O corpo sem culpa

Ilustração minha. Descrição: som, caixa de som, símbolos musicais, balões e uma moça dançando com os escritos “O corpo é uma festa”.

Uma das frases célebres de Eduardo Galeano comenta sobre as diversas maneiras de se encarar o corpo de acordo com os ideais da igreja, da publicidade e da ciência. Para igreja, o corpo é uma culpa, para a ciência uma máquina e para publicidade um negócio. Sempre amei essa fala dele porque ela termina com o corpo se afirmando como uma uma festa.

Para mim, o corpo é uma festa. Ele funciona, diverte, às vezes se excede, faz parte da nossa identidade e é também social. Ser uma festa é o que faz com que as pessoas e instituições queiram tanto controlá-lo. Vivemos num tempo em que querem fazer com que essa festa seja comedida, funcione numa lógica de corpo-máquina. Tudo planejado, tudo medido, tudo pesado, todas as calorias contadas. A frase de Galeano precisa de uma atualização: para uma visão terrorista da saúde, que se apoia num padrão de beleza irreal, o corpo é culpado por ser orgânico e não robótico.

O corpo pode também ser máquina, não nego, mas se a gente só o define assim, a gente finge ignorar que o funcionamento dele é humano e justamente por isso às vezes ele falha, a gente exagera, a gente se diverte. Ele é mais do que funcionalidade, ele também é a gente e a ferramenta para que a gente viva conforme o que nos faz feliz.

A máquina precisa de uma quantidade certa de combustível. Nem um pouco a menos, nem um pouco a mais. Encheu o tanque, acabou. E esses tempos dizem que a gente tem que funcionar assim, como se cada refeição fosse uma ida ao posto.

O corpo é parte de nós e a gente é bicho humano, ser social, e para nós a comida tem um significado muito além desse que nos trata como maquinário. Comer é importante e não só para nos manter com o tanque cheio para os dias que irão vir, mas também porque dividir comida com alguém, cozinhar junto com o outro ou fazer uma comidinha gostosa para uma pessoa querida é parte do que entendemos como convívio humano, demonstração de carinho e conforto.

Quando a gente pega a comida e a resume em algo que tem que ser sempre funcional, a gente ignora o significado do almoço com a vó no domingo, da jantinha de aniversário de namoro e do petisco que comemos com os amigos. A comida é parte essencial de como a gente vive o mundo das relações e adicionar culpa ao ato de comer é fazer com que cada momento que deveria ser de compartilhamento, seja de culpa, sofrimento, ansiedade.

O corpo é uma festa, justamente por isso a hora de comer é mais do que simplesmente nutri-lo de forma regrada, culpada, comedida. O corpo se alimenta também dos momentos que vivemos, das relações que cultivamos e principalmente, de quão saudável nossa mente está. A culpa não tem que ter espaço na mesa, a festa que somos sim. Somos mais que funcionais.


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Museu do futebol: o meu e o do Pacaembu

Eu devia ter uns sete anos ou menos quando comecei a correr atrás da bola durante o recreio e depois do fim das aulas. Me dividia entre brincar de skate de dedo, dançar Chiquititas, pique esconde, fugir da bola na queimada, correr e chutá-la na quadra e participar de todas as variações possíveis de brincadeiras relacionadas ao futebol. Eu só queria me divertir.

Mesmo menina, eu já sentia que o mundo não via o futebol como um lugar de mulher quando ouvia de adultos que era estranho eu gostar de jogar bola ou quando eu tinha que pedir permissão para os meninos para jogar no recreio, mesmo com a quadra reservada para a minha turma. Os donos da quadra e da bola eram eles, eu era apenas uma mera visitante.

Cresci vendo os professores de educação física dividirem a turma entre meninos e meninas, eles no futebol, elas no vôlei, enquanto em casa, eu jogava Nintendo com meu irmão e um dos jogos queridos era o Ronaldinho Soccer 98. Mais tarde e junto com ele, eu entrei no mundo dos jogos de treinadores e acompanhei desde Elifoot e Brasfoot até CM e FM. Abandonei a quadra e me mantive na redoma dos jogos virtuais até que de tanto ser sempre a visitante, acabei me tornando apenas uma turista. Os donos da quadra e da bola conseguiram o que queriam: eu fui para o meu não lugar.

Desde então, o futebol ficou de lado. Fui expulsa pelo pior dos fandons com seus intermináveis “então me explica a regra do impedimento!”, vi o meu gosto pelo futebol ser podado até restar apenas uma sementinha que só deve ter continuado viva porque eu sabia que mulheres também driblavam, afinal, por alguns anos eu fui uma delas.

Descrição: foto minha olhando para molduras com fotos históricas. A foto que se destaca é a de um time feminino.

Depois de anos nesse não lugar, foi uma visita ao Museu do Futebol que me fez sentir vontade de voltar a enfrentar esse fandom. Já na primeira sala, eu vi que ia gostar do passeio ao me deparar com cartazes das olimpíadas modernas, vídeos de esportes que incluem crianças com deficiência, uma linda homenagem à Chapecoense e um mundo de escudos, imagens, faixas relacionadas ao esporte e entre elas, eu via algumas que mostravam que elas tinham vez ali.

Entre os craques homenageados, tinham Formiga e Marta incluídas. Entre as fotos históricas do futebol, havia times femininos, imagens de partidas, a lembrança do decreto-lei que proibiu mulheres de praticar o esporte por décadas e alguns recortes de jornais de outras épocas que evidenciam o machismo que ainda hoje atinge as mulheres envolvidas no esporte. Nas várias exposições do museu, fala-se delas. Talvez com uma certa timidez em alguns momentos, mas a lembrança de que elas existem e resistem está lá e eu, enquanto feminista e com um museu de histórias pessoais com futebol, saí de lá com vontade de abandonar o meu não lugar e invadir a quadra e tomar a bola até que todos os espaços também sejam nossos.


Leia também “Musas não, torcedoras”, texto que escrevi para o Ativismo de Sofá com umas dicas de como tornar o futebol um ambiente menos machista e essa pequena biografia que escrevi para o Mulheres Notáveis sobre a Léa Campos, primeira árbitra de futebol profissional do mundo.


Museu do Futebol, cadê a Cristiane Rozeira na parte dos craques? A mulher é a maior artilheira das Olimpíadas, ela merece!


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Eu continuo tentando

Print do site “E se o jogo Brasil x Alemanha ainda estivesse rolando?” porque o sentimento atual é como se fosse isso aí.

O Brasil vive vários 7 x 1 diários. Na verdade, tem dia que a gente nem consegue esse golzinho de honra. A gente tem sentido o cheirinho da ameaça de perder direitos toda hora, estamos acuados, assustados e tão impressionados com a rapidez de tudo que está acontecendo que simplesmente ficamos assistindo a cada perda e a cada ameaça sem piscar e sem conseguir fazer muita coisa. Quando se ataca a capacidade de ter esperança, é difícil fazê-la brotar de novo.

Eu continuo tentando. Sou dessas que ainda digita um textão na caixa de comentários do Facebook de páginas de grandes jornais brasileiros, sou dessas que continua buscando o diálogo, sou dessas que tenta não desistir e se apega às pequenas vitórias para conseguir seguir com esperança. Mas também sou dessas que tira férias de acreditar e deixa a vida seguir até conseguir fazer tudo isso de novo, porque acreditar tem vez que dói e a gente precisa se afastar para cuidar dessas feridas. Tem que ficar esperto, sabe? Porque se a gente não descansa de acreditar, a esperança não é mais capaz de regenerar e morre.


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Celular na mão e carro estacionado no Leblon

Grazi Massafera deixou a academia com o celular na mão. Caetano Veloso estacionou o carro no Leblon. Emanuelle Araújo atravessa a rua concentrada. Chico Buarque compra baguetes para o lanche da tarde. Todas essas manchetes mostram acontecimentos do cotidiano que só se tornaram importantes por causa do sujeito da frase. Sujeito que, ao contrário de nós, tem suas ações eleitas como noticiáveis.

Quando a gente observa cada momento do nosso cotidiano e cria uma manchete para ele, ao mesmo tempo em que a gente se sente treinando para trabalhar em um site especializado em fofoca, surge também o sentimento de que se é importante. Sim, importante. A gente quase se sente de terno dependendo do que você anuncia.

Laura enviou e-mails importantes para a chefia hoje. Laura fez isso com a blusa toda amarrotada e com a calça suja de molho de tomate do almoço. Laura saiu mais cedo da Firma hoje para comemorar com colegas do serviço o sucesso de um trabalho. Se você pegar qualquer um desses acontecimentos e transformar em uma manchete, você fará muita gente (inclusive a própria Laura) encarar a personagem ali exaltada como uma possível executiva de sucesso, a próxima capa da revista Exame ou Caras, não importa.

O efeito é poderoso. Eu sei, parece ser ótimo para dar um boom de autoestima, mas nem sempre funciona como a gente imagina. Se você anuncia detalhes da sua virose dessa forma, o senso de importância não é positivo e você se sente apenas um nojento. Talvez o mais nojento de todos. O nojento que até vira notícia, uma pessoa muito repulsiva.

O dia-a-dia está lotado de possibilidades de estrelar chamadas jornalísticas, se você é uma celebridade. Como? Onde? Com quem? Tudo isso interessa. Privacidade é item do passado. Mesmo se seus passos não interessam a uma legião de fãs, a privacidade já se tornou um artefato de museu. Anunciamos os acontecimentos do dia nesses diários de bordo da vida conhecidos como redes sociais. Adoramos falar onde fomos, marcar nossos amigos nas fotos e responder o “com quem?” espontaneamente. Aqui não tem essa de assessoria. A gente gosta de se sentir especial mesmo, né?

Aline comeu pepino e está com gases. Breno aconselhou Aline a não comer pepino, porque sempre que ele come, ele passa mal. Carol usou delineador num ônibus em movimento e não terminou o ato parecida com um panda. Débora correu na orla da praia. Elisa vomitou no colo de seu pai. Felipe foi a uma barbearia chique — tem até sinuca! — e saiu de lá com a barba de sempre e o bolso bem mais vazio que o normal. Gabriela foi vista entrando em um ônibus. Hélio comprou um refrigerante diet. Isabel foi ao cinema. Janaína fez a feira. Kelly peticionou. Lucas foi visto comendo pipoca. Mari recolheu as fezes de seu cão enquanto passeava com ele. Nádia afirmou que prefere café. Olga usou sua bicicleta. Paulo chorou. Quércia pegou um táxi. Raquel rachou o táxi com Quércia, pois era táxi lotação. Stela foi ao restaurante e fez cara de satisfação quando o prato chegou e também quando ele acabou. Thaís escreveu mais um texto medíocre como exercício de se manter escrevendo. Umberto dormiu até tarde no domingo. Valdívia fez um gol, mas não foi no futebol profissional, foi na pelada dos caras do escritório. Wanessa não é Camargo, mas também ganhou um processo por danos morais. Seu caso não envolvia famoso algum. Seu nome foi parar no SPC e no Serasa injustamente. Xavier abriu uma escola. Ela não tem como público-alvo jovens mutantes, é só uma salinha que reúne professores que dão aulas particulares para quem vai prestar ENEM. Zélia se matriculou na escola de dança.

Sentiu um pouquinho do senso de importância de encontrar seu nome ou algum ato que você fez? Tão reconfortante. Tão útero quentinho. Faz a gente se sentir um snowflake especial, não é? Ao mesmo tempo que dá uma sensação de que o controle não está mais em nossas mãos e que não somos tão especiais assim e que alguém logo vai perceber isso.

As manchetes dos famosos só existem para fazer com que a legião de fãs deles sinta aquela identificação que surge com a percepção de que eles são gente como a gente. A gente gosta disso porque sentir que somos um pouco parecidos com celebridades nos dá uma sensação de que temos valor também e isso só existe porque sentimos que eles estão num patamar diferente. Nesse mundo, nosso patamar é inferior ao deles e é por isso que a gente busca o mérito de se identificar com algo que o famoso faz. A gente quer subir uns degraus e achar que pode olhar para os outros como se houvesse realmente um topo, como se a gente realmente estivesse nele.

Queremos tanto nos sentir um pouco mais especiais.


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