“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

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O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

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“Sorte”: uma história sobre destino e mulheres

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Sorte é uma palavra constantemente ligada à destino e, por isso, um ótimo título para um livro que busca contar uma história que poderia ser a de várias mulheres esquecidas que nunca puderam atuar ativamente para mudar os caminhos que foram traçados para as suas vidas quando elas nasceram. Caminhos esses que foram definidos por fatores como nascer mulher, nascer branca, negra ou indígena ou vir de uma família pobre.

Com apenas 95 páginas e nomeado com essa palavra de cinco letras e profundo significado, esse livro de Nara Vidal, brasileira hoje radicada na Inglaterra, narra uma história que nos faz refletir sobre as dores que a pobreza, o machismo e a colonização trouxeram para as mulheres.

Focado em Margareth Cunningham e sua família, mas com grande participação de Mariava, uma escrava negra que trabalha na mesma casa portuguesa que as irlandesas, o romance fala sobre imigração, violência, sororidade e exploração dos corpos das mulheres, abordando de forma sutil as diferenças dessa exploração entre mulheres negras escravizadas e mulheres brancas pobres e imigrantes.

A família para a protagonista não se apresenta como um espaço de conforto, companheirismo e amor, mas como um local de disputas, abandono e dor. Apesar de haver um carinho entre as irmãs, os homens da família parecem pertencer ao grupo apenas como detratores de todas as mulheres dali. O pai, por exemplo, insistiu em tentar ter filhos homens a todo custo, porque as várias filhas mulheres não serviam para ele.

O livro se baseia em fatos históricos, como a Grande Fome na Irlanda, a escravatura no Brasil e a existência de conventos católicos irlandeses que “acolhiam” mulheres caídas e cria, a partir disso, um romance que é marcado também pelo não dito, como toda a história das mulheres. Sem perder a chance de demonstrar o quanto o catolicismo, forte nos países que atravessam a vida dessa família, atua e afeta na vida das mulheres.

A partir de uma narrativa unida pelo compartilhamento de uma história sobre uma ilha mágica de esperança, fantasia e mentira, Nara Vidal escreveu sobre essas mulheres — e seus filhos — esquecidas e esquecidos enquanto personagens e pessoas, essas pessoas que ainda moram, na história oficial, na literatura e até nas histórias populares, no lugar anônimo reservados às Outras e Outros. O livro levou o terceiro lugar do prêmio Oceanos em 2019 e foi publicado pela Editora Moinhos.


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Costuras para fora: o íntimo e o cotidiano entrelaçados e expostos

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Costurar é uma ação que remete ao ato de juntar com agulha e linha dois pedaços de alguma coisa, seja pano, pele ou mesmo ideias. A costura é feita ponto por ponto, que surge a partir de algum esforço para unir o que foi desunido pelo corte, pela ruptura, pelo abismo.

Colocar as costuras para fora funciona como uma exposição desse processo de possível separação ou diferença, (re)união pelo esforço da agulha, da linha e do pulso ou máquina e o nascimento da cicatriz do traço pontilhado que une as partes costuradas.

No livro de contos “Costuras para fora” da Ana Squilanti, as grandes e pequenas questões da vida dos personagens são expostas junto com o cotidiano mais miúdo e as bagagens que cada um deles carrega. Essa forma de se contar histórias, enquanto nos apresenta elementos que lembram uma crônica ou um bate-papo, torna possível que a gente, enquanto leitor e pessoa humana, se identifique, crie empatia e entenda as dúvidas, as dores e os traumas de cada narrativa. Poderia ser a nossa história, mas é a de um personagem de ficção que às vezes se parece mais com a gente ou com alguém que a gente conhece do que com os seus respectivos perfis das redes sociais.

Somos todos quase uma colcha de retalhos de tão recortados, costurados e cheio de pontes que podem ser rompidas com a ajuda de somente uma tesourinha e um pouco de vontade ou rasgadas de repente até por acidente. E depois costuradas de novo. Ou não. Ana Squilanti sabe disso e explora a força literária das vulnerabilidades, inseguranças, segredos e sentimentos que costumam ser escondidos, mas são tão presentes e reais que sem visualizá-los não parece haver vida em qualquer caso ou personagem. Inclusive crianças e idosos.

O corpo, o padrão e o conto

“Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem ter sido escritos para fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos principais destaques da obra talvez seja o “Bonita de rosto”, que explora os efeitos da batalha contra o próprio corpo e as pressões para se encaixar nos padrões de magreza e beleza. A honestidade e a crueza da narradora dessa história para descrever suas práticas sofridas em busca desse corpo perfeito e inatingível expõe a guerra que mulheres, especialmente as gordas, são incentivadas a travar por causa do que se cobra como feminino, inclusive pelos doutores. Mais uma vez, a exposição dos bastidores de algo que é extremamente comum nos permite perceber o que costumamos negar estar ali. Não há sacrifício suficiente quando se busca algo impossível, mas a culpa por não conseguir caber no que se espera é ilimitada.

O cuidado invisível como foco

Já “Trava de fogão” e “Ponto Falso” são algumas das narrativas que chamam a atenção por trazer o foco para o cuidado, sempre visto como invisível, mesmo sendo essencial. No primeiro conto, quem cuida é uma mulher de um homem idoso que nunca aprendeu a viver sozinho, porque esse trabalho invisível da casa e de si sempre fica para as mulheres ao redor e ganha o nome de amor. Já no segundo, um pai cuida do filho que machucou o supercílio levando o menino para o hospital e acaba recebendo um apoio inesperado ali, ainda que eles estivessem em um espaço visto como sinônimo de cuidado.

O cotidiano como forma de aproximação

O uso de cenas banais do cotidiano é um recurso utilizado em todo o livro. É justamente nesses detalhes, inseridos de forma tão cuidadosa pela autora, que mora a proximidade do leitor com os personagens. Só que essas banalidades tem uma função muito além de formar um cenário e uma cena per si, elas são também o cerne do livro e o que liga todas as narrativas. Nos contos “Sem costura”, Nós” e “Lista de compras”, o que guia o leitor é justamente o que se tira do mais cotidiano possível. O medo do fim pode estar no apodrecimento de uma fruta e na constatação da nossa insignificância, por exemplo. A vida acontece nesses momentos que parecem desimportantes e quase invisíveis para olhares mais desatentos. A matéria-prima de nossas existências não é o extraordinário, é o miúdo.

Essa proximidade ganha contornos ainda mais interessantes quando se pensa nesse livro como uma ferramenta dialógica sobre questões humanas que perpassam a vida desses personagens. Com diversas histórias que abordam casais não heterossexuais, isso acaba ganhando também um significado político, já que essas narrativas também combatem a desumanização ao apresentar conflitos da vida que vão muito além da sexualidade isolada em si mesma, ainda que fale sobre relações e descobertas.

Da criança ao idoso, do prazer à doença, do namoro aos laços familiares entre irmãos e avós e netos. Ana Squilanti, em sua obra de estreia, percorre narrativas que partem de diferentes fases da vida e variados relacionamentos. O que torna “Costuras para fora” um excelente livro é o quanto tudo parece e é comum e próximo. A autora, com uma linguagem que muitas vezes é bem poética, oferece para o leitor a possibilidade de olhar de novo e de forma mais atenta e humana para o cotidiano, que se mostra a linha e a agulha que nos ajuda a unir os pedaços que são desatados de nós todos todos os dias.


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Uma versão reduzida dessa resenha foi publicada no site Delirium Nerd.

“Shirley”: mulheres, loucura, machismo e escrita

Imagem de divulgação

Quando mulheres escrevem histórias de violência, horror, mortes, monstros e fantasmas, a sociedade se incomoda. Ninguém espera que a mente feminina seja capaz de criar algo que fuja dos estereótipos que nos são empurrados desde a infância. Ninguém espera que mulheres sejam capazes de falar do horror e do que perturba a humanidade, quando tudo que é visto como feminino precisa ser fofo, tranquilo, bondoso e materno.

Esse estranhamento torna as mulheres que criam ou consomem essas histórias objetos de curiosidade. Afinal, a sociedade patriarcal usa esses estereótipos e muitas outras coisas como ferramentas de controle, por isso estigmatiza certos comportamentos e tenta ensinar para as outras, a partir dessa estigmatização, como elas devem se comportar sob pena de serem as próximas loucas, estranhas, esquisitas e deslocadas.

Shirley Jackson, um dos grandes nomes do terror, nasceu no dia 14 de dezembro de 1916 e morreu aos 48 anos. Ela escreveu seis romances, dois livros de memórias e vários contos, se tornando referência para autores como Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt. Ainda não li nada escrito por ela, infelizmente, mas sei que a autora é conhecida por suas histórias de terror, seus personagens atormentados e pela sua capacidade de criar e contar histórias sombrias com bastante verossimilhança. Uma excelente personagem, portanto.

Shirley, dirigido por Josephine Decker, roteirizado por Sarah Gubbins e baseado em um romance de Susan Scarf Merrell, explora a autora como personagem, brinca com o imaginário social sobre a mulher que escreve, especialmente temas como terror e mistério, e assim também expõe o terror doméstico e as consequências mentais dele. A obra então não pretende ser uma cinebiografia ou algo assim, ela somente usa uma pessoa que existiu como uma base e inspiração para se criar uma personagem, quase como a protagonista do filme faz com sua convidada.

A história do filme parece simplória e cotidiana: Shirley (Elisabeth Moss) e seu marido, professor e crítico literário, Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg) recebem um casal de recém-casados, Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young), para uma temporada. O objetivo é que eles fiquem por lá até que consigam se estabelecer e encontrar um lugar para eles. Mas essa convivência entre os casais, que parece tão boba, dá bastante pano para manga.

Na cena inicial, Rose lê o último conto de sua futura anfitriã com admiração e tenta comentar sobre ele com Fred. Fred nem liga. Essa cena tão curta, que surge antes de termos qualquer outra informação a mais, é um indício do que está por vir e expõe o quanto o machismo é algo que afeta e afetará a vida dessas duas mulheres.

A loucura, na obra, aparece como um estigma que atinge Shirley enquanto mulher solitária, muitas vezes em sofrimento, e escritora de terror, mas também como a palavra mais fácil de atribuir para qualquer mulher. Todas as mulheres, mesmo as donas de vidinhas invisíveis e insignificantes sob a ótica dos homens, podem ser doidas se seus maridos falarem que elas são e o filme usa essa ideia para falar sobre os relacionamentos amorosos em foco, enquanto também constrói uma crítica ao todo.

No fim, para os homens, donos do mundo, todas as vidas femininas são vidinhas que acontecem em segundo plano e nem possuem tanta importância assim. Mesmo Shirley sendo uma escritora tremenda, ela se sente dependente de Stanley e todo o jogo psicológico que ele faz, porque, apesar de tudo, acredita que precisa de uma validação masculina para existir como escritora — ou mesmo pessoa — para o mundo.

Isolamento, autoestima, bloqueio e processo criativo, parceria, solidão, casamento e maternidade, tudo isso são temas abordados nessa obra que, apesar de ter um caráter cotidiano e caseiro, consegue criar tensão a partir do incômodo. Algo muito ruim parece estar sempre prestes acontecer, como em uma boa obra de suspense, mas a gente logo descobre que algumas ruindades podem estar tão infiltradas no dia-a-dia comum das mulheres que podem passar despercebidas com grande facilidade.


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“Vida de Gato”: as aventuras e tragédias felinas

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A fascinação que os gatos exercem na humanidade não é nova, vide egípcios e o popular personagem Garfield, mas nos últimos anos, com a ajuda de vídeos fofinhos que donos de gatos compartilham sem parar nas suas redes sociais, eles viraram verdadeiras estrelas. Por isso, “Vida de gato” chama tanta atenção.

Com essa graphic novel traduzida por Raquel Moritz para a Darkside, o quadrinista belga Serge Baeken chega ao Brasil com um trabalho que, de certa forma, homenageia os gatos que passaram pela sua vida. Inspirado em Mascavo, que esteve com o autor durante 18 anos, ele apresenta uma narrativa focada em simular a perspectiva felina das coisas.

Com desenhos espetaculares, essa história em quadrinhos surpreende por não ser simplesmente um conjunto de relatos fofinhos de amizade entre gatos e humanos. Ao contrário do que esperamos inicialmente, as histórias contadas nesse livro são, no geral, trágicas, como são a vida da maioria dos gatos.

Apesar de ter amado as ilustrações e até mesmo a premissa da obra, o roteiro que Serge Baeken construiu não me cativou como eu imaginava. Como apaixonada por gatos e cães, me incomodou um pouco a maneira que o autor explorou essas histórias trágicas como uma questão natural, como se todos aqueles desastres evitáveis fossem uma parte invariável dessa relação de gatos e pessoas.

Como humanos, costumamos viver mais do que nossos companheiros de outras espécies e, por isso, conforme vamos envelhecendo acompanhados, acabamos também acumulando saudades. De certa forma, ter a companhia de animais de estimação nos coloca num lugar em que acabamos obrigados a nos preparar para lidar com uma perda que vai vir mais cedo ou mais tarde. Falar dos bichos que vivem com a gente, então, acaba sendo também uma maneira de falar sobre morte, acidentes, ausência, risco, saudade e amor, mas, no caso do quadrinho, talvez tenha faltado uma certa sensibilidade na abordagem.

As homenagens ficaram com cara de inventário e o que poderia ser um trunfo acabou não funcionando tão bem assim, provavelmente por causa da nossa nova noção de cuidado de animais domésticos. Ainda assim, fica evidente para o leitor que todos os gatinhos que passaram na vida dos personagens deixaram sua marca de alguma maneira.

Esteticamente “Vida de Gato” é impecável, mas ao menos para mim, as histórias de aventuras felinas de agora precisam ser fantásticas quando envolvem rua, porque a realidade não é nada agradável para os bichanos que vivem assim, ou, se realistas, centradas em gatos de casas e apartamentos protegidos por telas. Mascavo viveu muito, mas isso foi por pura sorte, como o destino dos outros gatos desse quadrinho parece nos dizer. Talvez a força dessa história esteja justamente nessa reflexão tão incômoda sobre cuidado e os riscos da vida felina.


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“Fique comigo” e a dor de uma mulher nigeriana

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Chinua Achebe é considerado um dos maiores nomes da literatura do século XX. Sua trajetória como romancista, poeta, crítico literário e intelectual o tornou conhecido no mundo inteiro, inclusive por sua atuação como mediador de conflitos políticos de sua região. Seu trabalho como escritor, além de inspiração, acabou fazendo o mercado literário tão europeizado e estadunidense se abrir um pouco para a literatura produzida na Nigéria.

Quase 85 anos depois do nascimento de Chinua e 28 anos depois de Wole Soyinka ganhar Nobel de Literatura em 1986, Chimamanda Ngozi Adichie ganhou o mundo após ter um trecho de uma de suas palestras citado numa música da Beyoncé. Com a Nigéria de novo sendo observada como um ótimo berço literário, escritoras como Buchi Emecheta, Sefi Atta e Ayòbámi Adébáyò também conseguiram um espaço internacional sendo publicadas em vários outros países. Dentre as várias obras recentes que tornaram a Nigéria conhecida entre os fãs brasileiros de literatura, “Fique Comigo”, da nigeriana Ayòbámi Adébáyò, é um destaque.

Nesse romance, o leitor acompanha Yejide em sua jornada para se tornar mãe e todas as questões familiares, pessoais e culturais que afetam suas decisões, sentimentos e reflexões a respeito. A narração do livro é dividida entre ela, a protagonista, e Akin, seu marido, ambos contando a história do casamento deles, a partir de suas impressões, segredos, arrependimentos, sofrimentos e enganos.

Além dos assuntos da vida privada, a obra também aborda de maneira tangencial acontecimentos políticos e sociais que envolveram a Nigéria durante a década de 80 e, inclusive, cita Chinua Achebe, mostrando a importância dele para a sociedade nigeriana. Além disso, muito do contexto político e social narrado por Ayòbámi se relaciona com o livro “Hibisco Roxo” da Chimamanda e essa conexão torna ambas as leituras ainda mais ricas.

“Fique comigo” explora o quanto as pressões sociais relacionadas ao machismo são capazes de destruir mulheres, homens e relações, especialmente quando a família é colocada como algo central por todos, apesar de ser uma instituição que se importa mais com a maneira que seus membros são vistos pela sociedade do que em cuidar e acolher os seus. Os papéis de gênero tão reforçados pelas famílias de Yejide e Akin machucam todos, especialmente Yejide, que, marcada pela solidão, tende a aceitar tudo com medo de perder o pouco que conseguiu.

Doloroso, aflitivo e envolvente, esse romance explora temas como maternidade, casamento, poligamia, masculinidade, luto, solidão e machismo. Ler a história de Yejide e Akin é se permitir viver uma imensa gama de emoções, sendo a raiva talvez uma das predominantes, porque a obra expõe uma faceta da cultura nigeriana que é muito cruel com as mulheres.

Se você é um leitor ávido por histórias emocionantes e bem escritas, tem curiosidade sobre a literatura produzida fora do eixo EUA-Europa e se interessa em refletir sobre a condição da mulher no mundo, esse livro é uma ótima opção de leitura para você.


Tradução do livro: Marina Vargas


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Quer mais dicas de obras dos mais diferentes estilos? Confira essa listinha que saiu no site Salto Quebrado e acompanhe meu site!

“A obscena Senhora D”: aprendendo a olhar para o desconhecido

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“Leia Hilda” diz um pixo famoso que surgiu em alguma cidade que não é a minha nas proximidades da Flip que homenageou a autora em 2018. Apesar de não gostar nem um pouco de obedecer, demorei um pouco, mas assim o fiz. Demorei, demorei mesmo, tudo porque a fama de hermética da autora me atrai e me repele. Quero conhecer, me causa curiosidade, mas eu temo não ser capaz de entender e me sentir um fracasso completo por isso. A gente tem disso, né? Não só morremos de medo de não saber, não conhecer, descobrir que existe todo um mundo desconhecido por nós, como também tememos não sermos capazes de perceber a presença de algo a um palmo da cara, algo que sempre esteve ali e só a gente não viu. A gente quer saber tudo, mas também não quer. Então, acabamos pensando pouco sobre certos assuntos para não termos que admitir nossa ignorância, seguindo sempre com medo do desconhecido.

Hillé não. A Senhora D pensa sobre tudo isso. Ela é uma investigadora, não de crimes ou pessoas, mas do sentido da vida, da mortalidade, de deus, alma e todas essas palavras abstratas demais. Hillé quer conhecer o desconhecido, investigá-lo profundamente, falar com deus. Hillé quer ultrapassar as barreiras entre os vivos e os mortos, ela quer saber. Ela é uma perguntadora, logo uma pessoa que blasfema. E como blasfema.

Em “A obscena Senhora D”, tempo e espaço se misturam. Hillé, em luto, fala com seus mortos no hoje, no agora, mas também volta ao passado. A perseguição da personagem pelo desconhecido é tanta que ela já não vive tanto o presente como a maioria das pessoas. Ehud, seu último morto, era quem a prendia nesse mundo. O livro acontece com a personagem vivendo entre os limites do conhecido e desconhecido. Desse lugar, ela vivencia sua perda. Desse lugar, ela pode circular no tempo, tudo se mistura, e ela nos faz refletir sobre loucura, morte, luto, sociedade e quem de fato somos, corpo, nome, pessoa, uma ou fragmentada.

Dizem que esse livro é a obra mais autobiográfica da autora. Há uma menção à Casa do Sol, Hillé dialoga com o pai morto sobre loucura, sendo que o pai de Hilda sofreu por anos com a esquizofrenia, Senhora D, de derrelição, fala da amizade com a Senhora L, que parece ser a Lygia Fagundes Telles, Hillé conversa e, principalmente, pergunta aos mortos, como Hilda de fato fez como experimento.

Como escritora, Hilda parece sempre estar pronta para perseguir o desconhecido, questionar o divino, profanar figuras. Nós, como leitores dela, precisamos fazer um esforço interpretativo para entender com quem a protagonista de sua obra fala, do que fala, como fala. Talvez a sensação de entender tão pouco aconteça justamente porque não é para entender tudo mesmo, porque o que importa é a busca, a perseguição, os questionamentos, não as respostas, porque não há respostas.

Ler Hilda é como mergulhar numa fossa abissal. Você nada no escuro, mas sabe que ao seu redor está cheio de vida. Hilda domina tanto as palavras que sabe até fazer com que o leitor perca o sentido delas. Ela consegue tornar até mesmo o conhecido um pouco mais desconhecido.


Observações:

  • Minha aventura exploratória pelo universo desconhecido das obras de Hilda Hilst mal começou. “Júbilo, memória, noviciado da paixão” será minha próxima leitura dela.
  • Minha primeira vez com a autora foi acompanhada. O livro “A obscena Senhora D” foi lido no Leia Mulheres Divinópolis de junho/20. A partir dessa experiência, posso dizer que esse é um ótimo livro para leitura coletiva, porque ler pensando que você vai debater ajuda a gente a formular até o nosso próprio não entendimento.
  • O posfácio da edição mais recente do livro pela Companhia das Letras é muito bom. Quando você termina a obra e se sente perdido, com mais perguntas do que imaginava ter, você encontra um afago ali. Um “é assim mesmo” que confirma um tanto de coisa que você pensou, sem deixar de acrescentar informações fruto de pesquisa e debate.

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Conversando sobre o “O Peso do Pássaro Morto” ou um papo estranho sobre resenhas

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Já tem uns dias que quero escrever sobre esse livro da Aline Bei. Até pensei em um bom título — “O peso do Pássaro Morto: corpo, trauma e solidão” — mas nada sai. Alguns livros são irresenháveis por mim. O título pomposo e um parágrafo introdutório que não diz muita coisa ficam eternamente no rascunho, enquanto me coço para comentar todos os detalhes que quero destacar sem me importar com spoilers.

Um saco isso de spoilers, né? A gente escreve sobre livros muitas vezes só porque a gente quer falar sobre eles, mas essa limitação estraga tudo. Talvez seja por isso que eu agora só queira saber de promover leituras coletivas. Nesse tipo de espaço, todo mundo já leu e spoilers são liberados e a gente pode ficar falando numa boa do que seria proibido em uma resenha. Falando nisso, sabia que “O peso do pássaro morto” foi um dos livros mais lidos nos clubes do Leia Mulheres ano passado? Tá vendo? Todo mundo quer ler e comentar. Talvez contar uma história própria que dialogue com a do livro. Falar de forma genérica não tem muita graça. Aposto que em todo encontro teve alguém falando: “Avassalador”. Eu sei que eu falaria. Talvez também tenha sempre alguém que não consegue conter as lágrimas.

Nessa luta para escrever alguma coisa sobre o livro da Aline Bei, ontem consegui formular toda uma estrutura e várias ideias. Um dos parágrafos que pensei era muito bom e tinha só spoilers leves, aqueles que só provocam o leitor a procurar o livro com tanta avidez que ele até clica e compra um exemplar usando o meu link da Amazon. O problema é que fiz isso alguns segundos antes de dormir e dormi. Muitas vezes quando isso acontece, assim que começo a escrever a resenha no outro dia, me lembro o que queria dizer e tudo funciona muito bem, só que hoje acordei no susto, com um barulho de Mate Couro caindo no chão, estourando e molhando meu gato inteiro de refrigerante. A primeira coisa que fiz ao acordar não foi escovar dentes, fazer xixi, beber água ou pegar o celular, foi passar shampoo a seco em um gato bonito demais para ser verdade. O que significa que eu esqueci o que ia escrever e nem ler os destaques que fiz no livro no Kindle adianta alguma coisa agora. O Mate Couro caiu, estourou e todas as minhas melhores ideias foram para o ralo.

Lembro que em algum momento eu ia dizer que Aline Bei ganhou com esse livro o Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos. Um prêmio é sempre um prêmio, né? Acho uma boa jogada para convencer o leitor lembrar que a obra já foi lida, validada e aplaudida não só por mim, a autora da resenha. Só que uma resenha nunca pode falar só sobre isso. Ela fica sem alma. Ainda que eu não acredite em alma, acho que resenhas possuem uma e essa alma pode escapar do texto se você for formal demais e esquecer de acrescentar suas impressões pessoais da leitura. O problema dessa minha resenha entretanto é justamente o contrário. Ela tem a alma já sebosa de tanta informação pessoal não solicitada.

O livro, narrado em primeira pessoa em verso, começa com as memórias dos oito anos dessa protagonista sem nome, mesma idade que começa o livro de memórias da Vivian Gornick chamado “Afetos Ferozes”*. Oito anos parece ser um marco na memória de personagens reais ou ficcionais. Oito anos parece ser uma idade em que passamos a ter noção do nosso corpo, do corpo do outro e nossa identidade já existe o suficiente para que as lembranças que ficam fiquem mesmo e pareçam ser nossas. Oito anos é a idade em que nos tornamos um pouco mais sólidos e fixos. Provavelmente porque é quando paramos um pouco de orbitar em torno de nossos pais.

Os oito anos da personagem sem nome que protagoniza o livro da Aline Bei também é um marco porque é a idade que ela tem quando começa a perder, ou melhor, sofre sua primeira perda. E esse livro é um livro sobre perdas e como elas nos afetam e como certas perdas são bem específicas do gênero feminino. A própria autora falou uma vez que quando decidiu escrever sobre perdas sabia que a protagonista-narradora teria que ser uma mulher, por causa de toda opressão que cerca a existência feminina. Por isso é triste, avassalador e impactante. E esse sofrimento se intensifica porque essa história mostra o quanto o trauma dessas perdas torna a dona delas mais solitária. Os traumas criam mais um obstáculo entre ela e o mundo, inclusive o filho.

Só que o livro não fica só nos oito anos dessa mulher. A criança de imaginação fértil que de repente precisa aprender a lidar com a morte, segue. E dali avança aos dezessete, aos dezoito, aos vinte e oito e vai indo até os cinquenta e dois anos, enquanto tenta ser uma pessoa, não só uma acúmulo de perdas, culpas e memórias. E, apesar de tudo, ela vive, ela continua, ela existe, ela está ali até deixar de estar.

E também, apesar de tudo, acho que terminei essa resenha.

*Tem leitura coletiva organizada por mim sobre o livro Afetos Ferozes rolando agora em junho/julho. Saiba mais aqui.


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“A Casa dos Espíritos”: a ficção pode contar muito da realidade também

Foto de Leia Mulheres Divinópolis

Aprendi ainda criança a diferença de estórias e histórias. O termo que começa com vogal, considerado arcaico para muitos mesmo quando eu estudei sua existência, servia para designar as coisas folclóricas, as narrativas populares, os “causos” e contos ficcionais, enquanto a história com H e sem plural era sobre o estudo do passado, a ciência que tenta entender o hoje a partir do que um dia se deu, o estudo dos fatos reais.

Hoje usamos história para tudo, podendo colocar no plural para falar principalmente de ficção. O que me parece acertado, porque às vezes o que chamaríamos de estórias com E são narrativas essenciais para entender o que diz a história com H. Essa história que parte de documentos oficiais, das narrativas mais importantes e que às vezes vem de uma parcela mínima de uma população e é usada para falar de todo um tempo e contexto.

“A Casa dos Espíritos”, primeiro e mais famoso romance de Isabel Allende, é uma dessas obras que, apesar de ser ficcional, ajuda o leitor a entender o que se passou em um país durante parte do século XX. A partir de um drama familiar, a autora expõe o Chile como ele foi, ainda que parta de uma narrativa que vem de participantes de uma certa elite. Violências, disputas, desigualdades, são todas expostas, enquanto Isabel Allende trabalha também ideias abstratas como a força do amor, dos afetos, das trocas, da delicadeza e generosidade, sem esquecer de antagonizar tudo isso com horror do ódio e da negação da realidade.

O romance tem uma narrativa marcada por uma exposição crítica de fatos sociais e históricos do Chile, como a Ditadura Militar e o acirramento de ânimos causado pela desigualdade e a manipulação e uso do poder e do dinheiro pela elite. E, apesar do realismo cru de certas passagens, como o uso e a violência do corpo das mulheres mais pobres por parte dos patrões, há também muita magia. Essa magia que é colocada como marca da literatura latino-americana, apesar da força do cristianismo na região.

Espíritos, previsões, superstições, sabedorias ancestrais, mapas astrais, toda essa espiritualidade solta, que tenta ser livre de dogmas, aparece na obra como uma manifestação da necessidade de se manter além daquela violência terrena. No meio de tanto sangue e dor, a magia e as histórias fantásticas parecem ser uma maneira de manter algo maior vivo, algo próximo do amor. Algo que parece faltar nesse mundo que no livro se manifesta como o mais próximo do real possível e critica e expõe o que foi o Chile.

Isabel Allende nos entrega uma obra que nos faz pensar nos laços familiares, na complexidade dos afetos e como as disputas que ocorrem dentro de casa são uma manifestação do resto do mundo ao redor. Esse mundo ao redor que parece estar sempre pronto para explorar corpos ditos femininos e fazer mais uma tragédia latino-americana acontecer.

“A Casa dos Espíritos” tem uma força especial porque a mera existência dessa história ficcional serve como lembrança de um período histórico que ainda sofre com tentativas de disputas de narrativas. Esse é um livro que evoca a importância da memória, tanto no sentido privado, quanto público, da cultura e do repúdio ao autoritarismo e exploração a partir da desigualdade, inclusive a entre homens e mulheres.

Nesse sentido, esse clássico nos ajuda a pensar no passado ditatorial da América Latina e do Brasil e, infelizmente, também no que se passa hoje, em maio de 2020. Estamos cada vez mais distantes do que aprendemos a chamar de democracia. Parece ter restado apenas uma espécie de carcaça democrática que vive da continuidade daquilo que ainda não foi aparelhado e da possibilidade de denúncia midiática. O resto parece já ter ido embora ou estar em processo de.

É impossível não pensar se vamos ficar “só” nisso ou se nesse afã de entregar tudo ao estrangeiro, militares e elite iremos chegar até as torturas, ameaças e desaparecimentos de novo, além dos que acostumamos a ver dentro do regime democrático como um vestígio de nossa história. E também é impossível não pensar nas consequências que a omissão proposital a respeito do coronavírus e o negacionismo científico sobre a pandemia podem causar.

Me parece até que, mesmo sem qualquer aparição, Clara ou seus espíritos estão tentando falar com todos nós, nos colocando alertas ao que pode vir acontecer ao nos lembrar do que já aconteceu. Tudo a partir do livro, que mostra até onde a força do ódio pode chegar e nos faz refletir sobre o quanto certos governos, como o de Bolsonaro, parecem ter como premissa deixar morrer. E o quanto eles agem ativamente para fazer essa agenda acontecer além da doença que nos encerra em casa no momento. Sempre com ameaças de serem mais ativos ainda. Com ameaças que parecem um retorno ao passado que eles adoram negar enquanto o homenageiam. Um passado que é lembrado de forma literária e crítica por Isabel Allende nessa obra publicada em 1982, quando tudo isso ainda era bem recente e próximo e as narrativas estavam em plena disputa.


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“Os sete maridos de Evelyn Hugo”: uma ficção sobre os bastidores da velha Hollywood

Acervo Pessoal — Capa do livro versão TAG

“Acho que ser quem a gente é — de verdade, e por inteiro — sempre vai exigir nadar contra a corrente.”

Como é ser uma celebridade? Como é ser uma mulher celebridade na Hollywood dos anos 50, 60, 70? O que a fama te dá e te tira? Quão próximo e quão distante pessoas famosas estão de nós, reles mortais? Nesse livro de Taylor Jenkins Reid, traduzido para o português por Alexandre Boide, recebemos algumas respostas para essas perguntas, ainda que a partir de um romance ficcional.

“(…)se você disser para uma mulher que sua única qualidade é ser desejável, ela vai acreditar”

Evelyn Hugo é uma estrela, uma sex symbol, um ícone. Ela protagonizou filmes, ganhou um Oscar e viu seu nome se tornar personagem principal de escândalos e notinhas de casamento. Evelyn Hugo se casou sete vezes. Evelyn Hugo é tudo que as revistas de fofoca sempre desejaram acompanhar. Só que aos oitenta anos de idade e acompanhada de Monique Grant, uma jornalista escolhida a dedo, apesar de não ter muita notoriedade, ela quer contar sua verdadeira história.

“As pessoas não são muito solidárias e acolhedoras com uma mulher que põe a própria carreira em primeiro lugar.”

Quase como uma personagem de Sydney Sheldon, Evelyn Hugo surgiu do nada usando sua beleza, charme e vontade de se provar e viver uma vida diferente da pobreza que conhecia. Desde muito jovem, percebeu que ser desejada a colocava em risco, mas também podia proporcionar chances únicas, se ela aprendesse a jogar aquele jogo em que as peças poderosas são todas homens e as mulheres são meros peões.

Guiada pela ambição, a personagem da atriz é muito bem construída. Ainda que esteja no papel de narradora e seu relato apresente sua visão das coisas e a verdade que ela quer mostrar, o que é contado apresenta para Monique as facetas não tão glamourosas de Hollywood, como a objetificação, o incentivo à rivalidade feminina presente no meio, as mentiras, a manipulação, os jogos de poder, as estratégias de marketing e a escolha pelo silêncio. Como mero peão no jogo da fama, Evelyn até conseguiu se sair bem, mas nem tudo saiu tão barato assim.

“Ah, eu sei que o mundo prefere mulheres que não têm noção do próprio poder, mas estou de saco cheio disso.”

Como uma boa história de bastidores, a obra é instigante. Queremos saber quem é a verdadeira Evelyn Hugo, o que ela esconde, quem ela amou de verdade e o porquê dela ter escolhido Monique Grant como sua biógrafa. A história nos envolve totalmente, talvez por causa do recurso de intercalar cenas do presente com a narração das memórias da atriz ou até mesmo com notinhas de fofoca. Mas, muito mais do que estrutura, o que provavelmente nos atrai na obra é a complexa construção das duas personagens principais e o fato de que o livro nos ajuda a criar uma nova ideia, talvez mais realista, do que as mulheres que conhecemos como as mais bonitas da história do cinema podem ter vivido.

 

Arte de capa de Joana Figueiredo para a Editora Paralela

A trajetória de Evelyn Hugo em relação aos desafios e avanços do século XX e do início do XXI — SPOILERS A PARTIR DAQUI — ESTEJA AVISADO

Muito além da fama, da objetificação, do casamento e da ambição feminina, “Os sete maridos de Evelyn Hugo” trata de temas como bissexualidade, homossexualidade, carreira, dinheiro, violência doméstica, sexo e poder.

Ainda que Evelyn Hugo seja uma personagem ficcional e tenha conquistado quantias de dinheiro inimagináveis para a maioria de nós, sua trajetória nos faz refletir sobre as antigas regras vigentes no século XX e que, a partir de muita luta, começaram a ser quebradas.

Evelyn talvez tenha pensado que assim que atingisse a fama, estaria minimamente protegida dos destinos comuns das mulheres de sua época, mas se enganou. Apesar de tudo que pôde alcançar por causa da fama e o dinheiro, a pressão para cima dela em relação aos casamentos, filhos, carreira e beleza existiu e acabou funcionando como uma forma de colocar ela e todas as outras mulheres no seu devido lugar. Controlá-la era impedi-la de mostrar que a vida poderia ser diferente. Puni-la também.

A protagonista dessa história lidou com agressões domésticas e com o peso de ter que esconder sua sexualidade e o amor que vivia de todos. No primeiro caso, todos estavam prontos para fingir não ver as marcas de violência e, no segundo, qualquer mínimo indício poderia fazer sua carreira e de quem a apoiava vir por água abaixo.

“Ser desejada significava a obrigação de satisfazer os outros”

Por mais que fosse famosa, ela era apenas mais uma peça que poderia proporcionar lucro para alguém. O que lembra o #MeToo e as denúncias de mulheres, muitas atrizes famosas, de violência sexual. Tudo muito recente, mostrando que Hollywood ainda joga com a vida e a dignidade das mulheres como bem entende e sempre está pronta para acabar com carreiras femininas para salvar as masculinas.

O armário

O amor da vida de Evelyn, a sex symbol, a mulher que os homens desejavam e as mulheres queriam ser, foi também atriz. Esconder o relacionamento foi um desafio para ambas, porque estar em Hollywood envolvia ter que promover ideais de amor heterossexual, lindo, limpo e feliz. E ela, como objeto de desejo, jamais poderia se mostrar dessa forma.

“Ser bissexual não significa ser infiel […] Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”

A atriz, para conseguir o que queria, preencheu todas as suas dúvidas com a certeza de que era preciso esconder, ludibriar, viver aquilo sempre de maneira secreta. Isso também teve um preço.

Nesse sentido, a escolha da autora de citar os sentimentos de esperança que a Revolta de Stonewall evocou nos personagens e como foi feita a decisão deles de apoiar aquele momento a partir do dinheiro e não com uma saída pública do armário foi muito certeira. Especialmente para mostrar o pragmatismo envolvido.

“Imagina se todas as mulheres solteiras do planeta exigissem alguma coisa em troca de seus corpos. Vocês seriam as donas do mundo. Um exército de pessoas comuns. Só homens como eu teriam alguma chance contra vocês. E isso é a última coisa que esses cretinos querem: um mundo comandado por gente como eu e você.”

Violência doméstica

“Em briga de marido e mulher não se mete a colher” é um ditado muito popular no Brasil e que reproduz uma ideia que vai muito além do nosso território. O que acontece dentro de um casamento não é da conta dos outros, mas a regra só vale no caso de manter a violência doméstica naturalizada e escondida e as mulheres seguindo as regras. Como o casamento é sempre colocado como um sonho, função e responsabilidade feminina, tudo fica nas costas delas. Qualquer sinal de fracasso, inclusive a própria violência, é lido socialmente como sinal das falhas femininas.

Evelyn Hugo sente esse peso comum a todas as mulheres ainda hoje e também o da indústria que a emprega e está mais interessada em vender o casal feliz, lindo e queridinho da América do que em protegê-la. A indústria do cinema aqui assume o papel que muitas vezes é da família da vítima, dos parentes do algoz e até o da própria igreja ou mesmo delegacias e judiciário.

Evelyn Hugo se silenciou sobre o que passou e anos mais tarde descobriu que outra atriz que casou com seu ex-marido passou pelo mesmo ao ouvir um doloroso “por que você não me avisou?”. É impossível não pensar em como todo o contexto de competição de mulheres contribuiu para que elas não tenham trocado esse tipo de informação e na importância de manter essa lógica de rivalidade para garantir que os homens continuem podendo tudo, mesmo em espaços que mulheres parecem ser tão poderosas.

As mulheres retratadas na obra fazem tudo para se sobressair. E esse tudo pode envolver até trabalhar com o próprio agressor por querer muito fazer um filme. Decisão que pode incomodar, mas que parece ter sido colocada pela autora para expor quem é essa personagem e o que ela faria para manter seus segredos bem guardados e realizar seus desejos.

“Todo mundo acaba se vendendo por uma coisa ou por outra.”

Motivações

Depois de conhecer os detalhes dessa história, entendemos melhor o que Evelyn Hugo quer ao contá-la nessa altura da vida. Ela quer que sua trajetória passe a ter um significado político, ainda que para isso tenha que admitir falhas, covardias, silêncios, manipulações, dúvidas e arrependimentos. Apesar de tanta exposição, a personagem narra sua vida para a Monique conforme a imagem que quer passar e também como analisa suas próprias memórias.

Evelyn Hugo é uma ficção

Como atriz, Evelyn construiu uma personagem para apresentar ao público, enquanto vivia sua vida. Essa mulher, além de ícone, era humana, com tudo que isso significa. Assim como Monique Grant, a amamos e a odiamos, porque a conhecemos na intimidade. Mas seria Evelyn tão assertiva e decidida quanto ela quer que a gente pense que é? Nunca saberemos.


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