Baronesa: um mundo feito de afetos e violências

Andreia (cena do filme Baronesa)

Baronesa é uma palavra utilizada para se referir às mulheres que receberam o baronato, um título de nobreza. Além desse significado de origem monárquica, Baronesa também é o nome de um bairro de Santa Luzia, cidade da zona metropolitana de Belo Horizonte, e o título de um filme dirigido, roteirizado, produzido e protagonizado por mulheres.

Quando Juliana Antunes, diretora da obra, se mudou para a capital mineira, ela notou um certo número de bairros que levavam nomes de mulheres. A maioria deles, periféricos. Isso a provocou e ela começou a pesquisar sobre, ir até eles e, depois de um tempo, o filme surgiu.

A premiada obra é centrada em duas personagens: Andreia e Leidiane. Leid espera o marido preso e cuida de seus filhos pequenos. Andreia quer se mudar e começa a se organizar para isso. A história é uma amostra do cotidiano e não segue os padrões de filme ficcionais. As personagens interpretam uma versão delas mesmas e a narrativa é uma vida que somente acontece.

Conversas, implicâncias, cumplicidade, afetos. Tudo isso faz parte do filme e também da vida. Só que em Baronesa — e na realidade de muita gente — o afeto existe lado a lado com a violência. Tiros, correria, a câmera caída. A violência interrompe uma conversa entre amigas sobre desigualdade.

Numa cena, Negão e Andreia conversam sobre a guerra entre os traficantes locais. Ele veste um colete à prova de balas e eles brincam sobre testá-lo. Andreia está com uma arma na mão. A conversa ora é séria, ora não é, mas está evidente que o assunto entre eles é também sobre a sobrevivência de si e dos seus. A morte e a tragédia parecem estar sempre à espreita.

O filme dá voz às mulheres antes escondidas em espaços privados e de cuidado e empregos precários. Nos diálogos, a gente observa que o único destino possível para elas parece ser esse, enquanto o dos homens dali, a maioria das vezes, é a prisão ou a morte.

Mas, além da violência, o filme também trata sobre afeto. Junto com uma amiga, as protagonistas conversam sobre vida sexual, enquanto bebem cerveja. “Cê pode gozar à vontade”, Andreia diz sobre masturbação, enquanto Leid ri constrangida. Elas batem papo, se aconselham e se apoiam. Entre elas, há uma cumplicidade que envolve até mesmo romper o silêncio sobre violência sexual e fazer recomendações sobre cuidado dos filhos em relação a esse assunto.

Essas mulheres são parte de um todo. Um todo que muitos fingem não ver. Juliana Antunes compartilhou que uma das dificuldades que teve para realizar o filme envolveu o fato de que as mulheres precisavam de autorização masculina para gravar. Com essa informação, é impossível não questionar: “Quantas histórias seguem invisíveis por causa do machismo?”.

Mesmo quando se aborda a vida na periferia, o que não é tão frequente assim, os homens são o foco. Quando um filme se propõe a ser diferente e é um projeto que envolve também pessoas reais, algumas mulheres podem acabar ficando de fora simplesmente por viverem numa cultura que as coloca como seres que devem obediência aos homens de suas famílias.

O trunfo da obra é tratar o cotidiano de forma atenta ao algo mais. A narrativa não foca em um recorte específico da realidade. Ela aborda um todo e isso envolve expor diversos problemas sociais, mas não ficar só nisso. A discussão é proposta, mas a voz delas não fica resumida apenas às dificuldades e denúncias. Nesse filme, as personagens se fazem presentes em várias nuances e protagonismo feminino é isso.

Confira o trailer:


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O cotidiano — e os causos — de uma livraria

Foto: Thaís Campolina — Adquira um exemplar aqui.

Em algum momento de 2011, Hillé Puonto, pseudônimo de Lilian Dorea, começou a publicar suas aventuras como livreira em um blog chamado [manual prático de bons modos em livrarias] e algumas dessas histórias foram escolhidas para integrar um livro com o mesmo nome.

Se você gostava de literatura, acompanhava vários blogs e vivia na internet nessa época, provavelmente vai se lembrar de ter visto esse nome em algum lugar ou vai reagir ao meu texto com um “aaaaaaaaaaa” de empolgação. Relembrar é viver, não é mesmo fã da Hillé?

Uma cliente diz detestar Clarice Lispector por odiar livros espíritas, outro pergunta sobre o livro do Freddie Mercury buscando uma obra de direito civil escrita por Fredie Didier e a gente espera — e encontra — a cada página diálogos tão ou mais surreais do que esses dois causos citados. Todos contatos de uma forma que torna as situações ainda mais divertidas.

Eu poderia facilmente ser a cliente que chega na livraria e fala “Quero o livro do Chuchu” buscando algo sobre a entidade lovecraftiana Chutlhu. Na foto: trecho da página 87 do livro [manual de bons modos em livrarias]

O mundo dos livros muitas vezes é intimidador. A gente teme errar pronúncias, autores, títulos e considera que não conhecer certos clássicos é algo que nos diminui, mas as coisas não precisam ser assim. A gente pode rir disso, dos erros dos outros e dos nossos.

Durante a leitura, é impossível não lembrar das inúmeras vezes que falamos a famigerada frase “aquele livro, daquela autora, sabe?” e suas variações cinematográficas, noveleiras e musicais. E é bem provável que você comece a rir de si mesmo ao recordar as situações em que inventou nomes de obras que não existem e aprontou muitas confusões ao pronunciar nomes alemães, russos ou até mesmo ingleses. Quem nunca errou ao falar Freud ou Nietzsche ou fez uma busca no Google para conferir como escreve o nome do escritor Dostoiévski, hein?

No [manual prático de bons modos em livrarias] também há uma parte destinada para as confusões que os livreiros aprontam, histórias que mostram que até mesmo quem trabalha com isso se confunde, erra e às vezes não sabe do que está falando. Através das risadas, a gente dá o primeiro passo para entender que livros são só livros, eles não servem para medir nosso caráter, inteligência ou nos dar status.

Todos esses constrangimentos servem como material para bons causos para serem postados no Medium, no Facebook ou serem contados na mesa de bar. Essa é a lição que o manual me deixou. Vamos, então, deixar a vergonha de lado e começar a compartilhar?


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Arábia e a escrita de si

Cristiano (Aristides de Sousa)

O filme “Arábia”, dirigido pelos diretores mineiros Affonso Uchôa e João Dumans, conta a história de Cristiano (Aristides de Sousa), um homem que viaja Minas Gerais trabalhando onde encontra lugar para isso. Minas aqui não é lembrada por ser um local de belezas naturais, destino de turismo, ela é colocada como um local de trabalho, de esforço, de sobrevivência.

A obra se inicia com o foco em outro personagem, André (Murilo Caliari). Ele anda de bicicleta, desenha, fuma, cuida do irmão mais novo doente e é ajudado pela tia. De sua janela, ele vê, ouve e respira a fuligem da fábrica. Cristiano e André se cruzam vez ou outra na vizinhança, mas não há ligação entre eles. Apenas dividem o mesmo espaço, um bairro industrial, mas Cristiano está dentro e fora da fábrica, André somente fora.

A história começa a ser realmente contada a partir do encontro de André com o caderno-diário de Cristiano. Nesse momento, Cristiano assume seu lugar de protagonista e conta sua própria história por meio do papel.

O caderno-diário é fruto de uma tarefa que foi solicitada, não é algo que parte espontaneamente do personagem. O exercício consiste em narrar algo da vida dele que ele considere importante. “No fim de tudo, o que sobra mesmo é a lembrança do que a gente passou”, ele diz ao introduzir suas memórias.

Ao sair da prisão, Cristiano decide abandonar Contagem com medo de acabar indo em cana novamente. A pé e de carona, ele busca trabalho. Governador Valadares, Paraíso, Itabira, Ipatinga, Ouro Preto são alguns dos destinos do personagem. O acaso parece ser o elemento comum de todos eles. Seu percurso acontece sem ele ter muito poder sobre ele.

Todas suas relações partem dos espaços de trabalho, inclusive Ana (Renata Cabral), o amor de sua vida. Nos breves intervalos entre os afazeres, ele cultiva afetos. Canta, bebe, joga baralho e ouve histórias. Todos com quem divide esses momentos também trabalha para sobreviver. Seus esforços nunca resultam em algo além disso.

Por meio da escrita, Cristiano parece olhar para si pela primeira vez. O trabalho como constante o objetifica e a escrita de suas lembranças é o que faz ele entrar em contato consigo novamente. Ele reflete sobre si, a vida e o mundo que o cerca e conclui que todo mundo tem uma história para contar. Inclusive ele.

A memória é colocada como um componente da nossa própria humanidade frente a um mundo que cobra que o trabalhador seja uma máquina. Cristiano se descreve como alguém que não consegue se expressar bem, mas com um papel e uma caneta em mãos, ele encontra sua voz. Essa que parecia estar à vontade somente quando cantava em momentos de descontração. A escrita de si faz o personagem reviver lembranças e se ver como alguém além do homem trabalhador.

Durante a leitura, André descobre quem Cristiano é, um cara muito além da fábrica, das obras, da tecelagem, da plantação de mexerica e da prisão. O caderno une os dois personagens, André curioso sobre o que o trabalhador tem a dizer descobre que Cristiano também o observava. Apesar das diferenças, ambos dividem o bairro e a solidão.

A história de Cristiano toca não só por retratar as condições do trabalhador, mas também por ser uma narrativa que parte de um personagem que compartilha seu próprio ponto de vista. Uma história que poderia ser de muita gente e é parte de um Brasil que é invisível para muitos. Cristiano olha para si e a gente olha junto. Saímos do cinema cientes da desigualdade, do abandono, do cansaço do trabalhador comum e do poder da palavra e da memória na construção da subjetividade de cada um, principalmente daqueles a quem isso é negado.


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Amanda Lovelace e a transformação dos contos de fadas

Acervo Pessoal — O livro “A princesa salva a si mesma neste livro” pode ser comprado aqui.

“A princesa salva a si mesma neste livro” começa com um poema que faz referência ao personagem icônico Harry Potter. Amanda Lovelace, norte-americana, formada em literatura inglesa e autora dessa obra, conta uma história sobre amadurecimento através de poesias e, ao lembrar da trajetória do menino que sobreviveu, eu, como boa millennial, pensei em tudo que a saga me ensinou ao narrar os caminhos de Harry, Rony e Hermione ano a ano.

Histórias sobre se tornar adulto são poderosas justamente por mostrar que a vida é um processo de aprendizados e a gente nunca está completamente pronto para lidar com algumas experiências que fazem parte dela. Livros e o que eles nos contam ajudam a gente a preparar o terreno para o que não é passível de controle e a entender que é possível continuar mesmo quando a gente acha que não.

Na obra escrita por Amanda Lovelace, o livro é colocado como mais que um objeto, ele é também um meio em que o eu-lírico encontra sua própria identidade. A princesa, a donzela e a rainha são personagens típicas de histórias infantis, mas recebem uma outra roupagem de acordo com o desenvolvimento dessa narrativa contada através de poemas e capítulos.

Amor, amizade, autoimagem, a morte de um ente querido e a dor do luto são tratadas pela autora de forma sensível e complexa. A jovem, apaixonada por livros e contos de fadas, descobre que as histórias podem ser diferentes das que ela está acostumada e seu processo de amadurecimento se mostra evidente quando ela percebe que princesas também podem salvar a si mesmas.

A literatura é também uma forma de se conhecer e um apoio para quem lê, a lembrança da saga de Harry Potter expõe a importância dessa e de outras histórias para quem as encontra. E “a princesa salva a si mesma neste livro” agora também é uma dessas obras que podem amparar alguém a descobrir sua própria força.

Esse livro pode dividir a estante com “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, “Carta de amor aos mortos”, de Ava Dellaria, e com a saga que tornou J. K Rowling célebre, já que todas essas obras também tratam sobre crescer, luto e descobertas.

Poemas não são uma linguagem considerada acessível, mas Amanda Lovelace faz parte de uma geração de mulheres que faz questão de escrever como quer, num formato simples e de fácil entendimento, o que, além de encorajar a leitura, também estimula pessoas a se expressarem através da poesia.


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O peso de ser vista como um objeto sexual

Acervo pessoal — Foto do livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”. Adquira o seu aqui.

Aos nove anos, ouvi um homem adulto completamente desconhecido mexer comigo enquanto eu andava de bicicleta na praça perto da minha casa. Eu não lembro o que ele disse, se eu entendi o que ele falou, só lembro que senti que ele me via como uma mulher. E que isso não era bom.

Enquanto crescia e essas situações se repetiam, eu percebia cada vez mais que ser vista como mulher era uma desvantagem. Era confuso, porque eu fui uma criança que pode jogar futebol, nadar, brincar na areia, que foi incentivada a ler, escrever e desenhar. Na escola, até passei por situações de meninos dizerem que eu, por ser menina, não podia fazer algo, mas eu encarava aquilo como uma rivalidade boba, não como algo que refletia uma sociedade que tentaria o tempo todo definir a minha existência como derivada da masculina.

Por ser uma menina que cresceu mais livre que a maioria, tornar mulher por muito tempo significou para mim apenas avançar idades, virar adulta, mas logo as primeiras experiências com a objetificação me mostraram que havia um fardo em pertencer ao sexo feminino.

Jessica Valenti, em seu livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”, trabalha o impacto, inclusive psicológico, das mulheres serem tratadas como objetos durante toda a vida. Logo na introdução, a escritora questiona “Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres?” e afirma não conseguir encontrar uma resposta satisfatória e que há muito tempo vem guardando um luto por essa versão dela mesma que nunca existiu.

Ainda muito novas, as mulheres vivem experiências de assédio como as que relatei, de estupro e de ameaças. Muitas vezes, tais violências são naturalizadas em algum nível e colocadas como inevitáveis. Como se dá a construção de quem somos se a gente logo entende que essas experiências são comuns e provavelmente podem se repetir ao longo da vida?

Um homem faz comentários sobre a bunda de uma menina de dez anos. Outro, completo desconhecido, diz que ela é linda. O vizinho faz gestos sexuais para ela. Seus peitos em crescimento se tornam o assunto principal entre os meninos da sala. Ela ouve que tem que sentar direito porque os homens podem ficar olhando.

O que viver isso cotidianamente causa na gente? Como nossa personalidade se molda? Como todas essas experiências que envolvem objetificação afeta quem somos, como vamos reagir no futuro, como lidaremos com nossa sexualidade? Saberemos separar desejo de objetificação? Como esse medo se relaciona com o nosso desejo de sermos consideradas bonitas sendo que crescemos condicionadas a acreditar que a beleza é a mais importante das características que podemos ter?

A pergunta feita na introdução nos faz revirar nossas memórias, como eu fiz nos primeiros parágrafos desse texto, e também lembrar das histórias de nossas amigas, irmãs, mães e avós. Mas a gente não está sozinha nessa jornada de reflexão sobre o peso da misoginia, Jessica compartilha conosco um pouco da sua vida. Ela começa com um texto chamado “Linhagem de vítimas da violência”, o que tem tudo a ver com o sentimento que temos ao pensarmos no questionamento que Valenti levanta logo nas primeiras páginas. Somos várias reféns dessa dúvida.

A cada texto, a autora apresenta um recorte de sua vida. Infância, primeiras experiências sexuais, aborto, drogas, maternidade, carreira e universidade são alguns dos pontos que ela aborda, sempre sob a ótica de gênero. Durante essa viagem nas lembranças e reflexões da autora, a gente pensa o que poderia ser diferente na história dela, caso o mundo fosse outro.

Ser vista como um objeto sexual nos desumaniza. Nessa ótica, somos algo que existe para servir o outro, não nós mesmas, e o machismo que nos cerca tenta nos fazer acreditar que isso nos basta, que é isso que queremos. O impacto em nossas vidas de sermos consideradas coisas que causam desejo é algo que a gente não consegue mensurar bem, já que não são episódios isolados. É um todo que pode somar vários tipos de violência e que acaba por moldar quem somos.

Jessica Valenti criou o Feministing.com em 2004, uma época bem diferente do momento que vivemos hoje. A internet e as redes sociais se popularizaram e isso possibilitou que muitas mulheres tomassem conhecimento de suas vozes, compartilhassem suas histórias, ideias e descobrissem que não estão sozinhas contra a misoginia. Esse fenômeno continua e chegou até em Hollywood, mas as mulheres que falam publicamente e se colocam como pessoas e não mero objetos ainda recebem ataques. O foco de muitas dessas ofensas ainda é nossa aparência. Com isso, eles querem dizer que nem para objetos sexuais servimos. Eles não compreendem que a mudança começou e que a cada dia mais mulheres percebem que são gente, não coisa. Estamos em processo, a maioria de nós ainda precisa assimilar que nos bastamos e não precisamos de perseguir uma aprovação que se baseia num papel que mais parece um fardo. Um fardo que carregamos por gerações.


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Os homens explicam tudo até para Rebecca Solnit

Acervo pessoal — Foto do livro “Os homens explicam tudo para mim” da Rebecca Solnit. Adquira seu exemplar aqui.

Rebecca Solnit é jornalista, escritora e historiadora. Autora de mais de vinte livros sobre temas como política, arte, feminismo e outras questões sociais, ela é conhecida também por ter inspirado a criação do termo mansplaining através de seu ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que se tornou viral.

Numa festa com uma amiga, o dono da casa começa a puxar papo e pergunta sobre os livros dela. Ela comenta sobre o tema do mais recente e o homem a interrompe dizendo algo como “Já ouviu falar sobre aquele livro muito importante sobre isso que saiu esse ano?” e dispara a discorrer sobre e afirmar que ela deveria lê-lo. O famigerado livro citado era o dela. A amiga da escritora precisou dizer umas quatro vezes que a autoria da obra que ele tanto falava era de Solnit para ele, enfim, parar.

A escritora destaca que o tom usado pelo homem foi o mesmo que as pessoas costumam usar para falar com uma criança de sete anos sobre alguma aula que ela faz. Ao ler esse trecho, fiquei pensando que talvez a gente devesse começar a não usar esse tom nem com as crianças. Dá para incentivá-las sem tratá-las como bobas, não é?

Desse episódio, narrado com humor, ela inicia suas reflexões sobre silenciamento, apagamento e descrédito das mulheres. Em poucas páginas, ela expõe o quanto o silenciamento é parte de um todo feito de abusos de poder cometidos contra mulheres. Os homens que explicam tudo para nós fazem isso por nos verem como esponjas ansiosas para aprenderem com eles, porque a cultura patriarcal nos coloca nesse lugar e eles seguem encarando esse lugar como naturalmente feminino.

O ensaio seguinte, “A guerra mais longa”, fala da violência masculina de uma forma mais direta, e expõe que o assassinato de mulheres é uma questão autoritária, de controle. Notícias são citadas, estatísticas também. Esse texto é um retrato de uma realidade que muitos se negam a ver. O texto mais forte de todo o livro.

As reflexões continuam, os assuntos variam, a data dos ensaios também, mas é interessante como o livro todo se conecta, apesar da ausência de algumas temáticas essenciais infelizmente não trabalhadas na obra. A situação de mansplaining narrada por ela faz parte da teia que compõe a opressão feminina, que inclui atos como o desaparecimento dos nomes das mulheres nas árvores genealógicas, credibilidade das vítimas, estupro e assassinato. Assuntos também lembrados no livro.

“A caixa de Pandora e a polícia voluntária” é o título que finaliza a obra. Nele, lemos sobre os desafios que ainda permanecem e os caminhos que o feminismo está criando para as mulheres. Caminhos esses que se ramificaram tanto que parece impossível pará-los. As mudanças estão em trânsito, apesar dos pesares.

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“A Número Um” e os obstáculos do machismo

Cena do filme “A número um” / Foto: Divulgação

Um fantasma que ronda todas as mulheres é o de saber que qualquer erro cometido será colocado na conta de seu gênero. O erro de uma pesa para todas, mas essa lógica não se repete para as vitórias. O sucesso de uma mulher ainda é só dela, apesar de abrir caminho para as próximas que passam a acreditar que aquilo pode ser possível. A sociedade não vê a conquista de uma posição de comando por uma mulher como um sinal de que mulheres são capazes de ocupar um lugar antes reservado para homens.

Para uma mulher acessar um espaço de poder como a presidência de uma grande empresa, não basta que ela seja ótima, ela precisa ter uma trajetória impecável, ser excepcional e receber validação pública. Sucesso, liderança, poder e dinheiro ainda são vistos como espaços masculinos. Uma mulher em um espaço desses ainda é uma intrusa, alguém que tirou um homem dali.

“A Número Um”, filme dirigido pela francesa Tonie Marshall, conta a história de Emmanuelle Blachey, uma mulher de sucesso que busca ser a primeira mulher presidente de uma grande empresa. Aos olhos do machismo, ela já é uma intrometida e quer ser ainda mais. A ambição não cai bem para as mulheres, pensam eles.

Já na primeira cena do filme, vemos a protagonista receber uma mensagem de conteúdo sexual em tom agressivo. Já em outro momento, ela comenta com outra mulher que seu assediador desconhecido parece querer calá-la colocando o pênis em sua boca e essa é somente uma das críticas feitas na obra à misoginia vigente, principalmente no mundo corporativo.

A trama gira em torno da tensão que envolve a busca dela por esse cargo, os jogos de poder que o cerca e os silenciamentos, estereótipos e desumanização que perseguem ela e todas as outras. Enquanto os acontecimentos se desenrolam, o espectador descobre mais sobre Emmanuelle e percebe o peso de ser a única mulher no meio de tantos homens.

O filme é sobre o jogo de poder de sempre, mas com críticas ao fato de que as mulheres estão em desvantagem. A regra do jogo para as mulheres é que um erro vale para todas, os estereótipos também. E tudo isso vira arma para nos manter fora desse e de outros espaços. No Brasil, por exemplo, somente 10,5% do Congresso é feminino.

O poder tem gênero, tem cor e tem classe. A protagonista enfrenta o obstáculo do machismo. Toda sua vida é permeada por ele, do assédio aos sutis comentários que a rodeiam, mas é importante lembrar que os caminhos para uma presidência de uma grande empresa também podem ser atravessados pelos entraves do racismo e da pobreza.


Tonie Marshall foi a primeira mulher a receber o Prêmio César de Melhor Direção por sua comédia Instituto de Beleza Vênus e no filme “A Número Um” atuou na direção, roteiro e produção.

Assista o trailer:

Mulheres, poesia e a internet

Foto arquivo pessoal — A capa e as ilustrações do interior do livro foram feitas pela Laura Athayde — Adquira seu exemplar aqui.

se enganam os que não sabem
que a literatura também é uma arma

a mais carregada
a mais poderosa
tanto que os livros que um dia foram incendiados
ficaram — Ryane Leão

Seja na literatura ou nas artes plásticas, as mulheres nunca foram vistas como criadoras. Por séculos, fomos vistas ou como musas inspiradoras ou como mero suporte doméstico. Algumas poucas conseguiram o feito incrível de não serem apagadas na vida e na história e seus nomes são exceções em meio a tantos homens. Entre elas, Wang Zhenyi, uma erudita chinesa que nasceu em 1768 e escreveu poesias sobre injustiças, textos sobre trigonometria e explicações sobre eclipses, e a poeta e filósofa Christine de Pizan, italiana que nasceu 1363 e chamou atenção dos mecenas. Em seus escritos, Christine de Pizan teceu duras críticas ao machismo presente na literatura e defendeu a educação para as mulheres.

Por muito tempo, as mulheres fizeram parte da arte e da literatura através das gretinhas das portas e janelas da grande sala do cânone. Vez ou outra, uma conseguia passar por esses espaços minúsculos e adentrava na sala, sem, entretanto, ser vista como igual ao restante. Em pleno século XXI, a lógica masculina e branca segue em vigor. As gretas aumentaram de tamanho, mas ainda são apenas gretas. Nem mulheres e nem homens não brancos entram pela porta da frente, eles ainda precisam se espremer para conseguir passar pelos buracos e, enfim, entrar. Vez ou outra uma mulher branca consegue adentrar pulando a janela que alguém esqueceu aberta e logo tratam de dar um jeito de fechá-la pra ninguém mais conseguir invadir.

Recentemente, bem ao lado da grande sala do cânone, surgiu um outro espaço: a internet. Bem mais fácil que entrar que a salinha, as redes se tornaram uma maneira de expor trabalhos e conhecer novos artistas e escritores e hoje vivemos um momento de efervescência de mulheres que escrevem, principalmente poesia. Quem só entrava na salinha com sorte, esforço e através das frestas, começou a construir um novo espaço.

Rupi Kaur, Nayyirah Waheed, Ryane Leão e outras encontram nas redes sociais um público que buscava algo como o que elas fazem. Uma poesia certeira, apesar de curta, que fala sobre o que toca. Todas elas abordam questões que antes eram silenciadas de acordo com suas vivências e inspirações. A gente vive um momento na literatura que encoraja mulheres a dividirem o que sentem, pensam e passam. Uma onda de mulheres que se fortalecem na escrita e na voz umas das outras.


você me matou
mas não conseguiu
arrancar do meu peito
a minha vontade louca
de renascer — Ryane Leão

Com Tudo nela brilha e queima” nas mãos, percebi já na orelha que muitas poesias de Ryane Leão já eram grandes conhecidas minhas. Parte da minha timeline lê, compartilha, curte e comenta o trabalho da autora da página “Onde jazz meu coração”.

“Poemas de luta e amor” é o subtítulo do livro. Essa frase traduz muito da nossa época. A internet fez o feminismo e temas como relacionamento abusivo, cultura do estupro e autoestima feminina virarem assuntos comuns em conversas de mulheres. As poesias da autora são um convite para que a gente olhe para nós mesmas e servem como um guia para muitas conseguirem enxergar e nomear as dores causadas pelo machismo e até pelo racismo nas experiências atuais e do passado. Além disso, Ryane Leão, sendo lésbica, também conversa, ainda que muitas vezes de forma indireta, sobre essa temática, mostrando que luta e amor são questões que precisam ser levantadas por vieses não heterossexuais.

Os relacionamentos afetivos ainda são para muitas mulheres um espaço em que a violência, a discriminação e o preconceito passam batido por causa da naturalização. Fomos ensinadas que precisamos de um homem ao nosso lado, que nosso valor está no homem que conseguimos agarrar e que a gente precisa aceitar certas coisas para não ficarmos sozinhas. Ryane escreve contra essa naturalização e suas linhas servem como lembretes da importância da autoestima e da autonomia. Ela fala de amor e paixão, mas lembra seus leitores que o amor próprio também é algo a ser buscado.

A estrutura da poesia de Ryane é bem simples, o que pode incomodar os mais puristas, mas o que chama a atenção mesmo é a mensagem dela para as mulheres, especialmente as negras. Ela fala em ancestralidade, identidade, autocuidado, força, voz e empoderamento. Ela acredita na potência das leitoras mesmo sem conhecê-las e o sucesso do que ela escreve mostra que isso pode ser algo revolucionário para quem lê.

quando
me toco
descubro
minhas margens
desconstruo
minhas normas
desnudo meus
contornos

são meus dedos
fazendo a poesia
que leva meu nome
no título. — Ryane Leão


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Terrorismo sexual: mulheres acuadas não são fato isolado

Aleksandra Waliszewska

No ensaio “A guerra mais longa”*, escrito pela historiadora feminista Rebecca Solnit, a autora fala sobre como a sociedade trata estupros coletivos, feminicídios e outros crimes contra as mulheres como algo isolado, excepcional. Ela expõe o quanto eles são frequentes, seguem um padrão e como o não reconhecimento disso prejudica o combate contra eles.

Solnit nos lembra que a violência é, antes de qualquer coisa, autoritária. As agressões contra as mulheres, sejam elas sexuais, físicas ou até mesmo psicológicas e estruturais, podem ser encaradas como tentativas de controle. A autonomia feminina é vista como algo a ser reprimido.

As leis, ainda hoje feitas por eles, decidem pelas mulheres sobre seus próprios corpos. Para eles, nós não somos capazes de decidir por nós mesmas, então eles decidem por nós. Não importa o que queremos, pensamos ou sentimos. Eles são ensinados a ignorarem nossos nãos e a acharem que o que eles querem está acima do que a gente quer. Eles decidem quem de nós merece apanhar e que tipo de comportamento nos coloca como merecedoras de violência. Eles decidem até mesmo quais de nós podem continuar vivendo.

A imposição, a punição e o ódio estão presentes na violência contra as mulheres e isso faz muitas pessoas acreditarem que se determinada mulher se comportar como deve, ela viverá uma vida sem violência. Mas isso não nos protege. Focar no que a vítima deixou ou não de fazer é culpá-las pela violência sofrida e isso é só mais uma forma de perpetuar o controle que eles querem nos impor. Fora que a desobediência que os irrita pode estar em qualquer coisa e a misoginia pode ser maior que qualquer comportamento exemplar.

A misoginia é devastadora. A violência e o autoritarismo masculino assombram mulheres há séculos e tudo isso é encarado como “fato isolado”, já que o medo que nos acompanha, a culpabilização da vítima e o machismo que faz com sejamos vistas como loucas, exageradas e interesseiras nos silencia.

Se você é mulher, você consegue pensar em inúmeras coisas que você deixou de fazer por medo de sofrer uma violência. Se fosse algo isolado, isso aconteceria? O medo de ser estuprada é algo que nos acompanha antes mesmo da gente saber o conceito de estupro. O que é excepcional em nossa cultura é achar uma mulher que jamais sofreu qualquer espécie de violência, silenciamento ou discriminação.

Natalie Portman discursou na segunda Marcha das Mulheres, movimento contra Trump que recebeu um gás a mais em sua 2ª edição por causa da crescente onda de denúncias de assédio que tomou Hollywood e até o Vale do Silício. Em seu discurso, ela contou que aos treze anos recebeu uma carta de um homem que fantasiou uma cena de estupro com ela e expôs o quanto a pŕopria mídia a sexualizou: “Uma rádio local começou uma contagem regressiva para o meu 18º aniversário — eufemisticamente, a data em que seria permitido por lei dormir comigo. Os críticos de cinema falavam dos meus peitos crescendo nas críticas.”

A atriz terminou sua fala com uma frase que diz muito sobre a eterna vigilância que mulheres vivem:

‘Com 13 anos, a mensagem da nossa cultura era clara para mim’, continuou. ‘Eu senti a necessidade de cobrir meu corpo e inibir minha expressão para mandar ao mundo uma mensagem de que eu sou alguém que merece segurança e respeito. A resposta à minha expressão, de pequenos comentários sobre o meu corpo a declarações ameaçadoras, serviu para controlar o meu comportamento por meio de um ambiente de terrorismo sexual.’

Quando vi Natalie falar no You Tube e notei o uso da expressão “terrorismo sexual”, me lembrei do discurso “24 horas sem estupro” de Andrea Dworkin feito em 1983. Dworkin diz que não há igualdade enquanto houver estupro, porque estupro significa terror e parte da população vive aterrorizada por essa violência. Não é caso isolado, é sistêmico. Quantos anos, movimentos e marchas veremos até que a sociedade encare a violência dos homens contra as mulheres como algo que nos tira a dignidade e autonomia e nos coloca como menos humanas que eles? Quanto tempo será preciso para perceberem que há um padrão no gênero dos agressores nesses casos?

A violência que nos atormenta existe para nos manter subalternas, caladas e com medo, mas isso está mudando. A gente vive um levante de vozes. O movimento #MeToo, como foi o #PrimeiroAssédio no Brasil, expõe o quanto a violência é sistêmica e nos aterroriza. O mundo tomou conhecimento do estado de terror que vivemos. Mas as que falam continuam sendo acusadas de exageradas, loucas e de quererem chamar atenção. Para eles, o foco continua na vítima. Questionam a demora para denunciar Weinstein, duvidam da palavra das mulheres por achar que elas querem aparecer e zombam dizendo “mas todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é feita de testes de sofá”.

Larry Nassar, ex-médico da Michigan State University e da equipe de ginástica olímpica da Federação de Ginástica dos EUA, carrega 140 acusações de violência sexual, mas alguns seguem sem querer admitir que a gente precisa falar disso. Os atos de Larry Nassar, Weinstein, James Toback são vistos como monstruosos e só. Não há nenhum reconhecimento fora da bolha feminista sobre isso ser apenas uma parcela de um todo muito maior, um todo composto por mulheres acuadas pela violência cometida por homens. Nosso medo e nossas denúncias ainda são vistas como exagero, porque uma sociedade educada para ver a violência contra a mulher como algo isolado e sem padrões considera o todo consequência de um problema de segurança generalizado.


*O ensaio citado nesse texto foi publicado no Brasil no livro “Os homens explicam tudo para mim”, da editora Cultrix.

Obs: Texto publicado originalmente em minha página do Facebook.

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A arte do flerte: consentimento, estereótipos de gênero e dominação masculina

A fotografia feita por Alfted Eisenstaedt se tornou uma das imagens mais icônicas do século XX. As pessoas a aplaudem pela ousadia, pela paixão e por essa foto ter sido feita na comemoração do fim da 2ª Guerrra, porém a desconhecida da foto já alegou mais de uma vez que não foi uma escolha dela ser beijada. Ela foi agarrada de repente, mas pouco se fala sobre isso.

Muitos homens acham que insistir, pressionar e manipular situações para conseguir sexo é um comportamento aceitável, natural até. Esses caras acham que só é violência, que só há violação no consentimento, se obrigar, de forma direta, a mulher a fazer alguma coisa.

Nesse mesmo sentido, há quem fale que as mulheres têm agência e que elas precisam se responsabilizar por não ter conseguido dizer “não” COM TODAS AS LETRAS E TIL, mesmo quando elas negam fisicamente as tentativas de contato mais íntimo várias vezes. Dizer que mulheres devem se responsabilizar por não terem expressado o não de forma direta, firme e verbal ignora que consentimento não é “ceder às investidas”.

É o próprio jogo sexual padrão que coloca mulheres como seres sem agência que não sabem bem o que querem e precisam ser pressionadas para fazerem o que supostamente desejam no íntimo. Não é a gente que faz isso ao questionar o quão nocivo é considerarem ceder consentir.

Homens e mulheres precisam detonar essa dinâmica sexual que coloca as mulheres no lugar de pessoa que cede, porque isso alimenta a visão dos caras de que insistir faz parte do jogo, que pode continuar insistentemente porque ela está fazendo charminho, que pressionar é o caminho natural das coisas.

É essencial que a gente combata a reprodução dessa lógica na gente, que a gente aprenda a dizer não, mas é ainda mais necessário fazer a sociedade entender que muitas vezes os caras notam o desconforto, mas insistem porque não se importam, porque foram ensinados que é assim mesmo ou até por considerarem que é assim que é bom, que conseguir após insistência faz a conquista ser mais valiosa.

Noto que a maioria das pessoas se lembra de cobrar que a mulher diga não com todas as letras, ignorando os possíveis riscos que esse não pode representar dependendo da situação, mas esquece de reivindicar que caras respeitem sinais óbvios de desconforto, perguntem mais e notem que a pessoa com quem eles querem transar também é gente, tem seus desejos, seus gostos, suas dúvidas e seu tempo.

A paquera não pode funcionar como um jogo que tem como único perdedor a mulher. E insistir, pressionar e manipular situações para obter o sexo desejado é ver a conquista e as relações sexuais assim.

A paquera tem que ser encarada como uma ação conjunta, na qual os envolvidos têm agência e dizem sim, não, não gosto disso, prefiro assim e têm suas falas consideradas. Só que as relações entre homens e mulheres partem de locais desiguais em que as mulheres são ensinadas a cederem e homens a insistirem, dinâmica que desencoraja que o “não” feminino seja expresso ou mesmo respeitado, já que a negativa pode ser encarada como uma afronta, uma grosseria ou mesmo um desafio a mais.

Para que o flerte seja uma ação conjunta é preciso tentar equilibrar as relações de poder envolvidas de forma consciente. Se há uma dificuldade de mulheres dizerem “não” de forma direta e assertiva, torna-se necessário não só que a gente encoraje mulheres a dizerem, mas que homens tomem a consciência de que é preciso respeitar sinais corporais e comportamentais óbvios, expressos através de uma negativa verbal ou não verbal, aprender quais são esses sinais, caso não saibam, e entender que insistir em um comportamento sexual ao notarem que a mulher agiu de alguma forma para impedi-lo é tentar vencer pelo cansaço. E vencer pelo cansaço não é consentimento.


Texto originalmente publicado na minha página do Facebook. Ele também saiu no site Casa da Mãe Joanna. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo MediumTwitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.