Cultura do estupro: o que a reação das pessoas ao Caso Neymar diz sobre nossa sociedade?

Neymar vestindo a camisa 10 da seleção brasileira em campo

Desde que a acusação de estupro contra Neymar saiu na mídia, muito se discute sobre o comportamento da possível vítima. Esse é o modus operandi da cultura do estupro. Especialmente quando o acusado usa o comportamento sexual da mulher como um meio de tentar provar sua inocência.

Mesmo que o jogador seja inocente na acusação de estupro, sua tentativa de defesa pública partiu de estereótipos de gênero, misoginia e de noções bem erradas do que é consentimento. Além de tudo, houve a propagação de imagens íntimas da mulher em questão, o que por si só configura crime e também pode ser visto como uma tentativa de intimidação bem característica do fenômeno chamado de pornografia de vingança. Toda a exposição do caso e da possível vítima feita pelo Neymar, seu pai, Datena e outros evidencia o poder e influência que o atleta tem e como a sociedade legitima que ele o use contra essa mulher como uma maneira de silenciá-la.

A partir desse caso e a reação da sociedade ao que é dito, exposto ou suposto, mesmo sem qualquer veredicto sobre Neymar, temos a chance de debater sobre o que é estupro e combater esses pensamentos que fazem tanta gente considerar que a manifestação prévia de uma certa disponibilidade sexual é necessariamente um impeditivo para que tenha havido abuso e como essa visão colabora com a ideia de que certas mulheres são consideradas estupráveis e outras não.

Para entender tudo isso é preciso se perguntar sobre o porquê das defesas de crime de estupro, profissionais ou feitas pelo próprio acusado, sempre apelarem para essa abordagem em que o foco recai na vítima que é cobrada a se provar idônea o tempo todo.

O estupro é abordado historicamente, inclusive pelo Direito, pela ótica masculina e patriarcal que vê as mulheres como manipuladoras e traiçoeiras quando se trata de sexo, sedução e afins. A ideia de que o valor feminino estava ligado à virgindade alimentava ainda mais essa visão, porque esse seria um motivo que faria mulheres que “cederam à tentação do sexo” mentirem e a possível vida sexual fora do casamento um sinal de que a mulher em questão já seria impura, logo pouco confiável e propensa a fraude. Isso, somado ao fato de que o corpo feminino é considerado propriedade e direito dos homens, sedimentou a prática de colocar a vítima como foco em caso de violência sexual. Isso é tão forte que há quem defenda, ainda hoje, que não existe estupro dentro de casamentos usando o argumento de que esse contrato social e jurídico envolve necessariamente obrigação de sexo.

Quando se coloca uma possível vítima de estupro no centro de um tribunal público em que se discute, principalmente, o comportamento sexual dessa mulher que acusa, a mensagem que se passa é a de que mulheres ativas sexualmente são corpos disponíveis, logo impossíveis de serem estupradas.

É preciso reiterar que o fato de dizer sim uma vez não é sinônimo de um sim eterno ou que esse sim atinge todas as práticas sexuais possíveis. Sexo é algo que parte de interesse, respeito e combinados mútuos. Sua palavra-chave é consentimento e ele pode ser retirado a qualquer momento e ainda assim precisa ser respeitado. Topar transar não é topar fazer tudo que o outro quer. Topar sexo agora não impede a pessoa de mudar de ideia 10 minutos depois.

A noção deturpada de consentimento faz com que mulheres se sintam confusas sobre terem ou não sofrido violência, principalmente em casos de date rape e estupro marital. O imaginário social do que é estupro ainda é o da vítima pega de surpresa e com extrema violência em um beco escuro de noite, o que torna difícil o reconhecimento do crime de primeira por quem vive situações que envolvem paquera, interesse e envolvimento ou por quem não se vê no papel de vítima ideal por já ter transado ou querido transar com o agressor.

Estamos todos acostumados demais com a desumanização das mulheres, o que dificulta que a gente olhe para possíveis vítimas femininas de homens, especialmente aqueles poderosos e públicos envolvidos em casos de date rape, com empatia. As estranhezas que podemos enxergar em um relato podem ser sintomas de estresse pós-tramático ou parte de um processo de distanciamento e negação, por exemplo. Quando se trata sobre estupro, podemos, mesmo sem querer, nos amparar em noções distorcidas pelo machismo e misoginia do que se é ou não violência sexual e de quem pode ou não ser vítima dela.

Esse texto não é sobre condenar ou absolver o Neymar socialmente, é, principalmente, sobre como nossa sociedade encara a violência sexual e o corpo das mulheres. Mesmo que esse caso acabe se tornando um exemplo raríssimo de falsa acusação, a reação da sociedade perante o tribunal sexual montado pelo Neymar diz muito sobre o mundo que vivemos e o que é e como se manifesta a cultura do estupro.


Obs: Esse texto surgiu a partir de dois tweets que fiz para o Ativismo de Sofá e foi publicado, originalmente, em minha página pessoal no Facebook. Se você gostou dessa leitura, deixe suas palmas, faça um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Facebook e Twitter.

Mãe de planta

Imagem de uma matéria da Hypeness sobre a casa da norte-americana Summer Rayne Oakes

Meu apartamento era como qualquer outro até seis meses atrás. Cama, armários, geladeira, fogão, micro-ondas, um computador, uma tevê, mesa para quatro, filtro de barro, escrivaninha, uma estante, um sofá e acho que só. Isso me incomodava. Eu sentia que morar em um lugar sem identidade dizia algo muito grave sobre mim. Temia que alguém me visitasse e percebesse que eu era uma dessas pessoas que não sabia muito bem quem era e comentários sobre minha residência sem personalidade me tornassem uma espécie de pária no mundo dos autênticos.

Minha casa mostrava muito sobre quem eu era. Essa é a verdade. Por isso, me aborrecia tanto entrar pela sua porta e me deparar com aquele vazio que significava estar ainda em formação e, pior, nem saber fingir parecer diferente. Nessas horas, me esquecia que a questão não era só não saber para onde estava indo ou quem de fato eu era ou queria ser, mas, talvez principalmente, a realidade da minha conta bancária e a possibilidade de amanhã eu ter que estar em outro lugar. Não havia grana o suficiente para encomendar móveis ou decorar meu apartamento com produtos da Tokstok. Comportamentos decorativos que, por algum motivo, são considerados como um sinal inegável de autenticidade em nossos tempos.

Aflita e depois de ver um milhão fotos no Pinterest de casas incríveis cheias de plantinhas, vasinhos, estantes e poucos móveis, decidi adicionar mais vida ao espaço branco que chamava de lar e acabei comprando uma samambaia. Depois vieram os vasinhos de cactos. E, a partir disso, foi questão de tempo para meu pequeno apartamento se transformar numa selva particular.

Minha casa se tornou um refúgio da cidade grande para mim e point com carinha de moderno e sustentável para amigos e conhecidos. De um dia para o outro, a casa sem identidade se transformou em um local de encontro para aqueles que sentiam seu lado jardineiro, antes adormecido, pulsar.

Cuidava de cada vasinho com o amor que nunca fui capaz de dedicar a mim. Me esforçava para aprender o segredo das plantas e punha a mão na massa sem os nojinhos que me acompanharam durante toda a minha vida de garota urbana nascida e criada numa das maiores cidades do país.

Era tudo muito bonito, tranquilo, relaxante. Uma jornada de descoberta que eu estava adorando viver. Cheguei a arrumar um minhocário, aprendi produzir adubo com lixo orgânico e até decorar vasinhos de barro com tinta colorida, eu comecei a fazer. As plantas ficavam cada dia mais exuberantes e, num ataque de orgulho, me declarei mãe de planta para quem quisesse ouvir.

Apesar de ter postado esse anúncio no Instagram, no Facebook e no Twitter, foi em casa que senti que fui de fato ouvida. Um som agudo, muito agudo, e manhoso me acordou no dia seguinte ao meu testemunho antes mesmo de amanhecer. Era domingo e eu odiei com todas as forças a criança birrenta que algum vizinho arrumou até chegar na sala e perceber que minha Orquídea Dendrobium era quem emitia aquele som horrível. Quando dei por mim, ninava seu vasinho feito de barro cantando bem baixinho uma música sobre sementinhas.

Os gritos logo cessaram, mas ela seguia choramingando e eu não sabia o que fazer. Demorou, mas acabei me lembrando que no dia anterior tinha arrancado umas folhas velhas de seu tronquinho e decidi parar para observar melhor seu caule. As marcas dos cortes pareciam ter inflamado durante a noite. Quando passei o dedo para testar, ela voltou aos berros iniciais e eu corri para o Santo Google que me aconselhou a passar canela em pó nos cortes. Cicatrizante natural, sabe? Cuidada, ela se acalmou e voltou a se concentrar na fotossíntese.

Depois de ver o sol amanhecer com uma planta desesperada no colo, meu pijama estava todo sujo de suor, terra, canela e fluidos que eu não sabia de onde tinham saído. Cocô, xixi, seiva ou lágrima de orquídea? Aparentemente tudo isso e mais um pouco. Era impossível não pensar no quanto eu precisava de uma chuveirada.

Limpa novamente e conformada que ao menos essa novidade biológica sobre orquídeas não fedia muito e indicava que provavelmente eu não ia precisar mais me dedicar tanto ao minhocário, fui preparar meu café da manhã.

Chegando na cozinha, percebi que todas as plantas da casa tinham abandonado a passividade esperada delas e se moviam, conversavam e me encaravam. A orquídea foi a primeira a despertar desse sono vegetal, mas agora eu tinha que lidar com mais trinta seres vivos desesperados por diferentes tipos de atenção e cuidado.

Pinterest

Os Cactos, como bons adolescentes rebeldes, me ofendiam e gritavam como me odiavam quando eu chegava perto. As Samambaias queriam brincar comigo e tentavam me fazer tropeçar com rasteiras dadas pelos seus galhos delicados e riam descontroladamente toda vez que tentavam. A Palmeira-Ráfia me enchia o saco querendo que eu acariciasse suas folhas e a chamasse pelo seu nome científico. A Palmeira-Leque me pedia água o tempo todo. Toda hora vinha com um borrifa mais um pouquinho” e reclamava da Begônia que não parava de cantar. O Manjericão? Ai, ai, o Manjericão… Esse só sabia reclamar de ser comestível e pedir esterco de qualidade. Esse desgraçadinho só sossegou quando eu contei que o tal do esterco de qualidade é feito com bosta de um tanto de bicho que rumina pedacinhos de grama, plantinha, florzinha e até ervinha. Só depois de chocado com o ciclo da vida e o destino de seus parentes, ele se calou. Nem comento sobre a Comigo-Ninguém-Pode. Essa me testou de todas as maneiras possíveis e impossíveis provando que esse nomezinho dela diz muito sobre a realidade de seu temperamento. Uma hora cheguei a me pegar com uma tesoura de jardim pensando em dar um fim naquela chata! Só os Lírios ficaram na deles não por bom comportamento, deixo claro eles queriam me atingir me dando um gelo daqueles por puro ciúme.

Lá pelas dez, Rafael me enviou um áudio no Whatsapp me convidando para conhecer a casa que ele agora dividia com o namorado. O programa? Tomar um brunch caseiro e maravilhoso com tomatinho confit feito por eles. Mensagem que me deixou com água na boca, mas que só li porque minutos antes eu tinha tomado a iniciativa bem controversa de me trancar no banheiro e deixar o pau quebrar lá fora. Quando pensava onde eu ia arrumar uma babá para as plantas, a Palmeira-Ráfia, aproveitando de seu tamanho, olhou pela fechadura da porta e viu que eu estava só mexendo no celular sentada na privada e começou a gritar para as outras que a mamãe não gostava mais delas e todas passaram a chorar como a Orquídea chorou às cinco e pouco da manhã. Pelo menos já era um pouco mais tarde, o que diminuía drasticamente a chance de alguém reclamar da barulhada do meu apartamento para a síndica.

Um golpe baixo esse da Palmeira-Ráfia. Sair do banheiro foi difícil, eu sentia culpa, queria chorar, mas não podia dar esse gostinho para nenhuma daquelas coisinhas insuportáveis que eram piores que ervas daninhas, mas precisavam de cuidados que até então eu fazia sem reclamar. Elas me encararam com arrogância e mágoa e andar pelo corredor até a sala me lembrou os piores tempos de escola.

Fui obrigada a voltar a atender as necessidades de cada uma delas. Toda hora, uma coisa diferente. Era adubo, era corte, era passar canela em pó nos tronquinhos igual eu fiz com a Orquídea e causou ciúme no resto da trupe. Era troca de vaso, decoração das floreiras, carinho e muito ouvido aberto para conhecer as picuinhas delas. Elas também me acariciavam, me falavam palavras bonitas e faziam coisas engraçadinhas, o que piorava a culpa que eu sentia por não amá-las como eu achava que amava antes desse dia começar e elas se tornarem minhas filhas de verdade.

Exaustão se tornou meu nome, sobrenome e arroba no Twitter. Fui dormir quase uma da manhã e o sono era tanto que nem consegui mandar uma mensagem para minha mãe perguntando algumas coisinhas sobre jardim, cuidado e família.

Acordei cinco horas depois com o despertador berrando e com o pensamento fixo no desafio do dia: como eu iria passar dez horas fora de casa e deixar sozinhas trinta e uma plantas de todas as idades?

O silêncio dos outros cômodos me respondeu. Nunca precisei saber o que fazer nessa situação, porque elas tinham voltado ao estado vegetativo habitual.

Quando vi a sala com sua paz de sempre restaurada, ri pensando na esquisitice do pesadelo da vez até notar o quanto o chão, o sofá e a mesinha estavam cheios de terra, pedaços de folhas, caules, seiva e canela em pó. Nada estava no lugar!

De fato já era segunda-feira.


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Somos animais que migram no verão

Ilustração por Luiza Formagin.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves

Os termômetros marcam 30º Celsius. O asfalto quente de tanto sol e o ar parado nos dá a sensação de estarmos dentro de um forno. A cidade se dilata, enquanto as pessoas buscam algum destino mais refrescante.

Em algum momento do verão, a gente tira férias, faz as malas, confere se lembrou de pegar a escova de dentes e parte. Migramos em busca de sol, sombra e água fresca. Os destinos variam, mas todos envolvem a procura de uma forma melhor de lidar com as altas temperaturas. Quem mora em Minas Gerais, costuma escolher entre o lago de Furnas, alguma cachoeira, qualquer sítio com piscina, uma diária num clube ou o distante litoral.

Somos animais que migram em busca de água no verão. O Espírito Santo que o diga. Tomamos seus mares, lotamos suas areias e, se o dinheiro estiver curto, levamos marmitex para a praia. Quem não quer perder a pose, tupperware.

Parte do ano, as praias capixabas são um anexo de Minas Gerais. Ninguém pergunta para os nativos o que eles acham, se eles nos consideram invasores folgados ou se aceitam dividir o mar conosco de bom grado. A área simplesmente é ocupada. Quer dizer, a água.

A migração faz parte da vida dos elefantes, das tartarugas, das borboletas, das baleias e de várias espécies de aves. Todos esses animais se movem por alguma razão durante determinadas épocas do ano, ainda que isso seja incompreensível para nós humanos. Suas jornadas sazonais ainda são cercadas de mistério. Mistérios que a gente parece querer entender por achar que suas respostas — ou a ausência delas — revelarão algo que pode nos ajudar a compreender melhor nós mesmos.

Biólogos implantam chips transmissores em baleias jubarte para assim conhecer suas rotas migratórias. Quantos quilômetros elas viajam? É sempre o mesmo caminho? É sempre o mesmo destino? O que elas tanto buscam? É possível que uma baleia decida simplesmente não ir? Como elas sabem o caminho e a hora de partir? Uma vai na frente e as outras simplesmente seguem? Para onde os estudiosos de baleias vão nas férias de verão? Como eles sabem para onde devem ir?

Nosso tempo nas águas é regulado pela legislação trabalhista. A gente fica o quanto pode. O quanto o chefe, as férias escolares e o saldo do banco deixam. A gente escolhe o destino de acordo com o que cabe no bolso. As jubartes não têm boletos para pagar. Elas simplesmente sabem o caminho e seguem o fluxo. Para fazer as rotas migratórias que o verão nos obriga a fazer, a gente precisa de estratégia. Muito se fala sobre humanos e a Arte da Guerra, mas não podemos esquecer jamais que o desejo de conseguir aproveitar a vida em pleno capitalismo nos fez desenvolver também a Arte das Férias.

Economiza aqui, se endivida ali, faz hora extra, se obriga a responder o e-mail do chefe no domingo depois do almoço, divide uma casa de praia com um banheiro com mais 20 pessoas. A gente faz tudo e mais um pouco para não ficar dias inteiros trabalhando em algum lugar sem ar condicionado quando os termômetros apontam 30º Celsius.


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Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

Uma carta para Maria Luísa, a gorda

Arquivo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Nunca vi seu rosto, Maria Luísa, mas te conheci através de um livro da portuguesa Isabela Figueiredo. Por isso sei sobre seus pais, sua relação com David, sua amizade com Tonya, suas boas notas durante a escola, e também sobre seus peitos, sua barriga, suas dobras e seus desejos.

Posso dizer até que conheço sua casa sem nunca ter pisado nela. Sei, por exemplo, das plantas e móveis que sua mãe trouxe com ela de Moçambique e da sala de jantar que permanece fechada à espera de visitas.

Por tudo isso, sinto que somos íntimas, Maria Luísa. Conheço até mesmo suas contradições e pensamentos secretos, mas você não sabe nem meu nome. É estranho, tenho que confessar. Acho que preciso apresentar eu e meu corpo para você.

Sou Thaís e só fui gorda no único período de tempo em que ser assim é considerado bom em nossa cultura. Dizem que fui um bebê rechonchudo, com dobrinhas nas pernas que davam vontade de morder.

Desse tempo até agora, aos 28 anos anos, cresci muito pouco. Fiquei pequena, bem pequena mesmo, e tenho um corpo magro, mas não bonito o suficiente para os padrões, e ouço dos outros que não posso engordar, às vezes até que preciso emagrecer. Não como você ouviu durante toda a vida, claro. Sei que é muito diferente. No meu caso, eles falam de gordura, peso, curvas como um alerta, uma ameaça. Eles me mostram mulheres como você e dizem “você não quer ficar assim, quer?”.

Não falo isso por mal, Maria Luísa. Li a história do seu corpo e toda sua relação com ele e por isso sei que esse é o lugar que a sociedade insistiu em te colocar por tantos anos. Quero te mostrar que te entendi, que acompanhei sua dor página por página e que por causa de suas palavras conheci melhor o que significa ser gorda nesse mundo. É algo muito além da pressão para estar dentro do padrão de beleza. Eu até sabia disso antes, mas agora sei mais.

Para a maioria das pessoas, antes de você ser Maria Luísa, mulher, professora, ou qualquer outra coisa, você é gorda. Nesse mundo nosso, o corpo, especialmente o feminino, é um cartão de visitas. Por isso, ele se torna sua identidade perante os outros, quer você queira ou não, e a troça que fizeram de você fez você entender, logo bem cedo, que certos tipos físicos são vistos como errados e chegam até a afastar as pessoas. Sinto muito por isso. Durante a leitura de “A gorda”, obra em que você é a narradora-personagem, percebi as marcas e a dor que você carrega por conta da exclusão e da ameaça de solidão que sempre te acompanhou.

Nas páginas que me debrucei nos últimos dias, eu conheci uma mulher inteligente, interessante, que escreve, que se coloca, que ama cães, que cuida, que odeia, que sente, sente muito e tudo intensamente. Mergulhei em memórias e pensamentos e assim conheci uma personagem humana, marcante, que vive dilemas familiares, amorosos e profissionais que, pela via da empatia ou da identificação, cabem na vida de muitos nós.

Nunca vou esquecer suas palavras. Conheci muito de mim e do mundo ao me dedicar a ler a sua história. Obrigada por ter aberto a porta de sua casa para mim e para todos que pegam esse livro de capa avermelhada.

Atenciosamente,

Thaís


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As garotas mortas de ontem e de hoje

Garotas mortas, Selva Almada. Acervo pessoal. Adquira seu exemplar aqui.

Peguei o livro “Garotas Mortas” e fui para a varanda da casa dos meus pais aproveitar o sol de inverno. Me sentei na sombra com os pés já sem meia e me posicionei para que eles pudessem se esquentar numa nesga de sol, ignorando completamente o diagnóstico de alergia à luz solar que carrego comigo desde a minha última visita ao médico.

Antes de começar a ler de fato, decidi aproveitar a grama e a luz da manhã e fazer uma foto do livro. Peguei um pano vermelho, minha bolsa e o pires com algumas rosquinhas que levei para petiscar durante a leitura e montei o cenário. Com a foto feita, voltei para o conforto de uma cadeira de plástico com almofadas improvisadas e iniciei a leitura. Só percebi que a foto tinha alguns elementos que lembram um altar horas depois.

Selva Almada introduz as histórias das três jovens mortas no interior da Argentina durante o final da década de 1980 através de memórias que partem da ocasião em que ouviu o assassinato de Andrea Danne ser noticiado na rádio. A jovem tinha 19 anos quando foi morta com uma punhalada no coração no quarto da casa em que dormia com sua família.

“Eu tinha treze anos e, naquela manhã, a notícia da garota morta me chegou com uma revelação”, Selva afirma, enquanto declara que foi esse caso que fez ela perceber que o horror podia viver sob o mesmo teto e que estar em casa não era uma garantia de proteção.

A partir desse ponto, ela tece uma rede que relaciona notícias de mulheres mortas e histórias de jovens violentadas com suas lembranças e reflexões sobre. Nessa teia, surge María Luisa Quevedo, que tinha 15 anos quando desapareceu e teve seu corpo encontrado dias depois com indícios de violência sexual e estrangulamento, e Sarita Mundín, que sumiu aos 20 anos e quase um ano depois encontram restos mortais que foram considerados dela.

Ao investigar as histórias de Andrea, María Luisa e Sarita, a autora nos apresenta outros casos e um pouco sobre as cidades em que os crimes aconteceram, o contexto histórico do país, como foi a cobertura midiática e a visão da cidade sobre os crimes numa investigação que é contada em um formato que foge bastante do jornalístico, apesar do flerte com o formato. No fim, o entrelace de tudo que é apresentado é a presença da misoginia.

A história das garotas mortas são próximas, comuns, e repletas de situações que muitas mulheres vivem ou já viveram, especialmente aquelas que vivem em condições mais vulneráveis. A naturalização de certos comportamentos que envolvem machismo é exposta e a impunidade dos crimes é escancarada.

A rede de incidentes que Selva monta na obra se complementa com os crimes motivados por misoginia que são lembrados pelo leitor. No meu caso, enquanto leitora e mulher, também somei a essa fórmula o meu medo.

Uma das memórias que surgiram durante a leitura envolve um caso que aconteceu em meados de 2010, mais de 20 anos após os crimes tratados pela obra. Apesar do tempo que separa esses eventos, ambos se relacionam por serem feminicídios.

Eu fazia estágio numa vara cívil no fórum da minha cidade natal, um município de 200 mil habitantes, e uma mulher foi assassinada pelo ex-namorado no prédio em frente. Da janela, eu vi a polícia correr atrás de um homem sem imaginar qual crime tinha sido cometido. Depois, acompanhei o caso ser tratado como crime passional e alguns dizerem que o homem que desferiu nove facadas contra uma mulher o fez somente por ter usado drogas no dia.

Nessa época, poucos relacionavam crimes como esse ao machismo. A nomenclatura feminicídio já era conhecida por mim, mas não era utilizada pela mídia. Crime passional era a expressão empregada, enquanto as pessoas fofocavam sobre o que a moça fez de errado para ter esse fim.

O feminicida alegou como defesa o uso de drogas e o fato de que a ex-namorada tinha amigos sexuais e eu lembro de ouvir pessoas chocadas com o crime reagirem ao que ele alegava com um “mas também, hein? Isso é comportamento de mulher?”. Ele foi julgado, preso e recebeu uma pena alta, mas como em vários outros crimes contra mulheres, a revolta da população com a violência vinha acompanhada de poréns.

“Garotas mortas” é uma obra que provoca o leitor com uma narrativa curta, brutal e realista. Após a última página, a gente sente na boca um amargor por saber que a denúncia que Selva faz ainda é muito atual apesar de tratar de crimes que aconteceram há mais de trinta anos. Essa sensação é acompanhada da certeza de que é preciso desenterrar essas histórias e contá-las de forma que se exponha toda a misoginia que molda nossa sociedade.

Mulheres morrem por serem mulheres no interior da Argentina nos anos 80 e também hoje aqui no Brasil. De norte a sul, elas são mortas, estupradas, maltratadas, enquanto muitos ainda negam a influência do machismo nesses crimes e o quão sistêmica essas violências são. As denúncias precisam continuar até que, enfim, a realidade seja outra.

A pergunta que fica é: quais desaparecimentos importam?


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De princesa à bruxa

Imagem de parte do kit press que recebi da Editora Leya — Acervo Pessoal — Adquira “A princesa salva a si mesma neste livro” aqui e “A bruxa não ai para a fogueira neste livro” aqui.

Se em a princesa salva a si mesma neste livro, Amanda Lovelace começa com um poema que homenageia o personagem Harry Potter e isso se relaciona com o conteúdo da primeira coletânea da autora, a referência à Katniss Everdeen em a bruxa não vai para a fogueira neste livro também não é por acaso.

Ao falar da personagem principal da trilogia Jogos Vorazes, Amanda diz que a garota em chamas a inspirou a inflamar o mundo. Com poesias que tratam sobre cultura do estupro, críticas aos padrões de beleza, violência, opressão histórica e luta, a poeta tenta acender uma chama dentro de cada uma de suas leitoras.

A trajetória de princesa à rainha do primeiro livro é sobre descoberta, amadurecimento e resiliência. Nela, a escritora de New Jersey expôs sentimentos, experiências, perdas e as violências que passou. Ela partiu de si e atingiu diversas pessoas que viveram situações parecidas.

Compartilhar histórias, principalmente essas que comumente são jogadas para debaixo do tapete, como a Amanda e muitas outras fizeram, encoraja outras pessoas a falarem de acontecimentos semelhantes e a reconhecerem o que viveram.

Seja através de poesia, contos, crônicas, artigos ou mesmo hashtags como #MeToo, #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto, vozes, principalmente femininas, estão sendo amplificadas e o que elas dizem mostram ao mundo o quanto a violência e o machismo ainda é, infelizmente, parte da vida das mulheres.

Durante a leitura de a bruxa não vai para a fogueira neste livro é impossível não pensar nesse momento que vivemos. As mulheres descobriram que outras também passam e passaram por situações semelhantes às que elas vivenciaram e que isso não é por acaso. Há um sistema de dominação por trás de tantas coincidências.

Quando Amanda escreve sobre as mulheres que vieram antes de nós e foca, principalmente, nas bruxas queimadas em fogueiras, a gente se lembra que o sistema que abafa tantas vozes hoje fez o mesmo no passado.

A intertextualidade, muito presente no trabalho da autora, é usada também para nos fazer pensar em todo esse sistema. Obras e personagens ficcionais, como June, de O conto da Aia, são lembradas em poemas. Todos os nomes presentes dessa forma no livro se relacionam com resistência. Inclusive o de Emma Sulkowick, que não é uma escritora ou uma personagem ficcional, mas é lembrada por Amanda por ter carregado durante anos um colchão por todo o campus universitário como um protesto contra os estupros que acontecem nas universidades e como eles são tratados pelas instituições.

A performance feita por Emma recebeu o nome de “Carry that weight” e se relaciona com sua própria vivência. Ela sofreu um estupro, denunciou, o caso foi arquivado pela universidade e ela seguiu todo o curso sendo obrigada a conviver com quem a violentou. Ao andar com o colchão em que ela sofreu a violência pelo Campus, Emma compartilhou com o mundo sua história como um manifesto.

a bruxa não vai para a fogueira neste livro reúne muito do que descobrimos coletivamente nos últimos anos e convida quem lê para mudar esse sistema que segue vitimando mulheres por serem mulheres. A obra cita exemplos de força, como June e a ativista Emma, e pode ser lida como um manifesto poético. Nela, o fogo é colocado como a matéria-prima para a transformação. Ele representa a raiva, a luta e a resistência.

De princesa à bruxa. Que o futuro nos reserve uma transformação que mude a realidade das mulheres que vivem nesse mundo.


No dia 11/07/18, a Editora Leya promoveu um encontro com leitoras. Conversamos sobre muita coisa, entre elas, sobre a importância de poetas como Amanda Lovelace. Além do bate-papo entre editoras e leitoras, rolou também uma live com a autora de a princesa salva a si mesma neste livro e a bruxa não vai para a fogueira neste livro. O conteúdo é em inglês e está disponível no Facebook da editora. Confira a live aqui.


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O peso de ser vista como um objeto sexual

Acervo pessoal — Foto do livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”. Adquira o seu aqui.

Aos nove anos, ouvi um homem adulto completamente desconhecido mexer comigo enquanto eu andava de bicicleta na praça perto da minha casa. Eu não lembro o que ele disse, se eu entendi o que ele falou, só lembro que senti que ele me via como uma mulher. E que isso não era bom.

Enquanto crescia e essas situações se repetiam, eu percebia cada vez mais que ser vista como mulher era uma desvantagem. Era confuso, porque eu fui uma criança que pode jogar futebol, nadar, brincar na areia, que foi incentivada a ler, escrever e desenhar. Na escola, até passei por situações de meninos dizerem que eu, por ser menina, não podia fazer algo, mas eu encarava aquilo como uma rivalidade boba, não como algo que refletia uma sociedade que tentaria o tempo todo definir a minha existência como derivada da masculina.

Por ser uma menina que cresceu mais livre que a maioria, tornar mulher por muito tempo significou para mim apenas avançar idades, virar adulta, mas logo as primeiras experiências com a objetificação me mostraram que havia um fardo em pertencer ao sexo feminino.

Jessica Valenti, em seu livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”, trabalha o impacto, inclusive psicológico, das mulheres serem tratadas como objetos durante toda a vida. Logo na introdução, a escritora questiona “Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres?” e afirma não conseguir encontrar uma resposta satisfatória e que há muito tempo vem guardando um luto por essa versão dela mesma que nunca existiu.

Ainda muito novas, as mulheres vivem experiências de assédio como as que relatei, de estupro e de ameaças. Muitas vezes, tais violências são naturalizadas em algum nível e colocadas como inevitáveis. Como se dá a construção de quem somos se a gente logo entende que essas experiências são comuns e provavelmente podem se repetir ao longo da vida?

Um homem faz comentários sobre a bunda de uma menina de dez anos. Outro, completo desconhecido, diz que ela é linda. O vizinho faz gestos sexuais para ela. Seus peitos em crescimento se tornam o assunto principal entre os meninos da sala. Ela ouve que tem que sentar direito porque os homens podem ficar olhando.

O que viver isso cotidianamente causa na gente? Como nossa personalidade se molda? Como todas essas experiências que envolvem objetificação afeta quem somos, como vamos reagir no futuro, como lidaremos com nossa sexualidade? Saberemos separar desejo de objetificação? Como esse medo se relaciona com o nosso desejo de sermos consideradas bonitas sendo que crescemos condicionadas a acreditar que a beleza é a mais importante das características que podemos ter?

A pergunta feita na introdução nos faz revirar nossas memórias, como eu fiz nos primeiros parágrafos desse texto, e também lembrar das histórias de nossas amigas, irmãs, mães e avós. Mas a gente não está sozinha nessa jornada de reflexão sobre o peso da misoginia, Jessica compartilha conosco um pouco da sua vida. Ela começa com um texto chamado “Linhagem de vítimas da violência”, o que tem tudo a ver com o sentimento que temos ao pensarmos no questionamento que Valenti levanta logo nas primeiras páginas. Somos várias reféns dessa dúvida.

A cada texto, a autora apresenta um recorte de sua vida. Infância, primeiras experiências sexuais, aborto, drogas, maternidade, carreira e universidade são alguns dos pontos que ela aborda, sempre sob a ótica de gênero. Durante essa viagem nas lembranças e reflexões da autora, a gente pensa o que poderia ser diferente na história dela, caso o mundo fosse outro.

Ser vista como um objeto sexual nos desumaniza. Nessa ótica, somos algo que existe para servir o outro, não nós mesmas, e o machismo que nos cerca tenta nos fazer acreditar que isso nos basta, que é isso que queremos. O impacto em nossas vidas de sermos consideradas coisas que causam desejo é algo que a gente não consegue mensurar bem, já que não são episódios isolados. É um todo que pode somar vários tipos de violência e que acaba por moldar quem somos.

Jessica Valenti criou o Feministing.com em 2004, uma época bem diferente do momento que vivemos hoje. A internet e as redes sociais se popularizaram e isso possibilitou que muitas mulheres tomassem conhecimento de suas vozes, compartilhassem suas histórias, ideias e descobrissem que não estão sozinhas contra a misoginia. Esse fenômeno continua e chegou até em Hollywood, mas as mulheres que falam publicamente e se colocam como pessoas e não mero objetos ainda recebem ataques. O foco de muitas dessas ofensas ainda é nossa aparência. Com isso, eles querem dizer que nem para objetos sexuais servimos. Eles não compreendem que a mudança começou e que a cada dia mais mulheres percebem que são gente, não coisa. Estamos em processo, a maioria de nós ainda precisa assimilar que nos bastamos e não precisamos de perseguir uma aprovação que se baseia num papel que mais parece um fardo. Um fardo que carregamos por gerações.


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Os homens explicam tudo até para Rebecca Solnit

Acervo pessoal — Foto do livro “Os homens explicam tudo para mim” da Rebecca Solnit. Adquira seu exemplar aqui.

Rebecca Solnit é jornalista, escritora e historiadora. Autora de mais de vinte livros sobre temas como política, arte, feminismo e outras questões sociais, ela é conhecida também por ter inspirado a criação do termo mansplaining através de seu ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que se tornou viral.

Numa festa com uma amiga, o dono da casa começa a puxar papo e pergunta sobre os livros dela. Ela comenta sobre o tema do mais recente e o homem a interrompe dizendo algo como “Já ouviu falar sobre aquele livro muito importante sobre isso que saiu esse ano?” e dispara a discorrer sobre e afirmar que ela deveria lê-lo. O famigerado livro citado era o dela. A amiga da escritora precisou dizer umas quatro vezes que a autoria da obra que ele tanto falava era de Solnit para ele, enfim, parar.

A escritora destaca que o tom usado pelo homem foi o mesmo que as pessoas costumam usar para falar com uma criança de sete anos sobre alguma aula que ela faz. Ao ler esse trecho, fiquei pensando que talvez a gente devesse começar a não usar esse tom nem com as crianças. Dá para incentivá-las sem tratá-las como bobas, não é?

Desse episódio, narrado com humor, ela inicia suas reflexões sobre silenciamento, apagamento e descrédito das mulheres. Em poucas páginas, ela expõe o quanto o silenciamento é parte de um todo feito de abusos de poder cometidos contra mulheres. Os homens que explicam tudo para nós fazem isso por nos verem como esponjas ansiosas para aprenderem com eles, porque a cultura patriarcal nos coloca nesse lugar e eles seguem encarando esse lugar como naturalmente feminino.

O ensaio seguinte, “A guerra mais longa”, fala da violência masculina de uma forma mais direta, e expõe que o assassinato de mulheres é uma questão autoritária, de controle. Notícias são citadas, estatísticas também. Esse texto é um retrato de uma realidade que muitos se negam a ver. O texto mais forte de todo o livro.

As reflexões continuam, os assuntos variam, a data dos ensaios também, mas é interessante como o livro todo se conecta, apesar da ausência de algumas temáticas essenciais infelizmente não trabalhadas na obra. A situação de mansplaining narrada por ela faz parte da teia que compõe a opressão feminina, que inclui atos como o desaparecimento dos nomes das mulheres nas árvores genealógicas, credibilidade das vítimas, estupro e assassinato. Assuntos também lembrados no livro.

“A caixa de Pandora e a polícia voluntária” é o título que finaliza a obra. Nele, lemos sobre os desafios que ainda permanecem e os caminhos que o feminismo está criando para as mulheres. Caminhos esses que se ramificaram tanto que parece impossível pará-los. As mudanças estão em trânsito, apesar dos pesares.

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Terrorismo sexual: mulheres acuadas não são fato isolado

Aleksandra Waliszewska

No ensaio “A guerra mais longa”*, escrito pela historiadora feminista Rebecca Solnit, a autora fala sobre como a sociedade trata estupros coletivos, feminicídios e outros crimes contra as mulheres como algo isolado, excepcional. Ela expõe o quanto eles são frequentes, seguem um padrão e como o não reconhecimento disso prejudica o combate contra eles.

Solnit nos lembra que a violência é, antes de qualquer coisa, autoritária. As agressões contra as mulheres, sejam elas sexuais, físicas ou até mesmo psicológicas e estruturais, podem ser encaradas como tentativas de controle. A autonomia feminina é vista como algo a ser reprimido.

As leis, ainda hoje feitas por eles, decidem pelas mulheres sobre seus próprios corpos. Para eles, nós não somos capazes de decidir por nós mesmas, então eles decidem por nós. Não importa o que queremos, pensamos ou sentimos. Eles são ensinados a ignorarem nossos nãos e a acharem que o que eles querem está acima do que a gente quer. Eles decidem quem de nós merece apanhar e que tipo de comportamento nos coloca como merecedoras de violência. Eles decidem até mesmo quais de nós podem continuar vivendo.

A imposição, a punição e o ódio estão presentes na violência contra as mulheres e isso faz muitas pessoas acreditarem que se determinada mulher se comportar como deve, ela viverá uma vida sem violência. Mas isso não nos protege. Focar no que a vítima deixou ou não de fazer é culpá-las pela violência sofrida e isso é só mais uma forma de perpetuar o controle que eles querem nos impor. Fora que a desobediência que os irrita pode estar em qualquer coisa e a misoginia pode ser maior que qualquer comportamento exemplar.

A misoginia é devastadora. A violência e o autoritarismo masculino assombram mulheres há séculos e tudo isso é encarado como “fato isolado”, já que o medo que nos acompanha, a culpabilização da vítima e o machismo que faz com sejamos vistas como loucas, exageradas e interesseiras nos silencia.

Se você é mulher, você consegue pensar em inúmeras coisas que você deixou de fazer por medo de sofrer uma violência. Se fosse algo isolado, isso aconteceria? O medo de ser estuprada é algo que nos acompanha antes mesmo da gente saber o conceito de estupro. O que é excepcional em nossa cultura é achar uma mulher que jamais sofreu qualquer espécie de violência, silenciamento ou discriminação.

Natalie Portman discursou na segunda Marcha das Mulheres, movimento contra Trump que recebeu um gás a mais em sua 2ª edição por causa da crescente onda de denúncias de assédio que tomou Hollywood e até o Vale do Silício. Em seu discurso, ela contou que aos treze anos recebeu uma carta de um homem que fantasiou uma cena de estupro com ela e expôs o quanto a pŕopria mídia a sexualizou: “Uma rádio local começou uma contagem regressiva para o meu 18º aniversário — eufemisticamente, a data em que seria permitido por lei dormir comigo. Os críticos de cinema falavam dos meus peitos crescendo nas críticas.”

A atriz terminou sua fala com uma frase que diz muito sobre a eterna vigilância que mulheres vivem:

‘Com 13 anos, a mensagem da nossa cultura era clara para mim’, continuou. ‘Eu senti a necessidade de cobrir meu corpo e inibir minha expressão para mandar ao mundo uma mensagem de que eu sou alguém que merece segurança e respeito. A resposta à minha expressão, de pequenos comentários sobre o meu corpo a declarações ameaçadoras, serviu para controlar o meu comportamento por meio de um ambiente de terrorismo sexual.’

Quando vi Natalie falar no You Tube e notei o uso da expressão “terrorismo sexual”, me lembrei do discurso “24 horas sem estupro” de Andrea Dworkin feito em 1983. Dworkin diz que não há igualdade enquanto houver estupro, porque estupro significa terror e parte da população vive aterrorizada por essa violência. Não é caso isolado, é sistêmico. Quantos anos, movimentos e marchas veremos até que a sociedade encare a violência dos homens contra as mulheres como algo que nos tira a dignidade e autonomia e nos coloca como menos humanas que eles? Quanto tempo será preciso para perceberem que há um padrão no gênero dos agressores nesses casos?

A violência que nos atormenta existe para nos manter subalternas, caladas e com medo, mas isso está mudando. A gente vive um levante de vozes. O movimento #MeToo, como foi o #PrimeiroAssédio no Brasil, expõe o quanto a violência é sistêmica e nos aterroriza. O mundo tomou conhecimento do estado de terror que vivemos. Mas as que falam continuam sendo acusadas de exageradas, loucas e de quererem chamar atenção. Para eles, o foco continua na vítima. Questionam a demora para denunciar Weinstein, duvidam da palavra das mulheres por achar que elas querem aparecer e zombam dizendo “mas todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é feita de testes de sofá”.

Larry Nassar, ex-médico da Michigan State University e da equipe de ginástica olímpica da Federação de Ginástica dos EUA, carrega 140 acusações de violência sexual, mas alguns seguem sem querer admitir que a gente precisa falar disso. Os atos de Larry Nassar, Weinstein, James Toback são vistos como monstruosos e só. Não há nenhum reconhecimento fora da bolha feminista sobre isso ser apenas uma parcela de um todo muito maior, um todo composto por mulheres acuadas pela violência cometida por homens. Nosso medo e nossas denúncias ainda são vistas como exagero, porque uma sociedade educada para ver a violência contra a mulher como algo isolado e sem padrões considera o todo consequência de um problema de segurança generalizado.


*O ensaio citado nesse texto foi publicado no Brasil no livro “Os homens explicam tudo para mim”, da editora Cultrix.

Obs: Texto publicado originalmente em minha página do Facebook.

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Turbinas e um turbilhão

Standing in front of volcano — Aleksandra Waliszewska

Um turbilhão de pensamentos vem de uma vez. É tão brusco que até o ritmo da minha respiração muda. Cinco e pouco da manhã, num avião em turbulência, eu voo de volta para casa com a cabeça cheia de respostas, perguntas e constatações.

Eu sempre quis ser a melhor em tudo, nunca me esforcei para sê-lo. Vivo uma eterna dualidade. Sei que toda essa gana para ser a melhor é completamente irreal, mas continuo encarando todos meus feitos e erros como fracassos irreparáveis. Reconheço a impossibilidade do desejo que me guia, mas isso não é suficiente para evitar a dor da não realização.

É uma busca paralisante. Me travo no querer tanto, não avanço, não prossigo, me estagno. Parada em lugar nenhum, sinto a dor de não realizar e de não desistir. Repito essa fórmula furada desde sempre. Um dia foi por ignorância, agora é por covardia.

Quero me levantar, mexer meus pés, dobrar meus joelhos. Sinto minha pele da perna arder, queimar, doer. Como uma sugestão, meus neurônios trabalham para me lembrar que trombose é comum em viagens de avião. Sacanas!

Mesmo com uma leve turbulência, solto o cinto, me levanto e dobro minhas pernas algumas vezes. Enquanto sofro com essa dor misteriosa que me assombra desde setembro passado e a ansiedade que a segue, continuo tentando achar o fio da meada.

Entre o sono, a dor e o desespero, percebo que eu preciso tentar, tentar de verdade, me tornar a melhor no que diabos eu cismar ser. Querer é enérgico, ágil e vivo, por isso me aprisiona. Tantas possibilidades, inclusive a de falhar, me deixam inerte mesmo num ambiente tão ativo. No fim, dissipo energia num movimento previsível, circular e sem ousadia. Erro querendo evitar o erro. Empenhar-se em conseguir também tem um certo dinamismo, menos arrojado, claro, mas preciso.

Disciplina, competência e eficiência. Ir, enfim, pra frente. Sei que será sinuoso, apesar de parecer retilíneo e uniforme. Chato, talvez, mas nenhuma busca pode ficar só no querer e o tentar tem dessas. Sem aprender a tentar, tentar de verdade, eu não vou compreender o que é falhar e nem vou conhecer os resultados que posso alcançar.

No meio do meu querer impossível, tem também o receio de não conseguir nem chegar perto e uma vontade enorme de que o mundo seja fácil.

Gosto da praticidade do avião, gosto de olhar para o chão e ver toda nossa realidade reduzida e perceber que ela é um recorte de um todo, mas voar me dá um certo medo. Medo que me cerca também em terra. Medo que evita dores e cria outras. Medo de morrer e de viver.

Mexo os pés, estico a perna, respiro fundo. Dói tanto quanto a certeza de que o fracasso ainda vai formigar, arder e queimar dentro de mim. Vejo o sol nascer entre as nuvens e o rosa, o laranja e o azul tomarem conta da janelinha do avião. Sinto a pressão nos meus ouvidos que agora também doem. O avião vai pousar e eu preciso escrever tudo isso antes que eu esqueça que eu sei bem o que eu tenho que fazer.


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