Toda vez que vejo vocês falando de bicicleta me dá vontade de falar isso aqui ó

Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.

Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.

Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.

Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.

Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.

Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.


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Sobre o medo de perder dinheiro e pertencer ao passado

Josh Appel

Toda vez que faço compras online, eu fico muito tensa com medo de algo acontecer e eu não receber meu produto em casa. Não gosto de achar que perdi dinheiro. Nem imagino como deve ser investir na bolsa e conviver com variações diárias de perdas, mesmo que às vezes tenha ganhos. Muitos ganhos. Ganhos que provavelmente eu nunca vou ter, porque não invisto na bolsa e dinheiro para poder fazer isso com tranquilidade me parece uma ficção. Na verdade, especulação. Gostou da piada ruim? Fiz para te fazer pensar que talvez eu entenda o suficiente para ser pessimista tendo trinta anos e vivendo o capitalismo tardio. Me parece desperdício de tempo, energia e grana. Quem quer arriscar perder grana? Sei lá. Quem quer aprender ganhar dinheiro com tragédia? Todo mundo? Me parece errado correr esses riscos, financeiros e morais.

Mesmo nos meus dias mais loucos, eu devo ser conservadora nos meus costumes bancários. Se bem que nem tanto. Eu amo conta digital, carteiras que oferecem cashback quando você gastar e essas praticidades novas. Teve uma época que até segui o Picpay nas redes sociais e bem recentemente tentei edital cultural de banco tradicional. Na verdade, eu até sei o que é LCI, fundo de investimento e corretora. Eu já até investi dinheiro, pouco, claro, mas é porque não dá para deixar na poupança também, entende?

Eu só não gosto de achar que vou perder dinheiro. Quando faço uma compra online, eu morro de medo que o produto desapareça no mundo e eu não consiga reembolso, ou até consiga, mas só depois de tempo demais de espera e dúvida. Tem hora que o temor muda e se torna um medo de esquecer de pedir o reembolso porque passei muita raiva, troquei muito e-mail, li e ouvi mil vezes que o produto foi enviado e eles não podem se responsabilizar por mais nada além daquilo. Talvez eu me assuste com a possibilidade do tempo passar e eu esquecer para que precisava daquilo quando tocarem o interfone me avisando que minha encomenda chegou. Na verdade, eu tenho receio mesmo é de acabar apagando o e-mail que eu precisava para confirmar o número do meu pedido ou ter errado na hora de preencher o meu próprio endereço. Ou algo assim.

Eu não sou muito organizada, sabe? E nada que eu faça me impede de receber muito spam e eu já acatei que o meu destino é ter sempre uma Caixa de Entrada caótica. Eu também tenho medo de pagar o boleto. Ou pagar repetido. Inclusive já paguei uma vez e vi minha conta seguinte vir abatida depois de uma conversa tranquila com uma atendente de telemarketing com sotaque pernambucano que nem me julgou por ser tão lerda.

Nada me dá segurança numa compra online. Nada. E isso me faz me sentir meio negacionista, meio meu pai, meio como se eu me tornasse cada dia uma boomer, ou pior, uma millennial-boomer. Nada me dá mais medo do que isso, ainda que eu saiba que o tempo passa e quem nasceu no século XIX já deve estar rindo de mim usando o celular. Nem tiktok eu tenho instalado.


Esse texto foi originalmente publicado em minha newsletter e saiu também pelo site Salto Quebrado. Se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

“Fique comigo” e a dor de uma mulher nigeriana

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Chinua Achebe é considerado um dos maiores nomes da literatura do século XX. Sua trajetória como romancista, poeta, crítico literário e intelectual o tornou conhecido no mundo inteiro, inclusive por sua atuação como mediador de conflitos políticos de sua região. Seu trabalho como escritor, além de inspiração, acabou fazendo o mercado literário tão europeizado e estadunidense se abrir um pouco para a literatura produzida na Nigéria.

Quase 85 anos depois do nascimento de Chinua e 28 anos depois de Wole Soyinka ganhar Nobel de Literatura em 1986, Chimamanda Ngozi Adichie ganhou o mundo após ter um trecho de uma de suas palestras citado numa música da Beyoncé. Com a Nigéria de novo sendo observada como um ótimo berço literário, escritoras como Buchi Emecheta, Sefi Atta e Ayòbámi Adébáyò também conseguiram um espaço internacional sendo publicadas em vários outros países. Dentre as várias obras recentes que tornaram a Nigéria conhecida entre os fãs brasileiros de literatura, “Fique Comigo”, da nigeriana Ayòbámi Adébáyò, é um destaque.

Nesse romance, o leitor acompanha Yejide em sua jornada para se tornar mãe e todas as questões familiares, pessoais e culturais que afetam suas decisões, sentimentos e reflexões a respeito. A narração do livro é dividida entre ela, a protagonista, e Akin, seu marido, ambos contando a história do casamento deles, a partir de suas impressões, segredos, arrependimentos, sofrimentos e enganos.

Além dos assuntos da vida privada, a obra também aborda de maneira tangencial acontecimentos políticos e sociais que envolveram a Nigéria durante a década de 80 e, inclusive, cita Chinua Achebe, mostrando a importância dele para a sociedade nigeriana. Além disso, muito do contexto político e social narrado por Ayòbámi se relaciona com o livro “Hibisco Roxo” da Chimamanda e essa conexão torna ambas as leituras ainda mais ricas.

“Fique comigo” explora o quanto as pressões sociais relacionadas ao machismo são capazes de destruir mulheres, homens e relações, especialmente quando a família é colocada como algo central por todos, apesar de ser uma instituição que se importa mais com a maneira que seus membros são vistos pela sociedade do que em cuidar e acolher os seus. Os papéis de gênero tão reforçados pelas famílias de Yejide e Akin machucam todos, especialmente Yejide, que, marcada pela solidão, tende a aceitar tudo com medo de perder o pouco que conseguiu.

Doloroso, aflitivo e envolvente, esse romance explora temas como maternidade, casamento, poligamia, masculinidade, luto, solidão e machismo. Ler a história de Yejide e Akin é se permitir viver uma imensa gama de emoções, sendo a raiva talvez uma das predominantes, porque a obra expõe uma faceta da cultura nigeriana que é muito cruel com as mulheres.

Se você é um leitor ávido por histórias emocionantes e bem escritas, tem curiosidade sobre a literatura produzida fora do eixo EUA-Europa e se interessa em refletir sobre a condição da mulher no mundo, esse livro é uma ótima opção de leitura para você.


Tradução do livro: Marina Vargas


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Quer mais dicas de obras dos mais diferentes estilos? Confira essa listinha que saiu no site Salto Quebrado e acompanhe meu site!

10 livros e alguns contos para ler a partir do Kindle Unlimited

Acervo Pessoal

Tenho visto muita gente pedindo dicas de livros disponíveis no Kindle Unlimited ultimamente, assinando o serviço pela primeira vez ou perguntando se o catálogo disponível vale ou não a pena. Por isso, decidi montar uma listinha com algumas dicas que podem ajudar os assinantes ou possíveis assinantes a aproveitarem melhor o que o K.U. tem a oferecer.

A primeira e mais importante recomendação é lembrar vocês, leitores, que os títulos do catálogo do Kindle Unlimited podem mudar a qualquer momento. O que, por óbvio, pode tornar as obras aqui listadas obsoletas nesse sentido mais cedo ou mais tarde. Por isso, além de recomendar títulos específicos, tentei comentar também um pouco sobre os livros e contos que podem ser adquiridos por fora da assinatura.

Antes de conferir a lista, lembre-se que explorar e sair da sua zona de conforto literária também pode ser muito interessante e a facilidade para se fazer isso a partir do K.U. é uma de suas maiores vantagens.

O peso do Pássaro Morto — Aline Bei

Esse romance em verso narrado em primeira pessoa por uma mulher durante diferentes idades foi premiado pelo Prêmio São Paulo de Literatura em 2018. Sensível, impactante e de certa forma violento, o livro mexe com o leitor de maneira profunda ao falar sobre as perdas que podem acontecer na vida de uma mulher. Leia minha resenha completa aqui.

Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos — Ana Paula Maia

Ana Paula Maia é uma das escritoras brasileiras mais originais da atualidade. Com histórias que abordam temas como violência, sangue, morte e sobrevivência, ela produz uma literatura marcante e de alta qualidade. A originalidade desse mundo criado pela autora se repete em diversos de seus livros, assim como o personagem Edgar Wilson. Além do título já citado, os livros “Carvão Animal” e “De gados e homens” também estão disponíveis no serviço.

Se deus me chamar não vou — Mariana Salomão Carrara

Assim como o livro “O peso do Pássaro Morto”, esse romance publicado pela Editora Nós, também é narrado pela protagonista e também aborda com uma delicadeza tremenda questões que permeiam a existência, especialmente a feminina. Mas, diferente do livro da Aline Bei, “Se deus me chamar não vou” é escrito inteiramente por uma criança de onze anos, fala também sobre escrita e aborda o tema da família de um jeito muito atual. Solidão, insegurança e relações familiares e escolares são o foco dessa obra.

Asco: Thomas Bernhard em San Salvador — Horacio Castellanos Moya

El Salvador sob a ótica de um homem que odeia esse país, odeia militares e odeia quase todas as outras coisas que existem. É intenso, incômodo e diz muito sobre a América Latina. Além de ser também uma forma de paródia literária. O personagem do livro tem todo um discurso inflamado, às vezes verdadeiro, às vezes cruel, às vezes até elitista. A leitura é bem interessante, porque você entende alguns incômodos do personagem, enquanto o considera um insuportável. Bem escrito e provocativo, a obra nos ajuda a pensar sobre a força do militarismo e do discurso meritocrático na região. (Tradução: Antônio Xerxenesky).

Costuras para fora — Ana Squilanti

Também da Editora Nós, esse livro fala da complexidade das relações humanas, das cicatrizes que carregamos e como a vida é feita de costuras, suturas e questões que surgem nos momentos mais banais. “Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos trunfos do livro é a presença de vários personagens não heterossexuais e histórias que exploram questões comuns com uma atenção especial.

A autora, estreante, foi uma das selecionadas pela 1ª Edição do Edital de Publicação de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Resenha completa aqui.

Múltipla escolha — Alejandro Zambra

Uma das obras mais interessantes do aclamado escritor chileno Alejandro Zambra, “Múltipla escolha” é um livro estruturado como se fosse um vestibular, no caso um vestibular específico aplicado de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile. O formato curioso é ousado, mas isso não ocasiona qualquer perda na qualidade do texto literário. Ainda que tenha passagens marcadas por um certo humor, questões sociais, éticas e morais permeiam todo o texto. Questões relacionadas ao passado ditatorial do país, críticas ao mundo desigual e ao formato da educação tradicional ser limitante e talvez até autoritária são alguns dos pontos abordados pelo livro. Assim como o Asco, essa obra também dialoga bastante com a América Latina no todo. (Tradução: Miguel Del Castillo).

Ninguém vai lembrar de mim — Gabriela Soutello

Também contemplada pela 1ª Edição do Edital de Publicação de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Gabriela Soutello apresenta, pela editora Pólen e selo Ferina, uma obra híbrida e cheia de ritmo, que reúne contos sobre solidão e relações entre mulheres formando, para muitos, um único universo.

Digo eu te amo para todos que me fodem bem — Seane Melo

Essa é uma dica especial para quem gosta de acompanhar os contos da Seane Melo aqui no Medium. Essa é uma obra interessante para quem curte explorar histórias que falam sobre sexo e relacionamentos em um tom moderno e realista. Como leitora, posso afirmar que apesar de não ser bem a minha zona de conforto literária, gostei bastante do humor e do uso de elementos da contemporaneidade. Conheça mais sobre a editora Quintal aqui.

Mr. Dalloway — Virginia Woolf

Considerado um dos 100 melhores livros de todos os tempos pelo The Guardian em maio de 2002 e listado posteriormente pela Time de outubro de 2005 como um dos 100 melhores livros em inglês escritos desde 1923, Mrs. Dalloway tem uma versão disponível no catálogo. Com tradução de Denise Bottmann, você pode conhecer os pensamentos de Clarissa, uma socialite ficcional que vive na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial.

O matador — Patrícia Melo

Como um matador de aluguel se cria? Patrícia Melo, que fala bastante de violência, poder, desigualdade, ódio e masculinidade, nos conta nessa obra de ficção que tanto dialoga com a realidade.


Além de livros completos, há muitos contos avulsos no Kindle Unlimited. Durante minhas assinaturas, tentei ler algumas obras de autores nacionais para conhecer trabalhos de escritores contemporâneos que se lançaram de forma independente a partir da ferramenta de autopublicação da Amazon. Segue então algumas dicas:

Contos de Olívia Pilar

Olívia Pilar foi um dos meus achados preferidos. Para quem gosta de histórias de amor com toques cotidianos e se liga em questões como representatividade de pessoas negras e sáficas, recomendo. Entre estantes foi minha história preferida, mas Pétala e Dia de Domingo também valem a pena.

Contos de Clara Madrigano

Os melhores contos soltos que li na plataforma foram os da Clara, provavelmente porque as temáticas que ela aborda são as mais próximas do meu gosto padrão para leituras rápidas. A autora é ótima para criar suspense e é capaz de formular histórias muito incômodas mesmo usando poucas páginas. Dela recomendo Dodge, que é o meu preferido, e o Boneca.

A noite tem mil olhos — Alec Silva

Nesse conto, o Nordeste não faz mais parte do Brasil e coisas estranhas acontecem. O fantástico nessa história não aparece no formato de sempre. Quem gosta do filme Bacurau provavelmente vai gostar dessa história. Como é um conto curto, parece a introdução de um universo ficcional mais amplo, mas funciona bem sozinho.

Mesmo que eu vá embora — Lethycia Dias

Assim como Olívia Pilar, Lethycia oferece uma história fofa e curta sobre amor entre mulheres. Leitura fluida, rápida, leve e bem jovem. Um dos trunfos do livro é a maneira que ela aborda a questão da internet como um meio de conhecer pessoas e fazer amigos.

Raízes de fogo — Carol Vidal

Raízes de fogo, de Carol Vidal, é sobre a importância de voltar às origens, tirar certas narrativas da invisibilidade e assim achar seu espaço no mundo. Um dos trunfos do conto é que seu enredo acontece no norte do Brasil e a fantasia que o envolve fala de magia, museus, retorno às heranças ancestrais e investigação de artefatos de povos originários. Resenha aqui.


Depois do texto já construído e estruturado, me lembrei de algumas outras obras que li fora da assinatura do Kindle Unlimited, mas que depois descobri que também estão disponíveis no serviço:

Dica extra para fãs de não-ficção!

Alguns ensaios que fazem parte do livro Mulheres, raça e classe” da Angela Davis, com tradução da Heci Regina Candiani, estão disponíveis para os assinantes do serviço: “Racismo no movimento sufragista feminino”, “Educação e libertação: a perspectiva das mulheres negras” e “Estupro, racismo e o mito do estuprador negro” são eles.

Dica extra para fãs de livros que exploram muito a linguagem!

Desesterro da Sheyla Smanioto venceu o Prêmio SESC de Literatura na categoria Romance em 2015. Esse é um livro cheio de cenas que parecem misturar sonhos e memórias, vozes e mulheres, tudo construído com um certo lirismo que torna a obra interessantíssima. O livro também aborda a sobrevivência e a morte na pobreza e como a miséria afeta as mulheres. Além de ser uma obra escrita de uma maneira que faz o leitor ficar perdido no tempo/espaço, o que parece indicar repetição, memória e sonho.

Dica extra para fãs de livros que falam de memória, solidão e cotidiano!

Mar Azul da Paloma Vidal é um livro que trabalha temas como amizade, saudade, conexão, morte do pai, estar e não estar, solidão e memória a partir do cotidiano de uma mulher já idosa que agora vive em terra estrangeira. Esse é um livro que li numa era pré-Kindle e amei tanto que assim que descobri que ele estava disponível também para os assinantes do KU, tive que vir adicionar a dica na lista.

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“A obscena Senhora D”: aprendendo a olhar para o desconhecido

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“Leia Hilda” diz um pixo famoso que surgiu em alguma cidade que não é a minha nas proximidades da Flip que homenageou a autora em 2018. Apesar de não gostar nem um pouco de obedecer, demorei um pouco, mas assim o fiz. Demorei, demorei mesmo, tudo porque a fama de hermética da autora me atrai e me repele. Quero conhecer, me causa curiosidade, mas eu temo não ser capaz de entender e me sentir um fracasso completo por isso. A gente tem disso, né? Não só morremos de medo de não saber, não conhecer, descobrir que existe todo um mundo desconhecido por nós, como também tememos não sermos capazes de perceber a presença de algo a um palmo da cara, algo que sempre esteve ali e só a gente não viu. A gente quer saber tudo, mas também não quer. Então, acabamos pensando pouco sobre certos assuntos para não termos que admitir nossa ignorância, seguindo sempre com medo do desconhecido.

Hillé não. A Senhora D pensa sobre tudo isso. Ela é uma investigadora, não de crimes ou pessoas, mas do sentido da vida, da mortalidade, de deus, alma e todas essas palavras abstratas demais. Hillé quer conhecer o desconhecido, investigá-lo profundamente, falar com deus. Hillé quer ultrapassar as barreiras entre os vivos e os mortos, ela quer saber. Ela é uma perguntadora, logo uma pessoa que blasfema. E como blasfema.

Em “A obscena Senhora D”, tempo e espaço se misturam. Hillé, em luto, fala com seus mortos no hoje, no agora, mas também volta ao passado. A perseguição da personagem pelo desconhecido é tanta que ela já não vive tanto o presente como a maioria das pessoas. Ehud, seu último morto, era quem a prendia nesse mundo. O livro acontece com a personagem vivendo entre os limites do conhecido e desconhecido. Desse lugar, ela vivencia sua perda. Desse lugar, ela pode circular no tempo, tudo se mistura, e ela nos faz refletir sobre loucura, morte, luto, sociedade e quem de fato somos, corpo, nome, pessoa, uma ou fragmentada.

Dizem que esse livro é a obra mais autobiográfica da autora. Há uma menção à Casa do Sol, Hillé dialoga com o pai morto sobre loucura, sendo que o pai de Hilda sofreu por anos com a esquizofrenia, Senhora D, de derrelição, fala da amizade com a Senhora L, que parece ser a Lygia Fagundes Telles, Hillé conversa e, principalmente, pergunta aos mortos, como Hilda de fato fez como experimento.

Como escritora, Hilda parece sempre estar pronta para perseguir o desconhecido, questionar o divino, profanar figuras. Nós, como leitores dela, precisamos fazer um esforço interpretativo para entender com quem a protagonista de sua obra fala, do que fala, como fala. Talvez a sensação de entender tão pouco aconteça justamente porque não é para entender tudo mesmo, porque o que importa é a busca, a perseguição, os questionamentos, não as respostas, porque não há respostas.

Ler Hilda é como mergulhar numa fossa abissal. Você nada no escuro, mas sabe que ao seu redor está cheio de vida. Hilda domina tanto as palavras que sabe até fazer com que o leitor perca o sentido delas. Ela consegue tornar até mesmo o conhecido um pouco mais desconhecido.


Observações:

  • Minha aventura exploratória pelo universo desconhecido das obras de Hilda Hilst mal começou. “Júbilo, memória, noviciado da paixão” será minha próxima leitura dela.
  • Minha primeira vez com a autora foi acompanhada. O livro “A obscena Senhora D” foi lido no Leia Mulheres Divinópolis de junho/20. A partir dessa experiência, posso dizer que esse é um ótimo livro para leitura coletiva, porque ler pensando que você vai debater ajuda a gente a formular até o nosso próprio não entendimento.
  • O posfácio da edição mais recente do livro pela Companhia das Letras é muito bom. Quando você termina a obra e se sente perdido, com mais perguntas do que imaginava ter, você encontra um afago ali. Um “é assim mesmo” que confirma um tanto de coisa que você pensou, sem deixar de acrescentar informações fruto de pesquisa e debate.

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Conversando sobre o “O Peso do Pássaro Morto” ou um papo estranho sobre resenhas

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Já tem uns dias que quero escrever sobre esse livro da Aline Bei. Até pensei em um bom título — “O peso do Pássaro Morto: corpo, trauma e solidão” — mas nada sai. Alguns livros são irresenháveis por mim. O título pomposo e um parágrafo introdutório que não diz muita coisa ficam eternamente no rascunho, enquanto me coço para comentar todos os detalhes que quero destacar sem me importar com spoilers.

Um saco isso de spoilers, né? A gente escreve sobre livros muitas vezes só porque a gente quer falar sobre eles, mas essa limitação estraga tudo. Talvez seja por isso que eu agora só queira saber de promover leituras coletivas. Nesse tipo de espaço, todo mundo já leu e spoilers são liberados e a gente pode ficar falando numa boa do que seria proibido em uma resenha. Falando nisso, sabia que “O peso do pássaro morto” foi um dos livros mais lidos nos clubes do Leia Mulheres ano passado? Tá vendo? Todo mundo quer ler e comentar. Talvez contar uma história própria que dialogue com a do livro. Falar de forma genérica não tem muita graça. Aposto que em todo encontro teve alguém falando: “Avassalador”. Eu sei que eu falaria. Talvez também tenha sempre alguém que não consegue conter as lágrimas.

Nessa luta para escrever alguma coisa sobre o livro da Aline Bei, ontem consegui formular toda uma estrutura e várias ideias. Um dos parágrafos que pensei era muito bom e tinha só spoilers leves, aqueles que só provocam o leitor a procurar o livro com tanta avidez que ele até clica e compra um exemplar usando o meu link da Amazon. O problema é que fiz isso alguns segundos antes de dormir e dormi. Muitas vezes quando isso acontece, assim que começo a escrever a resenha no outro dia, me lembro o que queria dizer e tudo funciona muito bem, só que hoje acordei no susto, com um barulho de Mate Couro caindo no chão, estourando e molhando meu gato inteiro de refrigerante. A primeira coisa que fiz ao acordar não foi escovar dentes, fazer xixi, beber água ou pegar o celular, foi passar shampoo a seco em um gato bonito demais para ser verdade. O que significa que eu esqueci o que ia escrever e nem ler os destaques que fiz no livro no Kindle adianta alguma coisa agora. O Mate Couro caiu, estourou e todas as minhas melhores ideias foram para o ralo.

Lembro que em algum momento eu ia dizer que Aline Bei ganhou com esse livro o Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos. Um prêmio é sempre um prêmio, né? Acho uma boa jogada para convencer o leitor lembrar que a obra já foi lida, validada e aplaudida não só por mim, a autora da resenha. Só que uma resenha nunca pode falar só sobre isso. Ela fica sem alma. Ainda que eu não acredite em alma, acho que resenhas possuem uma e essa alma pode escapar do texto se você for formal demais e esquecer de acrescentar suas impressões pessoais da leitura. O problema dessa minha resenha entretanto é justamente o contrário. Ela tem a alma já sebosa de tanta informação pessoal não solicitada.

O livro, narrado em primeira pessoa em verso, começa com as memórias dos oito anos dessa protagonista sem nome, mesma idade que começa o livro de memórias da Vivian Gornick chamado “Afetos Ferozes”*. Oito anos parece ser um marco na memória de personagens reais ou ficcionais. Oito anos parece ser uma idade em que passamos a ter noção do nosso corpo, do corpo do outro e nossa identidade já existe o suficiente para que as lembranças que ficam fiquem mesmo e pareçam ser nossas. Oito anos é a idade em que nos tornamos um pouco mais sólidos e fixos. Provavelmente porque é quando paramos um pouco de orbitar em torno de nossos pais.

Os oito anos da personagem sem nome que protagoniza o livro da Aline Bei também é um marco porque é a idade que ela tem quando começa a perder, ou melhor, sofre sua primeira perda. E esse livro é um livro sobre perdas e como elas nos afetam e como certas perdas são bem específicas do gênero feminino. A própria autora falou uma vez que quando decidiu escrever sobre perdas sabia que a protagonista-narradora teria que ser uma mulher, por causa de toda opressão que cerca a existência feminina. Por isso é triste, avassalador e impactante. E esse sofrimento se intensifica porque essa história mostra o quanto o trauma dessas perdas torna a dona delas mais solitária. Os traumas criam mais um obstáculo entre ela e o mundo, inclusive o filho.

Só que o livro não fica só nos oito anos dessa mulher. A criança de imaginação fértil que de repente precisa aprender a lidar com a morte, segue. E dali avança aos dezessete, aos dezoito, aos vinte e oito e vai indo até os cinquenta e dois anos, enquanto tenta ser uma pessoa, não só uma acúmulo de perdas, culpas e memórias. E, apesar de tudo, ela vive, ela continua, ela existe, ela está ali até deixar de estar.

E também, apesar de tudo, acho que terminei essa resenha.

*Tem leitura coletiva organizada por mim sobre o livro Afetos Ferozes rolando agora em junho/julho. Saiba mais aqui.


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Documentário médico

Morgan Vander Hart

— Então, Dr. Marcos, eu tenho me sentido meio estranha. Não consigo me concentrar em nada.

— Estranha como?

—  Eu tenho adiado até mesmo o ato de ligar o computador e por isso prefiro deixá-lo hibernando para de manhã, logo após iniciar o dia, não ser obrigada a sentir mais um começo antes mesmo de bater o ponto online. Também tenho tido pouca vontade de comer e quando a vontade vem é sempre relacionada com alimentos que não fazem muito bem, me causam azia e tudo, como Nutella, pizza e torresmo. E não tenho dormido bem, doutor, apesar de continuar dormindo muito.

— Hmmmm… O que mais?

— Eu tenho a sensação de que não há futuro possível. Dr. Marcos. E isso me entristece, mas também me alivia, porque eu não preciso mais acreditar em nada e nem buscar alguma coisa. Na verdade, isso é bom, porque isso me impede de criar expectativas.

— Isso que você narra parece depressão, não acha? Toda essa apatia…

— Acho que sim. Na verdade, eu não saberia afirmar com certeza.

— Hm…

— Doutor, você sabe de algum documentário bom sobre isso para eu assistir?

— Ana?

— É, doutor, um documentário sobre depressão.

— Ah, eu não conheço. Não vejo muitos documentários, mas minha filha adora. Posso perguntar para ela se ela tem alguma indicação, se você quiser…

— A Cecília gosta de documentários?

— Gosta sim. Esses dias ela me fez assistir com ela um que tinha na Netflix… De uma mulher negra com um vozeirão, sabe?

— Hmmm… Nina Simone?

— Isso. Eu até gostei… Depois fiquei procurando umas músicas dela para ouvir no Youtube. Aquela Feeling Good é boa, né?

— É boa sim, Dr. Marcos.

— Vou te mandar agora uma receita de um remedinho que vai te ajudar, Ana. Vai chegar no seu e-mail cadastrado no app do plano de saúde, viu?

— Obrigada, Dr. Marcos.

— De nada, Ana. Manda um abraço para sua mãe por mim.

— Pode deixar, Dr. Marcos! Manda outro pra Dona Ruth!

— …

— …

— Ana, você pode sair da teleconferência por favor? É só clicar nesse xzinho no canto esquerdo da tela. Pega mal o médico fechar a janela do paciente assim…

— Tudo bem, vou desligar aqui, viu? Boa semana!


— Agora você gosta de documentários, Cecília?

— Sempre gostei.

— Aham. Tá bom.

— Olha, eu gosto de documentários, mas eu não sou que nem você que vê qualquer um, independente do assunto. Eu busco ver os de temas que me interessam.

— Como Nina Simone?

— Sim, como Nina Simone.

— Seu pai quer que você me indique um documentário sobre depressão. Por motivos médicos.

— Meu pai me mete em cada roubada. Anem.

— Não precisa ser sobre depressão então. Me indica qualquer um que você já viu e eu possa gostar.

— Se você pegar para ver um documentário que acompanha a vida de uma sacola plástica, você vai amar, Ana. Você gosta de documentários e pronto. O seu lema é ver todos, porque você é tipo o Et Bilu e fica vendo esses filmes sem parar e depois fala “busquem conhecimento” sem dizer bem isso indicando algum no Twitter.

— Eu gostei dessa ideia de acompanhar a vida de uma sacola plástica. Você viu algo assim, foi?

— Não, Ana, eu só quis falar a coisa mais absurda que veio na minha cabeça.

— A ideia é realmente boa, você sabe disso, né?

— Eu não sei, porque eu não ligo para história pessoal de uma sacola plástica, mas se você diz…

— Posso pegar sua ideia para mim?

— Hm… acho que pode, né?

Vou ver se começo a filmar essa semana ainda, aproveitar que fiz compras ontem e tem toda uma nova leva de sacolinhas que passaram por higienização.

— Não deixa de filmar a sacola se secando no sol depois de tomar banho, bem bronzeada.

— Se eu colocar um nome nela vai ser muito esquisito?


A ideia desse conto surgiu a partir de uma conversa com a versão tuiteira da tutora criativa e agente literária da Ceci. Nesse papo, eu realmente falei que isso de gostar de documentário como algo geral é coisa de gente cultíssima, mas meio Et Bilu, e não sei como acabei prometendo escrever um texto, esse aqui, com ou inspirada em uma personagem do livro “Ninguém morre sem ser anunciado”. Depois, já em outra conversa, essa privada e posterior ao envio do texto, eu cedi os direitos de filmagem desse doc da história da sacola citado no conto para a representante da Ceci. Agora acho que vou mandar uns vídeos das minhas sacolas via direct para ela entender que eu doei minha ideia, mas talvez queira ajudar com o roteiro. Qual sacolinha dessas vinte que estou olhando secar será protagonista dessa emocionante narrativa?

Trailer de um filme estranho, meio ruim e talvez otimista demais sobre a vida após algum apocalipse

Alex Litvin

O que acontece quando começamos a tensionar o significado das palavras? O que a gente perde quando somos forçados pelas circunstâncias a usar as palavras e expressões que conhecemos de outra forma? O que essas mudanças significam? O que elas causam nas pessoas e na sociedade? O que acontece quando elas surgem a partir das consequências do que a humanidade já viveu, mas quase ninguém mais se lembra?

O que a humanidade conhecia como três da tarde não é mais três da tarde como sempre foi. Não tem luz do sol, não tem trabalho formal, não tem horas e mais horas que separa esse momento da hora de se recolher. As três horas da tarde parecem mais próximas agora das dez da noite de antes.

Família não é mais somente o grupo de pessoas que tem vínculo sanguíneo, de sobrenome e talvez de afeto. Família agora tem um significado mais próximo do que antes se entendia como comunidade. A sobrevivência humana passou a depender de redes de solidariedade e esses laços que surgiram da troca e do diálogo fizeram com que a ideia de parente ganhasse outros sentidos.

O mundo que se desenha agora, muitos anos após o que alguns chamaram de fim do mundo, é outro. Ele veio após os nomes democracia, povo e perseguição serem deturpados. Ele veio após fugas, guerras, desespero, dor e fins ganharem novas acepções. O que existe agora é um desejo urgente de sobrevivência e uma noção de que a humanidade é composta por seres sociais e que as pessoas precisam estar sempre cercadas de outras.

“Talvez tenhamos ficado muito tempo ensimesmados”, continua a protagonista branca, idosa e de cabelos lisos chamada Sônia, como a atriz famosa que a interpreta, para um grupo que não conheceu nada daquilo que ela viveu e agora a ouve com curiosidade e respeito.

Tem quem acredite que esse novo mundo se cria quando, às três horas da tarde, as pessoas se sentam juntas para conversar e compartilhar histórias antigas e novas. Alguma coisa acontece quando as pessoas se juntam. Alguma coisa acontece quando essa gente coloca no papel o que uma comunidade lembra, sonha, ri e conversa.


Esse texto é resultado do dia 8 do Desafio de Escrita para a Quarentena proposto pela Stefani Del Rio. A proposta era que se escrevesse uma espécie de sinopse para um filme fictício de distopia e/ou pós apocalíptico.

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“A Casa dos Espíritos”: a ficção pode contar muito da realidade também

Foto de Leia Mulheres Divinópolis

Aprendi ainda criança a diferença de estórias e histórias. O termo que começa com vogal, considerado arcaico para muitos mesmo quando eu estudei sua existência, servia para designar as coisas folclóricas, as narrativas populares, os “causos” e contos ficcionais, enquanto a história com H e sem plural era sobre o estudo do passado, a ciência que tenta entender o hoje a partir do que um dia se deu, o estudo dos fatos reais.

Hoje usamos história para tudo, podendo colocar no plural para falar principalmente de ficção. O que me parece acertado, porque às vezes o que chamaríamos de estórias com E são narrativas essenciais para entender o que diz a história com H. Essa história que parte de documentos oficiais, das narrativas mais importantes e que às vezes vem de uma parcela mínima de uma população e é usada para falar de todo um tempo e contexto.

“A Casa dos Espíritos”, primeiro e mais famoso romance de Isabel Allende, é uma dessas obras que, apesar de ser ficcional, ajuda o leitor a entender o que se passou em um país durante parte do século XX. A partir de um drama familiar, a autora expõe o Chile como ele foi, ainda que parta de uma narrativa que vem de participantes de uma certa elite. Violências, disputas, desigualdades, são todas expostas, enquanto Isabel Allende trabalha também ideias abstratas como a força do amor, dos afetos, das trocas, da delicadeza e generosidade, sem esquecer de antagonizar tudo isso com horror do ódio e da negação da realidade.

O romance tem uma narrativa marcada por uma exposição crítica de fatos sociais e históricos do Chile, como a Ditadura Militar e o acirramento de ânimos causado pela desigualdade e a manipulação e uso do poder e do dinheiro pela elite. E, apesar do realismo cru de certas passagens, como o uso e a violência do corpo das mulheres mais pobres por parte dos patrões, há também muita magia. Essa magia que é colocada como marca da literatura latino-americana, apesar da força do cristianismo na região.

Espíritos, previsões, superstições, sabedorias ancestrais, mapas astrais, toda essa espiritualidade solta, que tenta ser livre de dogmas, aparece na obra como uma manifestação da necessidade de se manter além daquela violência terrena. No meio de tanto sangue e dor, a magia e as histórias fantásticas parecem ser uma maneira de manter algo maior vivo, algo próximo do amor. Algo que parece faltar nesse mundo que no livro se manifesta como o mais próximo do real possível e critica e expõe o que foi o Chile.

Isabel Allende nos entrega uma obra que nos faz pensar nos laços familiares, na complexidade dos afetos e como as disputas que ocorrem dentro de casa são uma manifestação do resto do mundo ao redor. Esse mundo ao redor que parece estar sempre pronto para explorar corpos ditos femininos e fazer mais uma tragédia latino-americana acontecer.

“A Casa dos Espíritos” tem uma força especial porque a mera existência dessa história ficcional serve como lembrança de um período histórico que ainda sofre com tentativas de disputas de narrativas. Esse é um livro que evoca a importância da memória, tanto no sentido privado, quanto público, da cultura e do repúdio ao autoritarismo e exploração a partir da desigualdade, inclusive a entre homens e mulheres.

Nesse sentido, esse clássico nos ajuda a pensar no passado ditatorial da América Latina e do Brasil e, infelizmente, também no que se passa hoje, em maio de 2020. Estamos cada vez mais distantes do que aprendemos a chamar de democracia. Parece ter restado apenas uma espécie de carcaça democrática que vive da continuidade daquilo que ainda não foi aparelhado e da possibilidade de denúncia midiática. O resto parece já ter ido embora ou estar em processo de.

É impossível não pensar se vamos ficar “só” nisso ou se nesse afã de entregar tudo ao estrangeiro, militares e elite iremos chegar até as torturas, ameaças e desaparecimentos de novo, além dos que acostumamos a ver dentro do regime democrático como um vestígio de nossa história. E também é impossível não pensar nas consequências que a omissão proposital a respeito do coronavírus e o negacionismo científico sobre a pandemia podem causar.

Me parece até que, mesmo sem qualquer aparição, Clara ou seus espíritos estão tentando falar com todos nós, nos colocando alertas ao que pode vir acontecer ao nos lembrar do que já aconteceu. Tudo a partir do livro, que mostra até onde a força do ódio pode chegar e nos faz refletir sobre o quanto certos governos, como o de Bolsonaro, parecem ter como premissa deixar morrer. E o quanto eles agem ativamente para fazer essa agenda acontecer além da doença que nos encerra em casa no momento. Sempre com ameaças de serem mais ativos ainda. Com ameaças que parecem um retorno ao passado que eles adoram negar enquanto o homenageiam. Um passado que é lembrado de forma literária e crítica por Isabel Allende nessa obra publicada em 1982, quando tudo isso ainda era bem recente e próximo e as narrativas estavam em plena disputa.


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A Thaís tem uns sonhos esquisitos, né?

Jr Korpa em Unsplash

Semana passada sonhei que eu cortava uma franjinha curta, ficava uma bosta e estava tudo bem. Depois, eu sonhei que fazia parte de uma espécie de máfia feminina que existia para resgatar mulheres de situações perigosas decorrentes do machismo. O grupo era conhecido como Amazonas.

Nesse último sonho, eu sempre começava minhas abordagens com muita gentileza. Eu sabia que os caras iam me ignorar ou vir com grosseria ou achar que eu estava dando em cima deles e isso me daria a justificativa perfeita para eu poder aloprar como nunca. Eu lutava muito bem e estava sempre pronta para espionar, manipular situações, argumentar, dar uns murros e também amparar as mulheres que precisavam. Eu era forte, hábil e circulava na cidade com aquela postura típica de quem não tem medo e usa roupas e calçados bonitos e confortáveis.

Tenho a impressão que as pessoas sonham umas coisas super elaboradas, inteligentes, cheias de símbolos e interpretações, enquanto eu só tenho dois tipos de sonho: os completamente cotidianos ou os roteirizados pelo meu eu criança de dez anos que sempre gostou de coisas de detetive, espionagem, máfia, bicho, ação e correria, mas sempre sentiu falta de personagens mulheres fazendo todas essas coisas. Especialmente mulheres pequenas sem salto alto.

Meu inconsciente adoraria uma versão de Velozes e Furiosos só de mulheres comuns que sabem lutar. Bastaria adicionar alguma investigação, projeto ou entrega urgente e muito importante no meio na trama e pronto. Na verdade, talvez o meu inconsciente ia gostar ainda mais se adicionassem algum animal falante no meio disso tudo.

Sei que fantasia não costuma combinar muito com filmes de ação com carros, mas, essa noite, meu eu-onírico esteve envolvido em uma missão para matar dois homens ricos e violentos em um evento de ópera. O plano deu um pouco errado e quando eu acordei, talvez ainda inebriada pelo sono, eu achei a trama interessante. Capivara, Cachorro e Crocodilo, meus companheiros, não conseguiram fazer a parte deles porque dormiram no caminho provavelmente enfeitiçados. Talvez, se saísse essa história em filme, eu encontraria a explicação para esse cochilo involuntário e para a estátua de leão que ruge para alertar que estamos em casa ou chegando, ainda que estejamos a dois quarteirões do nosso QG.

Dentro de mim, há um desejo por porradaria e um gosto por lutinha, aventura, animais falantes e correria que só pode ter vindo dos anos e anos que passei vendo Dragon Ball Z, Samurai X, Sailor Moon, Sakura Card Captors e outros desenhos. Talvez eu devesse usar esses sonhos como uma fonte de histórias para escrever roteiros, contos e poemas. Talvez eu devesse entrar numa aula de defesa pessoal assim que rolasse uma oportunidade. Nem que fosse via EAD. Talvez eu devesse entender que eu só queria mesmo me sentir forte e o quanto isso se relaciona mais com um desejo de poder e segurança do que com meu corpo pequeno e frango ou minha imaginação.

Só sei que é possível que essa noite eu sonhe que comi espinafre, como Popeye, fazendo encontrar meu desejo pela força com o cotidiano que me enfeitiça apesar de tudo. Sei lá, o sabor é bom e talvez ajude com a imunidade, né?


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