A casa cheira a desinfetante. O cheiro é tão forte e a sala está tão organizada que nem dá para imaginar que ontem Flávio ainda engordurava as paredes, os azulejos e os demais móveis com suas mãos sujas de frango assado e cerveja, enquanto eu cozinhava e servia seus amigos.
O segredo para um chão tão limpo envolve mais que hábito e uma lista de produtos e marcas, abrange também ter uma motivação que torne aquilo uma tarefa que você faça com prazer. Tornar esse espaço um novo lar é o que me incentiva agora.
Daqui uns dias as coisas estarão fora do lugar e a casa vai aparentar ser habitada de novo, dessa vez só por mim, esposa desesperada pela volta do amado, e todo mundo, inclusive eu, vai descobrir que Flávio foi encontrado morto dentro de seu carro no extremo oposto da cidade após 30 horas de busca.
Vão me trazer a notícia em casa e eu vou pedir para sentar, fazer a policial me trazer um copo de água com açúcar e, aos prantos, contar mais uma vez que me sinto culpada, porque ele saiu bêbado atrás dos amigos após uma breve discussão comigo.
Arrasada, vou dizer que eu não consigo imaginar alguém que quisesse matá-lo. “Ele ficava meio valentão quando bebia, deve ter caçado briga com quem não devia”, eu direi, enquanto deixo as marcas do meu pescoço falarem por si mesmas.
“Até que a morte nos separe” foi a frase que finalizou os votos do meu casamento. Eu queria tirar esse trecho, por achá-lo mórbido, mas Renan fez questão de mantê-lo. “O que Deus uniu só acaba quando Ele quiser”, disse o homem que um dia amei com a anuência de um padre.
A morte veio nos separar anos depois. Renan morreu após comer camarões salteados na manteiga. Esse prato foi o que dividimos quando nos conhecemos. Nessa época, eu ainda podia me esbaldar. Em camarão ou em qualquer outra coisa. Depois, passei a ter uma alergia severa desse alimento e uma vida restrita a dois quartos, um banheiro e uma cozinha.
Renan me obrigava a preparar essa iguaria e isso era só mais uma das coisas que ele me forçava a fazer. O camarão salteado na manteiga não era um prato que ele consumia por romantismo e nostalgia, era somente parte de mais uma de suas ameaças. Enquanto comia, ele dizia: “Se eu quiser, te faço engolir esse pedaço, vadia”, e eu pensava que, um dia, ele terminaria sua refeição me vendo estrebuchar na sala de jantar até morrer.
Quando ele caiu morto, logo após o almoço, sorri pela primeira vez em anos. Não achei que esse dia chegaria. Pelo menos, não dessa forma. A morte sempre cercou nosso casamento e tudo indicava que eu iria primeiro e pelas mãos do meu então marido. Mas, entre nós, fui eu que sobrevivi. O que Deus uniu, eu separei com vidro triturado.
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“Trinta ovos graúdos por dez reais” disse uma voz grave, rouca e mecânica. Me interessei, mas não parei por saber que teria que voltar para casa se comprasse algo e assim a caminhada acabaria ficando para outro dia.
Não dei nem três passos e ouvi “Temos batata, cebola, alho e manjericão”. “É, dá pra evitar uma ida ao supermercado”, pensei e fui procurar o carro de som. Não havia nenhum. “Maracujá baratinho”, a voz dizia enquanto eu andava pelo quarteirão sem achar qualquer estabelecimento aberto. Fui, então, atrás de alguma barraquinha, ambulante, ou qualquer coisa do tipo e não encontrei nem feirinha e nem vestígio de um homem com um megafone.
A voz agora anunciava batata baroa, ovos de codorna e tomatinhos por um preço nunca antes visto, mas eu já não queria mais saber. Segui o meu caminho, mas mesmo depois de três quarteirões, eu ainda ouvia o anúncio das promoções. E, de novo, não havia nada que indicasse de onde vinha o som ou onde estava a comida.
Tem quem comece a ouvir zumbidos um dia e passe a escutar esses sons o resto da vida. “Será esse o meu caso?”, cogitei enquanto refletia se os preço dos ovos nesses anúncios mentais continuaria o mesmo ou se modificaria por causa da inflação.
Corri para fugir desse pesadelo e, ao chegar na porta de casa, finalmente deixei de ouvir que as bananas pratas estavam no ponto.
Nunca vi seu rosto, Maria Luísa, mas te conheci através de um livro da portuguesa Isabela Figueiredo. Por isso sei sobre seus pais, sua relação com David, sua amizade com Tonya, suas boas notas durante a escola, e também sobre seus peitos, sua barriga, suas dobras e seus desejos.
Posso dizer até que conheço sua casa sem nunca ter pisado nela. Sei, por exemplo, das plantas e móveis que sua mãe trouxe com ela de Moçambique e da sala de jantar que permanece fechada à espera de visitas.
Por tudo isso, sinto que somos íntimas, Maria Luísa. Conheço até mesmo suas contradições e pensamentos secretos, mas você não sabe nem meu nome. É estranho, tenho que confessar. Acho que preciso apresentar eu e meu corpo para você.
Sou Thaís e só fui gorda no único período de tempo em que ser assim é considerado bom em nossa cultura. Dizem que fui um bebê rechonchudo, com dobrinhas nas pernas que davam vontade de morder.
Desse tempo até agora, aos 28 anos anos, cresci muito pouco. Fiquei pequena, bem pequena mesmo, e tenho um corpo magro, mas não bonito o suficiente para os padrões, e ouço dos outros que não posso engordar, às vezes até que preciso emagrecer. Não como você ouviu durante toda a vida, claro. Sei que é muito diferente. No meu caso, eles falam de gordura, peso, curvas como um alerta, uma ameaça. Eles me mostram mulheres como você e dizem “você não quer ficar assim, quer?”.
Não falo isso por mal, Maria Luísa. Li a história do seu corpo e toda sua relação com ele e por isso sei que esse é o lugar que a sociedade insistiu em te colocar por tantos anos. Quero te mostrar que te entendi, que acompanhei sua dor página por página e que por causa de suas palavras conheci melhor o que significa ser gorda nesse mundo. É algo muito além da pressão para estar dentro do padrão de beleza. Eu até sabia disso antes, mas agora sei mais.
Para a maioria das pessoas, antes de você ser Maria Luísa, mulher, professora, ou qualquer outra coisa, você é gorda. Nesse mundo nosso, o corpo, especialmente o feminino, é um cartão de visitas. Por isso, ele se torna sua identidade perante os outros, quer você queira ou não, e a troça que fizeram de você fez você entender, logo bem cedo, que certos tipos físicos são vistos como errados e chegam até a afastar as pessoas. Sinto muito por isso. Durante a leitura de “A gorda”, obra em que você é a narradora-personagem, percebi as marcas e a dor que você carrega por conta da exclusão e da ameaça de solidão que sempre te acompanhou.
Nas páginas que me debrucei nos últimos dias, eu conheci uma mulher inteligente, interessante, que escreve, que se coloca, que ama cães, que cuida, que odeia, que sente, sente muito e tudo intensamente. Mergulhei em memórias e pensamentos e assim conheci uma personagem humana, marcante, que vive dilemas familiares, amorosos e profissionais que, pela via da empatia ou da identificação, cabem na vida de muitos nós.
Nunca vou esquecer suas palavras. Conheci muito de mim e do mundo ao me dedicar a ler a sua história. Obrigada por ter aberto a porta de sua casa para mim e para todos que pegam esse livro de capa avermelhada.
Peguei o livro “Garotas Mortas” e fui para a varanda da casa dos meus pais aproveitar o sol de inverno. Me sentei na sombra com os pés já sem meia e me posicionei para que eles pudessem se esquentar numa nesga de sol, ignorando completamente o diagnóstico de alergia à luz solar que carrego comigo desde a minha última visita ao médico.
Antes de começar a ler de fato, decidi aproveitar a grama e a luz da manhã e fazer uma foto do livro. Peguei um pano vermelho, minha bolsa e o pires com algumas rosquinhas que levei para petiscar durante a leitura e montei o cenário. Com a foto feita, voltei para o conforto de uma cadeira de plástico com almofadas improvisadas e iniciei a leitura. Só percebi que a foto tinha alguns elementos que lembram um altar horas depois.
Selva Almada introduz as histórias das três jovens mortas no interior da Argentina durante o final da década de 1980 através de memórias que partem da ocasião em que ouviu o assassinato de Andrea Danne ser noticiado na rádio. A jovem tinha 19 anos quando foi morta com uma punhalada no coração no quarto da casa em que dormia com sua família.
“Eu tinha treze anos e, naquela manhã, a notícia da garota morta me chegou com uma revelação”, Selva afirma, enquanto declara que foi esse caso que fez ela perceber que o horror podia viver sob o mesmo teto e que estar em casa não era uma garantia de proteção.
A partir desse ponto, ela tece uma rede que relaciona notícias de mulheres mortas e histórias de jovens violentadas com suas lembranças e reflexões sobre. Nessa teia, surge María Luisa Quevedo, que tinha 15 anos quando desapareceu e teve seu corpo encontrado dias depois com indícios de violência sexual e estrangulamento, e Sarita Mundín, que sumiu aos 20 anos e quase um ano depois encontram restos mortais que foram considerados dela.
Ao investigar as histórias de Andrea, María Luisa e Sarita, a autora nos apresenta outros casos e um pouco sobre as cidades em que os crimes aconteceram, o contexto histórico do país, como foi a cobertura midiática e a visão da cidade sobre os crimes numa investigação que é contada em um formato que foge bastante do jornalístico, apesar do flerte com o formato. No fim, o entrelace de tudo que é apresentado é a presença da misoginia.
A história das garotas mortas são próximas, comuns, e repletas de situações que muitas mulheres vivem ou já viveram, especialmente aquelas que vivem em condições mais vulneráveis. A naturalização de certos comportamentos que envolvem machismo é exposta e a impunidade dos crimes é escancarada.
A rede de incidentes que Selva monta na obra se complementa com os crimes motivados por misoginia que são lembrados pelo leitor. No meu caso, enquanto leitora e mulher, também somei a essa fórmula o meu medo.
Uma das memórias que surgiram durante a leitura envolve um caso que aconteceu em meados de 2010, mais de 20 anos após os crimes tratados pela obra. Apesar do tempo que separa esses eventos, ambos se relacionam por serem feminicídios.
Eu fazia estágio numa vara cívil no fórum da minha cidade natal, um município de 200 mil habitantes, e uma mulher foi assassinada pelo ex-namorado no prédio em frente. Da janela, eu vi a polícia correr atrás de um homem sem imaginar qual crime tinha sido cometido. Depois, acompanhei o caso ser tratado como crime passional e alguns dizerem que o homem que desferiu nove facadas contra uma mulher o fez somente por ter usado drogas no dia.
Nessa época, poucos relacionavam crimes como esse ao machismo. A nomenclatura feminicídio já era conhecida por mim, mas não era utilizada pela mídia. Crime passional era a expressão empregada, enquanto as pessoas fofocavam sobre o que a moça fez de errado para ter esse fim.
O feminicida alegou como defesa o uso de drogas e o fato de que a ex-namorada tinha amigos sexuais e eu lembro de ouvir pessoas chocadas com o crime reagirem ao que ele alegava com um “mas também, hein? Isso é comportamento de mulher?”. Ele foi julgado, preso e recebeu uma pena alta, mas como em vários outros crimes contra mulheres, a revolta da população com a violência vinha acompanhada de poréns.
“Garotas mortas” é uma obra que provoca o leitor com uma narrativa curta, brutal e realista. Após a última página, a gente sente na boca um amargor por saber que a denúncia que Selva faz ainda é muito atual apesar de tratar de crimes que aconteceram há mais de trinta anos. Essa sensação é acompanhada da certeza de que é preciso desenterrar essas histórias e contá-las de forma que se exponha toda a misoginia que molda nossa sociedade.
Mulheres morrem por serem mulheres no interior da Argentina nos anos 80 e também hoje aqui no Brasil. De norte a sul, elas são mortas, estupradas, maltratadas, enquanto muitos ainda negam a influência do machismo nesses crimes e o quão sistêmica essas violências são. As denúncias precisam continuar até que, enfim, a realidade seja outra.
A pergunta que fica é: quais desaparecimentos importam?
Imagem de parte do kit press que recebi da Editora Leya — Acervo Pessoal — Adquira “A princesa salva a si mesma neste livro” aqui e “A bruxa não ai para a fogueira neste livro” aqui.
Ao falar da personagem principal da trilogia Jogos Vorazes, Amanda diz que a garota em chamas a inspirou a inflamar o mundo. Com poesias que tratam sobre cultura do estupro, críticas aos padrões de beleza, violência, opressão histórica e luta, a poeta tenta acender uma chama dentro de cada uma de suas leitoras.
A trajetória de princesa à rainha do primeiro livro é sobre descoberta, amadurecimento e resiliência. Nela, a escritora de New Jersey expôs sentimentos, experiências, perdas e as violências que passou. Ela partiu de si e atingiu diversas pessoas que viveram situações parecidas.
Compartilhar histórias, principalmente essas que comumente são jogadas para debaixo do tapete, como a Amanda e muitas outras fizeram, encoraja outras pessoas a falarem de acontecimentos semelhantes e a reconhecerem o que viveram.
Seja através de poesia, contos, crônicas, artigos ou mesmo hashtags como #MeToo, #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto, vozes, principalmente femininas, estão sendo amplificadas e o que elas dizem mostram ao mundo o quanto a violência e o machismo ainda é, infelizmente, parte da vida das mulheres.
Durante a leitura de a bruxa não vai para a fogueira neste livro é impossível não pensar nesse momento que vivemos. As mulheres descobriram que outras também passam e passaram por situações semelhantes às que elas vivenciaram e que isso não é por acaso. Há um sistema de dominação por trás de tantas coincidências.
Quando Amanda escreve sobre as mulheres que vieram antes de nós e foca, principalmente, nas bruxas queimadas em fogueiras, a gente se lembra que o sistema que abafa tantas vozes hoje fez o mesmo no passado.
A intertextualidade, muito presente no trabalho da autora, é usada também para nos fazer pensar em todo esse sistema. Obras e personagens ficcionais, como June, de O conto da Aia, são lembradas em poemas. Todos os nomes presentes dessa forma no livro se relacionam com resistência. Inclusive o de Emma Sulkowick, que não é uma escritora ou uma personagem ficcional, mas é lembrada por Amanda por ter carregado durante anos um colchão por todo o campus universitário como um protesto contra os estupros que acontecem nas universidades e como eles são tratados pelas instituições.
A performance feita por Emma recebeu o nome de “Carry that weight” e se relaciona com sua própria vivência. Ela sofreu um estupro, denunciou, o caso foi arquivado pela universidade e ela seguiu todo o curso sendo obrigada a conviver com quem a violentou. Ao andar com o colchão em que ela sofreu a violência pelo Campus, Emma compartilhou com o mundo sua história como um manifesto.
a bruxa não vai para a fogueira neste livro reúne muito do que descobrimos coletivamente nos últimos anos e convida quem lê para mudar esse sistema que segue vitimando mulheres por serem mulheres. A obra cita exemplos de força, como June e a ativista Emma, e pode ser lida como um manifesto poético. Nela, o fogo é colocado como a matéria-prima para a transformação. Ele representa a raiva, a luta e a resistência.
De princesa à bruxa. Que o futuro nos reserve uma transformação que mude a realidade das mulheres que vivem nesse mundo.
No dia 11/07/18, a Editora Leya promoveu um encontro com leitoras. Conversamos sobre muita coisa, entre elas, sobre a importância de poetas como Amanda Lovelace. Além do bate-papo entre editoras e leitoras, rolou também uma live com a autora de a princesa salva a si mesma neste livro e a bruxa não vai para a fogueira neste livro. O conteúdo é em inglês e está disponível no Facebook da editora. Confira a live aqui.
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Toda sexta tem trânsito, correria e gente desesperada para chegar logo em seu destino. Dá quatro horas da tarde e as ruas se tornam impraticáveis. É muita gente, é muito carro e todos os ônibus estão lotados.
Nessa última, o caos foi especial e começou até mais cedo. O Brasil tinha se classificado para as quartas da Copa do Mundo e jogaria contra a Bélgica às 15 horas. Às 12:35, uma mulher loira entrou no ônibus certa de que não havia risco de perder nem um minuto do jogo. A certeza logo passou.
Pela janela do ônibus, se via gente vestida de verde e amarelo e uma quantidade absurda de carros, ônibus e até mesmo caminhões parados. Alguns com bandeirinhas, mas a maioria sem. Trânsito igual a esse só em véspera de feriado prolongado e com chuva.
Logo os passageiros começaram a gritar para o motorista acelerar, e o homem, aflito, respondia que pra isso teria que passar em cima da carraiada toda. A trocadora tentou tranquilizar as pessoas ao seu redor e comentou sobre a possibilidade de ouvir o jogo pela rádio. Não adiantou nada. A essa altura, o que apertava mesmo era a fome. O receio maior não era mais perder algum lance e sim aparecer no churrasco da família bem naquela janela de tempo em que não há carne nenhuma na churrasqueira.
Para distrair, as pessoas começaram a organizar um bolão e tentar antever placares. Era gente demais e chutes considerados possíveis de menos, por isso o papo acabou se transformando em um bolão de quando o ônibus chegaria no bairro.
Uma mulher, vestida com uma blusa que falava em Hexa 2014, disse que chegaríamos no final do primeiro tempo e que teríamos tomado dois gols. O que foi a hipótese mais pessimista feita pelo grupo e a mais próxima do placar final. Um cara de terno e gravata estimou que chegaríamos aos vinte minutos e veríamos o primeiro gol do Brasil assim que sentássemos no sofá. Todos que acompanhavam esse blablabla vibraram com essa.
Uma jovem de tranças coloridas consultou um aplicativo no celular e afirmou categoricamente que em 25 minutos estaríamos na rua principal do bairro. Uma idosa, toda vestida de amarelo e com um semblante muito parecido com o do Canarinho Pistola, sentenciou contra a estimativa feita pelo Maps e veio com o papo de que o ônibus chegaria no ponto final bem na hora do hino nacional.
No fim das contas, ninguém acertou nem placar final e nem horário de chegada, mas todos viram o sonho do Hexa 2018 acabar com dois gols para a Bélgica ainda no primeiro tempo, sendo um deles gol contra. Quando o Brasil marcou um, a expectativa da virada preencheu corações, casas e bairros, mas toda essa esperança não foi capaz de evitar a desclassificação.
Ainda assim, as vuvuzelas tocaram, as pessoas comeram e mais cerveja foi colocada no congelador. Fora o meio horário e a temática verde & amarela, foi quase igual toda sexta-feira.
Descobri a Calamity Games através do financiamento coletivo dos jogos Metro e Merlin no Catarse. Ao ler sobre o projeto, notei que as pessoas por trás dele eram duas mulheres, Paula Soares e Marina Mattos. Não é todo dia que posso unir minha veia “valorize as minas” com meu hobbie preferido, por isso, aproveitei para fazer essa entrevista.
O que é a Calamity Games? Como surgiu? Qual a origem do nome?
A Calamity Games é uma editora de board games, localizada em Belo Horizonte, que publica jogos para o mercado nacional. Somos grandes amantes de board games e achamos que esse mercado seria um bom investimento. Nosso principal objetivo é fornecer aos nossos clientes o que gostaríamos de receber como consumidores.
As investidoras e empreendedoras da empresa são todas mulheres e procuramos uma inspiração feminina que nos representasse. Foi assim que chegamos à personagem da Calamity Jane, uma mulher pioneira e destemida da História do faroeste americano. Ela fez de tudo um pouco, foi generosa e desafiadora e achamos que seria uma boa representação nossa e para o que queremos fazer: causar calamidade no mercado.
Os jogos Metrô e Merlin estão no catarse numa campanha de financiamento coletivo flexível feita por vocês. Vocês podem falar um pouco sobre os jogos, a escolha pelo financiamento coletivo e as metas estendidas?
O Merlin foi um grande sucesso na feira Spiel de Essen (Alemanha) no ano passado e achamos que seria um ótimo jogo de peso para trazermos. É um jogo pra jogadores um pouco mais experientes, não necessariamente pela complexidade, mas pela quantidade de possibilidades de ações e estratégias. Apesar disso é um jogo para a família e pode ser jogado com crianças de até 10 anos.
O Metro, em contrapartida, é um jogo que foi renovado pela Queen cuja caixa básica já vem com 4 expansões. É um jogo bem leve e ideal para iniciantes. Você consegue explicar o jogo em 10 minutos e as partidas são curtas. Também é um jogo que comporta até 6 pessoas, enquanto a maioria dos jogos é para até 4 jogadores. Uma das expansões faz o jogo mudar completamente, e adiciona um grau de complexidade maior que os jogadores experientes vão gostar e os iniciantes podem começar a evoluir. As expansões também são combináveis o que cria muitas possibilidades de jogos.
Escolhemos o financiamento coletivo exatamente por sermos uma empresa iniciante. Achamos que com isso ganharíamos visibilidade, credibilidade oferecendo segurança aos nossos clientes, em comparação com uma pré-venda realizada diretamente no nosso site, por exemplo. Vendendo diretamente ao cliente também poderíamos oferecer preços melhores e atrair mais pessoas a experimentarem os jogos.
Como os jogos já estão prontos e não são protótipos, não podemos oferecer melhorias nas metas estendidas, por isso achamos uma boa oportunidade pra oferecer alguns acessórios e fidelizar nossos clientes.
E os próximos planos da Calamity Games? Dá pra adiantar alguma coisa?
Bem, ainda queremos manter o suspense sobre os lançamentos, principalmente porque só queremos anunciar quando estiver absolutamente certo que o jogo vem. De preferência, só faremos o anúncio quando já estiver em produção.
Temos uma parceria sólida com a Queen Games e pretendemos trazer o máximo de jogos deles possível. Mas também queremos trazer jogos de outras editoras menos conhecidas. Já temos um jogo de uma estreante holandesa, um jogo consagrado de uma editora americana e temos contato com uma editora indonésia. Achamos que os jogos são uma experiência cultural e queremos jogos bem variados e que façam uso de diferentes habilidades.
O jogos de tabuleiro agradam vocês por quais motivos?
Paula: Acho que pra mim é uma atividade de lazer, um hobbie, que promove a interação com pessoas reais, a competição de uma forma saudável e desenvolve habilidades e raciocínio de maneira divertida.
Marina: Os jogos de tabuleiro hoje em dia para mim são a minha maior conexão com os meus amigos no Brasil, o que faz essa atividade 10 vezes mais especial. Mas como a Paula disse, gosto da forma como eles são uma forma divertida de desenvolver o raciocínio e estratégia.
Quando vocês começaram a jogar? Teve algum jogo que funcionou como um divisor de águas?
Paula: Acho que jogos modernos comecei no início da década de 2000. A gente começou vendo programas de jogos na internet e importando o que dava. Acho que o divisor de águas não foi um jogo, mas quando começaram a surgir editoras fazendo versões nacionais dos jogos. Aí o acesso cresceu exponencialmente.
Marina: Eu comecei a jogar com a Paula e os nossos amigos! Eles me introduziram na jogatina e daí meu interesse foi crescendo dia após dia. Mas o jogo que me fez ver que eu gostava mesmo desse hobby foi o Catan que é pra mim o clássico dos clássicos.
Marina: Pra mim ainda é o Catan, pois é um jogo que agrada todo mundo e é bom para se aprender o que são os jogos modernos, afinal, não é à toa que está aí há muitos anos. Além disso, estou sempre aberta a testar os jogos infantis e sou apaixonada por jogos de zumbi.
Paula: Nossa, acho que meus favoritos vão sempre mudando. Um que me apaixonei recentemente foi o Alquimistas. É um jogo dedução com a temática de alquimia, que eu adoro. Você tem que descobrir a natureza das plantas usadas pras poções. Mas acho que Lords of Waterdeep é um do qual nunca canso.
Hoje há aplicativos de jogos muito conhecidos. De cabeça, me lembro do Ticket to Ride, Black Stories e Tsuro. Vocês gostam dessa alternativa?
Acho que aplicativos são bons para ajudar as pessoas a conhecerem os jogos. Falar de um jogo e jogar são coisas bem diferentes e nem sempre existe acesso ao jogo para uma partida de experiência. Então através do aplicativo você tem acesso à mecânica geral do jogo e pode ver se gosta ou não. Mas acho que a substituição do jogo analógico pelo virtual, mata metade do propósito dos jogos de tabuleiro. A ideia é realmente sair do virtual, jogar e interagir com pessoas de maneira física. Mover as peças, olhar a cara do adversário, rir, fazer piada. A experiência de um jogo analógico é muito mais completa.
Um dos jogos que estamos trazendo, o Metro, tem uma versão de aplicativo bem legal. Quem quiser conhecer, fica aí o convite.
Curtem jogos online?
Marina: Eu adoro jogar Playstation e jogo todo domingo online com um amigo. No momento estou jogando Life is Strange que é um jogo sobre uma estudante de fotografia que descobre possuir a habilidade de voltar no tempo em qualquer momento, fazendo com que cada escolha sua crie um efeito borboleta; uma premissa muito interessante.
Paula: Eu gosto de MMORPG. Joguei muito WOW. Mas sou uma jogadora casual, mesmo jogando há muito tempo. Gosto da história, do ambiente, das missões da exploração mais do que da construção de habilidades e tal.
Temos visto muitas mulheres reivindicando espaço nos jogos online e fazendo denúncias sobre assédio e machismo do meio. Essa reação das mulheres jogadoras se dá muito pelas discussões sobre esses temas terem ganhado o mundo, vocês acreditam que o machismo afeta também o mundo dos jogos de tabuleiro? Vocês acham que essas discussões também tem impactado positivamente a comunidade dos jogos analógicos?
Com certeza há muito machismo nos jogos de tabuleiro também. Existem algumas iniciativas muito legais no sentido de promover um espaço seguro para as mulheres jogarem como o Lady Lúdica, LudoGirls e BoardGame Girls que fazem eventos em que homens não são permitidos ou são minoria. Se esses eventos existem e permanecem é porque há uma necessidade de espaços onde as mulheres são protagonistas e não “acompanhantes”. É fácil ver atitudes machistas não só dos jogadores individuais, mas também de lojas e eventos.
Como uma empresa formada e comandada por mulheres achamos super válido essas iniciativas e temos a intenção de apoiar e participar assim que possível.
Com certeza essas iniciativas fomentam discussões. Já vi muitos homens espantados, sem entender a necessidade de um evento só de mulheres, ou mesmo criticando a iniciativa (o que só reforça a necessidade de um espaço seguro). Os eventos são para as mulheres, mas eles fazem os homens pararem e pensarem, ou até discutirem sobre o assunto. E a solução do machismo não é a segregação; é a conscientização.