Elza Soares: a mulher símbolo do século XX

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Poucas biografias são capazes de abordar a história de toda uma época ao contar a vida do biografado, o livro sobre a vida de Elza Soares é uma dessas poucas exceções. Zeca Camargo, ao compartilhar as histórias da cantora com o leitor, indiretamente fala sobre nascer, viver e envelhecer como mulher e negra no Brasil do século XX.

Elza lidou com a pobreza, com a discriminação e com a violência destinada ao seu corpo por ele ser o de uma mulher. Sua carreira, marcada pelo enorme talento e pela vontade de cantar, foi construída apesar dos obstáculos criados pelo racismo, machismo e miséria. Sua história, mesmo sendo a de uma estrela, expõe a batalha pela sobrevivência de muitos brasileiros da época.

Apesar de sua voz única, ela nunca conseguiu simplesmente seguir o curso de sua fama como vários artistas brancos. A cantora precisou lutar para se manter em evidência, o que fez sua trajetória ser caracterizada pela presença de altos e baixos. Alguns bem baixos mesmo, como a própria reconhece e evita comentar com detalhes.

A música para a Mulher do Fim do Mundo foi inicialmente uma paixão proibida e também um meio de colocar comida na mesa e garantir a sobrevivência dos filhos. Viver de música sendo uma mulher era lidar com um estigma daqueles. No imaginário social, as artistas, por terem uma vida pública, não eram vistas como bons exemplos de mulheres direitas e a figura delas era ligada muitas vezes à prostituição. Seu pai, sua mãe e nem o seu marido aprovavam que Elza seguisse esse caminho. Ainda assim, ela seguiu. Mesmo que de forma pouco linear.

A primeira aparição de Elza no mundo da música é relacionada a esse dilema. Ela se inscreveu para participar do show de calouros do programa de rádio do Ary Barroso sonhando principalmente não com o início de uma carreira musical, mas com o prêmio em dinheiro que aliviaria por uns dias a busca pelo sustento de sua família. A atração pela música a guiava, como uma espécie de desejo secreto, mas sua prioridade era, acima de tudo, sobreviver.

Quando Ary Barroso, num tom de provocação, perguntou o que Elza tinha ido fazer ali e de onde ela tinha vindo, ela respondeu: “Do planeta fome”. As risadas que surgiram na sua entrada no palco foram substituídas pelo silêncio. Ela cantou, ganhou o prêmio da noite e ouviu de Ary que de sua apresentação nascia uma estrela. A frase que iniciou a carreira da cantora impacta ainda hoje — e também incomoda — por expor uma ferida da sociedade brasileira.

A violência masculina marcou presença na vida de Elza. Ela se casou aos treze anos com um um jovem que tentou estuprá-la. Seu casamento foi arranjado por seu pai que, em defesa da honra da filha, obrigou o agressor a se unir a ela. Sua vida a dois com esse homem foi extremamente infeliz e violenta. Além disso, anos mais tarde, a cantora também viveu um relacionamento abusivo com Garrincha. O biógrafo nos apresenta essas memórias com cuidado e expõe como essas práticas eram ainda mais naturalizadas na época, inclusive sobre os olhos da própria vítima e seus familiares, pondo o leitor em contato com a maneira que essas dores ainda afetam a dona dessa história. A sutileza dessa abordagem é interessante para mostrar como a biografada vê o que passou, mas peca ao não trabalhar diretamente a questão social envolvida nessa fase da vida dela.

Se debruçar sobre as memórias de Elza, narradas e comentadas por Zeca Camargo, é encarar o mundo real e entrar em contato com sofrimentos, desigualdades, miséria, intensidade, transformações, conquistas e amor pela música. Ela buscou sempre viver a partir do que ela acreditava ser certo para ela e se tornou um símbolo de uma época por isso.

Elza surgiu quando muitas gravadoras se recusavam a trabalhar com artistas negros e as poucas que faziam isso acabavam investindo menos neles e pode viver para questionar isso e outras tantas coisas. Ela viveu as mudanças sociais do século XX em seu corpo e hoje canta músicas que mostram o quanto o mundo se modificou desde que ela nasceu. Ela transformou e foi transformada, como boa filha do período que representa. Hoje, já em outro século, mostra que na velhice ainda há tempo de se reinventar, curtir e cantar e é essa postura de abraçar as oscilações do tempo que a tornam um ícone agora.

Elza é um nome que nos faz pensar no que o Brasil foi, é e pode ser caso a gente consiga enfrentar os obstáculos que se colocam entre o presente e um futuro menos desigual.


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Mãe de planta

Imagem de uma matéria da Hypeness sobre a casa da norte-americana Summer Rayne Oakes

Meu apartamento era como qualquer outro até seis meses atrás. Cama, armários, geladeira, fogão, micro-ondas, um computador, uma tevê, mesa para quatro, filtro de barro, escrivaninha, uma estante, um sofá e acho que só. Isso me incomodava. Eu sentia que morar em um lugar sem identidade dizia algo muito grave sobre mim. Temia que alguém me visitasse e percebesse que eu era uma dessas pessoas que não sabia muito bem quem era e comentários sobre minha residência sem personalidade me tornassem uma espécie de pária no mundo dos autênticos.

Minha casa mostrava muito sobre quem eu era. Essa é a verdade. Por isso, me aborrecia tanto entrar pela sua porta e me deparar com aquele vazio que significava estar ainda em formação e, pior, nem saber fingir parecer diferente. Nessas horas, me esquecia que a questão não era só não saber para onde estava indo ou quem de fato eu era ou queria ser, mas, talvez principalmente, a realidade da minha conta bancária e a possibilidade de amanhã eu ter que estar em outro lugar. Não havia grana o suficiente para encomendar móveis ou decorar meu apartamento com produtos da Tokstok. Comportamentos decorativos que, por algum motivo, são considerados como um sinal inegável de autenticidade em nossos tempos.

Aflita e depois de ver um milhão fotos no Pinterest de casas incríveis cheias de plantinhas, vasinhos, estantes e poucos móveis, decidi adicionar mais vida ao espaço branco que chamava de lar e acabei comprando uma samambaia. Depois vieram os vasinhos de cactos. E, a partir disso, foi questão de tempo para meu pequeno apartamento se transformar numa selva particular.

Minha casa se tornou um refúgio da cidade grande para mim e point com carinha de moderno e sustentável para amigos e conhecidos. De um dia para o outro, a casa sem identidade se transformou em um local de encontro para aqueles que sentiam seu lado jardineiro, antes adormecido, pulsar.

Cuidava de cada vasinho com o amor que nunca fui capaz de dedicar a mim. Me esforçava para aprender o segredo das plantas e punha a mão na massa sem os nojinhos que me acompanharam durante toda a minha vida de garota urbana nascida e criada numa das maiores cidades do país.

Era tudo muito bonito, tranquilo, relaxante. Uma jornada de descoberta que eu estava adorando viver. Cheguei a arrumar um minhocário, aprendi produzir adubo com lixo orgânico e até decorar vasinhos de barro com tinta colorida, eu comecei a fazer. As plantas ficavam cada dia mais exuberantes e, num ataque de orgulho, me declarei mãe de planta para quem quisesse ouvir.

Apesar de ter postado esse anúncio no Instagram, no Facebook e no Twitter, foi em casa que senti que fui de fato ouvida. Um som agudo, muito agudo, e manhoso me acordou no dia seguinte ao meu testemunho antes mesmo de amanhecer. Era domingo e eu odiei com todas as forças a criança birrenta que algum vizinho arrumou até chegar na sala e perceber que minha Orquídea Dendrobium era quem emitia aquele som horrível. Quando dei por mim, ninava seu vasinho feito de barro cantando bem baixinho uma música sobre sementinhas.

Os gritos logo cessaram, mas ela seguia choramingando e eu não sabia o que fazer. Demorou, mas acabei me lembrando que no dia anterior tinha arrancado umas folhas velhas de seu tronquinho e decidi parar para observar melhor seu caule. As marcas dos cortes pareciam ter inflamado durante a noite. Quando passei o dedo para testar, ela voltou aos berros iniciais e eu corri para o Santo Google que me aconselhou a passar canela em pó nos cortes. Cicatrizante natural, sabe? Cuidada, ela se acalmou e voltou a se concentrar na fotossíntese.

Depois de ver o sol amanhecer com uma planta desesperada no colo, meu pijama estava todo sujo de suor, terra, canela e fluidos que eu não sabia de onde tinham saído. Cocô, xixi, seiva ou lágrima de orquídea? Aparentemente tudo isso e mais um pouco. Era impossível não pensar no quanto eu precisava de uma chuveirada.

Limpa novamente e conformada que ao menos essa novidade biológica sobre orquídeas não fedia muito e indicava que provavelmente eu não ia precisar mais me dedicar tanto ao minhocário, fui preparar meu café da manhã.

Chegando na cozinha, percebi que todas as plantas da casa tinham abandonado a passividade esperada delas e se moviam, conversavam e me encaravam. A orquídea foi a primeira a despertar desse sono vegetal, mas agora eu tinha que lidar com mais trinta seres vivos desesperados por diferentes tipos de atenção e cuidado.

Pinterest

Os Cactos, como bons adolescentes rebeldes, me ofendiam e gritavam como me odiavam quando eu chegava perto. As Samambaias queriam brincar comigo e tentavam me fazer tropeçar com rasteiras dadas pelos seus galhos delicados e riam descontroladamente toda vez que tentavam. A Palmeira-Ráfia me enchia o saco querendo que eu acariciasse suas folhas e a chamasse pelo seu nome científico. A Palmeira-Leque me pedia água o tempo todo. Toda hora vinha com um borrifa mais um pouquinho” e reclamava da Begônia que não parava de cantar. O Manjericão? Ai, ai, o Manjericão… Esse só sabia reclamar de ser comestível e pedir esterco de qualidade. Esse desgraçadinho só sossegou quando eu contei que o tal do esterco de qualidade é feito com bosta de um tanto de bicho que rumina pedacinhos de grama, plantinha, florzinha e até ervinha. Só depois de chocado com o ciclo da vida e o destino de seus parentes, ele se calou. Nem comento sobre a Comigo-Ninguém-Pode. Essa me testou de todas as maneiras possíveis e impossíveis provando que esse nomezinho dela diz muito sobre a realidade de seu temperamento. Uma hora cheguei a me pegar com uma tesoura de jardim pensando em dar um fim naquela chata! Só os Lírios ficaram na deles não por bom comportamento, deixo claro eles queriam me atingir me dando um gelo daqueles por puro ciúme.

Lá pelas dez, Rafael me enviou um áudio no Whatsapp me convidando para conhecer a casa que ele agora dividia com o namorado. O programa? Tomar um brunch caseiro e maravilhoso com tomatinho confit feito por eles. Mensagem que me deixou com água na boca, mas que só li porque minutos antes eu tinha tomado a iniciativa bem controversa de me trancar no banheiro e deixar o pau quebrar lá fora. Quando pensava onde eu ia arrumar uma babá para as plantas, a Palmeira-Ráfia, aproveitando de seu tamanho, olhou pela fechadura da porta e viu que eu estava só mexendo no celular sentada na privada e começou a gritar para as outras que a mamãe não gostava mais delas e todas passaram a chorar como a Orquídea chorou às cinco e pouco da manhã. Pelo menos já era um pouco mais tarde, o que diminuía drasticamente a chance de alguém reclamar da barulhada do meu apartamento para a síndica.

Um golpe baixo esse da Palmeira-Ráfia. Sair do banheiro foi difícil, eu sentia culpa, queria chorar, mas não podia dar esse gostinho para nenhuma daquelas coisinhas insuportáveis que eram piores que ervas daninhas, mas precisavam de cuidados que até então eu fazia sem reclamar. Elas me encararam com arrogância e mágoa e andar pelo corredor até a sala me lembrou os piores tempos de escola.

Fui obrigada a voltar a atender as necessidades de cada uma delas. Toda hora, uma coisa diferente. Era adubo, era corte, era passar canela em pó nos tronquinhos igual eu fiz com a Orquídea e causou ciúme no resto da trupe. Era troca de vaso, decoração das floreiras, carinho e muito ouvido aberto para conhecer as picuinhas delas. Elas também me acariciavam, me falavam palavras bonitas e faziam coisas engraçadinhas, o que piorava a culpa que eu sentia por não amá-las como eu achava que amava antes desse dia começar e elas se tornarem minhas filhas de verdade.

Exaustão se tornou meu nome, sobrenome e arroba no Twitter. Fui dormir quase uma da manhã e o sono era tanto que nem consegui mandar uma mensagem para minha mãe perguntando algumas coisinhas sobre jardim, cuidado e família.

Acordei cinco horas depois com o despertador berrando e com o pensamento fixo no desafio do dia: como eu iria passar dez horas fora de casa e deixar sozinhas trinta e uma plantas de todas as idades?

O silêncio dos outros cômodos me respondeu. Nunca precisei saber o que fazer nessa situação, porque elas tinham voltado ao estado vegetativo habitual.

Quando vi a sala com sua paz de sempre restaurada, ri pensando na esquisitice do pesadelo da vez até notar o quanto o chão, o sofá e a mesinha estavam cheios de terra, pedaços de folhas, caules, seiva e canela em pó. Nada estava no lugar!

De fato já era segunda-feira.


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“Temporada”: cotidiano, cidade e a descoberta da autonomia

Cena do filme

O filme brasileiro “Temporada”, dirigido e roteirizado por André Novais Oliveira, foi o grande premiado do Festival de Cinema de Brasília de 2018 e chegou ao mundo do streaming pela Netflix agora em abril de 2019. A obra é sobre o cotidiano nas cidades e aborda a realidade de uma maneira tocante e simples sem ignorar o peso de opressões.

Em mais uma excelente atuação, Grace Passô dá vida à personagem Juliana, uma mulher que se muda para Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) para assumir um cargo concursado de agente de combate à endemias. A partir dessa mudança, Juliana vê sua vida se transformar junto com seu novo cotidiano.

Do que é feita uma cidade?

O novo emprego da protagonista envolve circular a pé em um lugar totalmente novo, entrar na casa das pessoas, buscar focos de proliferação de mosquitos, escorpiões, abelhas e afins. Essa rotina nos apresenta a cidade como ela é: cheia de personagens diversos, óticas variadas, paisagens e também uma dose de simpatia, troca e diálogo.

A relação dela com seus colegas de trabalho se constrói a partir desse espaço dominado pelo cotidiano repleto de histórias, cafés na casa dos moradores visitados, humor e dificuldades financeiras.

Ela, pela sua função de cuidar da cidade e sua população, adentra espaços de intimidade, mexe nas tralhas das pessoas, lida com o conflito entre o público e o privado. Os colegas já experientes nesse trabalho, inicialmente, a guiam nisso e desde logo ensinam que esse cuidado que ela é obrigada a dar como profissional muitas vezes é retribuído voluntariamente.

A cidade em “Temporada” é abordada de uma maneira tocante por mostrar a construção das relações entre os agentes de combate à endemias e a população atendida. As fronteiras do público e do privado, ao serem diluídas, mostram, com delicadeza, a importância do banal na vida de cada um.

Autonomia, solidão e descoberta

Juliana é uma mulher casada, mas se muda para Contagem sozinha. Estar só em um lugar novo faz com que ela reflita sobre quem é, o que quer e o que teme. Ela, nesse contexto, entra em um processo de descoberta que envolve autonomia e identidade. Assim, a protagonista se permite reinventar a partir das novas experiências.

Há uma dualidade na trajetória de Juliana. Seu desenvolvimento como personagem perpassa tanto a solidão quanto a construção de novas relações. Ela percebe a importância de construir amizades, do apoio mútuo e da troca de companhia, mesmo que descompromissada, e descobre novas possibilidades diante disso.

Juliana, mulher negra (contém spoilers)

“Temporada” é, a primeira vista, sobre cotidiano, mas por meio dele trata também de questões como machismo, racismo e espaço urbano.

O abandono marital sofrido pela protagonista é uma amostra da realidade de muitas mulheres brasileiras, especialmente as negras. Sua solidão, que antes tinha um tempo certo para acabar, ganha um ar de permanência. Ela precisa se adaptar ao novo emprego, ao novo lar e agora também carrega essa mágoa, mas também uma possibilidade de recomeçar.

Toda essa situação junto a dificuldade de processá-la verbalmente faz a personagem buscar descobrir-se. Isso desemboca, quase sem querer, em um corte de cabelo significativo. Em uma ida ao centro de Belo Horizonte com um dos seus novos amigos, ela abandona as madeixas artificialmente lisas e assume o cabelo crespo. Mudança que serve para coroar essa trajetória de aceitação dessa nova Juliana e da nova vida que se desenha.

“Temporada” é sobre uma nova fase

Os diálogos naturais, com suas gírias e silêncios, junto das cenas quase poéticas com recortes das casas e da cidade constroem uma obra marcada pela sutileza e pela vontade de seguir a vida apesar dos pesares.

O dia a dia, muitas vezes encarado como um espaço temporal onde não aparenta ocorrer nada importante, é quando a vida acontece. A plasticidade dos destinos e de quem somos se desenrola, a maioria das vezes, na banalidade da vida real.


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Confira o trailer:

“As esportistas” e o lugar da mulher

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As Olimpíadas não tiveram nenhuma prova de ciclismo feminino até 1984*, sendo que em 1967 Beryl Burton quebrou o recorde de velocidade masculino da época. Demorou dois anos para um cara superá-la, mas, ainda assim, nos jogos olímpicos, as ciclistas não podiam estar.

Quando se observa a história do futebol feminino no Brasil, o machismo fica ainda mais evidente. A modalidade passou quase 40 anos proibida de ser praticada e ainda hoje sofre com uma estrutura precária, pouco incentivo e é alvo de comentários maldosos que partem da ideia de que essa não é uma atividade para mulheres. Só que a restrição das mulheres nos esportes é ainda mais complexa do que a gente imagina. Até em modalidades consideradas hoje “mais femininas”, como a patinação artística, houve luta das pioneiras para competir profissionalmente.

As práticas esportivas nos ensinam sobre coragem, disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer. Quando há uma evidente falta de incentivo — e até de acesso — para as mulheres nesse espaço, há uma restrição ao desenvolvimento pessoal delas.

Esportes ainda não são encarados como lugar de mulher. Eles só são socialmente incentivados se a prática for amadora e com a finalidade de manter as mulheres numa determinada estética. O corpo feminino deve ser apenas um objeto a ser visto e admirado, jamais ativo, forte, hábil. Os homens podem ser o que quiserem. Algumas modalidades, inclusive, sofrem com um certo estigma que é marcado por comentários como “se você continuar a praticar isso, seu corpo ficará horrível”. O levantamento de peso é o principal exemplo disso, mas até a natação vez ou outra se torna alvo.

As atletas são lembradas mais como musas, caso se encaixem no padrão de beleza, do que por testarem seus limites individuais de forma obstinada. Nos portais esportivos, principalmente fora do período das Olimpíadas, elas só aparecem no pé da página. A verdade é que, apesar de tantas conquistas, sejam elas medidas em medalhas ou pela abertura de caminhos para as mulheres, as atletas sofrem com uma invisibilidade tremenda e é por isso que o livro “As Esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky, é tão importante.

As biografias apresentadas por ele são centradas, principalmente, em pioneiras, sendo a maioria delas estadunidenses ou europeias. Na edição brasileira, houve um acréscimo de cinco perfis de atletas do país, entre elas Marta e Aída dos Santos. Além disso, há uma grande diversidade de modalidades. Tem motocross, skate, escalada, hóquei, tiro ao alvo e até boliche e corrida de trenó com cães.

A obra nos permite conhecer histórias de mulheres que se destacaram por suas habilidades esportivas, determinação e vontade. Elas quebraram recordes e barreiras de gênero e, muitas vezes, também de raça.

Por causa da segregação nos EUA e da luta pelos direitos civis, muitas histórias mostram os obstáculos que atletas negras, como a jogadora de beisebol Toni Stone, tiveram que lidar e também destacam como algumas delas usaram suas vitórias e capacidades extraordinárias para questionar a barreira racial existente.

A corredora Wilma Rudolph, por exemplo, ao ganhar 3 ouros na mesma olimpíada, ia ser homenageada pela sua cidade natal com um desfile. Ela se recusou a participar dele porque as regras diziam que a cerimônia só poderia ser frequentada por brancos e, com essa pressão, o que antes seria segregado se transformou no primeiro evento integrado da cidade.

Visibilizar essas histórias ajuda a mostrar que o esporte feminino importa e que o espaço desportivo também nos pertence. Ainda há barreiras de gênero a serem enfrentadas, já que mulheres ainda não tem tanto acesso, exposição e valorização quanto os homens esportistas, mas, mesmo quando as barreiras eram ainda maiores, as mulheres foram lá e fizeram, abrindo as portas para todas nós.

As biografias dessas pioneiras nos inspiram por passarem a mensagem de que podemos ir em frente mesmo quando o machismo diz que não. Fazer isso é lutar por nosso direito de sermos vistas como pessoas.

*existe prova de ciclismo masculino desde o início das olimpíadas modernas.


Quer o kit do mais novo livro da Rachel Ignotofsky? A página do Facebook Mulheres Notáveis, numa parceria com a página de divulgação da obra no Brasil, vai sortear um no dia 09/05/19. Confira as regras e participe.


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A Pequena Sereia e o reino das ilusões patriarcais

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Hans Christian Andersen foi um autor dinamarquês que viveu no século XIX e escreveu diversos contos de fadas infantis, entre eles, “A Pequena Sereia”. O fascínio que essas criaturas mitológicas exercem na humanidade e a curiosidade humana sobre as profundezas do mar ajudou a tornar essa história bem popular inclusive entre crianças, especialmente após a adaptação cinematográfica feita pela Disney em 1989.

Tanto no conto original, quanto na famosa animação, a protagonista abandona sua vida nos mares e sua identidade, além de mutilar seu corpo, para tentar conquistar um homem. A Bruxa do Mar é feia, solitária, invejosa e infeliz. Uma personagem clichê, que tem sua vilania construída a partir de uma oposição ao que é colocado como ideal de feminilidade, enquanto a Pequena Sereia corresponde ao padrão de beleza e ama verdadeiramente um homem, como se é esperado de uma mulher.

A construção dessa história e das principais personagens reproduz uma mensagem que, agora, quase 30 anos depois, é questionada por Louise O’neill numa releitura feminista desse clássico.

O patriarcado marinho

Na versão de Louise, o reino do Rei dos Mares é uma epítome da opressão contra as mulheres e é nesse lugar que a Pequena Sereia cresce cercada por suas irmãs, sua avó e a intimidação de seu pai e outros tritões.

O valor das sereias está apenas na aparência que possuem, há um incentivo à rivalidade feminina, inclusive entre irmãs, o padrão de beleza é magro e os sacrifícios para tentar alcançá-lo são naturalizados, há casamentos arranjados e as sereias são vistas como troféus a serem ostentados.

Não importa o que as sereias sentem, querem ou expressem. O Rei dos Mares é quem manda e desmanda nesse lugar. A Pequena Sereia, chamada Gaia na releitura, se incomoda com essas regras tácitas e expressas sobre como ela e todas as outras devem agir e vê as histórias de amor contadas por sua avó e protagonizadas por príncipes encantados como um refúgio desse destino que parece inescapável. Isso se intensifica com a proximidade do seu casamento com um tritão bem mais velho escolhido por seu pai.

A (des)construção do amor romântico

Louise O’neill parte da mesma problemática da história original para questionar o amor romântico que nos é ensinado. O refúgio da personagem é esse amor ideal que não existe, mas chegou até seus sonhos por meio dos contos de fada. Ela quer viver esse amor das histórias com Oliver, humano que ela salvou após uma tempestade afundar um barco em que ocorria uma festa.

Naquele contexto de opressão que, além de tudo, envolve um casamento arranjado com um tritão agressivo e manipulador, Gaia encara a paixão humana, a mutilação e o abandono do mundo que ela conhece como a única alternativa para fugir de um destino que promete ser repleto de violência masculina e silenciamento. Mal sabe ela que a realidade das mulheres na superfície está bem longe do ideal.

A autora dessa releitura trabalha a jornada da Pequena Sereia no mundo humano como um processo de descoberta de si, do que é amor e do que é a realidade das mulheres nos mares e na terra. A lição que fica para o leitor é de que a libertação que a personagem tanto buscava não pode ser encontrada no despertar do amor de um homem.

Essa visão da Pequena Sereia sobre as alternativas e caminhos possíveis evidencia o quanto a feminilidade que nos é ensinada, seja na terra ou no mar profundo, é ligada ao casamento e a busca do amor. A identidade feminina é construída para ser complementada por alguém, por isso Gaia e muitas mulheres do mundo real buscam o despertar do amor de um homem como uma solução para todos os seus problemas, caminho que acaba se tornando uma nova prisão.

A descoberta do Outro

A trajetória da Pequena Sereia até o mundo humano também envolve descobertas sobre o fundo do mar. Ela vê parte excluída do reino de seu pai, conhece pessoalmente Ceto, a famigerada Bruxa do Mar, e é obrigada a lidar com as Rusalkas, jovens humanas que se afogaram e se transformaram em uma espécie de sereia que foge desse padrão de feminilidade que ela representa. São essas sereias de origem humana que seu pai e seu prometido marido querem exterminar.

A conversa dela com a Bruxa do Mar é um dos pontos mais interessantes do livro. Nesse momento, Gaia descobre uma história silenciada, uma sereia livre e a possibilidade de ser diferente sem ser necessariamente uma vilã clássica. Ela teme o que Ceto pode fazer contra ela por conta de tudo que sempre ouviu, mas é ali que ela começa a sentir um pouco de liberdade e ouve alguns conselhos que ela prefere ignorar.

Nesse encontro, a sereia, colocada como vilã para o povo sirênico, diz que quem a chama de bruxa é o Rei dos Mares, pai da protagonista, e que bruxa é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.

A mensagem da nova Pequena Sereia

Com essa releitura, Louise O’neill conseguiu transformar uma história problemática em um livro que toca pessoas de todas as idades, especialmente mulheres jovens. Ela aborda aspectos do machismo, incluindo a violência masculina e o padrão de beleza, de forma questionadora e expõe o quanto certas práticas e comportamentos são nocivos, apesar de serem naturalizados.

O processo de descoberta da protagonista carrega como ensinamento a importância de lutar para se viver com liberdade e autonomia e nos ensina que devemos tentar fazer nossa voz ser ouvida. Ela pode ser bem mais poderosa do que imaginamos, especialmente quando ela é fortalecida por outras mulheres.


Tradutora da obra: Fernanda Lizardo.


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Antártida

De repente ninguém mais morreu de tiro, faca, bomba ou porrada. Nenhuma pessoa conseguia entender como o índice de violência mundial chegou ao marco incrível de 0%, mas todo mundo sabia que algo tinha acontecido. Antes de dormir, naquele momento em que a solidão se torna quase concreta, não tinha uma só pessoa na Terra que não percebia que algo estava diferente dentro dela.

Ninguém sabia responder o que tinha causado isso e, inicialmente, as pessoas fingiam não querer entender, apesar do mundo ter se tornado outro em menos de um mês. Viviam como se nunca tivesse havido todo derramamento de sangue que a humanidade sempre conheceu e ignoravam os intensos anos de culto à violência que vigoraram até então.

Quando uma cientista descobriu que um som misterioso foi emitido da Antártida para todo o planeta horas antes do fim da violência, ela levantou a hipótese de reprogramação da mente humana e apareceu em todos os jornais. Só isso foi capaz de fazer as pessoas assumirem que queriam entender o que tornou a humanidade esse povo pacífico e, dias depois, diversas excursões de pesquisadores começaram a partir de todos os lugares do globo para explorarem o continente gelado.

Depois de quinze dias de busca, o grupo sul-africano encontrou uma base enorme destruída. Frente aos destroços, havia uma bandeira lilás intacta posicionada. Nela estava inscrita a frase “finalmente paz”.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroTerra. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, TwitterWattpad, Tinyletter e Instagram.

Lady killers: as mulheres também matam

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Em “Alias Grace”, adaptação da Netflix do livro homônimo de Margaret Atwood, a personagem Grace Marks, sentenciada à prisão perpétua por ter assassinado seu patrão e a governanta da casa em que trabalhava, reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Tanto a minissérie roteirizada por Sarah Polley e dirigida por Mary Harron, quanto o livro de Margaret Atwood, são ficcionalizações de um caso de homicídio duplo que chocou o Canadá em 1843. Pouco se sabe sobre a Grace Marks real, mas “Alias Grace” parte dessa personagem para tensionar o que entendemos como feminilidade e assassinato e isso nos faz pensar sobre como o nosso olhar pode ser facilmente manipulado.

A curiosidade perante uma assassina mulher é tão diferente porque matar não parece ser algo muito feminino. A opressão de gênero que tanto aprisiona mulheres, incluindo as homicidas, parece nesses casos um disfarce perfeito e um provável fator que coloca certas vítimas como alvo delas.

Lady Killers, livro de Tori Telfer, dedica-se a trabalhar essa curiosidade por meio de pesquisa sobre mulheres que mataram mais de uma vez, mais de uma pessoa, em mais de um momento. Elas são as assassinas em série que pouco ouvimos falar ou que se tornaram personagens macabras, que tiveram suas histórias contadas como uma fantasia aterrorizante de luxúria e vaidade, como Elizabeth Báthory.

Quando a expressão “assassinos em série” aparece em uma leitura ou mesmo em um caso, a gente pensa em homens como agressores e mulheres como vítimas. Tirar a vida de alguém é um exercício de um poder absoluto que nossa cultura não consegue ver como algo que mulheres podem fazer. Isso colabora para que as seriais killers atuem por mais tempo e façam mais vítimas, já que não são vistas como suspeitas.

A curiosidade guia nossos olhares em ambos os gêneros. Queremos saber os porquês numa ânsia de tentar nos diferenciar dos que nos causam horror. Essa curiosidade atua com mais ferocidade quando as acusadas de matar são mulheres, mas o horror é visto como um atributo que acompanha melhor os homens assassinos. A frase da personagem Grace Marks é justamente sobre isso.

Há um estranhamento quando uma mulher é capaz de um ato tão vil como tirar a vida de muitos, apesar de estarmos inseridos numa cultura repleta de histórias lotadas de vilãs, bruxas más e madrastas cruéis. A vilania feminina para nós é ligada, principalmente, ao comportamento esperado das mulheres. O pressuposto de que mulheres devem ser recatadas, cuidadoras, mães dedicadas prevalece no imaginário social. As vilãs das histórias tem o efeito de mostrar quem não podemos ser, como não podemos agir. Quando a vilania feminina aparece na vida real no formato de seriais killers, o efeito que elas causam é tão incômodo, destoa tanto do ideal de mulher, que há um esforço coletivo e espontâneo de tratá-las como menos letais.

Tori Telfer destaca isso muito bem quando aborda o comportamento da mídia e da sociedade perante as assassinas pesquisadas. Nannie Doss, por exemplo, que confessou ter matado quatro maridos envenenados, mas também foi acusada de matar outros familiares, incluindo crianças, foi tratada como uma mulher em busca do amor. Como se isso amenizasse o horror dos atos cometidos por ela. Nannie se tornou uma espécie de paródia de uma dona de casa romântica que deu muito errado por caber tão bem no ideal de feminilidade da época.

As histórias das seriais killers são contadas pela autora de uma forma que evidencia a diferença de tratamento social, especialmente punitivo, entre elas. A classe sempre pesa muito, mas não só. Tillie Klimek, por exemplo, não teve a chance de escapar da prisão ou ter sua pena amenizada, como acontecia bastante em Chicago na época, por não ser considerada uma personagem atraente. Sim, a beleza, esse atributo colocado como tão importante para as mulheres, afeta até mesmo a maneira que olhamos para suspeitas de assassinato. É por causa do que é dito como feminino que tantas citadas nessa obra escaparam da pena de morte simplesmente por serem mulheres.

A pesquisa de Tori Telfer expõe como as visões estereotipadas torna assassinas personagens muitas vezes romantizadas, outras invisibilizadas. Elas existem, mas suas ações ainda são colocadas como algo fantástico, fora da curva. Mas será mesmo que seriais killers são tão raras assim ou elas escapam mais facilmente por agirem dentro do espaço colocado como feminino, o privado, e por estarem acima de qualquer suspeita?

Talvez, nossa cultura, ao ligar mulheres à vida, ao cuidado, ao amor, à ingenuidade, nos faça esquecer que a violência e a crueldade são, acima de tudo, uma questão humana. Sabemos muito bem como a masculinidade patriarcal molda homens para buscarem a dominância e violência, mas é uma surpresa conhecer histórias que mostram que mulheres também podem ter um lado sombrio e cruel mesmo sendo condicionadas a se comportarem de modo oposto.


A edição brasileira do livro, feita pela DarkSide e traduzida por Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana, conta com uma pesquisa extra que nos apresenta mais 14 seriais killers, incluindo nomes famosos como a da mulher que inspirou o filme Monster e uma espécie de glossário com obras sobre.


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O lugar da mulher para a ofensiva conservadora

No primeiro dia da legislatura dos deputados federais, Márcio Labre (PSL-RJ), um estreante, propôs um projeto de lei que dispõe sobre a proibição do comércio, propaganda, distribuição e implantação pela Rede Pública de Saúde de micropílulas, pílulas do dia seguinte, implantes anticoncepcionais e DIU com a justificativa de que tais produtos são abortivos*.

A atitude de Márcio Labre é parte de uma ofensiva conservadora que encontra no legislativo um terreno fértil para prosperar. Ele agora se soma a um grupo expressivo de deputados que usam a bandeira anti-aborto para promover seus ideais de mulher e religião com um projeto que consegue ser ainda mais agressivo que os famigerados Estatuto do Nascituro e a PEC 181/15, conhecida como “Cavalo de Troia das Mulheres”. O deputado, ao tentar proibir o acesso a contraceptivos, leva ao extremo a bandeira do controle do corpo das mulheres. A criminalização do aborto não é o suficiente, Márcio quer restringir ainda mais a autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade com uma limitação absurda relacionada a qual método contraceptivo elas poderão escolher usar. Com o PL 216/2019, o parlamentar busca dificultar que mulheres detenham o poder de tentar evitar uma gravidez de forma ativa.

A camisinha não é um dos itens listados por ele, mas seu uso costuma estar atrelado a uma cooperação masculina. Apesar da camisinha ser o contraceptivo mais indicado, já que também protege contra as doenças sexualmente transmissíveis, seu uso sofre resistência por parte de homens, principalmente dentro de relacionamentos, o que torna os contraceptivos como a pílula do dia seguinte e o DIU essenciais para que mulheres possam ter um controle maior sobre seus corpos e possíveis gravidezes. O anticoncepcional padrão também não foi listado pelo autor do projeto, porque ele não o considera “micro abortivo”, mas as restrições elencadas no PL já impactariam bastante os direitos sexuais e reprodutivos de quem possui útero e capacidade de engravidar. A escolha feminina de como se prevenir de uma gravidez seria muito afetada, principalmente das mulheres que não podem utilizar o anticoncepcional padrão por causa do risco de trombose e outras doenças.

A maioria dos projetos de lei e emendas constitucionais nesse viés buscam dificultar ou mesmo proibir o aborto nos casos legais (estupro, risco de morte e anencefalia). Com Labre não foi diferente. Além do projeto que tem vários contraceptivos como alvo, ele também propôs o PL 260/2019, que diz em seu primeiro artigo que:

“ É proibido o aborto de fetos humanos, pelas próprias gestantes ou por ação de terceiros, em qualquer hipótese, independentemente do estágio da gravidez ou do tempo de vida do nascituro, admitida somente, por única exceção, a possibilidade de abortar quando a continuação da gravidez trouxer comprovação e inequívoco risco de vida para a gestante.”

No primeiro dia de legislatura, o estreante do PSL deixou claro que a mulher, para ele, é um mero receptáculo ao se colocar contra o aborto em caso de gestação fruto de estupro e buscar a proibição da pílula do dia seguinte, medicamento não abortivo, que impacta diretamente na garantia legal de amparo médico e psicológico para vítimas de estupro. Entre outras coisas, a lei 12.845/13** prevê a pílula do dia seguinte como parte do atendimento de vítimas de violência sexual com o objetivo de evitar que haja gravidez e a pessoa tenha que passar pela decisão de abortar ou não.

Os projetos de lei do parlamentar, caso sejam aprovados, buscam impor a gravidez indesejada e fruto de estupro a todo custo. Nem mesmo a profilaxia de gravidez seria um direito. Com isso, o direito do estuprador de se reproduzir estará acima da integridade e vida da vítima. Márcio quer fazer de tudo para obrigar mulheres a gestarem, independente se foi estupro ou não.

O controle do corpo da mulher e a caça de seus direitos reprodutivos é parte essencial de qualquer projeto de governo que tenha como base a religião, os bons costumes, o conservadorismo e o autoritarismo. A ficção nos mostra isso: “O conto de Aia”, escrito por Margaret Atwood, por exemplo, é uma história sobre um regime autoritário que se baseia e se sustenta no controle dos corpos femininos.

Isso se dá não só porque alguns acreditam que fazem o bem com suas posturas “pró-nascimento” e misóginas, mas porque atacar as liberdades femininas é sempre um caminho mais fácil para quem quer manter e ampliar seu poder. O machismo do mundo de hoje ainda clama por qualquer coisa que busque controlar as mulheres. Políticos interessados em popularidade e polêmica usam essas pautas, principalmente as que tem mais apelo como o aborto, para se colocarem como paladinos da justiça e se afirmarem perante a sociedade. Com base nisso, podem, por exemplo, justificar inércias, omissões, corrupções e votos contra o povo com o argumento de que o foco precisa ser pautas como essas.

Restringir a autonomia das mulheres é bandeira vista como necessária por uma parcela de pessoas, especialmente homens cis, que se definem como capazes a partir dessa ideia de que a mulher existe para complementar os homens. Concepção que serve como base para toda a divisão sexual do trabalho.

Os apoiadores de homens como Márcio Labre encaram esse tipo de projeto político como a chance deles voltarem a terem empregos bacanas, conseguirem sustentar uma casa, serem detentores de um pátrio poder que atinge mulheres e filhos. Eles querem o controle estatal para garantir que eles a obediência e submissão de mulheres e crianças.

O controle da capacidade reprodutiva feminina, por mais que seja pintado apenas como uma pauta moral, está relacionado com economia, emprego, mão de obra e é uma bandeira que faz tanto sucesso porque promete manter certos privilégios. O desejo de domínio do capital reprodutivo se dá por causa da necessidade de haver reprodução e cuidado da prole para manter certas estruturas, inclusive econômicas. A reprodução é tratada como algo além do desejo individual da mulher, ela tem uma função numa sociedade como a nossa. A transmissão da propriedade, por exemplo, se relaciona com filhos e esposo.

Quem defende isso vê o passado como meta a ser buscada. A bancada da Bíblia — e também da Bala e do Boi — usam a frustração com o presente e definições culturais da função de homens, mulheres, brancos, negros, indígenas, terra e propriedade, para conquistar votos e poder. Eles contam com os ressentidos com o avanço de pautas feministas para encher os bolsos.

O projeto de lei do deputado conservador da vez é um elemento de uma ofensiva que busca determinar que cabe às mulheres a função primordial de parir, cuidar, satisfazer e aos homens todo o resto. Esse resto, como tarefa masculina, é melhor pago, tem status profissional, trabalho formal, enquanto o que a mulher faz é vocação, destino biológico, milagre, bondade, sacrifício ou mesmo redenção de uma vida de pecados próprios ou de Eva ou Lilith.

Com grande parte do Legislativo e do Executivo combinados em promover um projeto político de promoção de desigualdade entre homens e mulheres, pautas como a disparidades salarial, desemprego e dificuldade para retornar ao mercado de trabalho após ter filhos, falta de creches públicas, e, principalmente, a tripla jornada de trabalho seguirão sendo colocadas como pouco importantes, apesar de serem tão significativas. A maternidade precisa ser obrigatória e carregada de sacrifícios e perda de autonomia para esses que dizem defender tanto a família.

O Brasil caminha a passos largos para se tornar um país teocrático e essa trajetória conservadora é uma busca pela manutenção de um status quo e de um poder que tem sua expansão como algo naturalmente autoritário. A consequência do avanço de pautas como essa é ainda mais mortes de mulheres na clandestinidade. O projeto político que ganha cada vez mais voz no país negligencia a vida, a saúde, a autonomia e a subjetividade de mulheres. A maternidade não pode ser compulsória.

*Micropílulas, DIU, implantes anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte não são abortivas. Sendo a última vítima de ataques anticiência rotineiros, apesar desse medicamento apenas adiar a ovulação e evitar que o útero se prepare para receber um óvulo fecundado.

**Há várias pessoas no Congresso Nacional e fora dele que defendem que a pílula do dia seguinte é abortiva e querem impedir o uso dela. Magno Malta, Eduardo Cunha, Pastor Eurico, Pastor Marco Feliciano, Bolsonaro e outros defendem a revogação da lei 12.845/13, a lei que garante atendimento médico e psicológico para vítimas de estupro, com base nesse argumento. Ou seja, caso o PL 6055/13 passe, não há chance de veto.

*** Esse controle tanto falado em todo o texto é motivado pela busca pelo domínio do capital reprodutivo.


Observação: no final da tarde do dia 06/02, o deputado apresentou requerimento para retirada do PL sobre a proibição de diversos contraceptivos, mas disse que no futuro apresentará outro projeto, dessa vez mais fundamentado, com finalidade de informar que a minipílula, a pílula do dia seguinte, o DIU e os implantes anticoncepcionais são “micro abortivos”. Ou seja, essa retirada é apenas estratégica. O outro PL, também absurdo, segue sem retirada.


No dia 12/02/2019, o Senado desengavetou o projeto de emenda constitucional 29/2015. A PEC em questão busca acrescentar ao artigo 5º da Constituição que a vida é inviolável desde a concepção, assim como a PEC 181/15 que ganhou destaque ano passado queria fazer. Essa mudança constitucional, se for feita, pode amparar a criminalização do aborto em qualquer situação. Esse é mais um exemplo recente de como esses ataques são parte de um projeto político de poder que tem ganhado cada vez mais força no país.


Em junho de 2019, Projeto de Lei do vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM) ganhou as manchetes brasileiras por propor a internação compulsória de mulheres com “propensão ao abortamento” e uma série de medidas, como obrigar a mulher a ouvir o coração do feto bater, para tentar impedir abortos nos casos legais. Esse PL é claramente inconstitucional, mas, ainda assim, merece ser criticado e exposto como a política de controle de corpos que é.


Em setembro de 2019, o Conselho Federal de Medicina, em uma nova resolução, definiu que gestantes não possuem o direito à recusa terapêutica: “A recusa terapêutica manifestada por gestante deve ser analisada na perspectiva do binômio mãe/feto, podendo o ato de vontade da mãe caracterizar abuso de direito dela em relação ao feto.”

A resolução apresenta perigo por colocar os corpos das mulheres grávidas como tuteláveis e justificar isso usando o feto, como se a mulher que gera fosse uma mera incubadora, e assim abre precedente para violência obstétrica “justificada”. Saiba mais aqui.

Em agosto e setembro de 2020 um caso de aborto legal de criança gestante por estupro se tornou emblemático e foi manipulado e atacado pelo governo, com direito a posterior edição de portaria para restringir o direito ao aborto legal na prática. Mais sobre aqui.

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Somos animais que migram no verão

Ilustração por Luiza Formagin.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves

Os termômetros marcam 30º Celsius. O asfalto quente de tanto sol e o ar parado nos dá a sensação de estarmos dentro de um forno. A cidade se dilata, enquanto as pessoas buscam algum destino mais refrescante.

Em algum momento do verão, a gente tira férias, faz as malas, confere se lembrou de pegar a escova de dentes e parte. Migramos em busca de sol, sombra e água fresca. Os destinos variam, mas todos envolvem a procura de uma forma melhor de lidar com as altas temperaturas. Quem mora em Minas Gerais, costuma escolher entre o lago de Furnas, alguma cachoeira, qualquer sítio com piscina, uma diária num clube ou o distante litoral.

Somos animais que migram em busca de água no verão. O Espírito Santo que o diga. Tomamos seus mares, lotamos suas areias e, se o dinheiro estiver curto, levamos marmitex para a praia. Quem não quer perder a pose, tupperware.

Parte do ano, as praias capixabas são um anexo de Minas Gerais. Ninguém pergunta para os nativos o que eles acham, se eles nos consideram invasores folgados ou se aceitam dividir o mar conosco de bom grado. A área simplesmente é ocupada. Quer dizer, a água.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves. Todos esses animais se movem por alguma razão durante determinadas épocas do ano, ainda que isso seja incompreensível para nós humanos. Suas jornadas sazonais ainda são cercadas de mistério. Mistérios que a gente parece querer entender por achar que suas respostas — ou a ausência delas — revelarão algo que pode nos ajudar a compreender melhor nós mesmos.

Biólogos implantam chips transmissores em baleias jubarte para assim conhecer suas rotas migratórias. Quantos quilômetros elas viajam? É sempre o mesmo caminho? É sempre o mesmo destino? O que elas tanto buscam? É possível que uma baleia decida simplesmente não ir? Como elas sabem o caminho e a hora de partir? Uma vai na frente e as outras simplesmente seguem? Para onde os estudiosos de baleias vão nas férias de verão? Como eles sabem para onde devem ir?

Nosso tempo nas águas é regulado pela legislação trabalhista. A gente fica o quanto pode. O quanto o chefe, as férias escolares e o saldo do banco deixam. A gente escolhe o destino de acordo com o que cabe no bolso. As jubartes não têm boletos para pagar. Elas simplesmente sabem o caminho e seguem o fluxo. Para fazer as rotas migratórias que o verão nos obriga a fazer, a gente precisa de estratégia. Muito se fala sobre humanos e a Arte da Guerra, mas não podemos esquecer jamais que o desejo de conseguir aproveitar a vida em pleno capitalismo nos fez desenvolver também a Arte das Férias.

Economiza aqui, se endivida ali, faz hora extra, se obriga a responder o e-mail do chefe no domingo depois do almoço, divide uma casa de praia com um banheiro com mais 20 pessoas. A gente faz tudo e mais um pouco para não ficar dias inteiros trabalhando em algum lugar sem ar condicionado quando os termômetros apontam 30º Celsius.


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Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

É preciso deixar a boa menina para trás

Canva

Quando estive em Galinhos, as águas estavam tomadas por pessoas praticando kitesurf. Do mar ou da areia, víamos homens e mulheres testarem os efeitos da gravidade, da ventania e da água em seus corpos.

Ao meu lado, também como espectadora, havia uma menina de uns sete anos completamente fascinada pelas manobras. Ela comentava cada uma delas com a mãe.

Após um tempo de observação marcado por comentários bem tagarelas, a mesma menina, com surpresa e muita empolgação na voz, observou que havia mulheres no meio do grupo esportista. Impressionada, ela perguntou sobre isso para sua mãe que respondeu que não há nada que impeça mulheres de praticarem kitesurf e completou dizendo: “Você poderá fazer, se quiser, quando crescer um pouco.”

Enquanto a cena se desenrolava ao meu lado, eu me perguntava: “Quem seria eu hoje se nessa mesma idade tivesse visto mulheres comuns fazerem coisas extraordinárias com seus corpos e ouvido do mundo que eu poderia fazer o mesmo?”

Apesar de eu ter pelo menos mais vinte anos que essa menina, reconhecer mulheres no meio do grupo no mar também me trouxe empolgação, satisfação e, confesso, certa surpresa.

Apesar de incômoda, essa surpresa foi inevitável, já que no passeio de buggy, feito alguns dias antes, todos os motoristas eram homens. E, dias depois, quando andei de quadriciclo, foram os homens que dirigiram as máquinas enquanto as mulheres se aventuravam apenas na garupa.

O passeio de quadriciclo tinha uma parada para troca de motorista e nesse momento algumas poucas mulheres assumiram o controle de seus respectivos veículos. Eu não fui uma delas.

Por mais simples que fosse, por algum motivo, eu não me senti capaz de guiar. Não sei dizer direito o porquê disso, talvez a minha altura tenha me feito questionar a minha capacidade, eu não sei, mas me lembro de ter tido a sensação de que eu ia falhar, me envergonhar, atrasar o grupo e, de quebra, queimar o filme das mulheres.

Eu tenho carteira de motorista há quase dez anos, mas não me senti capaz de participar desse passeio como motorista, assim como nunca me sinto pronta para dirigir em Belo Horizonte e adio constantemente qualquer tentativa.

Minha mãe sempre dirigiu, mas quando meu pai estava no mesmo carro, era ele que assumia o volante e isso é um padrão que eu reconheço em várias famílias. Amigas minhas, mesmo as da minha idade, ainda agem assim até mesmo com seus próprios carros. Muitas das minhas tias sequer dirigiram alguma vez na vida, enquanto seus maridos sempre o fizeram. Mesmo antes de terem seus veículos ou habilitação, eles pegavam emprestado de alguém e guiavam sem pensar muito naquilo que faziam.

No grupo do passeio, o padrão era o mesmo. As mulheres eram todas acompanhantes. Nenhuma era motorista principal e isso me fez pensar bastante em como mulheres experimentam o mundo e não descobrem ou não reconhecem suas potencialidades por terem sido condicionadas a uma passividade que se baseia no apagamento de seus próprios desejos e curiosidades.

Nessas situações, eu sempre questiono: “Bastaria uma para que outras se sentissem encorajadas a tentar?” e a resposta costuma ser “Não sei” ou mesmo “Provavelmente não”, porque a gente sempre ouve que as boas motoristas, as muito inteligentes, as aventureiras e afins são exceções e percebemos que um erro nosso é sempre tratado como prova inequívoca da falta de capacidade de nosso gênero. Além disso, é preciso entender que algumas mulheres, senão a maioria, são desencorajadas pelos próprios companheiros a assumirem atividades como essas.

Em sete dias de viagem, eu tive três experiências que me fizeram pensar nas questões de gênero que permeiam a vida das mulheres mesmo quando elas saem de seu lugar de sempre e buscam viver coisas diferentes.

No quadriciclo e no kitesurf, as observações partiram da minha inatividade e na percepção do impacto psicológico da visão social das atividades femininas e masculinas em mim e nas mulheres ao meu redor. Já na terceira experiência, o meu local é o de uma mulher que participa da atividade aventureira como protagonista.

Eu simplesmente fui sem nem pensar duas vezes numa tirolesa e foi ótimo, mas isso acabou se tornando uma questão quando eu fui assistir ao vídeo feito no momento e me deparei com vozes masculinas berrando para mim “pode gritar, mulher”.

Não senti nenhuma vontade de gritar, sequer frio na barriga. A sensação foi de tranquilidade e prazer. Com os olhos bem abertos e míopes, vivi a experiência como se pairasse no ar entre água, vento e duna. Nem ouvi o berreiro masculino que depois descobri que existiu.

Quando meu namorado foi, logo depois, ninguém esperou que ele gritasse, quis dar permissão para ele fazer isso ou assumiu que ele estava morrendo de medo.

Todo mundo deveria poder gritar, se está com medo ou sente prazer nisso, mas a experiência feminina parece ter que aparentar ser de pânico ou ser assim de fato.

O medo e a insegurança são colocados como femininos e, de tanto ouvir isso, a gente se convence de que essa é a ordem natural das coisas mesmo quando o assunto não é estupro, violência doméstica e afins. Nos querem assustadas em todas as esferas. Até mesmo na hora de vender um passeio de aventura durante uma viagem. Mesmo isso sendo economicamente meio burro.

Quando eu, mais uma vez, não consegui viver a experiência
— tola, talvez, como agora eu vou saber? — de dirigir um Quadriciclo, eu me senti uma impostora. Por mais que eu fale que lugar de mulher é onde ela quiser, eu ainda sinto o peso do que vi e ainda vejo ao meu redor.

As mulheres ainda são vistas como passageiras. Não podem guiar suas próprias vidas. São acessórios que seguem o principal, o homem. Eles sabem de si e de suas companheiras e a gente foi ensinada a acreditar que essa é a ordem natural das coisas e que aceitar isso é ser uma boa garota.

A boa garota não se suja de areia quando curte uma praia, hidrata seus cabelos para que eles não fiquem quebradiços e faz questão de evitar molhar os fios quando entra na água. Ela não anda só de biquíni pelo calçadão. Sempre está de bolsa e canga. Ela sorri, fala pouco, baixo, se desculpa toda hora e não sabe ser assertiva. Ela está com a depilação em dia e as unhas bem cortadas e feitas. Ela aceita passiva seu lugar no mundo e acompanha seu homem bem bonita. Ela não existe, é apenas um ideal que nos ensinaram a buscar.

Ainda na sexta série, me lembro de anotar nas minhas agendas frases que diziam que as más garotas são as que saem do lugar, se divertem, são livres e sabem viver. Desde então quis ser uma dessas, mas muitas vezes tive medo das consequências desse desejo. Até porque, por ser pequena, branca e “frágil”, eu nunca me senti apta a caber nesse outro estereótipo que vez ou outra se apresentava de forma tão atraente, apesar de tudo.

A má garota é também a que precisa ser corrigida. É a que ouve que precisa fechar as pernas ao sentar e a que é xingada de respondona ao questionar. Se ela se machuca porque saiu correndo para fazer algo com os meninos, ela ouve que deveria ter ficado quietinha em casa.

Fui ensinada a ser uma boa garota, como todas nós fomos em algum nível, e achei que tinha rompido com isso. Descobri que não, apesar do meu esforço em desconstruir isso desde a adolescência.

Eu ainda sou uma dessas que, mesmo durante uma viagem maravilhosa, se incomoda com o que os outros vão pensar de suas unhas dos pés que estão grandes demais porque cresceram estranhamente nos últimos dias. Eu ainda sou uma dessas que tem uns devaneios de aventuras que ficam sempre no plano das ideias, porque, afinal, o mundo lá fora é perigoso demais para uma mulher. Eu ainda sou uma dessas que não consegue abandonar essa persona que sequer chega a tentar porque sabe que todo erro seu contará contra si e contra outras. Eu ainda sou uma dessas, que fala que não consegue sem nem ao mesmo tentar.

Virginia Woolf escreveu sobre a necessidade da mulher matar o anjo do lar para que possa viver de forma saudável. O anjo do lar é a neutralização da mulher enquanto indivíduo, um fantasma que nos assombra com finalidade de nos lembrar que devemos ser boas garotas e servir aos homens. Ele nos impede de descobrir nossas potencialidades porque coloca o desenvolvimento pessoal e as experiências da vida das mulheres como secundários. Esse anjo maldito assume que o que podemos fazer melhor é apoiar um homem, através de cuidados, serviços domésticos, amor e afins, porque ele sim tem potencial para fazer alguma coisa realmente significativa. Esse anjo vive dentro de nós e é fruto dessa educação que busca formar boas garotas.

Que antes das próximas férias, eu consiga fazer minha boa garota interior ir para o inferno junto desse anjo pervertido. Já passou da hora de eu e todas nós entendermos que podemos ser protagonistas de nossas próprias vidas. Entre eu e a minha melhor versão, ainda há um anjo do lar vivo e uma garotinha que quer obedecer os adultos em suas tolices só pra ganhar sorrisos.


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