Mãe de planta

Imagem de uma matéria da Hypeness sobre a casa da norte-americana Summer Rayne Oakes

Meu apartamento era como qualquer outro até seis meses atrás. Cama, armários, geladeira, fogão, micro-ondas, um computador, uma tevê, mesa para quatro, filtro de barro, escrivaninha, uma estante, um sofá e acho que só. Isso me incomodava. Eu sentia que morar em um lugar sem identidade dizia algo muito grave sobre mim. Temia que alguém me visitasse e percebesse que eu era uma dessas pessoas que não sabia muito bem quem era e comentários sobre minha residência sem personalidade me tornassem uma espécie de pária no mundo dos autênticos.

Minha casa mostrava muito sobre quem eu era. Essa é a verdade. Por isso, me aborrecia tanto entrar pela sua porta e me deparar com aquele vazio que significava estar ainda em formação e, pior, nem saber fingir parecer diferente. Nessas horas, me esquecia que a questão não era só não saber para onde estava indo ou quem de fato eu era ou queria ser, mas, talvez principalmente, a realidade da minha conta bancária e a possibilidade de amanhã eu ter que estar em outro lugar. Não havia grana o suficiente para encomendar móveis ou decorar meu apartamento com produtos da Tokstok. Comportamentos decorativos que, por algum motivo, são considerados como um sinal inegável de autenticidade em nossos tempos.

Aflita e depois de ver um milhão fotos no Pinterest de casas incríveis cheias de plantinhas, vasinhos, estantes e poucos móveis, decidi adicionar mais vida ao espaço branco que chamava de lar e acabei comprando uma samambaia. Depois vieram os vasinhos de cactos. E, a partir disso, foi questão de tempo para meu pequeno apartamento se transformar numa selva particular.

Minha casa se tornou um refúgio da cidade grande para mim e point com carinha de moderno e sustentável para amigos e conhecidos. De um dia para o outro, a casa sem identidade se transformou em um local de encontro para aqueles que sentiam seu lado jardineiro, antes adormecido, pulsar.

Cuidava de cada vasinho com o amor que nunca fui capaz de dedicar a mim. Me esforçava para aprender o segredo das plantas e punha a mão na massa sem os nojinhos que me acompanharam durante toda a minha vida de garota urbana nascida e criada numa das maiores cidades do país.

Era tudo muito bonito, tranquilo, relaxante. Uma jornada de descoberta que eu estava adorando viver. Cheguei a arrumar um minhocário, aprendi produzir adubo com lixo orgânico e até decorar vasinhos de barro com tinta colorida, eu comecei a fazer. As plantas ficavam cada dia mais exuberantes e, num ataque de orgulho, me declarei mãe de planta para quem quisesse ouvir.

Apesar de ter postado esse anúncio no Instagram, no Facebook e no Twitter, foi em casa que senti que fui de fato ouvida. Um som agudo, muito agudo, e manhoso me acordou no dia seguinte ao meu testemunho antes mesmo de amanhecer. Era domingo e eu odiei com todas as forças a criança birrenta que algum vizinho arrumou até chegar na sala e perceber que minha Orquídea Dendrobium era quem emitia aquele som horrível. Quando dei por mim, ninava seu vasinho feito de barro cantando bem baixinho uma música sobre sementinhas.

Os gritos logo cessaram, mas ela seguia choramingando e eu não sabia o que fazer. Demorou, mas acabei me lembrando que no dia anterior tinha arrancado umas folhas velhas de seu tronquinho e decidi parar para observar melhor seu caule. As marcas dos cortes pareciam ter inflamado durante a noite. Quando passei o dedo para testar, ela voltou aos berros iniciais e eu corri para o Santo Google que me aconselhou a passar canela em pó nos cortes. Cicatrizante natural, sabe? Cuidada, ela se acalmou e voltou a se concentrar na fotossíntese.

Depois de ver o sol amanhecer com uma planta desesperada no colo, meu pijama estava todo sujo de suor, terra, canela e fluidos que eu não sabia de onde tinham saído. Cocô, xixi, seiva ou lágrima de orquídea? Aparentemente tudo isso e mais um pouco. Era impossível não pensar no quanto eu precisava de uma chuveirada.

Limpa novamente e conformada que ao menos essa novidade biológica sobre orquídeas não fedia muito e indicava que provavelmente eu não ia precisar mais me dedicar tanto ao minhocário, fui preparar meu café da manhã.

Chegando na cozinha, percebi que todas as plantas da casa tinham abandonado a passividade esperada delas e se moviam, conversavam e me encaravam. A orquídea foi a primeira a despertar desse sono vegetal, mas agora eu tinha que lidar com mais trinta seres vivos desesperados por diferentes tipos de atenção e cuidado.

Pinterest

Os Cactos, como bons adolescentes rebeldes, me ofendiam e gritavam como me odiavam quando eu chegava perto. As Samambaias queriam brincar comigo e tentavam me fazer tropeçar com rasteiras dadas pelos seus galhos delicados e riam descontroladamente toda vez que tentavam. A Palmeira-Ráfia me enchia o saco querendo que eu acariciasse suas folhas e a chamasse pelo seu nome científico. A Palmeira-Leque me pedia água o tempo todo. Toda hora vinha com um borrifa mais um pouquinho” e reclamava da Begônia que não parava de cantar. O Manjericão? Ai, ai, o Manjericão… Esse só sabia reclamar de ser comestível e pedir esterco de qualidade. Esse desgraçadinho só sossegou quando eu contei que o tal do esterco de qualidade é feito com bosta de um tanto de bicho que rumina pedacinhos de grama, plantinha, florzinha e até ervinha. Só depois de chocado com o ciclo da vida e o destino de seus parentes, ele se calou. Nem comento sobre a Comigo-Ninguém-Pode. Essa me testou de todas as maneiras possíveis e impossíveis provando que esse nomezinho dela diz muito sobre a realidade de seu temperamento. Uma hora cheguei a me pegar com uma tesoura de jardim pensando em dar um fim naquela chata! Só os Lírios ficaram na deles não por bom comportamento, deixo claro eles queriam me atingir me dando um gelo daqueles por puro ciúme.

Lá pelas dez, Rafael me enviou um áudio no Whatsapp me convidando para conhecer a casa que ele agora dividia com o namorado. O programa? Tomar um brunch caseiro e maravilhoso com tomatinho confit feito por eles. Mensagem que me deixou com água na boca, mas que só li porque minutos antes eu tinha tomado a iniciativa bem controversa de me trancar no banheiro e deixar o pau quebrar lá fora. Quando pensava onde eu ia arrumar uma babá para as plantas, a Palmeira-Ráfia, aproveitando de seu tamanho, olhou pela fechadura da porta e viu que eu estava só mexendo no celular sentada na privada e começou a gritar para as outras que a mamãe não gostava mais delas e todas passaram a chorar como a Orquídea chorou às cinco e pouco da manhã. Pelo menos já era um pouco mais tarde, o que diminuía drasticamente a chance de alguém reclamar da barulhada do meu apartamento para a síndica.

Um golpe baixo esse da Palmeira-Ráfia. Sair do banheiro foi difícil, eu sentia culpa, queria chorar, mas não podia dar esse gostinho para nenhuma daquelas coisinhas insuportáveis que eram piores que ervas daninhas, mas precisavam de cuidados que até então eu fazia sem reclamar. Elas me encararam com arrogância e mágoa e andar pelo corredor até a sala me lembrou os piores tempos de escola.

Fui obrigada a voltar a atender as necessidades de cada uma delas. Toda hora, uma coisa diferente. Era adubo, era corte, era passar canela em pó nos tronquinhos igual eu fiz com a Orquídea e causou ciúme no resto da trupe. Era troca de vaso, decoração das floreiras, carinho e muito ouvido aberto para conhecer as picuinhas delas. Elas também me acariciavam, me falavam palavras bonitas e faziam coisas engraçadinhas, o que piorava a culpa que eu sentia por não amá-las como eu achava que amava antes desse dia começar e elas se tornarem minhas filhas de verdade.

Exaustão se tornou meu nome, sobrenome e arroba no Twitter. Fui dormir quase uma da manhã e o sono era tanto que nem consegui mandar uma mensagem para minha mãe perguntando algumas coisinhas sobre jardim, cuidado e família.

Acordei cinco horas depois com o despertador berrando e com o pensamento fixo no desafio do dia: como eu iria passar dez horas fora de casa e deixar sozinhas trinta e uma plantas de todas as idades?

O silêncio dos outros cômodos me respondeu. Nunca precisei saber o que fazer nessa situação, porque elas tinham voltado ao estado vegetativo habitual.

Quando vi a sala com sua paz de sempre restaurada, ri pensando na esquisitice do pesadelo da vez até notar o quanto o chão, o sofá e a mesinha estavam cheios de terra, pedaços de folhas, caules, seiva e canela em pó. Nada estava no lugar!

De fato já era segunda-feira.


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A outra

Imagem: Natalia Goncharova — Autumn Evening

Ontem encontrei uma outra Thaís Campolina numa sala só de Thaíses. A ocasião que nos uniu foi uma prova de concurso. Eu sabia que havia outras que dividiam comigo o mesmo prenome e pelo menos um dos meus sobrenomes, mas eu nunca antes tinha ficado cara a cara com uma outra Thaís Campolina.

Antes de entrar na sala, um funcionário da banca perguntou meu nome e foi conferir meus documentos. Descobrimos juntos a existência da Outra. Ela já estava sentada em alguma das carteiras próximas a reservada para mim.

Eu era só perguntas. Nenhuma sobre Direito Administrativo dessa vez. Queria saber tudo da Outra. Sentar frente a frente e iniciar um interrogatório longo sobre ela, sobre nós. Eu precisava nos diferenciar, mas também queria conversar sobre a curiosa experiência de ter um sobrenome que também nomeia uma raça de cavalos e a coincidência desse encontro de prenomes e sobrenomes naquela sala.

Nessa estranha entrevista, eu perguntaria se os parentes dela também a zombavam ligando seus momentos de grosseria ao seu sobrenome e compartilharia umas histórias minhas sobre ser uma Campolina. Pediria para ela me contar toda sua vida em torno dessas letras que temos em comum e, antes de ir embora, avisaria que a próxima indagação seria estranha e diria: “Alguma vez você imaginou que sua família se originou de centauros poderosos que foram amaldiçoados a se tornarem humanos ou cavalos?”

Na hora de assinar meu nome na folha do gabarito, voltei a estranhar a situação. Com uma outra Thaís Campolina logo ao lado, me senti menos eu. Parte do nome que eu assinei, estava sendo assinado por outra pessoa naquele exato momento. O formato das letras com certeza seria diferente. As digitais e número do CPF, do RG e da inscrição também não seriam os mesmos, mas ainda assim a sensação era de ter me duplicado.

Todas sentadas ao meu redor compartilhavam um nome, sala e uma prova para o cargo de auxiliar administrativo. Fazíamos exatamente a mesma prova. Sem distinção de cadernos de cores ou ordenação diferente. Provavelmente eu não era a única ali que dividia um sobrenome com outra colega, mas não duvido que, entre essas, eu era a única impressionada com isso. As Silvas e as Souzas, por exemplo, já devem estar acostumadas.

Algumas das vinte e tantas Thaíses com certeza eram originais de Belo Horizonte, outras, como eu, não. Provavelmente a maioria nasceu e cresceu em Minas Gerais, seja capital, interior ou região metropolitana. Não sei. Pelo menos uma deve ter nascido bem longe daqui, talvez no Ceará ou no Pará, e vindo para cá criança ou já crescida, vai saber. Também deve ter uma canhota e umas outras duas que também amam escrever.

Um terço da lista de candidatas Thaíses, eu não veria o rosto naquele dia, já que elas se inscreveram, mas não foram fazer a prova. Eu via seus assentos vagos e pensava em todas as outras Thaíses que estavam fora daquele espaço delimitado e controlado. E, aterrorizada, refletia quantas dessas também eram Campolina. O que elas faziam? O que queriam? Seriam elas apenas humanas como eu, a Outra e todo o restante daquela sala ou seriam bem melhores como a Outra e todo mundo menos eu podem ser?

Fiz minha prova. A Outra também. Não houve nenhuma conexão entre nós. Ela seguiu inacessível para mim e eu para ela. Definitivamente, éramos duas, apesar de dividirmos partes essenciais de nossas identidades. Temos inúmeras características desconhecidas pela outra, às vezes até por nós mesmas. Características que podem, por sinal, ser comuns entre nós ou a outras pessoas que possuem outros nomes. O que me faz eu é mais do que o nome e sobrenome que dividimos, mas eu ainda não sei direito dizer o que exatamente me faz uma pessoa diferente da Outra ou de qualquer uma.

Quando me perguntam quem eu sou, eu digo meu nome. As Outras também. Me criei com esse nome que outras pessoas também têm. Sei, com toda a certeza que uma consulta em dados públicos pode me fornecer, que tenho até uma xará completa. Sim, há uma outra Thaís Campolina Martins, alguém que divide comigo todos os sobrenomes que tenho e nasceu em Contagem ou Betim, já não me lembro. Temos em nossas certidões um nome completo em comum que marca a origem de nossas famílias, mesmo elas não sendo as mesmas. Não há parentesco, apesar de dividirmos algo tão familiar. Somos diferentes, mas compartilhamos o nome, os sobrenomes e talvez até mesmo alguns apelidos. Tatá, Thaisinha, Thathu e Campolaine. Nossos números de identificação e muitas histórias diferem, mas gosto de pensar que ela, como boa mineira, também ama pão de queijo e vez ou outra é tomada pelo desejo de comer doce de leite.

Tomara que ela nunca seja ré de um processo que, por erro do judiciário, pode acabar por me condenar.


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Antártida

De repente ninguém mais morreu de tiro, faca, bomba ou porrada. Nenhuma pessoa conseguia entender como o índice de violência mundial chegou ao marco incrível de 0%, mas todo mundo sabia que algo tinha acontecido. Antes de dormir, naquele momento em que a solidão se torna quase concreta, não tinha uma só pessoa na Terra que não percebia que algo estava diferente dentro dela.

Ninguém sabia responder o que tinha causado isso e, inicialmente, as pessoas fingiam não querer entender, apesar do mundo ter se tornado outro em menos de um mês. Viviam como se nunca tivesse havido todo derramamento de sangue que a humanidade sempre conheceu e ignoravam os intensos anos de culto à violência que vigoraram até então.

Quando uma cientista descobriu que um som misterioso foi emitido da Antártida para todo o planeta horas antes do fim da violência, ela levantou a hipótese de reprogramação da mente humana e apareceu em todos os jornais. Só isso foi capaz de fazer as pessoas assumirem que queriam entender o que tornou a humanidade esse povo pacífico e, dias depois, diversas excursões de pesquisadores começaram a partir de todos os lugares do globo para explorarem o continente gelado.

Depois de quinze dias de busca, o grupo sul-africano encontrou uma base enorme destruída. Frente aos destroços, havia uma bandeira lilás intacta posicionada. Nela estava inscrita a frase “finalmente paz”.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroTerra. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, TwitterWattpad, Tinyletter e Instagram.

Somos animais que migram no verão

Ilustração por Luiza Formagin.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves

Os termômetros marcam 30º Celsius. O asfalto quente de tanto sol e o ar parado nos dá a sensação de estarmos dentro de um forno. A cidade se dilata, enquanto as pessoas buscam algum destino mais refrescante.

Em algum momento do verão, a gente tira férias, faz as malas, confere se lembrou de pegar a escova de dentes e parte. Migramos em busca de sol, sombra e água fresca. Os destinos variam, mas todos envolvem a procura de uma forma melhor de lidar com as altas temperaturas. Quem mora em Minas Gerais, costuma escolher entre o lago de Furnas, alguma cachoeira, qualquer sítio com piscina, uma diária num clube ou o distante litoral.

Somos animais que migram em busca de água no verão. O Espírito Santo que o diga. Tomamos seus mares, lotamos suas areias e, se o dinheiro estiver curto, levamos marmitex para a praia. Quem não quer perder a pose, tupperware.

Parte do ano, as praias capixabas são um anexo de Minas Gerais. Ninguém pergunta para os nativos o que eles acham, se eles nos consideram invasores folgados ou se aceitam dividir o mar conosco de bom grado. A área simplesmente é ocupada. Quer dizer, a água.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves. Todos esses animais se movem por alguma razão durante determinadas épocas do ano, ainda que isso seja incompreensível para nós humanos. Suas jornadas sazonais ainda são cercadas de mistério. Mistérios que a gente parece querer entender por achar que suas respostas — ou a ausência delas — revelarão algo que pode nos ajudar a compreender melhor nós mesmos.

Biólogos implantam chips transmissores em baleias jubarte para assim conhecer suas rotas migratórias. Quantos quilômetros elas viajam? É sempre o mesmo caminho? É sempre o mesmo destino? O que elas tanto buscam? É possível que uma baleia decida simplesmente não ir? Como elas sabem o caminho e a hora de partir? Uma vai na frente e as outras simplesmente seguem? Para onde os estudiosos de baleias vão nas férias de verão? Como eles sabem para onde devem ir?

Nosso tempo nas águas é regulado pela legislação trabalhista. A gente fica o quanto pode. O quanto o chefe, as férias escolares e o saldo do banco deixam. A gente escolhe o destino de acordo com o que cabe no bolso. As jubartes não têm boletos para pagar. Elas simplesmente sabem o caminho e seguem o fluxo. Para fazer as rotas migratórias que o verão nos obriga a fazer, a gente precisa de estratégia. Muito se fala sobre humanos e a Arte da Guerra, mas não podemos esquecer jamais que o desejo de conseguir aproveitar a vida em pleno capitalismo nos fez desenvolver também a Arte das Férias.

Economiza aqui, se endivida ali, faz hora extra, se obriga a responder o e-mail do chefe no domingo depois do almoço, divide uma casa de praia com um banheiro com mais 20 pessoas. A gente faz tudo e mais um pouco para não ficar dias inteiros trabalhando em algum lugar sem ar condicionado quando os termômetros apontam 30º Celsius.


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Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

Casa limpa

A casa cheira a desinfetante. O cheiro é tão forte e a sala está tão organizada que nem dá para imaginar que ontem Flávio ainda engordurava as paredes, os azulejos e os demais móveis com suas mãos sujas de frango assado e cerveja, enquanto eu cozinhava e servia seus amigos.

O segredo para um chão tão limpo envolve mais que hábito e uma lista de produtos e marcas, abrange também ter uma motivação que torne aquilo uma tarefa que você faça com prazer. Tornar esse espaço um novo lar é o que me incentiva agora.

Daqui uns dias as coisas estarão fora do lugar e a casa vai aparentar ser habitada de novo, dessa vez só por mim, esposa desesperada pela volta do amado, e todo mundo, inclusive eu, vai descobrir que Flávio foi encontrado morto dentro de seu carro no extremo oposto da cidade após 30 horas de busca.

Vão me trazer a notícia em casa e eu vou pedir para sentar, fazer a policial me trazer um copo de água com açúcar e, aos prantos, contar mais uma vez que me sinto culpada, porque ele saiu bêbado atrás dos amigos após uma breve discussão comigo.

Arrasada, vou dizer que eu não consigo imaginar alguém que quisesse matá-lo. “Ele ficava meio valentão quando bebia, deve ter caçado briga com quem não devia”, eu direi, enquanto deixo as marcas do meu pescoço falarem por si mesmas.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroSegredo. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Hortifrúti

“Trinta ovos graúdos por dez reais” disse uma voz grave, rouca e mecânica. Me interessei, mas não parei por saber que teria que voltar para casa se comprasse algo e assim a caminhada acabaria ficando para outro dia.

Não dei nem três passos e ouvi “Temos batata, cebola, alho e manjericão”. “É, dá pra evitar uma ida ao supermercado”, pensei e fui procurar o carro de som. Não havia nenhum. “Maracujá baratinho”, a voz dizia enquanto eu andava pelo quarteirão sem achar qualquer estabelecimento aberto. Fui, então, atrás de alguma barraquinha, ambulante, ou qualquer coisa do tipo e não encontrei nem feirinha e nem vestígio de um homem com um megafone.

A voz agora anunciava batata baroa, ovos de codorna e tomatinhos por um preço nunca antes visto, mas eu já não queria mais saber. Segui o meu caminho, mas mesmo depois de três quarteirões, eu ainda ouvia o anúncio das promoções. E, de novo, não havia nada que indicasse de onde vinha o som ou onde estava a comida.

Tem quem comece a ouvir zumbidos um dia e passe a escutar esses sons o resto da vida. “Será esse o meu caso?”, cogitei enquanto refletia se os preço dos ovos nesses anúncios mentais continuaria o mesmo ou se modificaria por causa da inflação.

Corri para fugir desse pesadelo e, ao chegar na porta de casa, finalmente deixei de ouvir que as bananas pratas estavam no ponto.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroPorta. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Uma sexta excepcional

Por Thaís Campolina

Toda sexta tem trânsito, correria e gente desesperada para chegar logo em seu destino. Dá quatro horas da tarde e as ruas se tornam impraticáveis. É muita gente, é muito carro e todos os ônibus estão lotados.

Nessa última, o caos foi especial e começou até mais cedo. O Brasil tinha se classificado para as quartas da Copa do Mundo e jogaria contra a Bélgica às 15 horas. Às 12:35, uma mulher loira entrou no ônibus certa de que não havia risco de perder nem um minuto do jogo. A certeza logo passou.

Pela janela do ônibus, se via gente vestida de verde e amarelo e uma quantidade absurda de carros, ônibus e até mesmo caminhões parados. Alguns com bandeirinhas, mas a maioria sem. Trânsito igual a esse só em véspera de feriado prolongado e com chuva.

Logo os passageiros começaram a gritar para o motorista acelerar, e o homem, aflito, respondia que pra isso teria que passar em cima da carraiada toda. A trocadora tentou tranquilizar as pessoas ao seu redor e comentou sobre a possibilidade de ouvir o jogo pela rádio. Não adiantou nada. A essa altura, o que apertava mesmo era a fome. O receio maior não era mais perder algum lance e sim aparecer no churrasco da família bem naquela janela de tempo em que não há carne nenhuma na churrasqueira.

Para distrair, as pessoas começaram a organizar um bolão e tentar antever placares. Era gente demais e chutes considerados possíveis de menos, por isso o papo acabou se transformando em um bolão de quando o ônibus chegaria no bairro.

Uma mulher, vestida com uma blusa que falava em Hexa 2014, disse que chegaríamos no final do primeiro tempo e que teríamos tomado dois gols. O que foi a hipótese mais pessimista feita pelo grupo e a mais próxima do placar final. Um cara de terno e gravata estimou que chegaríamos aos vinte minutos e veríamos o primeiro gol do Brasil assim que sentássemos no sofá. Todos que acompanhavam esse blablabla vibraram com essa.

Uma jovem de tranças coloridas consultou um aplicativo no celular e afirmou categoricamente que em 25 minutos estaríamos na rua principal do bairro. Uma idosa, toda vestida de amarelo e com um semblante muito parecido com o do Canarinho Pistola, sentenciou contra a estimativa feita pelo Maps e veio com o papo de que o ônibus chegaria no ponto final bem na hora do hino nacional.

No fim das contas, ninguém acertou nem placar final e nem horário de chegada, mas todos viram o sonho do Hexa 2018 acabar com dois gols para a Bélgica ainda no primeiro tempo, sendo um deles gol contra. Quando o Brasil marcou um, a expectativa da virada preencheu corações, casas e bairros, mas toda essa esperança não foi capaz de evitar a desclassificação.

Ainda assim, as vuvuzelas tocaram, as pessoas comeram e mais cerveja foi colocada no congelador. Fora o meio horário e a temática verde & amarela, foi quase igual toda sexta-feira.


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Galeria de constrangimentos literários

Fotografia da livraria El Ateneo — Retirada do texto “Conheça as 10 livrarias mais interessantes do mundo”

A galeria dos constrangimentos literários de Thaís Campolina está em constante construção, o que pode fazer esse texto chegar aos quinze minutos facilmente.

Decidi criar esse acervo após ler o livro [manual prático de bons modos em livrarias] e pensar em todas as minhas histórias constrangedoras que com uma modificação aqui e ali poderiam me transformar facilmente numa personagem pitoresca que incomoda livreiros.


O clássico encontra o contemporâneo

Eu passei semanas chamado o escritor Ricardo Lísias de Ricardo Lusíadas e achando meio estranho, mas legal, ele ter como sobrenome um título de um clássico da língua portuguesa. Achei que nunca mais ia errar o nome dele, mas semana passada, fui comentar essa história e chamei o cara de Ricardo Lisíadas. Acho que na próxima eu vou falar “Aquele autor que foi processado pelo Eduardo Cunha, sabe?” porque daqui a pouco eu meto um Odisseia no nome do cara.

Uma confusão entre senhoras

Uma vez, ainda no Ensino Médio, eu fui xingar o clássico “Senhora” e acabei xingando a senhora do político e ex-vice presidente do Brasil José Alencar. Só depois de ouvir o interlocutor falar várias coisas doidas, eu entendi que faltou um “de” e o coleguinha estava certo ao ter continuado o papo com informações sobre política.

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Dia de caça

Obrigada, Canva

De salto e terninho, me sentei em um bar conhecido por vender chopp em dobro para engravatados durante o happy hour. Rapidamente, um cara me abordou. Respondi “Não, eu não estou acompanhada, moço” e o jogo começou.

Trocamos palavras, muitos beijos e alguns sorrisos e eu falei para ele vir comigo. Peguei sua mão e com jeitinho o guiei para fora do bar. “Vamos para um lugar mais reservado?”, eu disse enquanto o levava para o meu carro.

Encontramos minhas amigas pouco tempo depois. No olho, avaliaram com muito gosto o material que eu tinha levado e brincaram dizendo “Esse vai dar um trabalho, hein?”. Ele riu todo faceiro, com a certeza que tinha tirado a sorte grande. Juntos brindamos com cosmopolitans nas mãos.

Meia hora após o brinde, ele acordou e se deparou com muito mato, pouca luz, comigo e com minhas amigas. Nenhuma de salto, todas vestidas para matar: calça, coturno e espingarda. Demos uns minutos para ele tentar se esconder e saímos à caça.

Acertei suas costas e subi três posições no placar. Na próxima semana, já alcanço o primeiro lugar. É tipo um Counter Strike, mas no lugar das balas, usamos dardos tranquilizantes e depois devolvemos o animal para seu habitat, o bar.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroJogo.


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Técnicas de sobrevivência

Desci do ônibus por volta das 23 horas. A rua estava deserta. A madrugada anterior tinha marcado incríveis 7ºC e hoje a noite prometia um novo recorde. As minhas chaves estavam apertadas entre meus dedos mais centrais, como sempre, e eu tentava me convencer que estava munida de um soco inglês com pontas capazes de cegar um estuprador desavisado.

Faltando um pouco mais de um quarteirão para chegar em casa, a rua ficou mais escura e um homem apareceu na esquina da frente e veio em minha direção. Eu não tinha para onde fugir. Ele falava comigo, mas o medo e o barulho do vento não me deixavam entender bem o que ele dizia.

“Quando ele abaixar a guarda, enfio a ponta da chave na bochecha dele com toda minha força, chuto as bolas do desgraçado e corro”, planejei.

Eu tinha algo capaz de rasgar a pele e força o suficiente para usar minha chave como arma graças aos meses de musculação. Ele estava cada vez mais próximo e meu corpo cada vez mais tenso. Íamos nos encontrar de frente em alguns metros, mas antes disso, ele parou e começou a gritar “Mariana, é você? Sou eu, Seu João, seu porteiro. A luz do poste queimou, fiquei preocupado e vim te buscar”.

Não foi nesse dia que tive que usar técnicas de sobrevivência para conseguir chegar em casa sã e salva.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroChave.


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