O feminino na história do Brasil e a feminilidade esperada

Arquivo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

As aulas de história, por mais interessantes que fossem, sempre me pareceram falar de um mundo que não era o meu. Os nomes lembrados nos livros didáticos eram sempre masculinos, brancos e ricos. As mulheres eram ausentes. D. Leopoldina, Carlota Joaquina e Princesa Isabel foram as poucas que apareceram nomeadas nas salas de aula que frequentei e hoje sei que suas participações foram bem diferentes das narradas ali e as impressões que temos delas se relacionam com os ideias de feminilidade das pessoas que escreveram a história que temos acesso.

A minha sensação enquanto estudante era de que faltava alguma coisa. Fora do material escolar, eu via mulheres sendo participativas, ousadas, resistindo ao que era dito que elas podiam ou não fazer. Não conseguia ver como possível que as mulheres tivessem passado tanto tempo da história sem participar diretamente dela.

Esse incômodo me provocou e me fez buscar saber mais sobre onde elas estavam e quem elas foram. Cheguei ao feminismo por isso e posso dizer que elas sempre estiveram ali, mas foram apagadas ou tiveram seus papéis diminuídos para caberem no estereótipo de feminilidade vigente na época e, em grande parte, ativo também nos tempos atuais.

Paulo Rezzutti, em “Mulheres do Brasil — a história não contada”, fala sobre essa invisibilidade e apresenta para o leitor mais de 250 nomes femininos e suas trajetórias. Com essa obra, ele desmistifica a ideia de que as mulheres ficaram passivas enquanto viam a história acontecer.

Diferente dos dicionários de mulheres que reúnem minibiografias de notáveis, Paulo tece um retrato dos efeitos do patriarcado na vida das mulheres de várias épocas sem tentar esgotar nomes e assuntos. Ele apresenta os feitos, os entraves e as consequências sociais que atingiam as mulheres que agiam fora do que era esperado e assim revela o panorama da moral patriarcal de outros tempos, enquanto faz questão de lembrar também de mulheres recentes como Marielle Franco e Maria da Penha e mostrar o impacto das opressões também em suas trajetórias.

Em seu texto, o autor cita diversas historiadoras, compartilha histórias de mulheres célebres e também das que são conhecidas só por quem se debruça na temática. Expõe, por exemplo, que o apagamento sistemático que atingiu as mulheres é ainda mais intenso com as negras e indígenas por causa do racismo. Faltam ainda mais dados sobre elas. O silêncio documental sobre essas mulheres significa que o não contato é mais do que feminino. Ele é marcado também por outras opressões.

Conhecemos com a obra histórias individuais que se enlaçam e revelam o controle exercido através do machismo na vida de cada uma delas e das anônimas de suas épocas. Esse controle as afastava do espaço público, mas tornavam suas vidas públicas. Qualquer desvio era o suficiente para colocá-las como foco de um falatório que tinha como consequência o isolamento, o abandono familiar e até mesmo internações em manicômios. Muitas das que são lembradas na obra foram justamente as que sofreram por se portarem como pessoas, não acessórios. Chiquinha Gonzaga, Julieta de França, Gabrielle Leuzinger Masset, Yde Schloenbach Blumenschein (Colombina) e Luz del Fuego foram algumas delas.

A boa mulher sempre foi a boa esposa, a boa mãe e a boa cristã, desde que não fosse religiosa demais. Ela podia participar da vida pública somente através de ações de caridade. Qualquer coisa fora desses papéis era uma transgressão e a maioria das que foram lembradas nessa obra figuram nela por terem buscado um mínimo de autonomia.

“Mulheres do Brasil — a história não contada” humaniza o feminino. Paulo Rezzutti nos apresenta histórias de heroínas, vilãs, artistas, escritoras, mecenas, transgressoras e mulheres com poder e dinheiro e torna público o fato de que somos diferentes entre nós desde sempre e capazes de atuar nas mais diversas áreas, mesmo quando elas nos são proibidas.

Esse livro é um trabalho que resgata a existência do feminino no meio de um mundo narrado por homens e nos faz pensar sobre o presente e o futuro. A política, espaço considerado masculino, ainda é um desafio para nós. Temos poucas mulheres no poder e lutamos hoje contra o machismo e a misoginia nesse meio, principalmente quando ele se manifesta em projetos políticos autoritários que ganham cada vez mais espaço.

Conhecer o passado nos ajuda a entender os desafios de hoje e a leitura de um livro como esse nos permite perceber melhor o valor da resistência dos movimentos de mulheres em todas as áreas, principalmente daqueles que destacam a importância da memória dessa história constantemente invisibilizada.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.


Uma carta para Maria Luísa, a gorda

Arquivo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Nunca vi seu rosto, Maria Luísa, mas te conheci através de um livro da portuguesa Isabela Figueiredo. Por isso sei sobre seus pais, sua relação com David, sua amizade com Tonya, suas boas notas durante a escola, e também sobre seus peitos, sua barriga, suas dobras e seus desejos.

Posso dizer até que conheço sua casa sem nunca ter pisado nela. Sei, por exemplo, das plantas e móveis que sua mãe trouxe com ela de Moçambique e da sala de jantar que permanece fechada à espera de visitas.

Por tudo isso, sinto que somos íntimas, Maria Luísa. Conheço até mesmo suas contradições e pensamentos secretos, mas você não sabe nem meu nome. É estranho, tenho que confessar. Acho que preciso apresentar eu e meu corpo para você.

Sou Thaís e só fui gorda no único período de tempo em que ser assim é considerado bom em nossa cultura. Dizem que fui um bebê rechonchudo, com dobrinhas nas pernas que davam vontade de morder.

Desse tempo até agora, aos 28 anos anos, cresci muito pouco. Fiquei pequena, bem pequena mesmo, e tenho um corpo magro, mas não bonito o suficiente para os padrões, e ouço dos outros que não posso engordar, às vezes até que preciso emagrecer. Não como você ouviu durante toda a vida, claro. Sei que é muito diferente. No meu caso, eles falam de gordura, peso, curvas como um alerta, uma ameaça. Eles me mostram mulheres como você e dizem “você não quer ficar assim, quer?”.

Não falo isso por mal, Maria Luísa. Li a história do seu corpo e toda sua relação com ele e por isso sei que esse é o lugar que a sociedade insistiu em te colocar por tantos anos. Quero te mostrar que te entendi, que acompanhei sua dor página por página e que por causa de suas palavras conheci melhor o que significa ser gorda nesse mundo. É algo muito além da pressão para estar dentro do padrão de beleza. Eu até sabia disso antes, mas agora sei mais.

Para a maioria das pessoas, antes de você ser Maria Luísa, mulher, professora, ou qualquer outra coisa, você é gorda. Nesse mundo nosso, o corpo, especialmente o feminino, é um cartão de visitas. Por isso, ele se torna sua identidade perante os outros, quer você queira ou não, e a troça que fizeram de você fez você entender, logo bem cedo, que certos tipos físicos são vistos como errados e chegam até a afastar as pessoas. Sinto muito por isso. Durante a leitura de “A gorda”, obra em que você é a narradora-personagem, percebi as marcas e a dor que você carrega por conta da exclusão e da ameaça de solidão que sempre te acompanhou.

Nas páginas que me debrucei nos últimos dias, eu conheci uma mulher inteligente, interessante, que escreve, que se coloca, que ama cães, que cuida, que odeia, que sente, sente muito e tudo intensamente. Mergulhei em memórias e pensamentos e assim conheci uma personagem humana, marcante, que vive dilemas familiares, amorosos e profissionais que, pela via da empatia ou da identificação, cabem na vida de muitos nós.

Nunca vou esquecer suas palavras. Conheci muito de mim e do mundo ao me dedicar a ler a sua história. Obrigada por ter aberto a porta de sua casa para mim e para todos que pegam esse livro de capa avermelhada.

Atenciosamente,

Thaís


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

De princesa à bruxa

Imagem de parte do kit press que recebi da Editora Leya — Acervo Pessoal — Adquira “A princesa salva a si mesma neste livro” aqui e “A bruxa não ai para a fogueira neste livro” aqui.

Se em a princesa salva a si mesma neste livro, Amanda Lovelace começa com um poema que homenageia o personagem Harry Potter e isso se relaciona com o conteúdo da primeira coletânea da autora, a referência à Katniss Everdeen em a bruxa não vai para a fogueira neste livro também não é por acaso.

Ao falar da personagem principal da trilogia Jogos Vorazes, Amanda diz que a garota em chamas a inspirou a inflamar o mundo. Com poesias que tratam sobre cultura do estupro, críticas aos padrões de beleza, violência, opressão histórica e luta, a poeta tenta acender uma chama dentro de cada uma de suas leitoras.

A trajetória de princesa à rainha do primeiro livro é sobre descoberta, amadurecimento e resiliência. Nela, a escritora de New Jersey expôs sentimentos, experiências, perdas e as violências que passou. Ela partiu de si e atingiu diversas pessoas que viveram situações parecidas.

Compartilhar histórias, principalmente essas que comumente são jogadas para debaixo do tapete, como a Amanda e muitas outras fizeram, encoraja outras pessoas a falarem de acontecimentos semelhantes e a reconhecerem o que viveram.

Seja através de poesia, contos, crônicas, artigos ou mesmo hashtags como #MeToo, #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto, vozes, principalmente femininas, estão sendo amplificadas e o que elas dizem mostram ao mundo o quanto a violência e o machismo ainda é, infelizmente, parte da vida das mulheres.

Durante a leitura de a bruxa não vai para a fogueira neste livro é impossível não pensar nesse momento que vivemos. As mulheres descobriram que outras também passam e passaram por situações semelhantes às que elas vivenciaram e que isso não é por acaso. Há um sistema de dominação por trás de tantas coincidências.

Quando Amanda escreve sobre as mulheres que vieram antes de nós e foca, principalmente, nas bruxas queimadas em fogueiras, a gente se lembra que o sistema que abafa tantas vozes hoje fez o mesmo no passado.

A intertextualidade, muito presente no trabalho da autora, é usada também para nos fazer pensar em todo esse sistema. Obras e personagens ficcionais, como June, de O conto da Aia, são lembradas em poemas. Todos os nomes presentes dessa forma no livro se relacionam com resistência. Inclusive o de Emma Sulkowick, que não é uma escritora ou uma personagem ficcional, mas é lembrada por Amanda por ter carregado durante anos um colchão por todo o campus universitário como um protesto contra os estupros que acontecem nas universidades e como eles são tratados pelas instituições.

A performance feita por Emma recebeu o nome de “Carry that weight” e se relaciona com sua própria vivência. Ela sofreu um estupro, denunciou, o caso foi arquivado pela universidade e ela seguiu todo o curso sendo obrigada a conviver com quem a violentou. Ao andar com o colchão em que ela sofreu a violência pelo Campus, Emma compartilhou com o mundo sua história como um manifesto.

a bruxa não vai para a fogueira neste livro reúne muito do que descobrimos coletivamente nos últimos anos e convida quem lê para mudar esse sistema que segue vitimando mulheres por serem mulheres. A obra cita exemplos de força, como June e a ativista Emma, e pode ser lida como um manifesto poético. Nela, o fogo é colocado como a matéria-prima para a transformação. Ele representa a raiva, a luta e a resistência.

De princesa à bruxa. Que o futuro nos reserve uma transformação que mude a realidade das mulheres que vivem nesse mundo.


No dia 11/07/18, a Editora Leya promoveu um encontro com leitoras. Conversamos sobre muita coisa, entre elas, sobre a importância de poetas como Amanda Lovelace. Além do bate-papo entre editoras e leitoras, rolou também uma live com a autora de a princesa salva a si mesma neste livro e a bruxa não vai para a fogueira neste livro. O conteúdo é em inglês e está disponível no Facebook da editora. Confira a live aqui.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelos livros? Adquira “A princesa salva a si mesma neste livro” aqui e “A bruxa não ai para a fogueira neste livro” aqui.


O cotidiano — e os causos — de uma livraria

Foto: Thaís Campolina — Adquira um exemplar aqui.

Em algum momento de 2011, Hillé Puonto, pseudônimo de Lilian Dorea, começou a publicar suas aventuras como livreira em um blog chamado [manual prático de bons modos em livrarias] e algumas dessas histórias foram escolhidas para integrar um livro com o mesmo nome.

Se você gostava de literatura, acompanhava vários blogs e vivia na internet nessa época, provavelmente vai se lembrar de ter visto esse nome em algum lugar ou vai reagir ao meu texto com um “aaaaaaaaaaa” de empolgação. Relembrar é viver, não é mesmo fã da Hillé?

Uma cliente diz detestar Clarice Lispector por odiar livros espíritas, outro pergunta sobre o livro do Freddie Mercury buscando uma obra de direito civil escrita por Fredie Didier e a gente espera — e encontra — a cada página diálogos tão ou mais surreais do que esses dois causos citados. Todos contatos de uma forma que torna as situações ainda mais divertidas.

Eu poderia facilmente ser a cliente que chega na livraria e fala “Quero o livro do Chuchu” buscando algo sobre a entidade lovecraftiana Chutlhu. Na foto: trecho da página 87 do livro [manual de bons modos em livrarias]

O mundo dos livros muitas vezes é intimidador. A gente teme errar pronúncias, autores, títulos e considera que não conhecer certos clássicos é algo que nos diminui, mas as coisas não precisam ser assim. A gente pode rir disso, dos erros dos outros e dos nossos.

Durante a leitura, é impossível não lembrar das inúmeras vezes que falamos a famigerada frase “aquele livro, daquela autora, sabe?” e suas variações cinematográficas, noveleiras e musicais. E é bem provável que você comece a rir de si mesmo ao recordar as situações em que inventou nomes de obras que não existem e aprontou muitas confusões ao pronunciar nomes alemães, russos ou até mesmo ingleses. Quem nunca errou ao falar Freud ou Nietzsche ou fez uma busca no Google para conferir como escreve o nome do escritor Dostoiévski, hein?

No [manual prático de bons modos em livrarias] também há uma parte destinada para as confusões que os livreiros aprontam, histórias que mostram que até mesmo quem trabalha com isso se confunde, erra e às vezes não sabe do que está falando. Através das risadas, a gente dá o primeiro passo para entender que livros são só livros, eles não servem para medir nosso caráter, inteligência ou nos dar status.

Todos esses constrangimentos servem como material para bons causos para serem postados no Medium, no Facebook ou serem contados na mesa de bar. Essa é a lição que o manual me deixou. Vamos, então, deixar a vergonha de lado e começar a compartilhar?


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Galeria de constrangimentos literários

Fotografia da livraria El Ateneo — Retirada do texto “Conheça as 10 livrarias mais interessantes do mundo”

A galeria dos constrangimentos literários de Thaís Campolina está em constante construção, o que pode fazer esse texto chegar aos quinze minutos facilmente.

Decidi criar esse acervo após ler o livro [manual prático de bons modos em livrarias] e pensar em todas as minhas histórias constrangedoras que com uma modificação aqui e ali poderiam me transformar facilmente numa personagem pitoresca que incomoda livreiros.


O clássico encontra o contemporâneo

Eu passei semanas chamado o escritor Ricardo Lísias de Ricardo Lusíadas e achando meio estranho, mas legal, ele ter como sobrenome um título de um clássico da língua portuguesa. Achei que nunca mais ia errar o nome dele, mas semana passada, fui comentar essa história e chamei o cara de Ricardo Lisíadas. Acho que na próxima eu vou falar “Aquele autor que foi processado pelo Eduardo Cunha, sabe?” porque daqui a pouco eu meto um Odisseia no nome do cara.

Uma confusão entre senhoras

Uma vez, ainda no Ensino Médio, eu fui xingar o clássico “Senhora” e acabei xingando a senhora do político e ex-vice presidente do Brasil José Alencar. Só depois de ouvir o interlocutor falar várias coisas doidas, eu entendi que faltou um “de” e o coleguinha estava certo ao ter continuado o papo com informações sobre política.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O peso de ser vista como um objeto sexual

Acervo pessoal — Foto do livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”. Adquira o seu aqui.

Aos nove anos, ouvi um homem adulto completamente desconhecido mexer comigo enquanto eu andava de bicicleta na praça perto da minha casa. Eu não lembro o que ele disse, se eu entendi o que ele falou, só lembro que senti que ele me via como uma mulher. E que isso não era bom.

Enquanto crescia e essas situações se repetiam, eu percebia cada vez mais que ser vista como mulher era uma desvantagem. Era confuso, porque eu fui uma criança que pode jogar futebol, nadar, brincar na areia, que foi incentivada a ler, escrever e desenhar. Na escola, até passei por situações de meninos dizerem que eu, por ser menina, não podia fazer algo, mas eu encarava aquilo como uma rivalidade boba, não como algo que refletia uma sociedade que tentaria o tempo todo definir a minha existência como derivada da masculina.

Por ser uma menina que cresceu mais livre que a maioria, tornar mulher por muito tempo significou para mim apenas avançar idades, virar adulta, mas logo as primeiras experiências com a objetificação me mostraram que havia um fardo em pertencer ao sexo feminino.

Jessica Valenti, em seu livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”, trabalha o impacto, inclusive psicológico, das mulheres serem tratadas como objetos durante toda a vida. Logo na introdução, a escritora questiona “Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres?” e afirma não conseguir encontrar uma resposta satisfatória e que há muito tempo vem guardando um luto por essa versão dela mesma que nunca existiu.

Ainda muito novas, as mulheres vivem experiências de assédio como as que relatei, de estupro e de ameaças. Muitas vezes, tais violências são naturalizadas em algum nível e colocadas como inevitáveis. Como se dá a construção de quem somos se a gente logo entende que essas experiências são comuns e provavelmente podem se repetir ao longo da vida?

Um homem faz comentários sobre a bunda de uma menina de dez anos. Outro, completo desconhecido, diz que ela é linda. O vizinho faz gestos sexuais para ela. Seus peitos em crescimento se tornam o assunto principal entre os meninos da sala. Ela ouve que tem que sentar direito porque os homens podem ficar olhando.

O que viver isso cotidianamente causa na gente? Como nossa personalidade se molda? Como todas essas experiências que envolvem objetificação afeta quem somos, como vamos reagir no futuro, como lidaremos com nossa sexualidade? Saberemos separar desejo de objetificação? Como esse medo se relaciona com o nosso desejo de sermos consideradas bonitas sendo que crescemos condicionadas a acreditar que a beleza é a mais importante das características que podemos ter?

A pergunta feita na introdução nos faz revirar nossas memórias, como eu fiz nos primeiros parágrafos desse texto, e também lembrar das histórias de nossas amigas, irmãs, mães e avós. Mas a gente não está sozinha nessa jornada de reflexão sobre o peso da misoginia, Jessica compartilha conosco um pouco da sua vida. Ela começa com um texto chamado “Linhagem de vítimas da violência”, o que tem tudo a ver com o sentimento que temos ao pensarmos no questionamento que Valenti levanta logo nas primeiras páginas. Somos várias reféns dessa dúvida.

A cada texto, a autora apresenta um recorte de sua vida. Infância, primeiras experiências sexuais, aborto, drogas, maternidade, carreira e universidade são alguns dos pontos que ela aborda, sempre sob a ótica de gênero. Durante essa viagem nas lembranças e reflexões da autora, a gente pensa o que poderia ser diferente na história dela, caso o mundo fosse outro.

Ser vista como um objeto sexual nos desumaniza. Nessa ótica, somos algo que existe para servir o outro, não nós mesmas, e o machismo que nos cerca tenta nos fazer acreditar que isso nos basta, que é isso que queremos. O impacto em nossas vidas de sermos consideradas coisas que causam desejo é algo que a gente não consegue mensurar bem, já que não são episódios isolados. É um todo que pode somar vários tipos de violência e que acaba por moldar quem somos.

Jessica Valenti criou o Feministing.com em 2004, uma época bem diferente do momento que vivemos hoje. A internet e as redes sociais se popularizaram e isso possibilitou que muitas mulheres tomassem conhecimento de suas vozes, compartilhassem suas histórias, ideias e descobrissem que não estão sozinhas contra a misoginia. Esse fenômeno continua e chegou até em Hollywood, mas as mulheres que falam publicamente e se colocam como pessoas e não mero objetos ainda recebem ataques. O foco de muitas dessas ofensas ainda é nossa aparência. Com isso, eles querem dizer que nem para objetos sexuais servimos. Eles não compreendem que a mudança começou e que a cada dia mais mulheres percebem que são gente, não coisa. Estamos em processo, a maioria de nós ainda precisa assimilar que nos bastamos e não precisamos de perseguir uma aprovação que se baseia num papel que mais parece um fardo. Um fardo que carregamos por gerações.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

Os homens explicam tudo até para Rebecca Solnit

Acervo pessoal — Foto do livro “Os homens explicam tudo para mim” da Rebecca Solnit. Adquira seu exemplar aqui.

Rebecca Solnit é jornalista, escritora e historiadora. Autora de mais de vinte livros sobre temas como política, arte, feminismo e outras questões sociais, ela é conhecida também por ter inspirado a criação do termo mansplaining através de seu ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que se tornou viral.

Numa festa com uma amiga, o dono da casa começa a puxar papo e pergunta sobre os livros dela. Ela comenta sobre o tema do mais recente e o homem a interrompe dizendo algo como “Já ouviu falar sobre aquele livro muito importante sobre isso que saiu esse ano?” e dispara a discorrer sobre e afirmar que ela deveria lê-lo. O famigerado livro citado era o dela. A amiga da escritora precisou dizer umas quatro vezes que a autoria da obra que ele tanto falava era de Solnit para ele, enfim, parar.

A escritora destaca que o tom usado pelo homem foi o mesmo que as pessoas costumam usar para falar com uma criança de sete anos sobre alguma aula que ela faz. Ao ler esse trecho, fiquei pensando que talvez a gente devesse começar a não usar esse tom nem com as crianças. Dá para incentivá-las sem tratá-las como bobas, não é?

Desse episódio, narrado com humor, ela inicia suas reflexões sobre silenciamento, apagamento e descrédito das mulheres. Em poucas páginas, ela expõe o quanto o silenciamento é parte de um todo feito de abusos de poder cometidos contra mulheres. Os homens que explicam tudo para nós fazem isso por nos verem como esponjas ansiosas para aprenderem com eles, porque a cultura patriarcal nos coloca nesse lugar e eles seguem encarando esse lugar como naturalmente feminino.

O ensaio seguinte, “A guerra mais longa”, fala da violência masculina de uma forma mais direta, e expõe que o assassinato de mulheres é uma questão autoritária, de controle. Notícias são citadas, estatísticas também. Esse texto é um retrato de uma realidade que muitos se negam a ver. O texto mais forte de todo o livro.

As reflexões continuam, os assuntos variam, a data dos ensaios também, mas é interessante como o livro todo se conecta, apesar da ausência de algumas temáticas essenciais infelizmente não trabalhadas na obra. A situação de mansplaining narrada por ela faz parte da teia que compõe a opressão feminina, que inclui atos como o desaparecimento dos nomes das mulheres nas árvores genealógicas, credibilidade das vítimas, estupro e assassinato. Assuntos também lembrados no livro.

“A caixa de Pandora e a polícia voluntária” é o título que finaliza a obra. Nele, lemos sobre os desafios que ainda permanecem e os caminhos que o feminismo está criando para as mulheres. Caminhos esses que se ramificaram tanto que parece impossível pará-los. As mudanças estão em trânsito, apesar dos pesares.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

Mulheres, poesia e a internet

Foto arquivo pessoal — A capa e as ilustrações do interior do livro foram feitas pela Laura Athayde — Adquira seu exemplar aqui.

se enganam os que não sabem
que a literatura também é uma arma

a mais carregada
a mais poderosa
tanto que os livros que um dia foram incendiados
ficaram — Ryane Leão

Seja na literatura ou nas artes plásticas, as mulheres nunca foram vistas como criadoras. Por séculos, fomos vistas ou como musas inspiradoras ou como mero suporte doméstico. Algumas poucas conseguiram o feito incrível de não serem apagadas na vida e na história e seus nomes são exceções em meio a tantos homens. Entre elas, Wang Zhenyi, uma erudita chinesa que nasceu em 1768 e escreveu poesias sobre injustiças, textos sobre trigonometria e explicações sobre eclipses, e a poeta e filósofa Christine de Pizan, italiana que nasceu 1363 e chamou atenção dos mecenas. Em seus escritos, Christine de Pizan teceu duras críticas ao machismo presente na literatura e defendeu a educação para as mulheres.

Por muito tempo, as mulheres fizeram parte da arte e da literatura através das gretinhas das portas e janelas da grande sala do cânone. Vez ou outra, uma conseguia passar por esses espaços minúsculos e adentrava na sala, sem, entretanto, ser vista como igual ao restante. Em pleno século XXI, a lógica masculina e branca segue em vigor. As gretas aumentaram de tamanho, mas ainda são apenas gretas. Nem mulheres e nem homens não brancos entram pela porta da frente, eles ainda precisam se espremer para conseguir passar pelos buracos e, enfim, entrar. Vez ou outra uma mulher branca consegue adentrar pulando a janela que alguém esqueceu aberta e logo tratam de dar um jeito de fechá-la pra ninguém mais conseguir invadir.

Recentemente, bem ao lado da grande sala do cânone, surgiu um outro espaço: a internet. Bem mais fácil que entrar que a salinha, as redes se tornaram uma maneira de expor trabalhos e conhecer novos artistas e escritores e hoje vivemos um momento de efervescência de mulheres que escrevem, principalmente poesia. Quem só entrava na salinha com sorte, esforço e através das frestas, começou a construir um novo espaço.

Rupi Kaur, Nayyirah Waheed, Ryane Leão e outras encontram nas redes sociais um público que buscava algo como o que elas fazem. Uma poesia certeira, apesar de curta, que fala sobre o que toca. Todas elas abordam questões que antes eram silenciadas de acordo com suas vivências e inspirações. A gente vive um momento na literatura que encoraja mulheres a dividirem o que sentem, pensam e passam. Uma onda de mulheres que se fortalecem na escrita e na voz umas das outras.


você me matou
mas não conseguiu
arrancar do meu peito
a minha vontade louca
de renascer — Ryane Leão

Com Tudo nela brilha e queima” nas mãos, percebi já na orelha que muitas poesias de Ryane Leão já eram grandes conhecidas minhas. Parte da minha timeline lê, compartilha, curte e comenta o trabalho da autora da página “Onde jazz meu coração”.

“Poemas de luta e amor” é o subtítulo do livro. Essa frase traduz muito da nossa época. A internet fez o feminismo e temas como relacionamento abusivo, cultura do estupro e autoestima feminina virarem assuntos comuns em conversas de mulheres. As poesias da autora são um convite para que a gente olhe para nós mesmas e servem como um guia para muitas conseguirem enxergar e nomear as dores causadas pelo machismo e até pelo racismo nas experiências atuais e do passado. Além disso, Ryane Leão, sendo lésbica, também conversa, ainda que muitas vezes de forma indireta, sobre essa temática, mostrando que luta e amor são questões que precisam ser levantadas por vieses não heterossexuais.

Os relacionamentos afetivos ainda são para muitas mulheres um espaço em que a violência, a discriminação e o preconceito passam batido por causa da naturalização. Fomos ensinadas que precisamos de um homem ao nosso lado, que nosso valor está no homem que conseguimos agarrar e que a gente precisa aceitar certas coisas para não ficarmos sozinhas. Ryane escreve contra essa naturalização e suas linhas servem como lembretes da importância da autoestima e da autonomia. Ela fala de amor e paixão, mas lembra seus leitores que o amor próprio também é algo a ser buscado.

A estrutura da poesia de Ryane é bem simples, o que pode incomodar os mais puristas, mas o que chama a atenção mesmo é a mensagem dela para as mulheres, especialmente as negras. Ela fala em ancestralidade, identidade, autocuidado, força, voz e empoderamento. Ela acredita na potência das leitoras mesmo sem conhecê-las e o sucesso do que ela escreve mostra que isso pode ser algo revolucionário para quem lê.

quando
me toco
descubro
minhas margens
desconstruo
minhas normas
desnudo meus
contornos

são meus dedos
fazendo a poesia
que leva meu nome
no título. — Ryane Leão


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

Fale delas

Arquivo pessoal — foto do livro “Wonder Women” — Adquira seu exemplar aqui.

Tenho certeza que você já ouviu alguém dizer que mulheres nunca descobriram ou inventaram nada e que o sexo frágil não participou de momentos de guerra ou de desenvolvimento científico. Isso é uma mentira.

Numa tentativa de desqualificar o feminino, muitos ignoram as mulheres que, apesar da conjuntura desfavorável, conseguiram romper barreiras e ter seus feitos documentados e o contexto de subjugação patriarcal que perdura por séculos e começou a mudar de forma mais concreta somente há cerca de cem anos.

O livro “Wonder Women — 25 mulheres inovadoras, inventoras e pioneiras que fizeram a diferença”, escrito por Sam Maggs e ilustrado por Sophia Foster-Dimino, fala de mulheres que quebraram padrões e fizeram história, mas que são desconhecidas pela maioria das pessoas.

Ao narrar a trajetória de cada uma delas, Sam Maggs usa uma linguagem divertida e, com humor, faz pontuações importantes sobre a realidade da época em que cada uma viveu.

Muitas vezes a própria história contada já evidencia a desigualdade e os desafios que as mulheres enfrentavam. A luta para adentrar numa faculdade e cursar o ensino superior tangencia a história das notáveis Elizabeth e Emily Blackwell, por exemplo. O Efeito Matilda acontece quando as contribuições científicas feitas por mulheres são atribuídas a homens e isso é exposto quando se fala em Lisa Meitner, física nuclear austríaca, e Alice Ball, química e pesquisadora médica dos EUA. Outras formas de discriminação aparecem também nas histórias de espiãs, inventoras e aventureiras. Ler essa obra é se deparar com os obstáculos que mulheres foram obrigadas a lidar por séculos e com a luta de cada uma para viver como protagonista de sua própria vida diante desse contexto.

Quantas histórias de mulheres incríveis se perderam porque a sociedade machista atribuiu seus feitos a um homem? Quantas foram esquecidas devido a invisibilidade das obras de seu gênero? Quantas deixaram de acontecer por causa da exclusão das mulheres de diversos espaços? Quantas mulheres foram apagadas também por causa de sua cor? E de sua sexualidade? Inúmeras e as engrenagens que fazem a história parecer ser feita apenas por homens, brancos e héteros segue funcionando. Como podemos dificultar que esse mecanismo siga da mesma forma?

Fale das mulheres que conhecemos os nomes e das que desapareceram nos meandros da história. Fale das descobertas, invenções e conquistas que foram feitas por mãos femininas. Fale delas. Espalhe o quanto o mundo tentou apagar o que foi realizado por elas e, mesmo com tudo ao seu favor, nunca conseguiu por completo. Celebre a coragem das que abriram as portas para todas. Crie narrativas para preencher as lacunas ficcionais de séculos de obras em que mulheres eram só musas. Fazer isso não é buscar apagar as contribuições dos homens, é apenas uma tentativa de visibilizar o que deixou e ainda deixa de ser visto por causa da dominação masculina e branca.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O Conto da Aia: A sombra de um futuro distópico já vive entre nós

Imagem do livro — Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

O livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, foi publicado pela primeira vez em 1985 e, após mais de trinta anos de seu lançamento, foi adaptado ao formato de seriado e se tornou uma febre mundial.

“Nenhuma bugiganga imaginária, nenhuma lei imaginária, nem atrocidades imaginárias. Deus está nos detalhes, é o que dizem. O diabo também” foi a regra que Atwood criou para si mesma para escrever esse livro. E talvez seja justamente essa possibilidade dos acontecimentos narrados na obra serem o futuro por, de forma isolada, aqueles fatos já terem existido ou ainda existirem, tenha tornado a obra icônica. Há um reconhecimento em comum, um lembrete que a questão não é só o medo do que vai vir, há muito daquele horror no presente e no passado.

Após um golpe contra o governo dos Estados Unidos, Gilead, uma teocracia de direitos muito limitada, é criada. Com os graus de fertilidade cada vez mais baixos devido a contaminação de águas, terras e afins, garantir a procriação da população passou a ser o principal argumento da necessidade de imposição de leis absurdas e, mais uma vez, a culpa da esterilidade ficou na conta só das mulheres.

Nessa nova sociedade, as mulheres tiveram seus direitos restringidos ao extremo e suas existências passaram a depender de um encaixe em uma das quatro atribuições disponíveis para elas, essas muito ligadas ao que é definido como feminino na sociedade que vivemos hoje.

As mulheres de Gilead podem ser Aias, Martas, Esposas ou Tias e cada um desses papéis têm um código de vestimenta restrito e com cores específicas que sinalizam seu status naquela sociedade, criando uma rivalidade entre elas. As mulheres que não se encaixam são vistas como “não mulheres” e são mandadas para trabalhar em campos de trabalho forçado, um destino de morte certa. Extermínio.

As mulheres em idade fértil que pariram em algum momento de suas vidas se tornam Aias, mulheres treinadas para engravidar, parir e amamentar um filho destinado ao Comandante e sua Esposa. Suas vestem parecem hábitos, são vermelhas e são acompanhadas de um chapéu branco que escondem seus rostos. As Esposas vestem azul, como Virgem Maria, e são mulheres inférteis casadas com os Comandantes. As Martas vestem verde e são responsáveis pelos trabalhos domésticos, enquanto as Tias têm a função de educar as Aias a servirem e usam marrom. Também há as econoesposas, as esposas de homens de classe mais baixa que a dos Comandantes, ponto pouco explorado do livro. Esses homens não têm o direito de possuir Aias, maior símbolo de status dessa sociedade.

A situação de todas as mulheres na República de Gilead é de privação de direitos, mas o lugar das Aias é o de um receptáculo controlado. Elas são um objeto de poder, por possuírem um útero fértil, esse signo de sua opressão. A história do livro é narrada por uma Aia. Seu nome verdadeiro é desconhecido, mas dentro do regime, ela é Offred, que significa “De Fred”.

A narrativa do livro é um fluxo de pensamentos da narradora-personagem. Ora a protagonista fala de suas memórias, para a gente entender como tudo era antes e quem ela foi um dia, ora fala das cerimônias, regras e rituais dessa teocracia. A personagem nos apresenta, com recortes, um mundo dominado pelo conservadorismo, sem liberdades individuais e baseado na misoginia, enquanto fala sobre seus sentimentos. Ela se apega ao passado para resistir ao presente. Lembrar de quem ela foi um dia, da filha que teve e de seu marido, é a maneira que ela encontrou de se manter com vontade de viver.

Apesar da história expor um mundo extremo, tudo ali parece possível como um desdobramento do mundo que vivemos por se basear numa opressão real e em acontecimentos e discursos derivados dela. A obra tenta nos mostrar a possibilidade daquilo vir a acontecer, especialmente quando ela traz à tona suas memórias sobre os acontecimentos que antecederam a instauração desse Estado totalitário e teocrático.

O Conto da Aia já foi traduzido para cerca de quarenta idiomas, foi adaptado para cinema e tema de um balé, de uma ópera e agora de uma série que ganhou muitas categorias do Emmy Awards 2017.

O controle do corpo das mulheres nunca deixou de ser pauta em qualquer lugar do mundo e é por isso que essa distopia se parece tão próxima de nós. E, nesses tempos, ainda mais. O mundo avança novamente para o domínio do conservadorismo. Nos EUA, Trump representa um retrocesso para todos grupos vulneráveis, incluindo mulheres e, no Brasil, a bancada fundamentalista domina o legislativo federal, estadual e até mesmo municipal.

A obra é um fenômeno atualmente por provocar reflexões sobre família, religião, Estado, violência, poder e papéis considerados como femininos num momento crucial de avanço de retrocessos.

Com a exposição de um regime baseado em controle, violência, ameaça e religião, o leitor cultiva em si a certeza da importância da desobediência. Offred desobedece ao não esquecer quem foi no passado e, nas lembranças de quem foi um dia, encontra a força necessária para continuar existindo. Enquanto o mundo retira sua humanidade, lembrar que ainda é um indivíduo é resistência.

“Alguns livros assombram o leitor. Outros assombram o autor. The Handmaid’s Tale fez os dois”, disse Atwood uma vez num artigo do The Guardian e tenho que concordar. O mundo de Gilead faz soar um alarme interior que serve como um alerta para os rumos autoritários e assustadores que estão sendo desenhados agora.

Mulheres se vestem de Aias hoje e saem para protestar contra o controle estatal de seus corpos e mostram como essa história se tornou símbolo da resistência feminista contra todas as formas de opressão.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Adquira o seu em e-book ou livro físico clicando aqui.


Obs: Durante a Virada Feminista Online pela Legalização do Aborto, fiz uma transmissão ao vivo no Ativismo de Sofá falando sobre o avanço do conservadorismo, a necessidade de resistência, livro/série “Conto da Aia” e o controle do corpo das mulheres. Quer ver o vídeo? Basta clicar aqui e dar play.