O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet

Pasta de contos de terror — Arquivo pessoal.

Enquanto vasculhava todos os cômodos da minha casa em busca de um documento, eu encontrei um mundo de lembranças.

Entre revistas adolescentes, uma agendinha, um certificado do PROERD, um caderno de caligrafia e um papel que dizia que eu tinha concluído todo o curso de natação do clube, encontrei uma pasta com os dizeres “Contos de terror” toda desenhadinha por mim e recheada com meus primeiros contos de terror e de exercícios escolares de construção de personagens, ambientação e afins.

Ser escritora é um sonho que me acompanha desde a infância, encontrar esses papéis é reconhecer quem fui e redescobrir a força do meu anseio que permanece atual. Eu tinha nove anos quando esses textos foram feitos e sei que eles foram os primeiros de terror, mas não os primeiros de tudo. A história começou antes disso.

Descobri que eu escrevia e usava canetinha para fazer as letras escorridas, desenhar uns fantasminhas e adicionar detalhes como morcegos, escorpiões e aranhas. Tudo isso com muito vermelho. Aparentemente, eu era uma fã da estética do terror e sempre quis ilustrar o que escrevo. No meio dessa papelada, descobri o perfil do personagem chamado “O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet”. Descrevi suas práticas, suas armas, seu corpo e até mesmo a origem do seu nome e sua história. Ele era inicialmente um homem chamado Gem que foi transformado em ET, mas fugiu no meio do processo, caiu no fogo e ficou assim, feio e ruim. Ri do nome, me surpreendi com a riqueza de detalhes e com as referências que já davam as caras. Quadrilevegentet usa uma máscara de hóquei, assim como Jason. Filme que só fui ver anos depois, mas a icônica máscara do filme, que eu já conhecia pelas propagandas e posteres da locadora, já me fazia arrepiar de medo e valia como descrição de personagem malvado.

Planetaril Quadrilevegentet — Arquivo pessoal.

Contei histórias de maldições, ets, bruxas, casas mal assombradas e elas estão aqui guardadas para me lembrar que o medo, a construção do que é horror e ruim e de quem eu quero ser já se faziam presentes antes de eu saber que eu viro passado.

31 de outubro, dia das bruxas, precisei revirar memórias bem hoje e depois de anos arrumando o armário sem encontrar meus escritos infantis de terror, eles apareceram. Acho que as bruxas querem me dizer que eu devo continuar escrevendo.


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Crise existencial protocolar

Arquivo pessoal. Ilustração feita por mim.

Desde o registro do nascimento no boletim médico, nós recebemos um número que nos identifica. Data, hora, peso, altura, protocolo de entrada da gestante (ainda somos um pouco nossas mães). Poucos dias depois, alguém nos registra e o cartório informa ao mundo o nome e sobrenome que a família escolheu e nos dá um número que servirá de base para tudo, o de matrícula. Agora temos uma certidão de nascimento. O Estado e o direito nos reconhece. Com ele, conseguimos ter os números que abrem as portas para tudo: o de registro geral e o do cadastro de pessoas físicas. Nesse meio tempo, somos registrados em cada instituição que pisamos: escola, faculdade, banco, plano de saúde, cursinho de idiomas, trabalho, clube, outro país. Do passaporte à carteira nacional de habilitação. Também somos o ddd e o número do celular.

Seu nome, seus números. Para acessar qualquer direito, para comprar várias coisas, contratar serviços, receber salário, para atravessar a fronteira, a gente precisa de se afirmar como uma sequência de algarismos. Existimos enquanto números, enquanto achamos que somos nomes.

Um dia tememos o bug do milênio, os computadores eram programados para entender os anos com apenas dois dígitos e 00 podia ser 1900 ou 2000. Datas erradas, números binários, falência, juros negativos, investimentos perdidos: era a previsão de uma desordem no sistema econômico mundial sem precedentes. O ano virou sem o apocalipse financeiro e seguimos com medo dos próximos fins do mundo.

O meu fim do mundo ocorreu numa segunda-feira, ao descobrir que mais de dois anos da minha vida tinham sumido de um sistema. Foi um bug que passou despercebido por ter atingido só a parte de um todo e se alimentou da incompetência alheia e da minha negligente mania de adiar tudo e não conferir nem troco. Tenho ou tinha a ingenuidade de quem se acha mais que número. Sempre achei que eu era gente e que era meu nome que carregava minha história. Eu não sabia que nome não é garantia de existência. Puff, nenhum dos tantos protocolos que um dia tive que anotar consta como registrado, tudo apagado. Em algum aspecto deixei de existir. Minha percepção de quem eu sou perpassa por esses anos perdidos, mas eles não existem mais. São feitos de memórias sem fé pública. Qualquer coisa feita pra corrigir será fora de hora. Tudo será refeito com uma nova data. Os anos continuarão vagos. Um lapso temporal que soa como anos sabáticos. A nova data valerá para documentos e constará no sistema, mas um pedaço de mim desapareceu. Ainda existe pra mim, mas oficialmente sumiu. Sou o que consta ou o que aconteceu?

Um bug de consequências burocráticas que num mundo de números e documentos afeta até os batimentos cardíacos e o funcionamento do intestino. Somos mais número que imaginamos. O acesso ao mundo depende deles. Somos afetados, somos dependentes.

Depois dessa, não sei por quanto tempo me sentirei confortável sem uma conta de banco e um cartão de crédito. Por não existir em termos capitalistas ou corporativos, fui rejeitada na hora de contratar alguns serviços algumas vezes. Nunca tinha me incomodado com isso antes, achava que era só uma bizarrice boa pra virar “causo”. Agora temo que a cada ano sem, eu passe a existir menos, independente de eu ter me tornado ou não mais gente. Afinal, é um número a menos e somos todos feitos por eles.


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Conexão é a palavra.

Pedaço de uma mini-zine que fiz. Arquivo pessoal.

Mesmo muito antes daquele cdzinho do discador da IG, conexão já era uma palavra que tinha tudo a ver conosco. Conexão é aquele zunido bizarro da internet discada, inserir a senha do wi fi e ler conectado, mas também é cada ponto das nossas histórias que tocam as histórias dos outros.

Somos bicho humano e a gente sempre arruma um jeito de conectar. Os espaços de conexão são vários e todos parecem uma grande colcha de retalhos. Na cidade, os percursos são diversos, as pessoas também, eles se encontram e desencontram. De tanto se esbarrar, cria-se uma conexão. Ora são zés e marias ninguém, ora são aqueles do ônibus 9410, aqueles do twitter, aqueles do grupo de vídeos e fotos de bichos fofinhos.

Nesse mundo feito de esbarrões, onde linhas invisíveis unem e desunem pessoas, a gente existe e as conexões se fazem. Nem sempre entre pessoas. A gente se conecta até com os prédios bonitos que contemplamos no caminho. Basta ter tempo de olhar, olhar mesmo, para o cérebro criar uma lembrança nomeada prédiohistóricobonito.neurônio. Com o tempo, nossas histórias se tornam parte da cidade. A praça não é só a praça Nome Masculino de Um Cara Branco e Rico, ela é a praça onde a gente andou pela primeira vez de bicicleta, onde se quebrou o dente na infância, onde todo mundo joga pokémon Go.

A história começa no funcionamento dos neurônios. Os dendritos captam sinais elétricos e os retransmitem para o axônio e o axônio se conecta com outros neurônios ou mesmo com células de diferentes tecidos. Isso feito inúmeras vezes e em todo o tecido nervoso. Conexões múltiplas que juntas criam nossa percepção e memória. E o que seria da memória sem um punhado de ligações entre nós, os outros e as coisas?


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Filha de peixe

Imagem de água cristalina

Sou filha de peixe. Fui encontrada à beira de um rio poluído, daqueles que cheiram morte. Hoje tenho a teoria de que meus pais-peixe queriam tanto que eu vivesse que pediram às águas que eu me tornasse gente. Me tornei e cresci pisando firme numa terra de um rio morto.

Minha mãe-gente me encontrou por morar perto de um dos trechos mais vivos do rio morto da cidade. Era 06:50 da manhã de um domingo e ela acordou com um choro de quem nunca sentiu o ar entrar pelas narinas vindo do lado do rio. Ela pensou que aquele som vinha de um parto estranho, o parto de uma mulher silenciosa e saiu para tentar ajudar. Encontrou, bem na beira do rio, um bebê sozinho, todo molhado, já maior do que um recém nascido, mas que parecia respirar pela primeira vez.

Mamãe-gente me levou para o hospital, falou com as instituições, conversou com a mídia e lutou para conseguir ficar comigo. Meu surgimento ali, na beira do rio, foi encarado por ela como um presente das águas e uma missão. Ela deveria me fazer ser uma filha digna do rio, a última filha dele.

Mamãe correu tanto para acudir a mulher inexistente que paria um bebê choroso não por ser enfermeira, mas por ser seu destino. Ela é bibliotecária e antes de mim nunca tinha cuidado de ninguém. Numa cidade seca de tudo, inclusive de recursos e atenção política, ela tinha que me levar para o trabalho todo dia. Imagine só um bebê numa biblioteca! Qualquer chorinho e os olhares cresciam para cima dela. Viveu com medo de perder o emprego até que um dia sonhou com uma confusão de sons, sensações e cores e acordou sabendo que precisava arrumar um aquário e colocar perto de onde eu ficava. Funcionou.

Mamãe também fala que eu sempre senti muita sede. Se a indicação de quantidade de água diária é dois litros, eu sempre bebi ao menos três. Nenhum suco, leite, refrigerante, chá ou café jamais me saciou, só água.

A cidade onde cresci nunca teve água direito. O rio, sem a vida dos peixes, secou e morreu. Vivi num ambiente em que a chuva e o banho eram meu único contato com a água. A chuva só aparecia durante uns quatro meses do ano e ainda assim era rara. As piscinas eram para os poucos que podiam pagar cotas em clubes e eu nunca nem vi.

Quando eu tinha sete anos, mamãe e eu fomos visitar minha avó. Ela morava numa cidade do interior, cheia de rios, há oito horas de viagem do meu local natal. Um dos afluentes passava bem no terreno da casa dela. Ao chegar lá, vi águas cristalinas num córrego cheio de peixes e essa foi a primeira vez que percebi a abundância e o poder da água. Fiquei encantada e pulei. Foi um deus nos acuda: mãe e vó desesperadas até perceberem que eu sabia nadar. Passado o susto, elas ficaram chocadas ao me ver dar braçadas, bater as pernas e boiar. Vovó disse para minha mãe “Você deu o nome certo para ela”. Me chamo Iara e segundo minha mãe meu nome significa senhora das águas em algum idioma que fugiu da minha memória.

Lembro que foi muito sofrido me separar da água e voltar para a sequidão. Custei a me adaptar ao local que sempre vivi. Meu nariz sangrou todo fim de tarde durante o mês que seguiu minha despedida da água. Nessa época, mamãe já sabia que eu era de fato uma filha da água. Ela não tinha dúvidas. Até minha pele lembrava em algo a escama lisa de um peixe.

Descobri que eu era diferente aos dezesseis anos. Sempre soube como fui encontrada, mas nunca tinha me pensado como filha de peixe, do rio, da água. Ouvia os casos da minha mãe e eu achava que ela gostava de criar um mito em cima de mim simplesmente por ser uma boa contadora de histórias e fã de livros e folclore. A ficha caiu quando comi comida japonesa pela primeira vez. Sentir o gosto e textura de uma alga me tocou de um jeito que eu simplesmente disparei a chorar no meio do restaurante, mesmo diante de toda a turma da escola. Foi ali que notei que todos meus interesses se relacionavam com o mundo aquático e parei de tentar nadar contra meu destino.

Vim morar longe de casa para estudar biologia marinha. Mamãe veio junto, porque segundo ela todo lugar precisa de uma bibliotecária, mas eu acho que é porque ela sabia que depois que eu entrasse no mar pela primeira vez, eu não voltaria pra sequidão nunca mais. De longe, de dentro do ônibus, eu vi o mar e já o senti reverberar dentro de mim. Desci na rodoviária com mala e cuia e já fui ao encontro das águas. Ao vivenciar o mar, o sal, a espuma das ondas, a força do puxão das águas marinhas, eu percebi o meu lugar no mundo. Me descobri senhora das águas e hoje vivo por ela, porque foi ela que me deu a vida. Devo isso aos pais-peixe e minha mãe-gente que me preparou para ser quem eu nasci para ser.


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Eu sou um monstro

Foto meramente ilustrativa, pois não sou fofo e sou bem mais abstrato. Imagem encontrada aqui.

Sou nômade, vivo de favores e vou me ajeitando onde me deixam entrar. Finjo que vou ficar pouco tempo, que aparecerei só às vezes e que quase não vou incomodar. As pessoas não gostam de mim, mas me deixam entrar e se habituam com a minha presença por achar que faz parte. E eu entro, me ajeito e vou ganhando espaço, mesmo sendo insuportavelmente chato.

Eu gosto de zoar. Amarrar perna de sapo, criar apelidos cruéis e assustar quem não estiver atento. Esses são hábitos que tenho desde que nasci. Recentemente decidi adotar o rótulo de zoador e tenho aperfeiçoado meus dons para atingir em cheio os participantes da tal vida adulta.

Esse novo rótulo veio a calhar, viu? Agora quando eventualmente me confrontam, digo “quem tem limite é município” e as pessoas caem, como bobas, porque nunca querem ser estraga-prazeres. Elas temem cortar o barato de alguém e ganhar a fama de politicamente corretas. E eu aproveito disso sendo aquele cara que vive falando como são chatas essas pessoas que vivem patrulhando o humor, repito como um papagaio como é tudo inofensivo, digo que bullying forma caráter e outras baboseiras como “vocês são os verdadeiros fascistas” e assim consigo me manter por mais tempo na minha morada da vez.

Antigamente, tudo que eu fazia era mais direto, sabe? Os resultados apareciam rapidamente, não tinha tanto jogo e assim a comida ficava escassa num pulo e minhas mudanças tinham que acontecer com mais frequência. Pois agora, eu sou um novo monstro. Me adaptei aos tempos modernos e me alimento moderadamente em três em três horas, tudo muito saudável, com cara de indicação de nutricionista.

Antes minha comida era o medo, o pavor, a culpa. Agora é um prato diversificado e cada vez mais colorido: ansiedade, culpa, medo, tristeza, pavor, depressão, raiva, dores crônicas, compulsões variadas, insônia, paranoia, estresse e tudo mais que há de ruim.

Posso adotar muitas faces no mundo atual. Além do zoador, uma das minhas preferidas é a do cara que fica falando para todos que pra ser valorizado tem que vestir a camisa da empresa mesmo, que tem que se esforçar, dar o sangue, suar a tal da camisa da empresa até dar pizza debaixo dos braços. Adoro essa persona monstra! E juro que nem é porque o papo envolve suor e sangue, que, por sinal, caem muito bem brócolis e insônia! Esse personagem julga, julga e julga e faz aquele tipo de comentário que cria uma culpa deliciosa em todos ao redor! A moça que prefere tirar férias do que receber o proporcional ouve minha ladainha, começa a pensar nela e acaba dizendo foda-se para o seu corpo e mente que pedem descanso, trocando a folga pelo dinheiro e por uma suposta valorização profissional que nunca vai vir. Se eu tiver sorte, em alguns anos ou meses, ela vai ter um ataque de nervos que vai servir de sobremesa a semana inteira!

Gosto do jogo moderno. Vejo o definhar das minhas vítimas por anos, me alimento e me reproduzo. Fiquei menor, é verdade, e minhas crias, também. Mas isso é até bom, porque desse tamanho é mais fácil chegar de fininho e fixar morada ou, em alguns casos, me esconder por anos, fazendo refeições mínimas, até criar um espaço propício para crescer e constituir família. Nesse modus operandi, as pessoas demoram a perceber que somos tão nocivos e mesmo depois de anos, quando a gente já cresceu tanto que é um elefante enorme parado na sala de estar, eles fingem que não estão nos vendo.

Confesso que tem hora que sinto falta da juventude. Quem nunca, né? Os apetites vorazes, a inconsequência, a vontade de comer o mundo inteiro numa só mordida. Ai, ai, que saudade desses tempos em que a falta de mastigação não causava azia… Mas era outra época. Época em que éramos muitos, nômades, e dominávamos a igreja, o Estado e manipulávamos vilarejos falando sobre bruxas, pecado, bem e mal.

Desde esse tempo, me alertavam que quando chega a velhice a nostalgia aparece, principalmente quando somos imortais. Eu sei que aquela dinâmica toda de se empanturrar de uma vez e andar dias em busca de um novo cardápio não é boa pra mim e nem para os outros da minha idade. Deixo isso para alguns dos meus filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, ainda jovens e com espírito aventureiro. Eles, inspirados em nossas histórias, resolveram voltar a alimentar a caça às bruxas e estão juntos aproveitando que o Estado Laico ainda é uma lenda.

Me perguntam algumas vezes se eu estou cansado, se penso em me aposentar e nossa, como esses caras não entenderam nada sobre ser monstro! A gente não se cansa! A gente se diverte! O trabalho é pouco, pouquíssimo. A gente não precisa de muita coisa para fazer os humanos fazerem o trabalho sujo. A gente tenta alguns e já é o suficiente. É como se fosse uma terceirização! Pauta que a gente apoiou bastante no Congresso, por sinal.

Não precisamos de muito esforço, porque os humanos se deixam levar. A gente investe na raiva, na mágoa, na culpa e no medo deles, sentimentos que eles adoram ignorar, e pronto, a refeição do dia está servida! Com o capitalismo, a globalização, as redes sociais e a internet com seus trolls e mensagens que espalham ódio e pânico facilmente, tudo ficou ainda mais fácil. Eles não olham a própria história e não entendem que nunca somos completamente exterminados, porque somos imortais e sobrevivemos — como sementes, larvas de aedes aegypyi ou bactérias e vírus congelados no permafost — a espera da oportunidade certa para poder prosperar. Esperamos dentro de cada um de vocês. Somos seus hóspedes folgados.


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Declaração de amor ao ato de dormir

Cão dormindo com cobertas

Não tem como negar a importância de uma boa noite de sono. É uma questão biológica. Sem ela não somos funcionais. Dormir mal pode acarretar problemas de saúde futuros e dores de cabeça na manhã seguinte. Mas o ato de dormir é muito mais que uma necessidade fisiológica, jamais uma perda de tempo.

Dormir. A gente percebe o tempo de acordo com esse verbo: é sempre hoje quando a gente ainda não dormiu. O amanhã é pós-sono. Meia-noite só importa na festividade do ano novo, porque, se você ainda não dormiu, pode ser meia-noite e um ou três e quinze da manhã nos outros dias que continua hoje.

Dormir cria missões: a do início e a do fim do dia. Seu dia é programado de acordo com a hora que você acorda e a que você deita. E é nesse meio tempo que cabe a maioria dos verbos. Sonhar, descansar, respirar são alguns dos poucos verbos que fazem segundo turno e estão ali de plantão, mesmo quando Morpheu faz o seu trabalho.

Dormir não é um verbo sem história. Nossos demais atos também constroem um novo jeito de fazer as coisas, mesmo as tão básicas e óbvias quanto dormir. A eletricidade, essa coisa de gente humana, criou o pisca pisca das luzes das cidades e a luz da casa, da tela do celular, do computador, da televisão mudaram o ato de dormir. Em outros tempos, dormir se relacionava diretamente com o escuro. Não só o do quarto, mas de tudo. Acordávamos com o raiar do sol e dormíamos quando ele se punha. Fogo, velas e lamparinas eram a única possibilidade de luz no meio do breu, além do brilho das estrelas e da lua.

Éramos bem parecidos com galos e galinhas. O canto do galo vem junto com o nascer do sol e ele se empoleira para dormir quando ele se põe. Na cidade grande, ouvi mais de uma vez um galo cantar noite e dia. Dependendo de onde o galo mora, o sono dele também mudou.

Dormir nos proporciona resiliência. Você deita, dorme e deixa pra trás o dia ruim pra dar lugar a uma nova manhã de possibilidades. Se não há insônia e estamos saudáveis, acordar no outro dia tem um quê de renovação.

Dormir também tem algo de cura. Outros verbos, como o remediar, vão chamar o dormir de charlatão se ele vier com esse papo, mas a verdade é que, para muitos, o sono bom sara pequenas dores, como a dor de cabeça e a tristeza passageira, e ajuda a cura do resfriadinho vir mais rápido.

Dormir também pode ser um lazer. Dormir sem colocar o despertador para tocar é um ato de liberdade, de permissão ao ócio, de descanso e curtição. Dormir de tarde, após o almoço, é um exemplo. O ritual do sono diurno envolve comer e se preparar para digestão deitado, enquanto faz alguma atividade que permita você deixar o corpo mole e a mente se desligar aos poucos. Quando você vê, você acorda com o corpo todo preguiçoso e continua descansando um tempo. Descansando do ato de dormir. Você sabe que preguiça passa se alongar, mas sabe que ainda não é a hora. O jeito é pegar uma cruzadinha pra fazer, jogar algo no celular, ligar a tevê e esperar a hora certa para levantar e se esticar de novo.

Deitar e esperar o sono tomar conta do corpo e da mente é um momento em que o corpo relaxa e a mente voa. As melhores ideias surgem nesse espaço de tempo e preguiça. É sempre difícil decidir se vale a pena deixar a mente voar livremente com suas boas ideias e correr o risco de acordar sem lembrar nenhum dos caminhos percorridos na noite anterior ou se o melhor a fazer é interromper o processo do vôo livre e despertar do sono que bate à porta anotando tudo.

Esse texto surgiu em um desses momentos pré sono. Interrompi o momento para anotar a ideia no bloco de notas do celular. Só que meu sono é pesado demais e antes mesmo de começar a escrever, mas antes de ser completamente vencida pela moleza, eu anotei no bloco de notas do meu celular apenas a frase: “carta de amor ao ato de dormir”.


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O universo alimentado pelo grão de arroz

Imagem retirada de uma publicação da Revista Globo Rural

Sentei em frente ao computador para almoçar. Entre uma garfada e outra, eu lia notícias e trocava mensagens com meus contatos. Concentrada na leitura, deixei cair um grão de arroz no teclado. Ele caiu bem entre as teclas, já se ajeitando para ficar bem longe dos meus dedos. Funcionou. Quanto mais eu tentava tirá-lo dali, mais ele se encaixava e se enfiava, até que perdi o arroz de vista.

“Por que narrar um pequeno acontecimento desses?”, você pode se perguntar. E eu responderei que por mais simples que seja um acontecimento, ele pode virar uma história. “Mas o que pode estar por trás de um grão de arroz caindo num teclado?”

Alguns diriam que essa é só mais uma história da lei de Murphy agindo, diriam até que essa era uma tragédia anunciada. Tudo que pode dar errado, dará. Comer em cima do teclado é um risco. Retirar o pendrive sem remover hardware com segurança também. Risco do século XXI, sabe? Outros, como eu, acham que pode até ter a atuação da lei em questão, mas suspeitam que tem uma história por trás desse arroz irresgatável.

Dizem “não coma em cima do teclado, qualquer farelo pode atrair um mundo de formigas”. E quem não ouve esse conselho acaba se chocando com as tantas poeirinhas, nojeirinhas, sujeirinhas e claro, as bactérias, ácaros e vírus, que não podemos ver, que encontramos ao fazer uma limpeza do teclado. Para mim, tantas migalhas reunidas é um indício de que há um universo além do nosso em cada teclado.

Esse universo se sustenta com os pedaços de pele morta que deixamos para trás a cada toque, com os pedacinhos de comida que deixamos cair, com o que o vento leva para ele e com as várias outras formas de juntar sujeira que existem. Note a importância do arroz nesse contexto: ele é uma enorme fonte de alimento que não surge todo dia. E agora você vê como a narrativa desse acontecimento bobo pode ser diferente?

O arroz caiu e foi impossível pegá-lo para jogá-lo no lixo, porque o universo presente ali e invisível aos meus olhos, o arrastava para debaixo das teclas. Eles queriam aquele arroz. Eles precisavam daquele arroz. Quando ele caiu, um mundo de possibilidades de novas vidas surgiram e por isso ninguém queria deixá-lo escapar. E agora? Agora eu preciso limpar meu teclado antes que esse universo fique grande demais e engula um cômodo do meu apartamento.


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