Sola Fiedler, a artista têxtil que retrata cidades

Sola trabalhando na tapeçaria Vancouver

Miami, Atlanta, Las Vegas, Sydney e Vancouver foram transformadas em bordados enormes e hiper realistas pela artista Sola Fiedler. Os trabalhos de Sola são verdadeiros retratos feitos ponto por ponto e representam a cidade homenageada no tempo em que a artista esteve lá. Detalhes como o número de janelas de cada prédio, por exemplo, são observados por ela. Ela considera que isso possibilita que as pessoas se conectem com as tapeçarias, já que esses pormenores permitem que as pessoas observem a imagem formada pelas linhas e encontrem onde moram, onde trabalham e outros lugares que carregam significados pessoais.

Para retratar uma cidade é preciso mostrar sua arquitetura e as características físicas que fazem parte de sua paisagem e as relações humanas que acontecem naquelas ruas, prédios, praças e casas. São os detalhes que fazem a parte humana se tornar visível, já que são eles que possibilitam os moradores da cidade visualizarem suas histórias ali.

Tapeçaria Vancouver

Sola captura os elementos que compõem uma cidade através da observação e dedicação. Ela procura um local perfeito onde dê para visualizar toda a cidade e se imagina num helicóptero ou como uma águia e sobrevoa a cidade em busca do que irá retratar. Depois, ela anda e observa suas características. Percorre ruas e repara em cada construção e em cada árvore que encontra no caminho, às vezes tem que voltar em locais que já foi para analisar melhor. O processo dura cerca de dois a três anos.

Sola Fiedler nasceu em 1936 e cresceu em Londres durante e depois a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, a reciclagem e a reutilização eram essenciais, já que a escassez fazia parte do cotidiano. O hábito que fez parte dos seus primeiros anos nunca a abandonou e seus bordados são feitos com fios de roupas que ela coleta, o que torna sua obra ainda mais única.

Seu lado artista só foi se manifestar de verdade após os quarenta anos. Antes disso, ela trabalhou no Canadá como pesquisadora científica e foi proprietária, junto com seu ex-marido, do The Riverboat Coffee House em Toronto. Esse café fechou em 1978, mas ainda hoje é lembrado por sua importância para a música folk. Músicos como Neil Young e Joni Mitchell se apresentaram por lá. Após se separar, ela se mudou para Vancouver e abriu o Soft Rock Café.

Seu trabalho artístico já foi premiado no Canadá e suas peças foram expostas em galerias. Além das cidades, ela faz peças abstratas, outras paisagens e fez uma adaptação da bandeira do Canadá.

Sola trabalhando

O bordado e outras formas de artes têxteis foram desvalorizados por muitos anos por serem vistos como femininos, mas há um fenômeno mundial de resgate, valorização e modernização dessas técnicas e temas e esse processo caminha junto com a recuperação de histórias de mulheres notáveis e de reconhecimento das mulheres num todo. Sola Fiedler é um dos nomes que merecem ser conhecidos. Por isso, tentei escrever aqui um pedaço de sua história e um pouco sobre suas lindas peças.

Tapeçaria Sydney

Saiba mais sobre ela em seu site oficial e assista ao vídeo sobre o processo criativo de Sola através do Vimeo. Acompanhe o trabalho dela também no Facebook e Instagram.


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Escrever como explosão

Imagem do filme “ My Brilliant Career”.

Desenhei, pintei, esculpi com papel machê. Li e escrevi. Cantei em coral, representei Pluft e falei em público. Joguei bola, dancei e toquei triângulo nas aulas de música da escola. Tive o privilégio de conhecer e experimentar uma gama de possibilidades de me apresentar ao mundo. Sem pretensão e medo de passar vergonha, eu entrei em contato com as mais diversas formas de contar histórias e manifestar sentimentos, vontades e opiniões.

Com meus ouvidos ansiosos para conhecer mundos reais e imaginários, eu escutava as narrativas adultas e infantis que eram detectadas no meu radar. Ouvi lendas, casos, cantigas antigas, risadas e adaptações de contos de fada. Com a leitura, eu descobri o que alguns estabelecimentos que faziam parte da paisagem que eu conhecia vendiam e passei a ser capaz de decodificar as letras dos livros até elas formarem palavras e mensagens.

Descobri uma infinidade de histórias e formas de contá-las. E, sem querer ou saber, me deparei com algo que faz parte da composição humana. Somos feitos de água, carbono, minerais e até nitrogênio. Somos feitos de memória e carregamos em cada célula histórias microscópicas que, em conjunto, se tornam visíveis a olho nu.

Bruxa Onilda, A Bruxinha Atrapalhada, O Fantástico Mistério de Feiurinha e várias outras obras infantis foram a porta de entrada para eu aprender a desbravar o mundo mediante a imaginação. Depois, a Agatha Christie e o suspense que mexe com a nossa necessidade de saber respostas me deixou apreensiva, com medo e curiosa. A J. K. Rowling me apresentou a possibilidade de crescer junto com os personagens de um livro com a série Harry Potter. Os livros da Coleção Vagalume me fizeram sonhar em conhecer o Egito e resolver mistérios; já Machado de Assis e sua capacidade de criar personagens humanos e ironizar nossa mesquinharia, me fez compadecer e desprezar um mesmo protagonista. Por meio da leitura, tomei conhecimento da capacidade humana de criar mundos, personagens e expor sentimentos e também provocá-los no leitor.

Em algum momento, depois de tanto ser tocada por cenas e acontecimentos escritos, eu quis ser escritora. Eu desejei afetar alguém como esses autores fizeram comigo. Eu já escrevia, mas não havia pretensão alguma de fazer desse ato algo além de uma forma de explosão. Continuei explodindo e expandindo no papel e na tela, enquanto tratava a vontade de ser escritora como um sonho desses que a gente tem dormindo.

Tirei a poeira desse sonho adormecido após ler o livro “Meus desacontecimentos”, da Eliane Brum. Na obra, ela interpreta a própria memória e nos apresenta sua infância rememorando pessoas próximas, situações e seu amor — antigo — pela escrita. O jeito que ela escreve, a forma que ela fala sobre escrever e o amor dela por ouvir e contar histórias me deu fôlego para arrancar o sonho do seu local confortável e onírico.

Li Eliane Brum relacionar a escrita dela com a raiva e me lembrei das vezes que incendiei a tela do computador quando escrevi porque tinha que escrever. Respondi escrevendo em fogo os absurdos que vi acontecer e usei, como combustível para as explosões, as dores que enxerguei no mundo e a ira que vive em mim. Lendo os desacontecimentos de Eliane, eu tive a noção do quanto a escrita vive em mim. Somos parte de uma só, porque em algum momento, eu a elegi como minha forma de me colocar no mundo. Todo mundo tem a sua, mas muitos sequer tomam consciência disso.

Expressar-se é marcar sua existência no mundo, talvez seja por isso que tantas mulheres encarem o ato de escrever — ou de pintar, ou de compor, ou de esculpir — como algo tão visceral. Tantos anos como musas, sendo apenas descritas, tendo sua educação negada ou sua capacidade literária questionada e servindo como deleite ou motivação de personagens masculinos de obras feitas por homens fez muitas de nós encararmos o ato de criar como uma forma de demarcar nosso território num mundo que disseram não ser o nosso.

Ler nos permite entrar em contato com personagens e acompanhar seus sentimentos, suas perspectivas e a realidade que foi imaginada para eles pelo autor. Além do lúdico, o escritor, muitas vezes, nos ensina a enxergar o Outro, quando nos permite vivenciar junto com um personagem mundos desconhecidos por nós. Quem escreve tem a possibilidade de ampliar a capacidade do leitor de encarar o mundo e enxergar vidas e histórias que ele não via antes e é por isso que quero tanto me definir assim. Quero fazer o invisível saltar aos olhos e contar as histórias que queria ler, que vivi ou mesmo que ouvi da boca da minha avó.


Este texto fez parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva.


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Turbinas e um turbilhão

Standing in front of volcano — Aleksandra Waliszewska

Um turbilhão de pensamentos vem de uma vez. É tão brusco que até o ritmo da minha respiração muda. Cinco e pouco da manhã, num avião em turbulência, eu voo de volta para casa com a cabeça cheia de respostas, perguntas e constatações.

Eu sempre quis ser a melhor em tudo, nunca me esforcei para sê-lo. Vivo uma eterna dualidade. Sei que toda essa gana para ser a melhor é completamente irreal, mas continuo encarando todos meus feitos e erros como fracassos irreparáveis. Reconheço a impossibilidade do desejo que me guia, mas isso não é suficiente para evitar a dor da não realização.

É uma busca paralisante. Me travo no querer tanto, não avanço, não prossigo, me estagno. Parada em lugar nenhum, sinto a dor de não realizar e de não desistir. Repito essa fórmula furada desde sempre. Um dia foi por ignorância, agora é por covardia.

Quero me levantar, mexer meus pés, dobrar meus joelhos. Sinto minha pele da perna arder, queimar, doer. Como uma sugestão, meus neurônios trabalham para me lembrar que trombose é comum em viagens de avião. Sacanas!

Mesmo com uma leve turbulência, solto o cinto, me levanto e dobro minhas pernas algumas vezes. Enquanto sofro com essa dor misteriosa que me assombra desde setembro passado e a ansiedade que a segue, continuo tentando achar o fio da meada.

Entre o sono, a dor e o desespero, percebo que eu preciso tentar, tentar de verdade, me tornar a melhor no que diabos eu cismar ser. Querer é enérgico, ágil e vivo, por isso me aprisiona. Tantas possibilidades, inclusive a de falhar, me deixam inerte mesmo num ambiente tão ativo. No fim, dissipo energia num movimento previsível, circular e sem ousadia. Erro querendo evitar o erro. Empenhar-se em conseguir também tem um certo dinamismo, menos arrojado, claro, mas preciso.

Disciplina, competência e eficiência. Ir, enfim, pra frente. Sei que será sinuoso, apesar de parecer retilíneo e uniforme. Chato, talvez, mas nenhuma busca pode ficar só no querer e o tentar tem dessas. Sem aprender a tentar, tentar de verdade, eu não vou compreender o que é falhar e nem vou conhecer os resultados que posso alcançar.

No meio do meu querer impossível, tem também o receio de não conseguir nem chegar perto e uma vontade enorme de que o mundo seja fácil.

Gosto da praticidade do avião, gosto de olhar para o chão e ver toda nossa realidade reduzida e perceber que ela é um recorte de um todo, mas voar me dá um certo medo. Medo que me cerca também em terra. Medo que evita dores e cria outras. Medo de morrer e de viver.

Mexo os pés, estico a perna, respiro fundo. Dói tanto quanto a certeza de que o fracasso ainda vai formigar, arder e queimar dentro de mim. Vejo o sol nascer entre as nuvens e o rosa, o laranja e o azul tomarem conta da janelinha do avião. Sinto a pressão nos meus ouvidos que agora também doem. O avião vai pousar e eu preciso escrever tudo isso antes que eu esqueça que eu sei bem o que eu tenho que fazer.


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“Mulher-Maravilha” e o impacto de ter uma heroína nas telonas

Quando eu era criança, assumia identidades diversas durante as brincadeiras. Lembro das várias vezes que fui Power Ranger Amarela, de ser bruxa, fada e até pesquisadora de vida extraterrestre da NASA. Num mundo em que o número de personagens femininas interessantes tendiam a zero, minha maior aliada sempre foi a imaginação. Eu criava as personagens que me agradavam e adaptava as histórias dos desenhos para que as que já existiam tivessem vez nas brincadeiras.

Nessa época, eu até tinha ouvido falar da Mulher Maravilha, mas ela não me interessava muito, já que eu via esse nome ser mais usado para se referir às mães do que para falar da heroína da DC Comics. Ela nunca fui um ícone para mim, jamais me serviu de referência, mas para as novas gerações ela será.

Mulher-Maravilha” foi o primeiro filme de super herói dirigido por uma mulher e teve a estreia mais lucrativa de uma diretora nas bilheterias americanas até hoje. Os recordes de bilheteria batidos pelo filme dirigido por Patty Jenkins podem abrir caminho para mais protagonistas femininas no cinema e aumentar a contratação de diretoras para filmes de maior orçamento.

A indústria do cinema ainda considera que apenas histórias masculinas — e brancas — interessam e duvida da capacidade de direção das mulheres. Patty Jenkins, que dirigiu “Monster — Desejo Assassino”, não podia falhar e sabia disso. Quando abriu mão da direção de “Thor: O mundo sombrio”, ela comentou que fez isso porque sabia que se o resultado final não fosse bem aceito, o peso disso seria bem maior por ela ser mulher. “Eu pensei que se eu dirigisse o filme (Thor 2), seria um grande desserviço às mulheres. Se eu assumir o posto sabendo que será uma enrascada, e o filme ficar ruim por minha causa, será um grande problema. Se isso acontece com um diretor homem, é apenas mais um erro do estúdio”, ela afirmou. As mulheres carregam o fardo de que seus possíveis erros e dificuldades sempre serão usados para desqualificar todas as mulheres. A cineasta sabia que se “Mulher-Maravilha” fosse um desastre, diriam que mulheres não sabem dirigir e que ninguém quer ver uma heroína nas telonas. Felizmente, isso não intimidou Patty Jenkins. Nesse projeto, ela acreditava.

O impacto do filme vai bem além da indústria do cinema, já que até eu, que tenho 27 anos e nenhuma ligação prévia com a heroína, saí do cinema me sentindo pronta para enfrentar o mundo. Diana Prince cresceu na ilha de Temiscira, cercada por amazonas e recebeu um treinamento intenso por parte de sua tia Antíope. Sua postura ao sair de onde sempre viveu não é de medo e, mesmo sem saber as regras implícitas do mundo fora de sua ilha, ela não se sente intimidada numa Londres que trata mulheres como inferiores. Mesmo subestimada, ela confia em si e em sua história e faz sempre o que quer e acredita.

Fora da ilha de Temiscira, mulheres são criadas prontas para duvidarem de si mesmas. Depois de anos sendo interrompidas, ignoradas e subestimadas, nós acabamos perdendo a capacidade de acreditar que somos capazes. A insegurança é um elemento feminino no mundo que faço parte, mas sei que pode ser diferente. Ver a Mulher-Maravilha nas telonas, e acompanhar a história de coragem de Patty Jenkins ao assumir a direção desse filme, apesar de toda pressão, me lembrou disso.

As meninas de hoje terão Diane Prince, Katniss Everdeen, Moama, Rey e muitas mulheres reais para se apegarem quando o mundo machista disser que elas não são capazes. Elas não precisarão criar personagens femininas quando quiserem um papel maior numa brincadeira, já que a cultura pop está se tornando aos poucos um espaço que nos sentimos parte. Com esse contato com protagonistas femininas, os meninos vão aprender que mulheres pertencem ao mesmo mundo que eles e que são tão aptas quanto eles a realizarem inúmeras tarefas. Ainda assim, as meninas de hoje não estarão livres de passar por muitos desafios que o machismo e outras opressões trazem, mas o caminho para a mudança está sendo traçado em todos os espaços e, com tantos exemplos reais e imaginários, elas saberão como resistir.


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Higui: atacada por ser lésbica, presa por defender-se.

Fotografia de Sebastián Hacher. Na foto, Susana, mãe de Higui carrega um cartaz que diz “Higui, te queremos livre”.

Andando nas ruas do centro de Buenos Aires, entre pixos, lambes e stencils, encontrei cartazes que anunciavam uma manifestação para o dia 17 de maio, dia de luta contra a LGBTfobia. A ilustração de uma mulher com uma bola debaixo do braço e vestida para uma partida de futebol estava em todos eles acompanhada dos dizeres “Libertad Para Higui”.

Continuei meu trajeto de turista, avistei o Congresso, a rua Florida, o Obelisco, o Teatro Cólon, a Casa Rosada e a famosa Plaza de Mayo e segui me perguntando quem era Higui, o que tinha acontecido com ela e porque a queriam livre. No caminho, me lembrei de Rafael Braga.

A resposta veio e com ela tomei conhecimento de um triste caso de lesbofobia e de falhas estatais graves. Eva Anália de Jesus é o nome dela, Higui é um apelido que veio por ela ser goleira, como René Higuita, e apaixonada por futebol. Mulher lésbica, viveu o medo, violência e hostilidade diversas vezes e acabou presa por defender-se.

Durante a adolescência, recebeu pedradas, foi hostilizada, roubada e, em uma das vezes, seriamente agredida, entre gritos lesbofóbicos. Não denunciou por medo, foi embora do bairro de sua família e passou a carregar uma lâmina toda vez que se aproximava da região. No último dia das mães, retornou ao bairro e encontrou um de seus agressores do passado num beco. Ele disse: “Vou te fazer sentir mulher, sapatona mal comida” e a agrediu, junto com outros homens. Eles rasgaram sua calça e suas roupas íntimas e ela buscou a navalha que carregava para se defender. Nisso, matou um dos agressores, mas só soube disso já presa.

Foi achada praticamente inconsciente, machucada e, apesar dos ferimentos, foi levada detida direto para a delegacia. O processo contra ela é cheio de furos processuais. No primeiro documento policial sobre o ocorrido não consta informações sobre o estado em que Higui foi encontrada, por exemplo.

O ato de legítima defesa de Higui a protegeu de um estupro corretivo. Essa violência recebe essa denominação porque os autores estupram a vítima com a finalidade de punir o que eles consideram um desvio numa mulher. Para o agressor, o estupro de uma mulher lésbica “corrigiria” a lesbianidade dela, que pra eles é uma afronta.

Higui está em prisão preventiva por homicídio simples, por ter matado um de seus algozes, numa tentativa desesperada de se defender de um estupro motivado pela misoginia e pelo preconceito com sua orientação sexual. Seus agressores estão livres. Conheci seu nome andando nas ruas de um país vizinho, numa tarde de turismo, mas queria ver a história dela ecoando nas redes, jornais e rodas políticas brasileiras, porque nossa justiça, assim como a da Argentina, é oblíqua e a lesbofobia também faz vítimas por aqui e elas, assim como Higui, seguem invisíveis para a maioria.

Edit posterior: Higui foi absolvida!


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“As cientistas” e o poder de descobrir que mulheres também mudam o mundo

Capa do livro “As cientistas — 50 mulheres que mudaram o mundo”. Adquira seu exemplar aqui.

Quando eu era criança, uma das coisas que eu gostava de fazer era passar horas e horas numa praça próxima da minha casa. Ali eu brincava na areia, no parquinho, jogava bola e observava insetos e plantas. Depois, o inseto observado era eternizado num papel com meus traços e ganhava um nome criado por mim, que era válido até eu descobrir a espécie dele ao consultar os livros de biologia do meu padrinho. Eu fazia isso por curiosidade e porque queria descobrir um animal ainda não encontrado. Adulta, por meio do livro “As cientistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky e traduzido por Sonia Augusto, descobri Maria Sibylla Merian, uma alemã que nasceu em 1647 e marcou a história da ciência com as descobertas que fez sobre insetos. Com a observação e a ilustração, ela documentou a metamorfose da borboleta e classificou diversas novas espécies dessas criaturas.

Entre as muitas profissões que pensei em seguir nessa época, as que se destacavam se relacionavam com minha curiosidade sobre fósseis e rochas. Eu tinha no quarto uma pequena réplica de um esqueleto de Tiranossauro Rex e, como brincadeira, adorava procurar e colecionar pedras diversas. Sabendo que sou de Minas Gerais, muitos podem se enganar e achar que o meu gosto por pedras e escavações se relacionava com ouro, diamante e esmeralda, mas a fonte disso tudo era meu amor por dinossauros, o fóssil Luzia ter sido encontrado relativamente perto da minha cidade, um documentário que vi sobre vulcões e uma visita às Grutas de Maquiné e Rei do Mato. Adulta, mais uma vez com o livro “As cientistas”, conheci a história de Mary Anning, uma inglesa nascida em 1799, que colecionava fósseis e foi uma paleontóloga. Ela descobriu os primeiros esqueletos de ictiossauros e de plesiossauros e seu trabalho foi importante para ajudar a provar que a extinção acontece.

Durante a leitura do livro de Rachel Ignotofsky, eu lembrei muito da minha infância e a cada nome e história que eu descobria, eu pensava em como saber disso antes poderia ter me feito bem. Apesar de ter inúmeras anedotas para contar que se relacionam de alguma forma com ciência, em algum momento da minha história, eu aprendi que esse espaço — e muitos outros — não era pra mim. Eu conhecia Einstein, Pitágoras, Tales e Galileu, ouvia falar dos navegadores com nomes masculinos e dos tantos presidentes homens da história e, sendo mulher, um dia tudo isso começou a soar como se eu fosse uma intrusa num mundo de homens. Se eu tivesse em minhas mãos essa obra há vinte anos atrás, talvez eu fosse uma cientista hoje ou apenas confiaria um pouco mais no meu taco.

Escrevo e pesquiso sobre mulheres notáveis há algum tempo. Faço isso por considerar essencial que mulheres conheçam a sua história e que homens aprendam a reconhecer meninas e mulheres como tão capazes quanto eles. “As cientistas” tira a cortina da invisibilidade de diversos nomes de mulheres que fizeram ciência e prova, para aqueles que ainda duvidam da capacidade feminina de descobrir, pesquisar e estudar, que somos inteligentes e curiosas.

Nomes conhecidos como Marie Curie, Ada Lovelace e Hipátia dividem espaço com Mae Jemison, Katia Krafft, Sau Lan Wu, Annie Easley e outras. Além das mini biografias, têm glossário, linha do tempo e dicas de fontes para quem quer pesquisar sobre. Quem gosta de saber mais sobre história das mulheres ou sobre descobertas científicas vai adorar ler esse livro e apreciar a linguagem didática, as fofas e coloridas ilustrações de Rachel e a linda edição que a editora Blucher preparou.


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O Mineirão é nosso: o dia que a festa foi das mulheres

Eu, minha blusinha e o Mineirão de fundo.

Era agosto, o Brasil era sede dos jogos olímpicos e eu estava a caminho de um Mineirão que receberia nesse dia o maior público do ano até a data. Na véspera, gastei alguns minutos com uma caneta para tecido escrevendo “Marta, Cristiane, Formiga & Beatriz” em uma blusa branca.

A seleção feminina de futebol estava fazendo uma belíssima campanha: dois bons jogos que garantiram a vaga nas quartas e um jogo mediano em que as principais jogadoras foram poupadas. O estádio estava cheio, bem colorido, encontrei uma moça que carregava uma faixa que divulgava o time em que jogava, minha camisa foi elogiada e conseguimos um lugar bem perto do campo.

Cheguei cedo e pude assistir o aquecimento das jogadoras e observar a arquibancada. Ela ainda estava se enchendo e, diferente dos outros jogos que já tinha ido, era predominantemente feminina. Marta, Cristiane, Formiga, Bárbara e Beatriz em campo fizeram muitas mulheres perceberem que o estádio, num todo, também era espaço para elas e mexeram com o ego de muitos homens que ainda insistem que futebol feminino é ruim de assistir. A modalidade feminina ainda é considerada chata, previsível e sem grandes emoções, mas o jogo Brasil x Austrália, e tudo que seguiu após esse dia, mostrou que não é bem assim. O mesmo time que perdeu do Brasil por 5 x 1, venceu a seleção brasileira nos pênaltis na semifinal, mostrando que o futebol feminino, assim como masculino, tem sua dose de imprevisibilidade e de estratégia.

O jogo foi marcado pela tensão. Passei a partida sentindo falta da Cristiane nas finalizações, já que o gol não queria sair. Formiga, como sempre, parecia estar em todos os cantos do campo. Marta, mesmo muito marcada, buscava oportunidade. Bárbara estava a postos. O Mineirão estava gelado, mas o público seguia gritando Marta, Bárbara e Formiga. O frio apertava, enquanto o tempo da prorrogação acabava e a decisão ia para os pênaltis.

Foi a primeira vez que vi disputa por pênaltis ao vivo. A ansiedade — e o frio — só aumentava e eu não aguentei ver as cobranças do meu lugar, me levantei e fui para perto da saída. Vi tudo dali, ou melhor, senti, já que fechei os olhos algumas vezes durante as cobranças. Bárbara nos salvou e foi eleita Santa por aqueles que são fãs de futebol e alcunhas cristãs, o que não é meu caso. O Mineirão virou festa.

A tensão e alegria se misturaram e seguiram comigo até chegar em Divinópolis, minha cidade natal. Elas foram minhas companheiras de estrada durante todo o percurso e encheram minha boca de palavras e “causos” sobre o primeiro jogo de futebol feminino que vi no estádio. Quando cheguei, o sono não foi tranquilo, porque as narrativas dentro de mim estavam ansiosas para serem contadas.

Nesse dia, eu fui uma mulher de vinte e muitos anos e também a criança que sempre sonhou em prestigiar atletas olímpicos e jogava bola todo dia após a aula. Nesse dia, eu vivi um jogo inesquecível nas arquibancadas.

Encontrei no Museu do Futebol a camisa que a Bárbara usou no famigerado jogo Brasil x Austrália.

Leia também: Museu do Futebol: o meu e o do Pacaembu

Esse texto faz parte da campanha #MulheresNoFutebol, organizada por mim e pela Francine Malessa. Saiba mais aqui.

Descobrindo vozes

Daniela Vaz

Lady Francisco, atriz de 82 anos, já havia relatado no passado que sofreu dois estupros em sua vida e recentemente falou mais sobre. Disse que foi estuprada por um diretor da TV Globo há cerca de 50 anos e ao ser perguntada sobre o porquê de não ter denunciado respondeu: “Naquela época? Quem acreditaria em mim? Iam dizer: “Essa aí, mal chegou e já está aprontando”. Mas hoje eu faria um escândalo”.

Ela comentou também que admira o quanto mulheres tem lutado contra a violência sexual: “Tenho muito orgulho de ver o quanto a mulher evoluiu na defesa da própria dignidade. No meu tempo, a gente era estuprada e tinha de ficar quieta; hoje, um assédio repercute de tal maneira que o agressor tem de reconhecer publicamente”.

Apesar dos números de violência contra a mulher continuarem altíssimos, do machismo ser a nossa realidade e da culpabilização das vítimas de violência de gênero ainda guiar maior parte da sociedade, as coisas estão mudando lentamente. A fala de Lady Francisco evidencia isso.

O discurso do “não é não” está na boca das mulheres, juntas estamos aprendendo que a culpa da violência que sofremos não é nossa e vendo que apesar de muitos continuarem nos culpando, há quem nos apoie. Estamos assimilando que é preciso apoiar umas às outras e somando nossas vozes na hora de denunciar a violência sistêmica que nos acomete.

Quando uma mulher faz uma denúncia, bota a boca no trombone, outras mulheres se sentem encorajadas a também denunciar, falar sobre, quebrar o silêncio. Nossas histórias estão, enfim, saindo debaixo do tapete. E esses relatos nos ajudam a compreender que o machismo é estrutural e que é preciso combatê-lo em todas as esferas. Essa tomada de consciência é o que nos faz perceber a importância de colocar em prática a frase “Mexeu com uma, mexeu com todas”.


Publicado originalmente em minha página do Facebook.

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O corpo sem culpa

Ilustração minha. Descrição: som, caixa de som, símbolos musicais, balões e uma moça dançando com os escritos “O corpo é uma festa”.

Uma das frases célebres de Eduardo Galeano comenta sobre as diversas maneiras de se encarar o corpo de acordo com os ideais da igreja, da publicidade e da ciência. Para igreja, o corpo é uma culpa, para a ciência uma máquina e para publicidade um negócio. Sempre amei essa fala dele porque ela termina com o corpo se afirmando como uma uma festa.

Para mim, o corpo é uma festa. Ele funciona, diverte, às vezes se excede, faz parte da nossa identidade e é também social. Ser uma festa é o que faz com que as pessoas e instituições queiram tanto controlá-lo. Vivemos num tempo em que querem fazer com que essa festa seja comedida, funcione numa lógica de corpo-máquina. Tudo planejado, tudo medido, tudo pesado, todas as calorias contadas. A frase de Galeano precisa de uma atualização: para uma visão terrorista da saúde, que se apoia num padrão de beleza irreal, o corpo é culpado por ser orgânico e não robótico.

O corpo pode também ser máquina, não nego, mas se a gente só o define assim, a gente finge ignorar que o funcionamento dele é humano e justamente por isso às vezes ele falha, a gente exagera, a gente se diverte. Ele é mais do que funcionalidade, ele também é a gente e a ferramenta para que a gente viva conforme o que nos faz feliz.

A máquina precisa de uma quantidade certa de combustível. Nem um pouco a menos, nem um pouco a mais. Encheu o tanque, acabou. E esses tempos dizem que a gente tem que funcionar assim, como se cada refeição fosse uma ida ao posto.

O corpo é parte de nós e a gente é bicho humano, ser social, e para nós a comida tem um significado muito além desse que nos trata como maquinário. Comer é importante e não só para nos manter com o tanque cheio para os dias que irão vir, mas também porque dividir comida com alguém, cozinhar junto com o outro ou fazer uma comidinha gostosa para uma pessoa querida é parte do que entendemos como convívio humano, demonstração de carinho e conforto.

Quando a gente pega a comida e a resume em algo que tem que ser sempre funcional, a gente ignora o significado do almoço com a vó no domingo, da jantinha de aniversário de namoro e do petisco que comemos com os amigos. A comida é parte essencial de como a gente vive o mundo das relações e adicionar culpa ao ato de comer é fazer com que cada momento que deveria ser de compartilhamento, seja de culpa, sofrimento, ansiedade.

O corpo é uma festa, justamente por isso a hora de comer é mais do que simplesmente nutri-lo de forma regrada, culpada, comedida. O corpo se alimenta também dos momentos que vivemos, das relações que cultivamos e principalmente, de quão saudável nossa mente está. A culpa não tem que ter espaço na mesa, a festa que somos sim. Somos mais que funcionais.


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Museu do futebol: o meu e o do Pacaembu

Eu devia ter uns sete anos ou menos quando comecei a correr atrás da bola durante o recreio e depois do fim das aulas. Me dividia entre brincar de skate de dedo, dançar Chiquititas, pique esconde, fugir da bola na queimada, correr e chutá-la na quadra e participar de todas as variações possíveis de brincadeiras relacionadas ao futebol. Eu só queria me divertir.

Mesmo menina, eu já sentia que o mundo não via o futebol como um lugar de mulher quando ouvia de adultos que era estranho eu gostar de jogar bola ou quando eu tinha que pedir permissão para os meninos para jogar no recreio, mesmo com a quadra reservada para a minha turma. Os donos da quadra e da bola eram eles, eu era apenas uma mera visitante.

Cresci vendo os professores de educação física dividirem a turma entre meninos e meninas, eles no futebol, elas no vôlei, enquanto em casa, eu jogava Nintendo com meu irmão e um dos jogos queridos era o Ronaldinho Soccer 98. Mais tarde e junto com ele, eu entrei no mundo dos jogos de treinadores e acompanhei desde Elifoot e Brasfoot até CM e FM. Abandonei a quadra e me mantive na redoma dos jogos virtuais até que de tanto ser sempre a visitante, acabei me tornando apenas uma turista. Os donos da quadra e da bola conseguiram o que queriam: eu fui para o meu não lugar.

Desde então, o futebol ficou de lado. Fui expulsa pelo pior dos fandons com seus intermináveis “então me explica a regra do impedimento!”, vi o meu gosto pelo futebol ser podado até restar apenas uma sementinha que só deve ter continuado viva porque eu sabia que mulheres também driblavam, afinal, por alguns anos eu fui uma delas.

Descrição: foto minha olhando para molduras com fotos históricas. A foto que se destaca é a de um time feminino.

Depois de anos nesse não lugar, foi uma visita ao Museu do Futebol que me fez sentir vontade de voltar a enfrentar esse fandom. Já na primeira sala, eu vi que ia gostar do passeio ao me deparar com cartazes das olimpíadas modernas, vídeos de esportes que incluem crianças com deficiência, uma linda homenagem à Chapecoense e um mundo de escudos, imagens, faixas relacionadas ao esporte e entre elas, eu via algumas que mostravam que elas tinham vez ali.

Entre os craques homenageados, tinham Formiga e Marta incluídas. Entre as fotos históricas do futebol, havia times femininos, imagens de partidas, a lembrança do decreto-lei que proibiu mulheres de praticar o esporte por décadas e alguns recortes de jornais de outras épocas que evidenciam o machismo que ainda hoje atinge as mulheres envolvidas no esporte. Nas várias exposições do museu, fala-se delas. Talvez com uma certa timidez em alguns momentos, mas a lembrança de que elas existem e resistem está lá e eu, enquanto feminista e com um museu de histórias pessoais com futebol, saí de lá com vontade de abandonar o meu não lugar e invadir a quadra e tomar a bola até que todos os espaços também sejam nossos.


Leia também “Musas não, torcedoras”, texto que escrevi para o Ativismo de Sofá com umas dicas de como tornar o futebol um ambiente menos machista e essa pequena biografia que escrevi para o Mulheres Notáveis sobre a Léa Campos, primeira árbitra de futebol profissional do mundo.


Museu do Futebol, cadê a Cristiane Rozeira na parte dos craques? A mulher é a maior artilheira das Olimpíadas, ela merece!


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