Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

Kit Espelhos Ornamentado em Ouro Velho — Pronta Entrega pelo ELO7

Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

Bacurau: comunidade, rituais de morte e resistência

Obs: o texto contém alguns spoilers.

Cena do filme

Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é sobre muita coisa, inclusive sobre a morte, seus rituais e o impacto disso numa comunidade fictícia localizada no oeste pernambucano. Já nos primeiros minutos do filme, nos deparamos com um caminhão pipa que carrega água potável destruindo caixões de madeira caídos na estrada, um corpo e um caminhão que carrega caixões tombado e cercado de pessoas pegando a carga. A morte ronda Bacurau. Ela está próxima. Esse é o aviso e ele funciona. Tudo aquilo que se relaciona com a morte e seus símbolos é encarado pela nossa sociedade como um mau presságio, ainda que morrer seja parte indissociável da vida, e está ali nas primeiras cenas.

Na cidade, a morte já se faz presente. Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), 94 anos, está sendo velada em casa, com parentes, amigos e conhecidos ao redor. A morte está próxima, é triste, mas é encarada ali como um momento de despedida, homenagem e reforço de laços afetivos. Diferente do corpo anônimo na estrada, que é visto de maneira distante e triste simplesmente. Ainda que ambos sejam colocados como algo inevitável que faz parte da vida.

O ritual de morte de dona Carmelita é, apesar de tudo, tranquilo. Tirando a interferência de Domingas (Sônia Braga), outra idosa, que parece sentir muito aquela partida. Talvez a idade da falecida contribua para isso. Afinal, a velhice avança e a proximidade com a morte passa a ser lembrada o tempo todo pelas próprias pessoas e também por quem próximo. Talvez a personagem, com sua sabedoria, já tivesse preparado o terreno para aquilo. O bolo que Carmelita faz antes de morrer e Teresa (Bárbara Colen), sua neta, come com a irmã após o velório parece dizer isso. Ela deixa afeto para quem ainda ia chegar e não poderia ter a chance de se despedir dela em vida.

Quase toda a cidade participa da celebração/ritual de morte, nos mostrando que a falecida é uma espécie de matriarca e referência. Tem música cantada em coro junto com o violeiro da cidade que lidera o canto, tem caminhada, tem enterro e lenços brancos sendo balançados. Ali, todos, por mais diferentes que sejam, parecem dividir a saudade que sabem que vão ter. O luto é compartilhado.

Cena do filme

Comunidades não emergem do nada, elas são construídas a partir de laços, trocas, tempo e até mesmo conflitos. Dona Carmelita, junto com o museu de Bacurau, representa a união a partir desse compartilhamento e a história do grupo que forma aquela cidade e que começa a ser apresentado para o espectador a partir do velório. Há algo que une todos ali, a história de uma pessoa ou de uma população, e é isso que faz Bacurau existir. Rituais de morte, principalmente quando são vividos e preparados de forma coletiva, costumam ser uma forma de preservação da memória de alguém, de um contexto, de uma família e até de um povo e isso importa tanto para quem fica porque é uma forma de dar continuidade ao que foi partilhado.

Os falecimentos, no filme até então, se apresentam como parte da vida cotidiana. Acidentes acontecem, velhos morrem, mas nos detalhes se percebe que viver ali é resistir a um destino específico fruto de um abandono e de uma época. O Estado não se apresenta como deve, aquelas pessoas estão desamparadas. Restaram a elas apenas o apoio uma das outras. A morte, nesse tempo que a gente só sabe que é depois de agora, está explícita na tevê. Há execuções públicas no Vale do Anhangabaú. De fato, ela ronda Bacurau e também o país.

Em Bacurau, se luta contra a morte todos os dias. Seja pela falta de água potável, de remédios, de vacinas ou de comida. A morte morrida, essa causada pela falta ou pela natureza mesmo, também pode ser política, mas a morte matada que surge posteriormente deixa evidente o quanto aquele povo é considerado invisível. Quem nasce em Bacurau é gente, mas parece que só quem mora lá sabe disso.

Quando Teresa, frente ao caixão da avó, diz que dona Carmelita é a segunda morta que viu no dia, há um estranhamento que surge talvez do quanto aquilo parece cotidiano e ao mesmo tempo fora do lugar. Teresa vê, numa alucinação, o caixão da avó transbordar em água. A morte, por mais cotidiana que seja, parece estar mais presente do que deveria mesmo quando a gente ainda não conhece o que há de vir. A água transborda ali, mas a gente não sabe o que isso significa ou se é para significar algo. Seria a morte e o sangue dos que vão embora? Seria um símbolo para a vida e o afeto que cercam aquele corpo? Seriam lágrimas de quem sabe o que vai vir? Seria a água da represa voltando a jorrar?

Quando os corpos mortos por tiros começam a surgir, o mau presságio é confirmado. Numa cena, Pacote/Acácio (Thomás Aquino) encontra os cadáveres de dois de seus amigos, coloca-os dentro no carro sentados, ainda ensaguentados e sujos e, durante o trajeto, explode de raiva numa conversa sem respostas. Aquela perda não era esperada. Ele entende que ela poderia ser evitada, sente culpa por ter pedido a eles para irem até aquele lugar em que foram executados e a raiva, parte indissociável do luto, é a resposta dele para aquela dor.

A cidade chora seus mortos, ainda que em choque e se preparando para se proteger. Antes do encontro da cidade com os assassinos, os rituais de morte do menino, dos homens e da família acontecem junto a uma outra espécie de ritual, o de preparo para uma batalha. Enquanto um buraco, que a gente ainda não sabe para que serve ,é cavado, tem capoeira, tem reza, tem desespero, busca pela prostituição e também conexão e contato. A proximidade com a morte é o que guia ambos os rituais e cada um reage à sua maneira.

Bacurau quer viver em paz, mas sabe reagir para proteger os seus e manter a comunidade viva. As vestes sujas de sangue dos corpos mortos de sua população se tornam bandeiras de luta. A escola, cravejada de balas e lotada de gente escondida debaixo de carteiras, também reage. O museu também é um centro de resistência ao ataque. As engrenagens da cidade, com toda sua gente, inclusive aqueles que um dia já rejeitaram aquele povo e aquele lugar, se movimentam para impedir o massacre de seu povo.

Museu é lugar de história de gente que já morreu faz tempo e representa o passado. Escola é lugar de gente que acabou de chegar no mundo, local onde o futuro se desenha. Nenhum deles está protegido de quem quer ver sangue, como sabemos ao ler as notícias do Rio de Janeiro ou dos EUA, mas no filme esses lugares, considerados tão vulneráveis e que costumam ser alvos de tentativas de controle e descaso, se tornam focos de resistência por serem espaços em que se celebram e preservam a coletividade e a memória. Nesse sentido, faltou, na minha opinião, maior participação feminina na violência e menos hiperssexualização. Apesar de algumas personagens femininas serem parte ativa da resistência, usarem armas e se posicionarem, os protagonistas da ação — e, na prática, até do filme — são homens, ainda que Lunga (Silvero Pereira) não se encaixe bem nesse lugar masculino e a comunidade, substantivo feminino, seja o centro da história. As mulheres, que são colocadas pela obra como importantes mantenedoras da comunidade viva, ficam em segundo plano nessa hora, como se a elas coubesse o papel de serem lideradas ou buscarem sempre as vias do diálogo. Vide Teresa, essa que é filmada como protagonista, mas que o roteiro não a valoriza o suficiente, e Domingas.

As mortes em Bacurau servem como um lembrete de que o Brasil foi construído e ainda o é a partir da violência, mas essa violência foi perpetuada, permitida, ainda que não às claras, e alimentada por quem representa o Estado. E, no caso do Nordeste, como bem expõe o filme, incrementada por sudestinos e sulistas que se consideram superiores a quem vive nessa parte do Brasil, enquanto são tratados como menos gente por quem eles consideram próximos e parecidos com eles. Esse passado — e o nosso presente — repleto de um tipo sangue específico derramado precisa ser considerado sob o risco de vermos a resistência de quem quer simplesmente se manter vivo ser encarada como a real face da violência. Os bárbaros não são os que atacados buscam lutar pela vida e pela sua dignidade, ainda que alguns defendam que histórias como essas sejam contadas assim.

Cena do filme

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.  Se interessou pelos livros? Adquira o “Para toda Eternidade” aqui e o “Confissões do crematório” aqui.

“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Adquira seu exemplar aqui.

Direito adquirido

46 pessoas idosas atearam fogo em si mesmas com intenção de morrer em frente aos prédios públicos mais famosos de suas cidades somente nesse ano, dizem os jornais e as correntes nas redes sociais. A mídia só começou a divulgar depois que os números atingiram a terceira dezena. Antes disso acreditava-se que o melhor era omitir o que acontecia para não inspirar novos casos. Enquanto isso, a boataria circulava nas redes sociais desde a primeira ocorrência.

Tem quem acredite que esses atos são uma espécie de terrorismo, outros já acham que eles estão mais próximos de uma performance que conta com suicídios públicos e tem a finalidade de denunciar as condições físicas, psicológicas e financeiras de uma parcela da população, mas nenhum especialista sério teve coragem de cravar como verdade qualquer hipótese levantada para tentar explicar a natureza desses episódios cada vez mais frequentes. A maioria só diz que todos que esses eventos são um fenômeno multifatorial que envolve tudo o que conhecemos e também algo novo ainda invisível ao julgamento científico. Ou mesmo aos nossos olhos. Sejam eles estudados ou não.


O primeiro caso coletivo aconteceu hoje, apesar das proibições de manifestações políticas estarem vigentes desde muito antes da primeira vítima-algoz-suicida-terrorista surgir. Quatro mulheres e dois homens, todos com mais de setenta e cinco anos, como eu, se posicionaram em frente ao Ministério da Justiça e, completamente calados e sem cartazes, se queimaram. A polícia tentou impedir com a ajuda de bombeiros, mas não funcionou. Eles mal tinham começado a queimar quando foram apagados, mas ainda assim estavam mortos. Como todos os outros. Nenhum deles nunca sobrevivia.


540 idosos mortos nesses atos até então. Só com um número expressivo desses para o governo começar a olhar para os velhos. Agora, junto ao trabalho, eles recomendam o cárcere privado.


Eu não vou trabalhar até morrer. Consegui juntar documentos o suficiente para comprovar idade, tempo de contribuição e tudo mais e na próxima terça farei meu pedido oficial perante a Previdência Social. Tive sorte de ter trabalhado por muito tempo num lugar que repassava as contribuições dos empregados de fato. A maioria da minha geração não conseguiu nem isso.

A galera, no geral, tinha app como único chefe e se achava empreendedor por ter que arcar com todos os riscos e custos enquanto dividia seu pouco lucro com uns acionistas do Vale do Silício. Tudo na base do desespero. A autoenganação existia sim, não dá para ignorar, mas hoje vejo que era só uma forma da gente não ser obrigado a pensar na injustiça de tudo aquilo o tempo todo. Na verdade, ninguém conseguia ficar muito tempo empregado em qualquer lugar que assinava carteira e trabalhar com transporte de gente ou delivery era o que tinha. Mesmo quem tinha salário, quando precisava de uma grana extra, entrava nessas. Eu mesmo fiz muita corrida de bike alugada pela cidade.

Quem tinha emprego trabalhava como terceirizado nessas empresas rainhas em assédio moral e previsibilidade. Antes de você conseguir ser efetivado ou poder tirar férias ou algo do tipo, eles te despediam só para te contratarem de novo alguns meses depois e essa lógica se repetia até eles declararem falência e não pagarem ninguém. Três meses depois, se a gente tivesse sorte, arrumávamos um emprego numa pessoa jurídica irmã gêmea da antiga. Esse era o jogo e a pior surpresa a gente só veio descobrir uns 30 anos depois quando tentávamos nos aposentar e a Previdência nos avisava que não ia dar, porque não tinha contribuição paga em nosso nome durante aquele período todo. Perdi 2 anos de trabalho dessa forma, mas teve gente que perdeu 5, 10, 15 ou até mais.

Nenhuma surpresa que essas pessoas agora idosas e acabadas se incendeiem em atos públicos.


Quando finalmente vi a placa, mal posicionada e quase apagada pelo tempo, indicando a entrada do prédio, a lembrança de quando havia um tanto de gente querendo estudar para trabalhar como técnico ou analista do INSS me veio. Sentavam a bunda na cadeira e estudavam, estudavam e estudavam buscando o tão sonhando cargo público que logo passou a não valer mais nada. Eu mesmo tentei umas vezes, cheguei até a ser aprovado, mas nunca me chamaram. Deu ruim antes. Agora não tem mais quase ninguém aqui, nem como funcionário, nem como usuário. Não sei se aposentaram, se morreram, se queimaram, se adoeceram ou se simplesmente não há mais muito o que fazer.

Nem na época de ouro os prédios da Previdência Social eram bonitos. Nenhum palacete antigo todo reformado abrigou qualquer serviço da Seguridade Social na história, ao menos não aqui na minha cidade. Agora eles são ainda mais feios e nem ficam mais no centro.

Mesmo com o endereço em mãos e usando o Google Maps, foi difícil de encontrar. A portinha para o hall era bem pequena, quase invisível entre duas enormes lojas com nome estrangeiro. O saguão parecia imenso, como se alguém secretamente esperasse que um dia esse lugar voltaria a ser cheio, mas devia caber só umas quinze pessoas. O vazio faz tudo aparentar ser tão amplo.

Com meu envelope pardo e meu comprovante de agendamento em mãos, sentei numa das cadeiras, apertei um botão e esperei alguém aparecer. Quem apareceu não parecia saber mais como aposentar alguém.

Mostrei meus documentos: RG, CPF, Comprovante de Residência, PIS/PASEP, 48 carnês de recolhimento do INSS como contribuinte individual ou segurado facultativo, 17 holerites de pagamentos de salários do meu emprego atual e também meu Certificado de Reservista. Falei sobre o que eles comprovavam com veemência, mostrei conhecer os meus direitos e esperei acontecer alguma coisa. O homem na minha frente simplesmente se retirou sem falar qualquer coisa do procedimento e disse que ia chamar alguém. Antes de sumir por uma porta, ele enviou uma mensagem de voz para um de seus contatos pelo aplicativo de comunicação da moda da vez dizendo que tinha com ele ali um homem que se dizia aposentável. Ele falava como se eu só pudesse estar senil.

Durante a espera, eu passei os olhos ao redor de novo: poeira, cadeiras antigas demais, ar-condicionado extremamente barulhento e uma janela quebrada bem perto da entrada. Queria tentar entender melhor o meu desconforto com esse lugar. Não havia túmulos, mas ainda assim aquele vazio com seus computadores me lembrava um cemitério. Não havia macas, mas era inevitável pensar que entrei pela porta da frente em um hospital de pacientes terminais. Havia, na verdade, tantos indícios de abandono ali quanto no rosto de cada um dos idosos que ganharam manchetes no último ano.

Depois de pelo menos uns vinte minutos, o homem que me atendeu voltou sozinho. Ou ao menos foi isso que pensei. Ele sentou novamente bem na minha frente e deixou que o computador identificasse seu rosto, senha e digitais e perguntou novamente meu nome, minha data de nascimento e todos os meus números de identificação.

Enquanto dava minha resposta, vi uma cadeira estofada se arrastar e parar ao lado dele e ouvi uma voz feminina vir do vazio acima dela. Ela começou a me fazer perguntas, dar recomendações e explicar todo o processo. Eu ouvia bem o que ela dizia e a respondia quando era necessário. A dona da voz parecia realmente disposta a me ajudar, mas aos meus olhos a cadeira seguia vazia, apesar de vez ou outra eu ouvir o barulho de movimento de suas rodinhas.

Eu não era o único a ouvir o nada. A voz guiava o homem sobre protocolos, documentos e indicava até mesmo os códigos a serem utilizados para o meu caso. Ele obedecia e às vezes reclamava sobre como aquele software era antiquado. Eles, humano e nada, trabalhavam juntos, discutiam algumas coisas sobre meu pedido entre eles e vez ou outra comentavam sobre as últimas notícias do sistema ou do mundo comigo.

Eu suava frio, me sentia tonto e me preocupava mais com a possibilidade de ser um dos milhares inaposentáveis da minha geração do que com qualquer outra coisa. Era como se eu estivesse, enfim, pronto para morrer ou morrendo de fato, independente da resposta. Só que uma das mortes parecia ser bem mais dolorosa.

Foi um alívio ouvir que tudo indicava que eu tinha sim o direito de me aposentar e que, apesar de tudo, eu ia conseguir receber 64% do valor integral que me era devido. A Voz me avisou que a Carta de Concessão chegaria em mais ou menos um mês e me desejou boa sorte, boa vida.

Nessa hora, quando nós três nos levantávamos, eu vi um ser translúcido que parecia muito velho, muito mais velho que um dia eu seria, escorregar pela cadeira e ressurgir aos poucos enquanto flutuava em direção da porta. Ela comentava com o homem sobre eu provavelmente ser o último a conseguir me aposentar no país. Ela, morta, ainda estava trabalhando.

Por que?


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


“Maternidade”: uma investigação sobre a pressão de se ter filhos quando se é uma mulher

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Tenho o hábito de postar imagens dos livros que estou lendo no stories do Instagram. Não sei se faço isso porque as redes sociais funcionam como uma vitrine e eu quero, talvez inconscientemente, vender uma imagem leitora para quem me segue ou porque acho que pode aparecer alguém lendo ou querendo ler a mesma coisa que eu e essa coincidência me permitir trocar impressões, quotes ou até mesmo ideias para uma possível resenha. Provavelmente as duas hipóteses são válidas, já que não são excludentes e eu bem sei que a lógica das redes sociais nos captura mesmo quando nos achamos espertos demais para isso.

As reações aos posts variam entre a visualização pura e simples e perguntas sobre o livro, nenhuma muito elaborada, mas sempre sobre a leitura em si ou sobre quem escreveu, mas quando publiquei a foto do “Maternidade” da Sheila Heti foi diferente. Mais de uma pessoa, ao ver a foto do livro, resolveu me perguntar se eu estava grávida com um certo tom de alegria.

Ninguém perguntou se eu pretendia matar alguém quando falei que estava lendo “Lady Killers” da Tori Telfer ou qual esporte eu praticava ou queria praticar quando me empolguei com livro “As esportistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky. Por que quando o título versa sobre maternidade e a leitora é uma mulher a reação óbvia é assumir uma gravidez desejada?

Sheila Heti, em um livro estruturado num formato de ficção introspectiva que faz certos trechos mais filosóficos ficarem com cara de ensaio, responde essa pergunta — e muitas outras — quando explora o universo da decisão feminina de ter ou não ter um filho sem medo de abordar até mesmo as arestas que essa questão faz surgir nas relações entre amigas, namorados e parentes.

A obra explora como a sociedade vê as mulheres, sejam as mães ou não mães, enquanto narra um processo de descoberta e autoconhecimento de uma personagem que vive a pressão da proximidade do fim da fase reprodutiva e a dúvida sobre optar ou não pela maternidade enquanto ainda há tempo, conflito que às vezes parece ter sido implantado na cabeça dela pela sociedade que cobra tanto isso das mulheres.

Por que ainda encaramos como se houvesse apenas uma decisão certa? Por que quando uma mulher escolhe não ter filhos isso passa a ser visto por outras mulheres como um julgamento sobre a decisão delas de maternar e vice-versa? Por que a sociedade trata homens que escolhem não se tornar pais de uma forma tão mais tranquila? Quem é a mulher que decide não ser mãe? Qual o nome que ela recebe?

Todos esses questionamentos são levantados por Sheila Heti de alguma forma nesse livro e as respostas são trabalhadas a partir do que a personagem-narradora pensa, diz e investiga sobre essa decisão que expõe o tabu que ainda envolve a não maternidade feminina.

A construção narrativa dessa história-ensaio parte das consultas constantes que a narradora faz usando uma técnica derivada do I Ching, sendo a maioria das perguntas relacionadas com a decisão sobre ser ou não ser mãe que a assombra, mas não só. Ela pensa, examina assuntos e se questiona o tempo todo, usando muitas vezes os sins e nãos que recebe do acaso nesse jogo de moedas que guia seus pensamentos e às vezes até suas ações.

A introspecção nesse romance serve como uma ferramenta para o leitor entrar em contato com as ótimas reflexões da personagem. É pelos seus pensamentos que conhecemos essa mulher, marcada pela insegurança e melancolia, e nos deparamos com um texto que questiona comportamentos sociais que atingem toda a coletividade.

Existe a mãe e a não mãe, como diz o livro em um momento. Uma é marcada pelo que se tem, a outra pela falta de. Quando a narradora de “Maternidade” questiona se deve ou não ser mãe e, a partir de suas reflexões sobre isso e todo o resto, escreve, ela tenta entender quem ela é dentro dessa lógica de significados que não parecem ser capazes de capturar a essência humana das mulheres.

A narradora, em dado momento do livro, diz que não quer ser uma passagem de homens para o mundo quando pondera que, ao longo da história, bastava para os homens que as mulheres existissem para dar à luz a eles e criá-los, enquanto parece ainda buscar uma justificativa para qualquer escolha que faça. Ela parece sentir que precisa embasar, especialmente, a decisão de ser uma não mãe, por saber que essa escolha ainda é vista como um não lugar e uma espécie de identidade indesejada.

Sheila Heti se debruça nessa questão sem esquecer de citar o passado — e o presente — das mulheres que nunca puderão escolher, as raízes da narradora-personagem, a questão do aborto, o peso da maternidade e o possível impacto disso na vida da mulher que escreve e faz arte e, no fim, a obra acaba servindo também para refletirmos sobre o peso de se fazer qualquer escolha, especialmente essas que são marcadas pelo tempo e por expectativas criadas por toda uma vida inserida em um sistema que define o que mulheres e homens devem fazer.


Sheila Heti, autora do livro “Maternidade” é uma das convidadas da 17ª edição da Flip. No dia 11 de julho, às 17h, no auditório da Matriz, que fica na Praça da Igreja da Matriz (Paraty-RJ), ela participará da mesa “Bom conselho”, junto com Kristen Roupenian, a autora de “Cat person e outros contos”.


Tradutora da obra: Julia Debasse


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Futebol, mulheres e esporte: o campo ainda é um espaço de batalha

Divulgação

O futebol feminino não precisa passar por mudanças de tamanho de campo e gol para se tornar atrativo, como insinuam vários homens toda vez que o Brasil perde em uma grande competição como Copa do Mundo e Olimpíadas. Ele já é atrativo como é e essa Copa do Mundo na França deixou isso evidente.

Para melhorar a modalidade, especialmente no Brasil, precisa-se de investimento desde a base para que as meninas comecem a treinar e competir bem novas, como é padrão para os meninos. O problema é que, além da falta de interesse dos clubes, da CBF e afins, nossa sociedade ainda tende a desencorajar meninas a praticarem futebol.

As meninas que gostavam de jogar bola, ainda que sem intenção de competir, sabem o quanto todos ao redor tentam empurrá-las para o balé, para o jazz ou mesmo para o vôlei. “Muito bruto”, eles dizem e tentam criar nelas medo da bola, dos chutes, dos encontrões. Se isso não funciona e elas continuam, eles esperam que as meninas se cansem de pedir para os meninos permissão para jogar. Eles querem que, com as negativas de participação nas aulinhas de futebol do clube, no futebol de rua e nos jogos do intervalo da escola, elas percebam que não são bem-vindas. Felizmente, nem todas desistem, apesar dos esforços coletivos para isso. A verdade é que nem quando havia lei impedindo elas de jogarem bola, muitas não se deixaram intimidar. Os esportes ensinam a persistência como um caminho e esse aprendizado guiou as mulheres do futebol desde sempre.

Por meio do decreto-lei 3199/41, o futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos com a justificativa de que sua prática era incompatível com a natureza das mulheres. Além do futebol, o futsal, o futebol de areia, o polo, o polo aquático, lutas de qualquer natureza, o rugby, o beisebol e o halterofilismo também foram vedados para mulheres por esse documento legal. Isso impactou o desenvolvimento do esporte feminino no Brasil, apesar da resistência de grupos como o Araguari Atlético Clube e da primeira árbitra de futebol do mundo, Léa Campos.

A mentalidade de que o futebol e as demais modalidades citadas no decreto não são esportes adequados para mulheres ainda sobrevive culturalmente, apesar do documento em questão ter perdido sua validade em 1979. As meninas e mulheres que seguem jogando fazem isso por teimosia e paixão, sendo consideradas intrusas, sendo ofendidas com termos como “maria homem” e vivendo isso tudo sem apoio da família, dos professores ou dos colegas. A visibilidade dada aos últimos jogos da seleção feminina parece uma boa oportunidade para fazer esses caminhos de mudança se tornarem permanentes e mais efetivos, mas é necessário levar em conta que a questão das mulheres no futebol se entrelaça com a das mulheres nos esportes e, além de tudo que se relaciona com a modalidade em questão, é preciso entender que os esportes num todo não são incentivados para meninas, a não ser por motivos estéticos como emagrecimento ou crescimento, e traçar estratégias para transformar essa realidade.

As práticas esportivas nos ensinam muito sobre disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer, mas a falta de incentivo e muitas vezes de acesso afeta o desenvolvimento pessoal de meninas e mulheres, como escrevi no meu texto sobre o livro As Esportistas.

Nossa cultura machista cria obstáculos para mulheres praticarem esportes, especialmente esses colocados como “coisa de homem”. Mesmo meninas que, como eu, cresceram praticando acabam se afastando de esportes na adolescência porque entendem que esse espaço não é delas ou mesmo porque a divisão sexual do trabalho começou a atuar em seus cotidianos e agora há a obrigação de limpar, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos ou até filhos nas horas vagas.

As trajetórias amadoras das meninas e mulheres no esporte, especialmente no futebol e nas artes marciais, expõem o quanto essas restrições, sejam elas culturais ou mesmo legais, tem a intenção, ainda que inconsciente, de não permitir que mulheres descubram os limites, capacidades e características de seus corpos.

O corpo ativo, que ocupa espaços, testa limites e tudo mais não pode ser o que é considerado feminino. O corpo feminino é para parir, servir, enfeitar, ser passivo, segundo o machismo, e é por isso que o mundo dos esportes ainda é considerado deles, mesmo nas modalidades não consideradas masculinas.

Meninos e homens encaram o esporte como território próprio, inclusive de socialização, e assim as práticas esportivas se conectam facilmente com diversão. As praças, parques, clubes, quadras comunitárias e as ruas brasileiras são tomadas por meninos. Eles podem ocupar esse espaço. Podem e devem. Eles são os donos da bola. Não todos, claro. Meninos considerados afeminados ou gordos ou fãs das modalidades esportivas ‘erradas’, por exemplo, também se sentem fora do lugar, ficam deslocados e são excluídos, como as meninas que tentam participar desse espaço.

O controle dos nossos corpos, comportamentos e subjetividades se soma sempre para não permitir que meninas e mulheres descobram o que são capazes de fazer. Para que todos, inclusive meninos, possam descobrir suas potencialidades, a educação igualitária e o fim desses padrões de gênero tão castradores é necessária. Além de resolver as questões de acesso que envolvem desigualidade econômica, claro.

A discussão do futebol feminino, seu desenvolvimento e das mulheres no esporte perpassa pelo aprofundamento do debate sobre machismo e estereótipos do que é feminino e masculino. O esporte deve ser visto como um espaço para todos, independente do gênero, etnia, orientação sexual, tamanho, peso e corpo. Só assim para o acesso às quadras, campos e bolas deixaram de ser uma batalha.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Longe de casa: narrativas de mulheres obrigadas a se deslocar

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Guerras, conflitos internos, violência generalizada, perseguição política, étnica ou religiosa e variadas violações de direitos humanos obrigam pessoas a abandonarem suas casas e comunidades todos os dias. A ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) afirma que nos últimos dez anos o número de deslocados cresceu em mais de 50% e que há mais de 70,8 milhões* de pessoas no mundo nessa situação, sendo quase 60% delas oriundas de somente três países: Sudão do Sul, Afeganistão e Síria, com um crescimento considerável de pedidos de asilo feitos por venezuelanos nos últimos anos.

Esses deslocamentos, que podem ser internos ou envolver outros países, são marcados pela necessidade de ir embora numa busca por um mínimo de segurança e dignidade. Não há muita escolha quando ficar envolve tanto risco e sair de casa, algumas vezes só com a roupa do corpo, é uma questão de sobrevivência.

Malala Yousafzai, a pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz, sabe muito bem disso. Em 2009, quando ainda era uma anônima, a ativista e sua família tiveram que abandonar temporariamente a casa onde viviam no Swat devido a uma ação do exército paquistanês para expulsar o Talibã daquelas áreas. Alguns anos mais tarde, no final de 2012, depois de Malala sofrer um atentado grave motivado pela sua luta pela educação feminina, a família passou a viver no Reino Unido para fugir das ameaças que não cessavam.

A vida dos Yousafzai, como a de muitos, foi marcada pelo deslocamento forçado e agora, com o livro “Longe de casa”, Malala compartilha com o mundo a saudade que sente de seu lar e nos apresenta oito histórias de jovens mulheres nessa situação.

A diversidade de nacionalidades e motivações das colaboradoras da obra enriquecem bastante o livro, porque ajudam o leitor a ter uma noção da dimensão do problema em si e a perceber o quanto certas partes do globo são muito mais vulneráveis do que outras.

A invisibilidade dos conflitos e realidades que motivam os deslocamentos com certeza colabora com a visão estereotipada de muitos sobre o que é ser refugiado ou mesmo imigrante e carrega em seu cerne uma negligência com o que aflige o Outro. Sabemos muito pouco sobre o que acontece no Sudão do Sul, Iêmen, Congo, Myanmar e outras localidades e países, por exemplo, e isso diz muito sobre como o mundo trata a vida de parcela da população mundial como irrelevantes.

A história de Ajida, uma myanmarense que junto com sua família abandonou sua comunidade com medo da violência que poderia atingi-la por ser rohingya e cruzou a fronteira para chegar em Bangladesh, não é só sobre refúgio, é, principalmente, sobre a fuga de uma população da ameaça de genocídio e isso não pode ser esquecido.

Esse depoimento pontua também a questão do deslocamento motivado por questões ambientais e climáticas quando Ajida conta que mesmo já em Bangladesh todos os assentados tiveram que ser transferidos para outro campo com a chegada das monções e o aumento do risco de inundações. Com o aquecimento global, deslocamentos com esse viés já são uma realidade e poderão se intensificar.

Além disso, os relatos nos fazem pensar também sobre os refugiados que não são vistos juridicamente como parte desse grupo apesar de terem se deslocado numa situação em que não se via muitas escolhas. Analisa, por exemplo, é uma jovem guatemalteca que chegou aos Estados Unidos de maneira ilegal. Ela cruzou a fronteira do México e correu todos os riscos que conhecemos como parte da jornada do imigrante. Sua trajetória, para muitos, pode ser encarada como algo que foge do refugiado comum e da abrangência legal do termo, mas seu depoimento faz parte do livro, o que torna tudo que é dito ali ainda mais político. Ainda mais em tempos de construção do Muro de Trump.

“Longe de casa” tem como trunfo abordar direitos humanos em primeira pessoa. Esse livro de Malala Yousafzai é um grito coletivo de muito significado político em um formato que facilmente cria pontes com quem não tem familiaridade com o tema. Seu único defeito talvez seja ter colocado o foco em mulheres deslocadas, mas não abordar com a atenção necessária a violência sexual que ameaça as que vivem essa experiência.

*Os dados apresentados no livro escrito por Malala apontam o número de 68,5 milhões de refugiados, mas as estatísticas mais recentes, que contam com a influência da crise humanitária na Venezuela e um aumento considerável de deslocados de Myanmar e Somália , dizem que já são 70,8 milhões de pessoas nessa situação de deslocamento forçado. A ONU alerta que esse número pode ser ainda maior na realidade.


Esse texto foi escrito e publicado no dia 20 de junho, Dia Mundial do Refugiado. Essa data foi criada com a finalidade de conscientizar o mundo sobre a situação desse grupo social. Saiba mais sobre esse tema e ações relacionadas a ele no site da ACNUR.


Tradutora da obra: Lígia Azevedo


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Cat Person e outras histórias: o lado sombrio das relações

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Kristen Roupenian é uma das autoras convidadas para a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Evento que acontecerá do dia 10 a 14 de julho desse ano. Seu nome foi o primeiro a ser anunciado na agenda do evento, mesmo ela sendo uma estreante no mundo dos livros.

Sua importância se deu porque a autora protagonizou um fenômeno da literatura contemporânea após sua história “Cat Person” se tornar viral ao ser publicada na revista “The New Yorker” no final de 2017. O conto de Kristen foi um dos mais acessados da biografia da publicação e moveu debates intermináveis na internet durante dias, despertando, inclusive, até mesmo haters. A partir dessa história, muito se comentou sobre liberdade, consentimento, objetificação e trocas virtuais. Temas que receberam um baita holofote nos últimos anos graças aos debates feministas, especialmente a partir dos primeiros passos do #MeToo, episódio que se iniciou semanas antes da publicação do conto.

“Cat person” é especial por expor, em um texto cheio de camadas, aspectos quase invisíveis das relações de poder entre homens e mulheres. Em poucas páginas, a autora nos faz refletir sobre o quanto a paquera, mesmo marcada pela modernidade das mensagens de texto e de uma certa liberdade sexual feminina, ainda reproduz expectativas a partir de estereótipos de gênero e dominação masculina. Ainda há obrigações que mulheres acreditam ter por terem gerado uma certa expectativa e direitos que homens acham que merecem.

Essa história chegou ao Brasil traduzida pela Ana Guadalupe em um livro, publicado pela Companhia das Letras, que reúne mais onze contos escritos pela Kristen Roupenian. Em comum, todos falam sobre poder e tratam sobre aspectos sombrios da humanidade. Suas histórias, no geral, carregam em seu cerne uma estranheza e, em alguns casos, mesmo quando envoltos de realismo, características que dialogam com filmes de suspense psicológico e até terror.

A obra e estilo de Kristen nos deixam desconcertados, especialmente quando ela escreve sobre consentimento, a arte do flerte e todos os estereótipos envolvidos nisso. “Cara legal”, “Seu safadinho”, “Não se machuque” e “Vontade de morrer” são bons exemplos de como ela explora esse tema de uma maneira que incomoda e choca por expor as problemáticas que se fazem presentes nos relacionamentos humanos.

“Look at your game, girl” é uma narrativa que também merece destaque e mexe, principalmente, com mulheres. Nesse texto, a autora mostra como a violência rodeia o feminino desde que somos muito jovens e explora o medo que toda essa dinâmica causa na gente, evidenciando como essas histórias marcam nossas identidades. Esse conto, analisado a partir do contexto de toda a obra, ainda nos faz pensar no quanto as relações de poder são moldadas também pelos acontecimentos que circundam nossas vidas. O medo que nos acompanha talvez seja parte essencial do desequilíbrio de poderes nas relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres.

“Cat Person e outros contos” tem como trunfo a maneira que Kristen Roupenian aborda as relações humanas, a complexidade de seus vínculos, seus perigos e o quanto o poder mexe com a humanidade, especialmente quando ninguém parece estar observando.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Cultura do estupro: o que a reação das pessoas ao Caso Neymar diz sobre nossa sociedade?

Neymar vestindo a camisa 10 da seleção brasileira em campo

Desde que a acusação de estupro contra Neymar saiu na mídia, muito se discute sobre o comportamento da possível vítima. Esse é o modus operandi da cultura do estupro. Especialmente quando o acusado usa o comportamento sexual da mulher como um meio de tentar provar sua inocência.

Mesmo que o jogador seja inocente na acusação de estupro, sua tentativa de defesa pública partiu de estereótipos de gênero, misoginia e de noções bem erradas do que é consentimento. Além de tudo, houve a propagação de imagens íntimas da mulher em questão, o que por si só configura crime e também pode ser visto como uma tentativa de intimidação bem característica do fenômeno chamado de pornografia de vingança. Toda a exposição do caso e da possível vítima feita pelo Neymar, seu pai, Datena e outros evidencia o poder e influência que o atleta tem e como a sociedade legitima que ele o use contra essa mulher como uma maneira de silenciá-la.

A partir desse caso e a reação da sociedade ao que é dito, exposto ou suposto, mesmo sem qualquer veredicto sobre Neymar, temos a chance de debater sobre o que é estupro e combater esses pensamentos que fazem tanta gente considerar que a manifestação prévia de uma certa disponibilidade sexual é necessariamente um impeditivo para que tenha havido abuso e como essa visão colabora com a ideia de que certas mulheres são consideradas estupráveis e outras não.

Para entender tudo isso é preciso se perguntar sobre o porquê das defesas de crime de estupro, profissionais ou feitas pelo próprio acusado, sempre apelarem para essa abordagem em que o foco recai na vítima que é cobrada a se provar idônea o tempo todo.

O estupro é abordado historicamente, inclusive pelo Direito, pela ótica masculina e patriarcal que vê as mulheres como manipuladoras e traiçoeiras quando se trata de sexo, sedução e afins. A ideia de que o valor feminino estava ligado à virgindade alimentava ainda mais essa visão, porque esse seria um motivo que faria mulheres que “cederam à tentação do sexo” mentirem e a possível vida sexual fora do casamento um sinal de que a mulher em questão já seria impura, logo pouco confiável e propensa a fraude. Isso, somado ao fato de que o corpo feminino é considerado propriedade e direito dos homens, sedimentou a prática de colocar a vítima como foco em caso de violência sexual. Isso é tão forte que há quem defenda, ainda hoje, que não existe estupro dentro de casamentos usando o argumento de que esse contrato social e jurídico envolve necessariamente obrigação de sexo.

Quando se coloca uma possível vítima de estupro no centro de um tribunal público em que se discute, principalmente, o comportamento sexual dessa mulher que acusa, a mensagem que se passa é a de que mulheres ativas sexualmente são corpos disponíveis, logo impossíveis de serem estupradas.

É preciso reiterar que o fato de dizer sim uma vez não é sinônimo de um sim eterno ou que esse sim atinge todas as práticas sexuais possíveis. Sexo é algo que parte de interesse, respeito e combinados mútuos. Sua palavra-chave é consentimento e ele pode ser retirado a qualquer momento e ainda assim precisa ser respeitado. Topar transar não é topar fazer tudo que o outro quer. Topar sexo agora não impede a pessoa de mudar de ideia 10 minutos depois.

A noção deturpada de consentimento faz com que mulheres se sintam confusas sobre terem ou não sofrido violência, principalmente em casos de date rape e estupro marital. O imaginário social do que é estupro ainda é o da vítima pega de surpresa e com extrema violência em um beco escuro de noite, o que torna difícil o reconhecimento do crime de primeira por quem vive situações que envolvem paquera, interesse e envolvimento ou por quem não se vê no papel de vítima ideal por já ter transado ou querido transar com o agressor.

Estamos todos acostumados demais com a desumanização das mulheres, o que dificulta que a gente olhe para possíveis vítimas femininas de homens, especialmente aqueles poderosos e públicos envolvidos em casos de date rape, com empatia. As estranhezas que podemos enxergar em um relato podem ser sintomas de estresse pós-tramático ou parte de um processo de distanciamento e negação, por exemplo. Quando se trata sobre estupro, podemos, mesmo sem querer, nos amparar em noções distorcidas pelo machismo e misoginia do que se é ou não violência sexual e de quem pode ou não ser vítima dela.

Esse texto não é sobre condenar ou absolver o Neymar socialmente, é, principalmente, sobre como nossa sociedade encara a violência sexual e o corpo das mulheres. Mesmo que esse caso acabe se tornando um exemplo raríssimo de falsa acusação, a reação da sociedade perante o tribunal sexual montado pelo Neymar diz muito sobre o mundo que vivemos e o que é e como se manifesta a cultura do estupro.


Obs: Esse texto surgiu a partir de dois tweets que fiz para o Ativismo de Sofá e foi publicado, originalmente, em minha página pessoal no Facebook. Se você gostou dessa leitura, deixe suas palmas, faça um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Facebook e Twitter.