O Diário de Nisha: a Partição pelos olhos de uma menina

Além das notícias, muitas vezes bem superficiais, pouco conhecemos sobre as relações conflituosas entre Índia, Paquistão e a região de Caxemira. Ainda que essa animosidade entre povos, territórios e países possa colocar a vida de muitas pessoas em risco até hoje, as informações que chegam até a maioria de nós são insuficientes até mesmo para desenvolver empatia por qualquer das partes envolvidas. Tudo que acontece nessa região parece longe demais da gente. Embora nossa sociedade consiga se sensibilizar por tragédias e histórias tão distantes quanto, mas protagonizadas por outros personagens, esses geralmente europeus ou seus descendentes.

A verdade é que para sentir essa proximidade é preciso saber mais sobre o que se passa, de verdade, no cenário dessas histórias que, narradas de maneira tão distante pela mídia tradicional, parecem ser ficcionais de um jeito ruim. Falta, na maioria das vezes, conhecer o contexto e um pouco mais sobre os personagens. E, para isso acontecer, se faz necessário voltar ao passado e analisar os acontecimentos que influenciaram nos problemas atuais. Nesse caso, saber um pouco mais sobre a Partição se torna essencial, porque esse momento afetou e muito a história e o presente do sul da Ásia e tem relação direta com as consequências de anos de colonização inglesa.

A região onde se localiza hoje a Índia, o Paquistão e Bangladesh era uma só e passou 200 anos sob o domínio britânico, apesar das revoltas da população. A Partição aconteceu em 1947, após o fim da colonização, quando a Índia, maioria hindu, e o Paquistão, maioria muçulmana, se separaram e deram origem a dois países, a uma onda de violência e a um dos principais episódios de migração em massa da história mundial.

Estudiosos consideram que a interferência dos ingleses nas comunidades durante o processo de colonização e de descolonização desequilibrou a convivência entre os grupos que compunham aquele território, o que afetou como a população se via e percebia uns aos outros. Esse processo, junto com outras questões como as reações de lideranças, catalisou a animosidade entre hindus e muçulmanos durante o processo de criação dos dois estados soberanos em questão e deu origem a esse marco histórico carregado de dor, trauma e sangue.

Essas novas fronteiras, que agora já possuem mais de 70 anos de existência, ainda latejam. A Partição e o que aconteceu para e a partir dela afetou histórias individuais, familiares e de comunidades inteiras e isso reverbera desde então.

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“O Diário de Nisha”, obra de Veera Hiranandan, traduzida para o português por Débora Isidoro, é tão importante, ainda que seja uma obra de ficção, por contar uma história de uma família nesse contexto e possibilitar que os leitores das mais diversas idades entendam melhor esse momento histórico e as consequências dele na vida das pessoas.

Veera, que cresceu nos EUA, mas possui raízes em outras culturas, se inspirou na história da família de seu pai para escrever. Ele, com apenas nove anos, saiu de Mirpur Khas e foi para Jodhpur junto com seus familiares durante a Partição, assim como a protagonista do livro. A infância tímida e observadora e o fato de Veera ser filha de pai hindu e mãe judia, enquanto Nisha tem como pai um homem hindu e uma mãe muçulmana, são outras semelhanças entre personagem e autora.

O livro é narrado de forma epistolar por uma menina de 12 anos. As cartas que ela escreve no diário que ganhou de um empregado de sua família, que é muçulmano como sua mãe, são destinadas a ela. A mãe de Nisha, entretanto, não está viva. Ela faleceu faz tempo e as cartas que contam tanto sobre a Índia e o Paquistão são, principalmente, um meio que a personagem encontrou para se expressar e lidar com essa ausência.

Durante a trama, vemos as consequências dessa divisão de territórios e povos se infiltrarem na realidade de uma família e, nós, como leitores, acompanhamos cada momento com o coração apertado e conhecemos, pelo diário da protagonista e imaginação da autora, algo que vai muito além do conteúdo jornalístico, histórico ou mesmo enciclopédico sobre esse episódio.

A narrativa, além de um diário de uma pré-adolescente e um relato de um conflito, é também sobre a condição humana. Nisha não só passa por uma viagem migratória forçada e perigosa, ela lida com quem ela é e descobre mais sobre si, suas relações e vive um embate entre passado, representado pela mãe e suas raízes muçulmanas, e futuro, que é totalmente incerto, especialmente diante da Partição.

Nesse sentido, a culinária se transforma para a menina, tão calada e tímida, em um meio de refúgio, comunicação, conexão e manifestação de afeto. Aquela comida tão colorida, temperada e com raízes, aparentemente diversas, se transforma na voz dela perante as pessoas que a cercam. Os vários pratos que ela come e prepara nos dá meios para que imaginemos melhor o mundo que cerca Nisha e o que ela quer manter junto dela. Assim vemos chapatis, parathas, biryanis, rasmalais, sai bhajis e muitas outras iguarias comuns da região se tornarem uma espécie de novo lar e algo que representa as ligações daquela família.

Vale ressaltar que Amil, irmão da protagonista, é quase um oposto dela e ainda assim um de seus maiores companheiros. Ele não é quieto, fala bastante, não presta atenção nas aulas e prefere desenhar, enquanto ela, por outro lado, é estudiosa e fala pouquíssimo. Nisha admira seu irmão por ser quem é, ao menos na maior parte do tempo, e defende seus talentos. Amil sofre com as expectativas do pai médico, que a gente imediatamente pensa que se dá daquela forma por questões de gênero. Nesse sentido, acaba impossível não imaginar como seria a vida de Nisha se ela fosse como Amil.

“O Diário de Nisha” conta uma história que se passa sete décadas atrás, mas que contém valiosas lições para o mundo contemporâneo. Nós precisamos olhar para as migrações forçadas, para os refugiados um a um, pensar em Direitos Humanos, promover a dignidade da pessoa humana e também investigar, para evitar que aconteçam ou remediar seus efeitos, as origens desses deslocamentos, que hoje se manifestam, inclusive, por questões relacionadas ao colapso climático.


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Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

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Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

Bacurau: comunidade, rituais de morte e resistência

Obs: o texto contém alguns spoilers.

Cena do filme

Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é sobre muita coisa, inclusive sobre a morte, seus rituais e o impacto disso numa comunidade fictícia localizada no oeste pernambucano. Já nos primeiros minutos do filme, nos deparamos com um caminhão pipa que carrega água potável destruindo caixões de madeira caídos na estrada, um corpo e um caminhão que carrega caixões tombado e cercado de pessoas pegando a carga. A morte ronda Bacurau. Ela está próxima. Esse é o aviso e ele funciona. Tudo aquilo que se relaciona com a morte e seus símbolos é encarado pela nossa sociedade como um mau presságio, ainda que morrer seja parte indissociável da vida, e está ali nas primeiras cenas.

Na cidade, a morte já se faz presente. Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), 94 anos, está sendo velada em casa, com parentes, amigos e conhecidos ao redor. A morte está próxima, é triste, mas é encarada ali como um momento de despedida, homenagem e reforço de laços afetivos. Diferente do corpo anônimo na estrada, que é visto de maneira distante e triste simplesmente. Ainda que ambos sejam colocados como algo inevitável que faz parte da vida.

O ritual de morte de dona Carmelita é, apesar de tudo, tranquilo. Tirando a interferência de Domingas (Sônia Braga), outra idosa, que parece sentir muito aquela partida. Talvez a idade da falecida contribua para isso. Afinal, a velhice avança e a proximidade com a morte passa a ser lembrada o tempo todo pelas próprias pessoas e também por quem próximo. Talvez a personagem, com sua sabedoria, já tivesse preparado o terreno para aquilo. O bolo que Carmelita faz antes de morrer e Teresa (Bárbara Colen), sua neta, come com a irmã após o velório parece dizer isso. Ela deixa afeto para quem ainda ia chegar e não poderia ter a chance de se despedir dela em vida.

Quase toda a cidade participa da celebração/ritual de morte, nos mostrando que a falecida é uma espécie de matriarca e referência. Tem música cantada em coro junto com o violeiro da cidade que lidera o canto, tem caminhada, tem enterro e lenços brancos sendo balançados. Ali, todos, por mais diferentes que sejam, parecem dividir a saudade que sabem que vão ter. O luto é compartilhado.

Cena do filme

Comunidades não emergem do nada, elas são construídas a partir de laços, trocas, tempo e até mesmo conflitos. Dona Carmelita, junto com o museu de Bacurau, representa a união a partir desse compartilhamento e a história do grupo que forma aquela cidade e que começa a ser apresentado para o espectador a partir do velório. Há algo que une todos ali, a história de uma pessoa ou de uma população, e é isso que faz Bacurau existir. Rituais de morte, principalmente quando são vividos e preparados de forma coletiva, costumam ser uma forma de preservação da memória de alguém, de um contexto, de uma família e até de um povo e isso importa tanto para quem fica porque é uma forma de dar continuidade ao que foi partilhado.

Os falecimentos, no filme até então, se apresentam como parte da vida cotidiana. Acidentes acontecem, velhos morrem, mas nos detalhes se percebe que viver ali é resistir a um destino específico fruto de um abandono e de uma época. O Estado não se apresenta como deve, aquelas pessoas estão desamparadas. Restaram a elas apenas o apoio uma das outras. A morte, nesse tempo que a gente só sabe que é depois de agora, está explícita na tevê. Há execuções públicas no Vale do Anhangabaú. De fato, ela ronda Bacurau e também o país.

Em Bacurau, se luta contra a morte todos os dias. Seja pela falta de água potável, de remédios, de vacinas ou de comida. A morte morrida, essa causada pela falta ou pela natureza mesmo, também pode ser política, mas a morte matada que surge posteriormente deixa evidente o quanto aquele povo é considerado invisível. Quem nasce em Bacurau é gente, mas parece que só quem mora lá sabe disso.

Quando Teresa, frente ao caixão da avó, diz que dona Carmelita é a segunda morta que viu no dia, há um estranhamento que surge talvez do quanto aquilo parece cotidiano e ao mesmo tempo fora do lugar. Teresa vê, numa alucinação, o caixão da avó transbordar em água. A morte, por mais cotidiana que seja, parece estar mais presente do que deveria mesmo quando a gente ainda não conhece o que há de vir. A água transborda ali, mas a gente não sabe o que isso significa ou se é para significar algo. Seria a morte e o sangue dos que vão embora? Seria um símbolo para a vida e o afeto que cercam aquele corpo? Seriam lágrimas de quem sabe o que vai vir? Seria a água da represa voltando a jorrar?

Quando os corpos mortos por tiros começam a surgir, o mau presságio é confirmado. Numa cena, Pacote/Acácio (Thomás Aquino) encontra os cadáveres de dois de seus amigos, coloca-os dentro no carro sentados, ainda ensaguentados e sujos e, durante o trajeto, explode de raiva numa conversa sem respostas. Aquela perda não era esperada. Ele entende que ela poderia ser evitada, sente culpa por ter pedido a eles para irem até aquele lugar em que foram executados e a raiva, parte indissociável do luto, é a resposta dele para aquela dor.

A cidade chora seus mortos, ainda que em choque e se preparando para se proteger. Antes do encontro da cidade com os assassinos, os rituais de morte do menino, dos homens e da família acontecem junto a uma outra espécie de ritual, o de preparo para uma batalha. Enquanto um buraco, que a gente ainda não sabe para que serve ,é cavado, tem capoeira, tem reza, tem desespero, busca pela prostituição e também conexão e contato. A proximidade com a morte é o que guia ambos os rituais e cada um reage à sua maneira.

Bacurau quer viver em paz, mas sabe reagir para proteger os seus e manter a comunidade viva. As vestes sujas de sangue dos corpos mortos de sua população se tornam bandeiras de luta. A escola, cravejada de balas e lotada de gente escondida debaixo de carteiras, também reage. O museu também é um centro de resistência ao ataque. As engrenagens da cidade, com toda sua gente, inclusive aqueles que um dia já rejeitaram aquele povo e aquele lugar, se movimentam para impedir o massacre de seu povo.

Museu é lugar de história de gente que já morreu faz tempo e representa o passado. Escola é lugar de gente que acabou de chegar no mundo, local onde o futuro se desenha. Nenhum deles está protegido de quem quer ver sangue, como sabemos ao ler as notícias do Rio de Janeiro ou dos EUA, mas no filme esses lugares, considerados tão vulneráveis e que costumam ser alvos de tentativas de controle e descaso, se tornam focos de resistência por serem espaços em que se celebram e preservam a coletividade e a memória. Nesse sentido, faltou, na minha opinião, maior participação feminina na violência e menos hiperssexualização. Apesar de algumas personagens femininas serem parte ativa da resistência, usarem armas e se posicionarem, os protagonistas da ação — e, na prática, até do filme — são homens, ainda que Lunga (Silvero Pereira) não se encaixe bem nesse lugar masculino e a comunidade, substantivo feminino, seja o centro da história. As mulheres, que são colocadas pela obra como importantes mantenedoras da comunidade viva, ficam em segundo plano nessa hora, como se a elas coubesse o papel de serem lideradas ou buscarem sempre as vias do diálogo. Vide Teresa, essa que é filmada como protagonista, mas que o roteiro não a valoriza o suficiente, e Domingas.

As mortes em Bacurau servem como um lembrete de que o Brasil foi construído e ainda o é a partir da violência, mas essa violência foi perpetuada, permitida, ainda que não às claras, e alimentada por quem representa o Estado. E, no caso do Nordeste, como bem expõe o filme, incrementada por sudestinos e sulistas que se consideram superiores a quem vive nessa parte do Brasil, enquanto são tratados como menos gente por quem eles consideram próximos e parecidos com eles. Esse passado — e o nosso presente — repleto de um tipo sangue específico derramado precisa ser considerado sob o risco de vermos a resistência de quem quer simplesmente se manter vivo ser encarada como a real face da violência. Os bárbaros não são os que atacados buscam lutar pela vida e pela sua dignidade, ainda que alguns defendam que histórias como essas sejam contadas assim.

Cena do filme

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Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


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Amora: amor, paixão e descoberta nas relações entre mulheres

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Quando falamos de histórias de amor, pensamos em príncipes e princesas, reis e rainhas, pais e mães, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Elizabeth e Mr. Darcy e vários outros casais, compostos por um homem e uma mulher, que protagonizam novelas, filmes, livros, peças de teatro, séries e até pinturas. Crescemos com essas referências de amor, paixão e relacionamento. Elas nos cercam desde muito jovens e, de alguma forma, nos ensinam sobre o mundo, nossa cultura e as relações e sentimentos humanos.

Nessa vasta lista de histórias de amor famosas, não há um casal composto somente por mulheres ou somente por homens. Não há nenhum relacionamento aberto, nenhum trisal, nada que fuja do casal homem e mulher “tradicional”. Mas há, em várias casos, ciúme doentio, controle obsessivo, um certo grau perseguição e insistências que, quando feitas por homens, são quase sempre colocadas como atos de romantismo. O que isso nos ensina sobre amor, paixão e relações humanas?

Com base nessas histórias que nos cercam, dá para gente pensar que homens têm tendência natural a trair e mulheres a se sacrificar e que o amor tem arranjos fixos e é uma exclusividade heterossexual e até branca. Afinal, quantos casais negros ou de brancos com negros vimos em filmes, novelas e livros? Muito poucos, não é mesmo? Só que amor não é isso, pelo menos não necessariamente, e o “natural” e o “comum” são construções culturais que influenciam como percebemos e vivemos o sentimento mais falado pela humanidade.

Em Amora, livro de contos escrito por Natalia Borges Polesso e premiado com o Jabuti, as histórias de amor contadas são várias, algumas também apresentam traições, términos e mágoas, outras são de descoberta, família, desafios, rotina e amor de uma vida toda. A ligação entre elas está no fato de todos os contos falarem sobre as relações amorosas entre mulheres ou na reação que essas relações causam ao redor das personagens ou nelas mesmas, ainda que não haja um relacionamento particular em destaque.

Os encontros, permanências e desencontros entre as personagens permitem que a autora discorra sobre a condição humana, lembrando a quem lê que a vida das mulheres que se relacionam com mulheres é comum como a dos heterossexuais que tanto vemos na literatura, no cinema e outras mídias. Com exceção, claro, das experiências específicas relacionadas à vivência da discriminação e preconceito, como o estupro corretivo, que é assunto de um único conto da obra.

A velhice, o medo de morrer, o cotidiano, os traumas de relacionamentos passados, os conflitos familiares, o cuidado, a dor da rejeição, a doença, o estranhamento, a insegurança, a descoberta, a vontade de fugir, o sexo e o amor perpassam pelos contos em diferentes formas, ritmos e estruturas, mostrando o quanto tudo isso e mais um pouco são questões comuns a todos nós, ao menos em algum nível.

Em “Vó, a senhora é lésbica?”, conto que foi tema de questão de Enem e de um curta-metragem, se une, numa mesma história, questões como a invisibilidade lésbica, idosas que se relacionam entre si, família, omissão e a descoberta, ainda cheia de receio, de uma personagem jovem sobre sua própria sexualidade. O amor e a paixão estão presentes, como também estariam numa história sobre relações heterossexuais, mas há questões que surgem na trama justamente porque apenas um formato específico de casal é encarado como correto em nossa sociedade.

A sexualidade lésbica ou bissexual é tratada de forma natural pela autora, que aborda algumas dificuldades específicas de quem vivencia o amor entre mulheres numa sociedade ainda tão preconceituosa, mas também conta histórias que não tratam necessariamente de lesbofobia.

Os relacionamentos abordados em Amora não são perfeitos. São humanos em tudo, inclusive nas falhas e nos prazeres, e às vezes reproduzem até certas lógicas problemáticas comuns ao padrão dos relacionamentos heterossexuais, como a de chamar outra mulher de vadia devido ao comportamento sexual que ela tem. Isso dá um ar muito verossímil e comum ao que é contado, mostrando o quão complexas são as relações humanas, independente da sexualidade dos envolvidos.

Durante a leitura, sentimos que todas aquelas narrações poderiam ser casos que chegam aos nossos ouvidos por uma das partes ativas da história e o poder desse livro está justamente nisso. Tudo ali parece próximo demais e é humano demais, apesar do mundo ainda insistir em excluir esses casais. Nessa obra, a heterossexualidade não é a dona do amor, da paixão e dos relacionamentos amorosos. Ela está em segundo plano. O que foge totalmente do que vemos cotidianamente quando falamos sobre isso. Diante desse contexto, a literatura de Amora também serve como uma ferramenta dialógica e de enfrentamento.


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Meu museu de papel

Em algum momento entre 24 de abril e 2 de setembro de 2007, eu estive com a escola no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Essa foi a primeira vez que visitei a cidade e um dos meus contatos mais esperados com a literatura, a palavra e a memória.

Lá eu ganhei uma caderneta que tem estampada uma foto da Clarice Lispector e, por incrível que pareça, eu ainda a uso. Mexer nela é muito estranho. É transitar por diversas épocas da minha vida. O passado distante, mas também aquele mais próximo, convergem no hoje, no agora.

Tem anotação de pontuações de jogos de baralho, protocolos, rascunho de trabalho de geografia, brainstorm para texto do Ativismo de Sofá, poemas que me contam sobre sofrimentos que nem lembro, lista de possíveis temas para meu TCC em Direito, trechos aleatórios de livros do Guimarães Rosa e até as anotações da palestra que dei dia 03/08 desse ano e do livro que li ontem.

É um caos, mas é um caos tão meu que é até bonito, principalmente porque toda vez que olho a capa desse caderno, eu me lembro dessa época em que eu descobria Clarice, Leminski, Caio Fernando, Carolina Maria de Jesus, Graciliano Ramos, Machado e o livro “26 poetas hoje”. Visitar esses papéis, enquanto eu escrevo o agora na folha da frente, é passear no museu particular de descobertas que me tornaram quem eu sou.


Nessa mesmíssima época, eu também descobria Fernanda Young, mas isso eu só me lembrei alguns dias depois de escrever esse texto, quando saiu nos jornais a notícia triste do falecimento da escritora. Fiz uma breve homenagem a ela e ao que ela me ensinou com sua obra em um texto que postei em minha página no Facebook na data. Confira aqui.


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“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

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Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


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“Olhos d’água”: histórias de sangue, dor, afeto e esperança

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É possível ver histórias em tudo: nos nascimentos, nas mortes, nas relações que vivemos, no cotidiano, na memória e até nos pensamentos, situações embaraçosas e objetos que nos circundam.

Somos contadores de história, querendo ou não, mesmo quando os relatos que saem de nós tratam sobre nossas próprias vidas e jamais se tornem um texto escrito. Narramos e justamente por isso gostamos tanto de ouvir e ler outras narrações. Narramos como um forma de nos colocar no mundo. Narramos porque precisamos. Conceição Evaristo sabe muito bem disso e por isso cunhou o termo escrevivência para definir a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, das experiências de vida e da cultura de seu povo, o negro. A narração, que é parte inegável da vida humana, ganha contornos políticos quando é feita para visibilizar histórias próximas que seguem ignoradas e se torna uma ferramenta poderosa de voz, preservação de memória, denúncia e humanização.

“Olhos d´água” reúne quinze histórias curtas de dor, sangue, vida, família, amor e morte. Nesse livro, a autora narra a fome, a miséria, a violência, o genocídio do povo negro e dá voz às mulheres negras e suas vivências. Sem esquecer de também mostrar os laços afetivos dos personagens, seus conflitos internos, reflexões e ancestralidade. Os contos escancaram o mundo de exclusão que muitos vivem e outros tantos se negam a ver e humaniza quem a sociedade a todo custo quer desumanizar com personagens humanos que sentem “dor-amor”, “coragem-desespero” e outros tantos sentimentos, entre eles, a esperança.

Conceição Evaristo narra acontecimentos brutais que poderiam ser realidade, mas não de um jeito jornalístico ou sensacionalista. A escrita da autora, muito poética, não explora os corpos vivos, mortos ou marcados para morrer de uma forma impessoal. Ela dá subjetividade, história e relações ao que é tratado comumente como estatística e faz com que aquilo soe como algo próximo ao leitor. Ao não explorar esses casos como meras manchetes, a escritora intensifica o incômodo e faz com que ele dure além do tempo de leitura do conto. Ela evidencia o que é brutal e as consequência da naturalização disso sem tornar seus personagens objetos. O conto “Maria”, “Ana Davenga” e o “Ei, Ardoca” são bons exemplos disso, porque nos apresentam histórias que facilmente estariam no jornal sendo contadas de uma outra forma.

Quando a autora usa palavras como mar-amor, flor-criança e viver-morrer, as contradições entre brutalidade e afeto ficam evidentes. Essa hifenização une muitas vezes antônimos, o que ajuda a compor a oposição entre o estilo de escrita da autora com o que é narrado, nos faz pensar no contraste entre essas histórias com as da elite branca e, principalmente, expõe como a vida é repleta de contradições.

Essa leveza do estilo de escrita, muito marcada pela oralidade, se contrapõe até mesmo com a linguagem dos personagens. Em “A gente combinamos de não morrer”, Bica conta que escreve desde sempre e relata um episódio que aconteceu com ela na escola quando tinha sete ou oito anos. Durante um exercício de separação de sílabas, ela pediu para ir ao quadro negro mostrar as palavras que tinha formado: pó, zoeira, maconha, craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde. O que a personagem escreve é uma amostra do mundo que a circunda e que Conceição expõe. Entre as tantas frases bonitas, bem feitas, cheias de sonoridade, há também a denúncia de qual é a linguagem que cerca as crianças negras que protagonizam essas histórias.

A sexualidade se faz presente na vida da maioria dos personagens criados pela escritora e nem todos são heterossexuais. Em “Luamanda”, a mulher que dá nome ao conto deseja e vive seu desejo sem se limitar, inclusive, a se relacionar somente com homens. Ela, ainda que já esteja um pouco mais velha, segue gostando de sexo e buscando viver histórias de amor. Já em “Beijo na face”, uma mulher vive uma história de amor secreta com outra mulher, enquanto está presa a um casamento infeliz e abusivo. Ainda que muitas personagens sofram violência misógina e não tenham acesso ao que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, elas ainda assim tentam se colocar como donas de suas próprias histórias.

O conto que dá nome ao livro e o inicia é movido pelas recordações de uma personagem que busca se lembrar da cor dos olhos da mãe que está distante. É delicado, poético e afetuoso, apesar das memórias narradas denunciarem as dificuldades passadas por essa família. Essa é uma das muitas histórias desse livro que trata sobre maternidade e ancestralidade. Iniciar com ela não é um mero acaso e a gente percebe bem isso quando chega ao fim da obra e se depara com o conto Ayoluwa.

É simbólico que o último conto seja sobre fazer brotar a força da esperança e que isso aconteça numa comunidade que ampara uma mulher em sua maternidade. Embora no caminho até essa história, a gente encontre a esperança surgindo, como acontece no “Beijo na face” e no “Quantos filhos Natalina teve?”, a violência, a exploração do trabalho, o abandono e a morte, principalmente dos homens, é o que se destaca.

Conceição Evaristo escreve sobre sobrevivência e sobre cotidiano, mas não sobre o cotidiano que é contato nas novelas e sim aquele que estampa de forma sensacionalista os jornais feitos de sangue. A autora, por meio da construção de personagens tão eles, tão gente, coloca essas histórias antes tão marginalizadas no centro do debate sem se amparar no senso comum racista e machista que vigora quando essas narrativas partem da visão dos brancos da elite. Com esse livro, a autora mineira transforma uma realidade marginalizada em literatura e denuncia as consequências da exclusão e da discriminação sem deixar morrer a esperança de que um dia isso seja diferente.

Se eu tivesse que definir esse livro numa frase, eu diria que ele é sobre a esperança de estancar o sangramento que o racismo causa.


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O corpo dela e outras farras: a misoginia em evidência

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Carmen Maria Machado, em seu livro “O corpo dela e outras farras”, usa a linguagem, a quebra de fronteiras entre gêneros literários e a potência política de se abordar o corpo feminino em oito contos narrados por elas. Ao menos na edição brasileira feita pela Planeta, na página que antecede cada um deles, há a imagem de um corpo feminino marcado em segmentos como se fosse carne de açougue, deixando claro que o fio condutor entre as narrativas parte do tratamento que mulheres recebem pelo mundo a partir disso.

Por mais diferentes que as histórias sejam umas das outras, todas elas abordam o lado sombrio de ser mulher. A violência que permeia a existência feminina aparece, ainda que camuflada num cotidiano de naturalizações que implicam sempre em mais do que se vê num primeiro momento, como em “Ponto do Marido”, “Mulheres de Verdade Têm Corpos” e “Oito bocados”.

As dores e dilemas se fazem presentes, mas Carmen Maria Machado não trata o corpo somente dessa forma. Suas personagens gostam de sexo, sentem tesão e a maioria se atrai ou se relaciona com outras mulheres, o que é tratado com naturalidade pela obra. Essa abordagem, entretanto, não é usada para evitar tratar de como certos terrores femininos se relacionam também com o exercício da sexualidade e a vulnerabilidade que ela pode significar.

A inadequação e o sentimento de não pertencer também são temas retratados nos contos, ganhando destaque principalmente em “A residente” e “Oito bocados”. Nos demais, isso se apresenta de forma mais sutil, como uma maneira de expor que quando se é uma mulher e se vive sabendo que seu corpo é um alvo de controle é quase impossível se sentir inteiramente parte do mundo ou dona de si.

Chama atenção como a autora mistura maneiras de contar histórias e ainda assim o livro tenha tanta unidade. Há distopias, como em o “Inventário”. Há terror, gênero que se manifesta de certa forma em todas as histórias. Há uma quebra no realismo, que acontece principalmente em “Especialmente hediondas” e “Mulheres de verdade têm corpos”. Há mudanças de ritmo, como a adição do recuso da não linearidade, que dá ao que é narrado um ar quase delirante em “Mães” e até mesmo um toque de tom folclórico ou de fábula como no conto “O ponto do Marido”.

“O corpo dela e outras farras” é chamado por muitos de “black mirror” feminista por abordar temáticas sociais de grande importância de uma forma moderna, ousada e que nos faz pensar sobre presente e futuro. O grande trunfo de Carmen é, provavelmente, conseguir abordar questões políticas e delicadas sem cair no erro de explicar demais os significados daquilo, enquanto mexe com as fronteiras entre realismo, fantasia e horror. A autora não tem medo de tratar de temas relacionados com opressões e faz isso muito bem.


Carmen Maria Machado participará da 17ª edição da Flip nesse sábado, dia 13 de julho, às 17h, num bate-papo com Jarid Arraes, no Auditório da Matriz. Também em Paraty e na mesma data, mas às 20 hs, vai rolar outra mesa com ela na Casa Libre & Sta. Rita de Cássia.

Na terça, dia 16/07, às 19:30, vai acontecer, dessa vez em São Paulo no Sesc da Avenida Paulista, uma outra conversa que contará com a presença da autora.


Tradutor do livro: Gabriel Oliva Brum.


Observação: As histórias que compõem o livro atraíram os olhares do mundo do entretenimento e ele será adaptado para TV pelo canal FX. O projeto ainda é bem inicial, mas promete.


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“Maternidade”: uma investigação sobre a pressão de se ter filhos quando se é uma mulher

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Tenho o hábito de postar imagens dos livros que estou lendo no stories do Instagram. Não sei se faço isso porque as redes sociais funcionam como uma vitrine e eu quero, talvez inconscientemente, vender uma imagem leitora para quem me segue ou porque acho que pode aparecer alguém lendo ou querendo ler a mesma coisa que eu e essa coincidência me permitir trocar impressões, quotes ou até mesmo ideias para uma possível resenha. Provavelmente as duas hipóteses são válidas, já que não são excludentes e eu bem sei que a lógica das redes sociais nos captura mesmo quando nos achamos espertos demais para isso.

As reações aos posts variam entre a visualização pura e simples e perguntas sobre o livro, nenhuma muito elaborada, mas sempre sobre a leitura em si ou sobre quem escreveu, mas quando publiquei a foto do “Maternidade” da Sheila Heti foi diferente. Mais de uma pessoa, ao ver a foto do livro, resolveu me perguntar se eu estava grávida com um certo tom de alegria.

Ninguém perguntou se eu pretendia matar alguém quando falei que estava lendo “Lady Killers” da Tori Telfer ou qual esporte eu praticava ou queria praticar quando me empolguei com livro “As esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky. Por que quando o título versa sobre maternidade e a leitora é uma mulher a reação óbvia é assumir uma gravidez desejada?

Sheila Heti, em um livro estruturado num formato de ficção introspectiva que faz certos trechos mais filosóficos ficarem com cara de ensaio, responde essa pergunta — e muitas outras — quando explora o universo da decisão feminina de ter ou não ter um filho sem medo de abordar até mesmo as arestas que essa questão faz surgir nas relações entre amigas, namorados e parentes.

A obra explora como a sociedade vê as mulheres, sejam as mães ou não mães, enquanto narra um processo de descoberta e autoconhecimento de uma personagem que vive a pressão da proximidade do fim da fase reprodutiva e a dúvida sobre optar ou não pela maternidade enquanto ainda há tempo, conflito que às vezes parece ter sido implantado na cabeça dela pela sociedade que cobra tanto isso das mulheres.

Por que ainda encaramos como se houvesse apenas uma decisão certa? Por que quando uma mulher escolhe não ter filhos isso passa a ser visto por outras mulheres como um julgamento sobre a decisão delas de maternar e vice-versa? Por que a sociedade trata homens que escolhem não se tornar pais de uma forma tão mais tranquila? Quem é a mulher que decide não ser mãe? Qual o nome que ela recebe?

Todos esses questionamentos são levantados por Sheila Heti de alguma forma nesse livro e as respostas são trabalhadas a partir do que a personagem-narradora pensa, diz e investiga sobre essa decisão que expõe o tabu que ainda envolve a não maternidade feminina.

A construção narrativa dessa história-ensaio parte das consultas constantes que a narradora faz usando uma técnica derivada do I Ching, sendo a maioria das perguntas relacionadas com a decisão sobre ser ou não ser mãe que a assombra, mas não só. Ela pensa, examina assuntos e se questiona o tempo todo, usando muitas vezes os sins e nãos que recebe do acaso nesse jogo de moedas que guia seus pensamentos e às vezes até suas ações.

A introspecção nesse romance serve como uma ferramenta para o leitor entrar em contato com as ótimas reflexões da personagem. É pelos seus pensamentos que conhecemos essa mulher, marcada pela insegurança e melancolia, e nos deparamos com um texto que questiona comportamentos sociais que atingem toda a coletividade.

Existe a mãe e a não mãe, como diz o livro em um momento. Uma é marcada pelo que se tem, a outra pela falta de. Quando a narradora de “Maternidade” questiona se deve ou não ser mãe e, a partir de suas reflexões sobre isso e todo o resto, escreve, ela tenta entender quem ela é dentro dessa lógica de significados que não parecem ser capazes de capturar a essência humana das mulheres.

A narradora, em dado momento do livro, diz que não quer ser uma passagem de homens para o mundo quando pondera que, ao longo da história, bastava para os homens que as mulheres existissem para dar à luz a eles e criá-los, enquanto parece ainda buscar uma justificativa para qualquer escolha que faça. Ela parece sentir que precisa embasar, especialmente, a decisão de ser uma não mãe, por saber que essa escolha ainda é vista como um não lugar e uma espécie de identidade indesejada.

Sheila Heti se debruça nessa questão sem esquecer de citar o passado — e o presente — das mulheres que nunca puderão escolher, as raízes da narradora-personagem, a questão do aborto, o peso da maternidade e o possível impacto disso na vida da mulher que escreve e faz arte e, no fim, a obra acaba servindo também para refletirmos sobre o peso de se fazer qualquer escolha, especialmente essas que são marcadas pelo tempo e por expectativas criadas por toda uma vida inserida em um sistema que define o que mulheres e homens devem fazer.


Sheila Heti, autora do livro “Maternidade” é uma das convidadas da 17ª edição da Flip. No dia 11 de julho, às 17h, no auditório da Matriz, que fica na Praça da Igreja da Matriz (Paraty-RJ), ela participará da mesa “Bom conselho”, junto com Kristen Roupenian, a autora de “Cat person e outros contos”.


Tradutora da obra: Julia Debasse


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