7 possibilidades de valorizar o trabalho artístico feito por mulheres

Erase Discrimination, 1999; Pink rubber with ink screenprint, The Guerrilla Girls Talk Back.

A virada de um ano para o outro marca para muitas pessoas o início de novas possibilidades: a gente revê nossos hábitos, estabelece metas, cria novos projetos, faz listas com o que queremos fazer nos 365 dias seguintes e refletimos sobre toda uma nova rotina que combina mais com quem a gente quer ser. Se no último ano, você percebeu o quanto a arte feita por mulheres é desvalorizada e se assustou com o quão poucas artistas, escritoras, diretoras mulheres você conhece e uma de suas resoluções do novo ano é valorizar mais o trabalho delas, tenho uma lista de ideias de como começar.

1) Conheça, acompanhe e participe de hashtags de projetos como o #LeiaMulheres e o #52FilmsByWomen

A Women In Film criou um movimento para dar visibilidade às produções cinematográficas femininas. A proposta é ver um filme dirigido por uma mulher por semana durante um ano e postar sobre ele nas redes sociais usando a hashtag #52FilmsByWomen ou a versão em português #‎52filmesPorMulheres. Já a #LeiaMulheres foi inspirada na hashtag #ReadWomen2014, criada pela Joanna Walsh e que propõe celebrar obras de escritoras. No Brasil, além do uso da hashtag ter viralizado, houve uma proliferação de clubes de leitura com essa temática em várias cidades e de sites com resenhas de livros de autoria feminina. A reflexão sobre as mulheres no mercado editorial foi além e hoje existe também a iniciativa #LeiaMulheresNegras, que divulga a literatura feita por elas para combater a invisibilidade que o combo do machismo com o racismo faz existir.

2) Busque conhecer e ler escritoras brasileiras

O mercado editorial tem poucas mulheres em destaque, entre essas poucas, a maioria é norte-americana ou europeia, por isso é importante valorizar as escritoras daqui. Além disso, conhecer escritoras brasileiras é uma forma de conhecer o país que você vive e as diversas realidades e ficções que podem acontecer dentro desse território. Não sabe por qual autora começar? Sugiro conhecer as obras de Ana Paula Maia, Angélica Freitas, Ana Rüsche, Aline Valek, Conceição Evaristo, Eliane Brum, Elisa Lucinda, Jarid Arraes, Ryane Leão, Socorro Acioli, Carolina Maria de Jesus, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hist e muitas outras.

3) Valorize o trabalho de escritoras e artistas independentes

Ficar preso às publicações das grandes editoras e às exposições das galerias famosas faz a gente perder muito trabalho bom. Sendo a arte um espaço ainda predominantemente masculino e branco, os trabalhos que ficam à margem costumam ser justamente o de mulheres e de outros grupos que sofrem discriminação. Vale a pena ficar de olho nos sites de financiamento coletivo! Uma alternativa que tem sido muito utilizada por artistas e escritoras.

4) Acompanhe páginas que divulgam trabalhos feitos por mulheres, que indicam novos nomes da literatura e arte, exposições e filmes

No Medium temos, por exemplo, a iniciativa Mulheres que Escrevem, que divulga muitas produções literárias femininas. Além delas, indico também: Mulheres Notáveis, Mulher no cinema, Mulheres nos quadrinhos, Arte feminista, Arte das Minas, Leia Mulheres e Leia Mulheres Negras.

5) Troque referências

Indique leituras, filmes, artistas. Resenhe. Chame suas amigas e seus amigos para ver algum filme em cartaz dirigido por uma mulher. Apoie o trabalho das escritoras, artistas e cineastas que você gosta. Elogie, mostre que se importa com o que elas produzem. Compartilhar nomes femininos que fizeram uma arte que te agradou é uma forma de valorizar o trabalho das autoras e você ainda abre portas para ouvir indicações de outras pessoas e conversar sobre.

6) Conheça zines e publicações que valorizam os trabalhos das minas

Como a Fale Com Elas, a Alpaca Press, Revista Farpa e outras iniciativas. Os exemplos citados são publicações organizadas e editadas por mulheres que reúnem trabalhos de autoria feminina. Um inception de valorização das minas.

7) Frequente exposições artísticas de mulheres.

Pare sempre para pensar na quantidade de trabalhos de mulheres presentes nas exposições coletivas. Vá nas exposições individuais de artistas mulheres. Busque saber mais sobre artistas e escritoras de épocas passadas. Pesquise sobre artistas e escritoras contemporâneas. Conheça as Guerrilla Girls. Destrua a ideia de que mulheres na arte têm o papel de musas!


Texto adaptado de uma publicação feita por mim na Alpaca Press. O projeto acabou e por isso alguns textos meus publicados originalmente por lá serão republicados por aqui.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Calibã e a bruxa: a transição para o capitalismo e sua relação com a perseguição das bruxas

Capa do livro — Arquivo Pessoal

Calibã e a bruxa, livro escrito pela historiadora feminista Silvia Federici, foi publicado pela primeira vez em 2004, mas somente ganhou sua versão em português treze anos depois com uma caprichosa edição feita pela Editora Elefante.

A obra expõe uma análise sobre a transição do feudalismo para o capitalismo sem ignorar a presença das mulheres durante esse período. Assim, representa um contraponto às narrativas predominantes, que encaram a história sem observar o impacto dos acontecimentos nas mulheres e as ações que contaram com a participação feminina.

Quando se estuda um período histórico sem observar a história das mulheres, há um apagamento delas enquanto parte da sociedade e isso resulta em análises falhas que ignoram momentos históricos cruciais. A caça às bruxas, suas motivações e tudo que aconteceu que serviu como base para esse ataque é um desses pontos que passaram batido por diversos estudiosos, incluindo Karl Marx e Foucault.

Silvia Federici apresenta informações sobre a história das mulheres, das lutas coletivas durante o feudalismo, da vida comunal e do controle do corpo pelo Estado que são essenciais para entender as transformações que o capitalismo trouxe, especialmente para as mulheres. A autora expõe como a caça às bruxas não foi algo que aconteceu simplesmente por causa das crenças de uma época, como alguns insistem em dizer, e consegue relacionar a perseguição e a morte das mulheres com a exploração do corpo feminino necessária para a construção do proletariado e para a manutenção da lógica capitalista.

O estudo feito nesse livro mostra a influência de momentos de desequilíbrio econômico e de crises demográficas, como a ocorrida durante a Peste Negra, nas leis e na política de terras e como essas mudanças institucionais e seus efeitos culminaram na caça às bruxas e, por fim, no controle estatal do corpo das mulheres ainda vigente hoje.

Silvia Federici sustenta em diversos trabalhos que o capitalismo se ampara na exploração do trabalho reprodutivo e de cuidado feito pelas mulheres de forma gratuita no seio de seus lares. Em Calibã e a bruxa, ela expõe como o aprofundamento da divisão entre homens e mulheres, a campanha de terror contra elas e a destruição da autonomia e o sequestro dos conhecimentos femininos sobre contracepção e parto foram pontos essenciais para a acumulação primitiva. Elas se tornaram as produtoras de mão de obra, num momento em que o corpo humano era a única máquina disponível, e todas as possíveis funções que elas poderiam assumir fora dessa lógica sofreram uma intensa desvalorização quando feitas por elas.

A institucionalização da violência contra as mulheres, a resistência feminina, o olhar masculino sobre elas e o controle estatal sobre a vida de todos foram os pontos que mais me chamaram a atenção durante a leitura. Essa obra é um mergulho na condição feminina na história e apresenta informações e argumentos essenciais para se entender a misoginia hoje. Sem esquecer, contudo, de analisar também a exploração dos povos originários da América, a escravatura e a colonização, enquanto processos capitalistas.


Você pode adquirir o livro diretamente com a Editora Elefante clicando aqui ou a partir do meu link da Amazon.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Quem, afinal, é Grace Marks?

Cena de “Alias Grace” — Grace (Sarah Gadon) em sua cela.

“Quem é Grace Marks?” é a pergunta que nos acompanha durante todos os episódios da série Vulgo Grace, adaptação da Netflix do romance homônimo escrito pela canadense Margaret Atwood. Com Sarah Polley, como roteirista e produtora, e Mary Harron na direção, a minissérie nos prende com diálogos, boas atuações e uma personagem complexa e intrigante.

Em 1843, um crime abalou o Canadá. Nancy Montgomery, a governanta, e seu patrão, Thomas Kinnear, foram assassinados. A empregada Grace Marks, 16 anos na época, e o cocheiro James McDermott foram acusados de matá-los. Ambos foram condenados ao enforcamento, mas a jovem acabou sendo sentenciada somente à prisão perpétua.

Com base nessa história real, Atwood escreveu uma obra que nos faz pensar nos padrões de gênero da época e como eles impactavam toda a sociedade, inclusive no julgamento criminal, sem definir qualquer resposta sobre a inocência ou não da protagonista. A adaptação segue a mesma lógica.

Numa cena, ela reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Pura e ingênua ou instrumento do demônio para tentar os homens? Uma louca ou uma sádica? Assassina ou vítima das circunstâncias? Santa ou a personificação do pecado? Mentirosa, viciada em agradar ou honesta? Grace narra sua história para o Dr. Simon Jordan e, enquanto conhecemos sua origem, seus sofrimentos e as poucas alegrias que teve na vida, percebemos que ela escolhe bem as palavras que vai usar. Ela provoca empatia, ao mesmo tempo que nos faz pensar “ela faz isso de maneira proposital?”.

Em sua narrativa, descobrimos que a protagonista é uma imigrante irlandesa que foi para o Canadá junto com sua família para fugir das perseguições que os protestantes estavam sofrendo em sua região. Filha mais velha de cinco irmãos, sua mãe morreu no trajeto marítimo e seu pai era um alcoólatra, violento e abusivo. Sem demora, ficou sozinha no mundo.

Sua vida foi marcada pela opressão feminina e suas regras opressivas e pela questão de classe. A obra conta um pouco das condições das servas do século XIX , expõe o medo constante da violência sexual e como os patrões usavam as jovens garotas que trabalhavam como empregadas. Uma realidade constantemente invisibilizada em vários estudos sobre o período, mas bem desenvolvida nessa obra literária.

O ideal de mulher era o de bela, recatada, obediente e casta. Todas as outras possibilidades eram vistas como pouco dignas. Sarah Gadon brilhou na atuação como Grace por conseguir passar essa imagem para a personagem e, ao mesmo tempo, trazer dúvidas sobre ela ser ou não ser assim. As mesmas dúvidas que ainda pairam sobre as mulheres até mesmo enquanto vítimas. Sentada na sala com o Dr. Jordan, ela borda sem parar, cita deus e fala sobre como as mulheres devem ser. “Quando você é encontrada com um homem em seu quarto, você é culpada, não importa como ele entrou”, ela diz e explicita as regras da sociedade vitoriana.

Em seis episódios, Grace nos faz acreditar, desconfiar e refletir sobre o quanto há de verdade em suas falas, enquanto nos revela os horrores dos hospícios, das prisões e das mulheres. “Quem, afinal, é Grace Marks?” é uma pergunta sem resposta. A única certeza é que a dualidade do “Santa e demoníaca? ou do “Vítima ou vilã?” parece ser algo que assombra todas as mulheres de uma época, não só as condenadas por assassinato.

Mais uma cena da série “Alias Grace”.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Leia a entrevista com a diretora da adaptação aqui.

Os rumos do Brasil, a PEC 181/15 e a obra “O conto da Aia”

Capa do livro “O conto da Aia”. Adquira seu exemplar aqui.

Há um Projeto de Emenda à Constituição em trâmite no Congresso Nacional que recebeu o apelido de “Cavalo de Tróia contra as mulheres”. O motivo? Transformaram um projeto que buscava ampliar a licença maternidade para as mães de prematuro em algo que define a vida como inviolável desde a concepção.

Se essa PEC se tornar realidade, o aborto nos casos de risco à vida da mãe, gravidez decorrente de estupro e feto anencéfalo podem ser criminalizados. Um retrocesso assustador.

Ao colocar a função reprodutiva da mulher acima de sua dignidade, isso relativiza o estupro e a visão de que mulheres são gente, como eu afirmei no meu texto “Por que a PEC 181 ganhou o apelido de “Cavalo de Tróia das Mulheres”?”.

Com o avanço da força do projeto conservador que busca controlar as mulheres, fica impossível não pensar nas relações entre o livro “O conto da Aia” com a atualidade.

Gilead é uma teocracia que se baseia no controle, especialmente das funções e do corpo das mulheres. Há Aias, Martas, Esposas, Econoespostas e Tias. Entre todas, apenas as Aias podem engravidar e sua função nessa sociedade é essa.

Quando 18 homens votaram sim para a PEC 181/15 e ela foi aprovada na Comissão Especial, eles disseram que a função das mulheres é engravidar e parir, independente dos riscos dessas gravidezes para a saúde física e mental das gestantes e da concepção ter sido ou não fruto de uma violência gravíssima. Eles mostraram que não se importam com nossas vidas, dignidade e saúde, eles nos veem apenas como receptáculos. Assim como os homens de Gilead veem as Aias, as únicas que ainda podem gestar e parir.

“O conto da Aia” é uma ficção que nos assusta tanto justamente por percebemos o quanto ela se baseia numa visão de mulher que ainda segue firme e forte no Brasil, nos EUA, no Canadá e no resto do mundo.

Não somos parideiras. Não somos receptáculos. Não somos incubadoras. Somos pessoas e temos direito à vida, saúde, autonomia e dignidade.


Texto publicado originalmente em minha página do Facebook. Se interessou pelo livro citado no texto? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

Fale delas

Arquivo pessoal — foto do livro “Wonder Women” — Adquira seu exemplar aqui.

Tenho certeza que você já ouviu alguém dizer que mulheres nunca descobriram ou inventaram nada e que o sexo frágil não participou de momentos de guerra ou de desenvolvimento científico. Isso é uma mentira.

Numa tentativa de desqualificar o feminino, muitos ignoram as mulheres que, apesar da conjuntura desfavorável, conseguiram romper barreiras e ter seus feitos documentados e o contexto de subjugação patriarcal que perdura por séculos e começou a mudar de forma mais concreta somente há cerca de cem anos.

O livro “Wonder Women — 25 mulheres inovadoras, inventoras e pioneiras que fizeram a diferença”, escrito por Sam Maggs e ilustrado por Sophia Foster-Dimino, fala de mulheres que quebraram padrões e fizeram história, mas que são desconhecidas pela maioria das pessoas.

Ao narrar a trajetória de cada uma delas, Sam Maggs usa uma linguagem divertida e, com humor, faz pontuações importantes sobre a realidade da época em que cada uma viveu.

Muitas vezes a própria história contada já evidencia a desigualdade e os desafios que as mulheres enfrentavam. A luta para adentrar numa faculdade e cursar o ensino superior tangencia a história das notáveis Elizabeth e Emily Blackwell, por exemplo. O Efeito Matilda acontece quando as contribuições científicas feitas por mulheres são atribuídas a homens e isso é exposto quando se fala em Lisa Meitner, física nuclear austríaca, e Alice Ball, química e pesquisadora médica dos EUA. Outras formas de discriminação aparecem também nas histórias de espiãs, inventoras e aventureiras. Ler essa obra é se deparar com os obstáculos que mulheres foram obrigadas a lidar por séculos e com a luta de cada uma para viver como protagonista de sua própria vida diante desse contexto.

Quantas histórias de mulheres incríveis se perderam porque a sociedade machista atribuiu seus feitos a um homem? Quantas foram esquecidas devido a invisibilidade das obras de seu gênero? Quantas deixaram de acontecer por causa da exclusão das mulheres de diversos espaços? Quantas mulheres foram apagadas também por causa de sua cor? E de sua sexualidade? Inúmeras e as engrenagens que fazem a história parecer ser feita apenas por homens, brancos e héteros segue funcionando. Como podemos dificultar que esse mecanismo siga da mesma forma?

Fale das mulheres que conhecemos os nomes e das que desapareceram nos meandros da história. Fale das descobertas, invenções e conquistas que foram feitas por mãos femininas. Fale delas. Espalhe o quanto o mundo tentou apagar o que foi realizado por elas e, mesmo com tudo ao seu favor, nunca conseguiu por completo. Celebre a coragem das que abriram as portas para todas. Crie narrativas para preencher as lacunas ficcionais de séculos de obras em que mulheres eram só musas. Fazer isso não é buscar apagar as contribuições dos homens, é apenas uma tentativa de visibilizar o que deixou e ainda deixa de ser visto por causa da dominação masculina e branca.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O Conto da Aia: A sombra de um futuro distópico já vive entre nós

Imagem do livro — Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

O livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, foi publicado pela primeira vez em 1985 e, após mais de trinta anos de seu lançamento, foi adaptado ao formato de seriado e se tornou uma febre mundial.

“Nenhuma bugiganga imaginária, nenhuma lei imaginária, nem atrocidades imaginárias. Deus está nos detalhes, é o que dizem. O diabo também” foi a regra que Atwood criou para si mesma para escrever esse livro. E talvez seja justamente essa possibilidade dos acontecimentos narrados na obra serem o futuro por, de forma isolada, aqueles fatos já terem existido ou ainda existirem, tenha tornado a obra icônica. Há um reconhecimento em comum, um lembrete que a questão não é só o medo do que vai vir, há muito daquele horror no presente e no passado.

Após um golpe contra o governo dos Estados Unidos, Gilead, uma teocracia de direitos muito limitada, é criada. Com os graus de fertilidade cada vez mais baixos devido a contaminação de águas, terras e afins, garantir a procriação da população passou a ser o principal argumento da necessidade de imposição de leis absurdas e, mais uma vez, a culpa da esterilidade ficou na conta só das mulheres.

Nessa nova sociedade, as mulheres tiveram seus direitos restringidos ao extremo e suas existências passaram a depender de um encaixe em uma das quatro atribuições disponíveis para elas, essas muito ligadas ao que é definido como feminino na sociedade que vivemos hoje.

As mulheres de Gilead podem ser Aias, Martas, Esposas ou Tias e cada um desses papéis têm um código de vestimenta restrito e com cores específicas que sinalizam seu status naquela sociedade, criando uma rivalidade entre elas. As mulheres que não se encaixam são vistas como “não mulheres” e são mandadas para trabalhar em campos de trabalho forçado, um destino de morte certa. Extermínio.

As mulheres em idade fértil que pariram em algum momento de suas vidas se tornam Aias, mulheres treinadas para engravidar, parir e amamentar um filho destinado ao Comandante e sua Esposa. Suas vestem parecem hábitos, são vermelhas e são acompanhadas de um chapéu branco que escondem seus rostos. As Esposas vestem azul, como Virgem Maria, e são mulheres inférteis casadas com os Comandantes. As Martas vestem verde e são responsáveis pelos trabalhos domésticos, enquanto as Tias têm a função de educar as Aias a servirem e usam marrom. Também há as econoesposas, as esposas de homens de classe mais baixa que a dos Comandantes, ponto pouco explorado do livro. Esses homens não têm o direito de possuir Aias, maior símbolo de status dessa sociedade.

A situação de todas as mulheres na República de Gilead é de privação de direitos, mas o lugar das Aias é o de um receptáculo controlado. Elas são um objeto de poder, por possuírem um útero fértil, esse signo de sua opressão. A história do livro é narrada por uma Aia. Seu nome verdadeiro é desconhecido, mas dentro do regime, ela é Offred, que significa “De Fred”.

A narrativa do livro é um fluxo de pensamentos da narradora-personagem. Ora a protagonista fala de suas memórias, para a gente entender como tudo era antes e quem ela foi um dia, ora fala das cerimônias, regras e rituais dessa teocracia. A personagem nos apresenta, com recortes, um mundo dominado pelo conservadorismo, sem liberdades individuais e baseado na misoginia, enquanto fala sobre seus sentimentos. Ela se apega ao passado para resistir ao presente. Lembrar de quem ela foi um dia, da filha que teve e de seu marido, é a maneira que ela encontrou de se manter com vontade de viver.

Apesar da história expor um mundo extremo, tudo ali parece possível como um desdobramento do mundo que vivemos por se basear numa opressão real e em acontecimentos e discursos derivados dela. A obra tenta nos mostrar a possibilidade daquilo vir a acontecer, especialmente quando ela traz à tona suas memórias sobre os acontecimentos que antecederam a instauração desse Estado totalitário e teocrático.

O Conto da Aia já foi traduzido para cerca de quarenta idiomas, foi adaptado para cinema e tema de um balé, de uma ópera e agora de uma série que ganhou muitas categorias do Emmy Awards 2017.

O controle do corpo das mulheres nunca deixou de ser pauta em qualquer lugar do mundo e é por isso que essa distopia se parece tão próxima de nós. E, nesses tempos, ainda mais. O mundo avança novamente para o domínio do conservadorismo. Nos EUA, Trump representa um retrocesso para todos grupos vulneráveis, incluindo mulheres e, no Brasil, a bancada fundamentalista domina o legislativo federal, estadual e até mesmo municipal.

A obra é um fenômeno atualmente por provocar reflexões sobre família, religião, Estado, violência, poder e papéis considerados como femininos num momento crucial de avanço de retrocessos.

Com a exposição de um regime baseado em controle, violência, ameaça e religião, o leitor cultiva em si a certeza da importância da desobediência. Offred desobedece ao não esquecer quem foi no passado e, nas lembranças de quem foi um dia, encontra a força necessária para continuar existindo. Enquanto o mundo retira sua humanidade, lembrar que ainda é um indivíduo é resistência.

“Alguns livros assombram o leitor. Outros assombram o autor. The Handmaid’s Tale fez os dois”, disse Atwood uma vez num artigo do The Guardian e tenho que concordar. O mundo de Gilead faz soar um alarme interior que serve como um alerta para os rumos autoritários e assustadores que estão sendo desenhados agora.

Mulheres se vestem de Aias hoje e saem para protestar contra o controle estatal de seus corpos e mostram como essa história se tornou símbolo da resistência feminista contra todas as formas de opressão.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Adquira o seu em e-book ou livro físico clicando aqui.


Obs: Durante a Virada Feminista Online pela Legalização do Aborto, fiz uma transmissão ao vivo no Ativismo de Sofá falando sobre o avanço do conservadorismo, a necessidade de resistência, livro/série “Conto da Aia” e o controle do corpo das mulheres. Quer ver o vídeo? Basta clicar aqui e dar play.


#MeToo: a importância de se quebrar o silêncio

Imagem de YourStory

A hashtag #MeToo foi citada no Twitter mais de 800 mil vezes até a última terça-feira (17/10) e o número de pessoas participando segue aumentando. Atletas como as campeãs olímpicas McKayla Maroney e Tatiana Gutsu compartilharam suas histórias e celebridades como Lady Gaga, Bjork e as atrizes America Ferrera, Evan Rachel Wood, Lupita Nyong’o também falaram sobre.

A campanha ganhou tradução. #EuTambém e #YoTambien tomaram as redes e relatos de vários lugares do mundo vieram à tona e mostraram como a cultura do estupro se faz presente nos mais diversos lugares do mundo. A violência sexual, infelizmente, faz parte da vida de mulheres do mundo inteiro e vem acompanhada de culpabilização da vítima e do silenciamento delas.

#MeToo começou com Alyssa Milano publicando em seu Twitter a frase “se todas as mulheres assediadas ou agredidas sexualmente escrevessem #metoo em suas redes, talvez o mundo passaria a ter noção da magnitude do problema”. Seu post foi feito em apoio às denúncias de assédio e estupro contra o Harvey Weinstein, produtor hollywoodiano.

As mulheres de Hollywood resolveram falar. Os relatos continuam surgindo e a força da luta contra o machismo do meio crescendo. Além de Weinstein e seu irmão, Roy Price, da Amazon Studios, e o diretor James Toback também foram citados em relatos. James Toback foi acusado de assédio sexual por 38 mulheres.

Antes da hashtag e da multiplicação de relatos, muitas feministas temiam que o mundo e Hollywood encarassem o caso Harvey Weinstein como um fruto podre, algo isolado. Com a mobilização, escancarou-se a verdade dolorida de que há homens como Harvey nos mais diversos espaços e que lidar com o comportamento abusivo e reiterado desses caras é considerado parte do pacote de quem quer fazer parte de indústrias como a cinematográfica. As vítimas quebraram o silêncio e esse ato expôs como todos em torno delas também se silenciavam sobre o comportamento de Weinstein e de outros homens como ele.

Os movimentos brasileiros #PrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto, #ChegaDeFiufiu, #MeuCorpoNãoÉPúblico e #MexeuComUmaMexeuComTodas são bem semelhantes ao #MeToo e também ocuparam as redes sociais. A grande adesão nessas campanhas mostra não só quão grave é o problema, mas também como o silenciamento das vítimas é uma constante nos casos de crimes contra mulheres e como a teia de relatos formada fortalece a voz das denunciantes.

A catarse coletiva que essas hashtags representam mostra que as denúncias feitas por mulheres encorajam outras a também falarem sobre. Forma-se, espontaneamente, uma rede de solidariedade e empatia que impulsona outras a se abrirem e fortalece as que já se manifestaram. Essas histórias estão, enfim, sendo tiradas de debaixo do tapete e isso é importantíssimo para que haja uma compreensão coletiva do que é o machismo estrutural e que ele precisa ser combatido em todos os espaços.

Os relatos de tantas mulheres expõem uma realidade que a maioria se nega a reconhecer. Numa sociedade que culpa a vítima, dizer #MeToo é um ato de coragem, força e solidariedade. Isso é enorme, mas depois de tantas campanhas de conteúdo próximo, arrisco a dizer que quebrar o silêncio é essencial, mas precisamos ir além de expor quão ruim o mundo é para nós.

Mulheres são a grande maioria das vítimas de violência sexual. Homens, especialmente quando crianças, também são vítimas, apesar de ser em menor proporção. Há uma questão de gênero e de poder exposta em quem são as vítimas, mas também há em quem são os agressores e a gente precisa tocar nesse assunto. A violência sexual é, em enorme maioria, cometida por homens e falar sobre a construção da masculinidade se basear no poder, na violência e na visão de que mulheres e tudo que é considerado feminino são inferiores a eles é essencial para o combate desse fenômeno.

Além de expor a gravidade do machismo, a gente também precisa falar sobre as engrenagens por trás da violência que a gente chama de “violência contra as mulheres”. Sem isso, nossas denúncias continuarão sendo encaradas como menos importantes, já que seguimos sendo vistas como menos dignas que eles e, mais uma vez, toda a discussão não chegará em quem deveria, já que a violência cometida contra nós segue ignorada a maior parte do tempo.

O caso de Weinstein mostrou que muitos tinham uma noção do comportamento misógino do produtor e seguiam ignorando isso, trabalhando com ele e o apoiando de alguma forma. As vítimas quebrarem o silêncio é um passo importante, mas ainda falta a sociedade num todo encarar os relatos de crimes contra as mulheres com a seriedade devida. Enquanto isso, muitos seguirão acobertados, como o próprio Weinstein foi por anos, porque a cultura do estupro conta com o silêncio negligente de quem ignora a magnitude do problema.


Texto publicado originalmente no blog Ativismo de Sofá.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Feminismo Ilustrado: Livro reúne entrevistas relacionadas ao tema

Arte feita por Mariamma Fonseca para o livro “Você é feminista e não sabe” — Adquira seu exemplar aqui.

Sei dizer quando comecei a me definir como feminista, mas sou incapaz de determinar qual foi a primeira vez que me senti em desvantagem em alguma situação por ser mulher.

A memória não é feita de arquivos de vídeos de momentos, nem é organizada em pastas por idade e não tem um anexo em escrito sobre nossas percepções da situação quando ela aconteceu. Por isso, é difícil precisar qual foi a primeira vez que eu tive consciência de que o mundo era machista. Pode ter sido quando me impediram de jogar futebol por ser menina, quando me falaram que eu tinha que lavar a louça e os meninos não ou alguma outra situação. Eu não sei. Apesar de lembrar de circunstâncias machistas que me aborreceram nessa época, eu percebo que muitas lembranças que hoje entendo como de situações relacionadas ao meu gênero passaram batido por anos até eu tomar consciência de que elas não eram naturais e/ou certas.

Meu incômodo com a desigualdade sempre existiu, mas estar inserida numa cultura machista pode nos fazer duvidar de que esse sentimento é justo. Leva tempo para gente compreender que não estamos sendo loucas de irmos contra o status quo que define como devemos nos portar e esse processo perpassa diferentes esferas. O caminho varia, mas geralmente a gente começa de onde o nosso calo aperta. A internet funcionou como um potencializador desse processo para muito gente, já que ampliou a possibilidade de mulheres dividirem suas experiências, preocupações e trajetórias.

O canal “Você é feminista e não sabe” tem como proposta aprofundar o tema feminismo por meio de diferentes recortes e fazer com que as pessoas percam o medo dessa palavra. Por meio de entrevistas com mulheres diversas, o mundo da Outra é apresentado e conhecer diferentes realidades nos ajuda a entender melhor o porquê do feminismo ser além do eu.

Através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, Angélica Kalil e Mariamma Fonseca querem colocar no papel quinze entrevistas feitas pelo canal. Com temas variados, como maternidade, violência doméstica, cultura do estupro, história, política, mulheres lésbicas, periféricas, negras e indígenas, o livro promete ser um ótimo companheiro para todos que querem refletir sobre a realidade das mulheres.

Angélica Kalil, criadora do canal e do livro, comentou que no livro será possível encontrar informações sobre a história do movimento, termos usados pelo feminismo, personagens históricas que questionaram seu lugar de gênero e dados/informações sobre a situação da mulher no Brasil e no mundo.

Além das entrevistas, a obra contará com textos de apoio e com mais de 60 desenhos de Mariamma Fonseca para ilustrar informações e fatos citados pelas entrevistadas. “As ilustrações estão como complementos das falas e deixam a narração dessas mulheres ainda mais marcantes”, conta Mariamma.

Capa do livro

A campanha encerrará no dia 30 de setembro e, até então, apenas 60% foi arrecadado*. Através de contribuição, você pode adquirir o livro e, dependendo do valor, ganhar recompensas como pôsteres, adesivos e marcadores.

“Você é feminista e não sabe” promete ser uma leitura que acrescenta muito para quem acabou de chegar no rolê e quer saber mais sobre diversos temas, e também para quem já é velha de guerra, mas gosta de entrar em contato com novas abordagens de temas já conhecidos. Só sei que com um livro desses publicado, conhecer e difundir o feminismo será algo mais simples do que foi um dia.

*O livro foi financiado com sucesso! Quer adquirir um exemplar? Clique aqui e saiba mais. É possível comprar também pelo meu link na Amazon.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Onde estão as mulheres em nossas referências?

Arquivo Pessoal — foto do livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” — Adquira seu exemplar aqui.

Quantas mulheres nomeiam ruas, parques, avenidas, praças e viadutos na sua cidade? Quantos desses nomes você consegue lembrar sem esforço?

Moro em Belo Horizonte há alguns anos e consegui pensar na Avenida Tereza Cristina, na rua Stela de Souza, no viaduto Henriqueta Lisboa e em bairros com nomes de mulheres da religião, como Santa Tereza e Santa Efigênia. Todos os primeiros nomes que vieram na minha mente eram masculinos, como Afonso Pena, Bias Fortes, Augusto de Lima, Cristiano Machado, Silviano Brandão e Raul Soares. Só depois me lembrei dos bairros Jaqueline, Maria Helena e Juliana.

A dificuldade que tive de lembrar nomes de mulheres ao pensar na ruas, avenidas e viadutos da minha cidade não se deu por eu conhecer pouco daqui ou por mero esquecimento, aconteceu porque elas são minoria. Apenas 16% das ruas da cidade de São Paulo têm nomes de mulheres. Uma pesquisa feita na Espanha em 2007 apontou que apenas 5% das ruas de lá tinham nomes femininos. Já na França, um levantamento feito pelo grupo feminista “Osez le Féminisme!” apontou que apenas 2,6% das ruas parisienses homenageavam mulheres notáveis.

A matéria “Nomes de rua dizem mais sobre o Brasil que você pensa” do Nexo afirma que nas rodovias, um tipo de logradouro que exige bem mais investimento, os nomes masculinos dominam com 98% e que ao analisar os trinta nomes femininos de ruas mais populares do Brasil, somente quatro não eram de religiosas. Já entre os trinta nomes populares masculinos, dezesseis não faziam referência à religião.

Os nomes dos logradouros são uma amostra do apagamento das mulheres como referências, das relações de poder e das forças envolvidas nas decisões políticas. Além da ausência de mulheres e pessoas negras, no geral, vemos também a manutenção de nomes de bandeirantes, que dizimaram indígenas, e de torturadores e ditadores.

Os nomes presentes no espaço público são, em peso, masculinos. Percebe-se como eles são escolhidos de acordo com uma narrativa que privilegia a elite, composta principalmente por homens brancos, e seus ideais da época. Santas, mães e esposas são bem presentes entre as poucas homenageadas por representarem o ideal de mulher que eles apoiam, essa mulher que praticamente só se pode ser branca. Nossas referências não são necessariamente nomes de ruas, mas elas são parte de um todo machista, racista e elitista. Um todo que nos influencia. Afinal, quem são as nossas referências?

Gandhi, Nelson Mandela, John Lennon, Einstein, Tiradentes, Che Guevara, Jesus, Marx, Zumbi e diversos outros nomes masculinos são lembrados toda vez que fazem essa pergunta. Quando lembram de mulheres, falam a maioria das vezes de santas, mães e avós. As nossas referências podem não ser as mesmas dos nomes das ruas, mas ainda reproduzem a mesma lógica de que o espaço público é deles.

A maioria das pessoas cresce sem pensar que a ausência de nomes de mulheres na história é fruto da falta de oportunidades dadas a elas e da invisibilidade dada pela história aos seus feitos. Apesar do machismo — e o racismo e as questões de classe — terem negado educação e acesso para tantas, ainda assim muitas conseguiram ser escritoras, artistas, cientistas, fazer descobertas e lutar por melhorias. Principalmente no século XIX e XX, mas não só.

Conhecer e divulgar nomes de mulheres que fizeram parte da história, mas que são constantemente esquecidas, é importante porque as crianças que crescem sem essas referências acabam acreditando que o papel da mulher é o de subalterna, especialmente no caso de mulheres racialmente oprimidas que continuam sendo referenciadas na nossa cultura dessa maneira mesmo quando se passa a discutir temas como mulheres nos negócios com mais frequência. Que mulheres são essas englobadas por esse termo, né? Isso prejudica a autoestima das meninas e faz ambos os gêneros acreditarem que elas são menos capazes que eles.

Se os nomes que as crianças conhecem como inteligentes, marcantes, desbravadores e criadores são só de homens, as meninas nunca acharão que são boas o suficiente, enquanto os meninos seguirão acreditando que eles podem chegar lá. Se elas recebem menos estímulos que meninos para conhecerem coisas novas e para determinadas áreas, elas são afastadas dessas possibilidades.

Uma pesquisa, publicada na Science, afirma que meninas, a partir dos seis anos, têm dificuldade de acreditar que são brilhantes, apesar de achar isso dos meninos. Outra pesquisa apresenta a informação de que professores dão notas melhores para meninas se eles não sabem que elas são meninas. Ambos estudos mostram como os estereótipos de gênero influenciam na vida e na autoestima delas. Lembrando aqui que há pesquisas que mostram que estereótipos de raça também afetam a maneira que os professores olham para crianças: Crianças negras são mais vistas como “bravas” do que crianças brancas e esse estereótipo atinge mais meninas negras que meninos negros.

Já na infância encontramos obstáculos específicos do nosso gênero e somos, desde muito novas, ensinadas a duvidar de nós mesmas. Uma dúvida que carrega em seu cerne o medo de falhar e acabar servindo como uma prova de que nosso gênero não é bom em algo.

Com a internet e tantas mulheres falando sobre representatividade, autoestima e machismo, surgiu uma necessidade e curiosidade coletiva por conhecer mais histórias de mulheres. As italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo perceberam isso e reuniram no livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” uma centena de nomes admiráveis de diversas áreas de atuação.

A obra foi idealizada por elas, mas só virou realidade por causa de uma campanha de financiamento coletivo. “Histórias de ninar para garotas rebeldes” foi o livro que arrecadou o maior valor na história do financiamento coletivo e contou com apoiadores de mais de 70 países. Esse recorde mostra que as pessoas têm percebido a importância de tirar a cortina da invisibilidade da história das mulheres e que muitos sentem falta de conhecer mulheres incríveis. O que é incrível, mas também nos faz pensar em como essa pauta pode ser facilmente capturada pelo capitalismo e por grupos com interesses antifeministas, principalmente a partir das escolhas de homenageadas.

Rainhas, atletas, cientistas, ativistas, escritoras, artistas e até piratas e espiãs recheiam as páginas da obra. Cada nome tem sua história e feitos contada começando com um “era uma vez”, num tom que aproxima o público infantil. Além dos textos, há também a participação de ilustradoras de diversos países.

Um livro encantador que, na minha opinião, peca no título. As histórias contidas nele servem para ninar crianças rebeldes, não só meninas. Sei que meninas são as maiores interessadas numa obra que fortalece a autoestima delas e também imagino que a intenção das autoras é que a obra seja para todas as crianças. Acredito, inclusive, até que há muitos meninos tendo contato com o livro por iniciativa de seus pais, porém, um título como esse reforça a ideia de que há coisas para meninas e coisas para meninos e que conhecer a história de mulheres notáveis não é algo importante para eles, sendo que é essencial que eles também tenham referências femininas para crescerem vendo mulheres como iguais.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Jarid Arraes e as heroínas negras brasileiras

Jarid Arraes — Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis. Divulgação. Adquira seu exemplar aqui.

Da escada, avistei uma fila de pessoas em torno de uma mesa. Elas compravam exemplares de “Heroínas Negras Brasileiras”, livro de Jarid Arraes que reúne 15 cordéis que contam a história de mulheres negras como Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela, Luísa Mahin e Aqualtune.

Sentei, junto com uma amiga, nas últimas duas cadeiras vazias e vi grupos se ajeitarem no chão, nos degraus ou ficarem em pé nas proximidades. De longe, se via muitos cabelos cacheados, crespos e anelados. A maioria do público era composto por mulheres negras. Eu era uma das poucas pessoas brancas da plateia.

Durante a roda de conversa, Jarid Arraes disse que escreveu essas biografias em forma de cordel e usou a palavra “heroínas” para definir essas mulheres por acreditar que a figura heroica tem o efeito de inspirar leitores e transmitir coragem para enfrentar adversidades. Ela ressaltou que o uso dessa palavra serve também para mostrar para todos que há heroínas negras bem perto de nós. Elas, como as homenageadas no livro, também resistem ao machismo, ao racismo e têm suas histórias marcadas pela resistência, coragem e talentos diversos, como a escrita e a liderança.

No evento que lotou o Sesc Palladium em Belo Horizonte, ela falou também um pouco sobre sua história pessoal, suas inspirações, contou um pouco mais sobre as mulheres que foram tema dos poemas de seu livro e expôs como o mercado editorial segue ignorando a presença das mulheres negras escritoras. Em seu discurso, ela evidenciou o efeito perverso que a invisibilidade das histórias das mulheres negras causa, já que o apagamento de uma narrativa como essa faz com que muitas pessoas cresçam sem referências de mulheres negras num mundo que continua perpetuando estereótipos de gênero e de raça.

No fim, Jarid comentou sobre seus futuros projetos em poesia e declamou o cordel que fala sobre a trajetória de Zacimba Gaba, uma princesa que foi traficada e depois torturada pelo escravocrata que a comprou por ele ter descoberto o passado dela. A princesa resistiu e envenenou o barão aos poucos e com a morte dele, liderou uma fuga e formou, junto com os demais fugitivos, um quilombo.

Ao terminar a leitura do poema, ela disse que quando escreveu “As lendas de Dandara”, seu primeiro livro publicado, narrou acontecimentos semelhantes com os feitos de Zacimba como pura ficção, porque ela ainda não conhecia essa história fantástica e real. E eu me pergunto, quantas histórias fantásticas e reais ainda não conhecemos? Quantas se perderam? Quantas ainda podemos resgatar e contar?

Nas últimas páginas de “Heroínas negras brasileiras”, há um espaço destinado para um cordel em sextilha e o convite para que nós contemos a história de uma mulher negra que nos marcou. Nessas linhas, feitos serão narrados e uma memória coletiva construída.

Muitas histórias começaram a ser lembradas ali, enquanto ainda ouvíamos a escritora apresentar seu trabalho, seus ideais e seu processo criativo. E várias já foram parar no papel um dia depois, na oficina de cordel ministrada pela autora. Entre professores, contadoras de história, fãs de cordel e especialistas no assunto, descobri como fazer sextilha, septilha e até décima com mote. Vi Jarid apresentar cada uma dessas possibilidades poéticas com trechos de seus cordéis engajados. Ela também falou sobre métrica e suas técnicas pessoais para garanti-la. E, enquanto pensávamos em quem íamos homenagear, ela leu, acompanhada de algumas participantes da oficina, vários cordéis presentes no livro.

Durante o lançamento da obra e também na oficina, Jarid ressaltou diversas vezes que a escrita não é um dom, ela é fruto de esforço e de treino. Para ela, todos nós podemos escrever. O discurso fez bem para mim, que estava ali numa missão de exploração de um novo jeito de escrever. Tentar algo novo é se expor ao erro e fiz essa oficina para conhecer mais sobre o processo de escrita da autora, experimentar um novo estilo e ampliar meus horizontes literários.

Com muita dificuldade, fiz meu primeiro cordel. Apanhei bastante da métrica e da rima, mas consegui prestar uma pequena homenagem para Adelina, uma mulher negra escravizada que ajudou a libertar cativos na luta abolicionista.

Meu primeiro cordel, como qualquer primeira coisa, ainda é uma tentativa, e apesar disso, dividirei o que fiz com vocês, já que acredito que a importância de compartilhar a história dessas mulheres é a mensagem primordial que Jarid quer passar. Sigo sem saber muito sobre literatura de cordel, mas com “Heroínas negras brasileiras” em mãos, percebo que vale a pena fazer parte desse partilhamento de histórias de mulheres notáveis e dessa valorização do cordel, enquanto parte da cultura brasileira. Vamos nos inspirar no trabalho de Jarid e apresentar para o mundo biografias de mulheres negras que admiramos?

Adelina, a charuteira

Vou contar neste cordel
uma história importante
de Adelina, a charuteira
e sua trajetória impactante
de luta abolicionista
contra todos ignorantes.

Filha de escravocrata
lidou com um tratante
Sua liberdade prometida
foi desprezada pelo arrogante
Trabalhou noite e dia
numa labuta esgotante.

Em São Luís do Maranhão
auxiliou os aflitantes
se tornou uma guia
nas ruas abundantes
ajudou muitos fugitivos
e deles foi informante.

Sobrenome não se sabe
mas seu feito foi brilhante
Vendendo uns charutos
se tornou uma militante
pela libertação dos escravos
e contra a exploração aviltante.


Acompanhe o trabalho da Jarid Arraes em seu site e página do Facebook.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.