Chinua Achebe é considerado um dos maiores nomes da literatura do século XX. Sua trajetória como romancista, poeta, crítico literário e intelectual o tornou conhecido no mundo inteiro, inclusive por sua atuação como mediador de conflitos políticos de sua região. Seu trabalho como escritor, além de inspiração, acabou fazendo o mercado literário tão europeizado e estadunidense se abrir um pouco para a literatura produzida na Nigéria.
Quase 85 anos depois do nascimento de Chinua e 28 anos depois de Wole Soyinka ganhar Nobel de Literatura em 1986, Chimamanda Ngozi Adichie ganhou o mundo após ter um trecho de uma de suas palestras citado numa música da Beyoncé. Com a Nigéria de novo sendo observada como um ótimo berço literário, escritoras como Buchi Emecheta, Sefi Atta e Ayòbámi Adébáyò também conseguiram um espaço internacional sendo publicadas em vários outros países. Dentre as várias obras recentes que tornaram a Nigéria conhecida entre os fãs brasileiros de literatura, “Fique Comigo”, da nigeriana Ayòbámi Adébáyò, é um destaque.
Nesse romance, o leitor acompanha Yejide em sua jornada para se tornar mãe e todas as questões familiares, pessoais e culturais que afetam suas decisões, sentimentos e reflexões a respeito. A narração do livro é dividida entre ela, a protagonista, e Akin, seu marido, ambos contando a história do casamento deles, a partir de suas impressões, segredos, arrependimentos, sofrimentos e enganos.
Além dos assuntos da vida privada, a obra também aborda de maneira tangencial acontecimentos políticos e sociais que envolveram a Nigéria durante a década de 80 e, inclusive, cita Chinua Achebe, mostrando a importância dele para a sociedade nigeriana. Além disso, muito do contexto político e social narrado por Ayòbámi se relaciona com o livro “Hibisco Roxo” da Chimamanda e essa conexão torna ambas as leituras ainda mais ricas.
“Fique comigo” explora o quanto as pressões sociais relacionadas ao machismo são capazes de destruir mulheres, homens e relações, especialmente quando a família é colocada como algo central por todos, apesar de ser uma instituição que se importa mais com a maneira que seus membros são vistos pela sociedade do que em cuidar e acolher os seus. Os papéis de gênero tão reforçados pelas famílias de Yejide e Akin machucam todos, especialmente Yejide, que, marcada pela solidão, tende a aceitar tudo com medo de perder o pouco que conseguiu.
Doloroso, aflitivo e envolvente, esse romance explora temas como maternidade, casamento, poligamia, masculinidade, luto, solidão e machismo. Ler a história de Yejide e Akin é se permitir viver uma imensa gama de emoções, sendo a raiva talvez uma das predominantes, porque a obra expõe uma faceta da cultura nigeriana que é muito cruel com as mulheres.
Se você é um leitor ávido por histórias emocionantes e bem escritas, tem curiosidade sobre a literatura produzida fora do eixo EUA-Europa e se interessa em refletir sobre a condição da mulher no mundo, esse livro é uma ótima opção de leitura para você.
Tenho visto muita gente pedindo dicas de livros disponíveis no Kindle Unlimited ultimamente, assinando o serviço pela primeira vez ou perguntando se o catálogo disponível vale ou não a pena. Por isso, decidi montar uma listinha com algumas dicas que podem ajudar os assinantes ou possíveis assinantes a aproveitarem melhor o que o K.U. tem a oferecer.
A primeira e mais importante recomendação é lembrar vocês, leitores, que os títulos do catálogo do Kindle Unlimited podem mudar a qualquer momento. O que, por óbvio, pode tornar as obras aqui listadas obsoletas nesse sentido mais cedo ou mais tarde. Por isso, além de recomendar títulos específicos, tentei comentar também um pouco sobre os livros e contos que podem ser adquiridos por fora da assinatura.
Antes de conferir a lista, lembre-se que explorar e sair da sua zona de conforto literária também pode ser muito interessante e a facilidade para se fazer isso a partir do K.U. é uma de suas maiores vantagens.
Esse romance em verso narrado em primeira pessoa por uma mulher durante diferentes idades foi premiado pelo Prêmio São Paulo de Literatura em 2018. Sensível, impactante e de certa forma violento, o livro mexe com o leitor de maneira profunda ao falar sobre as perdas que podem acontecer na vida de uma mulher. Leia minha resenha completa aqui.
Ana Paula Maia é uma das escritoras brasileiras mais originais da atualidade. Com histórias que abordam temas como violência, sangue, morte e sobrevivência, ela produz uma literatura marcante e de alta qualidade. A originalidade desse mundo criado pela autora se repete em diversos de seus livros, assim como o personagem Edgar Wilson. Além do título já citado, os livros “Carvão Animal” e “De gados e homens” também estão disponíveis no serviço.
Assim como o livro “O peso do Pássaro Morto”, esse romance publicado pela Editora Nós, também é narrado pela protagonista e também aborda com uma delicadeza tremenda questões que permeiam a existência, especialmente a feminina. Mas, diferente do livro da Aline Bei, “Se deus me chamar não vou” é escrito inteiramente por uma criança de onze anos, fala também sobre escrita e aborda o tema da família de um jeito muito atual. Solidão, insegurança e relações familiares e escolares são o foco dessa obra.
El Salvador sob a ótica de um homem que odeia esse país, odeia militares e odeia quase todas as outras coisas que existem. É intenso, incômodo e diz muito sobre a América Latina. Além de ser também uma forma de paródia literária. O personagem do livro tem todo um discurso inflamado, às vezes verdadeiro, às vezes cruel, às vezes até elitista. A leitura é bem interessante, porque você entende alguns incômodos do personagem, enquanto o considera um insuportável. Bem escrito e provocativo, a obra nos ajuda a pensar sobre a força do militarismo e do discurso meritocrático na região. (Tradução: Antônio Xerxenesky).
Também da Editora Nós, esse livro fala da complexidade das relações humanas, das cicatrizes que carregamos e como a vida é feita de costuras, suturas e questões que surgem nos momentos mais banais. “Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos trunfos do livro é a presença de vários personagens não heterossexuais e histórias que exploram questões comuns com uma atenção especial.
A autora, estreante, foi uma das selecionadas pela 1ª Edição do Edital de Publicação de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Uma das obras mais interessantes do aclamado escritor chileno Alejandro Zambra, “Múltipla escolha” é um livro estruturado como se fosse um vestibular, no caso um vestibular específico aplicado de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile. O formato curioso é ousado, mas isso não ocasiona qualquer perda na qualidade do texto literário. Ainda que tenha passagens marcadas por um certo humor, questões sociais, éticas e morais permeiam todo o texto. Questões relacionadas ao passado ditatorial do país, críticas ao mundo desigual e ao formato da educação tradicional ser limitante e talvez até autoritária são alguns dos pontos abordados pelo livro. Assim como o Asco, essa obra também dialoga bastante com a América Latina no todo. (Tradução: Miguel Del Castillo).
Também contemplada pela 1ª Edição do Edital de Publicação de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Gabriela Soutello apresenta, pela editora Pólen e selo Ferina, uma obra híbrida e cheia de ritmo, que reúne contos sobre solidão e relações entre mulheres formando, para muitos, um único universo.
Essa é uma dica especial para quem gosta de acompanhar os contos da Seane Melo aqui no Medium. Essa é uma obra interessante para quem curte explorar histórias que falam sobre sexo e relacionamentos em um tom moderno e realista. Como leitora, posso afirmar que apesar de não ser bem a minha zona de conforto literária, gostei bastante do humor e do uso de elementos da contemporaneidade. Conheça mais sobre a editora Quintal aqui.
Considerado um dos 100 melhores livros de todos os tempos pelo The Guardian em maio de 2002 e listado posteriormente pela Time de outubro de 2005 como um dos 100 melhores livros em inglês escritos desde 1923, Mrs. Dalloway tem uma versão disponível no catálogo. Com tradução de Denise Bottmann, você pode conhecer os pensamentos de Clarissa, uma socialite ficcional que vive na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial.
Como um matador de aluguel se cria? Patrícia Melo, que fala bastante de violência, poder, desigualdade, ódio e masculinidade, nos conta nessa obra de ficção que tanto dialoga com a realidade.
Além de livros completos, há muitos contos avulsos no Kindle Unlimited. Durante minhas assinaturas, tentei ler algumas obras de autores nacionais para conhecer trabalhos de escritores contemporâneos que se lançaram de forma independente a partir da ferramenta de autopublicação da Amazon. Segue então algumas dicas:
Contos de Olívia Pilar
Olívia Pilar foi um dos meus achados preferidos. Para quem gosta de histórias de amor com toques cotidianos e se liga em questões como representatividade de pessoas negras e sáficas, recomendo. Entre estantesfoi minha história preferida, mas Pétala e Dia de Domingo também valem a pena.
Contos de Clara Madrigano
Os melhores contos soltos que li na plataforma foram os da Clara, provavelmente porque as temáticas que ela aborda são as mais próximas do meu gosto padrão para leituras rápidas. A autora é ótima para criar suspense e é capaz de formular histórias muito incômodas mesmo usando poucas páginas. Dela recomendo Dodge, que é o meu preferido, e o Boneca.
Nesse conto, o Nordeste não faz mais parte do Brasil e coisas estranhas acontecem. O fantástico nessa história não aparece no formato de sempre. Quem gosta do filme Bacurau provavelmente vai gostar dessa história. Como é um conto curto, parece a introdução de um universo ficcional mais amplo, mas funciona bem sozinho.
Assim como Olívia Pilar, Lethycia oferece uma história fofa e curta sobre amor entre mulheres. Leitura fluida, rápida, leve e bem jovem. Um dos trunfos do livro é a maneira que ela aborda a questão da internet como um meio de conhecer pessoas e fazer amigos.
Raízes de fogo, de Carol Vidal, é sobre a importância de voltar às origens, tirar certas narrativas da invisibilidade e assim achar seu espaço no mundo. Um dos trunfos do conto é que seu enredo acontece no norte do Brasil e a fantasia que o envolve fala de magia, museus, retorno às heranças ancestrais e investigação de artefatos de povos originários. Resenha aqui.
Depois do texto já construído e estruturado, me lembrei de algumas outras obras que li fora da assinatura do Kindle Unlimited, mas que depois descobri que também estão disponíveis no serviço:
Dica extra para fãs de livros que exploram muito a linguagem!
Desesterro da Sheyla Smanioto venceu o Prêmio SESC de Literatura na categoria Romance em 2015. Esse é um livro cheio de cenas que parecem misturar sonhos e memórias, vozes e mulheres, tudo construído com um certo lirismo que torna a obra interessantíssima. O livro também aborda a sobrevivência e a morte na pobreza e como a miséria afeta as mulheres. Além de ser uma obra escrita de uma maneira que faz o leitor ficar perdido no tempo/espaço, o que parece indicar repetição, memória e sonho.
Dica extra para fãs de livros que falam de memória, solidão e cotidiano!
Mar Azul da Paloma Vidal é um livro que trabalha temas como amizade, saudade, conexão, morte do pai, estar e não estar, solidão e memória a partir do cotidiano de uma mulher já idosa que agora vive em terra estrangeira. Esse é um livro que li numa era pré-Kindle e amei tanto que assim que descobri que ele estava disponível também para os assinantes do KU, tive que vir adicionar a dica na lista.
Se interessou em assinar o Kindle Unlimited? Clique aqui caso a promoção em destaque acima não seja válida para você. Está pensando em comprar um e-reader? Saiba mais sobre os modelos de Kindle disponíveis aqui. O meu é o novo Kindle Paperwhite à prova d’água, mas há outras opções que podem caber melhor na sua rotina e no seu bolso.
“Leia Hilda” diz um pixo famoso que surgiu em alguma cidade que não é a minha nas proximidades da Flip que homenageou a autora em 2018. Apesar de não gostar nem um pouco de obedecer, demorei um pouco, mas assim o fiz. Demorei, demorei mesmo, tudo porque a fama de hermética da autora me atrai e me repele. Quero conhecer, me causa curiosidade, mas eu temo não ser capaz de entender e me sentir um fracasso completo por isso. A gente tem disso, né? Não só morremos de medo de não saber, não conhecer, descobrir que existe todo um mundo desconhecido por nós, como também tememos não sermos capazes de perceber a presença de algo a um palmo da cara, algo que sempre esteve ali e só a gente não viu. A gente quer saber tudo, mas também não quer. Então, acabamos pensando pouco sobre certos assuntos para não termos que admitir nossa ignorância, seguindo sempre com medo do desconhecido.
Hillé não. A Senhora D pensa sobre tudo isso. Ela é uma investigadora, não de crimes ou pessoas, mas do sentido da vida, da mortalidade, de deus, alma e todas essas palavras abstratas demais. Hillé quer conhecer o desconhecido, investigá-lo profundamente, falar com deus. Hillé quer ultrapassar as barreiras entre os vivos e os mortos, ela quer saber. Ela é uma perguntadora, logo uma pessoa que blasfema. E como blasfema.
Em “A obscena Senhora D”, tempo e espaço se misturam. Hillé, em luto, fala com seus mortos no hoje, no agora, mas também volta ao passado. A perseguição da personagem pelo desconhecido é tanta que ela já não vive tanto o presente como a maioria das pessoas. Ehud, seu último morto, era quem a prendia nesse mundo. O livro acontece com a personagem vivendo entre os limites do conhecido e desconhecido. Desse lugar, ela vivencia sua perda. Desse lugar, ela pode circular no tempo, tudo se mistura, e ela nos faz refletir sobre loucura, morte, luto, sociedade e quem de fato somos, corpo, nome, pessoa, uma ou fragmentada.
Dizem que esse livro é a obra mais autobiográfica da autora. Há uma menção à Casa do Sol, Hillé dialoga com o pai morto sobre loucura, sendo que o pai de Hilda sofreu por anos com a esquizofrenia, Senhora D, de derrelição, fala da amizade com a Senhora L, que parece ser a Lygia Fagundes Telles, Hillé conversa e, principalmente, pergunta aos mortos, como Hilda de fato fez como experimento.
Como escritora, Hilda parece sempre estar pronta para perseguir o desconhecido, questionar o divino, profanar figuras. Nós, como leitores dela, precisamos fazer um esforço interpretativo para entender com quem a protagonista de sua obra fala, do que fala, como fala. Talvez a sensação de entender tão pouco aconteça justamente porque não é para entender tudo mesmo, porque o que importa é a busca, a perseguição, os questionamentos, não as respostas, porque não há respostas.
Ler Hilda é como mergulhar numa fossa abissal. Você nada no escuro, mas sabe que ao seu redor está cheio de vida. Hilda domina tanto as palavras que sabe até fazer com que o leitor perca o sentido delas. Ela consegue tornar até mesmo o conhecido um pouco mais desconhecido.
Observações:
Minha aventura exploratória pelo universo desconhecido das obras de Hilda Hilst mal começou. “Júbilo, memória, noviciado da paixão” será minha próxima leitura dela.
Minha primeira vez com a autora foi acompanhada. O livro “A obscena Senhora D” foi lido no Leia Mulheres Divinópolis de junho/20. A partir dessa experiência, posso dizer que esse é um ótimo livro para leitura coletiva, porque ler pensando que você vai debater ajuda a gente a formular até o nosso próprio não entendimento.
O posfácio da edição mais recente do livro pela Companhia das Letras é muito bom. Quando você termina a obra e se sente perdido, com mais perguntas do que imaginava ter, você encontra um afago ali. Um “é assim mesmo” que confirma um tanto de coisa que você pensou, sem deixar de acrescentar informações fruto de pesquisa e debate.
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Já tem uns dias que quero escrever sobre esse livro da Aline Bei. Até pensei em um bom título — “O peso do Pássaro Morto: corpo, trauma e solidão” — mas nada sai. Alguns livros são irresenháveis por mim. O título pomposo e um parágrafo introdutório que não diz muita coisa ficam eternamente no rascunho, enquanto me coço para comentar todos os detalhes que quero destacar sem me importar com spoilers.
Um saco isso de spoilers, né? A gente escreve sobre livros muitas vezes só porque a gente quer falar sobre eles, mas essa limitação estraga tudo. Talvez seja por isso que eu agora só queira saber de promover leituras coletivas. Nesse tipo de espaço, todo mundo já leu e spoilers são liberados e a gente pode ficar falando numa boa do que seria proibido em uma resenha. Falando nisso, sabia que “O peso do pássaro morto” foi um dos livros mais lidos nos clubes do Leia Mulheres ano passado? Tá vendo? Todo mundo quer ler e comentar. Talvez contar uma história própria que dialogue com a do livro. Falar de forma genérica não tem muita graça. Aposto que em todo encontro teve alguém falando: “Avassalador”. Eu sei que eu falaria. Talvez também tenha sempre alguém que não consegue conter as lágrimas.
Nessa luta para escrever alguma coisa sobre o livro da Aline Bei, ontem consegui formular toda uma estrutura e várias ideias. Um dos parágrafos que pensei era muito bom e tinha só spoilers leves, aqueles que só provocam o leitor a procurar o livro com tanta avidez que ele até clica e compra um exemplar usando o meu link da Amazon. O problema é que fiz isso alguns segundos antes de dormir e dormi. Muitas vezes quando isso acontece, assim que começo a escrever a resenha no outro dia, me lembro o que queria dizer e tudo funciona muito bem, só que hoje acordei no susto, com um barulho de Mate Couro caindo no chão, estourando e molhando meu gato inteiro de refrigerante. A primeira coisa que fiz ao acordar não foi escovar dentes, fazer xixi, beber água ou pegar o celular, foi passar shampoo a seco em um gato bonito demais para ser verdade. O que significa que eu esqueci o que ia escrever e nem ler os destaques que fiz no livro no Kindle adianta alguma coisa agora. O Mate Couro caiu, estourou e todas as minhas melhores ideias foram para o ralo.
Lembro que em algum momento eu ia dizer que Aline Bei ganhou com esse livro o Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos. Um prêmio é sempre um prêmio, né? Acho uma boa jogada para convencer o leitor lembrar que a obra já foi lida, validada e aplaudida não só por mim, a autora da resenha. Só que uma resenha nunca pode falar só sobre isso. Ela fica sem alma. Ainda que eu não acredite em alma, acho que resenhas possuem uma e essa alma pode escapar do texto se você for formal demais e esquecer de acrescentar suas impressões pessoais da leitura. O problema dessa minha resenha entretanto é justamente o contrário. Ela tem a alma já sebosa de tanta informação pessoal não solicitada.
O livro, narrado em primeira pessoa em verso, começa com as memórias dos oito anos dessa protagonista sem nome, mesma idade que começa o livro de memórias da Vivian Gornick chamado “Afetos Ferozes”*. Oito anos parece ser um marco na memória de personagens reais ou ficcionais. Oito anos parece ser uma idade em que passamos a ter noção do nosso corpo, do corpo do outro e nossa identidade já existe o suficiente para que as lembranças que ficam fiquem mesmo e pareçam ser nossas. Oito anos é a idade em que nos tornamos um pouco mais sólidos e fixos. Provavelmente porque é quando paramos um pouco de orbitar em torno de nossos pais.
Os oito anos da personagem sem nome que protagoniza o livro da Aline Bei também é um marco porque é a idade que ela tem quando começa a perder, ou melhor, sofre sua primeira perda. E esse livro é um livro sobre perdas e como elas nos afetam e como certas perdas são bem específicas do gênero feminino. A própria autora falou uma vez que quando decidiu escrever sobre perdas sabia que a protagonista-narradora teria que ser uma mulher, por causa de toda opressão que cerca a existência feminina. Por isso é triste, avassalador e impactante. E esse sofrimento se intensifica porque essa história mostra o quanto o trauma dessas perdas torna a dona delas mais solitária. Os traumas criam mais um obstáculo entre ela e o mundo, inclusive o filho.
Só que o livro não fica só nos oito anos dessa mulher. A criança de imaginação fértil que de repente precisa aprender a lidar com a morte, segue. E dali avança aos dezessete, aos dezoito, aos vinte e oito e vai indo até os cinquenta e dois anos, enquanto tenta ser uma pessoa, não só uma acúmulo de perdas, culpas e memórias. E, apesar de tudo, ela vive, ela continua, ela existe, ela está ali até deixar de estar.
E também, apesar de tudo, acho que terminei essa resenha.
*Tem leitura coletiva organizada por mim sobre o livro Afetos Ferozes rolando agora em junho/julho. Saiba mais aqui.
Aprendi ainda criança a diferença de estórias e histórias. O termo que começa com vogal, considerado arcaico para muitos mesmo quando eu estudei sua existência, servia para designar as coisas folclóricas, as narrativas populares, os “causos” e contos ficcionais, enquanto a história com H e sem plural era sobre o estudo do passado, a ciência que tenta entender o hoje a partir do que um dia se deu, o estudo dos fatos reais.
Hoje usamos história para tudo, podendo colocar no plural para falar principalmente de ficção. O que me parece acertado, porque às vezes o que chamaríamos de estórias com E são narrativas essenciais para entender o que diz a história com H. Essa história que parte de documentos oficiais, das narrativas mais importantes e que às vezes vem de uma parcela mínima de uma população e é usada para falar de todo um tempo e contexto.
“A Casa dos Espíritos”, primeiro e mais famoso romance de Isabel Allende, é uma dessas obras que, apesar de ser ficcional, ajuda o leitor a entender o que se passou em um país durante parte do século XX. A partir de um drama familiar, a autora expõe o Chile como ele foi, ainda que parta de uma narrativa que vem de participantes de uma certa elite. Violências, disputas, desigualdades, são todas expostas, enquanto Isabel Allende trabalha também ideias abstratas como a força do amor, dos afetos, das trocas, da delicadeza e generosidade, sem esquecer de antagonizar tudo isso com horror do ódio e da negação da realidade.
O romance tem uma narrativa marcada por uma exposição crítica de fatos sociais e históricos do Chile, como a Ditadura Militar e o acirramento de ânimos causado pela desigualdade e a manipulação e uso do poder e do dinheiro pela elite. E, apesar do realismo cru de certas passagens, como o uso e a violência do corpo das mulheres mais pobres por parte dos patrões, há também muita magia. Essa magia que é colocada como marca da literatura latino-americana, apesar da força do cristianismo na região.
Espíritos, previsões, superstições, sabedorias ancestrais, mapas astrais, toda essa espiritualidade solta, que tenta ser livre de dogmas, aparece na obra como uma manifestação da necessidade de se manter além daquela violência terrena. No meio de tanto sangue e dor, a magia e as histórias fantásticas parecem ser uma maneira de manter algo maior vivo, algo próximo do amor. Algo que parece faltar nesse mundo que no livro se manifesta como o mais próximo do real possível e critica e expõe o que foi o Chile.
Isabel Allende nos entrega uma obra que nos faz pensar nos laços familiares, na complexidade dos afetos e como as disputas que ocorrem dentro de casa são uma manifestação do resto do mundo ao redor. Esse mundo ao redor que parece estar sempre pronto para explorar corpos ditos femininos e fazer mais uma tragédia latino-americana acontecer.
“A Casa dos Espíritos” tem uma força especial porque a mera existência dessa história ficcional serve como lembrança de um período histórico que ainda sofre com tentativas de disputas de narrativas. Esse é um livro que evoca a importância da memória, tanto no sentido privado, quanto público, da cultura e do repúdio ao autoritarismo e exploração a partir da desigualdade, inclusive a entre homens e mulheres.
Nesse sentido, esse clássico nos ajuda a pensar no passado ditatorial da América Latina e do Brasil e, infelizmente, também no que se passa hoje, em maio de 2020. Estamos cada vez mais distantes do que aprendemos a chamar de democracia. Parece ter restado apenas uma espécie de carcaça democrática que vive da continuidade daquilo que ainda não foi aparelhado e da possibilidade de denúncia midiática. O resto parece já ter ido embora ou estar em processo de.
É impossível não pensar se vamos ficar “só” nisso ou se nesse afã de entregar tudo ao estrangeiro, militares e elite iremos chegar até as torturas, ameaças e desaparecimentos de novo, além dos que acostumamos a ver dentro do regime democrático como um vestígio de nossa história. E também é impossível não pensar nas consequências que a omissão proposital a respeito do coronavírus e o negacionismo científico sobre a pandemia podem causar.
Me parece até que, mesmo sem qualquer aparição, Clara ou seus espíritos estão tentando falar com todos nós, nos colocando alertas ao que pode vir acontecer ao nos lembrar do que já aconteceu. Tudo a partir do livro, que mostra até onde a força do ódio pode chegar e nos faz refletir sobre o quanto certos governos, como o de Bolsonaro, parecem ter como premissa deixar morrer. E o quanto eles agem ativamente para fazer essa agenda acontecer além da doença que nos encerra em casa no momento. Sempre com ameaças de serem mais ativos ainda. Com ameaças que parecem um retorno ao passado que eles adoram negar enquanto o homenageiam. Um passado que é lembrado de forma literária e crítica por Isabel Allende nessa obra publicada em 1982, quando tudo isso ainda era bem recente e próximo e as narrativas estavam em plena disputa.
“Acho que ser quem a gente é — de verdade, e por inteiro — sempre vai exigir nadar contra a corrente.”
Como é ser uma celebridade? Como é ser uma mulher celebridade na Hollywood dos anos 50, 60, 70? O que a fama te dá e te tira? Quão próximo e quão distante pessoas famosas estão de nós, reles mortais? Nesse livro de Taylor Jenkins Reid, traduzido para o português por Alexandre Boide, recebemos algumas respostas para essas perguntas, ainda que a partir de um romance ficcional.
“(…)se você disser para uma mulher que sua única qualidade é ser desejável, ela vai acreditar”
Evelyn Hugo é uma estrela, uma sex symbol, um ícone. Ela protagonizou filmes, ganhou um Oscar e viu seu nome se tornar personagem principal de escândalos e notinhas de casamento. Evelyn Hugo se casou sete vezes. Evelyn Hugo é tudo que as revistas de fofoca sempre desejaram acompanhar. Só que aos oitenta anos de idade e acompanhada de Monique Grant, uma jornalista escolhida a dedo, apesar de não ter muita notoriedade, ela quer contar sua verdadeira história.
“As pessoas não são muito solidárias e acolhedoras com uma mulher que põe a própria carreira em primeiro lugar.”
Quase como uma personagem de Sydney Sheldon, Evelyn Hugo surgiu do nada usando sua beleza, charme e vontade de se provar e viver uma vida diferente da pobreza que conhecia. Desde muito jovem, percebeu que ser desejada a colocava em risco, mas também podia proporcionar chances únicas, se ela aprendesse a jogar aquele jogo em que as peças poderosas são todas homens e as mulheres são meros peões.
Guiada pela ambição, a personagem da atriz é muito bem construída. Ainda que esteja no papel de narradora e seu relato apresente sua visão das coisas e a verdade que ela quer mostrar, o que é contado apresenta para Monique as facetas não tão glamourosas de Hollywood, como a objetificação, o incentivo à rivalidade feminina presente no meio, as mentiras, a manipulação, os jogos de poder, as estratégias de marketing e a escolha pelo silêncio. Como mero peão no jogo da fama, Evelyn até conseguiu se sair bem, mas nem tudo saiu tão barato assim.
“Ah, eu sei que o mundo prefere mulheres que não têm noção do próprio poder, mas estou de saco cheio disso.”
Como uma boa história de bastidores, a obra é instigante. Queremos saber quem é a verdadeira Evelyn Hugo, o que ela esconde, quem ela amou de verdade e o porquê dela ter escolhido Monique Grant como sua biógrafa. A história nos envolve totalmente, talvez por causa do recurso de intercalar cenas do presente com a narração das memórias da atriz ou até mesmo com notinhas de fofoca. Mas, muito mais do que estrutura, o que provavelmente nos atrai na obra é a complexa construção das duas personagens principais e o fato de que o livro nos ajuda a criar uma nova ideia, talvez mais realista, do que as mulheres que conhecemos como as mais bonitas da história do cinema podem ter vivido.
A trajetória de Evelyn Hugo em relação aos desafios e avanços do século XX e do início do XXI — SPOILERS A PARTIR DAQUI — ESTEJA AVISADO
Muito além da fama, da objetificação, do casamento e da ambição feminina, “Os sete maridos de Evelyn Hugo” trata de temas como bissexualidade, homossexualidade, carreira, dinheiro, violência doméstica, sexo e poder.
Ainda que Evelyn Hugo seja uma personagem ficcional e tenha conquistado quantias de dinheiro inimagináveis para a maioria de nós, sua trajetória nos faz refletir sobre as antigas regras vigentes no século XX e que, a partir de muita luta, começaram a ser quebradas.
Evelyn talvez tenha pensado que assim que atingisse a fama, estaria minimamente protegida dos destinos comuns das mulheres de sua época, mas se enganou. Apesar de tudo que pôde alcançar por causa da fama e o dinheiro, a pressão para cima dela em relação aos casamentos, filhos, carreira e beleza existiu e acabou funcionando como uma forma de colocar ela e todas as outras mulheres no seu devido lugar. Controlá-la era impedi-la de mostrar que a vida poderia ser diferente. Puni-la também.
A protagonista dessa história lidou com agressões domésticas e com o peso de ter que esconder sua sexualidade e o amor que vivia de todos. No primeiro caso, todos estavam prontos para fingir não ver as marcas de violência e, no segundo, qualquer mínimo indício poderia fazer sua carreira e de quem a apoiava vir por água abaixo.
“Ser desejada significava a obrigação de satisfazer os outros”
Por mais que fosse famosa, ela era apenas mais uma peça que poderia proporcionar lucro para alguém. O que lembra o #MeToo e as denúncias de mulheres, muitas atrizes famosas, de violência sexual. Tudo muito recente, mostrando que Hollywood ainda joga com a vida e a dignidade das mulheres como bem entende e sempre está pronta para acabar com carreiras femininas para salvar as masculinas.
O armário
O amor da vida de Evelyn, a sex symbol, a mulher que os homens desejavam e as mulheres queriam ser, foi também atriz. Esconder o relacionamento foi um desafio para ambas, porque estar em Hollywood envolvia ter que promover ideais de amor heterossexual, lindo, limpo e feliz. E ela, como objeto de desejo, jamais poderia se mostrar dessa forma.
“Ser bissexual não significa ser infiel […] Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”
A atriz, para conseguir o que queria, preencheu todas as suas dúvidas com a certeza de que era preciso esconder, ludibriar, viver aquilo sempre de maneira secreta. Isso também teve um preço.
Nesse sentido, a escolha da autora de citar os sentimentos de esperança que a Revolta de Stonewall evocou nos personagens e como foi feita a decisão deles de apoiar aquele momento a partir do dinheiro e não com uma saída pública do armário foi muito certeira. Especialmente para mostrar o pragmatismo envolvido.
“Imagina se todas as mulheres solteiras do planeta exigissem alguma coisa em troca de seus corpos. Vocês seriam as donas do mundo. Um exército de pessoas comuns. Só homens como eu teriam alguma chance contra vocês. E isso é a última coisa que esses cretinos querem: um mundo comandado por gente como eu e você.”
Violência doméstica
“Em briga de marido e mulher não se mete a colher” é um ditado muito popular no Brasil e que reproduz uma ideia que vai muito além do nosso território. O que acontece dentro de um casamento não é da conta dos outros, mas a regra só vale no caso de manter a violência doméstica naturalizada e escondida e as mulheres seguindo as regras. Como o casamento é sempre colocado como um sonho, função e responsabilidade feminina, tudo fica nas costas delas. Qualquer sinal de fracasso, inclusive a própria violência, é lido socialmente como sinal das falhas femininas.
Evelyn Hugo sente esse peso comum a todas as mulheres ainda hoje e também o da indústria que a emprega e está mais interessada em vender o casal feliz, lindo e queridinho da América do que em protegê-la. A indústria do cinema aqui assume o papel que muitas vezes é da família da vítima, dos parentes do algoz e até o da própria igreja ou mesmo delegacias e judiciário.
Evelyn Hugo se silenciou sobre o que passou e anos mais tarde descobriu que outra atriz que casou com seu ex-marido passou pelo mesmo ao ouvir um doloroso “por que você não me avisou?”. É impossível não pensar em como todo o contexto de competição de mulheres contribuiu para que elas não tenham trocado esse tipo de informação e na importância de manter essa lógica de rivalidade para garantir que os homens continuem podendo tudo, mesmo em espaços que mulheres parecem ser tão poderosas.
As mulheres retratadas na obra fazem tudo para se sobressair. E esse tudo pode envolver até trabalhar com o próprio agressor por querer muito fazer um filme. Decisão que pode incomodar, mas que parece ter sido colocada pela autora para expor quem é essa personagem e o que ela faria para manter seus segredos bem guardados e realizar seus desejos.
“Todo mundo acaba se vendendo por uma coisa ou por outra.”
Motivações
Depois de conhecer os detalhes dessa história, entendemos melhor o que Evelyn Hugo quer ao contá-la nessa altura da vida. Ela quer que sua trajetória passe a ter um significado político, ainda que para isso tenha que admitir falhas, covardias, silêncios, manipulações, dúvidas e arrependimentos. Apesar de tanta exposição, a personagem narra sua vida para a Monique conforme a imagem que quer passar e também como analisa suas próprias memórias.
Evelyn Hugo é uma ficção
Como atriz, Evelyn construiu uma personagem para apresentar ao público, enquanto vivia sua vida. Essa mulher, além de ícone, era humana, com tudo que isso significa. Assim como Monique Grant, a amamos e a odiamos, porque a conhecemos na intimidade. Mas seria Evelyn tão assertiva e decidida quanto ela quer que a gente pense que é? Nunca saberemos.
Nesse conto, recém-lançado na Amazon, Carol Vidal narra uma história de descoberta, ancestralidade, trauma e amizade. Em poucas páginas, a autora constrói um cenário bem brasileiro, com a história se passando na Ilha de Marajós, e apresenta ao leitor imagens únicas como a de uma revoada de guarás.
O tempo e a memória são temas que perpassam todo o conto. Carol usa essas questões para aproximar o leitor dos sentimentos da protagonista e para, em segundo plano, também possibilitar reflexões sobre o pouco que conhecemos sobre a origem do nosso país e o perigo da história única que apaga da memória coletiva a resistência, o conhecimento e o patrimônio de diferentes povos.
Conhecemos muito da mitologia greco-romana e quase nada sobre a mitologia das diversas etnias indígenas que vivem ou viveram no território hoje conhecido como Brasil. Exploramos a magia e a imaginação a partir de livros e filmes como a série Harry Potter, mas pouco criamos ou lemos ou mesmo assistimos obras que tratam sobre histórias fantásticas que se passam longe de Londres, em ambientes bem mais próximos de nós. Carol quebra com esse padrão ao trazer um enredo que acontece no norte do Brasil e que fala de magia, museus, retorno às heranças ancestrais e investigação de artefatos de povos originários como uma forma de contar uma história.
“Raízes de fogo” é sobre a importância de voltar às origens, tirar certas narrativas da invisibilidade e assim achar seu espaço no mundo. O conto acaba com gostinho de quero mais. Quando sentimos que conheceremos mais a protagonista e a história de seus pais e seu povo, o fim do livro chega. Uma pena. Dá vontade de pedir a continuação. Que essa história seja o prólogo de uma maior.
Em 20 de abril de 1999, dois garotos brancos, Eric e Dylan, entraram na escola em que estudavam com armas e bombas caseiras prontos para morrer levando o maior número de pessoas junto com eles. Columbine era o nome do colégio e também da região que o circundava. Columbine se tornou nome e referência de um massacre escolar que teve 13 vítimas fatais, fora os assassinos, e 21 feridos.
Columbine também se tornou título de um livro de Dave Cullen, escritor e jornalista estadunidense considerado uma grande referência desse episódio. A obra, fruto de uma investigação que durou dez anos, reconta essa história e revisita esse crime com responsabilidade, desmistificando boatos, buscando respostas e expondo as consequências do massacre na vida de vítimas, famílias e comunidade.
Quando lemos livros que abordam crimes, especialmente crimes que se tornaram referência para outros como é o caso do Massacre de Columbine, tememos que aquela obra sirva, de alguma forma, para inspirar imitadores. Mas continuamos lendo, porque o que nos move, enquanto leitores e pessoas, é tentar entender os porquês, buscar respostas, encontrar um mecanismo de prevenção, qualquer coisa que seja capaz de evitar que aconteça de novo. Queremos entender o que aconteceu para poder reencontrar a lógica que aquele crime nos fez questionar. Queremos encaixar o que aconteceu no que chamamos de humanidade, sociedade, pessoas. Queremos respostas para perguntas que nem sabemos fazer.
Dave Cullen parece ter escrito esse livro guiado pela mesma inquietação, essa motivada também pelo que ele aprendeu ao se debruçar pelo caso e viu acontecer na comunidade. Justamente por isso, a obra trabalha tanto a questão da mídia na cobertura desse crime e retoma o passado que, para muitos, deveria ser esquecido. “Como falar do passado pode ajudar?”, alguns podem questionar. Com sua escrita, o jornalista e escritor busca corrigir os erros relacionados ao caso, refletir sobre o crime e repensar abordagens.
Os atiradores
Eric e Dylan são personagens importantes dessa história e seus diários, históricos e atitudes recebem bastante atenção de Dave e especialistas. A partir de comentários trazidos no livro, entende-se que Eric era um típico psicopata e, por isso, mentiroso excelente, e Dylan tinha tendências suicidas, depressão e, por incrível que pareça, falava muito de amor quando escrevia. Entende-se também que eles planejaram o crime por um ano e que houve pistas do que vinha a seguir. Seus pequenos delitos, por exemplo, e até mesmo trabalhos escolares e tiração de onda entre colegas.
Um dos pontos de destaque é o quanto os assassinos se consideravam superiores aos outros, ainda que essa sensação de superioridade os afetasse de maneiras diferentes. Questão que é importante ser levantada porque, conforme Dave Cullen expõe, a maioria de atiradores e criminosos do tipo são homens brancos, que formam o grupo social com mais poder. No ataque não havia preferência por vítimas, mas ainda assim tudo que se viu nos diários, no perfil e nos crimes de imitadores indicam que há algo na masculinidade branca a ser debatida.
Ao traçar o perfil psicológico dos autores do crime e revisitar o diário deles, se percebe o quanto a questão sempre foi muito mais complexa do que a narrativa de párias, bullying, videogame e música. Queremos respostas e soluções fáceis, mas isso não existe em casos como esse.
O crime
O massacre de Columbine não foi um sucesso para os seus autores. As bombas colocadas na cantina do colégio no carro dos assassinos falharam. Não houve o show pirotécnico que eles esperavam. Dave comenta que é importante ressaltar isso porque espalhar essa informação pode ajudar a quebrar o simbolismo criado em torno do crime e dos seus perpetuadores. E, junto com outras informações, ampara o entendimento de que Columbine foi um assassinato de espetáculo, como outros que vieram a seguir, e a mídia e a sociedade precisam ter conhecimento disso para saber reagir a esse tipo de crime sem fazer surgir novos “mitos”.
Comunidade: onde passado, presente e futuro se encontram
O controle de armas nos EUA, tão pedido desde antes mesmo desse acontecimento, continua sem existir, ainda que outros crimes que envolvam ataques em massa e armamento não parem de acontecer. As igrejas, que acolheram muitos, também agiram como se o massacre possibilitasse uma melhor propagação de sua fé e isso causou dor a muitos envolvidos e ajudou criar, inclusive, conflitos entre famílias. O luto não foi e nem é igual para todo mundo. O Estado falhou ao esconder que havia investigações sobre as bombas, ameaças e Eric, fora outros delitos que incluíam diretamente Dylan, anteriores ao crime. Boatos foram criados sobre o crime e ainda são difundidos. A mídia errou em muita coisa em sua cobertura. O crime passou a servir de inspiração para outros. A escola continuou a existir e tudo indica que isso foi algo bom. Cada sobrevivente segue sua vida e, para muitos deles, encarar essa continuidade faz bem porque significa que os assassinos “perderam”. Columbine, a cada ano que passa, felizmente se torna de novo Columbine-área-e-escola e não Columbine-crime.
Passado, presente e futuro foram afetados e nada no massacre possui uma explicação simples. Por isso não dá para fingir que simplesmente não aconteceu. Por isso, a gente se debruça nessas quase 500 páginas querendo encontrar qualquer coisa que mostre o que podemos aprender com o que passou. Dave Cullen, a partir de suas reflexões, mostra que a mudança na cobertura é um começo. É preciso contar a história das vítimas, de suas famílias e se aprofundar na comunidade sem interferir e inferir demais. É preciso olhar para o passado e não cometer os mesmos erros. Pena que um deles, que é o acesso fácil às armas nos EUA, siga na mesma linha mesmo vinte anos depois, apesar de, ao menos teoricamente, restringir ser a coisa mais fácil e óbvia a fazer.
Uma reportagem publicada no início de outubro de 2017 pela New York Times expôs, com bastante consistência, os assédios sexuais cometidos durante décadas pelo produtor Harvey Weinstein e a maneira que acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade foram utilizados para obter o silêncio por parte de suas vítimas, todas elas relacionadas a ele profissionalmente. A publicação dessa matéria, e de diversas outras que vieram a seguir, iniciou um debate que ganhou o mundo e teve um impacto especial nos EUA.
A denúncia do comportamento de Harvey Weinstein e outros homens poderosos e a quebra do silêncio de mulheres das mais diversas áreas permitiu que a sociedade começasse a tirar de debaixo do tapete relatos e denúncias que serviram para expor o quanto homens, das mais diversas áreas, incluindo negócios, tecnologia, política e cinema, aproveitam o poder que possuem para explorar e pressionar sexualmente as mulheres que os cercam.
Essas histórias demoraram tempo demais para serem contadas. E, a partir da leitura do livro “Ela disse”, escrito por Jodi Kantor e Megan Twohey, jornalistas vencedoras do Prêmio Pulitzer, podemos entender melhor o porquê.
A saga narrada pelas autoras da reportagem inicial sobre Harvey Weinstein mostra o quanto o produtor usava seu poder e influência, financeiros e não-financeiros, para conseguir acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade e barrar possíveis reportagens e investigações jornalísticas sobre ele. Fica evidente que isso funcionou por tanto tempo também porque as mulheres e suas denúncias sempre foram negligenciadas em nossa sociedade. Afinal, ao menos no mundo pré #MeToo, ele era um homem difícil e elas deviam saber — e aceitar — isso.
A obra nos ajuda a entender o quanto a investigação, escrita e publicação dessa matéria foi um processo demorado, perigoso e delicado, especialmente entre jornalistas e fontes. Enquanto elas pesquisavam, conversavam com mulheres e buscavam documentos, o cerco do ex-produtor e seus acobertadores se fechava em torno delas, colocando vítimas e jornalistas numa situação passível de intimidação.
Ninguém queria falar on the record sobre o caso. Medo, culpa, raiva, vergonha, vontade de fugir e, claro, cláusulas de confidencialidade eram obstáculos. Ninguém queria falar sozinha ou ser uma das primeiras a abrir o jogo publicamente. As jornalistas, entretanto, sabiam que precisavam de alguma declaração oficial para conseguir dar substancialidade à denúncia. E elas conseguiram e as matérias que vieram a seguir mostraram que quando uma fala, outras também se encorajam a falar.
Além do caso em si, o livro trata também de momentos pré e pós publicação da primeira matéria contra o produtor, colocando outros casos em evidência, como as acusações contra Trump e ao juiz Brett Kavanaugh. Tratar essas três histórias em conjunto permite que o leitor contextualize a força dessas denúncias e também compreenda melhor o backlash misógino que as sucederam.
Em um dos melhores momentos da leitura, o leitor se depara com o relato dos bastidores de uma conversa organizada pelas jornalistas com diversas mulheres denunciantes de homens por assédio sexual. A troca narrada ali envolveu atrizes e ex-assistentes do mundo do showbizz e também mulheres comuns como Kim Lawson, atendente de uma rede de fast food, e Christine Blasey Ford, a mulher que denunciou sozinha Brett Kavanaugh e enfrentou uma sabatina no Senado para tentar barrar que o seu algoz se tornasse parte da Corte Suprema dos EUA. É nessa parte que a gente entende, de verdade, o poder da primeira matéria e a importância do fenômeno #MeToo para as mulheres. Apesar dos pesares, o silêncio foi quebrado e todas essas mulheres, por mais diferentes que sejam, entenderam que não estavam sozinhas e precisavam agir por elas e pelas outras. Exatamente como Ashley Judd, atriz, ativista e uma das primeiras a denunciar o ex-produtor, acreditava desde o início.
Enquanto eu escrevia essa resenha, o julgamento criminal do ex-produtor Harvey Weinstein acontecia. A sentença desse caso tinha o condão de mostrar o poder da voz das mulheres ou o quanto ainda precisaríamos caminhar para finalmente sermos ouvidas.
Depois de cinco dias de júri em Nova York, ele foi condenado por dois dos cinco crimes que foi acusado e ainda enfrentará outro julgamento de agressão sexual na Califórnia. Alguns detalhes do processo demonstram que o #MeToo e todos os debates fomentados por feministas nos últimos tempos começou a transformar a forma que a sociedade vê as vítimas de violência sexual e mulheres no geral, mas ainda há um longo caminho pela frente. Um exemplo disso é que quando a defesa acusou que as vítimas mantiveram contato com Harvey após a “suposta” violência e e que elas eram responsáveis pelas escolhas que fizeram para promover suas carreiras, a promotoria soube mostrar o quanto essa argumentação era irrelevante e ignorava relações de poder.
Tradutoras da obra: Débora Landsberg, Denise Bottmann, Isa Mara Lando e Julia Romeu.
Uma mulher, bonita e bem vestida, cuida dos filhos, da casa e espera seu marido chegar para jantar. Ela usa vestidos acinturados não muito curtos, brincos e colares, um corte chanel bem penteado e a maquiagem da moda. Ela é a cara do american way of life da época e todos os produtos relacionados a ele e poderia ser personagem das propagandas vintage que hoje usamos para decorar nossas casas por causa da estética interessante ou para criticar como o mundo enxergava as mulheres.
Dessa mulher, esperamos um comportamento submisso, solícito, dócil e, claro, bem maternal. Seja na vida real ou na ficção. Só que o mundo não é feito de estereótipos e obras como a história em quadrinho “Lady Killer”, escrita por Joëlle Jones e Jamie S. Rich e traduzida por Raquel Moritz, exploram outros lados possíveis desse clichê. Nessa HQ, conhecemos Josie Schuller, uma mulher exemplar para época, exceto por ser também uma assassina de aluguel nas horas vagas. Horas que, ao contrário do que muitos imaginam, não são muito raras quando se exerce tantas funções consideradas edificantes.
Uma mulher, especialmente nos anos 50, precisa cuidar de sua imagem, tempo e família. Por isso, seus horários não são tão flexíveis como o de um homem. Afinal, ela precisa de desculpas para se ausentar. E, claro, isso a afeta no trabalho. Homens, sejam colegas ou patrões, não costumam ser muito compreensíveis com o peso de tarefas domésticas na rotina das trabalhadoras que os cercam, mesmo quando elas entregam o que é pedido e são super competentes no que fazem. Josie lida com isso, com o assédio e com os riscos típicos do seu serviço e é essa a história que move a obra.
Em seu trabalho, Josie usa e abusa de outros estereótipos de gênero voltados para as mulheres. Ela vende produtos de beleza de casa em casa para poder entrar nos lares das pessoas que precisa matar, circula facilmente em bairros residenciais e age como femme fatal para atrair os homens marcados para morrer. Ela sabe que poucos esperam que mulheres matem e faz disso um trunfo profissional que, apesar de tudo, não parece ser o suficiente para seu chefe, que lucra com a habilidade dela de disfarce e de assassinato, mas se incomoda em ver uma mulher fazer algo assim e ser tão boa nisso.
Joëlle Jones e Jamie S. Rich brincam o tempo todo com o que se espera da feminilidade. Josie é uma mulher ideal em quase todos os sentidos e transita entre as várias representações possíveis do feminino no imaginário social padrão da época, enquanto também luta, estrangula, envenena e mata.
Além do roteiro, merece destaque o estilo dos desenhos, todos de Joëlle, e o uso das cores, trabalho de Laura Allred. Além do vintage, há algo noir neles e a representação da violência contrasta sempre com essa exaltação da feminilidade da personagem e com o que se espera das mulheres. Inclusive quando elas ilustram.