Ontem encontrei uma outra Thaís Campolina numa sala só de Thaíses. A ocasião que nos uniu foi uma prova de concurso. Eu sabia que havia outras que dividiam comigo o mesmo prenome e pelo menos um dos meus sobrenomes, mas eu nunca antes tinha ficado cara a cara com uma outra Thaís Campolina.
Antes de entrar na sala, um funcionário da banca perguntou meu nome e foi conferir meus documentos. Descobrimos juntos a existência da Outra. Ela já estava sentada em alguma das carteiras próximas a reservada para mim.
Eu era só perguntas. Nenhuma sobre Direito Administrativo dessa vez. Queria saber tudo da Outra. Sentar frente a frente e iniciar um interrogatório longo sobre ela, sobre nós. Eu precisava nos diferenciar, mas também queria conversar sobre a curiosa experiência de ter um sobrenome que também nomeia uma raça de cavalos e a coincidência desse encontro de prenomes e sobrenomes naquela sala.
Nessa estranha entrevista, eu perguntaria se os parentes dela também a zombavam ligando seus momentos de grosseria ao seu sobrenome e compartilharia umas histórias minhas sobre ser uma Campolina. Pediria para ela me contar toda sua vida em torno dessas letras que temos em comum e, antes de ir embora, avisaria que a próxima indagação seria estranha e diria: “Alguma vez você imaginou que sua família se originou de centauros poderosos que foram amaldiçoados a se tornarem humanos ou cavalos?”
Na hora de assinar meu nome na folha do gabarito, voltei a estranhar a situação. Com uma outra Thaís Campolina logo ao lado, me senti menos eu. Parte do nome que eu assinei, estava sendo assinado por outra pessoa naquele exato momento. O formato das letras com certeza seria diferente. As digitais e número do CPF, do RG e da inscrição também não seriam os mesmos, mas ainda assim a sensação era de ter me duplicado.
Todas sentadas ao meu redor compartilhavam um nome, sala e uma prova para o cargo de auxiliar administrativo. Fazíamos exatamente a mesma prova. Sem distinção de cadernos de cores ou ordenação diferente. Provavelmente eu não era a única ali que dividia um sobrenome com outra colega, mas não duvido que, entre essas, eu era a única impressionada com isso. As Silvas e as Souzas, por exemplo, já devem estar acostumadas.
Algumas das vinte e tantas Thaíses com certeza eram originais de Belo Horizonte, outras, como eu, não. Provavelmente a maioria nasceu e cresceu em Minas Gerais, seja capital, interior ou região metropolitana. Não sei. Pelo menos uma deve ter nascido bem longe daqui, talvez no Ceará ou no Pará, e vindo para cá criança ou já crescida, vai saber. Também deve ter uma canhota e umas outras duas que também amam escrever.
Um terço da lista de candidatas Thaíses, eu não veria o rosto naquele dia, já que elas se inscreveram, mas não foram fazer a prova. Eu via seus assentos vagos e pensava em todas as outras Thaíses que estavam fora daquele espaço delimitado e controlado. E, aterrorizada, refletia quantas dessas também eram Campolina. O que elas faziam? O que queriam? Seriam elas apenas humanas como eu, a Outra e todo o restante daquela sala ou seriam bem melhores como a Outra e todo mundo menos eu podem ser?
Fiz minha prova. A Outra também. Não houve nenhuma conexão entre nós. Ela seguiu inacessível para mim e eu para ela. Definitivamente, éramos duas, apesar de dividirmos partes essenciais de nossas identidades. Temos inúmeras características desconhecidas pela outra, às vezes até por nós mesmas. Características que podem, por sinal, ser comuns entre nós ou a outras pessoas que possuem outros nomes. O que me faz eu é mais do que o nome e sobrenome que dividimos, mas eu ainda não sei direito dizer o que exatamente me faz uma pessoa diferente da Outra ou de qualquer uma.
Quando me perguntam quem eu sou, eu digo meu nome. As Outras também. Me criei com esse nome que outras pessoas também têm. Sei, com toda a certeza que uma consulta em dados públicos pode me fornecer, que tenho até uma xará completa. Sim, há uma outra Thaís Campolina Martins, alguém que divide comigo todos os sobrenomes que tenho e nasceu em Contagem ou Betim, já não me lembro. Temos em nossas certidões um nome completo em comum que marca a origem de nossas famílias, mesmo elas não sendo as mesmas. Não há parentesco, apesar de dividirmos algo tão familiar. Somos diferentes, mas compartilhamos o nome, os sobrenomes e talvez até mesmo alguns apelidos. Tatá, Thaisinha, Thathu e Campolaine. Nossos números de identificação e muitas histórias diferem, mas gosto de pensar que ela, como boa mineira, também ama pão de queijo e vez ou outra é tomada pelo desejo de comer doce de leite.
Tomara que ela nunca seja ré de um processo que, por erro do judiciário, pode acabar por me condenar.
A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves
Os termômetros marcam 30º Celsius. O asfalto quente de tanto sol e o ar parado nos dá a sensação de estarmos dentro de um forno. A cidade se dilata, enquanto as pessoas buscam algum destino mais refrescante.
Em algum momento do verão, a gente tira férias, faz as malas, confere se lembrou de pegar a escova de dentes e parte. Migramos em busca de sol, sombra e água fresca. Os destinos variam, mas todos envolvem a procura de uma forma melhor de lidar com as altas temperaturas. Quem mora em Minas Gerais, costuma escolher entre o lago de Furnas, alguma cachoeira, qualquer sítio com piscina, uma diária num clube ou o distante litoral.
Somos animais que migram em busca de água no verão. O Espírito Santo que o diga. Tomamos seus mares, lotamos suas areias e, se o dinheiro estiver curto, levamos marmitex para a praia. Quem não quer perder a pose, tupperware.
Parte do ano, as praias capixabas são um anexo de Minas Gerais. Ninguém pergunta para os nativos o que eles acham, se eles nos consideram invasores folgados ou se aceitam dividir o mar conosco de bom grado. A área simplesmente é ocupada. Quer dizer, a água.
A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves. Todos esses animais se movem por alguma razão durante determinadas épocas do ano, ainda que isso seja incompreensível para nós humanos. Suas jornadas sazonais ainda são cercadas de mistério. Mistérios que a gente parece querer entender por achar que suas respostas — ou a ausência delas — revelarão algo que pode nos ajudar a compreender melhor nós mesmos.
Biólogos implantam chips transmissores em baleias jubarte para assim conhecer suas rotas migratórias. Quantos quilômetros elas viajam? É sempre o mesmo caminho? É sempre o mesmo destino? O que elas tanto buscam? É possível que uma baleia decida simplesmente não ir? Como elas sabem o caminho e a hora de partir? Uma vai na frente e as outras simplesmente seguem? Para onde os estudiosos de baleias vão nas férias de verão? Como eles sabem para onde devem ir?
Nosso tempo nas águas é regulado pela legislação trabalhista. A gente fica o quanto pode. O quanto o chefe, as férias escolares e o saldo do banco deixam. A gente escolhe o destino de acordo com o que cabe no bolso. As jubartes não têm boletos para pagar. Elas simplesmente sabem o caminho e seguem o fluxo. Para fazer as rotas migratórias que o verão nos obriga a fazer, a gente precisa de estratégia. Muito se fala sobre humanos e a Arte da Guerra, mas não podemos esquecer jamais que o desejo de conseguir aproveitar a vida em pleno capitalismo nos fez desenvolver também a Arte das Férias.
Economiza aqui, se endivida ali, faz hora extra, se obriga a responder o e-mail do chefe no domingo depois do almoço, divide uma casa de praia com um banheiro com mais 20 pessoas. A gente faz tudo e mais um pouco para não ficar dias inteiros trabalhando em algum lugar sem ar condicionado quando os termômetros apontam 30º Celsius.
Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
Quando estive em Galinhos, as águas estavam tomadas por pessoas praticando kitesurf. Do mar ou da areia, víamos homens e mulheres testarem os efeitos da gravidade, da ventania e da água em seus corpos.
Ao meu lado, também como espectadora, havia uma menina de uns sete anos completamente fascinada pelas manobras. Ela comentava cada uma delas com a mãe.
Após um tempo de observação marcado por comentários bem tagarelas, a mesma menina, com surpresa e muita empolgação na voz, observou que havia mulheres no meio do grupo esportista. Impressionada, ela perguntou sobre isso para sua mãe que respondeu que não há nada que impeça mulheres de praticarem kitesurf e completou dizendo: “Você poderá fazer, se quiser, quando crescer um pouco.”
Enquanto a cena se desenrolava ao meu lado, eu me perguntava: “Quem seria eu hoje se nessa mesma idade tivesse visto mulheres comuns fazerem coisas extraordinárias com seus corpos e ouvido do mundo que eu poderia fazer o mesmo?”
Apesar de eu ter pelo menos mais vinte anos que essa menina, reconhecer mulheres no meio do grupo no mar também me trouxe empolgação, satisfação e, confesso, certa surpresa.
Apesar de incômoda, essa surpresa foi inevitável, já que no passeio de buggy, feito alguns dias antes, todos os motoristas eram homens. E, dias depois, quando andei de quadriciclo, foram os homens que dirigiram as máquinas enquanto as mulheres se aventuravam apenas na garupa.
O passeio de quadriciclo tinha uma parada para troca de motorista e nesse momento algumas poucas mulheres assumiram o controle de seus respectivos veículos. Eu não fui uma delas.
Por mais simples que fosse, por algum motivo, eu não me senti capaz de guiar. Não sei dizer direito o porquê disso, talvez a minha altura tenha me feito questionar a minha capacidade, eu não sei, mas me lembro de ter tido a sensação de que eu ia falhar, me envergonhar, atrasar o grupo e, de quebra, queimar o filme das mulheres.
Eu tenho carteira de motorista há quase dez anos, mas não me senti capaz de participar desse passeio como motorista, assim como nunca me sinto pronta para dirigir em Belo Horizonte e adio constantemente qualquer tentativa.
Minha mãe sempre dirigiu, mas quando meu pai estava no mesmo carro, era ele que assumia o volante e isso é um padrão que eu reconheço em várias famílias. Amigas minhas, mesmo as da minha idade, ainda agem assim até mesmo com seus próprios carros. Muitas das minhas tias sequer dirigiram alguma vez na vida, enquanto seus maridos sempre o fizeram. Mesmo antes de terem seus veículos ou habilitação, eles pegavam emprestado de alguém e guiavam sem pensar muito naquilo que faziam.
No grupo do passeio, o padrão era o mesmo. As mulheres eram todas acompanhantes. Nenhuma era motorista principal e isso me fez pensar bastante em como mulheres experimentam o mundo e não descobrem ou não reconhecem suas potencialidades por terem sido condicionadas a uma passividade que se baseia no apagamento de seus próprios desejos e curiosidades.
Nessas situações, eu sempre questiono: “Bastaria uma para que outras se sentissem encorajadas a tentar?” e a resposta costuma ser “Não sei” ou mesmo “Provavelmente não”, porque a gente sempre ouve que as boas motoristas, as muito inteligentes, as aventureiras e afins são exceções e percebemos que um erro nosso é sempre tratado como prova inequívoca da falta de capacidade de nosso gênero. Além disso, é preciso entender que algumas mulheres, senão a maioria, são desencorajadas pelos próprios companheiros a assumirem atividades como essas.
Em sete dias de viagem, eu tive três experiências que me fizeram pensar nas questões de gênero que permeiam a vida das mulheres mesmo quando elas saem de seu lugar de sempre e buscam viver coisas diferentes.
No quadriciclo e no kitesurf, as observações partiram da minha inatividade e na percepção do impacto psicológico da visão social das atividades femininas e masculinas em mim e nas mulheres ao meu redor. Já na terceira experiência, o meu local é o de uma mulher que participa da atividade aventureira como protagonista.
Eu simplesmente fui sem nem pensar duas vezes numa tirolesa e foi ótimo, mas isso acabou se tornando uma questão quando eu fui assistir ao vídeo feito no momento e me deparei com vozes masculinas berrando para mim “pode gritar, mulher”.
Não senti nenhuma vontade de gritar, sequer frio na barriga. A sensação foi de tranquilidade e prazer. Com os olhos bem abertos e míopes, vivi a experiência como se pairasse no ar entre água, vento e duna. Nem ouvi o berreiro masculino que depois descobri que existiu.
Quando meu namorado foi, logo depois, ninguém esperou que ele gritasse, quis dar permissão para ele fazer isso ou assumiu que ele estava morrendo de medo.
Todo mundo deveria poder gritar, se está com medo ou sente prazer nisso, mas a experiência feminina parece ter que aparentar ser de pânico ou ser assim de fato.
O medo e a insegurança são colocados como femininos e, de tanto ouvir isso, a gente se convence de que essa é a ordem natural das coisas mesmo quando o assunto não é estupro, violência doméstica e afins. Nos querem assustadas em todas as esferas. Até mesmo na hora de vender um passeio de aventura durante uma viagem. Mesmo isso sendo economicamente meio burro.
Quando eu, mais uma vez, não consegui viver a experiência
— tola, talvez, como agora eu vou saber? — de dirigir um Quadriciclo, eu me senti uma impostora. Por mais que eu fale que lugar de mulher é onde ela quiser, eu ainda sinto o peso do que vi e ainda vejo ao meu redor.
As mulheres ainda são vistas como passageiras. Não podem guiar suas próprias vidas. São acessórios que seguem o principal, o homem. Eles sabem de si e de suas companheiras e a gente foi ensinada a acreditar que essa é a ordem natural das coisas e que aceitar isso é ser uma boa garota.
A boa garota não se suja de areia quando curte uma praia, hidrata seus cabelos para que eles não fiquem quebradiços e faz questão de evitar molhar os fios quando entra na água. Ela não anda só de biquíni pelo calçadão. Sempre está de bolsa e canga. Ela sorri, fala pouco, baixo, se desculpa toda hora e não sabe ser assertiva. Ela está com a depilação em dia e as unhas bem cortadas e feitas. Ela aceita passiva seu lugar no mundo e acompanha seu homem bem bonita. Ela não existe, é apenas um ideal que nos ensinaram a buscar.
Ainda na sexta série, me lembro de anotar nas minhas agendas frases que diziam que as más garotas são as que saem do lugar, se divertem, são livres e sabem viver. Desde então quis ser uma dessas, mas muitas vezes tive medo das consequências desse desejo. Até porque, por ser pequena, branca e “frágil”, eu nunca me senti apta a caber nesse outro estereótipo que vez ou outra se apresentava de forma tão atraente, apesar de tudo.
A má garota é também a que precisa ser corrigida. É a que ouve que precisa fechar as pernas ao sentar e a que é xingada de respondona ao questionar. Se ela se machuca porque saiu correndo para fazer algo com os meninos, ela ouve que deveria ter ficado quietinha em casa.
Fui ensinada a ser uma boa garota, como todas nós fomos em algum nível, e achei que tinha rompido com isso. Descobri que não, apesar do meu esforço em desconstruir isso desde a adolescência.
Eu ainda sou uma dessas que, mesmo durante uma viagem maravilhosa, se incomoda com o que os outros vão pensar de suas unhas dos pés que estão grandes demais porque cresceram estranhamente nos últimos dias. Eu ainda sou uma dessas que tem uns devaneios de aventuras que ficam sempre no plano das ideias, porque, afinal, o mundo lá fora é perigoso demais para uma mulher. Eu ainda sou uma dessas que não consegue abandonar essa persona que sequer chega a tentar porque sabe que todo erro seu contará contra si e contra outras. Eu ainda sou uma dessas, que fala que não consegue sem nem ao mesmo tentar.
Virginia Woolf escreveu sobre a necessidade da mulher matar o anjo do lar para que possa viver de forma saudável. O anjo do lar é a neutralização da mulher enquanto indivíduo, um fantasma que nos assombra com finalidade de nos lembrar que devemos ser boas garotas e servir aos homens. Ele nos impede de descobrir nossas potencialidades porque coloca o desenvolvimento pessoal e as experiências da vida das mulheres como secundários. Esse anjo maldito assume que o que podemos fazer melhor é apoiar um homem, através de cuidados, serviços domésticos, amor e afins, porque ele sim tem potencial para fazer alguma coisa realmente significativa. Esse anjo vive dentro de nós e é fruto dessa educação que busca formar boas garotas.
Que antes das próximas férias, eu consiga fazer minha boa garota interior ir para o inferno junto desse anjo pervertido. Já passou da hora de eu e todas nós entendermos que podemos ser protagonistas de nossas próprias vidas. Entre eu e a minha melhor versão, ainda há um anjo do lar vivo e uma garotinha que quer obedecer os adultos em suas tolices só pra ganhar sorrisos.
A galeria dos constrangimentos literários de Thaís Campolina está em constante construção, o que pode fazer esse texto chegar aos quinze minutos facilmente.
Decidi criar esse acervo após ler o livro [manual prático de bons modos em livrarias] e pensar em todas as minhas histórias constrangedoras que com uma modificação aqui e ali poderiam me transformar facilmente numa personagem pitoresca que incomoda livreiros.
O clássico encontra o contemporâneo
Eu passei semanas chamado o escritor Ricardo Lísias de Ricardo Lusíadas e achando meio estranho, mas legal, ele ter como sobrenome um título de um clássico da língua portuguesa. Achei que nunca mais ia errar o nome dele, mas semana passada, fui comentar essa história e chamei o cara de Ricardo Lisíadas. Acho que na próxima eu vou falar “Aquele autor que foi processado pelo Eduardo Cunha, sabe?” porque daqui a pouco eu meto um Odisseia no nome do cara.
Uma confusão entre senhoras
Uma vez, ainda no Ensino Médio, eu fui xingar o clássico “Senhora” e acabei xingando a senhora do político e ex-vice presidente do Brasil José Alencar. Só depois de ouvir o interlocutor falar várias coisas doidas, eu entendi que faltou um “de” e o coleguinha estava certo ao ter continuado o papo com informações sobre política.
Se sua agenda parece impossível de ser cumprida, você não tem ideia de como é o planner da Metrópole
Nova York pelo desenho do artista holandês Stefan Bleekrode — Saiba mais sobre ele aqui.
Sempre chego nas aulas de yoga mais cedo às quartas-feiras. O trânsito descomplicado, a velocidade do ônibus, a hora que saio do trabalho, o elevador já me esperando no andar, e todo o resto confluem para que eu consiga um tempo para respirar, bem no meio da semana. Toda coincidência parece mágica, mas uma que envolve tantos fatores só pode ser coisa do demo ou dos deuses.
Fui criada em lar católico, então nem de brincadeira consigo nomear esses 20 minutos sagrados de adiantamento de hora do diabo, como meus amigos adoram fazer. Apesar disso, gosto de cometer várias heresias, como falar de astrologia, entoar mantras e dizer que descobri a deusa Metrópole quando a dádiva da quarta-feira surgiu em minha vida.
Toda vez que o ônibus chega na hora exata, a Metrópole mexeu os pauzinhos para isso. Quando o despertador não toca e mesmo assim você acorda na hora certa, pode ser seu relógio biológico ou ela fazendo seu trabalho. Sabe quando você faz um caminho, diferente ou não, bem no horário de pico e não há muito trânsito? Não foi o waze, app nenhum te dá essa sorte toda. Se caiu um toró assim que você chegou em casa, a Metrópole te queria seco. O acaso cotidiano é presente dela. Ela é a deusa dos pequenos e raros milagres diários das grandes cidades. Pena que é uma só.
Se sua agenda parece impossível de ser cumprida, você não tem ideia de como é o planner da Metrópole. Só a parte de Belo Horizonte consta 1,433 milhão de linhas, uma para cada pessoinha que mora aqui de acordo com o censo de 2010.
Metrópole não trabalha com um destino definido ao nascer. Seus estagiários observam as pessoas, notam as possibilidades de encontros e desencontros e fazem relatórios que são repassados para a chefia, ela. Com as informações reunidas, ela faz mágica com o que tem no dia e só. Todos os funcionários estão sobrecarregados. É por isso que parece que ela se esquece da gente às vezes e há dias tão melhores que outros.
Quando sento na sala de espera da yoga, penso na Metrópole, seus estagiários e em todo o caos que ela governa. Sempre me pergunto se a deusa do cotidiano tem alguma folga, alguma noite em que pode sentar com seus gatos e tomar vinho enquanto lê um livro. Provavelmente não, já que está aqui e também em Tóquio, em Buenos Aires, Londres e Lagos.
De repente, eu nem me lembro mais dela e vou ler revista de fofoca, escrever umas baboseiras no caderninho que anda comigo, comer a trufa que comprei na hora do almoço e imaginar a vida de alguém que vi passar pela porta.
Quando percebo, o tempo acabou mais uma vez. São só vinte minutinhos.
Esse texto foi originalmente publicado na newsletter “Crônicas da Vida Alheia”, projeto que eu tinha com a Ana Squilanti. Agora eu tenho uma newsletter só minha. Se interessou? Clique aqui e assine.
Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Esse é um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre autoras e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras.
Da rodoviária de Montevidéu, peguei um táxi para meu destino. O motorista era um senhor idoso bem vestido, apesar das peças de roupa aparentarem serem bem antigas, assim como seu carro. Com as malas guardadas e o endereço informado, seguimos.
Assim que o veículo ligou, o aparelho de som começou a tocar “Sabe tchururuuuuu estou louco pra te veeeeeer, oh yessss, sabe tchururuuuuu entre nós dois um querer, eie…”
Entre os “tchururu”, os “olha eu te amoooo e quero tantoooooo beijar teu corpo nuuuu” e a informação prévia de que vivemos uma crise em nossa republiqueta, percebi como o Brasil anos 90 ainda vive até mesmo fora do país.
Quando eu era bem criança, minha mãe me disse que íamos para Belo Horizonte conhecer a Mônica. Esperei essa viagem com toda a ansiedade infantil que conhecer um ídolo pode causar. Chegando lá, descobri que Mônica, prima da minha mãe, não era a personagem dos gibis e sim uma mulher bem alta.
A decepção foi óbvia, mas a surpresa com o tamanho foi maior: “Nuh, que Monicão!”, eu falei.
Os pontos de ônibus das cidades servem como ambientação de diversas histórias. Na Curitiba, entre Augusto de Lima e Guajajaras, eu vi histórias de amores passageiros começarem com trocas de olhares apaixonados e terminarem com um dos amantes entrando no ônibus antes de qualquer “oi”. Parada ali, esperando o ônibus passar, também fiquei sabendo de roubos que rolaram no dia anterior e, com a contribuição de dois reais, fiz parte do momento em que um homem, em situação de rua, conseguiu adquirir um radinho para o grupo que fazia parte.
Uma vez, esperando ônibus às 06:40 da manhã nesse mesmo ponto, vi o amarelinho se aproximar vazio para o horário. Acenei, ele diminuiu a velocidade e passou por mim bem lentamente. O motorista me encarou, olhou no fundo dos meus olhos e acelerou. Diante desse sadismo cotidiano, o que pude fazer foi rir enquanto anotava a placa do veículo para fazer a denúncia mais tarde. Também sei ser sacana e transformar situações comuns em histórias de vingança
Muitos romances, filmes e até mesmo as novelas que passam na TV nos sugerem que a vida é feita de grandes emoções e momentos grandiosos. A verdade é que, na maioria das vezes, a maior emoção da semana é encontrar a cozinha e a área alagadas porque o cano da máquina de lavar saiu do lugar.
Nasceu uma afta na pontinha da minha língua e o meu medo agora é dar com a língua nos dentes.
Abri os olhos com preguiça essa manhã. A noite foi difícil. Acordei várias vezes durante a madrugada e, numa delas, descobri que fui servida como prato principal para um grupo bem numeroso de pernilongos famintos.
O despertador tocou novamente. Levantei relutante e fui ao banheiro. Ao me olhar no espelho, acabei me achando bem parecida com o Luan Santana. Com estranhamento, percebi que minha transformação no cantor sertanejo estaria completa se eu fizesse um coque desses que os caras estão usando e quase ri quando notei que meu cabelo está no comprimento ideal para isso. “Estou virando um galã feio!”, pensei enquanto encarava incrédula minha nova imagem.
A estranheza do momento passou quando cocei os olhos, embaçados pelo sono e pela miopia, e me percebi sem óculos.
Resfriada, cocei os olhos. Seria algo comum se eu não estivesse com o dedo sujo de molho de pimenta. O nome do molho? Brasinha.
Meu corretor troca Bolsonaro por Bolasterona sem eu nunca ter escrito isso na vida e eu fico rindo porque esse é o nome de um anabolizante descrito no google como uma droga ineficaz, muito perigosa e que deve ser evitada.
— Que barulho é esse, Thaís? Você ouviu?
— É jumento.
— Mas o som tá vindo aqui do banheiro!
— Ah, é jumento mesmo. Deve tá lá fora.
(Segundos depois, a gente descobriu que era a torneira da pia do banheiro e eu ri ainda mais porque o Lucas falou “tá vendo? Não era um jegue”)
Minha mãe acabou de me ligar para me contar que ela e o Billy, nosso doguinho, foram entrevistados quando faziam caminhada.
Minha mãe disse que perguntaram se eles faziam exercício sempre e ela respondeu que andam juntos todos os dias.
Reagi:
— Uai, o Billy não latiu nada não? Deixou você falar por ele? Não me parece muito do feitio dele isso não, hein?
E ela respondeu:
— Fora de casa ele é tímido.
Sábado vivi uma cena que caberia perfeitamente em um desses seriados de comédia que explora os pequenos absurdos do cotidiano como fonte de humor.
Um pouco antes de sair para comer canjica, dançar forró e curtir amigos, liberei o Billy, cão da minha família, para brincar um pouco na varanda. Enquanto ele mijava, cheirava tudo, corria e conferia se não tinha nenhuma lagartixa para caçar, fui me arrumar para a festa junina que me esperava.
Minutos depois, quando eu já estava com o rosto corado de blush, com minhas sardas falsas feitas, meu chapéu de palha com babadinho branco na ponta posicionado, meu cabelo em maria chiquinha na cabeça e vestido xadrez no corpo, corri para a varanda após ouvir o Billy, que é uma mistura de pinscher com chihuahua, logo muito barulhento e estridente, latir enlouquecidamente.
Ali me deparei com um cão, todo branquinho, peludinho, escovadinho e usando uma gravatinha xadrez fofíssima, rosnando, latindo e pulando na grade contra o Billy e Billy, tão bonitinho quanto, mas com certeza menos limpo, latindo de volta todo feroz. Antes de perceber o ridículo da situação, me envolvi nela e passei a correr, toda fantasiada, atrás do Billy mandando ele entrar logo em casa.
Todos estávamos muito irritados, inclusive eu pedindo silêncio. Todos estávamos muito pequenos, como sempre, e especialmente fofos, inclusive eu, que ralhava e perseguia o Billy que corria para onde cão felpudo com gravata ia.
A cena deve ter sido magnífica para os desavisados que passavam na porta curiosos com aquela barulhada.
O interfone tocou, eu atendi e o seguinte diálogo aconteceu:
— Quem é?
— Lucas?
— É você, amor?
— Uber Eats para o Lucas. (som de risadinha abafada)
— Ok. Tô indo pegar para ele. (som de constrangimento disfarçado)
Eu sou muito boa em passar vergonha, né?
Um dos meus erros preferidos de digitação e fala é chamar a tetralogia napolitana da Elena Ferrante de tretalogia.
Segundo minha mi band, hoje eu dormi melhor que 99% dos usuários. Venci a corrida de melhor dorminhoca do mundo.
Acordei com um estouro. Um gato jogou uma garrafa de Mate Couro no outro. A primeira coisa que fiz no dia foi tacar shampoo de banho a seco em um gato encharcado de refrigerante.
Tagore completamente ensopado de refrigerante ainda tentou fugir para debaixo da cama quando viu que queríamos pegá-lo. Paramos o bicho já quase em baixo do edredon. Agora ele se lambe todo, enquanto Adelaide nos observa de longe com uma expressão que diz “o que foi que eu fiz?”. Ela sabe que a situação foi criada por suas próprias patas.
Achei que tinha um vizinho distante cantando ópera na janela, mas é só uma Live do Bocelli em alto e bom som aqui do lado mesmo.
Minha mãe acabou de me mandar pelo WhatsApp um vídeo da minha vó. Pela data e pelas envolvidas, pensei que ia vir uma mensagem religiosa junto com palavras de conforto e saudade, mas no lugar veio um feliz Páscoa que uniu abraços virtuais para todos com um vídeo de recebidos de chocolate.
Decidi que vou fazer tai chi chuan, para a alegria do meu pai que defende a prática mais do que tudo, simplesmente porque ele me mandou um vídeo chamado “perfumado” que ensina movimentos com nomes maravilhosos como “dragão abana a cauda”.
VOU ABANAR MINHA CAUDA DEMAIS HOJE, AMIGUES
e não é dançando funk, é fazendo um movimento muito lento, muito lento mesmo, com os braços
Minhas habilidades na cozinha são bem na média: dá pra passar de ano, mas vez ou outra sou aterrorizada pela possibilidade de recuperação.
Tem hora que acho que estou sendo a própria Feiticeira com sua clássica mexidinha no nariz e na verdade eu estou é fazendo careta e explorando todos os limites dos meus músculos faciais. Tudo para tentar não me encostar. A rinite não dá trégua nem em tempo de pandemia.
Toda hora que lavo as minhas mãos, canto mentalmente “Dorime” em ritmo de forró, acabo dando uma dançadinha e me sinto vivendo num filtro de stories do Instagram e não no meio de uma pandemia.
A sinfonia da chuva tem vários sons característicos que todo mundo adora lembrar na hora de escrever ou contar caso, entre eles, o que tem mais cara de crônica é a barulhada de todo mundo correndo para fechar as janelas o mais rápido possível.
Ouso dizer que a movimentação humana para tirar roupa do varal, fechar as janelas rapidamente e outras atividades correlatas que unem chuva, urgência e cotidiano conseguem chamar mais atenção do que o barulho dos animais da vizinhança. E olha que pet tem carisma.
A crise na construção civil pode ser facilmente resolvida comigo fazendo uma tour pelo país. Se eu preciso de silêncio, todos ao meu redor conspiram para fazer uma reforma.
Todas as minhas histórias de terror terminam comigo descobrindo mais uma vez que aqueles sons estranhos que pareciam gemidos ou sussurros vinham da geladeira.
(Infelizmente a geladeira da casa dos meus pais, a grande protagonista dessas histórias, foi vendida e agora temos uma geladeira estranhamente silenciosa que acaba sendo mais assustadora que a barulhenta. A gente se acostuma com tudo mesmo, né?)
Acabei de ver uma mulher mais velha bem séria usando roupas “de adulta” saindo do trabalho, mas na blusa estava escrito “quebre as regras” em inglês e agora não consigo parar de imaginá-la obrigada a fazer um curso de compliance por causa dos comportamentos que ela incentiva talvez sem saber.
Eu adoro que a função real do vigia da padaria que frequento é a de acariciador de cães dos clientes.
Enquanto as pessoas compram pão e lanches, ele mima os pets.
Tenho me sentido um enorme clichê. Meu bloco de notas do celular está repleto de poemas sobre o fim do mundo e a minha cabeça não se cansa de produzir histórias de distopias que se passam no agora, agorinha.
Todas as histórias postadas nesse texto foram publicadas originalmente na minha página do Facebook ao longo do tempo. Tenho copiado aqui histórias muito mais recentes do que a data da publicação desse texto. Se você gostou, me acompanhe também no Facebook, Twitter e Instagram.
A gente ainda usava SMS. O brasileiro tinha acabado de começar a migrar do Orkut para o Facebook. Antes desse fenômeno migratório tecnológico acontecer, eu já usava a rede do Mark Zuckerberg para jogar Máfia Wars e tinha como metade dos meus contatos desconhecidos de diversos países que faziam parte do meu grupo de mafiosos.
Nessa época, todo dia alguém conhecido te adicionava. Um dia foi você e por algum motivo a gente começou a conversar. Muito antes do messenger ser um aplicativo, a gente já trocava muitas ideias nele. O Messenger do Facebook foi pouco para caber nossa vontade de comunicarmos. Logo a gente foi para o sms, Skype e chegamos até usar uns serviços tipo o Tinychat. Era conversa que não acabava mais.
A gente se viu e continuou se vendo quando dava. Eu mostrava suas mensagens para minhas amigas e a cada dia você ganhava espaço, enquanto os outros perdiam. E um dia eu soube que o espaço já era todo seu. No outro dia, começamos a namorar. Um mês e meio depois, dissemos eu te amo um para o outro.
Depois eu soube que o amor é uma história contínua. O início não conta nem um terço de uma história de amor. Todo dia a gente descobre novas formas de cuidar, de acariciar, de compartilhar. Juntos, potencializamos o que o outro tem de melhor. Juntos, a gente aprende mais da gente e do mundo. Juntos, a gente explora sabores, prazeres, lugares e o tédio. Juntos, a gente se apoia e se desafia. Mesmo seis anos depois, eu ainda descubro que é possível amar mais ainda. Com você, eu descobri que o amor é algo de todo dia.
Eu te amo tanto que eu sequer sei escrever sobre nós. Todo ano, até eu ser a melhor escritora do mundo, eu vou tentar, sem sucesso, transferir para o papel o amor que sinto por você. Todo ano, durante a tentativa, eu vou molhar a blusa de lágrimas de emoção, porque as lembranças de nossa história estão no meu corpo, sendo sentidas, mas seguem incapazes de serem escritas. Todo ano, eu encontrarei ainda mais amor para transformar a ocitocina em palavra. Todo ano, eu vou tentar, porque você merece o meu melhor texto, mas você só ganha essas cartas incompletas, mal redigidas e status no Instagram. Mas o que importa mesmo é que, todo ano, eu quero estar ao seu lado.
Muito mais doloridas que as histórias de gaveta, as histórias que vivem debaixo dos tapetes sufocam umas às outras, amontoadas em suas dores próprias, sem mesmo perceber que, no meio de tanta poeira, tem um mundo de semelhantes caladas encasteladas em suas solidões.
Debaixo do tapete, as histórias não sabem umas das outras. Elas narram seus acontecimentos num murmúrio que encontra com outros e, no fim, todo esses cochichos ecoam como um canto único e triste. Elas vivem solitárias, vagando num labirinto escuro, confuso e aparentemente infinito, como nossas mentes.
Quando uma narrativa, por acaso, escapa, encontrando uma fresta de som, luz e palavra, ela descobre que saiu de um tapete espesso que é capaz de abafar aquela música triste que toca o tempo todo. Estando fora dali, todos a encaram, enquanto ignoram e pisam naquele volume enorme e disforme que se movimenta debaixo do tapete que antes era sua moradia.
A primeira palavra que ela pronuncia de sua história vem como um grito, vem forte, e ela continua falando, falando e falando. Então ela ouve sussurros, percebe que apontam para ela, riem dela, duvidam dela e a acusam. Ela começa a perder a voz, quase emudece, até que lembra que ela foi atraída por essa fresta porque ouviu um relato visceral contado na voz de uma mulher e veio atrás por perceber que quem narrava ficou sem fôlego, sem coragem e deixou a história pela metade.
A história procura a outra história e a encontra caída, sem energia ou força alguma, quase desaparecendo em lágrimas. A história dá a mão para a outra, ambas se levantam e notam a força que têm juntas. Agora potentes, narram si mesmas, falam o que têm que falar, enquanto circulam em volta do tapete levantando sua borda e vendo surgir mais vozes.
Juntas, numa catarse, elas se descobrem um exército armado de palavras.
Era verão e eu queria sentir o vento fresco do início da noite bater em meu rosto. Escancarei a janela, respirei fundo e deixei o ar preencher meus pulmões, enquanto encarava o prédio ao lado. Passei os olhos pelos apartamentos iluminados e me deparei com dois corpos pendurados e sem cabeça.
Senti meu corpo tensionar, tremer e quase cheguei a suar frio e então percebi que eram apenas dois ternos suspensos num cabide fora do armário.
A figura do escritor se sustenta num estereótipo que é basicamente um homem branco, que quando não bebe café, bebe conhaque. É sempre um cara que fala pouco, não gosta de fazer social e escreve madrugadas a fio. O escritor padrão é um cara blasé que acha uma futilidade tudo que não o interessa. Há quem diga que o “escritor raiz” tem que tocar o papel durante o ato de fazer um texto, seja com lápis, caneta ou máquina de escrever. Outros falam que tem que ser solitário acima de tudo.
Sempre escrevi, mas nunca cumpri os requisitos para tirar a carteirinha. Do café, gosto só do cheiro. Sou dada às palavras, sejam elas escritas ou ditas. São as conversas que me movem, adoro a contação de histórias e as pequenas crônicas do cotidiano que cabem nos casos que narramos e ouvimos.
Na madrugada, eu encontro o sono. Para existir, preciso dormir oito horas diárias. Só bebo cerveja artesanal e com companhia. Sou mulher, então supõem que escrevo listas de compras, anoto compromissos em agendas e falo sobre casamento e príncipes em diários. Escrevo com o que tiver na minha frente: papel e caneta, bloco de notas do celular ou computador. Para não perder ideias, anoto com o dedo frases no box do banheiro cheio de vapor. Mas confesso que tendo ao preciosismo do papel e caneta quando faço poesias.
Quis caber nesse rótulo muitas vezes, me desqualifiquei como possível escritora só por não ser indiferente o suficiente, rir demais e morrer de preguiça dessa idolatria pelo café. Às vezes até brinco com esse estereótipo e escrevo na primeira pessoa como se eu representasse bem esse padrão. Até porque o mundo da escrita me permite usar a primeira pessoa do singular e criar histórias narradas por um eu que não sou eu.
Usar essa persona escritora como uma identidade sua ou de um personagem se tornou um clichê que desencoraja quem está tão longe do que foi eleito como “O Portador Da Carteirinha de Escritor” e transforma essa figura em algo quase sacro, como se a atividade de escrever fosse um dom divino que carrega junto o tormento, estranhamente qualificador, de não aguentar o Outro.
Pego emprestada a ideia de anti-herói e quando a insegurança bate, me assumo como uma antiescritora. Não caibo no que se espera do escritor clássico e sei que o grupo composto por quem escreve é heterogêneo demais para se definir um padrão, mesmo que, em partes, ele seja o que a gente vê em peso nas prateleiras das livrarias.