“Os sete maridos de Evelyn Hugo”: uma ficção sobre os bastidores da velha Hollywood

Acervo Pessoal — Capa do livro versão TAG

“Acho que ser quem a gente é — de verdade, e por inteiro — sempre vai exigir nadar contra a corrente.”

Como é ser uma celebridade? Como é ser uma mulher celebridade na Hollywood dos anos 50, 60, 70? O que a fama te dá e te tira? Quão próximo e quão distante pessoas famosas estão de nós, reles mortais? Nesse livro de Taylor Jenkins Reid, traduzido para o português por Alexandre Boide, recebemos algumas respostas para essas perguntas, ainda que a partir de um romance ficcional.

“(…)se você disser para uma mulher que sua única qualidade é ser desejável, ela vai acreditar”

Evelyn Hugo é uma estrela, uma sex symbol, um ícone. Ela protagonizou filmes, ganhou um Oscar e viu seu nome se tornar personagem principal de escândalos e notinhas de casamento. Evelyn Hugo se casou sete vezes. Evelyn Hugo é tudo que as revistas de fofoca sempre desejaram acompanhar. Só que aos oitenta anos de idade e acompanhada de Monique Grant, uma jornalista escolhida a dedo, apesar de não ter muita notoriedade, ela quer contar sua verdadeira história.

“As pessoas não são muito solidárias e acolhedoras com uma mulher que põe a própria carreira em primeiro lugar.”

Quase como uma personagem de Sydney Sheldon, Evelyn Hugo surgiu do nada usando sua beleza, charme e vontade de se provar e viver uma vida diferente da pobreza que conhecia. Desde muito jovem, percebeu que ser desejada a colocava em risco, mas também podia proporcionar chances únicas, se ela aprendesse a jogar aquele jogo em que as peças poderosas são todas homens e as mulheres são meros peões.

Guiada pela ambição, a personagem da atriz é muito bem construída. Ainda que esteja no papel de narradora e seu relato apresente sua visão das coisas e a verdade que ela quer mostrar, o que é contado apresenta para Monique as facetas não tão glamourosas de Hollywood, como a objetificação, o incentivo à rivalidade feminina presente no meio, as mentiras, a manipulação, os jogos de poder, as estratégias de marketing e a escolha pelo silêncio. Como mero peão no jogo da fama, Evelyn até conseguiu se sair bem, mas nem tudo saiu tão barato assim.

“Ah, eu sei que o mundo prefere mulheres que não têm noção do próprio poder, mas estou de saco cheio disso.”

Como uma boa história de bastidores, a obra é instigante. Queremos saber quem é a verdadeira Evelyn Hugo, o que ela esconde, quem ela amou de verdade e o porquê dela ter escolhido Monique Grant como sua biógrafa. A história nos envolve totalmente, talvez por causa do recurso de intercalar cenas do presente com a narração das memórias da atriz ou até mesmo com notinhas de fofoca. Mas, muito mais do que estrutura, o que provavelmente nos atrai na obra é a complexa construção das duas personagens principais e o fato de que o livro nos ajuda a criar uma nova ideia, talvez mais realista, do que as mulheres que conhecemos como as mais bonitas da história do cinema podem ter vivido.

 

Arte de capa de Joana Figueiredo para a Editora Paralela

A trajetória de Evelyn Hugo em relação aos desafios e avanços do século XX e do início do XXI — SPOILERS A PARTIR DAQUI — ESTEJA AVISADO

Muito além da fama, da objetificação, do casamento e da ambição feminina, “Os sete maridos de Evelyn Hugo” trata de temas como bissexualidade, homossexualidade, carreira, dinheiro, violência doméstica, sexo e poder.

Ainda que Evelyn Hugo seja uma personagem ficcional e tenha conquistado quantias de dinheiro inimagináveis para a maioria de nós, sua trajetória nos faz refletir sobre as antigas regras vigentes no século XX e que, a partir de muita luta, começaram a ser quebradas.

Evelyn talvez tenha pensado que assim que atingisse a fama, estaria minimamente protegida dos destinos comuns das mulheres de sua época, mas se enganou. Apesar de tudo que pôde alcançar por causa da fama e o dinheiro, a pressão para cima dela em relação aos casamentos, filhos, carreira e beleza existiu e acabou funcionando como uma forma de colocar ela e todas as outras mulheres no seu devido lugar. Controlá-la era impedi-la de mostrar que a vida poderia ser diferente. Puni-la também.

A protagonista dessa história lidou com agressões domésticas e com o peso de ter que esconder sua sexualidade e o amor que vivia de todos. No primeiro caso, todos estavam prontos para fingir não ver as marcas de violência e, no segundo, qualquer mínimo indício poderia fazer sua carreira e de quem a apoiava vir por água abaixo.

“Ser desejada significava a obrigação de satisfazer os outros”

Por mais que fosse famosa, ela era apenas mais uma peça que poderia proporcionar lucro para alguém. O que lembra o #MeToo e as denúncias de mulheres, muitas atrizes famosas, de violência sexual. Tudo muito recente, mostrando que Hollywood ainda joga com a vida e a dignidade das mulheres como bem entende e sempre está pronta para acabar com carreiras femininas para salvar as masculinas.

O armário

O amor da vida de Evelyn, a sex symbol, a mulher que os homens desejavam e as mulheres queriam ser, foi também atriz. Esconder o relacionamento foi um desafio para ambas, porque estar em Hollywood envolvia ter que promover ideais de amor heterossexual, lindo, limpo e feliz. E ela, como objeto de desejo, jamais poderia se mostrar dessa forma.

“Ser bissexual não significa ser infiel […] Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”

A atriz, para conseguir o que queria, preencheu todas as suas dúvidas com a certeza de que era preciso esconder, ludibriar, viver aquilo sempre de maneira secreta. Isso também teve um preço.

Nesse sentido, a escolha da autora de citar os sentimentos de esperança que a Revolta de Stonewall evocou nos personagens e como foi feita a decisão deles de apoiar aquele momento a partir do dinheiro e não com uma saída pública do armário foi muito certeira. Especialmente para mostrar o pragmatismo envolvido.

“Imagina se todas as mulheres solteiras do planeta exigissem alguma coisa em troca de seus corpos. Vocês seriam as donas do mundo. Um exército de pessoas comuns. Só homens como eu teriam alguma chance contra vocês. E isso é a última coisa que esses cretinos querem: um mundo comandado por gente como eu e você.”

Violência doméstica

“Em briga de marido e mulher não se mete a colher” é um ditado muito popular no Brasil e que reproduz uma ideia que vai muito além do nosso território. O que acontece dentro de um casamento não é da conta dos outros, mas a regra só vale no caso de manter a violência doméstica naturalizada e escondida e as mulheres seguindo as regras. Como o casamento é sempre colocado como um sonho, função e responsabilidade feminina, tudo fica nas costas delas. Qualquer sinal de fracasso, inclusive a própria violência, é lido socialmente como sinal das falhas femininas.

Evelyn Hugo sente esse peso comum a todas as mulheres ainda hoje e também o da indústria que a emprega e está mais interessada em vender o casal feliz, lindo e queridinho da América do que em protegê-la. A indústria do cinema aqui assume o papel que muitas vezes é da família da vítima, dos parentes do algoz e até o da própria igreja ou mesmo delegacias e judiciário.

Evelyn Hugo se silenciou sobre o que passou e anos mais tarde descobriu que outra atriz que casou com seu ex-marido passou pelo mesmo ao ouvir um doloroso “por que você não me avisou?”. É impossível não pensar em como todo o contexto de competição de mulheres contribuiu para que elas não tenham trocado esse tipo de informação e na importância de manter essa lógica de rivalidade para garantir que os homens continuem podendo tudo, mesmo em espaços que mulheres parecem ser tão poderosas.

As mulheres retratadas na obra fazem tudo para se sobressair. E esse tudo pode envolver até trabalhar com o próprio agressor por querer muito fazer um filme. Decisão que pode incomodar, mas que parece ter sido colocada pela autora para expor quem é essa personagem e o que ela faria para manter seus segredos bem guardados e realizar seus desejos.

“Todo mundo acaba se vendendo por uma coisa ou por outra.”

Motivações

Depois de conhecer os detalhes dessa história, entendemos melhor o que Evelyn Hugo quer ao contá-la nessa altura da vida. Ela quer que sua trajetória passe a ter um significado político, ainda que para isso tenha que admitir falhas, covardias, silêncios, manipulações, dúvidas e arrependimentos. Apesar de tanta exposição, a personagem narra sua vida para a Monique conforme a imagem que quer passar e também como analisa suas próprias memórias.

Evelyn Hugo é uma ficção

Como atriz, Evelyn construiu uma personagem para apresentar ao público, enquanto vivia sua vida. Essa mulher, além de ícone, era humana, com tudo que isso significa. Assim como Monique Grant, a amamos e a odiamos, porque a conhecemos na intimidade. Mas seria Evelyn tão assertiva e decidida quanto ela quer que a gente pense que é? Nunca saberemos.


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Retrato de Uma Jovem em Chamas: um exercício de observação

(Contém spoilers)

Cada cena do filme “Retrato de Uma Jovem em Chamas”, obra dirigida por Céline Sciamma, poderia ser um quadro, um quadro pintado por Marianne, a protagonista dessa história focada em mulheres. Cada frame capta algo da imagem além dela própria, como se a história fosse contada também pelos mínimos detalhes que só um olhar atento e meticuloso é capaz de trazer para um retrato. O olhar que Marianne tem como seu. O olhar que Marianne volta para Héloïse, inicialmente por esse ser o seu trabalho e depois porque esse é o olhar da aproximação, dos laços que surgem entre os seres humanos, do desejo. O olhar que Héloïse retribui.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma história de amor, de amizade, de descoberta e de observação que acontece a partir da contratação de Marianne para pintar, secretamente, um retrato de Héloïse. Essa pintura precisa existir, porque será um presente para o homem que casará com a retratada que se recusa a posar. O casamento aqui é uma obrigação que a personagem deve aceitar, ela querendo ou não, porque cabe às filhas servirem como moeda nessa transação comercial.

O retrato de Héloïse é o motivo de Marianne estar ali, olhando, trocando, e inicialmente se colocando como uma dama de companhia para assim poder pintar, em segredo, quando elas não estão juntas. Esse quadro, além do motivo dessas mulheres se encontrarem, é também uma fonte de reflexão sobre o apagamento do desejo das mulheres e como o poder e as regras dos homens fala mais alto em relação a tudo que se relaciona a elas e suas vidas.

Apesar da ameaça de casamento que espera Héloïse, esse é um filme que expõe uma série de trocas, situações e eventos cotidianos que acontecem quando ninguém de fora está olhando. Sendo esse ninguém de fora homens ou mulheres que defendem os interesses deles.

Por um breve período de tempo, três mulheres jovens — Héloïse, a mulher a ser pintada, Marianne, a pintora, e Sophie, a criada — usufruem a liberdade de não estarem sendo observadas e vigiadas para aproveitar o momento, se divertir e também amparar. Durante esse espaço temporal, há a construção de uma intimidade que só é possível existir quando se cria uma relação de confiança pautada no instante, no desejo, na troca e no apoio sem dever ou pecado. Quando ninguém de fora está olhando, há espaço para relações genuínas surgirem. De fora daquela ilha, as engrenagens continuam a rodar, prontas para afetar essas mulheres e corrigi-las, mas no interior daquela casa, brevemente, elas parecem quase esquecer disso.

A observação é o centro do filme, tanto como um meio de criar empatia, vínculo e interesse, quanto como meio de controle. Todas as três personagens, Marianne talvez menos, estão acostumadas a serem vigiadas em algum nível. Ali, isoladas umas com as outras, confinadas numa ilha, sem a mãe de Héloïse ou qualquer outro representante da sociedade para ditar regras, elas encontram menos solidão do que em suas rotinas tão afetadas pelo olhar desses que só sabem vigiar.

A troca só é possível quando não se está vigiando alguém. O que torna esse filme também sobre o desejo de liberdade e a construção de afetos a partir dessa vivência. Todas elas querem uma vida em que podem ser livres e esses dias umas com as outras significa isso.

Um filme como esse mostra como o olhar masculino sempre foi uma prisão para as mulheres. Esse olhar dita quais comportamentos são os corretos e vigia e pune para garanti-los. Esse olhar é o patriarcado que tenta restringir a intimidade, a privacidade e a liberdade das mulheres. Só que as mulheres sempre encontram brechas para viver suas vidas e tentar ajudar as outras. Marianne mostra isso quando conta sobre como as regras dos homens tentam afastar as mulheres de serem pintoras completas a partir da proibição de que elas pintem nus e comenta que há como burlar isso e depois expõe seu quadro numa galeria usando o nome de seu pai. Sophie, ao precisar de um aborto, e encontrar amparo com Héloïse e Marianne e com toda uma comunidade de mulheres também serve como exemplo disso. Mesmo no meio de tantos rostos prontos para julgar, há como encontrar algo diferente. Há como desrespeitar as regras. Encontrar algum refúgio. Talvez isso seja o que chamam de sororidade.

A descoberta das personagens vai além da sexualidade, da troca e da amizade e perpassa toda essa questão de controle versus liberdade, de forma sutil, porque todas ali sabem que aquela situação não poderá durar para sempre, porque há uma promessa de casamento e Marianne está ali somente para garantir o quadro que simbolizará esse futuro. Há uma data de validade e as três devem aproveitar antes que o tempo delas vençam. Especialmente Héloïse e Marianne, que vivem um amor impossível por esse breve período que parece mínimo perto do resto de suas vidas, mas é mais do que o suficiente para marcá-las. É possível burlar as regras, mas ainda não dá para reescrevê-las e elas precisam aceitar o futuro que virá.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma declaração de amor ao exercício de observação livre de amarras e sem o objetivo de domínio e a tudo que pode surgir a partir disso. Por isso é tão bonito. Por isso cada cena parece uma obra de arte. Por isso narra o amor entre mulheres.


O Cinema, enquanto indústria, privilegia o olhar masculino que aprisiona as mulheres e limita que o trabalho delas, como o bordado de Sophie, seja valorizado. Como em diversos outros espaços, há um apagamento do trabalho feminino e um fenômeno que mescla invisibilização e desvalorização em relação aos feitos dos homens. Mesmo quando esses homens são acusados de terem violentado, sexualmente ou não, mulheres. A arte está acima de tudo, quando se trata de homens brancos. A arte é uma distração, um hobbie, uma prenda feminina. Ou um trabalho, quando seu pai te coloca como herdeira dele, mas um trabalho que jamais poderá ganhar tanto espaço quanto o de um homem, porque o mundo ainda só valoriza o que parece cercear as mulheres de alcançar sua plenitude.

“Retrato de uma jovem em chamas” é um dos melhores filmes que já vi e, apesar de ter sido bem aplaudido, foi encarado por alguns homens que se colocam como críticos como uma obra somente voltada para mulheres, como se apenas mulheres se interessassem por histórias contadas por nós. Como se a falta de personagens masculinos tornasse a obra imediatamente desinteressante. A película se destacou principalmente por causa da maneira que foi filmada, mas Céline Sciamma perdeu o prêmio César de melhor direção para Roman Polanski, diretor que tem uma condenação de estupro no currículo. Pelo menos Claire Mathon, diretora de fotografia da obra, levou merecidamente o César voltado para essa atividade.

Esse filme diz muito sozinho, mas também diz muita coisa quando analisado em seu contexto. A obra mostra o potencial, afetivo e artístico, que as mulheres possuem quando não estão sendo avaliadas o tempo todo por uma ótica masculina que busca submissão às regras feitas por eles. Potencial que ainda hoje segue ignorado quando privilegiam homens sempre, inclusive estupradores condenados, ou atribuem rótulos e nichos reducionistas ao que deveria ser visto como arte.


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Buscando Vivian Maier

Quem foi essa mulher?

Quem foi Vivian Maier? Esse nome que até a morte dela significava apenas uma babá, uma francesa que não era francesa, uma pessoa solitária, uma mulher alta, uma mulher que muitas vezes mentia seu nome em situações cotidianas, uma acumuladora, uma pessoa que tinha uma pisada característica, uma mulher esquisita, uma mulher misteriosa e uma série de outras coisas que muita gente que a conhecia poderia dizer, mas não disse no documentário que vi sobre ela. Esse nome agora, além de tudo isso e mais o que não foi dito e conhecido, também significa fotógrafa famosa.

Conforme conta o filme “Finding Vivian Maier”, indicado ao Oscar como melhor documentário de longa-metragem em 2015, Vivian Maier foi descoberta após sua morte, numa dessas histórias bem comuns entre mulheres artistas ou mesmo cientistas que nos fazem pensar, com bastante pesar, nos vários trabalhos incríveis perdidos para sempre. Uma caixa com seu trabalho de fotografia foi comprada em um leilão por John Maloof. Ao mexer na compra, ele suspeitou que aquele trabalho era muito bom e teve a confirmação disso ao expor as fotos dela no Flickr. A partir daí, Maloof tenta descobrir mais sobre a dona daquelas fotos e juntar mais e mais do material que ela deixou como legado, mas que até então era visto apenas como tralha e só passou a ser importante porque podia trazer algum lucro para o homem que a descobriu.

O documentário conta a busca por informações sobre essa mulher que, apesar de acumular comprovantes de compras, caixas e mais caixas, jornais, fitas, fotos, rolos de câmera e famílias com quem trabalhou pouco deixou de vestígios sobre quem era.

Vivian Maier é um mistério e a única forma de desvendá-la minimamente é a partir da memória daqueles que conviveram com ela enquanto babá. Memória que, com a descoberta de que aquela mulher escondia um enorme talento artístico e agora é assunto de documentário, pode ou não ter sido afetada. Se lembrar é um exercício não confiável, marcado por quem somos quando lembramos e o contexto daquela lembrança e isso se acentua quando falamos de alguém de um passado distante, imagina quando nessa equação há também uma filmadora e uma vontade enorme de se dar importância na trajetória de uma mulher já falecida.

Essa questão da memória e sua confiabilidade é bem explorada no filme, porque a obra usa os relatos contraditórios para expor o quanto cada lembrança ali narrada não pode ser vista como um fato inequívoco sobre aquela pessoa que não pode falar sobre si, mas também explora as narrações parecidas, que se repetem ou complementam, para tentar criar ao menos uma sombra de quem aquela mulher foi, enquanto o mistério de Vivian Maier perdura.

Vivian Maier é uma nova velha obsessão artística minha não só porque ela produziu imagens incríveis que me tocam em n aspectos, mas também porque tudo que se sabe de sua vida tem a marca da solidão. Não é um parente ou um amigo ou interesse amoroso que conta para nós quem ela foi, são seus empregadores ou mesmo atendentes de lojas que frequentava cotidianamente. A história dessa fotógrafa é desenhada por essas pessoas com quem ela dividiu uma parcela mínima de sua vida, ainda que ela vivesse por um certo período na casa de algumas delas. Pessoas que hoje narram que a viam carregando sua câmera para todo lado, mas nunca demonstraram qualquer interesse nisso quando ela ainda era viva.

Podemos tentar saber um pouco mais sobre essa mulher misteriosa também a partir de suas fotos. Com essas imagens, podemos conhecer onde ela circulou, o que ela viu, o que chamou a atenção dela, o que ela percebia do mundo e até dela mesma e principalmente o que ela queria mostrar.

Vivian Maier produziu vários autorretratos. Muitos com seu rosto em evidência, outros com sua sombra e outros tanto que contavam com ela em meio ao mundo ao redor. Mundo esse que podia ser a rua, mas também vitrines de loja e locais fechados ou mesmo uma lembrança de sua viagem pelo mundo. Vejo nessas fotos uma certa demarcação de existência e uma investigação que envolve fotografia e o próprio corpo, rosto e identidade.

Como fotógrafa da cidade, podemos pensar em Vivian, acompanhada ou não pelas crianças que cuidava, circulando por Nova York e tirando fotos com uma câmera que ficava pendurada em seu peito. Será que podemos supor que circular era algo que ela gostava? O que nos personagens da cidade a intrigava? Que ela queria, com essas fotos, mostrar como o mundo é de fato? Só sei que gosto de pensar nela na cidade. Andando para todo lado, investigando o mundo, as pessoas, as expressões, as relações e cenas, buscando observar o que tinha ali e também estando nesse espaço que ainda hoje apresenta limitações às mulheres, mas que também pode representar a possibilidade, muitas vezes tentadora, de ser mais um no meio de tantos. Uma camuflagem.

Minha foto preferida feita por ela une com maestria o autorretrato, a cidade e o mundo, dela e dos outros. Ela é uma selfie no espelho, mas o espelho está sendo carregado por um homem. O rosto do homem não aparece. Apenas seu corpo que carrega o espelho está ali de costas. No espelho, ele está presente, mas sem estar, porque o corpo dele tampa a imagem que poderia ser refletida, deixando somente Vivian refletida e presente de fato. Ainda que a foto mostre a cidade, com uma transeunte em fundo, ela é a única que parece não estar em movimento, seguindo o fluxo. Nessa foto e nas outras várias dela da mesma “editoria”, ela observa sem ser observada. Camuflada ainda que parte daquilo tudo. Aparentemente tranquila com essa posição. O que me faz pensar se ela se sente tranquila nesse lugar social e pessoal sempre ou só quando fotografa. Essa solidão, ao menos na minha interpretação, às vezes me parece com autonomia, a autonomia de quem vive na casa dos outros e encontra na rua cheia uma liberdade maior que no sótão da casa que trabalha, mas as imagens não me parecem tão simples assim. Há nessa equação como ela quer se representar. Há até mesmo uma certa ambiguidade em algumas imagens, ambiguidades que evocam esse lugar de observação como um lugar de solidão. Ou eu vejo essa ambiguidade porque sei um pouco da vida da artista. Não sei.

“Finding Vivian Maier” tenta traçar uma biografia de uma mulher a partir de uma investigação marcada pela subjetividade de quem lembra e de quem analisa seu trabalho com o desafio de que a investigada era muito sozinha e fechada. Sem respostas definitivas sobre quem foi de fato essa mulher, o espectador termina o filme compartilhando a curiosidade com quem a conheceu, mas sente que nunca a entendeu.

O que Vivian buscava com suas fotos?


Para mim, Thaís, é impossível não vincular toda a história e trabalho de Vivian Maier com o livro “Cidade Solitária” de Olivia Laing. Nessa obra, Olivia investiga a relação da solidão com a arte e os efeitos desses trabalhos produzidos com esse condão ou por causa desse isolamento nas pessoas ao redor. Ela usa essas obras e a pesquisa que fez sobre os artistas para falar da própria solidão e do tabu que envolve esse tema. Centrado em Nova York, Vivian poderia ser uma das principais personagens desse livro.

Escrevo esse texto agora, porque ela e suas fotos me parecem interessantes sempre, mas no contexto de isolamento por causa do Covid-19, penso no quanto estar na cidade, se colocar nela como Maier faz em muitos de seus autorretratos, pode funcionar como uma forma de se sentir menos só quando é assim que a gente se sente. Mas também pode piorar o sentimento de inadequação social e de falta de conexão. E também pode ser uma fuga ou um amortecimento, que agora, em abril de 2020, muitos de nós desejamos. Entretanto, não estamos na rua, ou pelo menos grande parte de nós não deveria estar, e sentimos uma outra coisa: uma mistura de luto coletivo pelo que o mundo se tornou e pode se tornar com ansiedade, com desespero, medo da morte e com o medo de morrer sozinho, isolado, sem liturgias e despedidas.

Entre um prédio e outro, há um abismo. Há uma proximidade impossível de transpor, apesar de podermos ver as janelas e um pouco da vida privada dos nossos vizinhos sem conhecê-los de fato. Estamos rodeados de pessoas, algumas inclusive convivendo com mais de dez em um mesmo cômodo, mas sentimos tudo fora do lugar. É hora de aproveitarmos essa atenção dada ao tema da solidão, seja só ou acompanhada, para pensarmos em quem o mundo faz só e como tudo isso afeta quem já não se sente parte dele com ou sem pandemia. Sem esquecer que a solidão não deve ser tratada como um tabu vergonhoso e que no momento muita gente teme pela primeira vez nunca mais conseguir se conectar de verdade com algo e nem com alguém.


Todas as imagens utilizadas aqui foram retiradas do site http://www.vivianmaier.com/ e esse texto surgiu a partir de uma thread que fiz no Twitter. Se você gostou do que escrevi, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Ela disse: os bastidores da investigação jornalística que impulsionou mundialmente o #MeToo

Um livro para entender melhor o que estava em jogo na publicação da reportagem que impulsionou o #MeToo.

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Uma reportagem publicada no início de outubro de 2017 pela New York Times expôs, com bastante consistência, os assédios sexuais cometidos durante décadas pelo produtor Harvey Weinstein e a maneira que acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade foram utilizados para obter o silêncio por parte de suas vítimas, todas elas relacionadas a ele profissionalmente. A publicação dessa matéria, e de diversas outras que vieram a seguir, iniciou um debate que ganhou o mundo e teve um impacto especial nos EUA.

A denúncia do comportamento de Harvey Weinstein e outros homens poderosos e a quebra do silêncio de mulheres das mais diversas áreas permitiu que a sociedade começasse a tirar de debaixo do tapete relatos e denúncias que serviram para expor o quanto homens, das mais diversas áreas, incluindo negócios, tecnologia, política e cinema, aproveitam o poder que possuem para explorar e pressionar sexualmente as mulheres que os cercam.

Essas histórias demoraram tempo demais para serem contadas. E, a partir da leitura do livro “Ela disse”, escrito por Jodi Kantor e Megan Twohey, jornalistas vencedoras do Prêmio Pulitzer, podemos entender melhor o porquê.

A saga narrada pelas autoras da reportagem inicial sobre Harvey Weinstein mostra o quanto o produtor usava seu poder e influência, financeiros e não-financeiros, para conseguir acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade e barrar possíveis reportagens e investigações jornalísticas sobre ele. Fica evidente que isso funcionou por tanto tempo também porque as mulheres e suas denúncias sempre foram negligenciadas em nossa sociedade. Afinal, ao menos no mundo pré #MeToo, ele era um homem difícil e elas deviam saber — e aceitar — isso.

A obra nos ajuda a entender o quanto a investigação, escrita e publicação dessa matéria foi um processo demorado, perigoso e delicado, especialmente entre jornalistas e fontes. Enquanto elas pesquisavam, conversavam com mulheres e buscavam documentos, o cerco do ex-produtor e seus acobertadores se fechava em torno delas, colocando vítimas e jornalistas numa situação passível de intimidação.

Ninguém queria falar on the record sobre o caso. Medo, culpa, raiva, vergonha, vontade de fugir e, claro, cláusulas de confidencialidade eram obstáculos. Ninguém queria falar sozinha ou ser uma das primeiras a abrir o jogo publicamente. As jornalistas, entretanto, sabiam que precisavam de alguma declaração oficial para conseguir dar substancialidade à denúncia. E elas conseguiram e as matérias que vieram a seguir mostraram que quando uma fala, outras também se encorajam a falar.

Além do caso em si, o livro trata também de momentos pré e pós publicação da primeira matéria contra o produtor, colocando outros casos em evidência, como as acusações contra Trump e ao juiz Brett Kavanaugh. Tratar essas três histórias em conjunto permite que o leitor contextualize a força dessas denúncias e também compreenda melhor o backlash misógino que as sucederam.

Em um dos melhores momentos da leitura, o leitor se depara com o relato dos bastidores de uma conversa organizada pelas jornalistas com diversas mulheres denunciantes de homens por assédio sexual. A troca narrada ali envolveu atrizes e ex-assistentes do mundo do showbizz e também mulheres comuns como Kim Lawson, atendente de uma rede de fast food, e Christine Blasey Ford, a mulher que denunciou sozinha Brett Kavanaugh e enfrentou uma sabatina no Senado para tentar barrar que o seu algoz se tornasse parte da Corte Suprema dos EUA. É nessa parte que a gente entende, de verdade, o poder da primeira matéria e a importância do fenômeno #MeToo para as mulheres. Apesar dos pesares, o silêncio foi quebrado e todas essas mulheres, por mais diferentes que sejam, entenderam que não estavam sozinhas e precisavam agir por elas e pelas outras. Exatamente como Ashley Judd, atriz, ativista e uma das primeiras a denunciar o ex-produtor, acreditava desde o início.


Enquanto eu escrevia essa resenha, o julgamento criminal do ex-produtor Harvey Weinstein acontecia. A sentença desse caso tinha o condão de mostrar o poder da voz das mulheres ou o quanto ainda precisaríamos caminhar para finalmente sermos ouvidas.

Depois de cinco dias de júri em Nova York, ele foi condenado por dois dos cinco crimes que foi acusado e ainda enfrentará outro julgamento de agressão sexual na Califórnia. Alguns detalhes do processo demonstram que o #MeToo e todos os debates fomentados por feministas nos últimos tempos começou a transformar a forma que a sociedade vê as vítimas de violência sexual e mulheres no geral, mas ainda há um longo caminho pela frente. Um exemplo disso é que quando a defesa acusou que as vítimas mantiveram contato com Harvey após a “suposta” violência e e que elas eram responsáveis pelas escolhas que fizeram para promover suas carreiras, a promotoria soube mostrar o quanto essa argumentação era irrelevante e ignorava relações de poder.


Tradutoras da obra: Débora Landsberg, Denise Bottmann, Isa Mara Lando e Julia Romeu.


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Duas chaves e um apartamento

Eu decidi me mudar. Depois de dez anos morando em repúblicas com gente de todo jeito, eu aluguei um apartamento para mim. Finalmente eu ia poder seguir minha vida sem pensar no que a mãe da Tati ia fazer quando descobrisse que a moça que estava sempre comigo era a minha namorada e parar de brigar todo dia antes mesmo de tomar café porque só tem um banheiro com chuveiro e quatro mulheres que saem na mesma hora para trabalhar.

Estava feliz. Cheguei a me sentir uma adulta de verdade. Apesar de ter precisado pedir meu pai para ser meu fiador. Depois deixei de me sentir assim. Quando decidi que era hora de me mudar, o maior motivo foi a minha vontade de ter um lugar em que pudesse ficar à vontade com a Juliana. Estávamos juntas há três anos e toda vez que eu visitava apartamentos para escolher minha futura moradia, eu pensava nela comigo naquele espaço. Avaliava se a cozinha era boa para a gente cozinhar em dupla, como gostamos, e julgava se naquele lugar daria para adotar um cão vira-lata caramelo que na minha cabeça se chamaria Megan por causa da Megan Rapinoe. Antes de analisar se o preço do aluguel valia a pena, eu olhava no Google a distância entre o apartamento e os nossos trabalhos e quais ônibus a gente teria que pegar para irmos onde sempre vamos. Tudo foi pensado em nós, mas eu me mudaria em três semanas e ainda não tinha falado para Juliana que eu queria que ela se mudasse comigo e a felicidade de dar esse passo tinha virado uma angústia sem fim.

Me sentia ridícula por não conseguir convidá-la para morar junto. Nunca me dei bem com palavras faladas. Elas sempre saíam da minha boca entrecortadas e artificiais. Eu tentei várias vezes. Desistia quando eu notava que ia parecer discurso de agradecimento do Oscar. Tudo soava forçado. Nos ensaios, eu parecia um robô programado a fazer um discurso amoroso. Por isso, pensei em escrever uma carta. Desisti. Achei coisa de covarde. Eu sou covarde, mas há níveis de covardia que até hoje eu me recuso a atingir.

Decidi comprar um cupom no Groupon e convidá-la para jantarmos num restaurante chique. No caminho, conferi se estava com minha chave do novo apartamento e uma cópia. Ambas já com chaveiro, porque eu sempre penso em tudo, mesmo antes de falar qualquer coisa. Queria entregar a dela já com o símbolo da casa Stark posto. Ela adora “As crônicas de Gelo e Fogo”. A minha, no entanto, já estava com o emblema da casa Lufa-Lufa, porque eu morro de preguiça do George Martin e sou lufa-lufana com orgulho.

Tudo estava pronto, perfeito até. Tinha que ser no jantar. Não dava mais pra fugir. Eu precisava falar. Não queria montar a casa sem ela saber que é algo nosso, sabe? Seria injusto com ela e até comigo.


Entrada, prato principal e sobremesa. O cupom nos permitia escolher várias opções. Peixe não. Salada de entrada não. Se bem que tem palmito. No fim das contas, fui no prato que levava um creme de batata baroa. Estava delicioso ou eu me lembro assim porque essa noite terminou muito bem.

“Será que a gente devia pedir um vinho?”, eu disse enquanto pensava que aquilo com certeza daria um ar mais romântico ao jantar, mesmo que a gente deixasse a taça praticamente intocada ao lado do prato. A verdade era que a vontade era de chamar o garçom e dizer: “Desce uma subzero aí, parça!”. Compartilhei esse pensamento com ela. Ela riu bastante. Pedimos chopp artesanal no lugar. “Acho que dá para falar que conseguimos achar um meio termo entre o vinho chique que deixa a gente com a língua estranha e a subzero de sempre”, ela disse.

Enquanto a gente comia, ela contava coisas engraçadas que aconteceram no trabalho dela. Tinha surgido um cara chamado Segunda-feira por lá. Todo mundo da repartição achou que ele ia requerer mudança de nome, mas ele só queria ver como ia o processo dele contra um banco. Também tinha uma outra história, mas eu não sei mais sobre o que era. Eu estava lá, sem prestar atenção, nervosa e pensando que tinha que ser naquela hora, que eu tinha tudo ao meu favor, mas, só para variar, eu não conseguia falar.

“Petit Gateau ou Crème Brûlée?”, Juliana disse totalmente formal quando acabamos de comer o prato principal. “O que diabos é Crème Brûlée? Como fala isso? Será que eu peço?”, reagi. Pedimos o creminho, mesmo sem saber o que era. Um pouco de coragem ao pedir o prato podia me ajudar a agir e fazer o convite oficial e, para falar a verdade, eu até acho que isso me ajudou no final das contas.

Eu tinha que abrir o jogo antes do jantar acabar, mas pensar na palavra oficial me deixou ainda mais desconfortável. Não queria soar como um ofício institucional. As sobremesas deviam chegar em minutos. O tempo estava acabando e eu estava ainda mais ansiosa com tudo aquilo. Decidi ir ao banheiro para enrolar, fazer um xixizinho e jogar uma água na cara.

“Que limpo! Nem parece que alguém mija aqui!”, pensei ao passar por aquela porta de madeira enorme e me deparar com azulejos claros, um vasinho de planta, uma pia bem decorada e cheirinho de lavanda. Tinha papel higiênico na cabine, infelizmente um luxo na maioria dos bares que frequentávamos na época, e ainda era um daqueles super macios e cheio de camadas! Sei que isso vai soar decadente, mas esse papel era uma novidade e tanto para minhas partes! Nessa hora, segurando a risada, decidi que tinha que voltar para mesa logo e fazer o convite nem que fosse do jeito mais tosco possível só para depois falar com a Juliana sobre ela precisar conhecer o banheiro antes de ir embora. Infelizmente toda a coragem me escapou quando me olhei no espelho ao lavar as mãos e me deparei com o meu olhar inseguro de sempre. Ali iniciei um breve monólogo encorajador e, para vergonha minha, em voz alta. Não lembro bem o que falei comigo, mas acho que foi algo assim: “Vai, Letícia, pense em outra coisa. Pense no papel higiênico macio. Pense na ousadia de pedir o creminho francês. Pense na Juliana e no cachorro que vocês vão adotar juntas. Pense em como vai ser bom acordar sempre ao lado dela. Pense que só falta suas palavras para fazer isso tudo acontecer. Respira fundo. Joga uma água na cara. Deixe vir espontaneamente. Pare de falar consigo mesma se olhando no espelho. Vai que alguém entra aqui e te vê falando sozinha desse jeito. Vão achar que você está metida com coach, Letícia! Vai para mesa agora! Vai logo!”

Lembro de ter voltado para a mesa morrendo de vergonha pensando que alguém podia ter tentado ir ao banheiro e se deparado comigo falando sozinha e decidido dar a meia volta porque era melhor ficar apertada do que lidar com uma possível doida, mas sei que logo me esqueci disso, porque assim que sentei de novo na cadeira, a Ju me perguntou sobre uma oficina literária que eu estava fazendo.

As aulas de escrita criativa foram divertidas, falei, e disparei a contar todos os detalhes: os exercícios feitos em aula, os deveres de casa, o medo do meu trabalho ser visto como ridículo, o incentivo que ouvi dos colegas e blablabla. No meio disso, me lembrei que a professora me aconselhou a criar cenas na hora de escrever e a parar de achar que preciso colocar todos os pingos nos is, deixar tudo explicadíssimo. Segundo ela, há formas mais fáceis de mostrar o que queremos. Criar cenas, por exemplo. Ao falar isso em voz alta, eu finalmente soube o que fazer e coloquei a minha chave na minha frente. Me levantei e posicionei a dela bem ao lado do pratinho de Crème Brûlée que ela saboreava. Parei ali, ao lado dela, olhei para aqueles olhos brilhantes e sorri. Ela me olhou de volta com uma expressão de alegria e surpresa. A risada dela é sempre deliciosa.

Só precisei falar “Vamos?”, logo depois de nos beijarmos, para ela dizer sim e o garçom que viu toda a cena começar a aplaudir e assim puxar as palmas das mesas ao nosso redor.


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Observação: Quando tentam censurar e intimidar quem publica, vende, lê e escreve literatura com presença de LGBTs, a gente vê o quanto é necessário escrever, publicar, ler e vender mais e mais livros com essa temática e/ou esses personagens.

Conservadores fanáticos surfam no medo das pessoas pelo que elas não conhecem para buscar votos ou apoio e é por isso que é tão importante espalhar essas histórias. Quanto mais elas forem lidas e conhecidas, menos terror vai dar para fazer com base nisso. É com o contato com histórias de amor, sexo e descoberta que envolvam casais de mulheres ou de homens que a sociedade vai, enfim, entender que não há o que temer.

A questão por trás dessas atitudes autoritárias não é “proteger as criancinhas” e nem uma mera questão de classificação indicativa ou qualquer outra desculpa. A intenção deles é cercear o direito das pessoas conhecerem narrativas que fujam da heteronormatividade e dos papéis tradicionais de homens e mulheres, ainda que elas sejam adequadas para crianças, e a gente não pode se esquecer disso. Para eles, mesmo as ingênuas mãos dadas podem ser vistas como um conteúdo perigoso, pornográfico, promíscuo, se forem um carinho entre pessoas do mesmo sexo. O problema deles não é só com o erótico e o sexual em si. Vai muito além. É homofobia, bifobia e lesbofobia.

Amora: amor, paixão e descoberta nas relações entre mulheres

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Quando falamos de histórias de amor, pensamos em príncipes e princesas, reis e rainhas, pais e mães, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Elizabeth e Mr. Darcy e vários outros casais, compostos por um homem e uma mulher, que protagonizam novelas, filmes, livros, peças de teatro, séries e até pinturas. Crescemos com essas referências de amor, paixão e relacionamento. Elas nos cercam desde muito jovens e, de alguma forma, nos ensinam sobre o mundo, nossa cultura e as relações e sentimentos humanos.

Nessa vasta lista de histórias de amor famosas, não há um casal composto somente por mulheres ou somente por homens. Não há nenhum relacionamento aberto, nenhum trisal, nada que fuja do casal homem e mulher “tradicional”. Mas há, em várias casos, ciúme doentio, controle obsessivo, um certo grau perseguição e insistências que, quando feitas por homens, são quase sempre colocadas como atos de romantismo. O que isso nos ensina sobre amor, paixão e relações humanas?

Com base nessas histórias que nos cercam, dá para gente pensar que homens têm tendência natural a trair e mulheres a se sacrificar e que o amor tem arranjos fixos e é uma exclusividade heterossexual e até branca. Afinal, quantos casais negros ou de brancos com negros vimos em filmes, novelas e livros? Muito poucos, não é mesmo? Só que amor não é isso, pelo menos não necessariamente, e o “natural” e o “comum” são construções culturais que influenciam como percebemos e vivemos o sentimento mais falado pela humanidade.

Em Amora, livro de contos escrito por Natalia Borges Polesso e premiado com o Jabuti, as histórias de amor contadas são várias, algumas também apresentam traições, términos e mágoas, outras são de descoberta, família, desafios, rotina e amor de uma vida toda. A ligação entre elas está no fato de todos os contos falarem sobre as relações amorosas entre mulheres ou na reação que essas relações causam ao redor das personagens ou nelas mesmas, ainda que não haja um relacionamento particular em destaque.

Os encontros, permanências e desencontros entre as personagens permitem que a autora discorra sobre a condição humana, lembrando a quem lê que a vida das mulheres que se relacionam com mulheres é comum como a dos heterossexuais que tanto vemos na literatura, no cinema e outras mídias. Com exceção, claro, das experiências específicas relacionadas à vivência da discriminação e preconceito, como o estupro corretivo, que é assunto de um único conto da obra.

A velhice, o medo de morrer, o cotidiano, os traumas de relacionamentos passados, os conflitos familiares, o cuidado, a dor da rejeição, a doença, o estranhamento, a insegurança, a descoberta, a vontade de fugir, o sexo e o amor perpassam pelos contos em diferentes formas, ritmos e estruturas, mostrando o quanto tudo isso e mais um pouco são questões comuns a todos nós, ao menos em algum nível.

Em “Vó, a senhora é lésbica?”, conto que foi tema de questão de Enem e de um curta-metragem, se une, numa mesma história, questões como a invisibilidade lésbica, idosas que se relacionam entre si, família, omissão e a descoberta, ainda cheia de receio, de uma personagem jovem sobre sua própria sexualidade. O amor e a paixão estão presentes, como também estariam numa história sobre relações heterossexuais, mas há questões que surgem na trama justamente porque apenas um formato específico de casal é encarado como correto em nossa sociedade.

A sexualidade lésbica ou bissexual é tratada de forma natural pela autora, que aborda algumas dificuldades específicas de quem vivencia o amor entre mulheres numa sociedade ainda tão preconceituosa, mas também conta histórias que não tratam necessariamente de lesbofobia.

Os relacionamentos abordados em Amora não são perfeitos. São humanos em tudo, inclusive nas falhas e nos prazeres, e às vezes reproduzem até certas lógicas problemáticas comuns ao padrão dos relacionamentos heterossexuais, como a de chamar outra mulher de vadia devido ao comportamento sexual que ela tem. Isso dá um ar muito verossímil e comum ao que é contado, mostrando o quão complexas são as relações humanas, independente da sexualidade dos envolvidos.

Durante a leitura, sentimos que todas aquelas narrações poderiam ser casos que chegam aos nossos ouvidos por uma das partes ativas da história e o poder desse livro está justamente nisso. Tudo ali parece próximo demais e é humano demais, apesar do mundo ainda insistir em excluir esses casais. Nessa obra, a heterossexualidade não é a dona do amor, da paixão e dos relacionamentos amorosos. Ela está em segundo plano. O que foge totalmente do que vemos cotidianamente quando falamos sobre isso. Diante desse contexto, a literatura de Amora também serve como uma ferramenta dialógica e de enfrentamento.


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Futebol, mulheres e esporte: o campo ainda é um espaço de batalha

Divulgação

O futebol feminino não precisa passar por mudanças de tamanho de campo e gol para se tornar atrativo, como insinuam vários homens toda vez que o Brasil perde em uma grande competição como Copa do Mundo e Olimpíadas. Ele já é atrativo como é e essa Copa do Mundo na França deixou isso evidente.

Para melhorar a modalidade, especialmente no Brasil, precisa-se de investimento desde a base para que as meninas comecem a treinar e competir bem novas, como é padrão para os meninos. O problema é que, além da falta de interesse dos clubes, da CBF e afins, nossa sociedade ainda tende a desencorajar meninas a praticarem futebol.

As meninas que gostavam de jogar bola, ainda que sem intenção de competir, sabem o quanto todos ao redor tentam empurrá-las para o balé, para o jazz ou mesmo para o vôlei. “Muito bruto”, eles dizem e tentam criar nelas medo da bola, dos chutes, dos encontrões. Se isso não funciona e elas continuam, eles esperam que as meninas se cansem de pedir para os meninos permissão para jogar. Eles querem que, com as negativas de participação nas aulinhas de futebol do clube, no futebol de rua e nos jogos do intervalo da escola, elas percebam que não são bem-vindas. Felizmente, nem todas desistem, apesar dos esforços coletivos para isso. A verdade é que nem quando havia lei impedindo elas de jogarem bola, muitas não se deixaram intimidar. Os esportes ensinam a persistência como um caminho e esse aprendizado guiou as mulheres do futebol desde sempre.

Por meio do decreto-lei 3199/41, o futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos com a justificativa de que sua prática era incompatível com a natureza das mulheres. Além do futebol, o futsal, o futebol de areia, o polo, o polo aquático, lutas de qualquer natureza, o rugby, o beisebol e o halterofilismo também foram vedados para mulheres por esse documento legal. Isso impactou o desenvolvimento do esporte feminino no Brasil, apesar da resistência de grupos como o Araguari Atlético Clube e da primeira árbitra de futebol do mundo, Léa Campos.

A mentalidade de que o futebol e as demais modalidades citadas no decreto não são esportes adequados para mulheres ainda sobrevive culturalmente, apesar do documento em questão ter perdido sua validade em 1979. As meninas e mulheres que seguem jogando fazem isso por teimosia e paixão, sendo consideradas intrusas, sendo ofendidas com termos como “maria homem” e vivendo isso tudo sem apoio da família, dos professores ou dos colegas. A visibilidade dada aos últimos jogos da seleção feminina parece uma boa oportunidade para fazer esses caminhos de mudança se tornarem permanentes e mais efetivos, mas é necessário levar em conta que a questão das mulheres no futebol se entrelaça com a das mulheres nos esportes e, além de tudo que se relaciona com a modalidade em questão, é preciso entender que os esportes num todo não são incentivados para meninas, a não ser por motivos estéticos como emagrecimento ou crescimento, e traçar estratégias para transformar essa realidade.

As práticas esportivas nos ensinam muito sobre disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer, mas a falta de incentivo e muitas vezes de acesso afeta o desenvolvimento pessoal de meninas e mulheres, como escrevi no meu texto sobre o livro As Esportistas.

Nossa cultura machista cria obstáculos para mulheres praticarem esportes, especialmente esses colocados como “coisa de homem”. Mesmo meninas que, como eu, cresceram praticando acabam se afastando de esportes na adolescência porque entendem que esse espaço não é delas ou mesmo porque a divisão sexual do trabalho começou a atuar em seus cotidianos e agora há a obrigação de limpar, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos ou até filhos nas horas vagas.

As trajetórias amadoras das meninas e mulheres no esporte, especialmente no futebol e nas artes marciais, expõem o quanto essas restrições, sejam elas culturais ou mesmo legais, tem a intenção, ainda que inconsciente, de não permitir que mulheres descubram os limites, capacidades e características de seus corpos.

O corpo ativo, que ocupa espaços, testa limites e tudo mais não pode ser o que é considerado feminino. O corpo feminino é para parir, servir, enfeitar, ser passivo, segundo o machismo, e é por isso que o mundo dos esportes ainda é considerado deles, mesmo nas modalidades não consideradas masculinas.

Meninos e homens encaram o esporte como território próprio, inclusive de socialização, e assim as práticas esportivas se conectam facilmente com diversão. As praças, parques, clubes, quadras comunitárias e as ruas brasileiras são tomadas por meninos. Eles podem ocupar esse espaço. Podem e devem. Eles são os donos da bola. Não todos, claro. Meninos considerados afeminados ou gordos ou fãs das modalidades esportivas ‘erradas’, por exemplo, também se sentem fora do lugar, ficam deslocados e são excluídos, como as meninas que tentam participar desse espaço.

O controle dos nossos corpos, comportamentos e subjetividades se soma sempre para não permitir que meninas e mulheres descobram o que são capazes de fazer. Para que todos, inclusive meninos, possam descobrir suas potencialidades, a educação igualitária e o fim desses padrões de gênero tão castradores é necessária. Além de resolver as questões de acesso que envolvem desigualidade econômica, claro.

A discussão do futebol feminino, seu desenvolvimento e das mulheres no esporte perpassa pelo aprofundamento do debate sobre machismo e estereótipos do que é feminino e masculino. O esporte deve ser visto como um espaço para todos, independente do gênero, etnia, orientação sexual, tamanho, peso e corpo. Só assim para o acesso às quadras, campos e bolas deixaram de ser uma batalha.


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Até nunca mais

Ele saiu. Não sei para onde foi. Falou que ia me matar se ficasse mais um segundo na minha frente e foi embora deixando a porta escancarada comigo ainda no chão da sala. Fiquei deitada colocando sangue pelo nariz e vi o cara do 902 esperar o elevador e seguir em frente para seu leg day sem nem olhar para o lado.

Não sei porque ele se preocupa tanto em não deixar marcas óbvias se todos os vizinhos ouvem meus gritos há anos e não fazem nada. Ninguém se importa. Algumas vezes até eu deixei de me importar. Cheguei a pensar que ele devia me matar logo para eu ficar livre dessa merda.

Ai, ai, você vai realmente insistir para eu fazer b.o.? Outro? Contra o promotor amado da cidade do interior? Contra o cara conhecido por defender criancinhas de pedófilos? Não dá. Ele é um bam-bam-bam aqui e eu só uma mulher.

Sim, tenho certeza. Não vou passar fome e nem nada. Me planejei, sabe? Desviei uma boa grana dele para isso. Se ele vier atrás de mim, não vai me achar. Nesse avião já vou entrar com outro nome e chegando na Europa terei uma nova identidade me esperando. Seu relógio tá certinho? Já são onze da noite mesmo? É, tenho que chamar um táxi agora. Vai que ele volta mais cedo hoje. Não posso arriscar ficar mais.

Vem cá, me dá um abraço, vai. Não chore. Era isso ou continuar nessa merda.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroRelógio. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

#EleNão: as mulheres fazem política e história

Belo Horizonte — Letícia Vianna/Bhaz

Antes, durante e depois

No final de semana anterior ao primeiro turno da eleição de 2018, milhares de pessoas tomaram as ruas de diversas cidades do país e do mundo para se manifestarem contra o presidenciável Jair Bolsonaro e tudo que ele representa.

O movimento #EleNão começou a partir da criação de um grupo no Facebook chamado “Mulheres contra Bolsonaro”, se tornou uma hashtag e, por fim, ocupou também as ruas.

O rápido crescimento do grupo chamou a atenção da mídia e isso atraiu a ira dos fãs do candidato. Através de ameaças e invasões hacker, eles tentaram calar as mulheres. O resultado disso foi a multiplicação de grupos como esse em toda a rede, ações virtuais e a organização da maior manifestação popular dirigida por mulheres na história do Brasil*.

Antes do grupo, a rejeição feminina ao candidato já aparecia nas pesquisas eleitorais. Depois dele, essa rejeição ganhou força, rostos e passou a fazer questão de marcar presença no debate político, apesar do medo de represálias.

Na semana que antecedeu a data marcada para a mobilização, se viu um certo alarmismo nos grupos das mulheres contra o candidato. As ameaças, os xingamentos, os atos pró Bolsonaro sendo marcados na mesma data e a, ainda recente, invasão do grupão, que agora contava com mais de 3 milhões de participantes, intimidava. Mas isso não foi o suficiente para esvaziar as manifestações e elas foram descritas pelas participantes como diversas, alegres, acolhedoras, emocionantes e cheias de vida.

“Se cuida, se cuida, se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista” é uma dessas músicas que sempre aparecem nos atos, mas que dessa vez me tocou diferente. Me senti acolhida, esperançosa e forte no meio de mulheres de lilás que entregavam flores de papel colorido com pétalas #EleNão e me emocionei ao ver tantas pessoas se abraçarem, se cumprimentarem, enquanto carregavam no peito adesivos e estampas que exibiam que estavam do meu lado na luta por um mundo mais igualitário, justo e digno. Mesmo sendo tão diferentes de mim em tantos aspectos.

As mulheres foram a maioria, como o esperado, e também as protagonistas. Idosas, jovens adultas, adolescentes e até crianças cantaram “hoje eu acordei e ecoava ele não, ele não, não, não”, segundo o ritmo da Bella Ciao, o hino antifascista italiano.

O ambiente ao meu redor celebrava o afeto, a pluralidade e a alegria e, após sentir isso tudo no peito, eu percebi que essa energia e essa esperança são essenciais para combater o medo e o autoritarismo. “Se não posso dançar, não é minha revolução” disse Emma Goldman e eu repito essa frase hoje porque sei que essa liberdade está em risco e a nossa luta é também uma celebração do mundo que queremos viver.

Belo Horizonte — Letícia Vianna/Bhaz

#EleNão, #ElasSim

Tudo isso me fez pensar em como as mulheres continuam uma minoria na política representativa, mas ganham cada vez mais espaço nas ruas e nas redes.

Nos últimos anos, temos sido protagonistas da maior parte das mobilizações do país, mas ainda assim continuamos vendo mulheres serem usadas como laranjas de partidos políticos que precisam de candidaturas como essas para cumprirem a cota feminina e um desdém pelas opiniões políticas das mulheres.

Durante o período de mobilização do #EleNão, por exemplo, vi muitos homens, inclusive alguns que se posicionam contra o fascismo, tratando as mulheres envolvidas nesse movimento com paternalismo. Alguns chegaram até mesmo a desprezar a importância da organização das mulheres como fato político, acusaram as participantes de seguir modismos e tentaram tutelar a massa feminina insatisfeita. Outros preferiram insinuar que a iniciativa do grupo e dos atos “Mulheres contra o Bolsonaro” partiu de homens como os candidatos Haddad, Ciro e até Alckmin. Todos esses expuseram o quanto têm dificuldades reais de verem mulheres como agentes de qualquer coisa.

Na mesma esteira, li também defensores do #EleNão falarem que essa seria a primeira hashtag a entrar nos livros de história do Brasil. Uma frase como essa parece um elogio e até seria se não tivéssemos diversos exemplos anteriores de mobilizações femininas de grande impacto.

As vozes femininas — e, principalmente, feministas — ecoaram no Brasil e no mundo nos últimos anos**. Vimos a primavera feminista florescer no Brasil com a hashtag #MulheresContraCunha, por exemplo. Essa mobilização merece um destaque especial por ter também o caráter de rejeição ao fato do cara ser misógino, LGBTfóbico e péssimo enquanto político. Um dos motivadores desse repúdio coletivo foram os projetos de lei de autoria de Cunha e outros deputados que buscavam dificultar o direito ao aborto legal para vítimas de estupro. Um deles, o que tentava revogar a Lei 12.845, tem como um dos autores Jair Bolsonaro.

Além do #ForaCunha feminino, vimos também mulheres compartilharem relatos de violência sexual com as hashtags #PrimeiroAssedio, #MexeuComUmaMexeuComTodas, #ChegaDeFiufiu, #MeToo e outras e provocarem um debate público sobre a misoginia, estupro, assédio, culpabilização da vítima e silêncio.

Sei que muitos podem dizer que esse fenômeno transformador da quebra do silêncio sobre violência sexual não tem caráter histórico e eu rebato dizendo: “só porque trata de uma questão que atinge principalmente as mulheres não seria importante o suficiente para figurar em um livro de história?”.

Esse esquecimento*** de mobilizações femininas e a surpresa de alguns em ver um fato político ser capitaneado por mulheres diz muito sobre o porquê de estarmos nas ruas, nas redes e nos bairros, mas ainda custarmos atingir 30% de candidaturas femininas e sermos eleitas.

As mulheres se encontram como protagonistas quando a mobilização parte delas. Fora isso, elas precisam competir por espaço entre os que se colocam como os detentores por direito dele. Por isso, dizer #EleNão junto com tantas mulheres das mais diferentes vertentes políticas significa também dizer que a política é um espaço feminino.

Quando tomamos as ruas porque consideramos um candidato misógino, LGBTfóbico, racista, autoritário, agressivo e incapaz, a gente incomoda todo um sistema que nos coloca como subalternas aos nossos maridos, pais e namorados. Esse incômodo acontece porque ainda é considerado subversivo uma mulher ter ideias próprias e defendê-las através de organização e resistência.

Rio de Janeiro — SILVIA IZQUIERDO AP

*Um levantamento feito por um usuário do Facebook chamado Jonas Medeiros mostrou que 366 cidades marcaram atos. Três deles foram impedidos de acontecer pela justiça.

**O feminismo negro ganhou muito espaço nesses anos também e mobilizações contra o genocídio do povo negro chamaram atenção. #OndeEstáAmarildo, #QuemMatouMarielleFranco? e #LiberdadeParaRafaelBraga são alguns exemplos de movimentações nesse viés.

***A presença das mulheres na política não é algo recente e o fenômeno de invisibilidade e esquecimento relacionados com essa seara também não. Dona Leopoldina, conhecida como esposa de D. Pedro I, por exemplo, esteve envolvida na articulação da independência do país, apesar de não ser lembrada por isso. Em diversos movimentos da história, nós tomamos frente de movimentos que são contados em muitos livros de forma que dá a entender que foram feitos por homens. Alguns exemplos são: Revolução Francesa, Revolução Russa e Comuna de Paris. Não saber sobre o passado político das mulheres contribui para os movimentos das mulheres serem vistos como uma grande novidade ainda hoje. Para quem cresce sem conhecer, por exemplo, as sufragistas, o ativismo político feminino parece fora do lugar. O apagamento do nosso passado contribui para que os movimentos femininos de hoje sofram com tanto descrédito.