O filme brasileiro “Temporada”, dirigido e roteirizado por André Novais Oliveira, foi o grande premiado do Festival de Cinema de Brasília de 2018 e chegou ao mundo do streaming pela Netflix agora em abril de 2019. A obra é sobre o cotidiano nas cidades e aborda a realidade de uma maneira tocante e simples sem ignorar o peso de opressões.
Em mais uma excelente atuação, Grace Passô dá vida à personagem Juliana, uma mulher que se muda para Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) para assumir um cargo concursado de agente de combate à endemias. A partir dessa mudança, Juliana vê sua vida se transformar junto com seu novo cotidiano.
Do que é feita uma cidade?
O novo emprego da protagonista envolve circular a pé em um lugar totalmente novo, entrar na casa das pessoas, buscar focos de proliferação de mosquitos, escorpiões, abelhas e afins. Essa rotina nos apresenta a cidade como ela é: cheia de personagens diversos, óticas variadas, paisagens e também uma dose de simpatia, troca e diálogo.
A relação dela com seus colegas de trabalho se constrói a partir desse espaço dominado pelo cotidiano repleto de histórias, cafés na casa dos moradores visitados, humor e dificuldades financeiras.
Ela, pela sua função de cuidar da cidade e sua população, adentra espaços de intimidade, mexe nas tralhas das pessoas, lida com o conflito entre o público e o privado. Os colegas já experientes nesse trabalho, inicialmente, a guiam nisso e desde logo ensinam que esse cuidado que ela é obrigada a dar como profissional muitas vezes é retribuído voluntariamente.
A cidade em “Temporada” é abordada de uma maneira tocante por mostrar a construção das relações entre os agentes de combate à endemias e a população atendida. As fronteiras do público e do privado, ao serem diluídas, mostram, com delicadeza, a importância do banal na vida de cada um.
Autonomia, solidão e descoberta
Juliana é uma mulher casada, mas se muda para Contagem sozinha. Estar só em um lugar novo faz com que ela reflita sobre quem é, o que quer e o que teme. Ela, nesse contexto, entra em um processo de descoberta que envolve autonomia e identidade. Assim, a protagonista se permite reinventar a partir das novas experiências.
Há uma dualidade na trajetória de Juliana. Seu desenvolvimento como personagem perpassa tanto a solidão quanto a construção de novas relações. Ela percebe a importância de construir amizades, do apoio mútuo e da troca de companhia, mesmo que descompromissada, e descobre novas possibilidades diante disso.
Juliana, mulher negra (contém spoilers)
“Temporada” é, a primeira vista, sobre cotidiano, mas por meio dele trata também de questões como machismo, racismo e espaço urbano.
O abandono marital sofrido pela protagonista é uma amostra da realidade de muitas mulheres brasileiras, especialmente as negras. Sua solidão, que antes tinha um tempo certo para acabar, ganha um ar de permanência. Ela precisa se adaptar ao novo emprego, ao novo lar e agora também carrega essa mágoa, mas também uma possibilidade de recomeçar.
Toda essa situação junto a dificuldade de processá-la verbalmente faz a personagem buscar descobrir-se. Isso desemboca, quase sem querer, em um corte de cabelo significativo. Em uma ida ao centro de Belo Horizonte com um dos seus novos amigos, ela abandona as madeixas artificialmente lisas e assume o cabelo crespo. Mudança que serve para coroar essa trajetória de aceitação dessa nova Juliana e da nova vida que se desenha.
“Temporada” é sobre uma nova fase
Os diálogos naturais, com suas gírias e silêncios, junto das cenas quase poéticas com recortes das casas e da cidade constroem uma obra marcada pela sutileza e pela vontade de seguir a vida apesar dos pesares.
O dia a dia, muitas vezes encarado como um espaço temporal onde não aparenta ocorrer nada importante, é quando a vida acontece. A plasticidade dos destinos e de quem somos se desenrola, a maioria das vezes, na banalidade da vida real.
As Olimpíadas não tiveram nenhuma prova de ciclismo feminino até 1984*, sendo que em 1967 Beryl Burton quebrou o recorde de velocidade masculino da época. Demorou dois anos para um cara superá-la, mas, ainda assim, nos jogos olímpicos, as ciclistas não podiam estar.
Quando se observa a história do futebol feminino no Brasil, o machismo fica ainda mais evidente. A modalidade passou quase 40 anos proibida de ser praticada e ainda hoje sofre com uma estrutura precária, pouco incentivo e é alvo de comentários maldosos que partem da ideia de que essa não é uma atividade para mulheres. Só que a restrição das mulheres nos esportes é ainda mais complexa do que a gente imagina. Até em modalidades consideradas hoje “mais femininas”, como a patinação artística, houve luta das pioneiras para competir profissionalmente.
As práticas esportivas nos ensinam sobre coragem, disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer. Quando há uma evidente falta de incentivo — e até de acesso — para as mulheres nesse espaço, há uma restrição ao desenvolvimento pessoal delas.
Esportes ainda não são encarados como lugar de mulher. Eles só são socialmente incentivados se a prática for amadora e com a finalidade de manter as mulheres numa determinada estética. O corpo feminino deve ser apenas um objeto a ser visto e admirado, jamais ativo, forte, hábil. Os homens podem ser o que quiserem. Algumas modalidades, inclusive, sofrem com um certo estigma que é marcado por comentários como “se você continuar a praticar isso, seu corpo ficará horrível”. O levantamento de peso é o principal exemplo disso, mas até a natação vez ou outra se torna alvo.
As atletas são lembradas mais como musas, caso se encaixem no padrão de beleza, do que por testarem seus limites individuais de forma obstinada. Nos portais esportivos, principalmente fora do período das Olimpíadas, elas só aparecem no pé da página. A verdade é que, apesar de tantas conquistas, sejam elas medidas em medalhas ou pela abertura de caminhos para as mulheres, as atletas sofrem com uma invisibilidade tremenda e é por isso que o livro “As Esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky, é tão importante.
As biografias apresentadas por ele são centradas, principalmente, em pioneiras, sendo a maioria delas estadunidenses ou europeias. Na edição brasileira, houve um acréscimo de cinco perfis de atletas do país, entre elas Marta e Aída dos Santos. Além disso, há uma grande diversidade de modalidades. Tem motocross, skate, escalada, hóquei, tiro ao alvo e até boliche e corrida de trenó com cães.
A obra nos permite conhecer histórias de mulheres que se destacaram por suas habilidades esportivas, determinação e vontade. Elas quebraram recordes e barreiras de gênero e, muitas vezes, também de raça.
Por causa da segregação nos EUA e da luta pelos direitos civis, muitas histórias mostram os obstáculos que atletas negras, como a jogadora de beisebol Toni Stone, tiveram que lidar e também destacam como algumas delas usaram suas vitórias e capacidades extraordinárias para questionar a barreira racial existente.
A corredora Wilma Rudolph, por exemplo, ao ganhar 3 ouros na mesma olimpíada, ia ser homenageada pela sua cidade natal com um desfile. Ela se recusou a participar dele porque as regras diziam que a cerimônia só poderia ser frequentada por brancos e, com essa pressão, o que antes seria segregado se transformou no primeiro evento integrado da cidade.
Visibilizar essas histórias ajuda a mostrar que o esporte feminino importa e que o espaço desportivo também nos pertence. Ainda há barreiras de gênero a serem enfrentadas, já que mulheres ainda não tem tanto acesso, exposição e valorização quanto os homens esportistas, mas, mesmo quando as barreiras eram ainda maiores, as mulheres foram lá e fizeram, abrindo as portas para todas nós.
As biografias dessas pioneiras nos inspiram por passarem a mensagem de que podemos ir em frente mesmo quando o machismo diz que não. Fazer isso é lutar por nosso direito de sermos vistas como pessoas.
*existe prova de ciclismo masculino desde o início das olimpíadas modernas.
Hans Christian Andersen foi um autor dinamarquês que viveu no século XIX e escreveu diversos contos de fadas infantis, entre eles, “A Pequena Sereia”. O fascínio que essas criaturas mitológicas exercem na humanidade e a curiosidade humana sobre as profundezas do mar ajudou a tornar essa história bem popular inclusive entre crianças, especialmente após a adaptação cinematográfica feita pela Disney em 1989.
Tanto no conto original, quanto na famosa animação, a protagonista abandona sua vida nos mares e sua identidade, além de mutilar seu corpo, para tentar conquistar um homem. A Bruxa do Mar é feia, solitária, invejosa e infeliz. Uma personagem clichê, que tem sua vilania construída a partir de uma oposição ao que é colocado como ideal de feminilidade, enquanto a Pequena Sereia corresponde ao padrão de beleza e ama verdadeiramente um homem, como se é esperado de uma mulher.
A construção dessa história e das principais personagens reproduz uma mensagem que, agora, quase 30 anos depois, é questionada por Louise O’neill numa releitura feminista desse clássico.
O patriarcado marinho
Na versão de Louise, o reino do Rei dos Mares é uma epítome da opressão contra as mulheres e é nesse lugar que a Pequena Sereia cresce cercada por suas irmãs, sua avó e a intimidação de seu pai e outros tritões.
O valor das sereias está apenas na aparência que possuem, há um incentivo à rivalidade feminina, inclusive entre irmãs, o padrão de beleza é magro e os sacrifícios para tentar alcançá-lo são naturalizados, há casamentos arranjados e as sereias são vistas como troféus a serem ostentados.
Não importa o que as sereias sentem, querem ou expressem. O Rei dos Mares é quem manda e desmanda nesse lugar. A Pequena Sereia, chamada Gaia na releitura, se incomoda com essas regras tácitas e expressas sobre como ela e todas as outras devem agir e vê as histórias de amor contadas por sua avó e protagonizadas por príncipes encantados como um refúgio desse destino que parece inescapável. Isso se intensifica com a proximidade do seu casamento com um tritão bem mais velho escolhido por seu pai.
A (des)construção do amor romântico
Louise O’neill parte da mesma problemática da história original para questionar o amor romântico que nos é ensinado. O refúgio da personagem é esse amor ideal que não existe, mas chegou até seus sonhos por meio dos contos de fada. Ela quer viver esse amor das histórias com Oliver, humano que ela salvou após uma tempestade afundar um barco em que ocorria uma festa.
Naquele contexto de opressão que, além de tudo, envolve um casamento arranjado com um tritão agressivo e manipulador, Gaia encara a paixão humana, a mutilação e o abandono do mundo que ela conhece como a única alternativa para fugir de um destino que promete ser repleto de violência masculina e silenciamento. Mal sabe ela que a realidade das mulheres na superfície está bem longe do ideal.
A autora dessa releitura trabalha a jornada da Pequena Sereia no mundo humano como um processo de descoberta de si, do que é amor e do que é a realidade das mulheres nos mares e na terra. A lição que fica para o leitor é de que a libertação que a personagem tanto buscava não pode ser encontrada no despertar do amor de um homem.
Essa visão da Pequena Sereia sobre as alternativas e caminhos possíveis evidencia o quanto a feminilidade que nos é ensinada, seja na terra ou no mar profundo, é ligada ao casamento e a busca do amor. A identidade feminina é construída para ser complementada por alguém, por isso Gaia e muitas mulheres do mundo real buscam o despertar do amor de um homem como uma solução para todos os seus problemas, caminho que acaba se tornando uma nova prisão.
A descoberta do Outro
A trajetória da Pequena Sereia até o mundo humano também envolve descobertas sobre o fundo do mar. Ela vê parte excluída do reino de seu pai, conhece pessoalmente Ceto, a famigerada Bruxa do Mar, e é obrigada a lidar com as Rusalkas, jovens humanas que se afogaram e se transformaram em uma espécie de sereia que foge desse padrão de feminilidade que ela representa. São essas sereias de origem humana que seu pai e seu prometido marido querem exterminar.
A conversa dela com a Bruxa do Mar é um dos pontos mais interessantes do livro. Nesse momento, Gaia descobre uma história silenciada, uma sereia livre e a possibilidade de ser diferente sem ser necessariamente uma vilã clássica. Ela teme o que Ceto pode fazer contra ela por conta de tudo que sempre ouviu, mas é ali que ela começa a sentir um pouco de liberdade e ouve alguns conselhos que ela prefere ignorar.
Nesse encontro, a sereia, colocada como vilã para o povo sirênico, diz que quem a chama de bruxa é o Rei dos Mares, pai da protagonista, e que bruxa é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.
Com essa releitura, Louise O’neill conseguiu transformar uma história problemática em um livro que toca pessoas de todas as idades, especialmente mulheres jovens. Ela aborda aspectos do machismo, incluindo a violência masculina e o padrão de beleza, de forma questionadora e expõe o quanto certas práticas e comportamentos são nocivos, apesar de serem naturalizados.
O processo de descoberta da protagonista carrega como ensinamento a importância de lutar para se viver com liberdade e autonomia e nos ensina que devemos tentar fazer nossa voz ser ouvida. Ela pode ser bem mais poderosa do que imaginamos, especialmente quando ela é fortalecida por outras mulheres.
Quando João nasceu, os médicos descobriram que ele veio ao mundo com um capacete natural acoplado ao seu corpo. Nas primeiras semanas, a consistência do elmo ainda em formação era tão frágil quanto a moleira de todos os outros bebês, mas logo isso mudou.
Aos seis meses, a cabeça dele já tinha se tornado mais resistente que um capacete de um motociclista. Aos quatro anos, cientistas comparavam a dureza dela com os materiais da escala Mohs e afirmavam que era questão de tempo para que essa parte específica do corpo de João tomasse o lugar do diamante no topo.
Com orgulho, a família o alimentava com comidas nutritivas e o obrigava a seguir à risca uma dieta feita para fortalecer os ossos e a carne. Queriam que a cabeça de João ficasse ainda mais firme.
Todo mundo dizia que nascer assim era coisa do destino e que em algum lugar do DNA do menino constava que ele devia seguir alguma carreira no campo da segurança pública. Seus pais concordavam, mas desejavam que o cérebro de João também chamasse atenção, já que não gostariam de ver o garoto ser usado em seu futuro emprego como uma simples isca por causa de seu capacete natural melhor que todos os artificiais. Por isso, desce cedo, eles o incentivaram a estudar muito para garantir um futuro de sucesso nos concursos públicos de alto escalão. Seu pai dizia para quem quisesse ouvir que João seria um ótimo delegado da Polícia Federal e sua mãe sonhava com seu menino estudando no Instituto Tecnológico da Aeronáutica para só depois alçar voos maiores.
Aos dezoito, ele não conseguiu evitar prestar o serviço militar mesmo com a sua vaga universitária garantida pela excelente nota no vestibular. Seu capacete natural virou assunto no meio e até o Ministro da Defesa quis conhecê-lo. Nesse dia, o homem prometeu para ele regalias e mais regalias por causa de seu talento nato para resistir bem a grande impactos.
Mas João era de fato muito cabeça dura, por isso largou sua vaga na instituição de ensino superior da aeronáutica e foi estudar artes cênicas para atuar em filmes de guerra hollywoodianos. Esse sim, seu grande sonho.
Ontem encontrei uma outra Thaís Campolina numa sala só de Thaíses. A ocasião que nos uniu foi uma prova de concurso. Eu sabia que havia outras que dividiam comigo o mesmo prenome e pelo menos um dos meus sobrenomes, mas eu nunca antes tinha ficado cara a cara com uma outra Thaís Campolina.
Antes de entrar na sala, um funcionário da banca perguntou meu nome e foi conferir meus documentos. Descobrimos juntos a existência da Outra. Ela já estava sentada em alguma das carteiras próximas a reservada para mim.
Eu era só perguntas. Nenhuma sobre Direito Administrativo dessa vez. Queria saber tudo da Outra. Sentar frente a frente e iniciar um interrogatório longo sobre ela, sobre nós. Eu precisava nos diferenciar, mas também queria conversar sobre a curiosa experiência de ter um sobrenome que também nomeia uma raça de cavalos e a coincidência desse encontro de prenomes e sobrenomes naquela sala.
Nessa estranha entrevista, eu perguntaria se os parentes dela também a zombavam ligando seus momentos de grosseria ao seu sobrenome e compartilharia umas histórias minhas sobre ser uma Campolina. Pediria para ela me contar toda sua vida em torno dessas letras que temos em comum e, antes de ir embora, avisaria que a próxima indagação seria estranha e diria: “Alguma vez você imaginou que sua família se originou de centauros poderosos que foram amaldiçoados a se tornarem humanos ou cavalos?”
Na hora de assinar meu nome na folha do gabarito, voltei a estranhar a situação. Com uma outra Thaís Campolina logo ao lado, me senti menos eu. Parte do nome que eu assinei, estava sendo assinado por outra pessoa naquele exato momento. O formato das letras com certeza seria diferente. As digitais e número do CPF, do RG e da inscrição também não seriam os mesmos, mas ainda assim a sensação era de ter me duplicado.
Todas sentadas ao meu redor compartilhavam um nome, sala e uma prova para o cargo de auxiliar administrativo. Fazíamos exatamente a mesma prova. Sem distinção de cadernos de cores ou ordenação diferente. Provavelmente eu não era a única ali que dividia um sobrenome com outra colega, mas não duvido que, entre essas, eu era a única impressionada com isso. As Silvas e as Souzas, por exemplo, já devem estar acostumadas.
Algumas das vinte e tantas Thaíses com certeza eram originais de Belo Horizonte, outras, como eu, não. Provavelmente a maioria nasceu e cresceu em Minas Gerais, seja capital, interior ou região metropolitana. Não sei. Pelo menos uma deve ter nascido bem longe daqui, talvez no Ceará ou no Pará, e vindo para cá criança ou já crescida, vai saber. Também deve ter uma canhota e umas outras duas que também amam escrever.
Um terço da lista de candidatas Thaíses, eu não veria o rosto naquele dia, já que elas se inscreveram, mas não foram fazer a prova. Eu via seus assentos vagos e pensava em todas as outras Thaíses que estavam fora daquele espaço delimitado e controlado. E, aterrorizada, refletia quantas dessas também eram Campolina. O que elas faziam? O que queriam? Seriam elas apenas humanas como eu, a Outra e todo o restante daquela sala ou seriam bem melhores como a Outra e todo mundo menos eu podem ser?
Fiz minha prova. A Outra também. Não houve nenhuma conexão entre nós. Ela seguiu inacessível para mim e eu para ela. Definitivamente, éramos duas, apesar de dividirmos partes essenciais de nossas identidades. Temos inúmeras características desconhecidas pela outra, às vezes até por nós mesmas. Características que podem, por sinal, ser comuns entre nós ou a outras pessoas que possuem outros nomes. O que me faz eu é mais do que o nome e sobrenome que dividimos, mas eu ainda não sei direito dizer o que exatamente me faz uma pessoa diferente da Outra ou de qualquer uma.
Quando me perguntam quem eu sou, eu digo meu nome. As Outras também. Me criei com esse nome que outras pessoas também têm. Sei, com toda a certeza que uma consulta em dados públicos pode me fornecer, que tenho até uma xará completa. Sim, há uma outra Thaís Campolina Martins, alguém que divide comigo todos os sobrenomes que tenho e nasceu em Contagem ou Betim, já não me lembro. Temos em nossas certidões um nome completo em comum que marca a origem de nossas famílias, mesmo elas não sendo as mesmas. Não há parentesco, apesar de dividirmos algo tão familiar. Somos diferentes, mas compartilhamos o nome, os sobrenomes e talvez até mesmo alguns apelidos. Tatá, Thaisinha, Thathu e Campolaine. Nossos números de identificação e muitas histórias diferem, mas gosto de pensar que ela, como boa mineira, também ama pão de queijo e vez ou outra é tomada pelo desejo de comer doce de leite.
Tomara que ela nunca seja ré de um processo que, por erro do judiciário, pode acabar por me condenar.
De repente ninguém mais morreu de tiro, faca, bomba ou porrada. Nenhuma pessoa conseguia entender como o índice de violência mundial chegou ao marco incrível de 0%, mas todo mundo sabia que algo tinha acontecido. Antes de dormir, naquele momento em que a solidão se torna quase concreta, não tinha uma só pessoa na Terra que não percebia que algo estava diferente dentro dela.
Ninguém sabia responder o que tinha causado isso e, inicialmente, as pessoas fingiam não querer entender, apesar do mundo ter se tornado outro em menos de um mês. Viviam como se nunca tivesse havido todo derramamento de sangue que a humanidade sempre conheceu e ignoravam os intensos anos de culto à violência que vigoraram até então.
Quando uma cientista descobriu que um som misterioso foi emitido da Antártida para todo o planeta horas antes do fim da violência, ela levantou a hipótese de reprogramação da mente humana e apareceu em todos os jornais. Só isso foi capaz de fazer as pessoas assumirem que queriam entender o que tornou a humanidade esse povo pacífico e, dias depois, diversas excursões de pesquisadores começaram a partir de todos os lugares do globo para explorarem o continente gelado.
Depois de quinze dias de busca, o grupo sul-africano encontrou uma base enorme destruída. Frente aos destroços, havia uma bandeira lilás intacta posicionada. Nela estava inscrita a frase “finalmente paz”.
Em “Alias Grace”, adaptação da Netflix do livro homônimo de Margaret Atwood, a personagem Grace Marks, sentenciada à prisão perpétua por ter assassinado seu patrão e a governanta da casa em que trabalhava, reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.
Tanto a minissérie roteirizada por Sarah Polley e dirigida por Mary Harron, quanto o livro de Margaret Atwood, são ficcionalizações de um caso de homicídio duplo que chocou o Canadá em 1843. Pouco se sabe sobre a Grace Marks real, mas “Alias Grace” parte dessa personagem para tensionar o que entendemos como feminilidade e assassinato e isso nos faz pensar sobre como o nosso olhar pode ser facilmente manipulado.
A curiosidade perante uma assassina mulher é tão diferente porque matar não parece ser algo muito feminino. A opressão de gênero que tanto aprisiona mulheres, incluindo as homicidas, parece nesses casos um disfarce perfeito e um provável fator que coloca certas vítimas como alvo delas.
Lady Killers, livro de Tori Telfer, dedica-se a trabalhar essa curiosidade por meio de pesquisa sobre mulheres que mataram mais de uma vez, mais de uma pessoa, em mais de um momento. Elas são as assassinas em série que pouco ouvimos falar ou que se tornaram personagens macabras, que tiveram suas histórias contadas como uma fantasia aterrorizante de luxúria e vaidade, como Elizabeth Báthory.
Quando a expressão “assassinos em série” aparece em uma leitura ou mesmo em um caso, a gente pensa em homens como agressores e mulheres como vítimas. Tirar a vida de alguém é um exercício de um poder absoluto que nossa cultura não consegue ver como algo que mulheres podem fazer. Isso colabora para que as seriais killers atuem por mais tempo e façam mais vítimas, já que não são vistas como suspeitas.
A curiosidade guia nossos olhares em ambos os gêneros. Queremos saber os porquês numa ânsia de tentar nos diferenciar dos que nos causam horror. Essa curiosidade atua com mais ferocidade quando as acusadas de matar são mulheres, mas o horror é visto como um atributo que acompanha melhor os homens assassinos. A frase da personagem Grace Marks é justamente sobre isso.
Há um estranhamento quando uma mulher é capaz de um ato tão vil como tirar a vida de muitos, apesar de estarmos inseridos numa cultura repleta de histórias lotadas de vilãs, bruxas más e madrastas cruéis. A vilania feminina para nós é ligada, principalmente, ao comportamento esperado das mulheres. O pressuposto de que mulheres devem ser recatadas, cuidadoras, mães dedicadas prevalece no imaginário social. As vilãs das histórias tem o efeito de mostrar quem não podemos ser, como não podemos agir. Quando a vilania feminina aparece na vida real no formato de seriais killers, o efeito que elas causam é tão incômodo, destoa tanto do ideal de mulher, que há um esforço coletivo e espontâneo de tratá-las como menos letais.
Tori Telfer destaca isso muito bem quando aborda o comportamento da mídia e da sociedade perante as assassinas pesquisadas. Nannie Doss, por exemplo, que confessou ter matado quatro maridos envenenados, mas também foi acusada de matar outros familiares, incluindo crianças, foi tratada como uma mulher em busca do amor. Como se isso amenizasse o horror dos atos cometidos por ela. Nannie se tornou uma espécie de paródia de uma dona de casa romântica que deu muito errado por caber tão bem no ideal de feminilidade da época.
As histórias das seriais killers são contadas pela autora de uma forma que evidencia a diferença de tratamento social, especialmente punitivo, entre elas. A classe sempre pesa muito, mas não só. Tillie Klimek, por exemplo, não teve a chance de escapar da prisão ou ter sua pena amenizada, como acontecia bastante em Chicago na época, por não ser considerada uma personagem atraente. Sim, a beleza, esse atributo colocado como tão importante para as mulheres, afeta até mesmo a maneira que olhamos para suspeitas de assassinato. É por causa do que é dito como feminino que tantas citadas nessa obra escaparam da pena de morte simplesmente por serem mulheres.
A pesquisa de Tori Telfer expõe como as visões estereotipadas torna assassinas personagens muitas vezes romantizadas, outras invisibilizadas. Elas existem, mas suas ações ainda são colocadas como algo fantástico, fora da curva. Mas será mesmo que seriais killers são tão raras assim ou elas escapam mais facilmente por agirem dentro do espaço colocado como feminino, o privado, e por estarem acima de qualquer suspeita?
Talvez, nossa cultura, ao ligar mulheres à vida, ao cuidado, ao amor, à ingenuidade, nos faça esquecer que a violência e a crueldade são, acima de tudo, uma questão humana. Sabemos muito bem como a masculinidade patriarcal molda homens para buscarem a dominância e violência, mas é uma surpresa conhecer histórias que mostram que mulheres também podem ter um lado sombrio e cruel mesmo sendo condicionadas a se comportarem de modo oposto.
A edição brasileira do livro, feita pela DarkSide e traduzida por Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana, conta com uma pesquisa extra que nos apresenta mais 14 seriais killers, incluindo nomes famosos como a da mulher que inspirou o filme Monster e uma espécie de glossário com obras sobre.
“Atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher” é um ditado popular que evidencia os papéis de gênero esperados pela sociedade, especialmente dentro do casamento.
O lugar do homem dentro da relação é o de protagonista, seus objetivos e sonhos estão sempre em primeiro plano, enquanto a mulher trabalha nos bastidores para que o homem atinja suas metas. O lugar da mulher nessa dinâmica é o de complemento do homem. Os sonhos e objetivos dela são deixados de lado e não são vistos como importantes.
A ideologia machista afirma que homens e mulheres se complementam e usa esse argumento para perpetuar a divisão sexual do trabalho e a submissão feminina. A capacidade reprodutiva feminina é colocada como um destino biológico que serve como justificativa para que o que eles chamam de complementação seja apenas subserviência a um único projeto de vida, o masculino. Esse caminho é colocado como natural porque em nossa cultura os homens são vistos como os detentores das ferramentas, talentos e habilidades necessárias para buscar um sucesso que não seja o de cuidado da casa e dos filhos.
“A esposa” é um filme impactante porque foca na mulher que foi colocada nesse lugar e expõe as ações que um dia a levaram a acreditar que esse era o melhor caminho possível e o seu arrependimento posterior.
Joan (Glenn Close), apesar de lidar com uma frustração crescente relacionada com o sacrifício que fez, se incomoda com o rótulo de vítima, porque entende que foi levada a optar por esse caminho devido a todo o contexto de exclusão, discriminação e oportunidades diferentes relacionadas com homens, mulheres e a visão de como um relacionamento deve ser.
A visão do mercado editorial sobre a escrita feminina, as expectativas pré-existentes do que é um relacionamento de sucesso, o destino feminino padrão, a energia e o enfrentamento necessários para lidar com escolhas que fugissem do que era esperado e a manipulação de Joe são alguns dos pontos que a fizeram sacrificar seus sonhos em função de trabalhar pelos dele. Por Joan ser capaz de racionalizar alguns desses fatores contextuais, ela acredita que escolheu esse destino, que o que ela fez foi uma negociação a partir do que era possível ser alcançado por ela.
Cena de um flashback do filme com Joan e Jon jovens
Naturalização do machismo, violência psicológica e “escolhas”
“Quem é Joan e o que ela quer, pensa e sente?” é uma pergunta que ocorre desde a cena do telefonema que informa que Joe Castleman (Jonathan Pryce), seu marido, é o mais novo ganhador do Nobel de Literatura e ainda deixa dúvidas na última cena do filme.
Flashbacks ajudam a construir a imagem de Joan, de Joe e do mundo que os cercava desde jovens. Por meio desse recurso, a gente descobre que Joan escrevia, que Joe foi seu professor e que ela ouviu de uma mulher escritora que a carreira literária era um desafio praticamente impossível para mulheres.
Da dinâmica familiar, que inclui até mesmo os filhos do casal, até a organização do Prêmio Nobel que conta com uma funcionária responsável por cuidar das esposas dos laureados, o lugar da mulher é o de acessório. A exposição de cenas relacionadas a esses dois fatores argumentam contra a imagem de não vítima que Joan se apega e nos dão pistas essenciais para entender quem Joan foi, quem ela se tornou e o processo que está vivendo.
Ser laureado com o Prêmio Nobel é um dos maiores reconhecimentos que existem. Escritores, personalidades políticas e cientistas sabem que esse é o topo máximo de diversas carreiras. Ser declarado vencedor pela Academia Sueca é ser colocado em um pedestal de qualidade e relevância. Só que esse pedestal da intelectualidade mundial parece ser algo que só pode ser alcançado por homens brancos, como o filme mostra ao exibir detalhes da organização do evento e a gente entende muito bem por conhecer as estatísticas que apontam que as mulheres são uma minoria entre os premiados.
Fica evidente que qualquer mulher que surgir como ganhadora do Nobel será uma exceção, para muitos, uma intrusa. O lugar delas é o de esposas, de kingmakers, as que se sacrificam na vida privada para que a parte masculina do casal brilhe no espaço público.
A cerimônia do Nobel, foco do filme, se passa em 1992, com Joan e Joe já idosos, mas as espectadoras de hoje, mesmo com décadas separando suas vidas dos eventos do filme, percebem — e, de certo modo, ainda sentem — as engrenagens sociais que fizeram Joan tomar as decisões que tomou durante a vida.
O que torna “A esposa” um filme importante é o fato de que a história nos permite refletir sobre acontecimentos que vemos como naturais e não o são e como isso impacta nosso cotidiano sem prêmio Nobel por perto.
A naturalização da violência psicológica e do machismo são fatores que fazem com que alguns espectadores e até mesmo a personagem tenham dificuldade de entender que o relacionamento exposto no filme é abusivo. Como não há presença de violência física e o casal parece viver momentos de cumplicidade, muita gente entende que Joe e Joan vivem apenas um relacionamento com momentos ruins e ignora todo o resto. Esse resto inclui manipulação, a ideia de que o sacrifício feminino como mãe e esposa é algo a ser esperado por parte das mulheres e a concepção de que apoiar um marido é deixá-lo ser protagonista da vida do casal e aceitar suas traições dentro do relacionamento. Visões de mundo tão comuns que para muitos é preciso olhar duas vezes para que se perceba que poderia ser diferente.
Imagem de divulgação do filme — Joan um pouco atrás de Joe diz muito sobre a realidade das mulheres.
Indústria cinematográfica, machismo e o lugar da mulher
O machismo da indústria cinematográfica não é bem uma novidade. Filmes dirigidos por mulheres raramente são premiados, bem distribuídos ou patrocinados. Os papéis voltados para mulheres privilegiam mulheres jovens, brancas e dentro do padrão de beleza, enquanto homens mais velhos são colocados para contracenar com mulheres cada vez mais jovens e, por essa razão, as atrizes perdem espaço na carreira bem mais cedo que eles. Além disso, análises dos premiados pela Academia do Oscar como Melhor Filme dos últimos anos apontam que personagens femininos nesses filmes tem um tempo de fala bem inferior ao de personagens masculinos. Todas essas questões se relacionam com a visão de que o espaço público, o sucesso, as carreiras importantes, são de protagonismo deles. Para as mulheres, o destino é ser coadjuvante, fazer casal, enfeitar e se dedicar aos cuidados de sua família.
Nos roteiros e bastidores dos filmes e também na vida real, a lógica vigente ainda é a que empurrou Joan para o sacrifício de sua subjetividade. Perceber isso é um passo para que essa realidade mude e esse debate, junto com a atuação impecável de Glenn Close, torna “A esposa” um filme necessário.
Dirigido por Nadine Labaki, “Cafarnaum” conta a história de Zain, um menino de cerca de 12 anos que vive em Beirute em situação de pobreza e negligência e faz de tudo um pouco para conseguir sobreviver.
Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes e considerado um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro junto com “Roma” e “Guerra Fria”, a obra aborda miséria e alteridade e também discute questões como maternidade, família, ausência do Estado, justiça, tráfico humano, imigração e até mesmo gênero.
Com “Cafarnaum”, a diretora Nadine Labaki, de origem libanesa, se torna a primeira mulher árabe a concorrer a estatueta na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, como diretora de uma obra com fotografia com ares documentais e atores não profissionais. Além da direção, Nadine faz uma ponta como uma personagem de pequena participação e é uma das pessoas que assinam o roteiro.
O menino quase homem
Quando Sahar (Haita ‘Cedra’ Izzam), irmã de Zain (Zain Al Rafeea), é vendida para se casar em troca de algumas galinhas — fato que o menino já sabia ser provável e por isso fez de tudo para esconder a menarca da irmã dos pais -, ele foge e passa a viver sozinho nas ruas da cidade. Mas mesmo antes de fugir de casa, o garoto, ainda tão novo, se vê obrigado a assumir diversas responsabilidades que se relacionam com a sua própria sobrevivência e dos seus. O cuidado com o futuro da irmã é uma amostra disso e a sua preocupação com o bem-estar do outro continua também na segunda parte do filme, apesar de seus pequenos delitos.
Zain assume esse papel, mas ainda é uma criança, brinca com armas de madeira na rua com um bando de meninos, quer ver desenho na televisão que não tem e ao fugir escolhe descer do ônibus em frente a um parque de diversão decadente. Essa decisão acontece após uma conversa com um velho fantasiado de Homem-Barata que sentou ao seu lado. Sua adultez precoce, presente durante todo o filme, contrasta com esse lado infantil que parece ter sido proibido pela realidade de se manifestar, mas ainda assim se apresenta em algumas situações.
O contraste entre o Zain que furta, trafica remédios, fala vários palavrões, xinga e brinca de armas de madeira com Sahar e Jonas, personagens da segunda fase do filme, nos ajuda a ver o quanto ele, sua família, Tigest e outros personagens vivem uma rotina violenta que os transforma. Sobreviver ali é se colocar como mais forte e a adultez e o comportamento agressivo do garoto se relacionam com o que se espera de um pequeno homem e também com a forma que as relações dele com os pais e com o mundo foram construídas.
Mães, pais e irmã: feminilidade e masculinidade em meio ao caos
Sahar, a mãe de Zain, e Tigest, mãe de Jonas, representam o destino feminino nesse contexto. Sahar vivia se esquivando sozinha — e também com a ajuda do irmão — da violência de gênero e das tentativas de exploração de seu corpo. Mesmo assim, acaba vendida para um homem mais velho em troca de galinhas. A mãe de Zain e Tigest dividem o peso da maternidade quando se tem pouco o suficiente até para a própria família. Uma, apesar de aceitar que a procriação é parte da vida, não consegue dar amor e o mínimo de dignidade para os seus vários filhos e em diversos momentos os trata como nada. A outra faz de tudo para conseguir alimentar seu bebê, dar amor e lida com um pai completamente ausente e um homem que tenta comprar seu filho.
O pai de Zain e Sahar é mais violento que a mãe e parece saber se comunicar apenas dessa forma. A mãe é quem intermedia a comunicação das crianças com ele em diversos momentos. Zain tinha tudo para ser como ele ou mesmo como sua mãe, mas com sua lucidez — ou seria ingenuidade? — infantil busca ser diferente por não ver sentido em viver como seus pais vivem. Essa busca não é consciente, é apenas uma procura por um destino que seja distinto daquele que apresenta como o único possível e ele não quer aceitar como seu.
Zain julga seus pais, especialmente sua mãe, por seu nascimento e vida, mas as cenas no tribunal, na prisão e os planos aéreos que mostram a cidade evidenciam o quanto o problema é mais profundo que isso. A negligência que o atormenta não é uma questão individual ou que se relaciona somente com sua família, é parte e consequência de um todo.
O todo
O filme apresenta os inúmeros problemas sociais que se emaranham e criam um ciclo de abandono que parece não ter fim. A miséria é mais do que a simples falta de dinheiro e oportunidade e a obra de Nadine Labaki evidencia que não há soluções e nem julgamentos fáceis. Combater a pobreza envolve lidar com muito mais questões do que se imagina. Por exemplo, gênero.
A opressão feminina foi abordada pela libanesa em seu primeiro longa, “Caramelo”, e também em “E agora, aonde vamos?”, seu segundo trabalho. “Cafarnaum”, ao levantar esse tema mesmo que de forma indireta, mostra um interesse da diretora em expor as adversidades relacionadas ao ser mulher e também nos permite conectar pontos e entender que o caos exposto na narrativa é parte de um todo de opressões e violências que interagem entre si.
O fim (contém spoiler)
O filme termina com Zain sendo fotografado para fazer a sua identidade e, provocado pelo fotógrafo, ele sorri. Ele, agora, ao menos existe para o sistema. Uma vitória quase insignificante para a sua jornada, mas que ainda assim parece ser um novo começo ao olhar dele. Um fator novo que pode fazer a vida dele ser diferente do que sempre se desenhou.
Nadina Labaki dirigindo Zain Al Rafeea
Essa crítica foi originalmente publicada no Delirium Nerd, site colaborativo escrito por mulheres que trabalha com textos sobre comportamento, representação feminina e cultura, com destaque ao que é produzido por mulheres.
No primeiro dia da legislatura dos deputados federais, Márcio Labre (PSL-RJ), um estreante, propôs um projeto de lei que dispõe sobre a proibição do comércio, propaganda, distribuição e implantação pela Rede Pública de Saúde de micropílulas, pílulas do dia seguinte, implantes anticoncepcionais e DIU com a justificativa de que tais produtos são abortivos*.
A atitude de Márcio Labre é parte de uma ofensiva conservadora que encontra no legislativo um terreno fértil para prosperar. Ele agora se soma a um grupo expressivo de deputados que usam a bandeira anti-aborto para promover seus ideais de mulher e religião com um projeto que consegue ser ainda mais agressivo que os famigerados Estatuto do Nascituro e a PEC 181/15, conhecida como “Cavalo de Troia das Mulheres”. O deputado, ao tentar proibir o acesso a contraceptivos, leva ao extremo a bandeira do controle do corpo das mulheres. A criminalização do aborto não é o suficiente, Márcio quer restringir ainda mais a autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade com uma limitação absurda relacionada a qual método contraceptivo elas poderão escolher usar. Com o PL 216/2019, o parlamentar busca dificultar que mulheres detenham o poder de tentar evitar uma gravidez de forma ativa.
A camisinha não é um dos itens listados por ele, mas seu uso costuma estar atrelado a uma cooperação masculina. Apesar da camisinha ser o contraceptivo mais indicado, já que também protege contra as doenças sexualmente transmissíveis, seu uso sofre resistência por parte de homens, principalmente dentro de relacionamentos, o que torna os contraceptivos como a pílula do dia seguinte e o DIU essenciais para que mulheres possam ter um controle maior sobre seus corpos e possíveis gravidezes. O anticoncepcional padrão também não foi listado pelo autor do projeto, porque ele não o considera “micro abortivo”, mas as restrições elencadas no PL já impactariam bastante os direitos sexuais e reprodutivos de quem possui útero e capacidade de engravidar. A escolha feminina de como se prevenir de uma gravidez seria muito afetada, principalmente das mulheres que não podem utilizar o anticoncepcional padrão por causa do risco de trombose e outras doenças.
A maioria dos projetos de lei e emendas constitucionais nesse viés buscam dificultar ou mesmo proibir o aborto nos casos legais (estupro, risco de morte e anencefalia). Com Labre não foi diferente. Além do projeto que tem vários contraceptivos como alvo, ele também propôs o PL 260/2019, que diz em seu primeiro artigo que:
“ É proibido o aborto de fetos humanos, pelas próprias gestantes ou por ação de terceiros, em qualquer hipótese, independentemente do estágio da gravidez ou do tempo de vida do nascituro, admitida somente, por única exceção, a possibilidade de abortar quando a continuação da gravidez trouxer comprovação e inequívoco risco de vida para a gestante.”
No primeiro dia de legislatura, o estreante do PSL deixou claro que a mulher, para ele, é um mero receptáculo ao se colocar contra o aborto em caso de gestação fruto de estupro e buscar a proibição da pílula do dia seguinte, medicamento não abortivo, que impacta diretamente na garantia legal de amparo médico e psicológico para vítimas de estupro. Entre outras coisas, a lei 12.845/13** prevê a pílula do dia seguinte como parte do atendimento de vítimas de violência sexual com o objetivo de evitar que haja gravidez e a pessoa tenha que passar pela decisão de abortar ou não.
Os projetos de lei do parlamentar, caso sejam aprovados, buscam impor a gravidez indesejada e fruto de estupro a todo custo. Nem mesmo a profilaxia de gravidez seria um direito. Com isso, o direito do estuprador de se reproduzir estará acima da integridade e vida da vítima. Márcio quer fazer de tudo para obrigar mulheres a gestarem, independente se foi estupro ou não.
O controle do corpo da mulher e a caça de seus direitos reprodutivos é parte essencial de qualquer projeto de governo que tenha como base a religião, os bons costumes, o conservadorismo e o autoritarismo. A ficção nos mostra isso: “O conto de Aia”, escrito por Margaret Atwood, por exemplo, é uma história sobre um regime autoritário que se baseia e se sustenta no controle dos corpos femininos.
Isso se dá não só porque alguns acreditam que fazem o bem com suas posturas “pró-nascimento” e misóginas, mas porque atacar as liberdades femininas é sempre um caminho mais fácil para quem quer manter e ampliar seu poder. O machismo do mundo de hoje ainda clama por qualquer coisa que busque controlar as mulheres. Políticos interessados em popularidade e polêmica usam essas pautas, principalmente as que tem mais apelo como o aborto, para se colocarem como paladinos da justiça e se afirmarem perante a sociedade. Com base nisso, podem, por exemplo, justificar inércias, omissões, corrupções e votos contra o povo com o argumento de que o foco precisa ser pautas como essas.
Restringir a autonomia das mulheres é bandeira vista como necessária por uma parcela de pessoas, especialmente homens cis, que se definem como capazes a partir dessa ideia de que a mulher existe para complementar os homens. Concepção que serve como base para toda a divisão sexual do trabalho.
Os apoiadores de homens como Márcio Labre encaram esse tipo de projeto político como a chance deles voltarem a terem empregos bacanas, conseguirem sustentar uma casa, serem detentores de um pátrio poder que atinge mulheres e filhos. Eles querem o controle estatal para garantir que eles a obediência e submissão de mulheres e crianças.
O controle da capacidade reprodutiva feminina, por mais que seja pintado apenas como uma pauta moral, está relacionado com economia, emprego, mão de obra e é uma bandeira que faz tanto sucesso porque promete manter certos privilégios. O desejo de domínio do capital reprodutivo se dá por causa da necessidade de haver reprodução e cuidado da prole para manter certas estruturas, inclusive econômicas. A reprodução é tratada como algo além do desejo individual da mulher, ela tem uma função numa sociedade como a nossa. A transmissão da propriedade, por exemplo, se relaciona com filhos e esposo.
Quem defende isso vê o passado como meta a ser buscada. A bancada da Bíblia — e também da Bala e do Boi — usam a frustração com o presente e definições culturais da função de homens, mulheres, brancos, negros, indígenas, terra e propriedade, para conquistar votos e poder. Eles contam com os ressentidos com o avanço de pautas feministas para encher os bolsos.
O projeto de lei do deputado conservador da vez é um elemento de uma ofensiva que busca determinar que cabe às mulheres a função primordial de parir, cuidar, satisfazer e aos homens todo o resto. Esse resto, como tarefa masculina, é melhor pago, tem status profissional, trabalho formal, enquanto o que a mulher faz é vocação, destino biológico, milagre, bondade, sacrifício ou mesmo redenção de uma vida de pecados próprios ou de Eva ou Lilith.
Com grande parte do Legislativo e do Executivo combinados em promover um projeto político de promoção de desigualdade entre homens e mulheres, pautas como a disparidades salarial, desemprego e dificuldade para retornar ao mercado de trabalho após ter filhos, falta de creches públicas, e, principalmente, a tripla jornada de trabalho seguirão sendo colocadas como pouco importantes, apesar de serem tão significativas. A maternidade precisa ser obrigatória e carregada de sacrifícios e perda de autonomia para esses que dizem defender tanto a família.
O Brasil caminha a passos largos para se tornar um país teocrático e essa trajetória conservadora é uma busca pela manutenção de um status quo e de um poder que tem sua expansão como algo naturalmente autoritário. A consequência do avanço de pautas como essa é ainda mais mortes de mulheres na clandestinidade. O projeto político que ganha cada vez mais voz no país negligencia a vida, a saúde, a autonomia e a subjetividade de mulheres. A maternidade não pode ser compulsória.
*Micropílulas, DIU, implantes anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte não são abortivas. Sendo a última vítima de ataques anticiência rotineiros, apesar desse medicamento apenas adiar a ovulação e evitar que o útero se prepare para receber um óvulo fecundado.
**Há várias pessoas no Congresso Nacional e fora dele que defendem que a pílula do dia seguinte é abortiva e querem impedir o uso dela. Magno Malta, Eduardo Cunha, Pastor Eurico, Pastor Marco Feliciano, Bolsonaro e outros defendem a revogação da lei 12.845/13, a lei que garante atendimento médico e psicológico para vítimas de estupro, com base nesse argumento. Ou seja, caso o PL 6055/13 passe, não há chance de veto.
*** Esse controle tanto falado em todo o texto é motivado pela busca pelo domínio do capital reprodutivo.
A resolução apresenta perigo por colocar os corpos das mulheres grávidas como tuteláveis e justificar isso usando o feto, como se a mulher que gera fosse uma mera incubadora, e assim abre precedente para violência obstétrica “justificada”. Saiba mais aqui.
Em agosto e setembro de 2020 um caso de aborto legal de criança gestante por estupro se tornou emblemático e foi manipulado e atacado pelo governo, com direito a posterior edição de portaria para restringir o direito ao aborto legal na prática. Mais sobre aqui.
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