Melhores leituras de 2024

Hoje, dia do leitor, anuncio as leituras mais marcantes de 2024!

Não é do meu feitio simplesmente fazer uma lista genérica, como um ranking top10, então teremos algumas categorias especiais para assim eu poder colocar tudo que eu listei desordenadamente.

Sim, tem prosa e poesia, tudo junto e misturado!

Apesar que eu não conseguir nem estimar direito quantos livros foram lidos nesse ano, sei que foi muita coisa. Afinal, além de ler por diversão, li para alimentar o @bafodepoesia, mediar o @clubecidadesolitaria, participar da @casadaspoetas, fazer leituras críticas, freelas de release e resenhas e algumas pesquisas pessoais para elaborar oficinas.

Li e reli tanta gente! Tanto livro bom!

E eu não fiz lista de lidos, ficou tudo solto, apesar do que foi lido sempre carregar em seu interior post its, marcadores e grifos que me ajudam a encontrar o prumo, inventar algum número, se eu sair abrindo os livros.

Nesse remelexo todo, a memória se confunde: só sei que a safra foi muito boa e é injusto eu não destacar, por exemplo, o livro “Um caminho particular de futuro” do Ricardo Bernhard, só porque não consegui encaixá-lo em nenhuma das categorias que inventei. E é mais injusto ainda eu não seguir adicionando exemplos e mais exemplos nesse parágrafo.

Nunca mais tentarei fazer listas assim, juro! Em 2025 só vou listar os lidos do ano e será isso, para eu não sofrer!

MAIS COMOVENTES

Amanhã tardará – Pedro Jucá
No dia em que não fui – Andressa Arce
Poeta chileno – Alejandro Zambra

ME DEIXARAM TOTALMENTE OBCECADA

Estrela da manhã – Karl Ove Knausgård
Todo mundo tem mãe, Catarina – Carla Guerson
Dobra – Adília Lopes

FAVORITADÍSSIMOS

Mau hábito – Alana S. Portero
amarelo mostarda – Maria Emanuelle Cardoso
cova profunda é a boca das mulheres estranhas – Mar Becker

ME DERAM MUITA VONTADE DE ESCREVER

na frente de estranhos – Carina S. Gonçalves
abrir a boca da cobra – Sofia Mariutti
refinaria – Rodrigo Cabral
Diorama – Carol Bensimon
Cavalo – Lucas Castor

ME FIZERAM UMA LEITORA MELHOR

O ninho – Bethânia Pires Amaro
Para além das margens: A Itália de Elena Ferrante – Isabela Discacciati
Louças de família – Eliane Marques

SALLY ROONEY DO ANO

Intermezzo

adeus, Adília Lopes

ontem, sem saber o que fazer com a notícia triste do dia, me peguei abrindo a Dobra mais uma vez. achei, inicialmente, que era por Adília ou Maria José que eu lia todos aqueles poemas, mas era também por mim.

a Dobra, com esse nome, sempre me fez pensar nas bolhas de dobras de tempo-espaço. ler esse livro, como na teoria Alcubierre, me faz surfar no desconhecido, sem ser afetada pelas leis da física. posso com a Dobra ler todos os anos anteriores de Adília como livro só. encarar o que foi produzido ao longo dos anos como obra única. e fiz isso inúmeras vezes lendo também cada um dos poemas como se eles acontecessem no momento presente. assim pude fazer todas as Adílias coexistirem tentando pegar um peixe com as mãos em Lisboa ou em Divinópolis e conseguindo uma, duas, três, quatrocentas vezes.

corri até a Dobra por isso, eu acho. quis ritualizar a despedida adicionando a Adília que não está mais entre nós a todas aquelas que vão continuar vivendo em cada um de seus leitores.

ficamos então com a falta. sem musas boas ou malvadas, sem a poeta oráculo do cotidiano, sem seus jogos perigosos e sem mais poemas repletos de gatas, baratas e fodas. mas ficamos também com a Dobra, porque ela escreveu o que escreveu e como escreveu para desafiar todas as leis da física da maneira mais banal e irônica possível. a literatura, de alguma maneira, sabe dobrar o tempo. e porque Adília fez isso com seus poemas, podemos brincar de dobrar junto com ela mesmo agora.


sentiremos sua falta!

Essas imagens junto dessa semi-crônica, foram publicadas originalmente em meu Instagram. O desenho marromenos foi feito por mim a fim de homenagear a poeta.

Misteriosas forças ocultas atuam na Flip e agora também em mim

Em novembro de 2022, eu viajei 17 horas de ônibus para ir para Flip, a maior festa literária do país. Para voltar, vivenciei junto de Tatiana Lazzarotto as forças ocultas de Paraty e acabei ficando mais um dia para curtir a cidade e, durante esse dia que precisava ser o derradeiro, eu e ela quase ficamos sem passagem para enfim cada uma voltar para a casa. A volta, ao contrário do que eu mesma esperava, durou 13 horas de ônibus, a quantidade de horas mais otimista para o modal escolhido.

Nesse último dia, descobri que existe uma lenda que diz que se você pular umas correntinhas do Centro Histórico, você fica preso na cidade. E, é claro, nessa altura do campeonato eu já tinha pulado muitas correntinhas, porque eu é que não ia dar a volta se podia simplesmente pular. Ainda mais numa rua de pedras. Sendo cética como sou, mesmo já sabendo da lenda, eu teria arriscado e feito tudinho igual. Mas eu voltei para casa. E a viagem foi tranquila, com zero intercorrências, diferente da ida.

Ainda durante a festa, eu já prometia regressar no ano seguinte. Dizia, para quem quisesse ouvir, que a Flip era mágica. E sigo dizendo isso até hoje, como vocês podem perceber por esse texto. E o retorno aconteceu. Voltei a repetir a saga da ida em novembro de 2023, dessa vez de carro, economizando assim algumas horas de viagem e paciência. 

Nesse segundo ano, eu, como boa mineira, decidi que também ia aproveitar as praias e assim o fiz. Sem deixar de circular pela Casa Gueto, ir para o Areal, curtir as festas e as mesas da Flipei, ser host do Sarau das Escreviventes e afins, eu também fui para a água e levei meu companheiro junto. Ainda assim, eu sentia, às vezes, que a magia me escapava. Eu estava lá, mas nunca mais seria como a primeira vez.

E, então, a luz apagou por horas. E ali, ansiosa, frustrada e estranhando tudo, a realidade me pegou pela mão e me mostrou o impacto de tanta gente de tanto lugar em uma cidade pequena, histórica e com problemas óbvios de saneamento.

A magia foi estremecida. E ela retornou, com toda força, nos últimos dias, porque nesse ano eu não vou para Paraty e eu estou arrasada por isso. Descobri hoje que alguma dessas malditas correntinhas que pulei, fez o que prometeu, mas houve um pequeno erro de regência quando me contaram sua maldição. Ao pular, você não fica preso na cidade em si, você fica preso à cidade. 

Paraty, durante os dias da festa literária, vira um lugar de encontro. Você conhece pessoas, você estreita laços, você vê a cidade inteira se transformar em um espaço-tempo em que a literatura ora é fuga, ora é assombro, mas é sempre centro. E, por algum motivo, essa estranha reunião precisa continuar se repetindo ao longo dos anos. E isso acaba, claro, criando um fluxo impossível de pessoas. Mas a impossibilidade de tanta gente estar ali, numa data específica marcada com menos de um ano de antecedência, não muda o fato de que há pessoas que você só vê lá. Há trocas que só são possíveis ali. Só nesse espaço-tempo você acaba passando horas numa fila para ouvir uma mesa com Conceição Evaristo, consegue enfim entrar na casa, apesar da lotação, por pura generosidade da porteira e, assim, acaba passando quase uma hora agachada debaixo de uma mesa para se proteger da chuva com as poetas e amigas Marina Grandolpho e Luiza Leite Ferreira, enquanto Conceição fala de Macabéa. Só ali você vê Annie Ernaux passeando pelas ruas de pedra aos 82 anos logo após ganhar o Nobel de Literatura. Só lá você janta do lado de Dionne Brand e finge que nada está acontecendo. Só ali você consegue tolerar a chuva, ainda que siga reclamando sobre ela. Só lá você consegue entender uma pessoa falando francês devagar mesmo sem nunca ter estudado o idioma na vida. Só lá você se sente tão viciada em viver e aprender e ler e escrever e escutar assim, como se nem precisasse dormir.

Hoje concluí que Paraty sempre vai tentar nos atrair, em especial nos dias da festa literária, quando a força da ficção fica mais poderosa e, assim, a atração da cidade se multiplica além de si mesma. O problema é que essa força, ainda que potente, precisa de ainda mais gente ansiando estar lá e, por essa falta, ainda não consegue me teletransportar agora para a Travessa Gravatá ou para a Rua Fresca ou para a Rua do Fogo. 

Essa crônica foi inspirada pelo texto de Jeovanna Vieira sobre o FoMo de não estar na Flip depois de uma vez ter ido e conhecido a magia da festa.

Divinópolis, Adélia, a poesia e eu

Foto: Ana Carolina Fernandes/Folhapress

Nasci na mesma cidade que Adélia Prado e quase sem querer encarei essa coincidência territorial como um destino passando a escrever poemas a fim de investigar qualquer coisa sem registro.

Nunca achei que a literatura fosse algo muito distante simplesmente porque Adélia Prado me ensinou a situá-la no aqui e no agora. O aqui e agora não é metafórico quando você vê a poeta citada no livro de literatura ir fazer a feira da semana onde a sua mãe também vai.

Lendo Adélia Prado eu aprendi a perceber melhor as cores. Descobri que uma casa com as paredes alaranjadas está constantemente amanhecendo, que o roxo é uma doidura para amanhecer, é bonito e o amarelo gosta dele, e eu e a Adélia também.
Por causa dela eu passei a notar que os jardins fazem parecer que as arvorinhas conversam, que deveria existir licença para dormir, que o trem de ferro que atravessa a cidade atravessa também a minha vida e depois vira só sentimento e também foi lendo Adélia que vi a palavra cu impressa pela primeira vez.

Esse texto foi escrito como parte de um roteiro de um vídeo que gravei para homenagear a autora no meu Instagram após ela ganhar, com menos de uma semana de diferença, os prêmios Machado de Assis e Camões. Assista aqui!

Sobre Adélia Prado e o cotidiano na poesia leia também esse meu ensaio publicado originalmente no portal Fazia Poesia.

“A suspensão de Tomie Ohtake”: quando da contemplação do gesto de fazer e olhar surge mais arte

Acervo pessoal – Acesse meu instagram para mais fotos como essa.

“A suspensão de Tomie Ohtake”, estreia poética de Letícia Miranda, é uma leitura que propõe um diálogo muito próprio com a vida e o trabalho de Tomie Ohtake, artista plástica japonesa naturalizada brasileira. Composto por 35 poemas e algumas colagens, a poeta e artista brasiliense ficcionaliza, homenageia e conversa com a artista e sua obra, construindo um livro que tem como corpo a contemplação que a arte é capaz de evocar como e a partir da experiência, seja pela sua própria feitura, seja pelos muitos desdobramentos possíveis que um objeto artístico pode ter no mundo e na memória. 

Essa possibilidade de transmutação entre arte, vivência e novas perspectivas ganha ainda mais significado quando se apoia em alguém com a história de Tomie Ohtake. Nesse caso, são mais de cem anos de atravessamentos, dois países, uma naturalização, 120 exposições individuais e mais de 30 obras espalhadas em espaços públicos. Algo bem lembrado pelo primeiro poema do livro que afirma:

“As formas
emendadas nas cores
se deslocam
permanece o gesto
de uma mulher
centenária”
(página 11)

Nomeado “Sem título”, esses versos, ao nos fazer pensar nos tantos quadros denominados assim, tornam obra de arte todo o movimento causado por essa artista.

Nessa conversa poética, quem lê é convidado a perceber a observação do gesto, além do gesto per si, como um ato de contemplação. Assim, permanência e impermanência se dividem nas páginas como parte de um deslocamento quase imperceptível, nos oferecendo a possibilidade de olhar diferente para todas as formas, as cores e as cenas que nos cercam. Assim, os poemas de Letícia nos permitem adentrar numa atmosfera em que o aparentemente simples ganha formato, força e ainda mais significado.

Dessa maneira, as linhas simples de Tomie Ohtake se traduzem em poesia. Curtos e construídos usando palavras comuns com bastante precisão, a poesia da autora condensa cenas comuns, como o amanhecer, em versos que, em um processo de desdobramento poético, transformam o que a gente considera conhecer bem em algo quase abstrato. É como se Letícia nos disponibilizasse lentes esquisitas. Com elas, podemos ver o Sol mudar de tamanho, cores se enfurecerem, montanhas virarem linhas e uma única gota ser considerada capaz de inundar uma pessoa inteira. 

“A suspensão de Tomie Ohtake” se faz em um ir e vir de processos criativos que acomete quem se permite viver inteiramente o estranho momento de deslumbramento e conexão que a arte é capaz de produzir. Quando Letícia abre seu livro dizendo “Tomie, o nome do território onde me ancorei”, ela nos ensina que um artista pode se tornar casa para quem é tocado por ele. A arte é um lugar de permanência. E nesse cenário, tudo se fragmenta em ainda mais arte.

essa resenha começou a se escrever na minha cabeça um ano atrás, quando, acometida por uma enxaqueca, não consegui ir ao lançamento desse livro incrível mesmo estando em Brasília na data. um pedaço dela se tornou uma indicação de leitura no instagram da Crivo Editorial antes de virar esse texto.

confira alguns poemas do livro na minha página Bafo de Poesia: “Termologia”, “Água corrente” e “Tatear com os dedos”.

“Da costela do impossível”: luz, sombra e a imagem refletida por essa combinação

Acervo pessoal

É difícil escrever o que nos comove sem recair em clichês ou mesmo numa linguagem cafona, especialmente se você for um cínico. E todo mundo foi obrigado a aprender a ser um nos últimos anos. A comoção foi praticamente proibida como tema, especialmente se ela se apresenta entrelaçada na complexidade de um cotidiano de pequenas coisas a serem contempladas. 

Tratada como um luxo numa sociedade que busca a produtividade acima de tudo e ataca até mesmo o sono, o sonho e o descanso, a comoção se encontra em extinção. Se propor a se comover virou quase um ato de rebeldia em meio a um mundo de estímulos que, sendo praticamente ininterruptos, transformam qualquer emoção em uma sensação estranha e passageira. 

É preciso digerir e ninguém tem tido tempo para digerir qualquer coisa. Estamos na era do utilitário e até a leitura de poesia pode ser transformada em mais um item de uma checklist de afazeres. Alguma poesia na rotina é melhor do que nenhuma, eu diria justificando meus atos. E talvez você concordasse comigo até você também se deparar com os poemas do livro Da costela do impossível de Marcela Alves e entender que poesia na rotina significa algo mais do que a simples leitura de uma página. 

Com uma obra focada em detalhes que tornam visíveis a cumplicidade dos laços e a beleza das pequenas coisas, a poeta constrói versos que também possibilitam contemplar e perceber a própria dor. O tempo corre diferente quando você conversa com o eu-lírico construído por ela. Não tem agenda e planejamento que dê conta. É impossível ler tudo de uma vez, ler de qualquer jeito, deixar pra ler correndo no intervalo do almoço. A poesia de Marcela é oráculo, sua leitura pede uma pausa ritualística no meio da rotina. E essa pausa pode durar apenas alguns minutos, o lapso exato de um poema, desde que você esteja presente ali, sem pensar na próxima tarefa. 

Ler Da costela do impossível é buscar compreender melhor o alcance de um instante e essa reflexão surge impondo que a gente abrace o não-entendimento racional daquilo que chamamos de vida, calendário, entendimento, prazo, fim. Não basta partir de uma razão cartesiana para ler poesia, para pensar na percepção da experiência é preciso espanto, comoção, assombro, alguma magia.

“provamos a carne crua da ignorância
até entender que entender leva tempo
o agora é imenso, não há fronteiras
a possibilidade se avizinha de outra possibilidade
que é irmã de mais uma e em nada se assemelha
a tantas outras”

página 37, poema “quando ainda”

A poeta escreve para dentro, construindo uma concha misteriosa em torno das palavras. Só que essa concha não está absorta em si mesma, ela é também uma concha acústica, que, inspirada no ouvido humano, é feita para fazer reverberar melhor o som para a plateia que se permite entrar, ficar e permanecer.

Dentro da poesia de Marcela, o íntimo nos atinge. Nossa intimidade se entrelaça com a do eu-lírico e nos lembra do que somos feitos: ternura, medo, beleza, dúvida, perda e um pouco do que pode parecer nada para alguns, mas é a matéria-prima que nos faz gente, como a cena de uma avó plantando rosas, de uma casa que é casa por causa das amoras roxas de sua calçada, de um pai fritando peixe e servindo cerveja para ele e a filha numa sexta-feira santa, de uma mãe que cozinha couve com devoção, de um amigo recém retornado de uma grande viagem.

Da costela do impossível se constrói pela via da luz, da sombra e da imagem refletida por essa combinação ser possível como parte da natureza. Mesmo buscando iluminar as miudezas que tornam a existência algo muito além da mera sobrevivência, a autora nunca esquece que na luz se encontra também a escuridão. Marcela escreve para honrar o mais bonito de suas origens, trazendo à tona Adélia Prado como epígrafe e referência de sacro e sacrilégio, luz e sombra, vida e poesia. E, nesse estranho lugar, tradição e modernidade se encontram com todas as suas contradições.

Acervo pessoal – Bafo de Poesia

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sobre o verbete registro

re.gis.tro
substantivo masculino no dicionário
domínio patriarcal e branco na história
prática feminina no planeta

1. certidões civis. 

de nascimento, casamento, união estável, óbito, 
com nome ou não retificado. 
de antecedentes criminais, regularidade fiscal,
imóveis e inscrição na junta comercial. 

no mundo jurídico-burocrático-cartorário 
tudo que existe precisa ser documentado 
conforme algumas regras. 

e pra onde vai o que não cabe nessas regras? 
a gente que lute para não deixar 
o registro jurídico sobrepor 
a todas as outras formas 
de registro.

2. o mesmo que diário, 
seja o pessoal e intransferível, 
seja o livro contábil. 

o registro pode ser uma elaboração do eu 
e também uma análise das contas.

3. peça utilizada para regular o funcionamento de chuveiros;

é importante anotar:
quando essa peça queima, 
quando o gás acaba, 
quando se precisa dar um jeito, 
porque tudo isso custa dinheiro. 

todo registro também é uma forma de calibragem 
do que se quer e o que se precisa fazer.

4. item essencial em todas as prestações de contas.

5. o registro é uma espécie de coleta, 
seja ela provocada, 
metódica 
ou
involuntária.

é possível registrar sem querer querendo.

6. pode ser uma tentativa de captar ou destacar nuances.
 
por fotografia, gravação em vídeo, arquivo de som, grafite, pintura, bordado, decoupage, escultura, pixo, maquete de escola, biscuit, print de tela, contação de história, fofoca, escrita acadêmica, jornalística, memoralista, de blog ou ficcional. 

dizem que poetas e cronistas se dão bem nesse aspecto.

7. ajuste das lentes utilizadas para captar as nuances citadas no item 6. 

às vezes a gente precisa limpar bem os óculos 
para conseguir perceber o que, 
como e quando 
se deve documentar 
o que nos cerca. 

o que está faltando? 
por que está faltando? 
por que pareço um turista na minha própria cidade? 
quem se faz presente no meu lugar?

nem todas as histórias foram contadas
disse Dalva Soares citando Carola Saavedra

e é verdade.

8. todo registro também demanda acertar as arestas da percepção.

9. é o resultado da observação e seus desdobramentos.

10. o que faz um instante de atenção 
durar tempo o suficiente 
para se fixar no cérebro

é um momento com uma existência 
menos temporária 
que sua duração fática. 

o registro é a tentativa de manter nossas sinapses funcionando

11. o registro pode tomar forma 

e entre tantas formas possíveis
pode vir a ser notas de celular 
feitas para ajudar a memória 
a funcionar melhor.

as notas podem ser qualquer recurso 
inclusive um post it pregado na geladeira
que diga 
o que se precisa fazer 
e também 
“ela esteve aqui” ou 
“ela pode estar aqui” 
ou “por que ela já não está mais conosco?”

o registro pode ser um epitáfio, 
mas costuma ser ainda mais físico do que isso.

12. é o que fica de uma história que marca o registrante. uma evidência de ocupação de tempo, espaço, lugar no álbum de família.

13. o registro é uma prova de vida.

Esse texto foi produzido durante a residência artístico-literária do projeto Jurema na Cidade e por isso foi originalmente publicado em seu blog. O projeto também foi responsável pelo lançamento da coletânea “Jurema: mulheres (re)escrevem a cidade”. Você pode lê-la na íntegra em pdf ou ouvi-la no Spotify. Faço parte do livro como autora, organizadora, editora e bordadeira.

Esse texto também foi publicado na Revista Mormaço – Edição #6.

abertura bucal

Colagem por Thaís Campolina

Ao som de Prélude nº 1 — Melodía lírica de Heitor Villa-Lobos

Andar de meias pela casa é uma experiência sem volta, amor. Uma só vez deslizando pelo corredor até o meio da sala será o suficiente para fazer aparecer na sua frente um complexo de patinação artística entre o rack da TV e a porta para a cozinha.

No começo, cada toque dos pés protegidos por meias 100% algodão chega ao piso irradiando conforto, vontade de correr e medo de se estatelar. E, de repente, sem qualquer planejamento, você se deixa ganhar velocidade e cai em gargalhadas quando se vê derrapando até desabar de qualquer jeito no sofá. O taco gasto do apartamento alugado chamado de casa de repente pura pista de gelo.

Da janela, o sol distante das primeiras horas da manhã parecia um floco de neve quente que avermelhava a alvorada prestes a se fazer derreter em uma imensidão azul, sem nuvens. Ainda pálido, ele iluminou a minha primeira acrobacia e ela, que surgiu de maneira tão desajeitada a partir de um impulso que veio não sei de onde, talvez da vontade de imitar Frajola que tinha pulado no tapete somente pelo prazer de deslizar, iniciou essas Olimpíadas de Inverno.

Agora o movimento dos apartamentos ao redor indica que a vizinhança se prepara para começar sua rotina, como eu e você estávamos antes de sermos botados para dançar ao som dos passarinhos, gatos pedindo ração e despertadores. Sei que hoje será diferente pelas risadas. E pelo som das quedas, esbarrões, móveis sendo arrastados e controles remotos fazendo piiiiiii antes de quebrarem de vez.

São tantos risos que, no apartamento debaixo, a cachorrinha Calabresa dá um latido estridente, segundos antes de pular no colo da dona Dirce que parece brincar de girar na cadeira de escritório da filha. Alguns vizinhos também cantam, outros acordam lentamente já seduzidos a fazer de patins suas meias. A maioria, ainda de pijama, só dança sorrindo se mostrando pela janela com as cortinas escancaradas pela primeira vez em meses.

São tantos dentes à mostra que começo a pensar que estou dentro de uma boca e é por isso que a sala se tornou lugar de saborear. A boca enorme é o que me deixa escorregar sem me estripar toda. Meu tapete, uma gengiva macia. Uma língua gigante me impede de cair, impede o bairro inteiro de descer goela abaixo ao som das próprias gargalhadas. E a luz, que vem de fora, gelada, porque ainda venta frio em Belo Horizonte, se derrete como picolé nessa boca quente e lúbrica. E eu sigo com você, dançando pelos dentes, me deixando levar corredor adiante pelo suor e pela saliva, porque sei que essa boca se abriu assim por estar cansada de nos devorar.

se você gostou desse conto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram. originalmente publicado na Revista Mormaço.

“Coisa amor” e a busca humana por algum entendimento

Acervo pessoal

Um livro chamado “Coisa amor” combina com a palavra afeto, porque lembra ternura, carinho, estima, conexão e todas essas coisas que a gente deseja, mesmo quando fingimos de cínicos ou nos consideramos incapazes de sentir, vivenciar ou despertar esse sentimento no outro. Só que afeto não é uma palavra simples. A gente usa, na maioria das vezes, como um sinônimo de amor, mas seu significado pode ir além: para a psicologia, por exemplo, é um agente modificador de comportamento, podendo ser positivo ou negativo. E essa definição não surgiu do nada. As palavras latinas que deram origem ao afeto que guia esse texto eram usadas como sinônimo de estar inclinado a, influir sobre, fazer algo a alguém. Afeto então é sobre afetar e ser afetado. “Coisa amor” também, porque Pedro Jucá escreve para causar alguma coisa dentro da gente, testando a forma que o leitor interage com personagens e situações, enquanto, de certa forma, brinca com o feio, o clandestino, com tudo aquilo que, direta ou indiretamente, ajuda a compor a matéria dos tabus, dos desejos e dos segredos.

A partir de quinze contos, o autor aborda temas como solidão, morte, memória, sexualidade, inconsciente, loucura e quereres e coloca quem lê frente a frente ao desconfortável limiar do dito e não dito da experiência humana. A cada narrativa, Pedro Jucá nos apresenta um pouco mais dessa substância viscosa, densa e cor de carne que nos faz gente. E, para isso, usa diferentes formas de narrar, explorando a vulnerabilidade humana a cada cena, reflexão, circunstância, partindo principalmente de relações familiares, como a maternidade. Assim, consegue amarrar todos esses temas e perspectivas ao que podemos chamar de busca humana por conexão, companhia, entendimento.

Em “Coisa amor”, o encontro com o Outro é sempre desafiador. Ainda que essa demanda por compreensão e afeto guie os sujeitos dessas histórias, o Outro é sempre Outro. Nesse encontro de identidades há momentos em que o laço entre os personagens se amplifica, tornando aquela ligação um instante de entendimento, mas, na maioria das vezes, o medo de ser visto completamente, como se isso fosse possível, impede qualquer vestígio de conexão. Só que essa conexão, sempre tão desejada e praticamente impossível, acaba acontecendo com a gente, que a partir do ato da leitura, tentamos decifrar comportamentos, personalidades, situações.

Nesse caso, estamos numa posição de poder. A cadeira de quem lê é a de quem espera uma trama se desenrolar. Somos espectadores, na maioria das vezes invisíveis, da história alheia e queremos entretenimento. Só que Pedro Jucá cria suas narrativas para nos lembrar do poder da linguagem de nos afetar e, dessa forma, aproxima seus personagens de quem lê, obrigando a gente a lidar com esse lugar de uma outra forma. Lemos essas histórias, então, como quem se dirige para um parque de diversões, e acaba entrando numa enorme sala de espelhos cheia de sombras e truques que são capazes de transformar 149 páginas de texto em 3450 minutos em um labirinto de sensações.

O entendimento desejado por essas personas fictícias acontece, porque aquilo que esses personagens se esforçam tanto para esconder até deles mesmos, escapa. O trabalho estético do autor ajuda nesse efeito: Pedro escreve para gente decifrar, exige atenção. O texto flui, mas tem voltas, alguns estranhamentos, qualquer coisa que te obriga a frear, com medo de atropelar algo importante. E essa conexão se completa, porque ao entender alguma coisa, quem lê se sente cúmplice. Leitor e personagens se encontram na clandestinidade do ato de levantar o tapete que cobria o elefante no meio da sala.

Mesmo incomodados, continuamos lendo e, por escolhermos continuar, nos associamos ao que está sendo compartilhado por esses Outros. Somos gente, afinal, e por isso inevitavelmente comparsas de tudo aquilo que é demasiadamente humano, como a literatura é. Ao sermos afetados, ficamos mancomunados aos personagens e assim nos tornamos coautores de tudo que a humanidade é capaz de sentir, e por isso, fazer. Podemos até ler como detetives, fiscais ou juízes, mas ainda assim, nos vinculamos ao que foi dito, feito, produzido, porque em algum momento aceitamos fazer parte disso tudo, em especial quando tentamos nos fantasiar com essas figuras de poder que simbolizam a proibição de qualquer demonstração de vulnerabilidade.

Ler “Coisa amor” então é se permitir investigar a composição da matéria oculta que nos forma e nos permite ser capaz de produzir e consumir arte. Jamais entenderemos completamente o que nos leva, por exemplo, a amar alguém e o que de fato significa isso pra nós mesmos. Como no conto que dá nome ao livro, mesmo com o mapeamento da química da paixão e a descrição técnica do funcionamento do corpo nessas horas, ainda há espaço para uma certa poética, logo uma certa dose de pensamento mágico. Jamais haverá compreensão completa do Outro e nem de nós mesmos. E a gente sabe disso, mas ainda assim continuamos tentando decifrar o indecifrável, porque é isso que precisamos fazer para vez ou outra conseguir vivenciar instantes em que não nos sentimos sós.

“Mas não, nada disso aconteceu. As histórias mais tristes são também as mais prosaicas, as que sequer alcançam o status de tragédia. Desprovidas de potência ficcional, nem à catarse servem […]” Passo a Passo (pág. 22)

Acervo pessoal

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Não sou uma leitora imparcial. Escolho as minhas prioridades de leitura guiada, principalmente, pelo afeto. Sei que afeto é uma dessas palavras gastas — até as lojas de dermocosméticos a utilizam pra vender shampoo anticaspa e protetor solar quando querem falar sobre autocuidado e amor próprio — mas foi inevitável não usá-la enquanto escrevia sobre o livro de contos “Coisa amor”, de Pedro Jucá, que, por acaso, se tornou especialista em Escrita e Criação junto comigo, após uma imersão que envolveu escrita, leitura e compartilhamento durante 19 meses.

Algumas das prosas que constroem essa obra, como a penúltima história, vi nascer. Oficina já era uma conhecida minha das aulas, ainda que numa versão ainda pouco trabalhada. Outros simplesmente me surpreenderam: como Cerimonial, Nutriz e até mesmo o Coisa amor, que empresta seu título ao livro. Mas foram os contos Ela, Passo a passo e Years of Solitude que me fizeram pensar que Pedro sabe muito bem onde quer chegar.

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“Apague a luz se for chorar”: lidar com a morte é lidar com a vida

Acervo pessoal – Adquira seu exemplar aqui

“Apague a luz se for chorar”, romance da escritora Fabiane Guimarães, me aguardava na biblioteca do Kindle fazia quase um ano. Prestes a embarcar em uma via sacra celeste com destino final em Brasília, me veio a lembrança de que tinha lido em algum lugar, provavelmente nas redes sociais da autora, que ela tinha nascido no interior de Goiás e agora morava na capital federal, a cidade que mais uma vez eu ia visitar. Buscando algum cenário ou passagem ficcional que me levasse até o Centro-Oeste mais rápido que qualquer avião, abri o arquivo do livro decidida a começar a leitura. Logo, junto de Cecília, estava no ar, pousando no aeroporto com água até dentro dos meus olhos, mesmo com o mundo real seco como eu já esperava encontrar indo para lá no inverno.

Fui fisgada pela história já nas primeiras páginas.

Se um luto é sempre um processo de conhecimento, onde o enlutado, na busca por alguma resposta, precisa produzir provas, ouvir testemunhas e captar todas as informações possíveis daquele fato para elaborar perante o juiz, que, nesse caso, também é ele mesmo, Fabiane Guimarães soube levar isso além, transformando em algo mais uma narração em que a lógica enlutada e ansiosa de uma personagem nos conduz vertiginosamente a partir da dúvida.

Cecília vivencia seu luto por inteiro, mesmo quando tem certeza que deixou quase todo seu corpo coberto e protegido. Ela perdeu seus pais no mesmo dia, na mesma hora. Morreram juntos, de causas naturais, alguém explica a ela que segue sem absorver a frase como se esperava. “Sua mãe era tão boa”, diz outra pessoa que ela nunca viu na vida. Tudo é estranho, a morte é estranha. E por isso a gente se abre para essa personagem na hora, como se tentar entendê-la fosse preparar a gente para lidar com nossos mortos, com a certeza da nossa própria morte. Assim como Cecília, a gente tem dúvidas e nos expomos a elas a cada página lida, porque sabemos que não conhecemos ninguém tão bem assim, porque também temos medo da morte e dos segredos de família, porque desconhecemos qual é o sentido da vida, se há um ou dois ou nada. A gente simplesmente entende Cecília, porque conhecemos o poder do “e se”, então abraçamos sua desconfiança, tememos por ela, nos perguntamos porque ela falou alguma coisa e deixou de falar outra.

Com João é diferente. A história dele simplesmente vai se desenhando, acontecendo, sem a gente entender bem o porquê dela estar ali, sendo contada junto da vida de Cecília. A gente só acompanha ele e seu filho Adam, enquanto espera o momento em que tudo fará sentido. Agimos exatamente como o personagem, que parece, ao menos inicialmente, simplesmente seguir seu caminho trabalhando na zoonoses fazendo eutanásia em animais, fingindo não pensar tanto no que isso significa para ele, seu filho com uma grave deficiência e todos os cães e gatos que lhe são entregues. Só que um dos fios condutores desse livro se revela rapidamente, ainda que a gente demore um pouco para perceber: João também está lidando com a morte, com a sombra dela se aproximando do filho, e sua história é a de quem também busca respostas, mas tem medo até das perguntas que cogita fazer. João tem medo do seu futuro com e sem o filho.

Pirenópolis é um destino estranho para enlutados, mas me parece um lugar perfeito para dois idosos viverem juntos seus últimos dias. Não importa se os mortos gostavam ou não do último lugar em que moraram, porque aqueles que ficam e sofrem se sentirão pisando em um terreno insólito e perigoso independente de onde estejam. No fim das contas, qualquer lugar é um destino estranho para quem sofre uma perda. Ou acha que pode perder alguém a qualquer momento. Ou perde alguéns e ainda descobre um segredo de família que pode mudar a maneira como você encarava até então seu pai, sua mãe, sua vida.

Apague a luz se for chorar” é uma história sobre as descobertas que fazemos quando somos obrigados a tatear essa escuridão. Lidar com a morte, aquela que ameaça ou já aconteceu, é estar em um não-lugar, um espaço suspenso, em que o mundo dos vivos se esbarra no dos mortos o tempo todo. Cecília e João vivem de maneiras bem diferentes a angústia de não conseguir mais pisar no solo e senti-lo firme e por essas e outras se encontram nesse livro que fala de morte, luto, medo, família, escolhas e segredos.

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