Futebol, mulheres e esporte: o campo ainda é um espaço de batalha

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O futebol feminino não precisa passar por mudanças de tamanho de campo e gol para se tornar atrativo, como insinuam vários homens toda vez que o Brasil perde em uma grande competição como Copa do Mundo e Olimpíadas. Ele já é atrativo como é e essa Copa do Mundo na França deixou isso evidente.

Para melhorar a modalidade, especialmente no Brasil, precisa-se de investimento desde a base para que as meninas comecem a treinar e competir bem novas, como é padrão para os meninos. O problema é que, além da falta de interesse dos clubes, da CBF e afins, nossa sociedade ainda tende a desencorajar meninas a praticarem futebol.

As meninas que gostavam de jogar bola, ainda que sem intenção de competir, sabem o quanto todos ao redor tentam empurrá-las para o balé, para o jazz ou mesmo para o vôlei. “Muito bruto”, eles dizem e tentam criar nelas medo da bola, dos chutes, dos encontrões. Se isso não funciona e elas continuam, eles esperam que as meninas se cansem de pedir para os meninos permissão para jogar. Eles querem que, com as negativas de participação nas aulinhas de futebol do clube, no futebol de rua e nos jogos do intervalo da escola, elas percebam que não são bem-vindas. Felizmente, nem todas desistem, apesar dos esforços coletivos para isso. A verdade é que nem quando havia lei impedindo elas de jogarem bola, muitas não se deixaram intimidar. Os esportes ensinam a persistência como um caminho e esse aprendizado guiou as mulheres do futebol desde sempre.

Por meio do decreto-lei 3199/41, o futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos com a justificativa de que sua prática era incompatível com a natureza das mulheres. Além do futebol, o futsal, o futebol de areia, o polo, o polo aquático, lutas de qualquer natureza, o rugby, o beisebol e o halterofilismo também foram vedados para mulheres por esse documento legal. Isso impactou o desenvolvimento do esporte feminino no Brasil, apesar da resistência de grupos como o Araguari Atlético Clube e da primeira árbitra de futebol do mundo, Léa Campos.

A mentalidade de que o futebol e as demais modalidades citadas no decreto não são esportes adequados para mulheres ainda sobrevive culturalmente, apesar do documento em questão ter perdido sua validade em 1979. As meninas e mulheres que seguem jogando fazem isso por teimosia e paixão, sendo consideradas intrusas, sendo ofendidas com termos como “maria homem” e vivendo isso tudo sem apoio da família, dos professores ou dos colegas. A visibilidade dada aos últimos jogos da seleção feminina parece uma boa oportunidade para fazer esses caminhos de mudança se tornarem permanentes e mais efetivos, mas é necessário levar em conta que a questão das mulheres no futebol se entrelaça com a das mulheres nos esportes e, além de tudo que se relaciona com a modalidade em questão, é preciso entender que os esportes num todo não são incentivados para meninas, a não ser por motivos estéticos como emagrecimento ou crescimento, e traçar estratégias para transformar essa realidade.

As práticas esportivas nos ensinam muito sobre disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer, mas a falta de incentivo e muitas vezes de acesso afeta o desenvolvimento pessoal de meninas e mulheres, como escrevi no meu texto sobre o livro As Esportistas.

Nossa cultura machista cria obstáculos para mulheres praticarem esportes, especialmente esses colocados como “coisa de homem”. Mesmo meninas que, como eu, cresceram praticando acabam se afastando de esportes na adolescência porque entendem que esse espaço não é delas ou mesmo porque a divisão sexual do trabalho começou a atuar em seus cotidianos e agora há a obrigação de limpar, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos ou até filhos nas horas vagas.

As trajetórias amadoras das meninas e mulheres no esporte, especialmente no futebol e nas artes marciais, expõem o quanto essas restrições, sejam elas culturais ou mesmo legais, tem a intenção, ainda que inconsciente, de não permitir que mulheres descubram os limites, capacidades e características de seus corpos.

O corpo ativo, que ocupa espaços, testa limites e tudo mais não pode ser o que é considerado feminino. O corpo feminino é para parir, servir, enfeitar, ser passivo, segundo o machismo, e é por isso que o mundo dos esportes ainda é considerado deles, mesmo nas modalidades não consideradas masculinas.

Meninos e homens encaram o esporte como território próprio, inclusive de socialização, e assim as práticas esportivas se conectam facilmente com diversão. As praças, parques, clubes, quadras comunitárias e as ruas brasileiras são tomadas por meninos. Eles podem ocupar esse espaço. Podem e devem. Eles são os donos da bola. Não todos, claro. Meninos considerados afeminados ou gordos ou fãs das modalidades esportivas ‘erradas’, por exemplo, também se sentem fora do lugar, ficam deslocados e são excluídos, como as meninas que tentam participar desse espaço.

O controle dos nossos corpos, comportamentos e subjetividades se soma sempre para não permitir que meninas e mulheres descobram o que são capazes de fazer. Para que todos, inclusive meninos, possam descobrir suas potencialidades, a educação igualitária e o fim desses padrões de gênero tão castradores é necessária. Além de resolver as questões de acesso que envolvem desigualidade econômica, claro.

A discussão do futebol feminino, seu desenvolvimento e das mulheres no esporte perpassa pelo aprofundamento do debate sobre machismo e estereótipos do que é feminino e masculino. O esporte deve ser visto como um espaço para todos, independente do gênero, etnia, orientação sexual, tamanho, peso e corpo. Só assim para o acesso às quadras, campos e bolas deixaram de ser uma batalha.


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Longe de casa: narrativas de mulheres obrigadas a se deslocar

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Guerras, conflitos internos, violência generalizada, perseguição política, étnica ou religiosa e variadas violações de direitos humanos obrigam pessoas a abandonarem suas casas e comunidades todos os dias. A ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) afirma que nos últimos dez anos o número de deslocados cresceu em mais de 50% e que há mais de 70,8 milhões* de pessoas no mundo nessa situação, sendo quase 60% delas oriundas de somente três países: Sudão do Sul, Afeganistão e Síria, com um crescimento considerável de pedidos de asilo feitos por venezuelanos nos últimos anos.

Esses deslocamentos, que podem ser internos ou envolver outros países, são marcados pela necessidade de ir embora numa busca por um mínimo de segurança e dignidade. Não há muita escolha quando ficar envolve tanto risco e sair de casa, algumas vezes só com a roupa do corpo, é uma questão de sobrevivência.

Malala Yousafzai, a pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz, sabe muito bem disso. Em 2009, quando ainda era uma anônima, a ativista e sua família tiveram que abandonar temporariamente a casa onde viviam no Swat devido a uma ação do exército paquistanês para expulsar o Talibã daquelas áreas. Alguns anos mais tarde, no final de 2012, depois de Malala sofrer um atentado grave motivado pela sua luta pela educação feminina, a família passou a viver no Reino Unido para fugir das ameaças que não cessavam.

A vida dos Yousafzai, como a de muitos, foi marcada pelo deslocamento forçado e agora, com o livro “Longe de casa”, Malala compartilha com o mundo a saudade que sente de seu lar e nos apresenta oito histórias de jovens mulheres nessa situação.

A diversidade de nacionalidades e motivações das colaboradoras da obra enriquecem bastante o livro, porque ajudam o leitor a ter uma noção da dimensão do problema em si e a perceber o quanto certas partes do globo são muito mais vulneráveis do que outras.

A invisibilidade dos conflitos e realidades que motivam os deslocamentos com certeza colabora com a visão estereotipada de muitos sobre o que é ser refugiado ou mesmo imigrante e carrega em seu cerne uma negligência com o que aflige o Outro. Sabemos muito pouco sobre o que acontece no Sudão do Sul, Iêmen, Congo, Myanmar e outras localidades e países, por exemplo, e isso diz muito sobre como o mundo trata a vida de parcela da população mundial como irrelevantes.

A história de Ajida, uma myanmarense que junto com sua família abandonou sua comunidade com medo da violência que poderia atingi-la por ser rohingya e cruzou a fronteira para chegar em Bangladesh, não é só sobre refúgio, é, principalmente, sobre a fuga de uma população da ameaça de genocídio e isso não pode ser esquecido.

Esse depoimento pontua também a questão do deslocamento motivado por questões ambientais e climáticas quando Ajida conta que mesmo já em Bangladesh todos os assentados tiveram que ser transferidos para outro campo com a chegada das monções e o aumento do risco de inundações. Com o aquecimento global, deslocamentos com esse viés já são uma realidade e poderão se intensificar.

Além disso, os relatos nos fazem pensar também sobre os refugiados que não são vistos juridicamente como parte desse grupo apesar de terem se deslocado numa situação em que não se via muitas escolhas. Analisa, por exemplo, é uma jovem guatemalteca que chegou aos Estados Unidos de maneira ilegal. Ela cruzou a fronteira do México e correu todos os riscos que conhecemos como parte da jornada do imigrante. Sua trajetória, para muitos, pode ser encarada como algo que foge do refugiado comum e da abrangência legal do termo, mas seu depoimento faz parte do livro, o que torna tudo que é dito ali ainda mais político. Ainda mais em tempos de construção do Muro de Trump.

“Longe de casa” tem como trunfo abordar direitos humanos em primeira pessoa. Esse livro de Malala Yousafzai é um grito coletivo de muito significado político em um formato que facilmente cria pontes com quem não tem familiaridade com o tema. Seu único defeito talvez seja ter colocado o foco em mulheres deslocadas, mas não abordar com a atenção necessária a violência sexual que ameaça as que vivem essa experiência.

*Os dados apresentados no livro escrito por Malala apontam o número de 68,5 milhões de refugiados, mas as estatísticas mais recentes, que contam com a influência da crise humanitária na Venezuela e um aumento considerável de deslocados de Myanmar e Somália , dizem que já são 70,8 milhões de pessoas nessa situação de deslocamento forçado. A ONU alerta que esse número pode ser ainda maior na realidade.


Esse texto foi escrito e publicado no dia 20 de junho, Dia Mundial do Refugiado. Essa data foi criada com a finalidade de conscientizar o mundo sobre a situação desse grupo social. Saiba mais sobre esse tema e ações relacionadas a ele no site da ACNUR.


Tradutora da obra: Lígia Azevedo


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Cat Person e outras histórias: o lado sombrio das relações

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Kristen Roupenian é uma das autoras convidadas para a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Evento que acontecerá do dia 10 a 14 de julho desse ano. Seu nome foi o primeiro a ser anunciado na agenda do evento, mesmo ela sendo uma estreante no mundo dos livros.

Sua importância se deu porque a autora protagonizou um fenômeno da literatura contemporânea após sua história “Cat Person” se tornar viral ao ser publicada na revista “The New Yorker” no final de 2017. O conto de Kristen foi um dos mais acessados da biografia da publicação e moveu debates intermináveis na internet durante dias, despertando, inclusive, até mesmo haters. A partir dessa história, muito se comentou sobre liberdade, consentimento, objetificação e trocas virtuais. Temas que receberam um baita holofote nos últimos anos graças aos debates feministas, especialmente a partir dos primeiros passos do #MeToo, episódio que se iniciou semanas antes da publicação do conto.

“Cat person” é especial por expor, em um texto cheio de camadas, aspectos quase invisíveis das relações de poder entre homens e mulheres. Em poucas páginas, a autora nos faz refletir sobre o quanto a paquera, mesmo marcada pela modernidade das mensagens de texto e de uma certa liberdade sexual feminina, ainda reproduz expectativas a partir de estereótipos de gênero e dominação masculina. Ainda há obrigações que mulheres acreditam ter por terem gerado uma certa expectativa e direitos que homens acham que merecem.

Essa história chegou ao Brasil traduzida pela Ana Guadalupe em um livro, publicado pela Companhia das Letras, que reúne mais onze contos escritos pela Kristen Roupenian. Em comum, todos falam sobre poder e tratam sobre aspectos sombrios da humanidade. Suas histórias, no geral, carregam em seu cerne uma estranheza e, em alguns casos, mesmo quando envoltos de realismo, características que dialogam com filmes de suspense psicológico e até terror.

A obra e estilo de Kristen nos deixam desconcertados, especialmente quando ela escreve sobre consentimento, a arte do flerte e todos os estereótipos envolvidos nisso. “Cara legal”, “Seu safadinho”, “Não se machuque” e “Vontade de morrer” são bons exemplos de como ela explora esse tema de uma maneira que incomoda e choca por expor as problemáticas que se fazem presentes nos relacionamentos humanos.

“Look at your game, girl” é uma narrativa que também merece destaque e mexe, principalmente, com mulheres. Nesse texto, a autora mostra como a violência rodeia o feminino desde que somos muito jovens e explora o medo que toda essa dinâmica causa na gente, evidenciando como essas histórias marcam nossas identidades. Esse conto, analisado a partir do contexto de toda a obra, ainda nos faz pensar no quanto as relações de poder são moldadas também pelos acontecimentos que circundam nossas vidas. O medo que nos acompanha talvez seja parte essencial do desequilíbrio de poderes nas relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres.

“Cat Person e outros contos” tem como trunfo a maneira que Kristen Roupenian aborda as relações humanas, a complexidade de seus vínculos, seus perigos e o quanto o poder mexe com a humanidade, especialmente quando ninguém parece estar observando.


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Cultura do estupro: o que a reação das pessoas ao Caso Neymar diz sobre nossa sociedade?

Neymar vestindo a camisa 10 da seleção brasileira em campo

Desde que a acusação de estupro contra Neymar saiu na mídia, muito se discute sobre o comportamento da possível vítima. Esse é o modus operandi da cultura do estupro. Especialmente quando o acusado usa o comportamento sexual da mulher como um meio de tentar provar sua inocência.

Mesmo que o jogador seja inocente na acusação de estupro, sua tentativa de defesa pública partiu de estereótipos de gênero, misoginia e de noções bem erradas do que é consentimento. Além de tudo, houve a propagação de imagens íntimas da mulher em questão, o que por si só configura crime e também pode ser visto como uma tentativa de intimidação bem característica do fenômeno chamado de pornografia de vingança. Toda a exposição do caso e da possível vítima feita pelo Neymar, seu pai, Datena e outros evidencia o poder e influência que o atleta tem e como a sociedade legitima que ele o use contra essa mulher como uma maneira de silenciá-la.

A partir desse caso e a reação da sociedade ao que é dito, exposto ou suposto, mesmo sem qualquer veredicto sobre Neymar, temos a chance de debater sobre o que é estupro e combater esses pensamentos que fazem tanta gente considerar que a manifestação prévia de uma certa disponibilidade sexual é necessariamente um impeditivo para que tenha havido abuso e como essa visão colabora com a ideia de que certas mulheres são consideradas estupráveis e outras não.

Para entender tudo isso é preciso se perguntar sobre o porquê das defesas de crime de estupro, profissionais ou feitas pelo próprio acusado, sempre apelarem para essa abordagem em que o foco recai na vítima que é cobrada a se provar idônea o tempo todo.

O estupro é abordado historicamente, inclusive pelo Direito, pela ótica masculina e patriarcal que vê as mulheres como manipuladoras e traiçoeiras quando se trata de sexo, sedução e afins. A ideia de que o valor feminino estava ligado à virgindade alimentava ainda mais essa visão, porque esse seria um motivo que faria mulheres que “cederam à tentação do sexo” mentirem e a possível vida sexual fora do casamento um sinal de que a mulher em questão já seria impura, logo pouco confiável e propensa a fraude. Isso, somado ao fato de que o corpo feminino é considerado propriedade e direito dos homens, sedimentou a prática de colocar a vítima como foco em caso de violência sexual. Isso é tão forte que há quem defenda, ainda hoje, que não existe estupro dentro de casamentos usando o argumento de que esse contrato social e jurídico envolve necessariamente obrigação de sexo.

Quando se coloca uma possível vítima de estupro no centro de um tribunal público em que se discute, principalmente, o comportamento sexual dessa mulher que acusa, a mensagem que se passa é a de que mulheres ativas sexualmente são corpos disponíveis, logo impossíveis de serem estupradas.

É preciso reiterar que o fato de dizer sim uma vez não é sinônimo de um sim eterno ou que esse sim atinge todas as práticas sexuais possíveis. Sexo é algo que parte de interesse, respeito e combinados mútuos. Sua palavra-chave é consentimento e ele pode ser retirado a qualquer momento e ainda assim precisa ser respeitado. Topar transar não é topar fazer tudo que o outro quer. Topar sexo agora não impede a pessoa de mudar de ideia 10 minutos depois.

A noção deturpada de consentimento faz com que mulheres se sintam confusas sobre terem ou não sofrido violência, principalmente em casos de date rape e estupro marital. O imaginário social do que é estupro ainda é o da vítima pega de surpresa e com extrema violência em um beco escuro de noite, o que torna difícil o reconhecimento do crime de primeira por quem vive situações que envolvem paquera, interesse e envolvimento ou por quem não se vê no papel de vítima ideal por já ter transado ou querido transar com o agressor.

Estamos todos acostumados demais com a desumanização das mulheres, o que dificulta que a gente olhe para possíveis vítimas femininas de homens, especialmente aqueles poderosos e públicos envolvidos em casos de date rape, com empatia. As estranhezas que podemos enxergar em um relato podem ser sintomas de estresse pós-tramático ou parte de um processo de distanciamento e negação, por exemplo. Quando se trata sobre estupro, podemos, mesmo sem querer, nos amparar em noções distorcidas pelo machismo e misoginia do que se é ou não violência sexual e de quem pode ou não ser vítima dela.

Esse texto não é sobre condenar ou absolver o Neymar socialmente, é, principalmente, sobre como nossa sociedade encara a violência sexual e o corpo das mulheres. Mesmo que esse caso acabe se tornando um exemplo raríssimo de falsa acusação, a reação da sociedade perante o tribunal sexual montado pelo Neymar diz muito sobre o mundo que vivemos e o que é e como se manifesta a cultura do estupro.


Obs: Esse texto surgiu a partir de dois tweets que fiz para o Ativismo de Sofá e foi publicado, originalmente, em minha página pessoal no Facebook. Se você gostou dessa leitura, deixe suas palmas, faça um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Facebook e Twitter.

Elza Soares: a mulher símbolo do século XX

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Poucas biografias são capazes de abordar a história de toda uma época ao contar a vida do biografado, o livro sobre a vida de Elza Soares é uma dessas poucas exceções. Zeca Camargo, ao compartilhar as histórias da cantora com o leitor, indiretamente fala sobre nascer, viver e envelhecer como mulher e negra no Brasil do século XX.

Elza lidou com a pobreza, com a discriminação e com a violência destinada ao seu corpo por ele ser o de uma mulher. Sua carreira, marcada pelo enorme talento e pela vontade de cantar, foi construída apesar dos obstáculos criados pelo racismo, machismo e miséria. Sua história, mesmo sendo a de uma estrela, expõe a batalha pela sobrevivência de muitos brasileiros da época.

Apesar de sua voz única, ela nunca conseguiu simplesmente seguir o curso de sua fama como vários artistas brancos. A cantora precisou lutar para se manter em evidência, o que fez sua trajetória ser caracterizada pela presença de altos e baixos. Alguns bem baixos mesmo, como a própria reconhece e evita comentar com detalhes.

A música para a Mulher do Fim do Mundo foi inicialmente uma paixão proibida e também um meio de colocar comida na mesa e garantir a sobrevivência dos filhos. Viver de música sendo uma mulher era lidar com um estigma daqueles. No imaginário social, as artistas, por terem uma vida pública, não eram vistas como bons exemplos de mulheres direitas e a figura delas era ligada muitas vezes à prostituição. Seu pai, sua mãe e nem o seu marido aprovavam que Elza seguisse esse caminho. Ainda assim, ela seguiu. Mesmo que de forma pouco linear.

A primeira aparição de Elza no mundo da música é relacionada a esse dilema. Ela se inscreveu para participar do show de calouros do programa de rádio do Ary Barroso sonhando principalmente não com o início de uma carreira musical, mas com o prêmio em dinheiro que aliviaria por uns dias a busca pelo sustento de sua família. A atração pela música a guiava, como uma espécie de desejo secreto, mas sua prioridade era, acima de tudo, sobreviver.

Quando Ary Barroso, num tom de provocação, perguntou o que Elza tinha ido fazer ali e de onde ela tinha vindo, ela respondeu: “Do planeta fome”. As risadas que surgiram na sua entrada no palco foram substituídas pelo silêncio. Ela cantou, ganhou o prêmio da noite e ouviu de Ary que de sua apresentação nascia uma estrela. A frase que iniciou a carreira da cantora impacta ainda hoje — e também incomoda — por expor uma ferida da sociedade brasileira.

A violência masculina marcou presença na vida de Elza. Ela se casou aos treze anos com um um jovem que tentou estuprá-la. Seu casamento foi arranjado por seu pai que, em defesa da honra da filha, obrigou o agressor a se unir a ela. Sua vida a dois com esse homem foi extremamente infeliz e violenta. Além disso, anos mais tarde, a cantora também viveu um relacionamento abusivo com Garrincha. O biógrafo nos apresenta essas memórias com cuidado e expõe como essas práticas eram ainda mais naturalizadas na época, inclusive sobre os olhos da própria vítima e seus familiares, pondo o leitor em contato com a maneira que essas dores ainda afetam a dona dessa história. A sutileza dessa abordagem é interessante para mostrar como a biografada vê o que passou, mas peca ao não trabalhar diretamente a questão social envolvida nessa fase da vida dela.

Se debruçar sobre as memórias de Elza, narradas e comentadas por Zeca Camargo, é encarar o mundo real e entrar em contato com sofrimentos, desigualdades, miséria, intensidade, transformações, conquistas e amor pela música. Ela buscou sempre viver a partir do que ela acreditava ser certo para ela e se tornou um símbolo de uma época por isso.

Elza surgiu quando muitas gravadoras se recusavam a trabalhar com artistas negros e as poucas que faziam isso acabavam investindo menos neles e pode viver para questionar isso e outras tantas coisas. Ela viveu as mudanças sociais do século XX em seu corpo e hoje canta músicas que mostram o quanto o mundo se modificou desde que ela nasceu. Ela transformou e foi transformada, como boa filha do período que representa. Hoje, já em outro século, mostra que na velhice ainda há tempo de se reinventar, curtir e cantar e é essa postura de abraçar as oscilações do tempo que a tornam um ícone agora.

Elza é um nome que nos faz pensar no que o Brasil foi, é e pode ser caso a gente consiga enfrentar os obstáculos que se colocam entre o presente e um futuro menos desigual.


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“Temporada”: cotidiano, cidade e a descoberta da autonomia

Cena do filme

O filme brasileiro “Temporada”, dirigido e roteirizado por André Novais Oliveira, foi o grande premiado do Festival de Cinema de Brasília de 2018 e chegou ao mundo do streaming pela Netflix agora em abril de 2019. A obra é sobre o cotidiano nas cidades e aborda a realidade de uma maneira tocante e simples sem ignorar o peso de opressões.

Em mais uma excelente atuação, Grace Passô dá vida à personagem Juliana, uma mulher que se muda para Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) para assumir um cargo concursado de agente de combate à endemias. A partir dessa mudança, Juliana vê sua vida se transformar junto com seu novo cotidiano.

Do que é feita uma cidade?

O novo emprego da protagonista envolve circular a pé em um lugar totalmente novo, entrar na casa das pessoas, buscar focos de proliferação de mosquitos, escorpiões, abelhas e afins. Essa rotina nos apresenta a cidade como ela é: cheia de personagens diversos, óticas variadas, paisagens e também uma dose de simpatia, troca e diálogo.

A relação dela com seus colegas de trabalho se constrói a partir desse espaço dominado pelo cotidiano repleto de histórias, cafés na casa dos moradores visitados, humor e dificuldades financeiras.

Ela, pela sua função de cuidar da cidade e sua população, adentra espaços de intimidade, mexe nas tralhas das pessoas, lida com o conflito entre o público e o privado. Os colegas já experientes nesse trabalho, inicialmente, a guiam nisso e desde logo ensinam que esse cuidado que ela é obrigada a dar como profissional muitas vezes é retribuído voluntariamente.

A cidade em “Temporada” é abordada de uma maneira tocante por mostrar a construção das relações entre os agentes de combate à endemias e a população atendida. As fronteiras do público e do privado, ao serem diluídas, mostram, com delicadeza, a importância do banal na vida de cada um.

Autonomia, solidão e descoberta

Juliana é uma mulher casada, mas se muda para Contagem sozinha. Estar só em um lugar novo faz com que ela reflita sobre quem é, o que quer e o que teme. Ela, nesse contexto, entra em um processo de descoberta que envolve autonomia e identidade. Assim, a protagonista se permite reinventar a partir das novas experiências.

Há uma dualidade na trajetória de Juliana. Seu desenvolvimento como personagem perpassa tanto a solidão quanto a construção de novas relações. Ela percebe a importância de construir amizades, do apoio mútuo e da troca de companhia, mesmo que descompromissada, e descobre novas possibilidades diante disso.

Juliana, mulher negra (contém spoilers)

“Temporada” é, a primeira vista, sobre cotidiano, mas por meio dele trata também de questões como machismo, racismo e espaço urbano.

O abandono marital sofrido pela protagonista é uma amostra da realidade de muitas mulheres brasileiras, especialmente as negras. Sua solidão, que antes tinha um tempo certo para acabar, ganha um ar de permanência. Ela precisa se adaptar ao novo emprego, ao novo lar e agora também carrega essa mágoa, mas também uma possibilidade de recomeçar.

Toda essa situação junto a dificuldade de processá-la verbalmente faz a personagem buscar descobrir-se. Isso desemboca, quase sem querer, em um corte de cabelo significativo. Em uma ida ao centro de Belo Horizonte com um dos seus novos amigos, ela abandona as madeixas artificialmente lisas e assume o cabelo crespo. Mudança que serve para coroar essa trajetória de aceitação dessa nova Juliana e da nova vida que se desenha.

“Temporada” é sobre uma nova fase

Os diálogos naturais, com suas gírias e silêncios, junto das cenas quase poéticas com recortes das casas e da cidade constroem uma obra marcada pela sutileza e pela vontade de seguir a vida apesar dos pesares.

O dia a dia, muitas vezes encarado como um espaço temporal onde não aparenta ocorrer nada importante, é quando a vida acontece. A plasticidade dos destinos e de quem somos se desenrola, a maioria das vezes, na banalidade da vida real.


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Confira o trailer:

“As esportistas” e o lugar da mulher

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As Olimpíadas não tiveram nenhuma prova de ciclismo feminino até 1984*, sendo que em 1967 Beryl Burton quebrou o recorde de velocidade masculino da época. Demorou dois anos para um cara superá-la, mas, ainda assim, nos jogos olímpicos, as ciclistas não podiam estar.

Quando se observa a história do futebol feminino no Brasil, o machismo fica ainda mais evidente. A modalidade passou quase 40 anos proibida de ser praticada e ainda hoje sofre com uma estrutura precária, pouco incentivo e é alvo de comentários maldosos que partem da ideia de que essa não é uma atividade para mulheres. Só que a restrição das mulheres nos esportes é ainda mais complexa do que a gente imagina. Até em modalidades consideradas hoje “mais femininas”, como a patinação artística, houve luta das pioneiras para competir profissionalmente.

As práticas esportivas nos ensinam sobre coragem, disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer. Quando há uma evidente falta de incentivo — e até de acesso — para as mulheres nesse espaço, há uma restrição ao desenvolvimento pessoal delas.

Esportes ainda não são encarados como lugar de mulher. Eles só são socialmente incentivados se a prática for amadora e com a finalidade de manter as mulheres numa determinada estética. O corpo feminino deve ser apenas um objeto a ser visto e admirado, jamais ativo, forte, hábil. Os homens podem ser o que quiserem. Algumas modalidades, inclusive, sofrem com um certo estigma que é marcado por comentários como “se você continuar a praticar isso, seu corpo ficará horrível”. O levantamento de peso é o principal exemplo disso, mas até a natação vez ou outra se torna alvo.

As atletas são lembradas mais como musas, caso se encaixem no padrão de beleza, do que por testarem seus limites individuais de forma obstinada. Nos portais esportivos, principalmente fora do período das Olimpíadas, elas só aparecem no pé da página. A verdade é que, apesar de tantas conquistas, sejam elas medidas em medalhas ou pela abertura de caminhos para as mulheres, as atletas sofrem com uma invisibilidade tremenda e é por isso que o livro “As Esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky, é tão importante.

As biografias apresentadas por ele são centradas, principalmente, em pioneiras, sendo a maioria delas estadunidenses ou europeias. Na edição brasileira, houve um acréscimo de cinco perfis de atletas do país, entre elas Marta e Aída dos Santos. Além disso, há uma grande diversidade de modalidades. Tem motocross, skate, escalada, hóquei, tiro ao alvo e até boliche e corrida de trenó com cães.

A obra nos permite conhecer histórias de mulheres que se destacaram por suas habilidades esportivas, determinação e vontade. Elas quebraram recordes e barreiras de gênero e, muitas vezes, também de raça.

Por causa da segregação nos EUA e da luta pelos direitos civis, muitas histórias mostram os obstáculos que atletas negras, como a jogadora de beisebol Toni Stone, tiveram que lidar e também destacam como algumas delas usaram suas vitórias e capacidades extraordinárias para questionar a barreira racial existente.

A corredora Wilma Rudolph, por exemplo, ao ganhar 3 ouros na mesma olimpíada, ia ser homenageada pela sua cidade natal com um desfile. Ela se recusou a participar dele porque as regras diziam que a cerimônia só poderia ser frequentada por brancos e, com essa pressão, o que antes seria segregado se transformou no primeiro evento integrado da cidade.

Visibilizar essas histórias ajuda a mostrar que o esporte feminino importa e que o espaço desportivo também nos pertence. Ainda há barreiras de gênero a serem enfrentadas, já que mulheres ainda não tem tanto acesso, exposição e valorização quanto os homens esportistas, mas, mesmo quando as barreiras eram ainda maiores, as mulheres foram lá e fizeram, abrindo as portas para todas nós.

As biografias dessas pioneiras nos inspiram por passarem a mensagem de que podemos ir em frente mesmo quando o machismo diz que não. Fazer isso é lutar por nosso direito de sermos vistas como pessoas.

*existe prova de ciclismo masculino desde o início das olimpíadas modernas.


Quer o kit do mais novo livro da Rachel Ignotofsky? A página do Facebook Mulheres Notáveis, numa parceria com a página de divulgação da obra no Brasil, vai sortear um no dia 09/05/19. Confira as regras e participe.


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A Pequena Sereia e o reino das ilusões patriarcais

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Hans Christian Andersen foi um autor dinamarquês que viveu no século XIX e escreveu diversos contos de fadas infantis, entre eles, “A Pequena Sereia”. O fascínio que essas criaturas mitológicas exercem na humanidade e a curiosidade humana sobre as profundezas do mar ajudou a tornar essa história bem popular inclusive entre crianças, especialmente após a adaptação cinematográfica feita pela Disney em 1989.

Tanto no conto original, quanto na famosa animação, a protagonista abandona sua vida nos mares e sua identidade, além de mutilar seu corpo, para tentar conquistar um homem. A Bruxa do Mar é feia, solitária, invejosa e infeliz. Uma personagem clichê, que tem sua vilania construída a partir de uma oposição ao que é colocado como ideal de feminilidade, enquanto a Pequena Sereia corresponde ao padrão de beleza e ama verdadeiramente um homem, como se é esperado de uma mulher.

A construção dessa história e das principais personagens reproduz uma mensagem que, agora, quase 30 anos depois, é questionada por Louise O’neill numa releitura feminista desse clássico.

O patriarcado marinho

Na versão de Louise, o reino do Rei dos Mares é uma epítome da opressão contra as mulheres e é nesse lugar que a Pequena Sereia cresce cercada por suas irmãs, sua avó e a intimidação de seu pai e outros tritões.

O valor das sereias está apenas na aparência que possuem, há um incentivo à rivalidade feminina, inclusive entre irmãs, o padrão de beleza é magro e os sacrifícios para tentar alcançá-lo são naturalizados, há casamentos arranjados e as sereias são vistas como troféus a serem ostentados.

Não importa o que as sereias sentem, querem ou expressem. O Rei dos Mares é quem manda e desmanda nesse lugar. A Pequena Sereia, chamada Gaia na releitura, se incomoda com essas regras tácitas e expressas sobre como ela e todas as outras devem agir e vê as histórias de amor contadas por sua avó e protagonizadas por príncipes encantados como um refúgio desse destino que parece inescapável. Isso se intensifica com a proximidade do seu casamento com um tritão bem mais velho escolhido por seu pai.

A (des)construção do amor romântico

Louise O’neill parte da mesma problemática da história original para questionar o amor romântico que nos é ensinado. O refúgio da personagem é esse amor ideal que não existe, mas chegou até seus sonhos por meio dos contos de fada. Ela quer viver esse amor das histórias com Oliver, humano que ela salvou após uma tempestade afundar um barco em que ocorria uma festa.

Naquele contexto de opressão que, além de tudo, envolve um casamento arranjado com um tritão agressivo e manipulador, Gaia encara a paixão humana, a mutilação e o abandono do mundo que ela conhece como a única alternativa para fugir de um destino que promete ser repleto de violência masculina e silenciamento. Mal sabe ela que a realidade das mulheres na superfície está bem longe do ideal.

A autora dessa releitura trabalha a jornada da Pequena Sereia no mundo humano como um processo de descoberta de si, do que é amor e do que é a realidade das mulheres nos mares e na terra. A lição que fica para o leitor é de que a libertação que a personagem tanto buscava não pode ser encontrada no despertar do amor de um homem.

Essa visão da Pequena Sereia sobre as alternativas e caminhos possíveis evidencia o quanto a feminilidade que nos é ensinada, seja na terra ou no mar profundo, é ligada ao casamento e a busca do amor. A identidade feminina é construída para ser complementada por alguém, por isso Gaia e muitas mulheres do mundo real buscam o despertar do amor de um homem como uma solução para todos os seus problemas, caminho que acaba se tornando uma nova prisão.

A descoberta do Outro

A trajetória da Pequena Sereia até o mundo humano também envolve descobertas sobre o fundo do mar. Ela vê parte excluída do reino de seu pai, conhece pessoalmente Ceto, a famigerada Bruxa do Mar, e é obrigada a lidar com as Rusalkas, jovens humanas que se afogaram e se transformaram em uma espécie de sereia que foge desse padrão de feminilidade que ela representa. São essas sereias de origem humana que seu pai e seu prometido marido querem exterminar.

A conversa dela com a Bruxa do Mar é um dos pontos mais interessantes do livro. Nesse momento, Gaia descobre uma história silenciada, uma sereia livre e a possibilidade de ser diferente sem ser necessariamente uma vilã clássica. Ela teme o que Ceto pode fazer contra ela por conta de tudo que sempre ouviu, mas é ali que ela começa a sentir um pouco de liberdade e ouve alguns conselhos que ela prefere ignorar.

Nesse encontro, a sereia, colocada como vilã para o povo sirênico, diz que quem a chama de bruxa é o Rei dos Mares, pai da protagonista, e que bruxa é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.

A mensagem da nova Pequena Sereia

Com essa releitura, Louise O’neill conseguiu transformar uma história problemática em um livro que toca pessoas de todas as idades, especialmente mulheres jovens. Ela aborda aspectos do machismo, incluindo a violência masculina e o padrão de beleza, de forma questionadora e expõe o quanto certas práticas e comportamentos são nocivos, apesar de serem naturalizados.

O processo de descoberta da protagonista carrega como ensinamento a importância de lutar para se viver com liberdade e autonomia e nos ensina que devemos tentar fazer nossa voz ser ouvida. Ela pode ser bem mais poderosa do que imaginamos, especialmente quando ela é fortalecida por outras mulheres.


Tradutora da obra: Fernanda Lizardo.


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Lady killers: as mulheres também matam

Arquivo Pessoal — Adquira um exemplar aqui.

Em “Alias Grace”, adaptação da Netflix do livro homônimo de Margaret Atwood, a personagem Grace Marks, sentenciada à prisão perpétua por ter assassinado seu patrão e a governanta da casa em que trabalhava, reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Tanto a minissérie roteirizada por Sarah Polley e dirigida por Mary Harron, quanto o livro de Margaret Atwood, são ficcionalizações de um caso de homicídio duplo que chocou o Canadá em 1843. Pouco se sabe sobre a Grace Marks real, mas “Alias Grace” parte dessa personagem para tensionar o que entendemos como feminilidade e assassinato e isso nos faz pensar sobre como o nosso olhar pode ser facilmente manipulado.

A curiosidade perante uma assassina mulher é tão diferente porque matar não parece ser algo muito feminino. A opressão de gênero que tanto aprisiona mulheres, incluindo as homicidas, parece nesses casos um disfarce perfeito e um provável fator que coloca certas vítimas como alvo delas.

Lady Killers, livro de Tori Telfer, dedica-se a trabalhar essa curiosidade por meio de pesquisa sobre mulheres que mataram mais de uma vez, mais de uma pessoa, em mais de um momento. Elas são as assassinas em série que pouco ouvimos falar ou que se tornaram personagens macabras, que tiveram suas histórias contadas como uma fantasia aterrorizante de luxúria e vaidade, como Elizabeth Báthory.

Quando a expressão “assassinos em série” aparece em uma leitura ou mesmo em um caso, a gente pensa em homens como agressores e mulheres como vítimas. Tirar a vida de alguém é um exercício de um poder absoluto que nossa cultura não consegue ver como algo que mulheres podem fazer. Isso colabora para que as seriais killers atuem por mais tempo e façam mais vítimas, já que não são vistas como suspeitas.

A curiosidade guia nossos olhares em ambos os gêneros. Queremos saber os porquês numa ânsia de tentar nos diferenciar dos que nos causam horror. Essa curiosidade atua com mais ferocidade quando as acusadas de matar são mulheres, mas o horror é visto como um atributo que acompanha melhor os homens assassinos. A frase da personagem Grace Marks é justamente sobre isso.

Há um estranhamento quando uma mulher é capaz de um ato tão vil como tirar a vida de muitos, apesar de estarmos inseridos numa cultura repleta de histórias lotadas de vilãs, bruxas más e madrastas cruéis. A vilania feminina para nós é ligada, principalmente, ao comportamento esperado das mulheres. O pressuposto de que mulheres devem ser recatadas, cuidadoras, mães dedicadas prevalece no imaginário social. As vilãs das histórias tem o efeito de mostrar quem não podemos ser, como não podemos agir. Quando a vilania feminina aparece na vida real no formato de seriais killers, o efeito que elas causam é tão incômodo, destoa tanto do ideal de mulher, que há um esforço coletivo e espontâneo de tratá-las como menos letais.

Tori Telfer destaca isso muito bem quando aborda o comportamento da mídia e da sociedade perante as assassinas pesquisadas. Nannie Doss, por exemplo, que confessou ter matado quatro maridos envenenados, mas também foi acusada de matar outros familiares, incluindo crianças, foi tratada como uma mulher em busca do amor. Como se isso amenizasse o horror dos atos cometidos por ela. Nannie se tornou uma espécie de paródia de uma dona de casa romântica que deu muito errado por caber tão bem no ideal de feminilidade da época.

As histórias das seriais killers são contadas pela autora de uma forma que evidencia a diferença de tratamento social, especialmente punitivo, entre elas. A classe sempre pesa muito, mas não só. Tillie Klimek, por exemplo, não teve a chance de escapar da prisão ou ter sua pena amenizada, como acontecia bastante em Chicago na época, por não ser considerada uma personagem atraente. Sim, a beleza, esse atributo colocado como tão importante para as mulheres, afeta até mesmo a maneira que olhamos para suspeitas de assassinato. É por causa do que é dito como feminino que tantas citadas nessa obra escaparam da pena de morte simplesmente por serem mulheres.

A pesquisa de Tori Telfer expõe como as visões estereotipadas torna assassinas personagens muitas vezes romantizadas, outras invisibilizadas. Elas existem, mas suas ações ainda são colocadas como algo fantástico, fora da curva. Mas será mesmo que seriais killers são tão raras assim ou elas escapam mais facilmente por agirem dentro do espaço colocado como feminino, o privado, e por estarem acima de qualquer suspeita?

Talvez, nossa cultura, ao ligar mulheres à vida, ao cuidado, ao amor, à ingenuidade, nos faça esquecer que a violência e a crueldade são, acima de tudo, uma questão humana. Sabemos muito bem como a masculinidade patriarcal molda homens para buscarem a dominância e violência, mas é uma surpresa conhecer histórias que mostram que mulheres também podem ter um lado sombrio e cruel mesmo sendo condicionadas a se comportarem de modo oposto.


A edição brasileira do livro, feita pela DarkSide e traduzida por Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana, conta com uma pesquisa extra que nos apresenta mais 14 seriais killers, incluindo nomes famosos como a da mulher que inspirou o filme Monster e uma espécie de glossário com obras sobre.


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Kingmakers: as esposas por trás de grandes homens

Cena do filme “A esposa”

“Atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher” é um ditado popular que evidencia os papéis de gênero esperados pela sociedade, especialmente dentro do casamento.

O lugar do homem dentro da relação é o de protagonista, seus objetivos e sonhos estão sempre em primeiro plano, enquanto a mulher trabalha nos bastidores para que o homem atinja suas metas. O lugar da mulher nessa dinâmica é o de complemento do homem. Os sonhos e objetivos dela são deixados de lado e não são vistos como importantes.

A ideologia machista afirma que homens e mulheres se complementam e usa esse argumento para perpetuar a divisão sexual do trabalho e a submissão feminina. A capacidade reprodutiva feminina é colocada como um destino biológico que serve como justificativa para que o que eles chamam de complementação seja apenas subserviência a um único projeto de vida, o masculino. Esse caminho é colocado como natural porque em nossa cultura os homens são vistos como os detentores das ferramentas, talentos e habilidades necessárias para buscar um sucesso que não seja o de cuidado da casa e dos filhos.

“A esposa” é um filme impactante porque foca na mulher que foi colocada nesse lugar e expõe as ações que um dia a levaram a acreditar que esse era o melhor caminho possível e o seu arrependimento posterior.

Joan (Glenn Close), apesar de lidar com uma frustração crescente relacionada com o sacrifício que fez, se incomoda com o rótulo de vítima, porque entende que foi levada a optar por esse caminho devido a todo o contexto de exclusão, discriminação e oportunidades diferentes relacionadas com homens, mulheres e a visão de como um relacionamento deve ser.

A visão do mercado editorial sobre a escrita feminina, as expectativas pré-existentes do que é um relacionamento de sucesso, o destino feminino padrão, a energia e o enfrentamento necessários para lidar com escolhas que fugissem do que era esperado e a manipulação de Joe são alguns dos pontos que a fizeram sacrificar seus sonhos em função de trabalhar pelos dele. Por Joan ser capaz de racionalizar alguns desses fatores contextuais, ela acredita que escolheu esse destino, que o que ela fez foi uma negociação a partir do que era possível ser alcançado por ela.

Cena de um flashback do filme com Joan e Jon jovens

Naturalização do machismo, violência psicológica e “escolhas”

“Quem é Joan e o que ela quer, pensa e sente?” é uma pergunta que ocorre desde a cena do telefonema que informa que Joe Castleman (Jonathan Pryce), seu marido, é o mais novo ganhador do Nobel de Literatura e ainda deixa dúvidas na última cena do filme.

Flashbacks ajudam a construir a imagem de Joan, de Joe e do mundo que os cercava desde jovens. Por meio desse recurso, a gente descobre que Joan escrevia, que Joe foi seu professor e que ela ouviu de uma mulher escritora que a carreira literária era um desafio praticamente impossível para mulheres.

Da dinâmica familiar, que inclui até mesmo os filhos do casal, até a organização do Prêmio Nobel que conta com uma funcionária responsável por cuidar das esposas dos laureados, o lugar da mulher é o de acessório. A exposição de cenas relacionadas a esses dois fatores argumentam contra a imagem de não vítima que Joan se apega e nos dão pistas essenciais para entender quem Joan foi, quem ela se tornou e o processo que está vivendo.

Ser laureado com o Prêmio Nobel é um dos maiores reconhecimentos que existem. Escritores, personalidades políticas e cientistas sabem que esse é o topo máximo de diversas carreiras. Ser declarado vencedor pela Academia Sueca é ser colocado em um pedestal de qualidade e relevância. Só que esse pedestal da intelectualidade mundial parece ser algo que só pode ser alcançado por homens brancos, como o filme mostra ao exibir detalhes da organização do evento e a gente entende muito bem por conhecer as estatísticas que apontam que as mulheres são uma minoria entre os premiados.

Fica evidente que qualquer mulher que surgir como ganhadora do Nobel será uma exceção, para muitos, uma intrusa. O lugar delas é o de esposas, de kingmakers, as que se sacrificam na vida privada para que a parte masculina do casal brilhe no espaço público.

A cerimônia do Nobel, foco do filme, se passa em 1992, com Joan e Joe já idosos, mas as espectadoras de hoje, mesmo com décadas separando suas vidas dos eventos do filme, percebem — e, de certo modo, ainda sentem — as engrenagens sociais que fizeram Joan tomar as decisões que tomou durante a vida.

O que torna “A esposa” um filme importante é o fato de que a história nos permite refletir sobre acontecimentos que vemos como naturais e não o são e como isso impacta nosso cotidiano sem prêmio Nobel por perto.

O que causa estranhamento em nossa sociedade é a mulher que quebra com as expectativas de comportamento ligadas ao seu gênero e lidar com isso pode ser bem difícil. Sabemos que elas podem ser punidas, inclusive por meio da violência física e sexual, até por dizerem não a um colega e, por isso, mesmo sem querer, mulheres muitas vezes se guiam pelo que é dito adequado. O que pode ser uma fonte enorme de frustração, mas é encarado como uma alternativa aceitável por parecer garantir alguma segurança. Nesse contexto não dá para dizer que há de fato uma escolha livre.

A naturalização da violência psicológica e do machismo são fatores que fazem com que alguns espectadores e até mesmo a personagem tenham dificuldade de entender que o relacionamento exposto no filme é abusivo. Como não há presença de violência física e o casal parece viver momentos de cumplicidade, muita gente entende que Joe e Joan vivem apenas um relacionamento com momentos ruins e ignora todo o resto. Esse resto inclui manipulação, a ideia de que o sacrifício feminino como mãe e esposa é algo a ser esperado por parte das mulheres e a concepção de que apoiar um marido é deixá-lo ser protagonista da vida do casal e aceitar suas traições dentro do relacionamento. Visões de mundo tão comuns que para muitos é preciso olhar duas vezes para que se perceba que poderia ser diferente.

Imagem de divulgação do filme — Joan um pouco atrás de Joe diz muito sobre a realidade das mulheres.

Indústria cinematográfica, machismo e o lugar da mulher

Essa visão de homens como protagonistas e mulheres como coadjuvantes é tão perniciosa que se apresentou até mesmo na feitura do filme. Glenn Close afirmou para a Agência NPR que a obra, adaptação de um livro de Meg Wolitzer, demorou mais de um década para ser feita porque atores de prestígio do meio se recusavam a aceitar o papel de Joe. Eles não queriam estrelar um filme chamado “A esposa” por não serem o destaque principal da obra e não receberem a maior remuneração.

O machismo da indústria cinematográfica não é bem uma novidade. Filmes dirigidos por mulheres raramente são premiados, bem distribuídos ou patrocinados. Os papéis voltados para mulheres privilegiam mulheres jovens, brancas e dentro do padrão de beleza, enquanto homens mais velhos são colocados para contracenar com mulheres cada vez mais jovens e, por essa razão, as atrizes perdem espaço na carreira bem mais cedo que eles. Além disso, análises dos premiados pela Academia do Oscar como Melhor Filme dos últimos anos apontam que personagens femininos nesses filmes tem um tempo de fala bem inferior ao de personagens masculinos. Todas essas questões se relacionam com a visão de que o espaço público, o sucesso, as carreiras importantes, são de protagonismo deles. Para as mulheres, o destino é ser coadjuvante, fazer casal, enfeitar e se dedicar aos cuidados de sua família.

Nos roteiros e bastidores dos filmes e também na vida real, a lógica vigente ainda é a que empurrou Joan para o sacrifício de sua subjetividade. Perceber isso é um passo para que essa realidade mude e esse debate, junto com a atuação impecável de Glenn Close, torna “A esposa” um filme necessário.

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