Conversando com O Ano do Macaco

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Eu também daria feliz ano novo para as minhas botas, mas aqui no hemisfério sul, onde moro, não há espaço para esse tipo de calçado nessa época. No máximo, um par de tênis quando se precisa usar algo fechado e bom para andar. Desse lugar de onde leio, o Ano do Macaco já passou e parece mais distante do que está de fato. Eu que não entendo nada sobre os anos chineses ainda encaro tudo que aconteceu em 2016 como uma sucessão de piadas nonsense que saíram do controle e culminaram no ano de 2018 e depois no 2019 e agora no recém iniciado 2020.

Ainda assim, eu felicito quem e o que está ao meu lado com todo tipo de mensagem de ano novo como se essa virada não fosse uma mera ficção. Ser ficção não é um demérito necessariamente. Quanta coisa mudou em mim e no mundo por causa de uma história, de um nome, de uma prática ou de outras coisas inventadas. Tanta coisa boa surgiu da capacidade humana de criar e, caramba, tem hora que tudo que a gente quer mesmo é se deixar enganar por uma trama boba ou não. A gente não pode se esquecer disso, apesar de tudo. 2016 ou 2018, não importa, em ambos os anos algumas ficções foram tratadas como notícias reais e usadas para defender o indefensável. Ganharam eleições assim. Nem toda invenção é boa, principalmente quando elas se fingem de verdades verdadeiras e se moldam ao formato mais atraente de sensacionalismo.

Antes de continuar, preciso confessar que não sei se dialogo aqui com a Patti Smith, com a placa do Dream Motel, que na verdade é Dream Inn, com o livro no todo, com os mortos da autora, com os meus mortos, ou com você, leitor(a), que chegou desavisado(a) acreditando que esse texto seria uma simples resenha ou análise ou crítica ou ensaio comum e se deparou com um breve tratado sobre um tempo, um livro e a imaginação.

Acho que escrevo esse texto como se todos esses personagens e mais alguns estivessem frente a frente comigo, sentados numa mesa de bar ou café, me vendo falar sem parar.

Quero falar com a Patti Smith sobre envelhecimento, morte, esperança, desespero, amizade e, claro, sobre o show dela que assisti no último novembro no Popload. Talvez, no lugar de falar sobre o show, eu prefira comentar sobre o lançamento dos livros dela feito bem na véspera do festival que a trouxe para o Brasil. Foi tão bom ouvi-la falar assim, tão pertinho, quase como uma amiga. Foi tão bom ouvi-la narrar trechos do livro que agora leio, converso e carrego comigo para um café. Eu sei que no fim, o que eu faço mesmo é conversar sobre o tempo com todos dessa mesa de personagens estranhos, ainda que fique ansiosa para citar, em algum momento mais informal, que eu também gosto de jogos de tabuleiro como Bolaño, escritor ainda não lido por mim, mas sempre referenciado pela autora.

O tempo é também um lugar. Partimos sempre de uma data para olharmos para o mundo, para nós e para os outros. Patti, no Ano do Macaco, estava à espreita dos setenta anos. Eu, no ano do Cão de Terra, fiz trinta. Estranhamente, eu e ela olhamos para os mortos. Só que os dela estão cada vez mais próximos, enquanto os meus ainda moram no medo. E eu espero que eles fiquem lá por muito tempo ainda. Isso me faz pensar que o Ano do Macaco é sobre luto também, mas é um luto que vai muito além da Patti como narradora, autora e personagem. Por mais que seja ela que esteja perdendo amigos e se alimentando de memórias. O luto parece ser do mundo, como se a esperança estivesse morrendo de acordo com o passar dos dias, dos meses e, por fim, do Ano do Macaco.

2016 aqui foi um ano com impeachment, olimpíadas, Cunha preso e acidente de avião com time de futebol promissor. Também tivemos um luto coletivo por isso. Divididos, de certa forma, com nossos vizinhos colombianos que receberam a dor das famílias, amigos e fãs de uma forma impressionante. Desse lugar saímos e chegamos em 2018 com Marielle Franco assassinada, mais um luto coletivo, mas esse muitas vezes interrompido por uma espécie de polarização fabricada que dá força para o ódio, para as fake news e para a extrema-direita. Nesse ano também tivemos Bolsonaro eleito como líder do país, e depois, já em 2019, o primeiro ano de governo dele. Ele e seus apoiadores são tão movidos pela destruição que, de certa forma, muitos de nós vivemos uma espécie de melancolia coletiva agora. Ainda mais com a intensificação dos efeitos do colapso climático junto com o negacionismo crescente da ciência. Ainda mais com o genocídio da população negra justificado cada vez mais pela busca incessante por essa tal de segurança pública.

2019 também foi o ano do rompimento da barragem de rejeitos de minério em Brumadinho. Vai fazer um ano agora e eu ainda me lembro de quando li a primeira notícia e alguns dias depois passei perto do rio Paraopeba e ele já tinha uma cor diferente, de toxidade, de morte, de fim. Ainda há 17 pessoas desaparecidas. 253 mortos. Eu nem sei direito o que dizer, mas sei que certas tragédias e crimes precisam ser lembrados.

O Ano do Macaco fala de tempo. É isso. E tempo é memória, morte, momento e vida. E a gente se confunde, sonha, se perde e conversa com o que já está no passado o tempo todo. O passado importa, a memória também, quem somos perpassa por isso e é nas nossas lembranças que mantemos o que importa para nós vivo, mas talvez a gente precise falar mais de futuro ou aprender a falar de passado de uma outra forma. Não sei. Hoje, alguns dias depois do ataque ao Irã por parte dos EUA, vi muita gente falar nas redes sociais sobre o fim do mundo. Ele parece tão próximo e o meu principal impulso ao notar isso é tentar lembrar de quando ele parecia distante. Talvez eu deveria era pensar em um outro lugar e tempo em que o fim do mundo parecesse uma ficção e trabalhar para construir isso. Com certeza seria mais produtivo, mas eu sei lá se quero mesmo ser mais produtiva. Ser produtivo não está ajudando muito a gente no geral, né?

2020 é o Ano do Rato e, como sempre, eu não faço ideia do que isso significa, mas eu realmente acho que daria um bom nome de um livro que talvez narre o fim do mundo ou talvez não. Espero que não. Só consigo pensar que quero acreditar que esses ratos são fênix e que algo vai renascer dessa época e, sem perceber, sinto que comecei a conversar sobre isso com a placa da pousada que a Patti Smith se hospedou em Santa Cruz.

Ler esse livro foi um processo bem mais demorado que eu imaginava, porque eu decidi, na página 40, que eu leria para reaprender a sentir o tempo passar. Não como notícia, como cronômetro, como agenda, mas como tempo, aquele conceito que mistura o passar dos segundos, minutos, horas, dias com o clima e o efeito dele na gente e no todo. Quando terminei de ler e comecei a escrever, chovia. Agora só ameaça, mas eu me sinto estranhamente tranquila. As nuvens estão escuras, mas ontem também estava e grande parte do dia hoje foi lindo mesmo assim.


Tradutora da obra: Camila von Holdefer.


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“A vegetariana”: Han Kang, Coreia do Sul, autonomia e violência

Foto de Mônica de Godoy para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira seu exemplar aqui.

“A Vegetariana”, obra da sul-coreana Han Kang, ganhou o mundo após vencer o Man Booker International Prize 2016 com um romance dividido em três partes, cada uma delas com um narrador diferente. Yieonghye é a protagonista dessa história contada inicialmente pelo seu marido, depois pelo seu cunhado e, por último, por sua irmã.

A decisão de Yieonghye de deixar de comer carne é o que move, inicialmente, o enredo. Tudo parece começar ali, ao menos para os três narradores, e o livro se desdobra numa sucessão de acontecimentos decorrentes desse ato. O vegetarianismo em si não é o foco, ele funciona apenas como a engrenagem visível aos olhos dos outros desse processo que a protagonista passa e o livro aborda.

O marido

O marido estranha a escolha aparentemente abrupta pelo vegetarianismo, marcando em sua narração, que a personagem, até então, gostava de carne e cozinhava belos pratos a partir desse ingrediente. Ele fala isso inicialmente em tom de preocupação, mas logo se percebe que ele só se importa com as possíveis consequências do comportamento dela em sua vida.

O marido evidencia também o quanto vê a esposa como um ser sem vontades, que parece não se importar ou até gostar de servi-lo. Ele a considera uma mulher comum, de um jeito negativo, e fala que a escolheu justamente por isso. O vegetarianismo dela quebra a construção que ele fez sobre a própria esposa e seu próprio casamento. Ele se incomoda com essa repentina autonomia dela, busca uma intervenção familiar e segue ignorando Yieonghye como uma pessoa. Ele a vê como uma serva, inclusive sexual. O que não parece ser nem um pouco chocante para os demais personagens do livro.

Ele parece representar o homem-médio sul-coreano em seus desejos, reações e comportamentos. A construção dele soa como uma crítica aos que parecem tanto com ele. Por isso, em alguns momentos, o que ele conta cria cenas que se assemelham a uma esquete.

A família no todo

A intervenção familiar acontece de forma emocional a partir da mãe: ela oferece um dos pratos preferidos da personagem, comidas com ingredientes caros e chantagens emocionais. Isso tudo mais de uma vez. Já quando envolve o pai, a tentativa de controle se torna obviamente violenta. Ele tenta obrigar a personagem a comer carne por meio da força. Ela age contra isso violentando-se. Todos os membros da família parecem vê-la como um fardo bem antes disso acontecer, somente com a decisão dela de não comer carne, no caso, mas é o pai de fato age contra ela e mostra a figura autoritária e centralizadora que é.

A família, o tempo todo, trata o marido de Yieonghye como uma espécie de vítima dela. Eles entendem que ela é uma vergonha, um fardo, um incômodo para ele e deixam bem claro que ele detém o direito de abandoná-la.

O cunhado

Casado com a irmã da protagonista, ele é um artista que se coloca como um homem que não se importa em ver a esposa ser uma empresária de sucesso. Ele se vê como um cara muito diferente do marido da Vegetariana, mas é apenas uma outra versão daquele mesmo homem. Ele sexualiza, explora e violenta as mulheres que o cercam e usa as vulnerabilidades delas ao seu favor e com a desculpa de que é em nome da arte ou mesmo de si.

A irmã

A narração da irmã de Yieonghye amarra toda a história. A partir de suas lembranças, ela recorda a vida dela e de sua irmã desde a infância. Ela é a única que tenta entender a Vegetariana, olhar para ela de verdade, ainda que limitada pela raiva, pelo perdão talvez condicionado pelo cuidado que ela assume com todos, provavelmente por ser mulher, e pelo amor que sente.

A irmã faz uma investigação interna sobre sua família, quem Yieonghye foi e agora é e também sobre si mesma para tentar entender e lidar com aquela sucessão de acontecimentos. Essa é a parte mais misteriosa do livro, aquela que não dá respostas, apenas cria mais perguntas.

A vegetariana, sua autonomia e a violência

A única voz da personagem está no relato dos narradores sobre os sonhos que a perseguem. Ela não narra a própria história. Tudo que a motiva ou desmotiva fica como um mistério que a gente tenta desvendar junto com a irmã da personagem, sendo que mesmo a irmã narra por uma ótica própria que também apaga Yieonghye, ao menos de alguma forma.

Não narrar a própria história é ter retirada, mais uma vez, a sua autonomia, que parece ser algo que foi podado na personagem durante toda a vida. A violência que Yieonghye nega, ao se tornar vegetariana e depois ao se recusar a comer, é o que sempre a cercou e a impactou. Ela fez parte daquele mundo que poda, controla e violenta e a negação surge dessa tomada de consciência que parece ter vindo a partir dos pesadelos que a atormentam.

Com a leitura, a gente percebe que parte da violência que a cerca e a impacta é exercida principalmente homens e que isso é quase invisível justamente pela naturalização de determinados comportamentos e o que é esperado de cada gênero, de cada relação. Han Kang, com essa obra ficcional que mescla características fantásticas e até de terror com cenas comuns, conta muito sobre o que é ser mulher na Coreia do Sul e aborda também questões como casamento, família, trabalho e sociedade.


Tradutora da obra: Jae Hyung Woo


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“Talvez precisemos de um nome para isso”: um poema sobre cabelos e outras coisas

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o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos

Um poema longo, dividido em dez partes, forma o livro de estreia de Stephanie Borges, o “Talvez precisemos de um nome para isso”. Um poema longo, dividido em dez partes, é algo que eu nunca resenhei antes. Já na estrutura, o livro me obrigou a sair da minha zona de conforto literária e encarar versos livres, diretos, um poema que narra e a força das palavras que formam uma obra que trabalha a questão do cabelo de forma pessoal e coletiva sem se perder nas possíveis apropriações do mercado.

“Talvez precisemos de um nome para isso” venceu em 2018 o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia, e trata de temáticas atuais e que parecem conversar com o leitor, apesar do formato incomum para quem, como eu, se acostumou a ler livros de poesia que não são formados por um texto único.

mas não confunda
o poder e o produto
é bom para alguém que continuem acumulando
shampoos condicionadores
antifrizz finalizante
pomada mousse
restaurador ampolas
e esqueçam

Stephanie Borges usa experiências pessoais, referências literárias e musicais, cartas de Tarot, mitologia, informações científicas e receitas naturais de hidratação para criticar as cobranças estéticas e capilares voltadas para as mulheres, sobretudo as negras com seus cabelos crespos e cacheados, e falar sobre cabelos, vida e identidade de uma maneira diferente.

O cabelo feminino carrega significados culturais e esse poema tensiona vários deles. Esses significados perpassam todo o corpo e o comportamento esperado das mulheres, mas é no cabelo que eles parecem mais visíveis, provavelmente por causa da naturalização das cobranças referentes a isso no cotidiano brasileiro. “Não parece tão grave, afinal, é só o cabelo”, alguns podem dizer, sem pensar no quanto as cobranças capilares que permeiam a feminilidade se relacionam diretamente com o racismo, o machismo e ao sofrimento das mulheres associado a eles. Engana-se, entretanto, quem acredita que esse poema é só sobre isso ou mais sobre sofrimento, dor e denúncia do que qualquer outra coisa. Ele aborda também a descoberta de si e a construção de uma outra coisa que foge de tudo isso. O cabelo também é um caminho para se chegar a um outro lugar.

é triste
que existam meninas virgens, mas seus cabelos não
e naturalizemos a beleza pela dor
a ponto
de parecer normal
o ferro quente carinhosamente
chamado de chapinha,
queimaduras de hidróxido de sódio e guanidina
me avisa quando começar a arder
pra gente lavar, tá

Ninguém parece ver muito problema nas intromissões acerca dos fios alheios, ainda que as pessoas usem termos racistas para fazê-las. Falam tanto de domar cabelos e sumir com o volume que nem percebem o quanto essas expressões se relacionam com o desejo machista de controlar mulheres e torná-las cada vez menos notáveis, mais invisíveis. Essas e outras frases são utilizadas para pressionar alisamentos, relaxamentos e tingimentos e simbolizam a pressão social para que as mulheres tenham uma aparência específica, ainda que ela fuja totalmente de sua natureza. Esse controle sobre a aparência feminina que surge nessas e outras cobranças é uma maneira de nos ocupar e nos atrapalhar a buscar caminhos além das possibilidades que nos são apresentadas como as únicas possíveis.

e embora hoje transição seja a palavra
há um tempo era assumir
repare a estranha necessidade
de quem se apropria do que sempre foi seu

Stephanie Borges expõe como toda essa cobrança racista — e machista — sobre os cabelos, especialmente femininos, foi normalizada e afeta, inclusive, o próprio mercado de trabalho que ainda hoje insiste que cabelos cacheados e, principalmente, crespos não sugerem profissionalismo. E vai além ao também fornecer ferramentas para que o leitor repense a estética de nossa época a partir de confrontos entre o que é dito sobre cabelo em diferentes mitologias, como a iorubá, ajudando quem lê a criar e recriar novas imagens para pensar o mundo. Imagens menos colonizadas, eu diria.

Um cabelo não é só um cabelo. Os fios vão muito além da estética, investigá-los é uma maneira buscar o que veio antes e entrar em contato com histórias que ainda não conhecemos. Falar sobre não é ser fútil, é saber olhar ao nosso redor e entender símbolos, comportamentos e culturas. Stephanie, nessa obra, aborda padrões de beleza, racismo, identidade, descoberta e ancestralidade olhando para si e para a sociedade. É justamente nessa mescla entre o privado e o público, o passado e o presente, as velhas e novas ideias, e as diferentes linguagens e referências que a poesia da autora nos impacta.

No fim, os fios de cabelo que formam esse livro se emaranham aos nossos próprios, sejam eles lisos, alisados, relaxados, ondulados, crespos ou cacheados e nos fazem pensar mais sobre e com a própria cabeça. Da raiz até as pontas. Os fios guardam boas histórias e a gente precisa ir atrás delas.

os cabelos guardam
histórias de origens
as passagens do tempo
todo fio
contém vestígios
e carrega desde o princípio
a iminência de sua
queda


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“Pequenas realidades”: o terror nas miniaturas

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Casas de boneca são presentes comuns para meninas. Brincando com uma, elas aprendem sobre disposições de cômodos, decoração e limpeza, emulando a vida que se espera que uma mulher tenha. Essas casinhas, dadas somente para meninas, reiteram a divisão sexual do trabalho e a ideia de que o espaço privado é o único território feminino por direito. Elas são um lembrete das funções que homens e mulheres devem ter. Por isso, para muitos esses lares em miniatura representam ingenuidade, pureza, futilidade e delicadeza.

A partir desse objeto considerado tão feminino, Tabitha King construiu uma narrativa única e sombria em seu primeiro livro “Pequenas Realidades”. Obra publicada pela 1ª vez em 1981 e que, antes dessa edição primorosa da Darkside com tradução de Regiane Winarski, recebeu no Brasil o título de “Miniaturas do terror”.

Usando elementos como tecnologia, habilidosa construção de personagens, múltiplas vozes, recortes de jornais e situações de tensão, Tabitha presenteia o leitor com uma obra que prende, incomoda e nos faz questionar sobre os limites da humanidade, nossa atração pelo controle de situações e pessoas e esse interesse coletivo e reiterado por reproduções do mundo real que vão muito além das casas de bonecas, sejam elas majestosas réplicas da Casa Branca ou não.

Na obra, as miniaturas domésticas não são parte do universo infantil como podemos imaginar em um primeiro momento, mas objetos de cobiça de colecionadores, curadores, fãs e pessoas comuns encantadas por uma versão adaptada desse nosso mundo nada palatável. Sendo assim, poder, dinheiro, sexo, narcisismo e jogos de manipulação circundam o que antes parecia apenas um mimo infantil.

De forma indireta, a narrativa apresenta reflexões sobre isolamento, padrão de beleza, controle, família e objetificação. “Pequenas realidades” vai muito além das miniaturas, ela trata sobre questões humanas e as disfunções que as acompanham. O terror dessa história está justamente no que parece poder existir fora das páginas do livro.

Tabitha King nos apresenta personagens ordinários e outros odiosos, todos cheios de nuances, e é justamente a relação deles uns com os outros que faz a história caminhar, enquanto nós, leitores, ficamos inquietos com o que promete vir, mas ainda não conhecemos. A autora explora nossa curiosidade, enquanto expõe e trabalha o psicológico de seus personagens de maneira minuciosa, mexendo com o leitor ao explorar o lado vil dos desejos e comportamentos humanos.

Casas de bonecas parecem completamente inofensivas e podem ser vistas até mesmo como desinteressantes, mas na escrita de Tabitha ganham um ar sinistro. Depois da leitura, nunca mais brincar de casinha parecerá tão simples e puro. Quanto poder pode morar na possibilidade de controlar o que consideramos apenas objetos?


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ABCDelas: mulheres profissionais em foco

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Chegou em minhas mãos um abecedário diferente. A cada letra há uma profissão, uma mulher que a exerceu e uma linda ilustração em aquarela para representá-la. O livro é do selo Cia das Letrinhas e foi escrito e ilustrado por Janaina Tokitaka, roteirista de televisão e autora de quarenta obras voltadas para o público infantil e juvenil.

Anésia Pinheiro Machado, a Aviadora, inicia esse livro que conta com minis biografias e historinhas para exemplificar a vida de cada uma das citadas. Depois temos, por exemplo, Nair de Tefé como Desenhista, Maria Firmina dos Reis como Escritora, Kate Warne como Investigadora, Naomi James como Navegadora, Inez Beverly Prosser como Terapeuta, Ng Mui em Kung Fu e muitas outras mulheres que juntas completam esse alfabeto de profissões feito por pioneiras ou quase isso.

Cada uma das mulheres citadas nesse livro carrega em suas histórias uma espécie de enfrentamento ao que se esperava de seu gênero. Algumas, inclusive, também de sua etnia. Praticamente todas sofreram tentativas de apagamento sistemático de suas presenças e ações em algum nível e é por isso que só agora, após várias tentativas de resgate e, principalmente, divulgação com viés feminista, que passaram a ser conhecidas pelo grande público, incluindo crianças.

A importância desse tipo de trabalho estar disponível para meninos e meninas em formato de livro ilustrado está no fato de que desde crianças somos condicionados a acreditar que determinadas profissões são masculinas e outras femininas. Sendo as áreas consideradas femininas vistas como espaços onde o brilhantismo não tem tanta importância ou lugar. Nesse sentido, uma pesquisa que reuniu profissões das Universidades de Nova York, Princeton e Illinois, nos Estados Unidos, concluiu, por exemplo, que meninas, já aos seis anos de idade acreditam que genialidade é algo masculino.

Livros que mostram mulheres de um passado distante conquistando espaços, exercendo profissões diferentes e marcando presença na história acabam por combater estereótipos de gênero, fomentar a autoestima feminina e, de certa forma, transformar significados que damos culturalmente a certas palavras, especialmente quando elas se relacionam com profissões. Quem navega pode ser uma mulher. Quem estuda biologia e geologia também.

Um abecedário de profissões que valoriza mulheres, especialmente aquelas pioneiras, ajuda a construir e sedimentar no público infantil ideias positivas sobre a capacidade feminina. Meninos e meninas que crescem cercados de ideias como as promovidas por essa obra se tornam meninos e meninas que prezam pelo combate ao machismo.


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O Diário de Nisha: a Partição pelos olhos de uma menina

Além das notícias, muitas vezes bem superficiais, pouco conhecemos sobre as relações conflituosas entre Índia, Paquistão e a região de Caxemira. Ainda que essa animosidade entre povos, territórios e países possa colocar a vida de muitas pessoas em risco até hoje, as informações que chegam até a maioria de nós são insuficientes até mesmo para desenvolver empatia por qualquer das partes envolvidas. Tudo que acontece nessa região parece longe demais da gente. Embora nossa sociedade consiga se sensibilizar por tragédias e histórias tão distantes quanto, mas protagonizadas por outros personagens, esses geralmente europeus ou seus descendentes.

A verdade é que para sentir essa proximidade é preciso saber mais sobre o que se passa, de verdade, no cenário dessas histórias que, narradas de maneira tão distante pela mídia tradicional, parecem ser ficcionais de um jeito ruim. Falta, na maioria das vezes, conhecer o contexto e um pouco mais sobre os personagens. E, para isso acontecer, se faz necessário voltar ao passado e analisar os acontecimentos que influenciaram nos problemas atuais. Nesse caso, saber um pouco mais sobre a Partição se torna essencial, porque esse momento afetou e muito a história e o presente do sul da Ásia e tem relação direta com as consequências de anos de colonização inglesa.

A região onde se localiza hoje a Índia, o Paquistão e Bangladesh era uma só e passou 200 anos sob o domínio britânico, apesar das revoltas da população. A Partição aconteceu em 1947, após o fim da colonização, quando a Índia, maioria hindu, e o Paquistão, maioria muçulmana, se separaram e deram origem a dois países, a uma onda de violência e a um dos principais episódios de migração em massa da história mundial.

Estudiosos consideram que a interferência dos ingleses nas comunidades durante o processo de colonização e de descolonização desequilibrou a convivência entre os grupos que compunham aquele território, o que afetou como a população se via e percebia uns aos outros. Esse processo, junto com outras questões como as reações de lideranças, catalisou a animosidade entre hindus e muçulmanos durante o processo de criação dos dois estados soberanos em questão e deu origem a esse marco histórico carregado de dor, trauma e sangue.

Essas novas fronteiras, que agora já possuem mais de 70 anos de existência, ainda latejam. A Partição e o que aconteceu para e a partir dela afetou histórias individuais, familiares e de comunidades inteiras e isso reverbera desde então.

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“O Diário de Nisha”, obra de Veera Hiranandan, traduzida para o português por Débora Isidoro, é tão importante, ainda que seja uma obra de ficção, por contar uma história de uma família nesse contexto e possibilitar que os leitores das mais diversas idades entendam melhor esse momento histórico e as consequências dele na vida das pessoas.

Veera, que cresceu nos EUA, mas possui raízes em outras culturas, se inspirou na história da família de seu pai para escrever. Ele, com apenas nove anos, saiu de Mirpur Khas e foi para Jodhpur junto com seus familiares durante a Partição, assim como a protagonista do livro. A infância tímida e observadora e o fato de Veera ser filha de pai hindu e mãe judia, enquanto Nisha tem como pai um homem hindu e uma mãe muçulmana, são outras semelhanças entre personagem e autora.

O livro é narrado de forma epistolar por uma menina de 12 anos. As cartas que ela escreve no diário que ganhou de um empregado de sua família, que é muçulmano como sua mãe, são destinadas a ela. A mãe de Nisha, entretanto, não está viva. Ela faleceu faz tempo e as cartas que contam tanto sobre a Índia e o Paquistão são, principalmente, um meio que a personagem encontrou para se expressar e lidar com essa ausência.

Durante a trama, vemos as consequências dessa divisão de territórios e povos se infiltrarem na realidade de uma família e, nós, como leitores, acompanhamos cada momento com o coração apertado e conhecemos, pelo diário da protagonista e imaginação da autora, algo que vai muito além do conteúdo jornalístico, histórico ou mesmo enciclopédico sobre esse episódio.

A narrativa, além de um diário de uma pré-adolescente e um relato de um conflito, é também sobre a condição humana. Nisha não só passa por uma viagem migratória forçada e perigosa, ela lida com quem ela é e descobre mais sobre si, suas relações e vive um embate entre passado, representado pela mãe e suas raízes muçulmanas, e futuro, que é totalmente incerto, especialmente diante da Partição.

Nesse sentido, a culinária se transforma para a menina, tão calada e tímida, em um meio de refúgio, comunicação, conexão e manifestação de afeto. Aquela comida tão colorida, temperada e com raízes, aparentemente diversas, se transforma na voz dela perante as pessoas que a cercam. Os vários pratos que ela come e prepara nos dá meios para que imaginemos melhor o mundo que cerca Nisha e o que ela quer manter junto dela. Assim vemos chapatis, parathas, biryanis, rasmalais, sai bhajis e muitas outras iguarias comuns da região se tornarem uma espécie de novo lar e algo que representa as ligações daquela família.

Vale ressaltar que Amil, irmão da protagonista, é quase um oposto dela e ainda assim um de seus maiores companheiros. Ele não é quieto, fala bastante, não presta atenção nas aulas e prefere desenhar, enquanto ela, por outro lado, é estudiosa e fala pouquíssimo. Nisha admira seu irmão por ser quem é, ao menos na maior parte do tempo, e defende seus talentos. Amil sofre com as expectativas do pai médico, que a gente imediatamente pensa que se dá daquela forma por questões de gênero. Nesse sentido, acaba impossível não imaginar como seria a vida de Nisha se ela fosse como Amil.

“O Diário de Nisha” conta uma história que se passa sete décadas atrás, mas que contém valiosas lições para o mundo contemporâneo. Nós precisamos olhar para as migrações forçadas, para os refugiados um a um, pensar em Direitos Humanos, promover a dignidade da pessoa humana e também investigar, para evitar que aconteçam ou remediar seus efeitos, as origens desses deslocamentos, que hoje se manifestam, inclusive, por questões relacionadas ao colapso climático.


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Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


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Amora: amor, paixão e descoberta nas relações entre mulheres

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Quando falamos de histórias de amor, pensamos em príncipes e princesas, reis e rainhas, pais e mães, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Elizabeth e Mr. Darcy e vários outros casais, compostos por um homem e uma mulher, que protagonizam novelas, filmes, livros, peças de teatro, séries e até pinturas. Crescemos com essas referências de amor, paixão e relacionamento. Elas nos cercam desde muito jovens e, de alguma forma, nos ensinam sobre o mundo, nossa cultura e as relações e sentimentos humanos.

Nessa vasta lista de histórias de amor famosas, não há um casal composto somente por mulheres ou somente por homens. Não há nenhum relacionamento aberto, nenhum trisal, nada que fuja do casal homem e mulher “tradicional”. Mas há, em várias casos, ciúme doentio, controle obsessivo, um certo grau perseguição e insistências que, quando feitas por homens, são quase sempre colocadas como atos de romantismo. O que isso nos ensina sobre amor, paixão e relações humanas?

Com base nessas histórias que nos cercam, dá para gente pensar que homens têm tendência natural a trair e mulheres a se sacrificar e que o amor tem arranjos fixos e é uma exclusividade heterossexual e até branca. Afinal, quantos casais negros ou de brancos com negros vimos em filmes, novelas e livros? Muito poucos, não é mesmo? Só que amor não é isso, pelo menos não necessariamente, e o “natural” e o “comum” são construções culturais que influenciam como percebemos e vivemos o sentimento mais falado pela humanidade.

Em Amora, livro de contos escrito por Natalia Borges Polesso e premiado com o Jabuti, as histórias de amor contadas são várias, algumas também apresentam traições, términos e mágoas, outras são de descoberta, família, desafios, rotina e amor de uma vida toda. A ligação entre elas está no fato de todos os contos falarem sobre as relações amorosas entre mulheres ou na reação que essas relações causam ao redor das personagens ou nelas mesmas, ainda que não haja um relacionamento particular em destaque.

Os encontros, permanências e desencontros entre as personagens permitem que a autora discorra sobre a condição humana, lembrando a quem lê que a vida das mulheres que se relacionam com mulheres é comum como a dos heterossexuais que tanto vemos na literatura, no cinema e outras mídias. Com exceção, claro, das experiências específicas relacionadas à vivência da discriminação e preconceito, como o estupro corretivo, que é assunto de um único conto da obra.

A velhice, o medo de morrer, o cotidiano, os traumas de relacionamentos passados, os conflitos familiares, o cuidado, a dor da rejeição, a doença, o estranhamento, a insegurança, a descoberta, a vontade de fugir, o sexo e o amor perpassam pelos contos em diferentes formas, ritmos e estruturas, mostrando o quanto tudo isso e mais um pouco são questões comuns a todos nós, ao menos em algum nível.

Em “Vó, a senhora é lésbica?”, conto que foi tema de questão de Enem e de um curta-metragem, se une, numa mesma história, questões como a invisibilidade lésbica, idosas que se relacionam entre si, família, omissão e a descoberta, ainda cheia de receio, de uma personagem jovem sobre sua própria sexualidade. O amor e a paixão estão presentes, como também estariam numa história sobre relações heterossexuais, mas há questões que surgem na trama justamente porque apenas um formato específico de casal é encarado como correto em nossa sociedade.

A sexualidade lésbica ou bissexual é tratada de forma natural pela autora, que aborda algumas dificuldades específicas de quem vivencia o amor entre mulheres numa sociedade ainda tão preconceituosa, mas também conta histórias que não tratam necessariamente de lesbofobia.

Os relacionamentos abordados em Amora não são perfeitos. São humanos em tudo, inclusive nas falhas e nos prazeres, e às vezes reproduzem até certas lógicas problemáticas comuns ao padrão dos relacionamentos heterossexuais, como a de chamar outra mulher de vadia devido ao comportamento sexual que ela tem. Isso dá um ar muito verossímil e comum ao que é contado, mostrando o quão complexas são as relações humanas, independente da sexualidade dos envolvidos.

Durante a leitura, sentimos que todas aquelas narrações poderiam ser casos que chegam aos nossos ouvidos por uma das partes ativas da história e o poder desse livro está justamente nisso. Tudo ali parece próximo demais e é humano demais, apesar do mundo ainda insistir em excluir esses casais. Nessa obra, a heterossexualidade não é a dona do amor, da paixão e dos relacionamentos amorosos. Ela está em segundo plano. O que foge totalmente do que vemos cotidianamente quando falamos sobre isso. Diante desse contexto, a literatura de Amora também serve como uma ferramenta dialógica e de enfrentamento.


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“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

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Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


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“Olhos d’água”: histórias de sangue, dor, afeto e esperança

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É possível ver histórias em tudo: nos nascimentos, nas mortes, nas relações que vivemos, no cotidiano, na memória e até nos pensamentos, situações embaraçosas e objetos que nos circundam.

Somos contadores de história, querendo ou não, mesmo quando os relatos que saem de nós tratam sobre nossas próprias vidas e jamais se tornem um texto escrito. Narramos e justamente por isso gostamos tanto de ouvir e ler outras narrações. Narramos como um forma de nos colocar no mundo. Narramos porque precisamos. Conceição Evaristo sabe muito bem disso e por isso cunhou o termo escrevivência para definir a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, das experiências de vida e da cultura de seu povo, o negro. A narração, que é parte inegável da vida humana, ganha contornos políticos quando é feita para visibilizar histórias próximas que seguem ignoradas e se torna uma ferramenta poderosa de voz, preservação de memória, denúncia e humanização.

“Olhos d´água” reúne quinze histórias curtas de dor, sangue, vida, família, amor e morte. Nesse livro, a autora narra a fome, a miséria, a violência, o genocídio do povo negro e dá voz às mulheres negras e suas vivências. Sem esquecer de também mostrar os laços afetivos dos personagens, seus conflitos internos, reflexões e ancestralidade. Os contos escancaram o mundo de exclusão que muitos vivem e outros tantos se negam a ver e humaniza quem a sociedade a todo custo quer desumanizar com personagens humanos que sentem “dor-amor”, “coragem-desespero” e outros tantos sentimentos, entre eles, a esperança.

Conceição Evaristo narra acontecimentos brutais que poderiam ser realidade, mas não de um jeito jornalístico ou sensacionalista. A escrita da autora, muito poética, não explora os corpos vivos, mortos ou marcados para morrer de uma forma impessoal. Ela dá subjetividade, história e relações ao que é tratado comumente como estatística e faz com que aquilo soe como algo próximo ao leitor. Ao não explorar esses casos como meras manchetes, a escritora intensifica o incômodo e faz com que ele dure além do tempo de leitura do conto. Ela evidencia o que é brutal e as consequência da naturalização disso sem tornar seus personagens objetos. O conto “Maria”, “Ana Davenga” e o “Ei, Ardoca” são bons exemplos disso, porque nos apresentam histórias que facilmente estariam no jornal sendo contadas de uma outra forma.

Quando a autora usa palavras como mar-amor, flor-criança e viver-morrer, as contradições entre brutalidade e afeto ficam evidentes. Essa hifenização une muitas vezes antônimos, o que ajuda a compor a oposição entre o estilo de escrita da autora com o que é narrado, nos faz pensar no contraste entre essas histórias com as da elite branca e, principalmente, expõe como a vida é repleta de contradições.

Essa leveza do estilo de escrita, muito marcada pela oralidade, se contrapõe até mesmo com a linguagem dos personagens. Em “A gente combinamos de não morrer”, Bica conta que escreve desde sempre e relata um episódio que aconteceu com ela na escola quando tinha sete ou oito anos. Durante um exercício de separação de sílabas, ela pediu para ir ao quadro negro mostrar as palavras que tinha formado: pó, zoeira, maconha, craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde. O que a personagem escreve é uma amostra do mundo que a circunda e que Conceição expõe. Entre as tantas frases bonitas, bem feitas, cheias de sonoridade, há também a denúncia de qual é a linguagem que cerca as crianças negras que protagonizam essas histórias.

A sexualidade se faz presente na vida da maioria dos personagens criados pela escritora e nem todos são heterossexuais. Em “Luamanda”, a mulher que dá nome ao conto deseja e vive seu desejo sem se limitar, inclusive, a se relacionar somente com homens. Ela, ainda que já esteja um pouco mais velha, segue gostando de sexo e buscando viver histórias de amor. Já em “Beijo na face”, uma mulher vive uma história de amor secreta com outra mulher, enquanto está presa a um casamento infeliz e abusivo. Ainda que muitas personagens sofram violência misógina e não tenham acesso ao que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, elas ainda assim tentam se colocar como donas de suas próprias histórias.

O conto que dá nome ao livro e o inicia é movido pelas recordações de uma personagem que busca se lembrar da cor dos olhos da mãe que está distante. É delicado, poético e afetuoso, apesar das memórias narradas denunciarem as dificuldades passadas por essa família. Essa é uma das muitas histórias desse livro que trata sobre maternidade e ancestralidade. Iniciar com ela não é um mero acaso e a gente percebe bem isso quando chega ao fim da obra e se depara com o conto Ayoluwa.

É simbólico que o último conto seja sobre fazer brotar a força da esperança e que isso aconteça numa comunidade que ampara uma mulher em sua maternidade. Embora no caminho até essa história, a gente encontre a esperança surgindo, como acontece no “Beijo na face” e no “Quantos filhos Natalina teve?”, a violência, a exploração do trabalho, o abandono e a morte, principalmente dos homens, é o que se destaca.

Conceição Evaristo escreve sobre sobrevivência e sobre cotidiano, mas não sobre o cotidiano que é contato nas novelas e sim aquele que estampa de forma sensacionalista os jornais feitos de sangue. A autora, por meio da construção de personagens tão eles, tão gente, coloca essas histórias antes tão marginalizadas no centro do debate sem se amparar no senso comum racista e machista que vigora quando essas narrativas partem da visão dos brancos da elite. Com esse livro, a autora mineira transforma uma realidade marginalizada em literatura e denuncia as consequências da exclusão e da discriminação sem deixar morrer a esperança de que um dia isso seja diferente.

Se eu tivesse que definir esse livro numa frase, eu diria que ele é sobre a esperança de estancar o sangramento que o racismo causa.


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