pensa nas rezas devidas nas penitências nunca feitas na punição à espreita toda vez que ousa ser a mulherzinha endiabrada que é
que pelo menos hoje, mais um oito de março, deixemos a culpa de lado. Sejamos mulherzinhas endiabradas que dizem foda-se para essa ideia de que a gente tem que fazer por merecer para ter dignidade, respeito e paz.
Colagem analógica triplicada e editada no Canva por Thaís Campolina – Acervo Pessoal
à toa e preocupada exploro minha casa como se fossem vivos os móveis e as paredes
um demônio me provoca ⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ ⠀ e eu respondo oi entregando que estou perto da janela da cozinha cinco segundos depois curiosa e ávida por um pão olho direto para o inferno esperando a vertigem desse sumidouro
a oxigenação do cérebro continua a mesma a pulsação também meus cotovelos dobrados esbarram na toalha de mesa me fazendo sentir na pele o carinho de um mundo de farelos esquecidos
nessa voragem não há tontura nem taquicardia eu sei que estou onde deveria estar
usando bons binóculos frente ao espelho do banheiro consigo olhar de volta e me ver a qualquer tempo caçando no escuro mais alimento
o abismo sou eu e ai de mim se não continuar a nadar
Colagem analógica por Thaís Campolina – Acervo Pessoal
ninguém queimou livro nenhum rasgaram alguns poucos eram sobre direitos humanos e foi na surdina no silêncio no conforto de uma biblioteca
os livros ocupavam sua morada prateleira de direito provavelmente em ordem alfabética para serem desordenados pelo leitor que não respeita as regras e devolve para prateleira o que lê na mesa
dessa vez a desordem que veio não foi um grifo ansioso feito por uma lapiseira foram páginas e mais páginas rasgadas inclusive a que tinha uma foto que dizia
Colagem de autoria de Thaís Campolina — Acervo Pessoal
PRÊAMBULO
esse poema entra em vigor na data de sua publicação ele não diz nada que você não saiba mas estabelece prazos novos procedimentos especiais e tira o conforto criminoso de um ou outro homem que vê essas palavras reunidas e só se assusta quando nota um nome feminino que ousa publicar poemas-lei
CAPÍTULO I
saiu um poema no diário oficial ele mesmo se chama de porcaria
CAPÍTULO II
daqui para trás somente leis que criam direitos para o povo são permitidas
de hoje em diante tudo será diferente depois não diga que não leu as letras miúdas
CAPÍTULO III
morrer será proibido viver mais ainda eu não faço ideia de onde você vai enterrar seu pai
talvez no seu quintal ou no lote da esquina
aqui não aqui não pode já tem morto demais o cemitério está lotado todo dia morre vinte trinta cinquenta e cinco e nosso espaço comporta nem dez
CAPÍTULO IV
já notou como a estrutura de uma lei pode ser subvertida
pode virar até arte um poema moderno ruim um papo sobre escrita não criativa uma colagem de palavras muito consultadas em qualquer dicionário
um poema-lei todo dividido em artigos longos que não dizem nada demais e incisos que fingem trazer [concretude] ao que é feito para ser ~abstrato~
DISPOSIÇÕES GERAIS
a lei é metafísica o poema também o concreto e o real dependem de um encaixe especulativo nada perfeito
o que dizem estrofes & versos parágrafos & incisos e muitas alíneas sobre fatos & verdades que são só suas?
Monique Malcher escreve como quem conhece bem a água. Suas primeiras frases funcionam como o toque inicial dela no corpo. Aquele momento de arrepio que vem da consciência de que a partir de agora dizemos adeus à terra firme. Nesse instante, a água nos convida a entrar de vez e você simplesmente vai, guiada pela promessa de que é assim que se acostuma com ela. Mas, justamente por conhecer tão bem o curso dos rios, Monique nunca nos deixa acostumar inteiramente com essa imersão.
Entrar na água é um risco. O mar impõe suas ondas aos olhos e ao corpo e os rios e lagoas não são muito confiáveis. A força da água doce é menos conhecida, pode não parecer, mas dali vai vir um nocaute em forma de história. É fácil se enganar e achar que nadar ali vai ser como estar numa piscina de hotel lotada de cloro. Às vezes pode até ser, mas vai saber. Talvez dê para nadar tranquila, talvez não. Talvez o único problema que você encontre seja simples de resolver, como uma alergia ao cloro. Talvez você simplesmente afunde.
As águas de Monique são mornas, turvas e podem ser perigosas. É fácil se deixar inundar por elas lembrando de alguém, pensando numa mãe, numa avó ou numa menina, todas perdidas nessa terra afundada cheia de vida. Tem quem se veja ali, inclusive. Então, no meio de um conto, um objeto há muito tempo perdido evoca uma figura-fantasma de mais uma mulher-menina-lembrança. Estar na água é uma ruptura com o mundo fora dela. As sereias e as rusalkas que o digam.
“Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres são também. Isso conheço bem”, a autora elabora a partir de uma personagem, nos ajudando a encontrar o que nos assombra em terra firme, mas a gente só consegue ver mesmo quem esses monstros são quando mergulhamos e nos permitimos olhar para o mundo sem definição, sem os contornos que somos acostumadas a lidar.
“Flor de gume” é um livro imagético, que constrói seu ritmo e sua atmosfera a partir das forças da natureza. Água, vento, perna, muralha, asfalto, memória, arte, luto, morte, tudo se mistura para contar essas histórias que tem como tema em comum a filiação, a memória, o eu e a resistência histórica do enfrentamento desses corpos perante e a partir de tanto poder. O que pode acontecer desse encontro?
Ler Monique Malcher é se permitir navegar pelas águas barrosas dos rios e das travessias que partem de lugares desconhecidos interiores e úmidos até chegar a vários outros. Quem guia esse barco são as mulheres que conhecem esse caminho desde muito cedo por terem sido obrigadas a conhecê-lo, mas, por algum motivo, quem ainda está no barco como passageira tende a achar que continua sozinha, mesmo não estando.
Se mulheres são como águas e ficam mais fortes quando se encontram isso acontece, porque as histórias vão se alinhavando e quando são finalmente contadas juntas formam um fio condutor que também funciona como uma possível rede de proteção.
Uma hora as piloteiras e passageiras desses barcos vão se encontrar e se entender, ô se vão. Exatamente como o fogão ganhado pela menina numa rifa encontrou sua avó após dias navegando e serviu de conexão entre elas.
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Esse é um livro para quem gosta de textos híbridos, que conseguem respirar dentro e fora d’água. Se você quer ler algo que atravesse gêneros textuais a partir da construção de contos bem unidos e de uma poética, se permita conhecer “Flor de gume”. Com essa leitura, somos capazes de pensar a condição feminina e as lutas e heranças, individuais e coletivas, que acontecem como resistência a toda violência que cerca a vida das mulheres. E, mais do que isso, a partir dessa obra, nos tornamos capazes de lembrar melhor o que nos afeta e nos constrói. É importante conhecer melhor essas águas que nos cercam, deixar que elas nos mostrem o verdadeiro rosto de muitos homens.
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Monique Malcher foi a 2ª paraense a concorrer e ganhar o Jabuti. Sua vitória veio na categoria Contos pelo seu livro “Flor de Gume” na 63ª edição do prêmio. Além de escritora, é colagista, zineira e tem uma carreira acadêmica em construção.
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Reli “Flor de gume” agora em janeiro de 2022 junto ao Clube Cidade Solitária e adorei, sendo que minha 1ª vez com ele foi diferente. Eu gostei desde o início, e gostei muito, mas tinha rolado um trem meio seilá antes. Na releitura e também na conversa com outros leitores junto da autora, elaborei melhor essa minha primeira impressão perdida. Foi coisa de momento, acho, porque tem livro que tem hora, frequência e companhia certa para fazer a gente conseguir lidar com certos abalos de estrutura. Pensando então no tamanho do desconhecido das águas, na hibridez da escrita da autora e também no próprio ato de gostar, resolvi escrever sobre essa obra desse jeito meio misterioso, híbrido e quase ficcional, como se assim eu pudesse ficar mais próxima dessas personagens.
*alguns trechos dessa quase-resenha foram retirados do post que escrevi para o Leia Mulheres Divinópolis sobre o #DesafioLeiaMulheres2021 de fevereiro.
Imagem do quadro “Three figures” após ataque do segurança entediado
três figuras sem rosto encaram um homem em seu primeiro dia de trabalho
o homem tem rosto e parece entediado
nunca sabe para onde as três figuras olham
parte do trabalho de um profissional da segurança da arte envolve medir a distância das mãos das bolsas e dos olhos dos planos, ele diria se quisesse se justificar para o fantasma de Anna Leporskaya
mas ele não diz nada
mesmo demitido e ameaçado de ter que quitar uma multa e ainda pegar três meses de cadeia na Rússia
ele apenas não diz nada
exatamente como as três figuras sem rosto que ganharam temporariamente olhos continuam fazendo mesmo ostentando essas novíssimas bolinhas de gude transparentes na cara.
essas bolinhas discretas feitas sob medida por um estranho homem de 60 anos.
esses olhos-bolinha desenhados pelas mãos criativas de um homem que recusa a se explicar.
esse homem que andou por todo um museu empunhando uma perigosa caneta esferográfica.
esse criminoso que está sempre pronto para rabiscar olhinhos e carinhas felizes onde conseguir chegar com sua BIC ou semelhante russa
um homem que jura não ter nada a dizer
talvez porque no lugar de rabiscar bocas ele escolheu abrir olhos
Colagem digital por Thaís Campolina — Foto de David Veksler (Unsplash) sugerida pelo meu amigo Guímel Bilac.
sempre gostei muito de chocolate podia ser aquele de moedinha bola de futebol ou guarda-chuva podia ser bombom sonho de valsa milkbar, sensação, prestígio kinder ovo, mundy e ferrero rocher podia ser chocolate da turma da mônica podia ser, sem sorte, até brigadeiro só não dava para comer bombom caribe caribe sempre foi um pouco demais até para mim
por mais que eu gostasse de chocolate e você pode ter certeza que era muito meus hobbies iam além do açúcar e os marketeiros sabiam disso nenhuma bobeirinha de criança comer jamais encontrou fim em si mesma since 1989
o mundo era cheio de surpresinhas e toda gostosura ganhava continuidade no uso dessa nova descoberta que vinha lambuzada de doce ou gordura trans fedendo excursão de escola para a fábrica da coca-cola
tinham tazos nos chips adesivos das spice girls nos pirulitos figurinha na balinha que tirava bafo tatuagem temporária no chiclete pelúcia no leite parmalat e brinde de kinder ovo
o kinder ovo tinha um gostinho de leite de vacas premiadas mas eu amava mesmo eram as cápsulas de plástico que envolviam minha diversão futura
não tinha separação de gênero no kinder ovo nessa época a surpresa se fingia ingênua
se podia brincar com quase tudo que as mães deixassem desde que a criança tivesse quem pagasse por ela os olhos da cara
de todas as coleções de brinquedinho kinder ovo que pude conhecer pelas minhas mãos ou pela propaganda que passava no intervalo dos desenhos na tevê nenhuma me agradou mais que aquelas lanterninhas esquisitinhas em formatos cotidianos
eu trocava qualquer coisa por esses brinquedos caga-fogo
quando meus pais me mandavam para cama e eu precisava continuar lendo ou queria continuar brincando acendia minhas luzinhas em formato de animais e eletrodomésticos debaixo do lençol
amava o telefone de discar com o dedo porque a luz dele era bem vermelha e me ajudava a ler as letrinhas miúdas de qualquer livro da biblioteca
amava também o cisne elegante de luz verde fraquinha tão fraca que foi o que me ensinou a deixar o sono chegar na hora certa
agora posso simplesmente ligar a luz do quarto varar madrugada lendo ferrante se quiser
agora também posso simplesmente deitar e dormir
aprendi a sonhar sem ajuda dos meus vagalumes que foram queimando com o tempo no fundo da gaveta da casa que não moro mais
hoje ninguém manda mais em mim mas também não tenho quem me compre kinder ovo com ou sem separação de gênero preciso fazer meu próprio brigadeiro de colher
todo mundo agora se diz muito preocupado com minha glicose acham que eu deveria viver de comer só meus bichinhos luminosos
Tudo começou com um “Você sabe o que aconteceu?” impaciente e sem interlocutor definido. “Aposto que é cratera”, comentou uma jovem negra de tranças coloridas. “Mas a cratera que abriu foi em outro lugar do Floresta, moça”, respondeu um homem grisalho, de pele rosa e terno. Uma voz feminina no meio do ônibus fez questão de opinar: “Uai, pode ter aparecido mais outra aqui também, não?”. “Não seria a primeira vez”, manifestou a loira ao lado do homem engravatado.
Um menino vestido de uniforme, em pé ao lado das cadeiras altas, começou a dizer: “Mas nem choveu essa tarde…” e a frase “Não tem mais aonde ir água, filho” surgiu no ar, como se tivesse sido dita pelo calor úmido que infernizava todos os passageiros do 8102.
Fora do ônibus, um homem que carregava uma bíblia toda gasta bradou: “É o fim do mundo se aproximando!”, enquanto, dentro do coletivo, um sujeito sem qualquer característica marcante reclamou: “Que cratera o quê? É buraco. Cratera tem é em Marte!”
Alguém sacou o celular e mostrou uma notícia sobre o engarrafamento e o seu motivo para todos os curiosos ao alcance de um braço. O asfalto se rompeu no fim da tarde, minutos antes de o ônibus chegar à Assis Chateaubriand, e especialistas culpavam a chuva da noite anterior pela nova cratera.
“Chove e fura buraco na cidade inteira! Tem mais jeito não”, concluiu alguém, enquanto outro dizia: “Assim não dá mais! O prefeito tem que meter uma ponte ligando essa rua aqui com a Jacuí e depois com a Cristiano Machado”. Em resposta, uma mulher comentou: “Chuva faz buraco em ponte também, hein?” e risadas abafadas surgiram.
“Nesse calorão, sem ar condicionado, todo mundo espremido dando volta pelo bairro. Assim não dá”, desabafou aos gritos um senhor próximo ao trocador. Perto dele, sentados nos assentos preferenciais, dois idosos resmungavam sobre o azar de terem perdido o ônibus anterior, aquele que passou minutos antes de a fenda se abrir.
Além deles, havia também uma mulher que não parava de escrever em um caderninho vermelho e um vasto grupo de silenciosos que ora observava a conversa coletiva, ora encarava a tela do celular.
O papo continuou até o ônibus se esvaziar e o blá-blá-blá desceu junto com cada um dos passageiros. Uns dividiram a conversa que tiveram em casa, outros não, mas todo mundo dormiu pensando que um dia vai chover tanto, mas tanto, que um buraco maior do que a própria cidade vai se abrir e Belo Horizonte vai deixar de existir. Uma única mulher, aquela que não parava de escrever, lembrou-se de Marte e suas crateras e se levantou da cama para escrever um conto sobre o fim da vida na Terra.
*“Crateras de verão” faz parte da publicação independente & coletiva nomeada Jurema, obra que reúne textos que surgiram numa oficina sobre cotidiano ministrada pela Carina Gonçalves no ateliê de escrita Estratégias Narrativas em março (ou maio, não lembro mais) de 2018. O livreto foi lançado em fevereiro de 2019 numa Feira Textura e conta também com trabalhos de Beth Andrade, Glau Nascimento, Isabelle Chagas, Olivia Gutierrez, Viviane Moreira e da professora já citada acima. “Jurema” ainda pode ser adquirida no site do Impressões de Minas.
Na foto, tenho como minha extensão meu livro aberto. Levei um exemplar pra passear na praça antes de qualquer um poder fazer isso. O que é óbvio, porque coloquei meu livro em movimento desde meu 1º momento com ele, quando nem desejo ele era. Meu livro circulou muito sendo feito, quando cada cenário, testemunha, autoras, tempo e ação se apresentava pra mim. Nem sei dizer quantos animais estranhos leram esses poemas no Google Drive antes deles formarem o que tenho em mãos. O mundo virtual é pouco tangível ainda que eu consiga saber quantos clicaram nas publicações que fiz de alguns deles no meu blog. Ainda que eu saiba que tenho clique de Portugal, da Holanda e da Irlanda nos meus poemas belo-horizontinos e nos meus poemas insólitos e nos meus poemas sem nomeação e publicação conjunta. Não sei dizer quantos vão ler meus poemas no arquivo zoado disponível na Amazon. E nunca vou conseguir saber até onde esse livro vai chegar quando seus PDFs, epubs e mobis começarem a voar.
Sei mais dos exemplares físicos. Sei que eles nasceram numa gráfica, foram para editora e depois se espalharam a partir das minhas mãos, dos Correios, dos entregadores, dos divulgadores literários que eu escolhi a dedo junto da editora e da minha assessora e amiga pessoal Marcela Güther. Sei que logo estarão nas mãos de bibliotecários, professores e, espero, leitores da cidade que escolhi como minha. Sei que eles chegam semana que vem no Ceará, em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Pernambuco. E sei que a maioria permanecerá na sua cidade-origem, se espalhando em bairros, ruas e praças que nunca pisei, porque morar em uma grande cidade não significa conhecê-la completamente. Elas são inesgotáveis.
Já estive com esses livros em mente, andei com eles na bolsa, tive que protegê-los da chuva, da cerveja e da oleosidade de mãos. Já vi um exemplar manchado de gordura e vários dos meus poemas desformatados. Já encontrei foto de poema meu em redes sociais de gente que ainda nem conheço. Já descobri o poema preferido de algumas pessoas. Nem sempre o que gostam mais coincide com a minha opinião. Ainda bem.
Quero saber um pouco do caminho que o livro vai trilhar sozinho, só o suficiente para eu eu possa imaginar onde ele pode chegar. Peço que não me contem os versos que vocês não gostaram. Deixem para falar isso quando eu não estiver olhando. Não deixem de me dizer que leram meus poemas esperando ônibus no ponto ou curtindo uma tarde numa praça. Isso é o que eu realmente quero saber.
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Nem o nosso lado leitor é um personagem plano. Ler é movimento, é processo, uma atividade que envolve pela sua própria natureza a dúvida e a busca. A leitura é cheia das interrogações, mesmo em um texto tomado por frases curtas e secas sempre terminadas com um ponto final. A gente nunca sabe qual livro, trecho ou palavra vai nos arrebatar e nem que horas esse arrebatamento virá. Às vezes chega de uma vez, nos tira as palavras, impossibilitando até a escrita de resenhas. Simplesmente subimos aos céus, como se o impacto do que foi dito fosse combustível de um foguete pronto para viajar por toda Via Láctea, e depois ficamos tateando nosso interior tentando entender o que nos fez voar tão longe, tão rápido. Outras vezes, o assombro surge nas brechinhas das nossas vidas, como um matinho que insiste em enfrentar o concreto para crescer. As frases vão expandindo dentro da gente até tomar todo nosso corpo, simplesmente brotam lentamente onde cabem, até tornar impossível diferenciar o que é mato, o que é pele, o que é concreto e o que é sangue.
Escrevo, busco metáforas toscas, adio a publicação desse texto por mais um dia, faço tudo para me justificar por não saber simplesmente citar três livros e dizer que eles foram os melhores do ano. Se no ato de lembrar os melhores surgiu um nome, eu dificilmente o abandonarei. Me parece injusto ignorar o trabalho de algumas sinapses para trazer aquele título com tanta convicção.
2021 foi um ano muito rico em leituras por aqui. Fazer curadoria e mediação de dois projetos literários (Leia Mulheres Divinópolis e Clube Cidade Solitária), acompanhar vários outros e fazer uma especialização em Escrita e Criação tem me ajudado a entender cada vez melhor o meu gosto, tanto no sentido estético, quanto no que se refere a temas, personagens e debates que me interessam. Esse é um processo estranho, porque é nessa hora que a gente percebe que nossa subjetividade não é tão linear quanto a gente imagina e descobre que gosta muito de ler o que nem tem tanto interesse assim em escrever e vice-versa, percebe que é uma curiosa inveterada que se perde nas leituras começadas, porque sempre existem muitas outras possíveis, ou mesmo constata a possibilidade de mudar de ideia sobre um livro, porque alguém, em um clube do livro ou resenha, disse algo que te convenceu. Para o bem ou para o mal.
Segundo o Goodreads, eu li 65 livros. Conforme minha agenda, que inclui as leituras críticas/beta que fiz e ainda não foram publicadas e livros que não encontrei no aplicativo, foram 71. Não tenho certeza desses números, confesso. Minhas anotações são apenas uma tentativa descompromissada de fazer um registro do que eu estou lendo, pensando, investigando nesse meio tempo. Os livros não terminados, alguns teoricamente sendo lidos desde janeiro de 2020, também contam algo de mim. Minhas 16 leituras que ainda estão em andamento segundo o app são compostas por um possível abandonado, duas preguicinhas, alguns esquecidos na casa dos meus pais e muitos perdidos na minha desorganização. O que significa que podemos ter muitos outros além dos 16 que o Goodreads conhece. Como eu raramente documento os títulos e autores enquanto eu ainda estou lendo, vai saber.
Gosto da ideia de documentar meus interesses, mas não sou organizada o suficiente para isso. Gosto da ideia de fazer listas de leituras preferidas, mas não sei se consigo colocar ordem no meu gosto. Sou caótica demais. Gosto de muita coisa, entre elas, tentar, porque é nas tentativas, dúvidas e busca por uma resposta que a gente encontra as melhores perguntas e cria as mais imprevisíveis categorias. Vamos pra listinha então?