Desconforto

Obrigada, Canva

Calço os sapatos. Podia ser um par de tênis, de alpargata, meus queridos chinelos ou mesmo minha sapatilha que dá calo, mas dessa vez são sandálias de salto alto. Ouvi da moça do RH que ninguém vai me levar à sério sem sapatos como esses. De alpargata, pareço uma menina, segundo ela. Uma menina de incríveis 30 anos, eu penso.

Tec, tec, tec. Eu ando pela casa conferindo se deixei ração o suficiente para os gatos. Tec, tec, tec. Volto para o quarto para pegar minha pasta. Tec, tec, tec. Me direciono para a porta.

Joselino estranha o barulho que faço ao andar e nem se aproxima para se esfregar nas minhas pernas como sempre faz, mas mia baixinho, porque sabe que só voltarei dez horas depois. Juanita sobe na mesa e oferece a cabeça para eu acariciar antes de sair. Quando me aproximo, vejo seus olhos atentos aos meus passos. Nem ela aguenta o barulho desses sapatos.

Assim que entro na empresa, visto meu casaquinho. Sento. Ajeito a mesa. Checo e-mails. Bebo uma xícara de café. Confirmo minha agenda. Redijo um contrato. O tec, tec, tec dessa vez é barulho do teclado. Separo uns documentos, estudo o que eles dizem e me preparo para reunião do dia.

O homem mais velho da mesa me pergunta se eu sou filha do dono da empresa. Não, eu não sou. Meus pés doem por causa dessa maldita sandália, mas eu ainda não sou levada à sério. Filha, esposa, amante. Todas essas possibilidades parecem mais certas para eles do que uma promoção por mérito.

Apresento nossos produtos e os documentos que comprovam o bom desempenho deles no mercado. Exponho estatísticas e ressalto que conquistamos os primeiros clientes internacionais há poucos meses.

Ele troca de lugar e senta ao meu lado. Posiciono a papelada em sua frente para que ele possa ler os pormenores do contrato. Sorrio e espero.

Sinto algo na minha perna esquerda. Devo ter esbarrado em alguma coisa. O algo começa a subir. Cogito que seja uma barata. Olho para baixo e vejo a mão branca do velho subindo pela minha coxa. Me encolho toda. Ele ri e sobe ainda mais. Nojo.

Não consigo respirar direito, muito menos falar alguma coisa. De novo não. A mão dele continua em mim. Me culpo: “Se fosse uma barata, eu gritaria”. Olho para o nada, ainda paralisada, enquanto respiro fundo e junto toda a força que me resta. Com ela, me levanto, abandono a sala e sei que com isso perdi essa venda e alguma coisa em mim.

Me sinto anestesiada. Não noto mais os sons que faço ao andar, digitar ou mastigar e engulo a comida do meu restaurante preferido sem conseguir diferenciar o gosto dos alimentos.

Quando volto do almoço, meu chefe me chama para sua sala. “Esses clientes já eram certos, que merda você fez?”, ele berra. O andar inteiro ouve. Choro. Balbucio palavras. Nenhuma com sentido. Ele grita ainda mais comigo.

Respiro fundo e recomeço meu relato. Com a voz embargada, conto o que aconteceu. Meu chefe reage dessa vez sem gritaria e me manda ir para casa descansar. Mas antes de eu sair pela porta, ele faz questão de dizer: “Ele não ia fazer mais do que isso, dava para você ter aguentado e garantido o negócio”.

Saio da sala ainda aos prantos, pego minha bolsa e me direciono para o elevador. Ouço cochichos e todo mundo me olha como se eu tivesse feito uma cagada daquelas. A palavra incapaz parece estar escrita na minha testa. Não tenho dúvidas que continuariam me julgando dessa forma — ou pior — se soubessem como perdi a venda.

Os sinos da igreja me contam que são duas horas. Ouço as badaladas com uma atenção absurda. Me concentro em cada uma delas para fugir das memórias e pensamentos que vieram à tona. Tem algo errado comigo, concluo. Meu corpo me trai. Ele provoca os homens.

O ressoar dos sinos não é o suficiente. Dentro de mim, eu grito: “De novo não!”. O coração acelera, bate desritmado. Eu tento respirar fundo, olhar para as pessoas e imaginar suas vidas.

Vejo uma jovem de vinte e poucos anos. Ela tem o cabelo escorrido, diferente do meu, que é cacheado. Está de coturno, veste uma meia calça roxa, um vestido floral e uma jaqueta jeans preta. Esse é um look que eu usaria, penso. Ela parece bem.

Vejo também uma moça de dreads coloridos, calça jeans e camisete preta. Ela parece aflita com o tempo. Toda hora olha para a tela do celular e para o horizonte onde o ônibus alguma hora vai apontar. Ela está de mochila. Talvez atrasada para uma aula, algum estágio, uma prova. Não sei.

Não tem mais ninguém para olhar por perto. O ponto está vazio. Tento me concentrar então em quem passa. Eles andam rápido demais e eu volto a me perder nos pensamentos que tento a todo custo evitar. “Como eu me odeio” é um deles.

Um carro passa bem devagar e o homem dentro dele faz gestos sexuais e grita “Gostosas” para as três mulheres paradas sozinhas no ponto de ônibus.

Não aguento. Desabo. Reconheço as memórias que tento evitar. Vejo uma nova entre elas. Uma voz masculina ecoa na minha cabeça. Ela me chama de vagabunda, diz que tem algo de errado comigo e que eu provoco os homens. Ouço de novo “dava para você ter aguentado”.

As duas moças me olham chorar com solidariedade. Não me sinto digna desse apoio. Ambas se aproximam e falam que vai ficar tudo bem. Respiro fundo. Tento sorrir. A jovem de cabelo escorrido me oferece um abraço. Aceito. A moça de dreads diz “esses caras são nojentos”. Me ouço respondendo “uns desgraçados” e essa é a nova frase que começa a se repetir em minha mente, enquanto vejo elas entrarem no ônibus 9410.

O cheiro de churros domina o ponto de ônibus. Salivo. Corro atrás do carrinho, os sapatos de salto me atrapalham mais uma vez e eu os arranco dos pés. Descalça no centro da cidade, escolho se o recheio será doce de leite ou brigadeiro. O gosto da massa do churros se mistura com o salgado das minhas lágrimas.

Desgraçados.


Essa história foi publicada originalmente no meu perfil na plataforma Sweek e foi finalista no concurso literário SweekStars2018.


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Arábia e a escrita de si

Cristiano (Aristides de Sousa)

O filme “Arábia”, dirigido pelos diretores mineiros Affonso Uchôa e João Dumans, conta a história de Cristiano (Aristides de Sousa), um homem que viaja Minas Gerais trabalhando onde encontra lugar para isso. Minas aqui não é lembrada por ser um local de belezas naturais, destino de turismo, ela é colocada como um local de trabalho, de esforço, de sobrevivência.

A obra se inicia com o foco em outro personagem, André (Murilo Caliari). Ele anda de bicicleta, desenha, fuma, cuida do irmão mais novo doente e é ajudado pela tia. De sua janela, ele vê, ouve e respira a fuligem da fábrica. Cristiano e André se cruzam vez ou outra na vizinhança, mas não há ligação entre eles. Apenas dividem o mesmo espaço, um bairro industrial, mas Cristiano está dentro e fora da fábrica, André somente fora.

A história começa a ser realmente contada a partir do encontro de André com o caderno-diário de Cristiano. Nesse momento, Cristiano assume seu lugar de protagonista e conta sua própria história por meio do papel.

O caderno-diário é fruto de uma tarefa que foi solicitada, não é algo que parte espontaneamente do personagem. O exercício consiste em narrar algo da vida dele que ele considere importante. “No fim de tudo, o que sobra mesmo é a lembrança do que a gente passou”, ele diz ao introduzir suas memórias.

Ao sair da prisão, Cristiano decide abandonar Contagem com medo de acabar indo em cana novamente. A pé e de carona, ele busca trabalho. Governador Valadares, Paraíso, Itabira, Ipatinga, Ouro Preto são alguns dos destinos do personagem. O acaso parece ser o elemento comum de todos eles. Seu percurso acontece sem ele ter muito poder sobre ele.

Todas suas relações partem dos espaços de trabalho, inclusive Ana (Renata Cabral), o amor de sua vida. Nos breves intervalos entre os afazeres, ele cultiva afetos. Canta, bebe, joga baralho e ouve histórias. Todos com quem divide esses momentos também trabalha para sobreviver. Seus esforços nunca resultam em algo além disso.

Por meio da escrita, Cristiano parece olhar para si pela primeira vez. O trabalho como constante o objetifica e a escrita de suas lembranças é o que faz ele entrar em contato consigo novamente. Ele reflete sobre si, a vida e o mundo que o cerca e conclui que todo mundo tem uma história para contar. Inclusive ele.

A memória é colocada como um componente da nossa própria humanidade frente a um mundo que cobra que o trabalhador seja uma máquina. Cristiano se descreve como alguém que não consegue se expressar bem, mas com um papel e uma caneta em mãos, ele encontra sua voz. Essa que parecia estar à vontade somente quando cantava em momentos de descontração. A escrita de si faz o personagem reviver lembranças e se ver como alguém além do homem trabalhador.

Durante a leitura, André descobre quem Cristiano é, um cara muito além da fábrica, das obras, da tecelagem, da plantação de mexerica e da prisão. O caderno une os dois personagens, André curioso sobre o que o trabalhador tem a dizer descobre que Cristiano também o observava. Apesar das diferenças, ambos dividem o bairro e a solidão.

A história de Cristiano toca não só por retratar as condições do trabalhador, mas também por ser uma narrativa que parte de um personagem que compartilha seu próprio ponto de vista. Uma história que poderia ser de muita gente e é parte de um Brasil que é invisível para muitos. Cristiano olha para si e a gente olha junto. Saímos do cinema cientes da desigualdade, do abandono, do cansaço do trabalhador comum e do poder da palavra e da memória na construção da subjetividade de cada um, principalmente daqueles a quem isso é negado.


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“A Número Um” e os obstáculos do machismo

Cena do filme “A número um” / Foto: Divulgação

Um fantasma que ronda todas as mulheres é o de saber que qualquer erro cometido será colocado na conta de seu gênero. O erro de uma pesa para todas, mas essa lógica não se repete para as vitórias. O sucesso de uma mulher ainda é só dela, apesar de abrir caminho para as próximas que passam a acreditar que aquilo pode ser possível. A sociedade não vê a conquista de uma posição de comando por uma mulher como um sinal de que mulheres são capazes de ocupar um lugar antes reservado para homens.

Para uma mulher acessar um espaço de poder como a presidência de uma grande empresa, não basta que ela seja ótima, ela precisa ter uma trajetória impecável, ser excepcional e receber validação pública. Sucesso, liderança, poder e dinheiro ainda são vistos como espaços masculinos. Uma mulher em um espaço desses ainda é uma intrusa, alguém que tirou um homem dali.

“A Número Um”, filme dirigido pela francesa Tonie Marshall, conta a história de Emmanuelle Blachey, uma mulher de sucesso que busca ser a primeira mulher presidente de uma grande empresa. Aos olhos do machismo, ela já é uma intrometida e quer ser ainda mais. A ambição não cai bem para as mulheres, pensam eles.

Já na primeira cena do filme, vemos a protagonista receber uma mensagem de conteúdo sexual em tom agressivo. Já em outro momento, ela comenta com outra mulher que seu assediador desconhecido parece querer calá-la colocando o pênis em sua boca e essa é somente uma das críticas feitas na obra à misoginia vigente, principalmente no mundo corporativo.

A trama gira em torno da tensão que envolve a busca dela por esse cargo, os jogos de poder que o cerca e os silenciamentos, estereótipos e desumanização que perseguem ela e todas as outras. Enquanto os acontecimentos se desenrolam, o espectador descobre mais sobre Emmanuelle e percebe o peso de ser a única mulher no meio de tantos homens.

O filme é sobre o jogo de poder de sempre, mas com críticas ao fato de que as mulheres estão em desvantagem. A regra do jogo para as mulheres é que um erro vale para todas, os estereótipos também. E tudo isso vira arma para nos manter fora desse e de outros espaços. No Brasil, por exemplo, somente 10,5% do Congresso é feminino.

O poder tem gênero, tem cor e tem classe. A protagonista enfrenta o obstáculo do machismo. Toda sua vida é permeada por ele, do assédio aos sutis comentários que a rodeiam, mas é importante lembrar que os caminhos para uma presidência de uma grande empresa também podem ser atravessados pelos entraves do racismo e da pobreza.


Tonie Marshall foi a primeira mulher a receber o Prêmio César de Melhor Direção por sua comédia Instituto de Beleza Vênus e no filme “A Número Um” atuou na direção, roteiro e produção.

Assista o trailer:

Feminismo Ilustrado: Livro reúne entrevistas relacionadas ao tema

Arte feita por Mariamma Fonseca para o livro “Você é feminista e não sabe” — Adquira seu exemplar aqui.

Sei dizer quando comecei a me definir como feminista, mas sou incapaz de determinar qual foi a primeira vez que me senti em desvantagem em alguma situação por ser mulher.

A memória não é feita de arquivos de vídeos de momentos, nem é organizada em pastas por idade e não tem um anexo em escrito sobre nossas percepções da situação quando ela aconteceu. Por isso, é difícil precisar qual foi a primeira vez que eu tive consciência de que o mundo era machista. Pode ter sido quando me impediram de jogar futebol por ser menina, quando me falaram que eu tinha que lavar a louça e os meninos não ou alguma outra situação. Eu não sei. Apesar de lembrar de circunstâncias machistas que me aborreceram nessa época, eu percebo que muitas lembranças que hoje entendo como de situações relacionadas ao meu gênero passaram batido por anos até eu tomar consciência de que elas não eram naturais e/ou certas.

Meu incômodo com a desigualdade sempre existiu, mas estar inserida numa cultura machista pode nos fazer duvidar de que esse sentimento é justo. Leva tempo para gente compreender que não estamos sendo loucas de irmos contra o status quo que define como devemos nos portar e esse processo perpassa diferentes esferas. O caminho varia, mas geralmente a gente começa de onde o nosso calo aperta. A internet funcionou como um potencializador desse processo para muito gente, já que ampliou a possibilidade de mulheres dividirem suas experiências, preocupações e trajetórias.

O canal “Você é feminista e não sabe” tem como proposta aprofundar o tema feminismo por meio de diferentes recortes e fazer com que as pessoas percam o medo dessa palavra. Por meio de entrevistas com mulheres diversas, o mundo da Outra é apresentado e conhecer diferentes realidades nos ajuda a entender melhor o porquê do feminismo ser além do eu.

Através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, Angélica Kalil e Mariamma Fonseca querem colocar no papel quinze entrevistas feitas pelo canal. Com temas variados, como maternidade, violência doméstica, cultura do estupro, história, política, mulheres lésbicas, periféricas, negras e indígenas, o livro promete ser um ótimo companheiro para todos que querem refletir sobre a realidade das mulheres.

Angélica Kalil, criadora do canal e do livro, comentou que no livro será possível encontrar informações sobre a história do movimento, termos usados pelo feminismo, personagens históricas que questionaram seu lugar de gênero e dados/informações sobre a situação da mulher no Brasil e no mundo.

Além das entrevistas, a obra contará com textos de apoio e com mais de 60 desenhos de Mariamma Fonseca para ilustrar informações e fatos citados pelas entrevistadas. “As ilustrações estão como complementos das falas e deixam a narração dessas mulheres ainda mais marcantes”, conta Mariamma.

Capa do livro

A campanha encerrará no dia 30 de setembro e, até então, apenas 60% foi arrecadado*. Através de contribuição, você pode adquirir o livro e, dependendo do valor, ganhar recompensas como pôsteres, adesivos e marcadores.

“Você é feminista e não sabe” promete ser uma leitura que acrescenta muito para quem acabou de chegar no rolê e quer saber mais sobre diversos temas, e também para quem já é velha de guerra, mas gosta de entrar em contato com novas abordagens de temas já conhecidos. Só sei que com um livro desses publicado, conhecer e difundir o feminismo será algo mais simples do que foi um dia.

*O livro foi financiado com sucesso! Quer adquirir um exemplar? Clique aqui e saiba mais. É possível comprar também pelo meu link na Amazon.


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“Não” é “não”

Uma das imagens da campanha do Carnaval de Recife contra assédio.

Toda adolescente um dia leu em alguma revista teen ou ouviu de alguém que, para conquistar o crush, era preciso fazer charminho e se fazer de difícil. Somos ensinadas a jamais dar o primeiro passo, a não demonstrar que gostamos de alguém e esperar que um dia o crush nos escolha. Caso ele nos escolha, a gente precisa fingir não querer, pelo menos, no primeiro momento.

Já os meninos são ensinados que precisam pegar todas, e que as mulheres só merecem respeito caso elas resistam ao seu charme e investidas. Eles aprendem que as que escolherem dizer sim, são fáceis, galinhas, vadias, têm menos valor e merecem menos respeito. Essas mulheres perdem o direito ao não. O nome das mulheres que dizem sim quando querem é substituído por ofensas e gírias que as desumanizam. É ensinado que as mulheres que prestam são aquelas que dizem não e que precisam ser convencidas. Todo não que eles ouvem passa a ser encarado como um obstáculo a ser vencido. No fim, toda mulher se torna menos digna de respeito, porque nessa lógica tanto o não, quanto o sim, perdem a sua força.

Nisso, os meninos aprendem que o não feminino precisa de uma justificativa para ser respeitado e muitos entendem que as explicações que partem do eu feminino não têm o mesmo peso de um “eu tenho namorado”.

O jogo da conquista que nos é ensinado apaga a subjetividade das mulheres e faz com que a palavra não, dita por uma de nós, tenha uma carga menor. O nosso não é visto como duvidoso, falso, uma mentira. Assim, a gente perde o direito à negativa. Nessa visão de mundo, devemos passividade. Nosso sim é uma afronta, que merece desumanização, e o nosso não é relativo, o que nos desumaniza.

Diante desse contexto, se faz necessário dizer que não é não. O desrespeito ao não feminino faz vítimas diárias: mulheres são estupradas; mulheres temem terminar relacionamentos; mulheres são perseguidas por homens que não aceitam que elas digam “não quero mais” ou simplesmente não demonstram interesse em ter algo com eles; mulheres são assassinadas porque homens não aceitam a subjetividade feminina.

Uma cultura que relativiza o não coloca mulheres em risco, porque diminuir o peso de uma das palavras mais poderosas que existem, para apenas um gênero, é uma forma de desumanização, porque a força de nossas decisões diminui. Ter menos poder de dizer não tira de nós parte de nossa individualidade. O não é não parece óbvio, mas vai ser preciso reiterá-lo enquanto ainda formos vistas como menos gente.

A paquera não pode funcionar como um jogo que tem como único perdedor a mulher. Se ela diz sim, ela é vadia. Se ela diz não, é uma mentira.

A paquera tem que ser encarada como uma ação conjunta, na qual os envolvidos têm agência e dizem sim, não, não gosto disso, prefiro assim e têm suas falas consideradas. Há quem diga até que, quando há o “sim de imediato”, perde a graça.

Que a gente consiga, um dia, fazer com que todos saibam que é um “não” que faz “perder a graça”, acabar com a vontade.


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Decidi que fico

Desenho do artista Stephen Wiltshire

Me apeguei a esta terra. Cheguei aqui pensando que logo voltaria para minha cidade natal e abandonaria a vontade de conhecer um mundo além daquele que me circundou por anos, mas me enganei. Era um medo infundado de quem nunca saiu do casulo. Agora cá estou eu querendo fixar morada numa terra em que não se pisa descalço. Bem eu que passei a infância com o pé encardido de tanto andar na terra vermelha.

Quando cheguei e o medo inicial passou, eu pensei que iria querer conhecer o mundo todo e passar no máximo uns dois anos em cada lugar. Achei que eu tinha um espírito meio nômade, meio aventureiro de quem ficou tanto tempo num lugar só que nunca mais soube parar. Só que eu parei. Comecei a me encantar pela construção dos prédios, pelos grafites pichados nas paredes, pelos caminhos que fazia e pela praticidade de morar perto do supermercado, padaria, papelaria, lanchonete e bar. Tem até uma loja de aquários na minha nova rua! Dá pra acreditar nisso?

Cheguei aqui num ônibus que chamam de “cata Jeca”, zombaram um pouco do meu sotaque e das palavras que uso. Falaram até que era como se eu falasse como se vivesse em outro século, fraga? Tento me adaptar, adiciono umas gírias que conheci aqui no final das frases, faço isso pra mostrar que quero me enturmar. Tenho ido bem. Algumas coisas que falo passaram a fazer parte do vocabulário de quem convive comigo e eu gosto dessa troca. Cada diálogo aqui tem sido uma curta apresentação de um pouco dos nossos diferentes mundos. O urbano encontra o interior na sala 1001 do Edifício Lobo.

Quem mora aqui nota minha vontade de conhecer tudo e resolve ir onde nunca foi mesmo morando há vinte e cinco minutos de ônibus do lugar. Apresento para eles meus causos, meu sotaque, minhas palavras diferentes e até mesmo a curiosidade de explorar a cidade que eles vivem. Ao me acompanharem, eles voltam a perceber a própria cidade que estava esquecida por representar o cotidiano. Vejo isso acontecer e espero voltar para onde nasci no natal para ver o que eu não conseguia ver por estar perto demais.

Uma cidade já é um mundo grande demais para conhecer de uma vez. Uma das maiores cidades do país então… Decidi ficar, fiquei e agora fico de vez.


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Amor como trajetória

Arquivo pessoal. Ilustração minha.

Desaprendi a escrever sobre amor. Há anos não o faço. Isso não aconteceu porque eu deixei de achar esse sentimento importante ou por decepção, simplesmente eu não sei mais fazer isso. Perdi meu mojo. Só as cartas e zines de amor restaram.

Amor foi o tema principal da maioria dos meus poemas, contos e crônicas por alguns anos. Enquanto eu idealizava o amor, os textos fluíam, brotavam, surgiam até mesmo ao olhar uma rachadura na parede. Eu queria tanto viver e me alimentar de amor, que a escrita servia de sobremesa gourmet após os beijos nas paixões fast food.

Eu definia o amor como algo intenso, louco, inseguro, exagerado e doloroso. Apesar de escrever tanto sobre, eu ainda encarava amar como uma fraqueza, uma vergonha, um sofrimento desejado. A receita para se sentir completa. Eu enxergava uma espécie de glamour em sofrer por amor. Achava bonito isso, sabe? Achava coisa de artista. Achava que era assim que se vivia de verdade.

Aprendi nos filmes, séries e livros que amor era algo a ser escondido ou jogado de forma estratégica, sempre chorado. Tudo que eu escrevia se baseava num jogo de egos em que os envolvidos competiam o tempo todo. O amor era o que tornava os personagens especiais porque ser amado significava que eles eram alguma coisa o suficiente para serem notados por alguém. Eu demorei a perceber que eu não escrevia sobre amores falidos e sim sobre ego, idolatria e controle. Eu narrava a história de gente que se achava um floquinho de neve especial só porque alguém queria estar perto deles ou que definia seu valor com base nisso. Amor era troféu. Lembro de um conto feito por mim que narrava um caso amoroso pela ótica dos dois personagens envolvidos e um deles concluía que ambos estavam perdendo ao encarar o que viviam como uma competição. O interessante é que perder ali podia ser perder a chance de viver um amor saudável ou perder um jogo mesmo. Eu idolatrava uma ideia de amor torta ao mesmo tempo que a questionava.

Minha visão foi mudando e passou a ser mais difícil escrever sobre. Percebi que os conflitos que entendemos como inerentes ao amor não o definem. Agora considero esse sentimento como algo leve e o vejo como uma troca gostosa de carícias,de memes, risadas, sonhos e preocupações de pessoas completas. Pra mim, ele é tranquilo, é se satisfazer ao ficar perto e dividir, se divertir e desabafar deitado na cama antes de dormir. Fazer nada juntos e gostar muito disso e ter um mundo de piadas internas que exteriorizam um pouco da conexão que existe ali. Não são metades que formam um, são pessoas diferentes que juntas potencializam o que a outra tem de bom.

As histórias de amor agora só fazem sentido se contadas cara a cara. Gosto de ouvir como as pessoas se conheceram, como elas estão juntas e o que elas planejam. Gosto de acompanhar a história observando todas as nuances das expressões humanas e acompanhar a felicidade conjunta. O amor é simples demais para ser traduzido só em palavras. A intensidade do amor não é tumultuada, ela é uma sensação imensa de que a simplicidade do que se vive não é explicável. Ele só existe e nos preenche. É a questão da prova que é fácil, só que a gente erra porque acredita que não pode ser tão simples assim e fica procurando algo mais.

Acho que aprendi o que é amor só quando parei de idealizá-lo e passei a vivê-lo.

Para isso bastou descobrir que na palavra amor cabe relações humanas que vão muito além de pares românticos e que qualquer afeto pode ser construído pelos envolvidos sem naturalizar dores e angústias além daquelas que a convivência humana saudável pode trazer.

A palavra-chave do amor, qualquer que seja o foco dele, é vontade de fazer ser bom. Se amor é mesmo um jogo, como dizem os filmes e os conselhos, ele é um joguinho de construção. Peça por peça, se monta e desmonta o que é o amor.


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Crise existencial protocolar

Arquivo pessoal. Ilustração feita por mim.

Desde o registro do nascimento no boletim médico, nós recebemos um número que nos identifica. Data, hora, peso, altura, protocolo de entrada da gestante (ainda somos um pouco nossas mães). Poucos dias depois, alguém nos registra e o cartório informa ao mundo o nome e sobrenome que a família escolheu e nos dá um número que servirá de base para tudo, o de matrícula. Agora temos uma certidão de nascimento. O Estado e o direito nos reconhece. Com ele, conseguimos ter os números que abrem as portas para tudo: o de registro geral e o do cadastro de pessoas físicas. Nesse meio tempo, somos registrados em cada instituição que pisamos: escola, faculdade, banco, plano de saúde, cursinho de idiomas, trabalho, clube, outro país. Do passaporte à carteira nacional de habilitação. Também somos o ddd e o número do celular.

Seu nome, seus números. Para acessar qualquer direito, para comprar várias coisas, contratar serviços, receber salário, para atravessar a fronteira, a gente precisa de se afirmar como uma sequência de algarismos. Existimos enquanto números, enquanto achamos que somos nomes.

Um dia tememos o bug do milênio, os computadores eram programados para entender os anos com apenas dois dígitos e 00 podia ser 1900 ou 2000. Datas erradas, números binários, falência, juros negativos, investimentos perdidos: era a previsão de uma desordem no sistema econômico mundial sem precedentes. O ano virou sem o apocalipse financeiro e seguimos com medo dos próximos fins do mundo.

O meu fim do mundo ocorreu numa segunda-feira, ao descobrir que mais de dois anos da minha vida tinham sumido de um sistema. Foi um bug que passou despercebido por ter atingido só a parte de um todo e se alimentou da incompetência alheia e da minha negligente mania de adiar tudo e não conferir nem troco. Tenho ou tinha a ingenuidade de quem se acha mais que número. Sempre achei que eu era gente e que era meu nome que carregava minha história. Eu não sabia que nome não é garantia de existência. Puff, nenhum dos tantos protocolos que um dia tive que anotar consta como registrado, tudo apagado. Em algum aspecto deixei de existir. Minha percepção de quem eu sou perpassa por esses anos perdidos, mas eles não existem mais. São feitos de memórias sem fé pública. Qualquer coisa feita pra corrigir será fora de hora. Tudo será refeito com uma nova data. Os anos continuarão vagos. Um lapso temporal que soa como anos sabáticos. A nova data valerá para documentos e constará no sistema, mas um pedaço de mim desapareceu. Ainda existe pra mim, mas oficialmente sumiu. Sou o que consta ou o que aconteceu?

Um bug de consequências burocráticas que num mundo de números e documentos afeta até os batimentos cardíacos e o funcionamento do intestino. Somos mais número que imaginamos. O acesso ao mundo depende deles. Somos afetados, somos dependentes.

Depois dessa, não sei por quanto tempo me sentirei confortável sem uma conta de banco e um cartão de crédito. Por não existir em termos capitalistas ou corporativos, fui rejeitada na hora de contratar alguns serviços algumas vezes. Nunca tinha me incomodado com isso antes, achava que era só uma bizarrice boa pra virar “causo”. Agora temo que a cada ano sem, eu passe a existir menos, independente de eu ter me tornado ou não mais gente. Afinal, é um número a menos e somos todos feitos por eles.


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A casa da memória

Aos quinze anos fui visitar a casa em que cresci e a descobri muito diferente. Os cômodos eram bem menores do que eu me lembrava. Os armários acoplados dos quartos não eram enormes pedaços de madeira escura trabalhada e que intimidavam pelo seu tamanho. Esses armários, na minha memória, eram tão imponentes que pareciam sustentar as paredes, o teto, a casa. Agora não havia nada de intimidador neles. Estavam velhos, com aparência de fragilidade até. Pareciam tão fracos que era como se tivessem encaixado painéis de madeira esculpidos como guarda-roupa entre as paredes. “Foram só cinco anos, como pode tudo ter mudado assim?”, eu me perguntava.

Eu não esperava encontrar tudo igual. Eu sabia que haveria um estranhamento, que eu me sentiria uma estranha ali. Só que eu imaginava que a percepção seria outra, que eu sentiria a casa mais ampla do que de fato ela foi, que tudo aparentaria ser bem maior sem as nossas presenças marcadas pelos objetos que possuíamos.

Depois de revisitar os cômodos do interior, fui para o quintal. Pela porta da cozinha, avistei onde ficavam os canteirinhos. Ali, meus pais plantavam cebolinha, manjericão, salsinha, couve, pimentas e até umas ervas para chás. Tanta vida coube ali, mas agora só se via um espaço com terra tão pequeno que fazia o verde da minha memória parecer quase um bosque. Só que dessa vez eu já não buscava mais comparar minha memória com a realidade. Não era mais isso que me movia. Eu já sabia que seria decepcionante ver essa parte da casa sem qualquer planta viva. O que eu queria mesmo era saber como estava o quartinho dos fundos que me aterrorizava durante a infância.

Desci a rampa. Ela não tinha nada do grande tobogã que fez parte de tantas das minhas brincadeiras. Apesar das minhas pernas terem continuado curtas, atravessei com poucos passos o caminho que um dia me pareceu longo e quando vi já estava na porta do quartinho.

Ele estava fechado. Eu já tinha aberto a porta dele antes, mas dessa vez tinha algo diferente. O meu medo de infância rememorado e o vazio de toda a casa aumentou seu ar de mistério.

Durante todo o tempo que vivemos ali, meus pais guardaram ferramentas, potes, vassouras, rodos, vasos, material de jardinagem, cadeiras de bar, enfeites de natal, baldinhos e até minha bicicleta e meus patins nesse espaço. Tudo que não cabia bem dentro da minha casa ia parar ali e formava uma bagunça daquelas. Entrar no quartinho era necessário, algo do dia-a-dia, mas ainda assim sempre fiz com pressa e receio. Toda vez que era preciso transpor aquele limite simbolizado pelo batente, eu sofria, e uma vez lá dentro, eu temia não mais voltar.

Por isso, eu escancarava a porta, colocava algo para garantir que ela ia se manter aberta e entrava correndo e voltava de lá com o que eu deveria buscar em minhas mãos. Quase sempre minha bicicleta ou meus patins, que ficavam apoiados bem na entrada, mas que ainda assim me faziam entrar ali por tempo o suficiente para temer.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali apenas encarando a maçaneta. As lembranças infantis são capazes de aterrorizar mesmo o mais seguro e cético adulto, imagine então uma adolescente de quinze anos que foi visitar sua antiga casa sozinha antes que ela fosse pintada para ser colocada à venda.

Abri a porta, entrei e notei que o quartinho tinha diminuído como todo o resto. Só que ele sofreu a diminuição de forma mais intensa: o que antes me parecia uma sala que foi transformada num armário de coisas pouco usadas ou grandes demais pra ficar dentro de casa se tornou uma dispensa grande.

Estranhei como era capaz de caber tudo aquilo que sempre vi ali dentro naquele lugar tão pequeno. Fiquei conferindo o espaço, enquanto lembrava onde a gente guardava tudo. Eu sentia o cheiro de tinta, as paredes ali já estavam recém pintadas. Não havia nada mais ali. Nenhum objeto, nem mesmo as marcas das prateleiras que eu esperava ver. Senti que todo aquele medo era coisa de criança.

Contemplei o quarto com o orgulho de quem venceu seus próprios medos. Finalmente tranquila, pude olhar para o todo com atenção e assim consegui ver algo que não tinha percebido ainda. Havia um buraquinho no chão bem onde as paredes se encontravam. “O quarto está recém reformado, como poderiam deixar passar isso?”, me perguntei enquanto chegava mais perto para conferir. Quando me abaixei para olhar, senti que o buraquinho não era só estranho, era poderoso. Ele inspirava o ar dali e o levava para o lugar nenhum. Eu sabia que se chegasse mais perto sentiria também que ele fazia um som bem específico quando puxava o ar. O som que eu lembro de ouvir sempre que entrava ali. O som que sempre me aterrorizou.

Gelei da cabeça aos pés e me virei em direção da porta. Nisso, senti a puxada do ar ficar mais forte e comecei a ouvir o som familiar ficar bem mais alto do que me lembrava. O lugar não parecia mais uma dispensa grande e sim um corredor. Eu olhava para os lados e via as paredes compridas e a porta mais longe do que eu imaginava. Consegui sair, mas no caminho — sim, agora já dava pra ter um caminho — eu cheguei a ver a porta fechando sozinha bem devagar com a força do buraquinho que sorvia o ar com cada vez mais força.

Fora dali, confusa e duvidando de tudo que tinha acabado de acontecer, reabri a porta e encarei o quartinho. Ele parecia inofensivo, exatamente como enxerguei antes. Ele tinha voltado ao seu tamanho normal e não havia nenhum sinal da corrente de ar bizarra que eu senti lá dentro e que me acompanhou até a saída.

Acreditei que tudo aquilo tinha sido só imaginação até meu olhar alcançar o buraquinho. Sua dimensão tinha mudado, quadruplicado na verdade. Agora ele era maior e ao ser notado voltou a sorver o ar como antes. Me afastei da porta e, já na rampa, a vi fechar sozinha, apenas com a fome daquele buraco. Fui embora com a impressão que a casa tinha ficado ainda menor e que ele nunca ia deixar de sorver.

Optei por nunca contar isso aos meus pais. Eu não queria ganhar o rótulo de louca. Achei que eu ia esquecer com o tempo. Não esqueci. Tentei criar teorias com base na ciência para explicar o que vivi ali. Não consegui. Pensei que um dia ia cair a ficha que foi só imaginação. Não aconteceu. Ainda não sei se o quarto se alimentava com as coisas que a gente deixava ali e naquele momento se rebelou por sentir a fome de alguns anos vazio ou se ele simplesmente viveu anos nutrido pelo meu medo guardado na memória e ao me ver chegar sozinha, com a casa toda vazia, decidiu que dessa vez ele ia me comer junto.


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