“Dora e a Gata” e a importância das boas companhias

Acervo Pessoal

Lançada em novembro de 2019, a HQ “Dora e a Gata” veio ao mundo em formato de livro graças ao financiamento coletivo organizado pela autora e a contribuição de vários fãs, curiosos e amantes de quadrinhos. Por causa da publicação de trechos da história, as personagens que dão nome ao livro já tinham se tornado queridas pelo público que acompanha a Helô D’Angelo em seu Instagram antes mesmo da campanha do Catarse ser lançada.

Dora conquistou tanta gente porque seus dilemas são próprios ao início da vida adulta de nossa época. Sonhos que não cabem no que se entende como prático, trabalho desagradável, conflitos com a família, problemas de autoestima e relacionamentos abusivos.

Já a Gata nos seduziu do jeito felino de sempre: chegando de mansinho, precisando de cuidado, aprontando algumas e, claro, sendo fofa e uma boa companhia. Logo, Dora e a Gata se tornam uma boa dupla. Com a felina, com seu jeitinho único, ajudando Dora a entender que precisa se cuidar e também confiar mais em si mesma.

O poder dessa história está em mostrar a importância de se ter uma boa rede de apoio. Quando Caio, namorado da protagonista, age de maneira cada vez mais abusiva, Ceci e a Gata estão ali para Dora, mesmo quando ela quer se isolar de todos. São elas que dão confiança para que a personagem sinta que não precisa de um namorado como ele e a ajudam a perceber que todas aquelas dúvidas e sentimentos que ela tem sobre os comportamentos de Caio com ela não são fruto de exagero, como ele diz que são.

Um dos detalhes que chamam atenção nessa HQ é a presença de cenas cotidianas que incluem a leitura de livros, o uso de celular, as tarefas de casa, as refeições, a escrita, várias trocas de roupas, a hora de dormir e de acordar e afins. A partir desses momentos, Helô D’Angelo constrói a ambientação dessa história enquanto nos conta a natureza das relações que cercam a protagonista e mostram o amor presente em uma bela amizade entre mulheres se transformar em algo mais. E, de quebra, nos dá boas dicas literárias, como “Nossa Senhora do Nilo”, da Scholastique Mukasonga e as autoras Angela Davis, Chimamanda, Harper Lee, bell hooks e Sylvia Plath.

O que fica após o término dessa leitura é a certeza de que as boas companhias são aquelas que nos apoiam, incentivam e nos amparam quando precisamos. Elas são essenciais para que a gente consiga correr atrás dos nossos sonhos e viver bem. Aprendemos isso com essa história e, se a gente for parar para pensar, também com o processo de publicação de “Dora e a Gata” e outras obras independentes. Afinal, um financiamento coletivo ou algo do tipo é, antes de qualquer coisa, um meio de apoiar e dar um voto de confiança a um projeto de alguém. E isso, em tempos em que compartilhamos, na maior parte das vezes por necessidade, tantas denúncias, desgraças e “polêmicas” e poucas coisas boas, acaba sendo uma forma de sonhar junto.


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Por que pregar abstinência sexual não é uma política pública eficiente?

Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Promover a abstinência sexual não funciona como política pública para evitar gravidez na adolescência e nem o contágio de doenças sexualmente transmissíveis entre jovens. O estudo de casos como o dos Estados Unidos no período Bush mostram a ineficiência desse tipo de programa. Até mesmo Damares Alves, enquanto ministra, admitiu que não há pesquisas que embasam a proposta como ela foi feita, mas ainda assim essa é uma medida que costuma ser bem vista por muitos e a gente precisa parar para pensar no porquê disso.

Damares Alves, por meio de seu discurso, se coloca como a única e verdadeira defensora das crianças e adolescentes. Ela manipula as pessoas a partir disso e tenta convencer a população de que defender qualquer coisa diferente da promoção da abstinência total é estimular que crianças e adolescentes transem. Ela aproveita a preocupação comum de pais e cuidadores com o presente e o futuro de seus filhos para defender como política pública algo que não encontra amparo científico, enquanto ignora questões essenciais ao debate como machismo, lgbtfobia e, principalmente, os altos números de casamentos infantis ou precoces, casos de exploração sexual e de estupro de vulnerável.

Com a frase “Se provarem que vagina de menina de 12 anos está pronta para ser possuída, paro de falar”, a ministra defendeu o seu programa de maneira completamente desonesta. Ao dizer isso, ela, a partir do sensacionalismo, tentou colocar quem é contra a abstinência sexual total como política de governo como defensor da pedofilia, sendo que a educação sexual, sempre dada de acordo com a idade dos alunos, funciona justamente como uma forma de proteger crianças e adolescentes de estupros, especialmente nos casos em que eles acontecem dentro de casa, entre familiares e vizinhos, ou mesmo fora, em locais com ares de confiabilidade e presença de figuras de poder, como padres e pastores.

Além disso, sabendo que na legislação brasileira há o tipo penal do estupro de vulnerável, que presume como violência sexual qualquer ato sexual com menores de 14 anos, o discurso de Damares Alves se mostra ainda mais manipulador. Legalmente, antes dessa idade não há sexo com consentimento, há abuso sexual presumido, logo já se defende a abstinência sexual de pessoas que se encontram nessa fase da vida.

Quando o próprio governo, a partir da figura da Damares, sugere uma atividade educativa que envolve uma fita adesiva que passa colando entre os estudantes para afirmar que depois de um tempo a menina*, especialmente a menina, não “cola” com ninguém, fica evidente o machismo e o anticientificismo que envolve a defesa dessa política de governo. A partir dessa declaração, se percebe o quanto eles buscam cercear o exercício da sexualidade feminina não só enquanto adolescente. Eles querem promover o ideal de casamento mesmo, ignorando as estatísticas brasileiras sobre casamento precoce e suas consequências.

A popularidade de propostas como essa se sustenta na má-fé de seus defensores e na propagação de desinformações comuns ao tema. A sexualidade em si é um tabu inclusive para adultos e justamente por isso Damares Alves explora a temática a partir do senso comum moralista, machista e religioso e usa isso para promover seus interesses, ignorando estatísticas e o alcance do problema.

Com um discurso agressivo contra quem discorda da promoção da castidade como política pública, quem defende essa agenda oferece uma resposta superficial que não soluciona nada, apenas empurra para debaixo do tapete um problema que, ao não ser trabalhado como deve, tende a se agravar. Sem o cuidado necessário, o estímulo da abstinência misturada com o papo de alma gêmea presente no discurso da ministra pode acabar reverberando em um aumento de casamentos precoces, por exemplo.

A educação sexual é provavelmente o principal e melhor caminho para evitar a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis porque, além de informar sobre o funcionamento e cuidado do corpo, as transformações da adolescência, os métodos contraceptivos e as doenças sexualmente transmissíveis, ela também ensina sobre consentimento e estupro, o que dá ferramentas para as vítimas denunciarem seus algozes e contribui para construção de uma sexualidade saudável para jovens, independente do gênero.

Falar “não transe”, sem qualquer outro aprofundamento ou informação, não ajuda em nada, porque essa frase colocada assim só contribui para alimentar o tabu do valor da virgindade feminina, a culpa, o pecado, o desejo pelo proibido e, claro, a desinformação e a perpetuação do silêncio que envolve casos de estupro.

Informar, falar sobre e debater sexualidade e gênero levando em conta questões além da biologia em si, sem imposições ou terrorismos, é o que ajuda adolescentes a entenderem as responsabilidades com o outro e consigo mesmos necessárias para a construção e exercício de uma sexualidade saudável. Isso, na maioria das vezes, influencia na decisão dos jovens em adiar o início da vida sexual e permite que eles aprendam a se proteger de gravidezes, doenças e até mesmo violências quando ou caso decidirem transar — ensinamentos que podem ser úteis até mesmo antes desse momento chegar.

A castidade como foco de uma política pública falha porque isola o assunto de quem mais precisa falar sobre, deixando jovens sem acesso às informações essenciais para o início de uma vida sexual segura. Assim, a pornografia e os mitos sobre o sexo ganham espaço entre adolescentes e até mesmo adultos. O impacto de uma política pública como essa se perpetua além da menoridade porque reafirma lugares comuns sobre sexo, desinformação e silêncio. É a vitória do “não, porque sim” frente à construção de uma sexualidade responsável e respeitosa. É a escolha por criar mais uma barreira de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Escolha essa que já está sendo feita em outros âmbitos, como no pedido de eliminação, por parte do Brasil, de qualquer tipo de referência sobre “educação sexual” e “direitos reprodutivos” nos documentos da ONU e OMS.

No mais, além de aulas e campanhas de educação sexual, é essencial que as políticas públicas sobre sexualidade levem em conta o efeito da falta de oportunidades no imaginário social que coloca filhos e casamento como um meio de atingir uma certa autonomia, especialmente para meninas e mulheres. Informação sem perspectiva não é o suficiente. É preciso que as políticas públicas interajam entre si e expandam a ideia de futuro que muitos jovens possuem. Combater a miséria, por exemplo, é essencial para isso. Somente ações coordenadas e abrangentes que envolvam aulas de educação sexual baseada em evidências e debate protegerão meninas e meninos da naturalização desse processo que envolve, muitas vezes, pessoas maiores de idade que se aproveitam justamente da falta de conhecimento, maturidade e horizonte de crianças e adolescentes para conseguir o que querem. Seja pelo casamento ou pela exploração e violência sexual.


*O uso do termo “menina” nessa fala vem de novo reiterar no imaginário social que a ideia de que ser contra a abstinência sexual como política pública é defender a pedofilia.


Lady Killer: esposa, mãe e assassina

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Uma mulher, bonita e bem vestida, cuida dos filhos, da casa e espera seu marido chegar para jantar. Ela usa vestidos acinturados não muito curtos, brincos e colares, um corte chanel bem penteado e a maquiagem da moda. Ela é a cara do american way of life da época e todos os produtos relacionados a ele e poderia ser personagem das propagandas vintage que hoje usamos para decorar nossas casas por causa da estética interessante ou para criticar como o mundo enxergava as mulheres.

Dessa mulher, esperamos um comportamento submisso, solícito, dócil e, claro, bem maternal. Seja na vida real ou na ficção. Só que o mundo não é feito de estereótipos e obras como a história em quadrinho “Lady Killer”, escrita por Joëlle Jones e Jamie S. Rich e traduzida por Raquel Moritz, exploram outros lados possíveis desse clichê. Nessa HQ, conhecemos Josie Schuller, uma mulher exemplar para época, exceto por ser também uma assassina de aluguel nas horas vagas. Horas que, ao contrário do que muitos imaginam, não são muito raras quando se exerce tantas funções consideradas edificantes.

Uma mulher, especialmente nos anos 50, precisa cuidar de sua imagem, tempo e família. Por isso, seus horários não são tão flexíveis como o de um homem. Afinal, ela precisa de desculpas para se ausentar. E, claro, isso a afeta no trabalho. Homens, sejam colegas ou patrões, não costumam ser muito compreensíveis com o peso de tarefas domésticas na rotina das trabalhadoras que os cercam, mesmo quando elas entregam o que é pedido e são super competentes no que fazem. Josie lida com isso, com o assédio e com os riscos típicos do seu serviço e é essa a história que move a obra.

Em seu trabalho, Josie usa e abusa de outros estereótipos de gênero voltados para as mulheres. Ela vende produtos de beleza de casa em casa para poder entrar nos lares das pessoas que precisa matar, circula facilmente em bairros residenciais e age como femme fatal para atrair os homens marcados para morrer. Ela sabe que poucos esperam que mulheres matem e faz disso um trunfo profissional que, apesar de tudo, não parece ser o suficiente para seu chefe, que lucra com a habilidade dela de disfarce e de assassinato, mas se incomoda em ver uma mulher fazer algo assim e ser tão boa nisso.

Joëlle Jones e Jamie S. Rich brincam o tempo todo com o que se espera da feminilidade. Josie é uma mulher ideal em quase todos os sentidos e transita entre as várias representações possíveis do feminino no imaginário social padrão da época, enquanto também luta, estrangula, envenena e mata.

Além do roteiro, merece destaque o estilo dos desenhos, todos de Joëlle, e o uso das cores, trabalho de Laura Allred. Além do vintage, há algo noir neles e a representação da violência contrasta sempre com essa exaltação da feminilidade da personagem e com o que se espera das mulheres. Inclusive quando elas ilustram.


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Perigosa

“I always want to be dangerous” disse a moça do Fleabag numa capa da Vogue. Ainda não vi Fleabag, preciso confessar, mas juro que está na minha lista desde que fui avisada que é uma série curta e que eu vou me apaixonar pela atriz que é também um tanto de coisa relacionada ao mundo da criação, da escrita e tudo mais. A revista não está aqui comigo, não, não. Nenhuma sala de espera tem revista super atual assim, imagina se uma repartição de prédio público que está sofrendo cortes e ataques do governo para cavar uma privatização vai ter?

Pois é. Tá foda, né? Vigora nesse país uma lógica tão nefasta que não há energia que dê conta de se manter tempo o suficiente em um corpo sem se dissipar em uma ação automática, como uma reclamação, um lanche ou um meme. A sensação é que estamos em processo de zumbificação. Eu, pelo menos, estou.

Fomos domados. Agimos de forma previsível e quase adestrada e é por isso que a frase da moça do Fleabag ecoa na minha mente sem parar desde que a li. Eu sempre quis ser perigosa. Muito mais do que uma femme fatale, já que todo o perigo que elas apresentam segue uma lógica que é cruel com as mulheres e serve, no fim das contas, para alimentar fantasias masculinas de controle, dominação e narcisismo. Eu queria ser perigosa mesmo. Inflamável, tempestiva, ousada, imprevisível, mercurial e, principalmente, forte o suficiente para garantir que nenhuma dessas características e comportamentos me prejudicasse. Queria poder ser desagradável, eu acho. Poder fazer coisas comuns sem pintar um sorriso no rosto, ainda que falso, e responder daquele jeito quem me tratasse de maneira paternalista ou me assediasse. É isso. Queria poder reagir ao que é sutil, mas ainda assim mexe com minhas estruturas e afeta como eu me vejo e vejo as mulheres ao meu redor. E não só elas. Queria também reagir ao que é óbvio, mas que é perigoso demais. Como quebrar um banco ou bater de frente com juízes que defendem somente seus próprios interesses. Eu queria tanta coisa e todas elas se relacionam com enfrentar um poder sem medo. Então, o que eu queria mesmo era ter menos medo. De desagradar, de me machucar, de destruir, de descobrir que algo pode ser diferente e construir qualquer coisa a partir desse impulso.

Eu queria ser perigosa, moça do Fleabag, porque eu queria conseguir me proteger desse mundo que nos engole mesmo sem a gente perceber. Eu queria ser perigosa, porque fantasio com o dia que eu não serei mais tão covarde. Eu queria ser perigosa para não ser presa, fácil ou não.

Talvez a zumbificação esteja em mim e em nós e em todos há muito mais tempo do que a gente imagina. Talvez a gente precise descobrir o perigo que mora nessas nossas feridas feias que nunca cicatrizam. Talvez eu esteja chorando no banheiro. Talvez eu esteja com receio de chamarem o meu número enquanto seco as lágrimas disfarçadamente numa cabine apertada com cheiro de xixi velho misturado com desinfetante de lavanda. Isso tudo porque chorar em público é visto como uma espécie de perda da dignidade e eu quero evitar que pensem que perdi a minha agora. Eu perdi faz tempo. Provavelmente quando não fiz muita coisa para tentar barrar a Reforma Trabalhista. Ou foi a da Previdência? A decadência humana, na verdade, é não chorar, sentir, agir quando a gente sente esse impulso vital, constantemente sufocado, mas que ainda assim continua a chamar, a chamar, a chamar…


Esse texto foi originalmente publicado na terceira edição da minha newsletter. Se você gostou e agora quer receber meus envios diretamente na sua caixa de entrada, assine aqui e não se esqueça de confirmar pelo e-mail.

Conversando com O Ano do Macaco

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Eu também daria feliz ano novo para as minhas botas, mas aqui no hemisfério sul, onde moro, não há espaço para esse tipo de calçado nessa época. No máximo, um par de tênis quando se precisa usar algo fechado e bom para andar. Desse lugar de onde leio, o Ano do Macaco já passou e parece mais distante do que está de fato. Eu que não entendo nada sobre os anos chineses ainda encaro tudo que aconteceu em 2016 como uma sucessão de piadas nonsense que saíram do controle e culminaram no ano de 2018 e depois no 2019 e agora no recém iniciado 2020.

Ainda assim, eu felicito quem e o que está ao meu lado com todo tipo de mensagem de ano novo como se essa virada não fosse uma mera ficção. Ser ficção não é um demérito necessariamente. Quanta coisa mudou em mim e no mundo por causa de uma história, de um nome, de uma prática ou de outras coisas inventadas. Tanta coisa boa surgiu da capacidade humana de criar e, caramba, tem hora que tudo que a gente quer mesmo é se deixar enganar por uma trama boba ou não. A gente não pode se esquecer disso, apesar de tudo. 2016 ou 2018, não importa, em ambos os anos algumas ficções foram tratadas como notícias reais e usadas para defender o indefensável. Ganharam eleições assim. Nem toda invenção é boa, principalmente quando elas se fingem de verdades verdadeiras e se moldam ao formato mais atraente de sensacionalismo.

Antes de continuar, preciso confessar que não sei se dialogo aqui com a Patti Smith, com a placa do Dream Motel, que na verdade é Dream Inn, com o livro no todo, com os mortos da autora, com os meus mortos, ou com você, leitor(a), que chegou desavisado(a) acreditando que esse texto seria uma simples resenha ou análise ou crítica ou ensaio comum e se deparou com um breve tratado sobre um tempo, um livro e a imaginação.

Acho que escrevo esse texto como se todos esses personagens e mais alguns estivessem frente a frente comigo, sentados numa mesa de bar ou café, me vendo falar sem parar.

Quero falar com a Patti Smith sobre envelhecimento, morte, esperança, desespero, amizade e, claro, sobre o show dela que assisti no último novembro no Popload. Talvez, no lugar de falar sobre o show, eu prefira comentar sobre o lançamento dos livros dela feito bem na véspera do festival que a trouxe para o Brasil. Foi tão bom ouvi-la falar assim, tão pertinho, quase como uma amiga. Foi tão bom ouvi-la narrar trechos do livro que agora leio, converso e carrego comigo para um café. Eu sei que no fim, o que eu faço mesmo é conversar sobre o tempo com todos dessa mesa de personagens estranhos, ainda que fique ansiosa para citar, em algum momento mais informal, que eu também gosto de jogos de tabuleiro como Bolaño, escritor ainda não lido por mim, mas sempre referenciado pela autora.

O tempo é também um lugar. Partimos sempre de uma data para olharmos para o mundo, para nós e para os outros. Patti, no Ano do Macaco, estava à espreita dos setenta anos. Eu, no ano do Cão de Terra, fiz trinta. Estranhamente, eu e ela olhamos para os mortos. Só que os dela estão cada vez mais próximos, enquanto os meus ainda moram no medo. E eu espero que eles fiquem lá por muito tempo ainda. Isso me faz pensar que o Ano do Macaco é sobre luto também, mas é um luto que vai muito além da Patti como narradora, autora e personagem. Por mais que seja ela que esteja perdendo amigos e se alimentando de memórias. O luto parece ser do mundo, como se a esperança estivesse morrendo de acordo com o passar dos dias, dos meses e, por fim, do Ano do Macaco.

2016 aqui foi um ano com impeachment, olimpíadas, Cunha preso e acidente de avião com time de futebol promissor. Também tivemos um luto coletivo por isso. Divididos, de certa forma, com nossos vizinhos colombianos que receberam a dor das famílias, amigos e fãs de uma forma impressionante. Desse lugar saímos e chegamos em 2018 com Marielle Franco assassinada, mais um luto coletivo, mas esse muitas vezes interrompido por uma espécie de polarização fabricada que dá força para o ódio, para as fake news e para a extrema-direita. Nesse ano também tivemos Bolsonaro eleito como líder do país, e depois, já em 2019, o primeiro ano de governo dele. Ele e seus apoiadores são tão movidos pela destruição que, de certa forma, muitos de nós vivemos uma espécie de melancolia coletiva agora. Ainda mais com a intensificação dos efeitos do colapso climático junto com o negacionismo crescente da ciência. Ainda mais com o genocídio da população negra justificado cada vez mais pela busca incessante por essa tal de segurança pública.

2019 também foi o ano do rompimento da barragem de rejeitos de minério em Brumadinho. Vai fazer um ano agora e eu ainda me lembro de quando li a primeira notícia e alguns dias depois passei perto do rio Paraopeba e ele já tinha uma cor diferente, de toxidade, de morte, de fim. Ainda há 17 pessoas desaparecidas. 253 mortos. Eu nem sei direito o que dizer, mas sei que certas tragédias e crimes precisam ser lembrados.

O Ano do Macaco fala de tempo. É isso. E tempo é memória, morte, momento e vida. E a gente se confunde, sonha, se perde e conversa com o que já está no passado o tempo todo. O passado importa, a memória também, quem somos perpassa por isso e é nas nossas lembranças que mantemos o que importa para nós vivo, mas talvez a gente precise falar mais de futuro ou aprender a falar de passado de uma outra forma. Não sei. Hoje, alguns dias depois do ataque ao Irã por parte dos EUA, vi muita gente falar nas redes sociais sobre o fim do mundo. Ele parece tão próximo e o meu principal impulso ao notar isso é tentar lembrar de quando ele parecia distante. Talvez eu deveria era pensar em um outro lugar e tempo em que o fim do mundo parecesse uma ficção e trabalhar para construir isso. Com certeza seria mais produtivo, mas eu sei lá se quero mesmo ser mais produtiva. Ser produtivo não está ajudando muito a gente no geral, né?

2020 é o Ano do Rato e, como sempre, eu não faço ideia do que isso significa, mas eu realmente acho que daria um bom nome de um livro que talvez narre o fim do mundo ou talvez não. Espero que não. Só consigo pensar que quero acreditar que esses ratos são fênix e que algo vai renascer dessa época e, sem perceber, sinto que comecei a conversar sobre isso com a placa da pousada que a Patti Smith se hospedou em Santa Cruz.

Ler esse livro foi um processo bem mais demorado que eu imaginava, porque eu decidi, na página 40, que eu leria para reaprender a sentir o tempo passar. Não como notícia, como cronômetro, como agenda, mas como tempo, aquele conceito que mistura o passar dos segundos, minutos, horas, dias com o clima e o efeito dele na gente e no todo. Quando terminei de ler e comecei a escrever, chovia. Agora só ameaça, mas eu me sinto estranhamente tranquila. As nuvens estão escuras, mas ontem também estava e grande parte do dia hoje foi lindo mesmo assim.


Tradutora da obra: Camila von Holdefer.


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“A vegetariana”: Han Kang, Coreia do Sul, autonomia e violência

Foto de Mônica de Godoy para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira seu exemplar aqui.

“A Vegetariana”, obra da sul-coreana Han Kang, ganhou o mundo após vencer o Man Booker International Prize 2016 com um romance dividido em três partes, cada uma delas com um narrador diferente. Yieonghye é a protagonista dessa história contada inicialmente pelo seu marido, depois pelo seu cunhado e, por último, por sua irmã.

A decisão de Yieonghye de deixar de comer carne é o que move, inicialmente, o enredo. Tudo parece começar ali, ao menos para os três narradores, e o livro se desdobra numa sucessão de acontecimentos decorrentes desse ato. O vegetarianismo em si não é o foco, ele funciona apenas como a engrenagem visível aos olhos dos outros desse processo que a protagonista passa e o livro aborda.

O marido

O marido estranha a escolha aparentemente abrupta pelo vegetarianismo, marcando em sua narração, que a personagem, até então, gostava de carne e cozinhava belos pratos a partir desse ingrediente. Ele fala isso inicialmente em tom de preocupação, mas logo se percebe que ele só se importa com as possíveis consequências do comportamento dela em sua vida.

O marido evidencia também o quanto vê a esposa como um ser sem vontades, que parece não se importar ou até gostar de servi-lo. Ele a considera uma mulher comum, de um jeito negativo, e fala que a escolheu justamente por isso. O vegetarianismo dela quebra a construção que ele fez sobre a própria esposa e seu próprio casamento. Ele se incomoda com essa repentina autonomia dela, busca uma intervenção familiar e segue ignorando Yieonghye como uma pessoa. Ele a vê como uma serva, inclusive sexual. O que não parece ser nem um pouco chocante para os demais personagens do livro.

Ele parece representar o homem-médio sul-coreano em seus desejos, reações e comportamentos. A construção dele soa como uma crítica aos que parecem tanto com ele. Por isso, em alguns momentos, o que ele conta cria cenas que se assemelham a uma esquete.

A família no todo

A intervenção familiar acontece de forma emocional a partir da mãe: ela oferece um dos pratos preferidos da personagem, comidas com ingredientes caros e chantagens emocionais. Isso tudo mais de uma vez. Já quando envolve o pai, a tentativa de controle se torna obviamente violenta. Ele tenta obrigar a personagem a comer carne por meio da força. Ela age contra isso violentando-se. Todos os membros da família parecem vê-la como um fardo bem antes disso acontecer, somente com a decisão dela de não comer carne, no caso, mas é o pai de fato age contra ela e mostra a figura autoritária e centralizadora que é.

A família, o tempo todo, trata o marido de Yieonghye como uma espécie de vítima dela. Eles entendem que ela é uma vergonha, um fardo, um incômodo para ele e deixam bem claro que ele detém o direito de abandoná-la.

O cunhado

Casado com a irmã da protagonista, ele é um artista que se coloca como um homem que não se importa em ver a esposa ser uma empresária de sucesso. Ele se vê como um cara muito diferente do marido da Vegetariana, mas é apenas uma outra versão daquele mesmo homem. Ele sexualiza, explora e violenta as mulheres que o cercam e usa as vulnerabilidades delas ao seu favor e com a desculpa de que é em nome da arte ou mesmo de si.

A irmã

A narração da irmã de Yieonghye amarra toda a história. A partir de suas lembranças, ela recorda a vida dela e de sua irmã desde a infância. Ela é a única que tenta entender a Vegetariana, olhar para ela de verdade, ainda que limitada pela raiva, pelo perdão talvez condicionado pelo cuidado que ela assume com todos, provavelmente por ser mulher, e pelo amor que sente.

A irmã faz uma investigação interna sobre sua família, quem Yieonghye foi e agora é e também sobre si mesma para tentar entender e lidar com aquela sucessão de acontecimentos. Essa é a parte mais misteriosa do livro, aquela que não dá respostas, apenas cria mais perguntas.

A vegetariana, sua autonomia e a violência

A única voz da personagem está no relato dos narradores sobre os sonhos que a perseguem. Ela não narra a própria história. Tudo que a motiva ou desmotiva fica como um mistério que a gente tenta desvendar junto com a irmã da personagem, sendo que mesmo a irmã narra por uma ótica própria que também apaga Yieonghye, ao menos de alguma forma.

Não narrar a própria história é ter retirada, mais uma vez, a sua autonomia, que parece ser algo que foi podado na personagem durante toda a vida. A violência que Yieonghye nega, ao se tornar vegetariana e depois ao se recusar a comer, é o que sempre a cercou e a impactou. Ela fez parte daquele mundo que poda, controla e violenta e a negação surge dessa tomada de consciência que parece ter vindo a partir dos pesadelos que a atormentam.

Com a leitura, a gente percebe que parte da violência que a cerca e a impacta é exercida principalmente homens e que isso é quase invisível justamente pela naturalização de determinados comportamentos e o que é esperado de cada gênero, de cada relação. Han Kang, com essa obra ficcional que mescla características fantásticas e até de terror com cenas comuns, conta muito sobre o que é ser mulher na Coreia do Sul e aborda também questões como casamento, família, trabalho e sociedade.


Tradutora da obra: Jae Hyung Woo


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“Talvez precisemos de um nome para isso”: um poema sobre cabelos e outras coisas

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o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos

Um poema longo, dividido em dez partes, forma o livro de estreia de Stephanie Borges, o “Talvez precisemos de um nome para isso”. Um poema longo, dividido em dez partes, é algo que eu nunca resenhei antes. Já na estrutura, o livro me obrigou a sair da minha zona de conforto literária e encarar versos livres, diretos, um poema que narra e a força das palavras que formam uma obra que trabalha a questão do cabelo de forma pessoal e coletiva sem se perder nas possíveis apropriações do mercado.

“Talvez precisemos de um nome para isso” venceu em 2018 o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia, e trata de temáticas atuais e que parecem conversar com o leitor, apesar do formato incomum para quem, como eu, se acostumou a ler livros de poesia que não são formados por um texto único.

mas não confunda
o poder e o produto
é bom para alguém que continuem acumulando
shampoos condicionadores
antifrizz finalizante
pomada mousse
restaurador ampolas
e esqueçam

Stephanie Borges usa experiências pessoais, referências literárias e musicais, cartas de Tarot, mitologia, informações científicas e receitas naturais de hidratação para criticar as cobranças estéticas e capilares voltadas para as mulheres, sobretudo as negras com seus cabelos crespos e cacheados, e falar sobre cabelos, vida e identidade de uma maneira diferente.

O cabelo feminino carrega significados culturais e esse poema tensiona vários deles. Esses significados perpassam todo o corpo e o comportamento esperado das mulheres, mas é no cabelo que eles parecem mais visíveis, provavelmente por causa da naturalização das cobranças referentes a isso no cotidiano brasileiro. “Não parece tão grave, afinal, é só o cabelo”, alguns podem dizer, sem pensar no quanto as cobranças capilares que permeiam a feminilidade se relacionam diretamente com o racismo, o machismo e ao sofrimento das mulheres associado a eles. Engana-se, entretanto, quem acredita que esse poema é só sobre isso ou mais sobre sofrimento, dor e denúncia do que qualquer outra coisa. Ele aborda também a descoberta de si e a construção de uma outra coisa que foge de tudo isso. O cabelo também é um caminho para se chegar a um outro lugar.

é triste
que existam meninas virgens, mas seus cabelos não
e naturalizemos a beleza pela dor
a ponto
de parecer normal
o ferro quente carinhosamente
chamado de chapinha,
queimaduras de hidróxido de sódio e guanidina
me avisa quando começar a arder
pra gente lavar, tá

Ninguém parece ver muito problema nas intromissões acerca dos fios alheios, ainda que as pessoas usem termos racistas para fazê-las. Falam tanto de domar cabelos e sumir com o volume que nem percebem o quanto essas expressões se relacionam com o desejo machista de controlar mulheres e torná-las cada vez menos notáveis, mais invisíveis. Essas e outras frases são utilizadas para pressionar alisamentos, relaxamentos e tingimentos e simbolizam a pressão social para que as mulheres tenham uma aparência específica, ainda que ela fuja totalmente de sua natureza. Esse controle sobre a aparência feminina que surge nessas e outras cobranças é uma maneira de nos ocupar e nos atrapalhar a buscar caminhos além das possibilidades que nos são apresentadas como as únicas possíveis.

e embora hoje transição seja a palavra
há um tempo era assumir
repare a estranha necessidade
de quem se apropria do que sempre foi seu

Stephanie Borges expõe como toda essa cobrança racista — e machista — sobre os cabelos, especialmente femininos, foi normalizada e afeta, inclusive, o próprio mercado de trabalho que ainda hoje insiste que cabelos cacheados e, principalmente, crespos não sugerem profissionalismo. E vai além ao também fornecer ferramentas para que o leitor repense a estética de nossa época a partir de confrontos entre o que é dito sobre cabelo em diferentes mitologias, como a iorubá, ajudando quem lê a criar e recriar novas imagens para pensar o mundo. Imagens menos colonizadas, eu diria.

Um cabelo não é só um cabelo. Os fios vão muito além da estética, investigá-los é uma maneira buscar o que veio antes e entrar em contato com histórias que ainda não conhecemos. Falar sobre não é ser fútil, é saber olhar ao nosso redor e entender símbolos, comportamentos e culturas. Stephanie, nessa obra, aborda padrões de beleza, racismo, identidade, descoberta e ancestralidade olhando para si e para a sociedade. É justamente nessa mescla entre o privado e o público, o passado e o presente, as velhas e novas ideias, e as diferentes linguagens e referências que a poesia da autora nos impacta.

No fim, os fios de cabelo que formam esse livro se emaranham aos nossos próprios, sejam eles lisos, alisados, relaxados, ondulados, crespos ou cacheados e nos fazem pensar mais sobre e com a própria cabeça. Da raiz até as pontas. Os fios guardam boas histórias e a gente precisa ir atrás delas.

os cabelos guardam
histórias de origens
as passagens do tempo
todo fio
contém vestígios
e carrega desde o princípio
a iminência de sua
queda


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O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

“Pequenas realidades”: o terror nas miniaturas

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Casas de boneca são presentes comuns para meninas. Brincando com uma, elas aprendem sobre disposições de cômodos, decoração e limpeza, emulando a vida que se espera que uma mulher tenha. Essas casinhas, dadas somente para meninas, reiteram a divisão sexual do trabalho e a ideia de que o espaço privado é o único território feminino por direito. Elas são um lembrete das funções que homens e mulheres devem ter. Por isso, para muitos esses lares em miniatura representam ingenuidade, pureza, futilidade e delicadeza.

A partir desse objeto considerado tão feminino, Tabitha King construiu uma narrativa única e sombria em seu primeiro livro “Pequenas Realidades”. Obra publicada pela 1ª vez em 1981 e que, antes dessa edição primorosa da Darkside com tradução de Regiane Winarski, recebeu no Brasil o título de “Miniaturas do terror”.

Usando elementos como tecnologia, habilidosa construção de personagens, múltiplas vozes, recortes de jornais e situações de tensão, Tabitha presenteia o leitor com uma obra que prende, incomoda e nos faz questionar sobre os limites da humanidade, nossa atração pelo controle de situações e pessoas e esse interesse coletivo e reiterado por reproduções do mundo real que vão muito além das casas de bonecas, sejam elas majestosas réplicas da Casa Branca ou não.

Na obra, as miniaturas domésticas não são parte do universo infantil como podemos imaginar em um primeiro momento, mas objetos de cobiça de colecionadores, curadores, fãs e pessoas comuns encantadas por uma versão adaptada desse nosso mundo nada palatável. Sendo assim, poder, dinheiro, sexo, narcisismo e jogos de manipulação circundam o que antes parecia apenas um mimo infantil.

De forma indireta, a narrativa apresenta reflexões sobre isolamento, padrão de beleza, controle, família e objetificação. “Pequenas realidades” vai muito além das miniaturas, ela trata sobre questões humanas e as disfunções que as acompanham. O terror dessa história está justamente no que parece poder existir fora das páginas do livro.

Tabitha King nos apresenta personagens ordinários e outros odiosos, todos cheios de nuances, e é justamente a relação deles uns com os outros que faz a história caminhar, enquanto nós, leitores, ficamos inquietos com o que promete vir, mas ainda não conhecemos. A autora explora nossa curiosidade, enquanto expõe e trabalha o psicológico de seus personagens de maneira minuciosa, mexendo com o leitor ao explorar o lado vil dos desejos e comportamentos humanos.

Casas de bonecas parecem completamente inofensivas e podem ser vistas até mesmo como desinteressantes, mas na escrita de Tabitha ganham um ar sinistro. Depois da leitura, nunca mais brincar de casinha parecerá tão simples e puro. Quanto poder pode morar na possibilidade de controlar o que consideramos apenas objetos?


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ABCDelas: mulheres profissionais em foco

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Chegou em minhas mãos um abecedário diferente. A cada letra há uma profissão, uma mulher que a exerceu e uma linda ilustração em aquarela para representá-la. O livro é do selo Cia das Letrinhas e foi escrito e ilustrado por Janaina Tokitaka, roteirista de televisão e autora de quarenta obras voltadas para o público infantil e juvenil.

Anésia Pinheiro Machado, a Aviadora, inicia esse livro que conta com minis biografias e historinhas para exemplificar a vida de cada uma das citadas. Depois temos, por exemplo, Nair de Tefé como Desenhista, Maria Firmina dos Reis como Escritora, Kate Warne como Investigadora, Naomi James como Navegadora, Inez Beverly Prosser como Terapeuta, Ng Mui em Kung Fu e muitas outras mulheres que juntas completam esse alfabeto de profissões feito por pioneiras ou quase isso.

Cada uma das mulheres citadas nesse livro carrega em suas histórias uma espécie de enfrentamento ao que se esperava de seu gênero. Algumas, inclusive, também de sua etnia. Praticamente todas sofreram tentativas de apagamento sistemático de suas presenças e ações em algum nível e é por isso que só agora, após várias tentativas de resgate e, principalmente, divulgação com viés feminista, que passaram a ser conhecidas pelo grande público, incluindo crianças.

A importância desse tipo de trabalho estar disponível para meninos e meninas em formato de livro ilustrado está no fato de que desde crianças somos condicionados a acreditar que determinadas profissões são masculinas e outras femininas. Sendo as áreas consideradas femininas vistas como espaços onde o brilhantismo não tem tanta importância ou lugar. Nesse sentido, uma pesquisa que reuniu profissões das Universidades de Nova York, Princeton e Illinois, nos Estados Unidos, concluiu, por exemplo, que meninas, já aos seis anos de idade acreditam que genialidade é algo masculino.

Livros que mostram mulheres de um passado distante conquistando espaços, exercendo profissões diferentes e marcando presença na história acabam por combater estereótipos de gênero, fomentar a autoestima feminina e, de certa forma, transformar significados que damos culturalmente a certas palavras, especialmente quando elas se relacionam com profissões. Quem navega pode ser uma mulher. Quem estuda biologia e geologia também.

Um abecedário de profissões que valoriza mulheres, especialmente aquelas pioneiras, ajuda a construir e sedimentar no público infantil ideias positivas sobre a capacidade feminina. Meninos e meninas que crescem cercados de ideias como as promovidas por essa obra se tornam meninos e meninas que prezam pelo combate ao machismo.


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