não pertencer também são temas retratados nos contos, ganhando destaque principalmente em “A residente” e “Oito bocados”. Nos demais, isso se apresenta de forma mais sutil, como uma maneira de expor que quando se é uma mulher e se vive sabendo que seu corpo é um alvo de controle é quase impossível se sentir inteiramente parte do mundo ou dona de si.

Chama atenção como a autora mistura maneiras de contar histórias e ainda assim o livro tenha tanta unidade. Há distopias, como em o “Inventário”. Há terror, gênero que se manifesta de certa forma em todas as histórias. Há uma quebra no realismo, que acontece principalmente em “Especialmente hediondas” e “Mulheres de verdade têm corpos”. Há mudanças de ritmo, como a adição do recuso da não linearidade, que dá ao que é narrado um ar quase delirante em “Mães” e até mesmo um toque de tom folclórico ou de fábula como no conto “O ponto do Marido”.

“O corpo dela e outras farras” é chamado por muitos de “black mirror” feminista por abordar temáticas sociais de grande importância de uma forma moderna, ousada e que nos faz pensar sobre presente e futuro. O grande trunfo de Carmen é, provavelmente, conseguir abordar questões políticas e delicadas sem cair no erro de explicar demais os significados daquilo, enquanto mexe com as fronteiras entre realismo, fantasia e horror. A autora não tem medo de tratar de temas relacionados com opressões e faz isso muito bem.


Carmen Maria Machado participará da 17ª edição da Flip nesse sábado, dia 13 de julho, às 17h, num bate-papo com Jarid Arraes, no Auditório da Matriz. Também em Paraty e na mesma data, mas às 20 hs, vai rolar outra mesa com ela na Casa Libre & Sta. Rita de Cássia.

Na terça, dia 16/07, às 19:30, vai acontecer, dessa vez em São Paulo no Sesc da Avenida Paulista, uma outra conversa que contará com a presença da autora.


Tradutor do livro: Gabriel Oliva Brum.


Observação: As histórias que compõem o livro atraíram os olhares do mundo do entretenimento e ele será adaptado para TV pelo canal FX. O projeto ainda é bem inicial, mas promete.


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“Maternidade”: uma investigação sobre a pressão de se ter filhos quando se é uma mulher

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Tenho o hábito de postar imagens dos livros que estou lendo no stories do Instagram. Não sei se faço isso porque as redes sociais funcionam como uma vitrine e eu quero, talvez inconscientemente, vender uma imagem leitora para quem me segue ou porque acho que pode aparecer alguém lendo ou querendo ler a mesma coisa que eu e essa coincidência me permitir trocar impressões, quotes ou até mesmo ideias para uma possível resenha. Provavelmente as duas hipóteses são válidas, já que não são excludentes e eu bem sei que a lógica das redes sociais nos captura mesmo quando nos achamos espertos demais para isso.

As reações aos posts variam entre a visualização pura e simples e perguntas sobre o livro, nenhuma muito elaborada, mas sempre sobre a leitura em si ou sobre quem escreveu, mas quando publiquei a foto do “Maternidade” da Sheila Heti foi diferente. Mais de uma pessoa, ao ver a foto do livro, resolveu me perguntar se eu estava grávida com um certo tom de alegria.

Ninguém perguntou se eu pretendia matar alguém quando falei que estava lendo “Lady Killers” da Tori Telfer ou qual esporte eu praticava ou queria praticar quando me empolguei com livro “As esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky. Por que quando o título versa sobre maternidade e a leitora é uma mulher a reação óbvia é assumir uma gravidez desejada?

Sheila Heti, em um livro estruturado num formato de ficção introspectiva que faz certos trechos mais filosóficos ficarem com cara de ensaio, responde essa pergunta — e muitas outras — quando explora o universo da decisão feminina de ter ou não ter um filho sem medo de abordar até mesmo as arestas que essa questão faz surgir nas relações entre amigas, namorados e parentes.

A obra explora como a sociedade vê as mulheres, sejam as mães ou não mães, enquanto narra um processo de descoberta e autoconhecimento de uma personagem que vive a pressão da proximidade do fim da fase reprodutiva e a dúvida sobre optar ou não pela maternidade enquanto ainda há tempo, conflito que às vezes parece ter sido implantado na cabeça dela pela sociedade que cobra tanto isso das mulheres.

Por que ainda encaramos como se houvesse apenas uma decisão certa? Por que quando uma mulher escolhe não ter filhos isso passa a ser visto por outras mulheres como um julgamento sobre a decisão delas de maternar e vice-versa? Por que a sociedade trata homens que escolhem não se tornar pais de uma forma tão mais tranquila? Quem é a mulher que decide não ser mãe? Qual o nome que ela recebe?

Todos esses questionamentos são levantados por Sheila Heti de alguma forma nesse livro e as respostas são trabalhadas a partir do que a personagem-narradora pensa, diz e investiga sobre essa decisão que expõe o tabu que ainda envolve a não maternidade feminina.

A construção narrativa dessa história-ensaio parte das consultas constantes que a narradora faz usando uma técnica derivada do I Ching, sendo a maioria das perguntas relacionadas com a decisão sobre ser ou não ser mãe que a assombra, mas não só. Ela pensa, examina assuntos e se questiona o tempo todo, usando muitas vezes os sins e nãos que recebe do acaso nesse jogo de moedas que guia seus pensamentos e às vezes até suas ações.

A introspecção nesse romance serve como uma ferramenta para o leitor entrar em contato com as ótimas reflexões da personagem. É pelos seus pensamentos que conhecemos essa mulher, marcada pela insegurança e melancolia, e nos deparamos com um texto que questiona comportamentos sociais que atingem toda a coletividade.

Existe a mãe e a não mãe, como diz o livro em um momento. Uma é marcada pelo que se tem, a outra pela falta de. Quando a narradora de “Maternidade” questiona se deve ou não ser mãe e, a partir de suas reflexões sobre isso e todo o resto, escreve, ela tenta entender quem ela é dentro dessa lógica de significados que não parecem ser capazes de capturar a essência humana das mulheres.

A narradora, em dado momento do livro, diz que não quer ser uma passagem de homens para o mundo quando pondera que, ao longo da história, bastava para os homens que as mulheres existissem para dar à luz a eles e criá-los, enquanto parece ainda buscar uma justificativa para qualquer escolha que faça. Ela parece sentir que precisa embasar, especialmente, a decisão de ser uma não mãe, por saber que essa escolha ainda é vista como um não lugar e uma espécie de identidade indesejada.

Sheila Heti se debruça nessa questão sem esquecer de citar o passado — e o presente — das mulheres que nunca puderão escolher, as raízes da narradora-personagem, a questão do aborto, o peso da maternidade e o possível impacto disso na vida da mulher que escreve e faz arte e, no fim, a obra acaba servindo também para refletirmos sobre o peso de se fazer qualquer escolha, especialmente essas que são marcadas pelo tempo e por expectativas criadas por toda uma vida inserida em um sistema que define o que mulheres e homens devem fazer.


Sheila Heti, autora do livro “Maternidade” é uma das convidadas da 17ª edição da Flip. No dia 11 de julho, às 17h, no auditório da Matriz, que fica na Praça da Igreja da Matriz (Paraty-RJ), ela participará da mesa “Bom conselho”, junto com Kristen Roupenian, a autora de “Cat person e outros contos”.


Tradutora da obra: Julia Debasse


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Longe de casa: narrativas de mulheres obrigadas a se deslocar

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Guerras, conflitos internos, violência generalizada, perseguição política, étnica ou religiosa e variadas violações de direitos humanos obrigam pessoas a abandonarem suas casas e comunidades todos os dias. A ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) afirma que nos últimos dez anos o número de deslocados cresceu em mais de 50% e que há mais de 70,8 milhões* de pessoas no mundo nessa situação, sendo quase 60% delas oriundas de somente três países: Sudão do Sul, Afeganistão e Síria, com um crescimento considerável de pedidos de asilo feitos por venezuelanos nos últimos anos.

Esses deslocamentos, que podem ser internos ou envolver outros países, são marcados pela necessidade de ir embora numa busca por um mínimo de segurança e dignidade. Não há muita escolha quando ficar envolve tanto risco e sair de casa, algumas vezes só com a roupa do corpo, é uma questão de sobrevivência.

Malala Yousafzai, a pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz, sabe muito bem disso. Em 2009, quando ainda era uma anônima, a ativista e sua família tiveram que abandonar temporariamente a casa onde viviam no Swat devido a uma ação do exército paquistanês para expulsar o Talibã daquelas áreas. Alguns anos mais tarde, no final de 2012, depois de Malala sofrer um atentado grave motivado pela sua luta pela educação feminina, a família passou a viver no Reino Unido para fugir das ameaças que não cessavam.

A vida dos Yousafzai, como a de muitos, foi marcada pelo deslocamento forçado e agora, com o livro “Longe de casa”, Malala compartilha com o mundo a saudade que sente de seu lar e nos apresenta oito histórias de jovens mulheres nessa situação.

A diversidade de nacionalidades e motivações das colaboradoras da obra enriquecem bastante o livro, porque ajudam o leitor a ter uma noção da dimensão do problema em si e a perceber o quanto certas partes do globo são muito mais vulneráveis do que outras.

A invisibilidade dos conflitos e realidades que motivam os deslocamentos com certeza colabora com a visão estereotipada de muitos sobre o que é ser refugiado ou mesmo imigrante e carrega em seu cerne uma negligência com o que aflige o Outro. Sabemos muito pouco sobre o que acontece no Sudão do Sul, Iêmen, Congo, Myanmar e outras localidades e países, por exemplo, e isso diz muito sobre como o mundo trata a vida de parcela da população mundial como irrelevantes.

A história de Ajida, uma myanmarense que junto com sua família abandonou sua comunidade com medo da violência que poderia atingi-la por ser rohingya e cruzou a fronteira para chegar em Bangladesh, não é só sobre refúgio, é, principalmente, sobre a fuga de uma população da ameaça de genocídio e isso não pode ser esquecido.

Esse depoimento pontua também a questão do deslocamento motivado por questões ambientais e climáticas quando Ajida conta que mesmo já em Bangladesh todos os assentados tiveram que ser transferidos para outro campo com a chegada das monções e o aumento do risco de inundações. Com o aquecimento global, deslocamentos com esse viés já são uma realidade e poderão se intensificar.

Além disso, os relatos nos fazem pensar também sobre os refugiados que não são vistos juridicamente como parte desse grupo apesar de terem se deslocado numa situação em que não se via muitas escolhas. Analisa, por exemplo, é uma jovem guatemalteca que chegou aos Estados Unidos de maneira ilegal. Ela cruzou a fronteira do México e correu todos os riscos que conhecemos como parte da jornada do imigrante. Sua trajetória, para muitos, pode ser encarada como algo que foge do refugiado comum e da abrangência legal do termo, mas seu depoimento faz parte do livro, o que torna tudo que é dito ali ainda mais político. Ainda mais em tempos de construção do Muro de Trump.

“Longe de casa” tem como trunfo abordar direitos humanos em primeira pessoa. Esse livro de Malala Yousafzai é um grito coletivo de muito significado político em um formato que facilmente cria pontes com quem não tem familiaridade com o tema. Seu único defeito talvez seja ter colocado o foco em mulheres deslocadas, mas não abordar com a atenção necessária a violência sexual que ameaça as que vivem essa experiência.

*Os dados apresentados no livro escrito por Malala apontam o número de 68,5 milhões de refugiados, mas as estatísticas mais recentes, que contam com a influência da crise humanitária na Venezuela e um aumento considerável de deslocados de Myanmar e Somália , dizem que já são 70,8 milhões de pessoas nessa situação de deslocamento forçado. A ONU alerta que esse número pode ser ainda maior na realidade.


Esse texto foi escrito e publicado no dia 20 de junho, Dia Mundial do Refugiado. Essa data foi criada com a finalidade de conscientizar o mundo sobre a situação desse grupo social. Saiba mais sobre esse tema e ações relacionadas a ele no site da ACNUR.


Tradutora da obra: Lígia Azevedo


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Cat Person e outras histórias: o lado sombrio das relações

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Kristen Roupenian é uma das autoras convidadas para a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Evento que acontecerá do dia 10 a 14 de julho desse ano. Seu nome foi o primeiro a ser anunciado na agenda do evento, mesmo ela sendo uma estreante no mundo dos livros.

Sua importância se deu porque a autora protagonizou um fenômeno da literatura contemporânea após sua história “Cat Person” se tornar viral ao ser publicada na revista “The New Yorker” no final de 2017. O conto de Kristen foi um dos mais acessados da biografia da publicação e moveu debates intermináveis na internet durante dias, despertando, inclusive, até mesmo haters. A partir dessa história, muito se comentou sobre liberdade, consentimento, objetificação e trocas virtuais. Temas que receberam um baita holofote nos últimos anos graças aos debates feministas, especialmente a partir dos primeiros passos do #MeToo, episódio que se iniciou semanas antes da publicação do conto.

“Cat person” é especial por expor, em um texto cheio de camadas, aspectos quase invisíveis das relações de poder entre homens e mulheres. Em poucas páginas, a autora nos faz refletir sobre o quanto a paquera, mesmo marcada pela modernidade das mensagens de texto e de uma certa liberdade sexual feminina, ainda reproduz expectativas a partir de estereótipos de gênero e dominação masculina. Ainda há obrigações que mulheres acreditam ter por terem gerado uma certa expectativa e direitos que homens acham que merecem.

Essa história chegou ao Brasil traduzida pela Ana Guadalupe em um livro, publicado pela Companhia das Letras, que reúne mais onze contos escritos pela Kristen Roupenian. Em comum, todos falam sobre poder e tratam sobre aspectos sombrios da humanidade. Suas histórias, no geral, carregam em seu cerne uma estranheza e, em alguns casos, mesmo quando envoltos de realismo, características que dialogam com filmes de suspense psicológico e até terror.

A obra e estilo de Kristen nos deixam desconcertados, especialmente quando ela escreve sobre consentimento, a arte do flerte e todos os estereótipos envolvidos nisso. “Cara legal”, “Seu safadinho”, “Não se machuque” e “Vontade de morrer” são bons exemplos de como ela explora esse tema de uma maneira que incomoda e choca por expor as problemáticas que se fazem presentes nos relacionamentos humanos.

“Look at your game, girl” é uma narrativa que também merece destaque e mexe, principalmente, com mulheres. Nesse texto, a autora mostra como a violência rodeia o feminino desde que somos muito jovens e explora o medo que toda essa dinâmica causa na gente, evidenciando como essas histórias marcam nossas identidades. Esse conto, analisado a partir do contexto de toda a obra, ainda nos faz pensar no quanto as relações de poder são moldadas também pelos acontecimentos que circundam nossas vidas. O medo que nos acompanha talvez seja parte essencial do desequilíbrio de poderes nas relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres.

“Cat Person e outros contos” tem como trunfo a maneira que Kristen Roupenian aborda as relações humanas, a complexidade de seus vínculos, seus perigos e o quanto o poder mexe com a humanidade, especialmente quando ninguém parece estar observando.


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Elza Soares: a mulher símbolo do século XX

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Poucas biografias são capazes de abordar a história de toda uma época ao contar a vida do biografado, o livro sobre a vida de Elza Soares é uma dessas poucas exceções. Zeca Camargo, ao compartilhar as histórias da cantora com o leitor, indiretamente fala sobre nascer, viver e envelhecer como mulher e negra no Brasil do século XX.

Elza lidou com a pobreza, com a discriminação e com a violência destinada ao seu corpo por ele ser o de uma mulher. Sua carreira, marcada pelo enorme talento e pela vontade de cantar, foi construída apesar dos obstáculos criados pelo racismo, machismo e miséria. Sua história, mesmo sendo a de uma estrela, expõe a batalha pela sobrevivência de muitos brasileiros da época.

Apesar de sua voz única, ela nunca conseguiu simplesmente seguir o curso de sua fama como vários artistas brancos. A cantora precisou lutar para se manter em evidência, o que fez sua trajetória ser caracterizada pela presença de altos e baixos. Alguns bem baixos mesmo, como a própria reconhece e evita comentar com detalhes.

A música para a Mulher do Fim do Mundo foi inicialmente uma paixão proibida e também um meio de colocar comida na mesa e garantir a sobrevivência dos filhos. Viver de música sendo uma mulher era lidar com um estigma daqueles. No imaginário social, as artistas, por terem uma vida pública, não eram vistas como bons exemplos de mulheres direitas e a figura delas era ligada muitas vezes à prostituição. Seu pai, sua mãe e nem o seu marido aprovavam que Elza seguisse esse caminho. Ainda assim, ela seguiu. Mesmo que de forma pouco linear.

A primeira aparição de Elza no mundo da música é relacionada a esse dilema. Ela se inscreveu para participar do show de calouros do programa de rádio do Ary Barroso sonhando principalmente não com o início de uma carreira musical, mas com o prêmio em dinheiro que aliviaria por uns dias a busca pelo sustento de sua família. A atração pela música a guiava, como uma espécie de desejo secreto, mas sua prioridade era, acima de tudo, sobreviver.

Quando Ary Barroso, num tom de provocação, perguntou o que Elza tinha ido fazer ali e de onde ela tinha vindo, ela respondeu: “Do planeta fome”. As risadas que surgiram na sua entrada no palco foram substituídas pelo silêncio. Ela cantou, ganhou o prêmio da noite e ouviu de Ary que de sua apresentação nascia uma estrela. A frase que iniciou a carreira da cantora impacta ainda hoje — e também incomoda — por expor uma ferida da sociedade brasileira.

A violência masculina marcou presença na vida de Elza. Ela se casou aos treze anos com um um jovem que tentou estuprá-la. Seu casamento foi arranjado por seu pai que, em defesa da honra da filha, obrigou o agressor a se unir a ela. Sua vida a dois com esse homem foi extremamente infeliz e violenta. Além disso, anos mais tarde, a cantora também viveu um relacionamento abusivo com Garrincha. O biógrafo nos apresenta essas memórias com cuidado e expõe como essas práticas eram ainda mais naturalizadas na época, inclusive sobre os olhos da própria vítima e seus familiares, pondo o leitor em contato com a maneira que essas dores ainda afetam a dona dessa história. A sutileza dessa abordagem é interessante para mostrar como a biografada vê o que passou, mas peca ao não trabalhar diretamente a questão social envolvida nessa fase da vida dela.

Se debruçar sobre as memórias de Elza, narradas e comentadas por Zeca Camargo, é encarar o mundo real e entrar em contato com sofrimentos, desigualdades, miséria, intensidade, transformações, conquistas e amor pela música. Ela buscou sempre viver a partir do que ela acreditava ser certo para ela e se tornou um símbolo de uma época por isso.

Elza surgiu quando muitas gravadoras se recusavam a trabalhar com artistas negros e as poucas que faziam isso acabavam investindo menos neles e pode viver para questionar isso e outras tantas coisas. Ela viveu as mudanças sociais do século XX em seu corpo e hoje canta músicas que mostram o quanto o mundo se modificou desde que ela nasceu. Ela transformou e foi transformada, como boa filha do período que representa. Hoje, já em outro século, mostra que na velhice ainda há tempo de se reinventar, curtir e cantar e é essa postura de abraçar as oscilações do tempo que a tornam um ícone agora.

Elza é um nome que nos faz pensar no que o Brasil foi, é e pode ser caso a gente consiga enfrentar os obstáculos que se colocam entre o presente e um futuro menos desigual.


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“As esportistas” e o lugar da mulher

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As Olimpíadas não tiveram nenhuma prova de ciclismo feminino até 1984*, sendo que em 1967 Beryl Burton quebrou o recorde de velocidade masculino da época. Demorou dois anos para um cara superá-la, mas, ainda assim, nos jogos olímpicos, as ciclistas não podiam estar.

Quando se observa a história do futebol feminino no Brasil, o machismo fica ainda mais evidente. A modalidade passou quase 40 anos proibida de ser praticada e ainda hoje sofre com uma estrutura precária, pouco incentivo e é alvo de comentários maldosos que partem da ideia de que essa não é uma atividade para mulheres. Só que a restrição das mulheres nos esportes é ainda mais complexa do que a gente imagina. Até em modalidades consideradas hoje “mais femininas”, como a patinação artística, houve luta das pioneiras para competir profissionalmente.

As práticas esportivas nos ensinam sobre coragem, disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer. Quando há uma evidente falta de incentivo — e até de acesso — para as mulheres nesse espaço, há uma restrição ao desenvolvimento pessoal delas.

Esportes ainda não são encarados como lugar de mulher. Eles só são socialmente incentivados se a prática for amadora e com a finalidade de manter as mulheres numa determinada estética. O corpo feminino deve ser apenas um objeto a ser visto e admirado, jamais ativo, forte, hábil. Os homens podem ser o que quiserem. Algumas modalidades, inclusive, sofrem com um certo estigma que é marcado por comentários como “se você continuar a praticar isso, seu corpo ficará horrível”. O levantamento de peso é o principal exemplo disso, mas até a natação vez ou outra se torna alvo.

As atletas são lembradas mais como musas, caso se encaixem no padrão de beleza, do que por testarem seus limites individuais de forma obstinada. Nos portais esportivos, principalmente fora do período das Olimpíadas, elas só aparecem no pé da página. A verdade é que, apesar de tantas conquistas, sejam elas medidas em medalhas ou pela abertura de caminhos para as mulheres, as atletas sofrem com uma invisibilidade tremenda e é por isso que o livro “As Esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky, é tão importante.

As biografias apresentadas por ele são centradas, principalmente, em pioneiras, sendo a maioria delas estadunidenses ou europeias. Na edição brasileira, houve um acréscimo de cinco perfis de atletas do país, entre elas Marta e Aída dos Santos. Além disso, há uma grande diversidade de modalidades. Tem motocross, skate, escalada, hóquei, tiro ao alvo e até boliche e corrida de trenó com cães.

A obra nos permite conhecer histórias de mulheres que se destacaram por suas habilidades esportivas, determinação e vontade. Elas quebraram recordes e barreiras de gênero e, muitas vezes, também de raça.

Por causa da segregação nos EUA e da luta pelos direitos civis, muitas histórias mostram os obstáculos que atletas negras, como a jogadora de beisebol Toni Stone, tiveram que lidar e também destacam como algumas delas usaram suas vitórias e capacidades extraordinárias para questionar a barreira racial existente.

A corredora Wilma Rudolph, por exemplo, ao ganhar 3 ouros na mesma olimpíada, ia ser homenageada pela sua cidade natal com um desfile. Ela se recusou a participar dele porque as regras diziam que a cerimônia só poderia ser frequentada por brancos e, com essa pressão, o que antes seria segregado se transformou no primeiro evento integrado da cidade.

Visibilizar essas histórias ajuda a mostrar que o esporte feminino importa e que o espaço desportivo também nos pertence. Ainda há barreiras de gênero a serem enfrentadas, já que mulheres ainda não tem tanto acesso, exposição e valorização quanto os homens esportistas, mas, mesmo quando as barreiras eram ainda maiores, as mulheres foram lá e fizeram, abrindo as portas para todas nós.

As biografias dessas pioneiras nos inspiram por passarem a mensagem de que podemos ir em frente mesmo quando o machismo diz que não. Fazer isso é lutar por nosso direito de sermos vistas como pessoas.

*existe prova de ciclismo masculino desde o início das olimpíadas modernas.


Quer o kit do mais novo livro da Rachel Ignotofsky? A página do Facebook Mulheres Notáveis, numa parceria com a página de divulgação da obra no Brasil, vai sortear um no dia 09/05/19. Confira as regras e participe.


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A Pequena Sereia e o reino das ilusões patriarcais

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Hans Christian Andersen foi um autor dinamarquês que viveu no século XIX e escreveu diversos contos de fadas infantis, entre eles, “A Pequena Sereia”. O fascínio que essas criaturas mitológicas exercem na humanidade e a curiosidade humana sobre as profundezas do mar ajudou a tornar essa história bem popular inclusive entre crianças, especialmente após a adaptação cinematográfica feita pela Disney em 1989.

Tanto no conto original, quanto na famosa animação, a protagonista abandona sua vida nos mares e sua identidade, além de mutilar seu corpo, para tentar conquistar um homem. A Bruxa do Mar é feia, solitária, invejosa e infeliz. Uma personagem clichê, que tem sua vilania construída a partir de uma oposição ao que é colocado como ideal de feminilidade, enquanto a Pequena Sereia corresponde ao padrão de beleza e ama verdadeiramente um homem, como se é esperado de uma mulher.

A construção dessa história e das principais personagens reproduz uma mensagem que, agora, quase 30 anos depois, é questionada por Louise O’neill numa releitura feminista desse clássico.

O patriarcado marinho

Na versão de Louise, o reino do Rei dos Mares é uma epítome da opressão contra as mulheres e é nesse lugar que a Pequena Sereia cresce cercada por suas irmãs, sua avó e a intimidação de seu pai e outros tritões.

O valor das sereias está apenas na aparência que possuem, há um incentivo à rivalidade feminina, inclusive entre irmãs, o padrão de beleza é magro e os sacrifícios para tentar alcançá-lo são naturalizados, há casamentos arranjados e as sereias são vistas como troféus a serem ostentados.

Não importa o que as sereias sentem, querem ou expressem. O Rei dos Mares é quem manda e desmanda nesse lugar. A Pequena Sereia, chamada Gaia na releitura, se incomoda com essas regras tácitas e expressas sobre como ela e todas as outras devem agir e vê as histórias de amor contadas por sua avó e protagonizadas por príncipes encantados como um refúgio desse destino que parece inescapável. Isso se intensifica com a proximidade do seu casamento com um tritão bem mais velho escolhido por seu pai.

A (des)construção do amor romântico

Louise O’neill parte da mesma problemática da história original para questionar o amor romântico que nos é ensinado. O refúgio da personagem é esse amor ideal que não existe, mas chegou até seus sonhos por meio dos contos de fada. Ela quer viver esse amor das histórias com Oliver, humano que ela salvou após uma tempestade afundar um barco em que ocorria uma festa.

Naquele contexto de opressão que, além de tudo, envolve um casamento arranjado com um tritão agressivo e manipulador, Gaia encara a paixão humana, a mutilação e o abandono do mundo que ela conhece como a única alternativa para fugir de um destino que promete ser repleto de violência masculina e silenciamento. Mal sabe ela que a realidade das mulheres na superfície está bem longe do ideal.

A autora dessa releitura trabalha a jornada da Pequena Sereia no mundo humano como um processo de descoberta de si, do que é amor e do que é a realidade das mulheres nos mares e na terra. A lição que fica para o leitor é de que a libertação que a personagem tanto buscava não pode ser encontrada no despertar do amor de um homem.

Essa visão da Pequena Sereia sobre as alternativas e caminhos possíveis evidencia o quanto a feminilidade que nos é ensinada, seja na terra ou no mar profundo, é ligada ao casamento e a busca do amor. A identidade feminina é construída para ser complementada por alguém, por isso Gaia e muitas mulheres do mundo real buscam o despertar do amor de um homem como uma solução para todos os seus problemas, caminho que acaba se tornando uma nova prisão.

A descoberta do Outro

A trajetória da Pequena Sereia até o mundo humano também envolve descobertas sobre o fundo do mar. Ela vê parte excluída do reino de seu pai, conhece pessoalmente Ceto, a famigerada Bruxa do Mar, e é obrigada a lidar com as Rusalkas, jovens humanas que se afogaram e se transformaram em uma espécie de sereia que foge desse padrão de feminilidade que ela representa. São essas sereias de origem humana que seu pai e seu prometido marido querem exterminar.

A conversa dela com a Bruxa do Mar é um dos pontos mais interessantes do livro. Nesse momento, Gaia descobre uma história silenciada, uma sereia livre e a possibilidade de ser diferente sem ser necessariamente uma vilã clássica. Ela teme o que Ceto pode fazer contra ela por conta de tudo que sempre ouviu, mas é ali que ela começa a sentir um pouco de liberdade e ouve alguns conselhos que ela prefere ignorar.

Nesse encontro, a sereia, colocada como vilã para o povo sirênico, diz que quem a chama de bruxa é o Rei dos Mares, pai da protagonista, e que bruxa é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.

A mensagem da nova Pequena Sereia

Com essa releitura, Louise O’neill conseguiu transformar uma história problemática em um livro que toca pessoas de todas as idades, especialmente mulheres jovens. Ela aborda aspectos do machismo, incluindo a violência masculina e o padrão de beleza, de forma questionadora e expõe o quanto certas práticas e comportamentos são nocivos, apesar de serem naturalizados.

O processo de descoberta da protagonista carrega como ensinamento a importância de lutar para se viver com liberdade e autonomia e nos ensina que devemos tentar fazer nossa voz ser ouvida. Ela pode ser bem mais poderosa do que imaginamos, especialmente quando ela é fortalecida por outras mulheres.


Tradutora da obra: Fernanda Lizardo.


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Lady killers: as mulheres também matam

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Em “Alias Grace”, adaptação da Netflix do livro homônimo de Margaret Atwood, a personagem Grace Marks, sentenciada à prisão perpétua por ter assassinado seu patrão e a governanta da casa em que trabalhava, reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Tanto a minissérie roteirizada por Sarah Polley e dirigida por Mary Harron, quanto o livro de Margaret Atwood, são ficcionalizações de um caso de homicídio duplo que chocou o Canadá em 1843. Pouco se sabe sobre a Grace Marks real, mas “Alias Grace” parte dessa personagem para tensionar o que entendemos como feminilidade e assassinato e isso nos faz pensar sobre como o nosso olhar pode ser facilmente manipulado.

A curiosidade perante uma assassina mulher é tão diferente porque matar não parece ser algo muito feminino. A opressão de gênero que tanto aprisiona mulheres, incluindo as homicidas, parece nesses casos um disfarce perfeito e um provável fator que coloca certas vítimas como alvo delas.

Lady Killers, livro de Tori Telfer, dedica-se a trabalhar essa curiosidade por meio de pesquisa sobre mulheres que mataram mais de uma vez, mais de uma pessoa, em mais de um momento. Elas são as assassinas em série que pouco ouvimos falar ou que se tornaram personagens macabras, que tiveram suas histórias contadas como uma fantasia aterrorizante de luxúria e vaidade, como Elizabeth Báthory.

Quando a expressão “assassinos em série” aparece em uma leitura ou mesmo em um caso, a gente pensa em homens como agressores e mulheres como vítimas. Tirar a vida de alguém é um exercício de um poder absoluto que nossa cultura não consegue ver como algo que mulheres podem fazer. Isso colabora para que as seriais killers atuem por mais tempo e façam mais vítimas, já que não são vistas como suspeitas.

A curiosidade guia nossos olhares em ambos os gêneros. Queremos saber os porquês numa ânsia de tentar nos diferenciar dos que nos causam horror. Essa curiosidade atua com mais ferocidade quando as acusadas de matar são mulheres, mas o horror é visto como um atributo que acompanha melhor os homens assassinos. A frase da personagem Grace Marks é justamente sobre isso.

Há um estranhamento quando uma mulher é capaz de um ato tão vil como tirar a vida de muitos, apesar de estarmos inseridos numa cultura repleta de histórias lotadas de vilãs, bruxas más e madrastas cruéis. A vilania feminina para nós é ligada, principalmente, ao comportamento esperado das mulheres. O pressuposto de que mulheres devem ser recatadas, cuidadoras, mães dedicadas prevalece no imaginário social. As vilãs das histórias tem o efeito de mostrar quem não podemos ser, como não podemos agir. Quando a vilania feminina aparece na vida real no formato de seriais killers, o efeito que elas causam é tão incômodo, destoa tanto do ideal de mulher, que há um esforço coletivo e espontâneo de tratá-las como menos letais.

Tori Telfer destaca isso muito bem quando aborda o comportamento da mídia e da sociedade perante as assassinas pesquisadas. Nannie Doss, por exemplo, que confessou ter matado quatro maridos envenenados, mas também foi acusada de matar outros familiares, incluindo crianças, foi tratada como uma mulher em busca do amor. Como se isso amenizasse o horror dos atos cometidos por ela. Nannie se tornou uma espécie de paródia de uma dona de casa romântica que deu muito errado por caber tão bem no ideal de feminilidade da época.

As histórias das seriais killers são contadas pela autora de uma forma que evidencia a diferença de tratamento social, especialmente punitivo, entre elas. A classe sempre pesa muito, mas não só. Tillie Klimek, por exemplo, não teve a chance de escapar da prisão ou ter sua pena amenizada, como acontecia bastante em Chicago na época, por não ser considerada uma personagem atraente. Sim, a beleza, esse atributo colocado como tão importante para as mulheres, afeta até mesmo a maneira que olhamos para suspeitas de assassinato. É por causa do que é dito como feminino que tantas citadas nessa obra escaparam da pena de morte simplesmente por serem mulheres.

A pesquisa de Tori Telfer expõe como as visões estereotipadas torna assassinas personagens muitas vezes romantizadas, outras invisibilizadas. Elas existem, mas suas ações ainda são colocadas como algo fantástico, fora da curva. Mas será mesmo que seriais killers são tão raras assim ou elas escapam mais facilmente por agirem dentro do espaço colocado como feminino, o privado, e por estarem acima de qualquer suspeita?

Talvez, nossa cultura, ao ligar mulheres à vida, ao cuidado, ao amor, à ingenuidade, nos faça esquecer que a violência e a crueldade são, acima de tudo, uma questão humana. Sabemos muito bem como a masculinidade patriarcal molda homens para buscarem a dominância e violência, mas é uma surpresa conhecer histórias que mostram que mulheres também podem ter um lado sombrio e cruel mesmo sendo condicionadas a se comportarem de modo oposto.


A edição brasileira do livro, feita pela DarkSide e traduzida por Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana, conta com uma pesquisa extra que nos apresenta mais 14 seriais killers, incluindo nomes famosos como a da mulher que inspirou o filme Monster e uma espécie de glossário com obras sobre.


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Inferior é o car*lho: o que a ciência diz das mulheres pode estar errado?

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“Quem somos nós?” é uma dessas perguntas que são uma espécie de gatilho para questionamentos sobre comportamento, constituição física, inteligência, sociedade, evolução, passado, presente e futuro. É uma indagação tão frequente e tão ampla que se tornou cerne de diversas áreas da ciência. Mas, dentro do cânone científico, quem faz parte desse “nós”?

Homem, por muito tempo, foi o principal sinônimo de ser humano e de humanidade. Mesmo atualmente, seu uso é frequente, ainda que críticas a utilização dessa palavra nesse contexto sejam cada vez mais habituais. Esse pequeno detalhe diz muito sobre qual parte da humanidade é foco de pesquisas e é considerada detentora do conhecimento científico. A questão é: de que maneira isso afeta como a ciência — e também a sociedade — vê as mulheres hoje?

“Inferior é o car*lho”, de Angela Saini”, é uma investigação jornalística que questiona, por meio da própria ciência, a visão científica de homens e mulheres.

Eles são mais inteligentes e elas mais emocionais? Elas são castas e eles promíscuos? Elas não contribuíram ou contribuíram muito pouco para a sobrevivência e evolução da humanidade? E a cultura? Todos esses questionamentos e muitos outros são trabalhados pelo livro a partir da apresentação do que diziam no passado, muitas vezes bem recente, e o que apontam as novas pesquisas científicas que contestam essas teorias.

A maioria desses novos trabalhos citados por Angela foram elaborados por mulheres. Elas, ainda que lentamente, começaram a aumentar sua presença nesse espaço visto como masculino — e branco — e, assim, fazer parte da versão científica do “Quem somos nós?”. Isso tem sido benéfico para a discussão sobre o sexismo da ciência e nos faz questionar o quanto o ainda pequeno número de mulheres no topo das carreiras científicas é também causa e consequência de como a ciência tratou as mulheres em sua história.

A obra expõe o fato de que a ciência, apesar do método científico, também é influenciada pela cultura vigente e o quanto a visão dos cientistas sobre sexo e gênero afeta o interesse em determinados temas, a interpretação de comportamentos e também a análise de resultados. O conteúdo trabalhado pela jornalista Angela Saini aduz o quanto é importante reconhecer isso para que os resultados das pesquisas sejam mais efetivos. Apesar das críticas que argumentam o contrário, o feminismo de cientistas tem ajudado a tornar a ciência mais objetiva e a reescrever a história das mulheres.


Obs: A edição brasileira foi publicada pela DarkSide e conta com um prefácio escrito pela Heloísa Buarque de Holanda e obras incríveis do Coletivo Balbúrdia distribuídas pelas páginas do livro e foi traduzida por Giovanna Louise Libralon.


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“Falsa acusação”: a história de Marie é um exemplo do que é a cultura do estupro

Acervo pessoal — ilustrações feitas por mim — Adquira seu exemplar aqui.

Em 2011, durante um fórum sobre segurança e prevenção de crimes na Universidade de York, Toronto, um policial disse que as mulheres deviam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas de estupro. A fala causou incômodo e foi contestada publicamente através de um ato em repúdio que contou com a participação de 3 mil pessoas.

O caso, graças ao protesto, ganhou o mundo. Mulheres de cidades dos Estados Unidos, Holanda, Portugal, Argentina, Índia, Coréia do Sul, Israel, Colômbia, Chile, México e Brasil também foram às ruas para questionar a forma que os crimes sexuais são tratados pela polícia, pelo judiciário e pela sociedade.

Essa movimentação toda ganhou o nome de “SlutWalk” (“Marcha das Vadias” no Brasil) e se incorporou ao calendário de luta de diversos lugares. O nome e alguns slogans do movimento receberam críticas — bem válidas, por sinal — de muitas feministas, mas é inegável que essa pauta ter tido esse efeito viral diz muito sobre o mundo que vivemos e o quanto a cultura do estupro precisa ser discutida e combatida mundialmente.

Também em 2011, Marie recebeu a notícia de que seu estuprador tinha sido preso após dois anos, sete meses e uma semana desde sua denúncia. Denúncia que foi considerada falsa e fez ela ser processada pelo Estado.

Marie confundiu detalhes de seu relato. Marie reagiu ao estupro de forma diferente do que algumas pessoas esperavam. Marie foi intimidada pela polícia que deveria apoiá-la e interrogada com um método usado para obter confissões de criminosos e acabou voltando atrás sobre a acusação que tinha feito. Ela disse que mentiu, mas dias depois tentou confirmar a denúncia novamente. Não a ouviram e ela foi denunciada por falsa comunicação de crime. Todas as provas do caso dela foram descartadas por isso.

“Falsa acusação — uma história verdadeira” nasceu a partir de um artigo vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo investigativo e é um livro que aborda a cultura do estupro a partir da história de Marie e de outras vítimas de Marc O’Leary.

O trabalho feito pelos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong se divide em duas frentes: contar a história de Marie abordando o descaso que ela sofreu e os impactos disso em sua vida e expor como esse estuprador serial foi pego através de um trabalho investigativo e cooperativo liderado por duas detetives: Stacy Galbraith e Edna Hendershot.

Durante toda a obra, os autores apresentam dados, falas de especialistas e informações históricas sobre a abordagem do crime de estupro nos Estados Unidos.

Nossa sociedade, assim como a estadunidense, foi construída pautada no que homens falam sobre mulheres e, por muito tempo, o que eles disseram nos pintou como falsas, traiçoeiras, manipuladoras. Para eles, mentir sobre um estupro era o que vadias faziam após ceder à tentação do sexo. Séculos se passaram desde o primeiro homem a falar isso publicamente enquanto jurista nos EUA, mas a dúvida sobre quem é e o que quer a vítima de um estupro ainda prevalece quando a denúncia é feita.

Os jornalistas também relacionam a luta das mulheres com algumas conquistas básicas obtidas, enquanto expõem o quanto ainda é preciso mudar institucionalmente e culturalmente para que os números de subnotificação, processos e condenações se modifiquem.

Os mitos sobre estupro e sobre como mulheres agem e são na vida cotidiana ainda impactam em como elas são tratadas em todas as esferas de um processo legal e precisam cair por terra. Expor casos como o de Marie faz parte dessa luta, porque o silêncio que cerca a violência sexual torna as vítimas meras sombras e isso as coloca como um alvo fácil de desumanização.

“Tem algo estranho nesse caso” anda junto com o silenciamento histórico que acompanha as sobreviventes de estupro. Uma conversa franca sobre violência sexual é necessária para combater a manutenção desse imaginário popular sobre a vítima e o estuprador e a quebra do silêncio é parte desse processo de construção de uma nova visão sobre consentimento, violência, vítima e agressor.

A desumanização também está em assumir que todas as vítimas agirão de uma forma específica e duvidar de todas que não respondam ao que se espera conforme o senso comum. As estranhezas que podemos enxergar num relato fazem parte, muitas vezes, de como o cérebro reage ao trauma: o choque causado pela violência afeta a memória e isso dificulta que a narração do acontecido seja linear, por exemplo. As reações de distanciamento do fato podem ser apenas a forma que a pessoa encontrou para lidar com o que passou.

Marie foi estuprada por um desconhecido que invadiu sua casa, mas a maioria dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. Em casos em que a denúncia recai em ex-namorados, colegas e afins, a credibilidade de quem denuncia é ainda mais baixa. Isso nos faz pensar em como o problema é ainda maior do que o exposto em “Falsa acusação”.

A história contada no livro funciona como um alerta sobre o quanto a cultura do estupro está impregnada em nossa sociedade e como ela colabora para a revitimização das pessoas, especialmente mulheres, que sofreram violência sexual. Uma mensagem nada inovadora, ao menos no meio feminista, mas que precisa ser reiterada enquanto for necessário.

Seis anos separam a Marcha das Vadias do #MeToo e as discussões sobre culpabilização da vítima, consentimento e misoginia institucional seguem buscando uma transformação que virá a partir da informação, do debate e da contestação do machismo e da misoginia.

Que a gente quebre o silêncio e conteste o tratamento que nos é dado ao denunciar casos concretos ou falarmos sobre o assunto. Que a raiva que sentimos ao conhecer casos como o de Marie nos mova para a mudança.


Tradutora da obra: Daniela Belmiro.


Observação: A história do livro foi adaptada em formato de série pela Netflix. Unbelievable é o nome da obra audiovisual em questão.


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