Escrever como explosão

Imagem do filme “ My Brilliant Career”.

Desenhei, pintei, esculpi com papel machê. Li e escrevi. Cantei em coral, representei Pluft e falei em público. Joguei bola, dancei e toquei triângulo nas aulas de música da escola. Tive o privilégio de conhecer e experimentar uma gama de possibilidades de me apresentar ao mundo. Sem pretensão e medo de passar vergonha, eu entrei em contato com as mais diversas formas de contar histórias e manifestar sentimentos, vontades e opiniões.

Com meus ouvidos ansiosos para conhecer mundos reais e imaginários, eu escutava as narrativas adultas e infantis que eram detectadas no meu radar. Ouvi lendas, casos, cantigas antigas, risadas e adaptações de contos de fada. Com a leitura, eu descobri o que alguns estabelecimentos que faziam parte da paisagem que eu conhecia vendiam e passei a ser capaz de decodificar as letras dos livros até elas formarem palavras e mensagens.

Descobri uma infinidade de histórias e formas de contá-las. E, sem querer ou saber, me deparei com algo que faz parte da composição humana. Somos feitos de água, carbono, minerais e até nitrogênio. Somos feitos de memória e carregamos em cada célula histórias microscópicas que, em conjunto, se tornam visíveis a olho nu.

Bruxa Onilda, A Bruxinha Atrapalhada, O Fantástico Mistério de Feiurinha e várias outras obras infantis foram a porta de entrada para eu aprender a desbravar o mundo mediante a imaginação. Depois, a Agatha Christie e o suspense que mexe com a nossa necessidade de saber respostas me deixou apreensiva, com medo e curiosa. A J. K. Rowling me apresentou a possibilidade de crescer junto com os personagens de um livro com a série Harry Potter. Os livros da Coleção Vagalume me fizeram sonhar em conhecer o Egito e resolver mistérios; já Machado de Assis e sua capacidade de criar personagens humanos e ironizar nossa mesquinharia, me fez compadecer e desprezar um mesmo protagonista. Por meio da leitura, tomei conhecimento da capacidade humana de criar mundos, personagens e expor sentimentos e também provocá-los no leitor.

Em algum momento, depois de tanto ser tocada por cenas e acontecimentos escritos, eu quis ser escritora. Eu desejei afetar alguém como esses autores fizeram comigo. Eu já escrevia, mas não havia pretensão alguma de fazer desse ato algo além de uma forma de explosão. Continuei explodindo e expandindo no papel e na tela, enquanto tratava a vontade de ser escritora como um sonho desses que a gente tem dormindo.

Tirei a poeira desse sonho adormecido após ler o livro “Meus desacontecimentos”, da Eliane Brum. Na obra, ela interpreta a própria memória e nos apresenta sua infância rememorando pessoas próximas, situações e seu amor — antigo — pela escrita. O jeito que ela escreve, a forma que ela fala sobre escrever e o amor dela por ouvir e contar histórias me deu fôlego para arrancar o sonho do seu local confortável e onírico.

Li Eliane Brum relacionar a escrita dela com a raiva e me lembrei das vezes que incendiei a tela do computador quando escrevi porque tinha que escrever. Respondi escrevendo em fogo os absurdos que vi acontecer e usei, como combustível para as explosões, as dores que enxerguei no mundo e a ira que vive em mim. Lendo os desacontecimentos de Eliane, eu tive a noção do quanto a escrita vive em mim. Somos parte de uma só, porque em algum momento, eu a elegi como minha forma de me colocar no mundo. Todo mundo tem a sua, mas muitos sequer tomam consciência disso.

Expressar-se é marcar sua existência no mundo, talvez seja por isso que tantas mulheres encarem o ato de escrever — ou de pintar, ou de compor, ou de esculpir — como algo tão visceral. Tantos anos como musas, sendo apenas descritas, tendo sua educação negada ou sua capacidade literária questionada e servindo como deleite ou motivação de personagens masculinos de obras feitas por homens fez muitas de nós encararmos o ato de criar como uma forma de demarcar nosso território num mundo que disseram não ser o nosso.

Ler nos permite entrar em contato com personagens e acompanhar seus sentimentos, suas perspectivas e a realidade que foi imaginada para eles pelo autor. Além do lúdico, o escritor, muitas vezes, nos ensina a enxergar o Outro, quando nos permite vivenciar junto com um personagem mundos desconhecidos por nós. Quem escreve tem a possibilidade de ampliar a capacidade do leitor de encarar o mundo e enxergar vidas e histórias que ele não via antes e é por isso que quero tanto me definir assim. Quero fazer o invisível saltar aos olhos e contar as histórias que queria ler, que vivi ou mesmo que ouvi da boca da minha avó.


Este texto fez parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva.


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Turbinas e um turbilhão

Standing in front of volcano — Aleksandra Waliszewska

Um turbilhão de pensamentos vem de uma vez. É tão brusco que até o ritmo da minha respiração muda. Cinco e pouco da manhã, num avião em turbulência, eu voo de volta para casa com a cabeça cheia de respostas, perguntas e constatações.

Eu sempre quis ser a melhor em tudo, nunca me esforcei para sê-lo. Vivo uma eterna dualidade. Sei que toda essa gana para ser a melhor é completamente irreal, mas continuo encarando todos meus feitos e erros como fracassos irreparáveis. Reconheço a impossibilidade do desejo que me guia, mas isso não é suficiente para evitar a dor da não realização.

É uma busca paralisante. Me travo no querer tanto, não avanço, não prossigo, me estagno. Parada em lugar nenhum, sinto a dor de não realizar e de não desistir. Repito essa fórmula furada desde sempre. Um dia foi por ignorância, agora é por covardia.

Quero me levantar, mexer meus pés, dobrar meus joelhos. Sinto minha pele da perna arder, queimar, doer. Como uma sugestão, meus neurônios trabalham para me lembrar que trombose é comum em viagens de avião. Sacanas!

Mesmo com uma leve turbulência, solto o cinto, me levanto e dobro minhas pernas algumas vezes. Enquanto sofro com essa dor misteriosa que me assombra desde setembro passado e a ansiedade que a segue, continuo tentando achar o fio da meada.

Entre o sono, a dor e o desespero, percebo que eu preciso tentar, tentar de verdade, me tornar a melhor no que diabos eu cismar ser. Querer é enérgico, ágil e vivo, por isso me aprisiona. Tantas possibilidades, inclusive a de falhar, me deixam inerte mesmo num ambiente tão ativo. No fim, dissipo energia num movimento previsível, circular e sem ousadia. Erro querendo evitar o erro. Empenhar-se em conseguir também tem um certo dinamismo, menos arrojado, claro, mas preciso.

Disciplina, competência e eficiência. Ir, enfim, pra frente. Sei que será sinuoso, apesar de parecer retilíneo e uniforme. Chato, talvez, mas nenhuma busca pode ficar só no querer e o tentar tem dessas. Sem aprender a tentar, tentar de verdade, eu não vou compreender o que é falhar e nem vou conhecer os resultados que posso alcançar.

No meio do meu querer impossível, tem também o receio de não conseguir nem chegar perto e uma vontade enorme de que o mundo seja fácil.

Gosto da praticidade do avião, gosto de olhar para o chão e ver toda nossa realidade reduzida e perceber que ela é um recorte de um todo, mas voar me dá um certo medo. Medo que me cerca também em terra. Medo que evita dores e cria outras. Medo de morrer e de viver.

Mexo os pés, estico a perna, respiro fundo. Dói tanto quanto a certeza de que o fracasso ainda vai formigar, arder e queimar dentro de mim. Vejo o sol nascer entre as nuvens e o rosa, o laranja e o azul tomarem conta da janelinha do avião. Sinto a pressão nos meus ouvidos que agora também doem. O avião vai pousar e eu preciso escrever tudo isso antes que eu esqueça que eu sei bem o que eu tenho que fazer.


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“Mulher-Maravilha” e o impacto de ter uma heroína nas telonas

Quando eu era criança, assumia identidades diversas durante as brincadeiras. Lembro das várias vezes que fui Power Ranger Amarela, de ser bruxa, fada e até pesquisadora de vida extraterrestre da NASA. Num mundo em que o número de personagens femininas interessantes tendiam a zero, minha maior aliada sempre foi a imaginação. Eu criava as personagens que me agradavam e adaptava as histórias dos desenhos para que as que já existiam tivessem vez nas brincadeiras.

Nessa época, eu até tinha ouvido falar da Mulher Maravilha, mas ela não me interessava muito, já que eu via esse nome ser mais usado para se referir às mães do que para falar da heroína da DC Comics. Ela nunca fui um ícone para mim, jamais me serviu de referência, mas para as novas gerações ela será.

Mulher-Maravilha” foi o primeiro filme de super herói dirigido por uma mulher e teve a estreia mais lucrativa de uma diretora nas bilheterias americanas até hoje. Os recordes de bilheteria batidos pelo filme dirigido por Patty Jenkins podem abrir caminho para mais protagonistas femininas no cinema e aumentar a contratação de diretoras para filmes de maior orçamento.

A indústria do cinema ainda considera que apenas histórias masculinas — e brancas — interessam e duvida da capacidade de direção das mulheres. Patty Jenkins, que dirigiu “Monster — Desejo Assassino”, não podia falhar e sabia disso. Quando abriu mão da direção de “Thor: O mundo sombrio”, ela comentou que fez isso porque sabia que se o resultado final não fosse bem aceito, o peso disso seria bem maior por ela ser mulher. “Eu pensei que se eu dirigisse o filme (Thor 2), seria um grande desserviço às mulheres. Se eu assumir o posto sabendo que será uma enrascada, e o filme ficar ruim por minha causa, será um grande problema. Se isso acontece com um diretor homem, é apenas mais um erro do estúdio”, ela afirmou. As mulheres carregam o fardo de que seus possíveis erros e dificuldades sempre serão usados para desqualificar todas as mulheres. A cineasta sabia que se “Mulher-Maravilha” fosse um desastre, diriam que mulheres não sabem dirigir e que ninguém quer ver uma heroína nas telonas. Felizmente, isso não intimidou Patty Jenkins. Nesse projeto, ela acreditava.

O impacto do filme vai bem além da indústria do cinema, já que até eu, que tenho 27 anos e nenhuma ligação prévia com a heroína, saí do cinema me sentindo pronta para enfrentar o mundo. Diana Prince cresceu na ilha de Temiscira, cercada por amazonas e recebeu um treinamento intenso por parte de sua tia Antíope. Sua postura ao sair de onde sempre viveu não é de medo e, mesmo sem saber as regras implícitas do mundo fora de sua ilha, ela não se sente intimidada numa Londres que trata mulheres como inferiores. Mesmo subestimada, ela confia em si e em sua história e faz sempre o que quer e acredita.

Fora da ilha de Temiscira, mulheres são criadas prontas para duvidarem de si mesmas. Depois de anos sendo interrompidas, ignoradas e subestimadas, nós acabamos perdendo a capacidade de acreditar que somos capazes. A insegurança é um elemento feminino no mundo que faço parte, mas sei que pode ser diferente. Ver a Mulher-Maravilha nas telonas, e acompanhar a história de coragem de Patty Jenkins ao assumir a direção desse filme, apesar de toda pressão, me lembrou disso.

As meninas de hoje terão Diane Prince, Katniss Everdeen, Moama, Rey e muitas mulheres reais para se apegarem quando o mundo machista disser que elas não são capazes. Elas não precisarão criar personagens femininas quando quiserem um papel maior numa brincadeira, já que a cultura pop está se tornando aos poucos um espaço que nos sentimos parte. Com esse contato com protagonistas femininas, os meninos vão aprender que mulheres pertencem ao mesmo mundo que eles e que são tão aptas quanto eles a realizarem inúmeras tarefas. Ainda assim, as meninas de hoje não estarão livres de passar por muitos desafios que o machismo e outras opressões trazem, mas o caminho para a mudança está sendo traçado em todos os espaços e, com tantos exemplos reais e imaginários, elas saberão como resistir.


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Eu soube

Arquivo pessoal. Foto em Santiago em Ago/2015.

A gente ainda usava SMS. O brasileiro tinha acabado de começar a migrar do Orkut para o Facebook. Antes desse fenômeno migratório tecnológico acontecer, eu já usava a rede do Mark Zuckerberg para jogar Máfia Wars e tinha como metade dos meus contatos desconhecidos de diversos países que faziam parte do meu grupo de mafiosos.

Nessa época, todo dia alguém conhecido te adicionava. Um dia foi você e por algum motivo a gente começou a conversar. Muito antes do messenger ser um aplicativo, a gente já trocava muitas ideias nele. O Messenger do Facebook foi pouco para caber nossa vontade de comunicarmos. Logo a gente foi para o sms, Skype e chegamos até usar uns serviços tipo o Tinychat. Era conversa que não acabava mais.

A gente se viu e continuou se vendo quando dava. Eu mostrava suas mensagens para minhas amigas e a cada dia você ganhava espaço, enquanto os outros perdiam. E um dia eu soube que o espaço já era todo seu. No outro dia, começamos a namorar. Um mês e meio depois, dissemos eu te amo um para o outro.

Depois eu soube que o amor é uma história contínua. O início não conta nem um terço de uma história de amor. Todo dia a gente descobre novas formas de cuidar, de acariciar, de compartilhar. Juntos, potencializamos o que o outro tem de melhor. Juntos, a gente aprende mais da gente e do mundo. Juntos, a gente explora sabores, prazeres, lugares e o tédio. Juntos, a gente se apoia e se desafia. Mesmo seis anos depois, eu ainda descubro que é possível amar mais ainda. Com você, eu descobri que o amor é algo de todo dia.

Eu te amo tanto que eu sequer sei escrever sobre nós. Todo ano, até eu ser a melhor escritora do mundo, eu vou tentar, sem sucesso, transferir para o papel o amor que sinto por você. Todo ano, durante a tentativa, eu vou molhar a blusa de lágrimas de emoção, porque as lembranças de nossa história estão no meu corpo, sendo sentidas, mas seguem incapazes de serem escritas. Todo ano, eu encontrarei ainda mais amor para transformar a ocitocina em palavra. Todo ano, eu vou tentar, porque você merece o meu melhor texto, mas você só ganha essas cartas incompletas, mal redigidas e status no Instagram. Mas o que importa mesmo é que, todo ano, eu quero estar ao seu lado.


Esse texto é uma carta de amor que escrevi para o Lucas Michelini por causa do nosso sexto aniversário de namoro. No “Amor como trajetória”, eu comentei que não escrevo mais sobre o amor há anos, que só restaram as cartas e os zines. Por isso, dividirei com vocês uma das cartas, porque é o que tem. Mas lembrem-se que todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

Higui: atacada por ser lésbica, presa por defender-se.

Fotografia de Sebastián Hacher. Na foto, Susana, mãe de Higui carrega um cartaz que diz “Higui, te queremos livre”.

Andando nas ruas do centro de Buenos Aires, entre pixos, lambes e stencils, encontrei cartazes que anunciavam uma manifestação para o dia 17 de maio, dia de luta contra a LGBTfobia. A ilustração de uma mulher com uma bola debaixo do braço e vestida para uma partida de futebol estava em todos eles acompanhada dos dizeres “Libertad Para Higui”.

Continuei meu trajeto de turista, avistei o Congresso, a rua Florida, o Obelisco, o Teatro Cólon, a Casa Rosada e a famosa Plaza de Mayo e segui me perguntando quem era Higui, o que tinha acontecido com ela e porque a queriam livre. No caminho, me lembrei de Rafael Braga.

A resposta veio e com ela tomei conhecimento de um triste caso de lesbofobia e de falhas estatais graves. Eva Anália de Jesus é o nome dela, Higui é um apelido que veio por ela ser goleira, como René Higuita, e apaixonada por futebol. Mulher lésbica, viveu o medo, violência e hostilidade diversas vezes e acabou presa por defender-se.

Durante a adolescência, recebeu pedradas, foi hostilizada, roubada e, em uma das vezes, seriamente agredida, entre gritos lesbofóbicos. Não denunciou por medo, foi embora do bairro de sua família e passou a carregar uma lâmina toda vez que se aproximava da região. No último dia das mães, retornou ao bairro e encontrou um de seus agressores do passado num beco. Ele disse: “Vou te fazer sentir mulher, sapatona mal comida” e a agrediu, junto com outros homens. Eles rasgaram sua calça e suas roupas íntimas e ela buscou a navalha que carregava para se defender. Nisso, matou um dos agressores, mas só soube disso já presa.

Foi achada praticamente inconsciente, machucada e, apesar dos ferimentos, foi levada detida direto para a delegacia. O processo contra ela é cheio de furos processuais. No primeiro documento policial sobre o ocorrido não consta informações sobre o estado em que Higui foi encontrada, por exemplo.

O ato de legítima defesa de Higui a protegeu de um estupro corretivo. Essa violência recebe essa denominação porque os autores estupram a vítima com a finalidade de punir o que eles consideram um desvio numa mulher. Para o agressor, o estupro de uma mulher lésbica “corrigiria” a lesbianidade dela, que pra eles é uma afronta.

Higui está em prisão preventiva por homicídio simples, por ter matado um de seus algozes, numa tentativa desesperada de se defender de um estupro motivado pela misoginia e pelo preconceito com sua orientação sexual. Seus agressores estão livres. Conheci seu nome andando nas ruas de um país vizinho, numa tarde de turismo, mas queria ver a história dela ecoando nas redes, jornais e rodas políticas brasileiras, porque nossa justiça, assim como a da Argentina, é oblíqua e a lesbofobia também faz vítimas por aqui e elas, assim como Higui, seguem invisíveis para a maioria.

Edit posterior: Higui foi absolvida!


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“As cientistas” e o poder de descobrir que mulheres também mudam o mundo

Capa do livro “As cientistas — 50 mulheres que mudaram o mundo”. Adquira seu exemplar aqui.

Quando eu era criança, uma das coisas que eu gostava de fazer era passar horas e horas numa praça próxima da minha casa. Ali eu brincava na areia, no parquinho, jogava bola e observava insetos e plantas. Depois, o inseto observado era eternizado num papel com meus traços e ganhava um nome criado por mim, que era válido até eu descobrir a espécie dele ao consultar os livros de biologia do meu padrinho. Eu fazia isso por curiosidade e porque queria descobrir um animal ainda não encontrado. Adulta, por meio do livro “As cientistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky e traduzido por Sonia Augusto, descobri Maria Sibylla Merian, uma alemã que nasceu em 1647 e marcou a história da ciência com as descobertas que fez sobre insetos. Com a observação e a ilustração, ela documentou a metamorfose da borboleta e classificou diversas novas espécies dessas criaturas.

Entre as muitas profissões que pensei em seguir nessa época, as que se destacavam se relacionavam com minha curiosidade sobre fósseis e rochas. Eu tinha no quarto uma pequena réplica de um esqueleto de Tiranossauro Rex e, como brincadeira, adorava procurar e colecionar pedras diversas. Sabendo que sou de Minas Gerais, muitos podem se enganar e achar que o meu gosto por pedras e escavações se relacionava com ouro, diamante e esmeralda, mas a fonte disso tudo era meu amor por dinossauros, o fóssil Luzia ter sido encontrado relativamente perto da minha cidade, um documentário que vi sobre vulcões e uma visita às Grutas de Maquiné e Rei do Mato. Adulta, mais uma vez com o livro “As cientistas”, conheci a história de Mary Anning, uma inglesa nascida em 1799, que colecionava fósseis e foi uma paleontóloga. Ela descobriu os primeiros esqueletos de ictiossauros e de plesiossauros e seu trabalho foi importante para ajudar a provar que a extinção acontece.

Durante a leitura do livro de Rachel Ignotofsky, eu lembrei muito da minha infância e a cada nome e história que eu descobria, eu pensava em como saber disso antes poderia ter me feito bem. Apesar de ter inúmeras anedotas para contar que se relacionam de alguma forma com ciência, em algum momento da minha história, eu aprendi que esse espaço — e muitos outros — não era pra mim. Eu conhecia Einstein, Pitágoras, Tales e Galileu, ouvia falar dos navegadores com nomes masculinos e dos tantos presidentes homens da história e, sendo mulher, um dia tudo isso começou a soar como se eu fosse uma intrusa num mundo de homens. Se eu tivesse em minhas mãos essa obra há vinte anos atrás, talvez eu fosse uma cientista hoje ou apenas confiaria um pouco mais no meu taco.

Escrevo e pesquiso sobre mulheres notáveis há algum tempo. Faço isso por considerar essencial que mulheres conheçam a sua história e que homens aprendam a reconhecer meninas e mulheres como tão capazes quanto eles. “As cientistas” tira a cortina da invisibilidade de diversos nomes de mulheres que fizeram ciência e prova, para aqueles que ainda duvidam da capacidade feminina de descobrir, pesquisar e estudar, que somos inteligentes e curiosas.

Nomes conhecidos como Marie Curie, Ada Lovelace e Hipátia dividem espaço com Mae Jemison, Katia Krafft, Sau Lan Wu, Annie Easley e outras. Além das mini biografias, têm glossário, linha do tempo e dicas de fontes para quem quer pesquisar sobre. Quem gosta de saber mais sobre história das mulheres ou sobre descobertas científicas vai adorar ler esse livro e apreciar a linguagem didática, as fofas e coloridas ilustrações de Rachel e a linda edição que a editora Blucher preparou.


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O Mineirão é nosso: o dia que a festa foi das mulheres

Eu, minha blusinha e o Mineirão de fundo.

Era agosto, o Brasil era sede dos jogos olímpicos e eu estava a caminho de um Mineirão que receberia nesse dia o maior público do ano até a data. Na véspera, gastei alguns minutos com uma caneta para tecido escrevendo “Marta, Cristiane, Formiga & Beatriz” em uma blusa branca.

A seleção feminina de futebol estava fazendo uma belíssima campanha: dois bons jogos que garantiram a vaga nas quartas e um jogo mediano em que as principais jogadoras foram poupadas. O estádio estava cheio, bem colorido, encontrei uma moça que carregava uma faixa que divulgava o time em que jogava, minha camisa foi elogiada e conseguimos um lugar bem perto do campo.

Cheguei cedo e pude assistir o aquecimento das jogadoras e observar a arquibancada. Ela ainda estava se enchendo e, diferente dos outros jogos que já tinha ido, era predominantemente feminina. Marta, Cristiane, Formiga, Bárbara e Beatriz em campo fizeram muitas mulheres perceberem que o estádio, num todo, também era espaço para elas e mexeram com o ego de muitos homens que ainda insistem que futebol feminino é ruim de assistir. A modalidade feminina ainda é considerada chata, previsível e sem grandes emoções, mas o jogo Brasil x Austrália, e tudo que seguiu após esse dia, mostrou que não é bem assim. O mesmo time que perdeu do Brasil por 5 x 1, venceu a seleção brasileira nos pênaltis na semifinal, mostrando que o futebol feminino, assim como masculino, tem sua dose de imprevisibilidade e de estratégia.

O jogo foi marcado pela tensão. Passei a partida sentindo falta da Cristiane nas finalizações, já que o gol não queria sair. Formiga, como sempre, parecia estar em todos os cantos do campo. Marta, mesmo muito marcada, buscava oportunidade. Bárbara estava a postos. O Mineirão estava gelado, mas o público seguia gritando Marta, Bárbara e Formiga. O frio apertava, enquanto o tempo da prorrogação acabava e a decisão ia para os pênaltis.

Foi a primeira vez que vi disputa por pênaltis ao vivo. A ansiedade — e o frio — só aumentava e eu não aguentei ver as cobranças do meu lugar, me levantei e fui para perto da saída. Vi tudo dali, ou melhor, senti, já que fechei os olhos algumas vezes durante as cobranças. Bárbara nos salvou e foi eleita Santa por aqueles que são fãs de futebol e alcunhas cristãs, o que não é meu caso. O Mineirão virou festa.

A tensão e alegria se misturaram e seguiram comigo até chegar em Divinópolis, minha cidade natal. Elas foram minhas companheiras de estrada durante todo o percurso e encheram minha boca de palavras e “causos” sobre o primeiro jogo de futebol feminino que vi no estádio. Quando cheguei, o sono não foi tranquilo, porque as narrativas dentro de mim estavam ansiosas para serem contadas.

Nesse dia, eu fui uma mulher de vinte e muitos anos e também a criança que sempre sonhou em prestigiar atletas olímpicos e jogava bola todo dia após a aula. Nesse dia, eu vivi um jogo inesquecível nas arquibancadas.

Encontrei no Museu do Futebol a camisa que a Bárbara usou no famigerado jogo Brasil x Austrália.

Leia também: Museu do Futebol: o meu e o do Pacaembu

Esse texto faz parte da campanha #MulheresNoFutebol, organizada por mim e pela Francine Malessa. Saiba mais aqui.

Vadiagem qualificada

Imagem da Greve de Mulheres islandesas de 1975 feita por Olafur K. Magnusson.

aos vagabundos da história
agradeço
meus direitos
de origem resistente

muito além de artigos e leis
eles vivem
em forma de livros
ou correm no sangue
daqueles que sonham bonito

são os vagabundos
que param
as forças
de um governo fracassado

são as vagabundas
que puxam o grito
daqueles que peitam
o que é dito
da luta
substantivo feminino

pneu queimado,
pelas mãos suadas
de uma baiana arretada
incendeia de coragem
o peito daquele que grita
por sobrevivência
digna

Ouça:
é com a rua que se negocia
seja cheia
ou vazia
obstruída
quem para tudo
são as vagabundas
decididas


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As histórias debaixo do tapete

Arte de Aleksandra Waliszewska

Muito mais doloridas que as histórias de gaveta, as histórias que vivem debaixo dos tapetes sufocam umas às outras, amontoadas em suas dores próprias, sem mesmo perceber que, no meio de tanta poeira, tem um mundo de semelhantes caladas encasteladas em suas solidões.

Debaixo do tapete, as histórias não sabem umas das outras. Elas narram seus acontecimentos num murmúrio que encontra com outros e, no fim, todo esses cochichos ecoam como um canto único e triste. Elas vivem solitárias, vagando num labirinto escuro, confuso e aparentemente infinito, como nossas mentes.

Quando uma narrativa, por acaso, escapa, encontrando uma fresta de som, luz e palavra, ela descobre que saiu de um tapete espesso que é capaz de abafar aquela música triste que toca o tempo todo. Estando fora dali, todos a encaram, enquanto ignoram e pisam naquele volume enorme e disforme que se movimenta debaixo do tapete que antes era sua moradia.

A primeira palavra que ela pronuncia de sua história vem como um grito, vem forte, e ela continua falando, falando e falando. Então ela ouve sussurros, percebe que apontam para ela, riem dela, duvidam dela e a acusam. Ela começa a perder a voz, quase emudece, até que lembra que ela foi atraída por essa fresta porque ouviu um relato visceral contado na voz de uma mulher e veio atrás por perceber que quem narrava ficou sem fôlego, sem coragem e deixou a história pela metade.

A história procura a outra história e a encontra caída, sem energia ou força alguma, quase desaparecendo em lágrimas. A história dá a mão para a outra, ambas se levantam e notam a força que têm juntas. Agora potentes, narram si mesmas, falam o que têm que falar, enquanto circulam em volta do tapete levantando sua borda e vendo surgir mais vozes.

Juntas, numa catarse, elas se descobrem um exército armado de palavras.

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Assunto: Um cotidiano transformador

Para: lisatsilveira@empresaficticia.com.br e outros 57 contatos.

Poltrona bonita by namedesignstudio on Etsy

Tudo começou há uns dois meses atrás, cheguei em um restaurante sozinha e tentei chamar o garçom várias vezes sem sucesso.

Eu olhava para o garçom, que me ignorava, e tinha certeza que se surgisse moscas, ele daria atenção para elas e não para mim. Sabia, inclusive, que se ele notasse um pernilongo, ele mataria para só depois conferir se era ou não um aedes aegypti. Ali, eu era mais invisível que um inseto.

Meu namorado chegou e o garçom veio todo solícito. Só registrou meus pedidos quando o meu parceiro os repetiu. Fiquei visível por um único momento: quando a Coca Zero do meu namorado chegou. O garçom a colocou na minha frente e eu pensei “Ele já não me vê e quer que eu diminua ainda mais?”. No fim desse dia, minha mobilidade estava prejudicada. Eu senti meus ossos mais duros, menos flexíveis, menos móveis. Minha bunda estava quadrada quase no formato da cadeira em que passei o jantar sentada.

Depois, durante uma happy hour com o pessoal do trabalho, essa sensação se repetiu de forma ainda mais intensa. Sentei na mesa com Marcos e Guilherme para ver um jogo do Atlético na TV e, toda vez que eu fazia algum comentário, eu me sentia invisível como eu estive para o garçom. Durante o intervalo do jogo, eles conversavam entre eles sobre o primeiro tempo como se eu não estivesse ali falando. Em algum momento dessa noite, olhei de relance para meu reflexo no vidro e me vi transformada numa cadeira de bar.

Hoje aconteceu de novo. Eu estava numa reunião do trabalho apresentando alguns relatórios, análises e ideias. Todo mundo olhou para mim e me ouviu até que eu sentei na mesa. Quando terminei, Guilherme se levantou e apresentou seus dados. Quando Michele foi fazer o mesmo, meu chefe não percebeu a presença dela e seguiu a reunião discutindo os pontos levantados pelos funcionários anteriores. Incomodada e sem graça, ela se sentou novamente, coisa que só eu pareço ter visto.

A reunião seguiu e meu chefe começou a falar dos meus relatórios, análises e ideias como se fossem conclusões do grupo e não minhas. Quando fui me manifestar sobre, notei que tinha perdido a voz.

Eu gritei sem sair som, gesticulei e quando fui me levantar, percebi que minha bunda e minhas pernas agora eram feitas de um estofado macio. Desesperada, olhei para Michele e ela tinha se tornado uma linda poltrona estampada.

A reunião acabou e todos saíram sem perceber nossa ausência.

Ainda tenho cabeça, braços e mãos e consigo escrever esses estranhos acontecimentos em meu computador. Mas me pergunto até quando, já que mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar sentando em cima de mim como acabaram de fazer com a Michele.

Logo, meu nome deixará de constar nos documentos de recursos humanos da empresa e uma poltrona elegante assinada por Carla Silva Cunha e José Costa Madeira, meus pais, será incluída no ativo não circulante da firma.

Quando eu terminar de virar poltrona, eu serei azul marinho com poás pequenos e brancos. Estou na Av. Afonso Pena, no prédio 1208, 3º andar, sala 12. Acredito que voltarei ao meu formato humano se alguém falar meu nome ao me ver poltrona.

Me ver é essencial para que eu volte a ser gente. Me ajudem.

Atenciosamente,

Marília Cunha Madeira.

mariliacmadeira@setorempresarialficticio.com.br

PS: isso não é uma pegadinha.

Enviado às 16:32, 12 de abril de 2017.


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