Nina Rocha está em obras

Conheça o trabalho literário da autora assinando sua newsletter Nina Nina Não.

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Nina Rocha

Nina Rocha nasceu em 1992 em Montes Claros, Minas Gerais, e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente mora, borda, pedala e escreve em Belo Horizonte. Entre suas muitas atividades, uma nova foi incluída recentemente: agora ela também vive a espera da publicação de seu primeiro livro de poesias.

“Em obras” está em pré-venda pela Benfeitoria e será publicada pela editora Urutau. Com R$5180 reais já arrecadados até o momento, a publicação já é certa, sendo o objetivo atual aumentar a tiragem, espalhando assim a voz dessa escritora pelo mundo.

Nina estreia com uma obra caracterizada por poemas que preenchem o espaço público, misturando-o com o privado. A partir dessa ocupação das ruas, bairros e estabelecimentos de detalhes cotidianos pessoais, a autora fala de coisas comuns, muitas vezes com um toque de humor, e mexe conosco a partir dos detalhes.

Sua leitura nos dá vontade de ocupar todos os espaços que nos cercam de vida, incluindo aqui até mesmo nossa própria casa, enquanto nos faz pensar em amor, troca, decepções e expectativas. O espaço, a cidade, a casa e até mesmo a memória, tudo isso na obra de Nina serve como um lembrete do presente, esse tempo marcado pelo cotidiano e o banal, que diz tanto sobre quem somos, ao evidenciar esses detalhes tão esquecidos.

Na entrevista a seguir, a autora compartilha comigo — e agora também com vocês — um pouco sobre seu processo criativo, sua relação com a escrita e a criatividade no todo, suas referências e seus projetos:

T: Escrever um livro de poesia é bem diferente de simplesmente escrever, né? A gente precisa planejar algo mais, fazer um projeto, tentar fazer ideias diferentes funcionarem juntas, fazer toda uma montagem de imagens poéticas. Como foi esse processo para você?

N: Acho que especificamente nos textos que estão nesse livro, o processo foi de muitos cortes e reescritas. Alguns dos poemas nasceram de outros textos que eu havia escrito há muito tempo atrás, alguns com mais de dez anos. Foi interessante testar novos formatos para ver o que funcionava. Eu sempre me coloquei com alguém que escreve prosa, porque achava a poesia uma coisa muito elaborada e distante de mim. Mas com essas experimentações, fui conseguindo chegar numa linguagem em que finalmente me senti confortável com os versos. Foi um processo bem gostoso de experimentar e descobrir novas formas de contar com poucas palavras.

T: Quais são seus hábitos de escrita? Como funciona seu processo criativo? Você tem alguma rotina criativa? Como você concilia seu trabalho, que envolve escrita também, com a escrita de obras literárias?

N: Eu gosto muito de escrever em caderninhos e blocos, então sempre carrego um desses itens comigo. Às vezes anoto uma palavra ou uma frase que pensei e para depois desenvolver em um texto. Acontece muito disso demorar e eu não lembrar mais qual foi a origem dessa ideia, mas é interessante porque a proposta inicial transmuta e o texto vira uma outra coisa. Eu não tenho uma rotina frequente de criação. Tem épocas em que estou super produtiva, e outras em que passo semanas sem escrever, e acho que faz parte do processo também. Não acredito que a gente precise produzir material o tempo inteiro, mas a escrita para mim funciona muito através de estímulos, então mesmo quando não estou escrevendo, essas faíscas seguem acontecendo ao redor e alimentando as ideias de um texto que ainda não foi gestado. Acontece também de notar algo novo na rotina, escutar uma história, ler algo que traz um estalo que me motiva a produzir instantaneamente. O meu processo é bem devagar e tento escrever sem cobranças. Grande parte do meu trabalho já envolve a escrita e às vezes é difícil separar a escrita do ofício da escrita recreativa. Deixo as obrigações para horário comercial e evito que essas tarefas atravessem o prazer da escrita em todos outros horários.

T: Escrever muitas vezes é visto como um ato solitário. Para você também é assim? Se não, como as outras pessoas passaram a fazer parte do seu processo criativo?

N: Muita gente tem aquela ideia do escritor recluso, antissocial, trancado dentro de casa e que faz tudo sozinho. No meu caso é exatamente o oposto. Eu gosto muito de participar de oficinas de escrita, ler textos de amigos e pedir opinião de pessoas que confio sobre minhas produções. Nesse sentindo, minha escrita é de muitas mãos.

Acho que esse tipo de troca estimula muito a criação e podem ser um pontapé inicial para ótimas ideias.

T: Você borda, cozinha, cria e testa receitas, além de desenhar e escrever, né? Como essas atividades se conectam para você?

N: Às vezes eu me deparo com essa questão existencial: qual a relação entre todas as coisas que eu faço? Porque a princípio, são totalmente distintas e um talvez pouco aleatórias. Mas acho que tem pontos em comuns que perpassam todas elas, e uma delas é a criação. Muita gente ainda tem aquela ideia de criar como um ato quase divino, que tem que vir de um momento de inspiração. Parece que ficamos esperando uma musa descer dos céus e nos dar a permissão para criar. Isso acaba tirando nosso prazer de fazer as coisas por fazer, sem ter um propósito produtivo, e tira muito a graça da criatividade e coloca ela num pedestal, como se fosse algo exclusivo a grandes artistas. Tem tanta coisa na nossa rotina que envolve criar e ter ideias, desde refogar cebolas com um tempero diferente a escrever um conto ou bordar um pano de prato com uma frase inusitada.

T: No seu livro “Em obras”, há diversas referências, indiretas e diretas, a outras artes, como a música, e também aos seus hábitos. Qual é a importância desse cotidiano de atividades, hobbies e interesses para a sua criatividade? Como suas referências te afetam na hora de fazer arte? E, claro, quais são elas?

N: Toda a importância! Eu acredito muito que o que a gente produz é um resultado do que a gente tem como referência e consome com o que a gente vivencia e percebe ao nosso redor. São os estímulos que impulsionam a criar e produzir. Essas referências acabam se tornando parte do que fazemos e do que somos, e algumas das minhas na literatura são Ana Cristina César, Angélica Freitas, Patti Smith, Drummond, Ana Martins Marques, Lydia Davis, Elvira Vigna e Wisława Szymborska.

T: E a publicação do livro? Como você tem lidado com a pré-venda e com a decisão de botar esse trabalho no mundo?

N: É um processo que dá um frio na barriga mas também traz muita empolgação. Quando finalizei o livro, ainda não tínhamos a pandemia, e a publicação em meio a todo esse caos me trouxe várias dúvidas. Mas vi a Angélica Freitas comentando em uma entrevista que deixar de fazer as nossas coisas é uma forma de desistir, e acho que concordo com isso. Fiquei pensando muito sobre o propósito de publicar um livro em 2020, mas cheguei à conclusão que conseguir fazer qualquer coisa em 2020 já é um marco.

T: Quais são seus próximos planos literários?

N: Quero montar um livro com alguns contos. Uma boa parte já escrita, mas vou a passos de formiguinha, num processo lento, sem muita pressa para publicar.

Edit posterior: Em Obras pode ser comprado no site da Editora Urutau. 

Você pode conhecer um pouco do interior do livro, incluindo alguns poemas, a partir desse meu post no Instagram.


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“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


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“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui

O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

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#EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

Photo by Aaron Burden

A proposta de reforma tributária encabeçada pelo Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, tem sido apresentada toda fatiada, confusa e sem perspectivas de mudanças positivas. Se há anos se fala da necessidade de simplificar as regras tributárias e a proposta em questão busque, ao menos teoricamente, isso, por que então a apresentação das proposições tem acontecido em partes, tornando difícil o acompanhamento por parte do povo? Por que a simplificação da tributação sobre o consumo tem sido colocada agora como uma solução de todos os problemas sendo que sequer inclui qualquer comentário sobre ICMS e ISS? Por que esse é o foco, sendo que a regressividade do nosso Sistema Tributário é muito criticada há tempos? Se historicamente muito se discute sobre a importância de diminuir a tributação sobre o consumo no Brasil, por que o ministro da Economia na prática propõe justamente o oposto disso? O que pode estar por trás da ideia de Guedes de acabar com a desoneração do livro? Por que essas questões importam na hora de falar em defesa do livro?

Arrecadação, tributação sobre o consumo e desigualdade

Uma das marcas do Sistema Tributário Brasileiro é sua regressividade, que significa que, na prática, quem tem mais, paga menos proporcionalmente*. Além de questões como a falta de tributação sobre lucros e dividendos distribuídos a acionistas de empresas e a não instituição do imposto sobre grandes fortunas já previsto na Constituição, o Brasil, ao tributar em peso bens e serviços, faz com que as pessoas mais pobres não consigam escapar da tributação ao fazer compras essenciais e usufruir de serviços necessários, ainda que haja uma desoneração de itens da cesta básica, enquanto quem tem mais dinheiro segue vivendo numa situação de conforto tributário fortalecido inclusive com benefícios fiscais de origem e intenção duvidosa.

Essa distorção é causada por n fatores e é um problema porque bate de frente com o caráter distributivo que a tributação deveria ter, especialmente em um país como o Brasil. Para combater a desigualdade, a tributação deve focar na propriedade e renda da parcela mais rica da população, não no consumo geral e irrestrito que faz com que todos, ricos e pobres, paguem os mesmos tributos ao consumir. A alta tributação sobre o consumo é criticada até mesmo por tornar nossa economia mais engessada. Não tem como falar em aumentar arrecadação e tornar o sistema menos desigual sem mexer na tributação da herança, da doação, dos barcos, aeronaves, dividendos e outras manifestações de renda diferenciada.

Os tributos, assim como os benefícios fiscais, possuem, além do caráter fiscal e arrecadatório, a possibilidade de apresentarem efeitos e características extrafiscais. Quando o governo aumenta, diminui ou mesmo isenta a tributação sobre o cigarro ou alguns produtos importados, por exemplo, essa pode ser uma tentativa de afetar o consumo dos produtos atingidos pela majoração ou minoração. Dessa forma, o governo pode incentivar o consumo de produtos específicos, enquanto praticamente inviabiliza a compra de outros. Sendo assim, a tributação é uma questão que vai muito além da arrecadação em si, sendo usada inclusive como um desestímulo para se consumir algo.

Quando Paulo Guedes demonstra que quer ampliar ainda mais a tributação sobre consumo, atacando diretamente a isenção das contribuições especiais prevista na lei 10.865 de 2004 que atinge a venda e importação dos livros — e de diversos outros itens, sendo alguns desses bens também relacionados com questões de acesso — , ele não busca um aumento de arrecadação ou uma melhora do Sistema Tributário Nacional no sentido de torná-lo menos desigual, como ele alega estar fazendo. Apesar do ministro dizer que o livro é um produto da elite e taxá-lo é importante por isso, o que ele faz é tentar inviabilizar o mercado livreiro e desincentivar o consumo dos livros, enquanto defende a manutenção de uma política tributária falha e que prioriza quem ele diz atacar com essa proposta.

O livro, a elite, os direitos e as estratégias de usurpação de direitos

A imunidade tributária do livro, do jornal e do periódico e o papel destinado à sua impressão é um instituto jurídico histórico — nascido em 1946, por iniciativa de Jorge Amado, e reafirmado nas Constituições seguintes, incluindo a de 1988 — que proíbe a instituição de impostos sobre esses itens e pode ser interpretado inclusive como uma cláusula pétrea, tornando inconstitucional qualquer restrição, já que a imunidade cultural é relacionada com o direito à liberdade de expressão e a ideia de facilitar o acesso à cultura, à educação, ao conhecimento, à informação e à ciência, questões relacionadas aos direitos fundamentais previstos.

No mesmo ano que surge uma proposta de Reforma Tributária que ataca o livro, o STF aprovou uma súmula vinculante sobre a imunidade tributária cultural alcançar também os livros eletrônicos e seus componentes importados, reafirmando a importância que a Constituição, seus guardiões e o direito brasileiro dão para o incentivo à leitura, ao conhecimento, ao direito de expressão e à facilitação de acesso às informações e cultura.

O Brasil adota hoje a teoria tributarista que afirma a existência de cinco espécies de tributo: os impostos, as taxas, as contribuições de melhoria, o empréstimo compulsório e as contribuições especiais. A imunidade cultural do livro o protege somente de impostos, sendo possível taxá-los com outros tributos, como as contribuições especiais, que, no caso, foram isentadas com a lei 10.865 de 2004, que agora está ameaçada.

A imunidade cultural do livro não é alvo direto de Guedes no momento — ele busca acabar com a isenção dos livros nas contribuições especiais — , mas é importante ser lembrada, porque esse ataque indica as intenções do atual Ministro da Economia e as estratégias que esse governo usa para defender seus interesses. Além das emendas constitucionais terem um processo legislativo mais complexo e dependente de mais votos para sua aprovação, o que dificulta que se mexa diretamente na imunidade que protege os livros dos impostos especificamente, há a interpretação de que esse instituto constitucional não pode ser restringido e é por isso que o foco do governo atual envolve mexer na questão do livro sem ter que lidar com essas dificuldades e, no momento, busca mudar a legislação infraconstitucional que isenta o livro de contribuições especiais. Mesmo sem afrontar diretamente a imunidade, Paulo Guedes sabe o quanto essa proposta já é uma forma de relativizar direitos e combater o que a Constituição tenta buscar ao definir o livro como imune aos impostos, além de saber o quanto soa ameaçador para o mercado livreiro.

Apesar disso, qualquer discussão sobre essas questões tributárias, como o fim da isenção prevista na lei 10.865 de 2004, envolve o legislativo no todo, o que cria obstáculos para que uma proposta como essa continue sem modificações, possibilitando que a gente lute, pressione e se aprofunde no debate da Reforma Tributária no todo. Até porque há toda uma campanha em defesa do livro se desenhando no momento.

Nesse sentido, é preciso atentar-se ao fato de que apresentar algo absurdo e improvável de ser aprovado no legislativo e depois voltar atrás é também estratégia para relativizar direitos. Caso a aprovação não venha ou ocorra uma desistência nesse sentido, eles vão querer que pareça negociação, que eles voltaram atrás, sendo que isso é só mais uma parte de um projeto maior que envolve o enriquecimento de poucos e a manutenção dos privilégios que mantém poucos no topo explorando, de maneira cada vez mais barata, pessoas, especialmente a partir do encolhimento da classe média e da renda dos mais pobres já em curso. Lembrando aqui que o Paulo Guedes tinha a intenção de acabar com a desoneração dos itens de cesta básica, mas “desistiu” pela impopularidade da medida, mas que, infelizmente, quando se fala em cultura, a sociedade brasileira ainda tende a pensá-la como algo menor, próximo até da futilidade.

Sendo assim, reafirmar a solidez e importância do instituto da imunidade, ainda que ela não seja o alvo direto da reforma, é uma maneira de defender o livro, porque expõe o quanto esse ataque é parte de um jogo político que envolve jogar para a torcida bolsonarista, enquanto tenta enfraquecer a imunidade cultural e o mercado do livro e da cultura para futuras ameaças, além de invisibilizar outras questões problemáticas da Reforma Tributária que está sendo proposta.

É preciso defender o livro hoje. Esse ataque não é gratuito, não é só para agora, é uma tentativa de criar brechas para investidas — no presente e no futuro — contra o livro, a cultura e a educação e os direitos de acesso dos mais pobres a tudo, enquanto reafirma o caráter anticientífico, anticultura e a favor da homogeneização desse governo e apoiadores.

Quando Guedes e seus apoiadores afirmam que o livro é um produto da elite e por isso precisa ser taxado, isso é colocado como se houvesse um enfrentamento dos privilégios de parcela da população por parte deles, quando na verdade se segue ignorando que manter o sistema tributário regressivo só aumenta a desigualdade. Até porque a imunidade que o governo busca relativizar e a isenção que ele quer acabar são tentativas de tornar o livro um produto mais acessível para a população no geral e, historicamente, surgiu como uma estratégia para garantir liberdade de expressão e dificultar a censura. Se Bolsonaro e seu Ministro da Economia estivessem interessados em tornar o livro um artigo acessível para todos, eles não tentariam acabar com essa desoneração e apresentariam projetos de lei e políticas públicas que buscassem fortalecer de fato, ainda que de maneira indireta por questões de competência constitucional, bibliotecas públicas e programas de aquisição de livros para escolas, universidades e outros espaços. O interesse desse governo é perpetuar a ideia de que livros, leitura e conhecimento são para poucos e não são para pobres, enquanto negam dados que comprovam o interesse da classe C, D e E pela leitura e ignoram que a literatura, a cultura e o conhecimento são para todos, ainda que exista obstáculos de acesso que devem ser combatidos. Eles querem que as pessoas, com o orçamento cada vez mais restrito graças às políticas e o próprio sistema que eles defendem, olhem para o livro com cada vez mais distância, enquanto são alimentadas com a raiva que eles manifestam por esse objeto, vide a afirmação de Bolsonaro sobre livros didáticos terem muita coisa escrita, e também pela ideia falsa e elitista de que ler não é para elas.

Fora que essa investida contra o livro é uma maneira de atacar a possibilidade de publicação e alcance de vozes que comumente são colocadas como minoritárias, tanto no sentido de grupos vulneráveis por opressões como raça e gênero, quanto no de ideias que batam de frente com o neoliberalismo e fazem importantes denúncias. Esse é um ataque contra o pluralismo de ideias, a bibliodiversidade, contra a imaginação, contra o ato de criar e a liberdade de expressão das vozes dissidentes. Fator que é importante de ser lembrado, já que Bolsonaro e seus apoiadores costumam estar do lado de tentativas de censura e ataques à cultura que vão além da literatura e o Brasil, nos últimos anos, viu o debate sobre autoria e diversidade avançar.

Inviabilizar o mercado do livro é uma maneira de garantir que, a partir de benefícios fiscais ou outras políticas, apenas algumas obras sejam lidas, publicadas e vendidas. E que cada vez menos pessoas possam acessar o que fuja do que eles querem incentivar, já que o próprio Guedes afirma que resolveria a questão de acesso doando livros para os pobres simplesmente, sem qualquer explicação de como isso aconteceria.

E o mercado do livro? E o futuro? E a Reforma Tributária?

O mercado editorial envolve vários profissionais além do escritor e o editor, como todos aqueles que fazem parte do processo de tradução, diagramação, revisão, preparo, impressão, distribuição, marketing e venda. Se o livro já é caro hoje, especialmente em relação ao salário médio do brasileiro, o aumento da carga tributária sobre ele afastará as pessoas ainda mais da leitura, da cultura e também da escrita, impressão e publicação, porque é impossível ignorar os profissionais envolvidos nessa cadeia de produção na hora de precificar uma obra. O preço do livro aumentará ainda mais e a possibilidade de comprar um exemplar ficará ainda mais difícil para a maioria das pessoas, especialmente porque Paulo Guedes, Bolsonaro e toda a trupe agem a favor da manutenção de privilégios de poucos em todas as instâncias. Nesse sentido, é importante lembrar que o mercado editorial tem sofrido com dificuldades e encolhido cada vez mais nos últimos anos, com a pandemia do coronavírus atingindo em peso o faturamento das livrarias de rua.

Fora isso, é importante dizer que a taxação do livro com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) — nome do tributo que juntará a PIS/PASEP e a CONFINS numa alíquota única de 12% — inviabilizará a sobrevivência de diversas editoras, livrarias e também escritores e outros profissionais do livro. A alíquota proposta é bem maior que o percentual que os escritores recebem com a venda de cada exemplar de suas obras mesmo em grandes editoras, por exemplo. Se essa proposta passar, veremos a crise do livro se agravar, criando mais desemprego e menos acesso a um item essencial para quem acredita em livre expressão e vê a efabulação como uma necessidade humana que precisa ser satisfeita, como diz Antonio Cândido em seu famoso ensaio sobre direito á literatura. E se ela não passar, muito por causa da pressão que exerceremos agora, não devemos encarar essa desistência como uma negociação, uma bondade deles, um sinal de racionalidade e nem aceitar que essa possível renúncia seja usada para justificar outras medidas que seguirão deixando o Sistema Tributário brasileiro nesse mesmo lugar de mantenedor de desigualdades.

Se a gente quer defender o livro e todos os direitos que se relacionam a ele, é preciso olhar para o todo e combater esse tipo de política econômica e social que parte sempre para a supressão de direitos, porque essa ofensiva contra o livro só demonstra o quanto a fruição da cultura, incluindo aqui a literatura, é um direito humano que precisa ser preservado e ampliado, especialmente quando se torna foco de governos que não toleram o diferente e atacam a literatura pelo seu potencial subversivo, humanizador e denunciante. Toda a discussão sobre o acesso ao livro também envolve questões estruturais da sociedade brasileira que são constantemente reiteradas por essa política fiscal que se posiciona a favor de manter os ricos e poderosos pouco tributados e tem sido reforçada pelo Guedes nessa proposta que agora debatemos.


*É interessante destacar que a tributação sobre o consumo afeta especialmente as mulheres, por elas serem as principais responsáveis pelas compras da família e também porque serviços e produtos, como sabonetes, absorventes, desodorantes, shampoos e afins, que constam como destinados às mulheres costumam ser mais caros sem qualquer motivo específico para isso. Além de tudo, a situação piora quando se analisa o caso da mulher negra, que lida com isso e ainda vive disparidades bem específicas no mercado de trabalho que fazem com que ela receba menos que mulheres brancas e homens no geral. (Mulheres brancas recebem menos que homens brancos). A desigualdade alimentada pela tributação regressiva contribui para a feminilização da pobreza.


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Questão de sorte

Riho Kroll

Acabei de ler uma matéria no Nexo que diz que homens são mais resistentes a usar máscaras no dia a dia e cumprir o isolamento social necessário para combater a pandemia, porque tendem a acreditar que não serão contaminados pelo coronavírus e, caso forem, se recuperarão mais facilmente. O irônico dessa história é que a taxa de letalidade entre eles é maior do que entre mulheres. Um engano desses jamais aconteceria comigo e eu juro que dessa vez isso não tem nada a ver com uma certa hipocondria minha. Só tem a ver com cisma.

Desde que a pandemia começou, eu tenho pensado cada vez mais no temor de ter gastado com outras coisas menores toda a minha sorte, essa coisa mágica e inexplicável que até o mais cético às vezes sente que rolou ou faltou. Agora, justamente por esse gasto anterior totalmente impensado e impulsivo, eu estou mais desprotegida do que nunca. Tenho medo da minha reserva de sorte ter zerado, de não ter nada na despensa para me proteger do azar. Esse pensamento não é bem uma novidade, mas agora ganhou contornos mais mórbidos. Eu sinto que o esvaziamento da minha sorte parece ter acontecido bem antes, já que em todo concurso que eu tento eu não vejo qualquer atuação dela. Antes, a falta dela atuava pelo meu fracasso, agora eu temo que ela não apareça para proteger a minha vida ou a vida dos meus.

Eu, você, todo mundo, precisa de sorte quando vai ao supermercado ou na farmácia ou mesmo deixar o lixo na rua ou trabalhar. A gente precisa estar no corredor certo e bem longe, quando alguém espirrar ou tossir ou conversar ou mexer errado na máscara e depois tocar nas maçanetas do prédio e produtos todos. A gente precisa de sorte para continuar, porque, além de tudo, a gente também tem que lidar com esse governo que foca sempre na cloroquina, na Anitta e no autoritarismo.

Eu já ganhei dois sorteios no Instagram, uma viagem para o Hopi Hari, um mp3 e várias partidas de jogos de tabuleiro, baralho e outros formatos de games que envolvem um pouco ou um mucado bom de sorte em sua lógica. Fora a fase que eu gostava de jogar bingo online pelo Jogatina. Cada vitória ali pode ser revertida por uma onda de azar que vai me colocar frente a frente com um contaminado assintomático e bolsominion que se recusa a usar máscara de tecido na rua e se afastar de quem passa bem quando eu precisar sair para fazer qualquer coisa.

A última vez que eu achei que uma encomenda minha tinha sido extraviada ou furtada por algum vizinho, ela estava o tempo todo na caixa do correio. Fora que eu já perdi dois celulares, uma vez em um táxi muito antes de apps existirem e os taxistas serem rastreáveis facilmente e outra vez em um restaurante numa cidade que eu não vivia, e nas duas vezes, milagrosamente, os aparelhos voltaram para as minhas mãos são e salvos. E eu nem comento as vezes em que a sorte sequer foi percebida por mim ou que eu já esqueci. Eu pareço dever muito, muito, muito mesmo para sorte e não sei se quando criança eu a servi com trevos de quatro folhas o suficiente, porque eu lembro de procurar, procurar e procurar e encontrar quase sempre só os de três.

Esse papo todo me lembra que esses dias o tapetinho da porta do apartamento sumiu por mais quase três semanas e depois retornou, o que nesses tempos eu não sei se é sorte ou azar, porque ele pode ter retornado todo contaminado, apesar de que tudo indica que quem pediu emprestado o lavou junto com o meu chinelo ipanema que nem sequer chegou a sumir por uns dias. Por desencargo de consciência, eu evitei pisar nele durante 14 dias, mesmo saindo apenas para levar o lixo lá fora.

Só sei que eu tenho medo de faltar sorte bem agora, bem na hora que eu imagino que será a que mais preciso. Eu tenho medo de toda vez que marquei alguém em um sorteio nas redes sociais, eu tenha atuado para me colocar no centro do furacão sem qualquer proteção mística, ainda que eu nem sequer acredite nisso. Eu tenho medo, porque a minha regra é sempre pensar na pior possibilidade e, caramba, como todas as chances que se apresentam agora parecem ser ruins.

Por isso, eu não saio de casa, uso máscara de tecido e descorongo tudo que chega nesse lar e acho que todo mundo deveria fazer o mesmo também, porque o sortudo pode perder a sorte e o azarado pode ter muito azar ainda para gastar. Tudo é questão de sorte, ou azar, e para essas coisas não há regras.

O aleatório pode te pegar pela sacolinha do delivery de pizza que você entrega ou pega. O vírus bactéria filha da puta micróbio do caralho pode resolver fazer sua morada provisória ali e, como num jogo de dados, se o resultado for 1 ou 2, ele pode te contaminar na hora mesmo você tendo muito cuidado, se der 3 ou 4, ele pode te pegar porque você deu um beijinho no gatinho ou cachorrinho ou mesmo uma criança que se escondeu lá dentro brincando sem você ver, mas se der 5 ou 6 dessa vez você está livre, porque nessa sacolinha, bem nessa, não tinha nada de vírus. Sorte. Ou azar. Mesmo se você não der a bobeira de não descorongar o que devia desconrogar, a verdade é que a gente não tem controle de nada. A gente só tenta diminuir as possibilidade de tirar os piores dados e torce para dar certo.


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“Sorte”: uma história sobre destino e mulheres

Acervo pessoal. Adquira seu exemplar aqui.

Sorte é uma palavra constantemente ligada à destino e, por isso, um ótimo título para um livro que busca contar uma história que poderia ser a de várias mulheres esquecidas que nunca puderam atuar ativamente para mudar os caminhos que foram traçados para as suas vidas quando elas nasceram. Caminhos esses que foram definidos por fatores como nascer mulher, nascer branca, negra ou indígena ou vir de uma família pobre.

Com apenas 95 páginas e nomeado com essa palavra de cinco letras e profundo significado, esse livro de Nara Vidal, brasileira hoje radicada na Inglaterra, narra uma história que nos faz refletir sobre as dores que a pobreza, o machismo e a colonização trouxeram para as mulheres.

Focado em Margareth Cunningham e sua família, mas com grande participação de Mariava, uma escrava negra que trabalha na mesma casa portuguesa que as irlandesas, o romance fala sobre imigração, violência, sororidade e exploração dos corpos das mulheres, abordando de forma sutil as diferenças dessa exploração entre mulheres negras escravizadas e mulheres brancas pobres e imigrantes.

A família para a protagonista não se apresenta como um espaço de conforto, companheirismo e amor, mas como um local de disputas, abandono e dor. Apesar de haver um carinho entre as irmãs, os homens da família parecem pertencer ao grupo apenas como detratores de todas as mulheres dali. O pai, por exemplo, insistiu em tentar ter filhos homens a todo custo, porque as várias filhas mulheres não serviam para ele.

O livro se baseia em fatos históricos, como a Grande Fome na Irlanda, a escravatura no Brasil e a existência de conventos católicos irlandeses que “acolhiam” mulheres caídas e cria, a partir disso, um romance que é marcado também pelo não dito, como toda a história das mulheres. Sem perder a chance de demonstrar o quanto o catolicismo, forte nos países que atravessam a vida dessa família, atua e afeta na vida das mulheres.

A partir de uma narrativa unida pelo compartilhamento de uma história sobre uma ilha mágica de esperança, fantasia e mentira, Nara Vidal escreveu sobre essas mulheres — e seus filhos — esquecidas e esquecidos enquanto personagens e pessoas, essas pessoas que ainda moram, na história oficial, na literatura e até nas histórias populares, no lugar anônimo reservados às Outras e Outros. O livro levou o terceiro lugar do prêmio Oceanos em 2019 e foi publicado pela Editora Moinhos.


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Costuras para fora: o íntimo e o cotidiano entrelaçados e expostos

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Costurar é uma ação que remete ao ato de juntar com agulha e linha dois pedaços de alguma coisa, seja pano, pele ou mesmo ideias. A costura é feita ponto por ponto, que surge a partir de algum esforço para unir o que foi desunido pelo corte, pela ruptura, pelo abismo.

Colocar as costuras para fora funciona como uma exposição desse processo de possível separação ou diferença, (re)união pelo esforço da agulha, da linha e do pulso ou máquina e o nascimento da cicatriz do traço pontilhado que une as partes costuradas.

No livro de contos “Costuras para fora” da Ana Squilanti, as grandes e pequenas questões da vida dos personagens são expostas junto com o cotidiano mais miúdo e as bagagens que cada um deles carrega. Essa forma de se contar histórias, enquanto nos apresenta elementos que lembram uma crônica ou um bate-papo, torna possível que a gente, enquanto leitor e pessoa humana, se identifique, crie empatia e entenda as dúvidas, as dores e os traumas de cada narrativa. Poderia ser a nossa história, mas é a de um personagem de ficção que às vezes se parece mais com a gente ou com alguém que a gente conhece do que com os seus respectivos perfis das redes sociais.

Somos todos quase uma colcha de retalhos de tão recortados, costurados e cheio de pontes que podem ser rompidas com a ajuda de somente uma tesourinha e um pouco de vontade ou rasgadas de repente até por acidente. E depois costuradas de novo. Ou não. Ana Squilanti sabe disso e explora a força literária das vulnerabilidades, inseguranças, segredos e sentimentos que costumam ser escondidos, mas são tão presentes e reais que sem visualizá-los não parece haver vida em qualquer caso ou personagem. Inclusive crianças e idosos.

O corpo, o padrão e o conto

“Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem ter sido escritos para fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos principais destaques da obra talvez seja o “Bonita de rosto”, que explora os efeitos da batalha contra o próprio corpo e as pressões para se encaixar nos padrões de magreza e beleza. A honestidade e a crueza da narradora dessa história para descrever suas práticas sofridas em busca desse corpo perfeito e inatingível expõe a guerra que mulheres, especialmente as gordas, são incentivadas a travar por causa do que se cobra como feminino, inclusive pelos doutores. Mais uma vez, a exposição dos bastidores de algo que é extremamente comum nos permite perceber o que costumamos negar estar ali. Não há sacrifício suficiente quando se busca algo impossível, mas a culpa por não conseguir caber no que se espera é ilimitada.

O cuidado invisível como foco

Já “Trava de fogão” e “Ponto Falso” são algumas das narrativas que chamam a atenção por trazer o foco para o cuidado, sempre visto como invisível, mesmo sendo essencial. No primeiro conto, quem cuida é uma mulher de um homem idoso que nunca aprendeu a viver sozinho, porque esse trabalho invisível da casa e de si sempre fica para as mulheres ao redor e ganha o nome de amor. Já no segundo, um pai cuida do filho que machucou o supercílio levando o menino para o hospital e acaba recebendo um apoio inesperado ali, ainda que eles estivessem em um espaço visto como sinônimo de cuidado.

O cotidiano como forma de aproximação

O uso de cenas banais do cotidiano é um recurso utilizado em todo o livro. É justamente nesses detalhes, inseridos de forma tão cuidadosa pela autora, que mora a proximidade do leitor com os personagens. Só que essas banalidades tem uma função muito além de formar um cenário e uma cena per si, elas são também o cerne do livro e o que liga todas as narrativas. Nos contos “Sem costura”, Nós” e “Lista de compras”, o que guia o leitor é justamente o que se tira do mais cotidiano possível. O medo do fim pode estar no apodrecimento de uma fruta e na constatação da nossa insignificância, por exemplo. A vida acontece nesses momentos que parecem desimportantes e quase invisíveis para olhares mais desatentos. A matéria-prima de nossas existências não é o extraordinário, é o miúdo.

Essa proximidade ganha contornos ainda mais interessantes quando se pensa nesse livro como uma ferramenta dialógica sobre questões humanas que perpassam a vida desses personagens. Com diversas histórias que abordam casais não heterossexuais, isso acaba ganhando também um significado político, já que essas narrativas também combatem a desumanização ao apresentar conflitos da vida que vão muito além da sexualidade isolada em si mesma, ainda que fale sobre relações e descobertas.

Da criança ao idoso, do prazer à doença, do namoro aos laços familiares entre irmãos e avós e netos. Ana Squilanti, em sua obra de estreia, percorre narrativas que partem de diferentes fases da vida e variados relacionamentos. O que torna “Costuras para fora” um excelente livro é o quanto tudo parece e é comum e próximo. A autora, com uma linguagem que muitas vezes é bem poética, oferece para o leitor a possibilidade de olhar de novo e de forma mais atenta e humana para o cotidiano, que se mostra a linha e a agulha que nos ajuda a unir os pedaços que são desatados de nós todos todos os dias.


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Uma versão reduzida dessa resenha foi publicada no site Delirium Nerd.

A batalha secreta dos ipês

Ipê capa da Vogue — Foto: Thaís Campolina (Acervo Pessoal)

Aqui na rua tem um ipê amarelo conhecido por ser atrasado em sua floração. Ele, além de tudo, é miúdo em relação a todos os outros. Eu não entendo nada de botânica, mas como uma pessoa adulta menor do que todas as outras, eu não consigo olhar para ele sem pensar que é uma sacanagem tremenda supor que ele é como é simplesmente porque ainda não se desenvolveu por completo ou tem algum problema.

A gente fala, fala e fala em respeitar as diferenças, vive argumentando que cada um de nós funciona de um jeito, mas quando a gente se depara com um ipê pequenininho e atrasado em relação aos seus colegas tão vistosos e já floridos, a gente ainda tende a supor que ele, que não se encaixa na trajetória linear ou mais correta segundo sei lá quem, só não se encontrou ainda. Ou teve uma infância difícil demais e cheia de traumas. Ou qualquer outra coisa que no fim das contas será usada para diminui-lo de maneira condescendente.

As pessoas sempre querem um porquê. Quase como se fosse um atestado que você leva para o trabalho para justificar que não deu para você chegar na hora como todos os outros. As pessoas não podem ver o diferente e simplesmente pensar “ok”. Elas sempre vão querer uma justificativa para aquilo, de preferência uma justificativa que evoque um papagaio dizendo “ô coitado!”. Sem isso, o que sobra é a zombaria direta e irrestrita.

Uma vez me perguntaram se eu passei fome na infância e por isso acabei tão pequena. Foi estranho. Ser toda inha, inclusive branquinha, sempre me fez ser colocada como bibelô, o que é inevitavelmente uma coisa meio patricinha. Dessa vez foi diferente. Muito pior. E olha que eu tenho um trauma não superado de ser vista como bonequinha. A pessoa ao me olhar pensou que somente a desnutrição justificaria a minha existência em paz, que eu precisava de ter um background de sofrimento para me tornar factível como personagem. O paternalismo de sempre se mostrou uma piedade feia, essa que alguns cristãos adoram sentir pelos outros quando dizem que vão ajudar alguém. A mesma piedade feia que eu vejo quando as pessoas olham para o ipê amarelo da esquina da minha casa e diz mesmo sem ser em voz alta algo como: “coitado, ele não é como todos os outros”.

Estamos em julho agora e a floração dos ipês já começou. Ao menos entre os adiantados. Eles, os ipês amarelos melhores da classe, já estão entre nós. Eles, os ipês capa da Vogue, já enfeitam as ruas. Eles, os ipês geniais, já estão sendo fotografados por quem passa com máscara na cara — ou no queixo — perto deles. Já os ipês de floração em agosto e setembro seguem seus processos ainda carregados de estigmas somados a pressão de, quando florescerem, florescerem bem. Todos os ipês vão ficar floridos por mais ou menos quinze dias, independente de quando começarem, mas não importa, porque até entre os ipês se impôs uma corrida de produtividade, modelo, status e essas coisas todas.

Todo mundo quer florescer primeiro. Todo mundo quer florescer melhor. E alguém ainda vai dizer que pensar assim é o mindset do sucesso. E quem, por qualquer motivo que seja, demora mais ou, quando floresce, não floresce tão bonito, se torna um fracassado que precisa apresentar justificativas até para si mesmo por não ser como o primo bonito, concursado e com a vida e família pronta. Sendo a melhor justificativa sempre algo que evoque dó, porque ela dá a ilusão de empatia para quem ainda quer olhar para os outros sempre de cima.

Eu ia chamar os ipês adiantados de Einstein, porque ele é o nome que todo mundo aprendeu como sinônimo de gênio, mas eu lembrei que existe um mito sobre ele na verdade ter sido um péssimo aluno, só que é um mito somente e não ia dar para tirar nenhuma lição bonita da história dele, porque não importa se o atrasado vai brilhar muito um dia, a gente tem que parar de querer cobrar que os outros sigam essa régua única que parece ter sido inventada para que a maioria sempre perca. Fora que aquele meme do “e aquela criança era ninguém mais, ninguém menos, do que Albert Einstein” estragou tudo.

Era para esse texto ser engraçadinho, mas acho que não funcionou.


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“Shirley”: mulheres, loucura, machismo e escrita

Imagem de divulgação

Quando mulheres escrevem histórias de violência, horror, mortes, monstros e fantasmas, a sociedade se incomoda. Ninguém espera que a mente feminina seja capaz de criar algo que fuja dos estereótipos que nos são empurrados desde a infância. Ninguém espera que mulheres sejam capazes de falar do horror e do que perturba a humanidade, quando tudo que é visto como feminino precisa ser fofo, tranquilo, bondoso e materno.

Esse estranhamento torna as mulheres que criam ou consomem essas histórias objetos de curiosidade. Afinal, a sociedade patriarcal usa esses estereótipos e muitas outras coisas como ferramentas de controle, por isso estigmatiza certos comportamentos e tenta ensinar para as outras, a partir dessa estigmatização, como elas devem se comportar sob pena de serem as próximas loucas, estranhas, esquisitas e deslocadas.

Shirley Jackson, um dos grandes nomes do terror, nasceu no dia 14 de dezembro de 1916 e morreu aos 48 anos. Ela escreveu seis romances, dois livros de memórias e vários contos, se tornando referência para autores como Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt. Ainda não li nada escrito por ela, infelizmente, mas sei que a autora é conhecida por suas histórias de terror, seus personagens atormentados e pela sua capacidade de criar e contar histórias sombrias com bastante verossimilhança. Uma excelente personagem, portanto.

Shirley, dirigido por Josephine Decker, roteirizado por Sarah Gubbins e baseado em um romance de Susan Scarf Merrell, explora a autora como personagem, brinca com o imaginário social sobre a mulher que escreve, especialmente temas como terror e mistério, e assim também expõe o terror doméstico e as consequências mentais dele. A obra então não pretende ser uma cinebiografia ou algo assim, ela somente usa uma pessoa que existiu como uma base e inspiração para se criar uma personagem, quase como a protagonista do filme faz com sua convidada.

A história do filme parece simplória e cotidiana: Shirley (Elisabeth Moss) e seu marido, professor e crítico literário, Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg) recebem um casal de recém-casados, Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young), para uma temporada. O objetivo é que eles fiquem por lá até que consigam se estabelecer e encontrar um lugar para eles. Mas essa convivência entre os casais, que parece tão boba, dá bastante pano para manga.

Na cena inicial, Rose lê o último conto de sua futura anfitriã com admiração e tenta comentar sobre ele com Fred. Fred nem liga. Essa cena tão curta, que surge antes de termos qualquer outra informação a mais, é um indício do que está por vir e expõe o quanto o machismo é algo que afeta e afetará a vida dessas duas mulheres.

A loucura, na obra, aparece como um estigma que atinge Shirley enquanto mulher solitária, muitas vezes em sofrimento, e escritora de terror, mas também como a palavra mais fácil de atribuir para qualquer mulher. Todas as mulheres, mesmo as donas de vidinhas invisíveis e insignificantes sob a ótica dos homens, podem ser doidas se seus maridos falarem que elas são e o filme usa essa ideia para falar sobre os relacionamentos amorosos em foco, enquanto também constrói uma crítica ao todo.

No fim, para os homens, donos do mundo, todas as vidas femininas são vidinhas que acontecem em segundo plano e nem possuem tanta importância assim. Mesmo Shirley sendo uma escritora tremenda, ela se sente dependente de Stanley e todo o jogo psicológico que ele faz, porque, apesar de tudo, acredita que precisa de uma validação masculina para existir como escritora — ou mesmo pessoa — para o mundo.

Isolamento, autoestima, bloqueio e processo criativo, parceria, solidão, casamento e maternidade, tudo isso são temas abordados nessa obra que, apesar de ter um caráter cotidiano e caseiro, consegue criar tensão a partir do incômodo. Algo muito ruim parece estar sempre prestes acontecer, como em uma boa obra de suspense, mas a gente logo descobre que algumas ruindades podem estar tão infiltradas no dia-a-dia comum das mulheres que podem passar despercebidas com grande facilidade.


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“Vida de Gato”: as aventuras e tragédias felinas

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A fascinação que os gatos exercem na humanidade não é nova, vide egípcios e o popular personagem Garfield, mas nos últimos anos, com a ajuda de vídeos fofinhos que donos de gatos compartilham sem parar nas suas redes sociais, eles viraram verdadeiras estrelas. Por isso, “Vida de gato” chama tanta atenção.

Com essa graphic novel traduzida por Raquel Moritz para a Darkside, o quadrinista belga Serge Baeken chega ao Brasil com um trabalho que, de certa forma, homenageia os gatos que passaram pela sua vida. Inspirado em Mascavo, que esteve com o autor durante 18 anos, ele apresenta uma narrativa focada em simular a perspectiva felina das coisas.

Com desenhos espetaculares, essa história em quadrinhos surpreende por não ser simplesmente um conjunto de relatos fofinhos de amizade entre gatos e humanos. Ao contrário do que esperamos inicialmente, as histórias contadas nesse livro são, no geral, trágicas, como são a vida da maioria dos gatos.

Apesar de ter amado as ilustrações e até mesmo a premissa da obra, o roteiro que Serge Baeken construiu não me cativou como eu imaginava. Como apaixonada por gatos e cães, me incomodou um pouco a maneira que o autor explorou essas histórias trágicas como uma questão natural, como se todos aqueles desastres evitáveis fossem uma parte invariável dessa relação de gatos e pessoas.

Como humanos, costumamos viver mais do que nossos companheiros de outras espécies e, por isso, conforme vamos envelhecendo acompanhados, acabamos também acumulando saudades. De certa forma, ter a companhia de animais de estimação nos coloca num lugar em que acabamos obrigados a nos preparar para lidar com uma perda que vai vir mais cedo ou mais tarde. Falar dos bichos que vivem com a gente, então, acaba sendo também uma maneira de falar sobre morte, acidentes, ausência, risco, saudade e amor, mas, no caso do quadrinho, talvez tenha faltado uma certa sensibilidade na abordagem.

As homenagens ficaram com cara de inventário e o que poderia ser um trunfo acabou não funcionando tão bem assim, provavelmente por causa da nossa nova noção de cuidado de animais domésticos. Ainda assim, fica evidente para o leitor que todos os gatinhos que passaram na vida dos personagens deixaram sua marca de alguma maneira.

Esteticamente “Vida de Gato” é impecável, mas ao menos para mim, as histórias de aventuras felinas de agora precisam ser fantásticas quando envolvem rua, porque a realidade não é nada agradável para os bichanos que vivem assim, ou, se realistas, centradas em gatos de casas e apartamentos protegidos por telas. Mascavo viveu muito, mas isso foi por pura sorte, como o destino dos outros gatos desse quadrinho parece nos dizer. Talvez a força dessa história esteja justamente nessa reflexão tão incômoda sobre cuidado e os riscos da vida felina.


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