Calibã e a bruxa: a transição para o capitalismo e sua relação com a perseguição das bruxas

Capa do livro — Arquivo Pessoal

Calibã e a bruxa, livro escrito pela historiadora feminista Silvia Federici, foi publicado pela primeira vez em 2004, mas somente ganhou sua versão em português treze anos depois com uma caprichosa edição feita pela Editora Elefante.

A obra expõe uma análise sobre a transição do feudalismo para o capitalismo sem ignorar a presença das mulheres durante esse período. Assim, representa um contraponto às narrativas predominantes, que encaram a história sem observar o impacto dos acontecimentos nas mulheres e as ações que contaram com a participação feminina.

Quando se estuda um período histórico sem observar a história das mulheres, há um apagamento delas enquanto parte da sociedade e isso resulta em análises falhas que ignoram momentos históricos cruciais. A caça às bruxas, suas motivações e tudo que aconteceu que serviu como base para esse ataque é um desses pontos que passaram batido por diversos estudiosos, incluindo Karl Marx e Foucault.

Silvia Federici apresenta informações sobre a história das mulheres, das lutas coletivas durante o feudalismo, da vida comunal e do controle do corpo pelo Estado que são essenciais para entender as transformações que o capitalismo trouxe, especialmente para as mulheres. A autora expõe como a caça às bruxas não foi algo que aconteceu simplesmente por causa das crenças de uma época, como alguns insistem em dizer, e consegue relacionar a perseguição e a morte das mulheres com a exploração do corpo feminino necessária para a construção do proletariado e para a manutenção da lógica capitalista.

O estudo feito nesse livro mostra a influência de momentos de desequilíbrio econômico e de crises demográficas, como a ocorrida durante a Peste Negra, nas leis e na política de terras e como essas mudanças institucionais e seus efeitos culminaram na caça às bruxas e, por fim, no controle estatal do corpo das mulheres ainda vigente hoje.

Silvia Federici sustenta em diversos trabalhos que o capitalismo se ampara na exploração do trabalho reprodutivo e de cuidado feito pelas mulheres de forma gratuita no seio de seus lares. Em Calibã e a bruxa, ela expõe como o aprofundamento da divisão entre homens e mulheres, a campanha de terror contra elas e a destruição da autonomia e o sequestro dos conhecimentos femininos sobre contracepção e parto foram pontos essenciais para a acumulação primitiva. Elas se tornaram as produtoras de mão de obra, num momento em que o corpo humano era a única máquina disponível, e todas as possíveis funções que elas poderiam assumir fora dessa lógica sofreram uma intensa desvalorização quando feitas por elas.

A institucionalização da violência contra as mulheres, a resistência feminina, o olhar masculino sobre elas e o controle estatal sobre a vida de todos foram os pontos que mais me chamaram a atenção durante a leitura. Essa obra é um mergulho na condição feminina na história e apresenta informações e argumentos essenciais para se entender a misoginia hoje. Sem esquecer, contudo, de analisar também a exploração dos povos originários da América, a escravatura e a colonização, enquanto processos capitalistas.


Você pode adquirir o livro diretamente com a Editora Elefante clicando aqui ou a partir do meu link da Amazon.


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Quem, afinal, é Grace Marks?

Cena de “Alias Grace” — Grace (Sarah Gadon) em sua cela.

“Quem é Grace Marks?” é a pergunta que nos acompanha durante todos os episódios da série Vulgo Grace, adaptação da Netflix do romance homônimo escrito pela canadense Margaret Atwood. Com Sarah Polley, como roteirista e produtora, e Mary Harron na direção, a minissérie nos prende com diálogos, boas atuações e uma personagem complexa e intrigante.

Em 1843, um crime abalou o Canadá. Nancy Montgomery, a governanta, e seu patrão, Thomas Kinnear, foram assassinados. A empregada Grace Marks, 16 anos na época, e o cocheiro James McDermott foram acusados de matá-los. Ambos foram condenados ao enforcamento, mas a jovem acabou sendo sentenciada somente à prisão perpétua.

Com base nessa história real, Atwood escreveu uma obra que nos faz pensar nos padrões de gênero da época e como eles impactavam toda a sociedade, inclusive no julgamento criminal, sem definir qualquer resposta sobre a inocência ou não da protagonista. A adaptação segue a mesma lógica.

Numa cena, ela reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Pura e ingênua ou instrumento do demônio para tentar os homens? Uma louca ou uma sádica? Assassina ou vítima das circunstâncias? Santa ou a personificação do pecado? Mentirosa, viciada em agradar ou honesta? Grace narra sua história para o Dr. Simon Jordan e, enquanto conhecemos sua origem, seus sofrimentos e as poucas alegrias que teve na vida, percebemos que ela escolhe bem as palavras que vai usar. Ela provoca empatia, ao mesmo tempo que nos faz pensar “ela faz isso de maneira proposital?”.

Em sua narrativa, descobrimos que a protagonista é uma imigrante irlandesa que foi para o Canadá junto com sua família para fugir das perseguições que os protestantes estavam sofrendo em sua região. Filha mais velha de cinco irmãos, sua mãe morreu no trajeto marítimo e seu pai era um alcoólatra, violento e abusivo. Sem demora, ficou sozinha no mundo.

Sua vida foi marcada pela opressão feminina e suas regras opressivas e pela questão de classe. A obra conta um pouco das condições das servas do século XIX , expõe o medo constante da violência sexual e como os patrões usavam as jovens garotas que trabalhavam como empregadas. Uma realidade constantemente invisibilizada em vários estudos sobre o período, mas bem desenvolvida nessa obra literária.

O ideal de mulher era o de bela, recatada, obediente e casta. Todas as outras possibilidades eram vistas como pouco dignas. Sarah Gadon brilhou na atuação como Grace por conseguir passar essa imagem para a personagem e, ao mesmo tempo, trazer dúvidas sobre ela ser ou não ser assim. As mesmas dúvidas que ainda pairam sobre as mulheres até mesmo enquanto vítimas. Sentada na sala com o Dr. Jordan, ela borda sem parar, cita deus e fala sobre como as mulheres devem ser. “Quando você é encontrada com um homem em seu quarto, você é culpada, não importa como ele entrou”, ela diz e explicita as regras da sociedade vitoriana.

Em seis episódios, Grace nos faz acreditar, desconfiar e refletir sobre o quanto há de verdade em suas falas, enquanto nos revela os horrores dos hospícios, das prisões e das mulheres. “Quem, afinal, é Grace Marks?” é uma pergunta sem resposta. A única certeza é que a dualidade do “Santa e demoníaca? ou do “Vítima ou vilã?” parece ser algo que assombra todas as mulheres de uma época, não só as condenadas por assassinato.

Mais uma cena da série “Alias Grace”.

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Leia a entrevista com a diretora da adaptação aqui.

Os rumos do Brasil, a PEC 181/15 e a obra “O conto da Aia”

Capa do livro “O conto da Aia”. Adquira seu exemplar aqui.

Há um Projeto de Emenda à Constituição em trâmite no Congresso Nacional que recebeu o apelido de “Cavalo de Tróia contra as mulheres”. O motivo? Transformaram um projeto que buscava ampliar a licença maternidade para as mães de prematuro em algo que define a vida como inviolável desde a concepção.

Se essa PEC se tornar realidade, o aborto nos casos de risco à vida da mãe, gravidez decorrente de estupro e feto anencéfalo podem ser criminalizados. Um retrocesso assustador.

Ao colocar a função reprodutiva da mulher acima de sua dignidade, isso relativiza o estupro e a visão de que mulheres são gente, como eu afirmei no meu texto “Por que a PEC 181 ganhou o apelido de “Cavalo de Tróia das Mulheres”?”.

Com o avanço da força do projeto conservador que busca controlar as mulheres, fica impossível não pensar nas relações entre o livro “O conto da Aia” com a atualidade.

Gilead é uma teocracia que se baseia no controle, especialmente das funções e do corpo das mulheres. Há Aias, Martas, Esposas, Econoespostas e Tias. Entre todas, apenas as Aias podem engravidar e sua função nessa sociedade é essa.

Quando 18 homens votaram sim para a PEC 181/15 e ela foi aprovada na Comissão Especial, eles disseram que a função das mulheres é engravidar e parir, independente dos riscos dessas gravidezes para a saúde física e mental das gestantes e da concepção ter sido ou não fruto de uma violência gravíssima. Eles mostraram que não se importam com nossas vidas, dignidade e saúde, eles nos veem apenas como receptáculos. Assim como os homens de Gilead veem as Aias, as únicas que ainda podem gestar e parir.

“O conto da Aia” é uma ficção que nos assusta tanto justamente por percebemos o quanto ela se baseia numa visão de mulher que ainda segue firme e forte no Brasil, nos EUA, no Canadá e no resto do mundo.

Não somos parideiras. Não somos receptáculos. Não somos incubadoras. Somos pessoas e temos direito à vida, saúde, autonomia e dignidade.


Texto publicado originalmente em minha página do Facebook. Se interessou pelo livro citado no texto? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

Fale delas

Arquivo pessoal — foto do livro “Wonder Women” — Adquira seu exemplar aqui.

Tenho certeza que você já ouviu alguém dizer que mulheres nunca descobriram ou inventaram nada e que o sexo frágil não participou de momentos de guerra ou de desenvolvimento científico. Isso é uma mentira.

Numa tentativa de desqualificar o feminino, muitos ignoram as mulheres que, apesar da conjuntura desfavorável, conseguiram romper barreiras e ter seus feitos documentados e o contexto de subjugação patriarcal que perdura por séculos e começou a mudar de forma mais concreta somente há cerca de cem anos.

O livro “Wonder Women — 25 mulheres inovadoras, inventoras e pioneiras que fizeram a diferença”, escrito por Sam Maggs e ilustrado por Sophia Foster-Dimino, fala de mulheres que quebraram padrões e fizeram história, mas que são desconhecidas pela maioria das pessoas.

Ao narrar a trajetória de cada uma delas, Sam Maggs usa uma linguagem divertida e, com humor, faz pontuações importantes sobre a realidade da época em que cada uma viveu.

Muitas vezes a própria história contada já evidencia a desigualdade e os desafios que as mulheres enfrentavam. A luta para adentrar numa faculdade e cursar o ensino superior tangencia a história das notáveis Elizabeth e Emily Blackwell, por exemplo. O Efeito Matilda acontece quando as contribuições científicas feitas por mulheres são atribuídas a homens e isso é exposto quando se fala em Lisa Meitner, física nuclear austríaca, e Alice Ball, química e pesquisadora médica dos EUA. Outras formas de discriminação aparecem também nas histórias de espiãs, inventoras e aventureiras. Ler essa obra é se deparar com os obstáculos que mulheres foram obrigadas a lidar por séculos e com a luta de cada uma para viver como protagonista de sua própria vida diante desse contexto.

Quantas histórias de mulheres incríveis se perderam porque a sociedade machista atribuiu seus feitos a um homem? Quantas foram esquecidas devido a invisibilidade das obras de seu gênero? Quantas deixaram de acontecer por causa da exclusão das mulheres de diversos espaços? Quantas mulheres foram apagadas também por causa de sua cor? E de sua sexualidade? Inúmeras e as engrenagens que fazem a história parecer ser feita apenas por homens, brancos e héteros segue funcionando. Como podemos dificultar que esse mecanismo siga da mesma forma?

Fale das mulheres que conhecemos os nomes e das que desapareceram nos meandros da história. Fale das descobertas, invenções e conquistas que foram feitas por mãos femininas. Fale delas. Espalhe o quanto o mundo tentou apagar o que foi realizado por elas e, mesmo com tudo ao seu favor, nunca conseguiu por completo. Celebre a coragem das que abriram as portas para todas. Crie narrativas para preencher as lacunas ficcionais de séculos de obras em que mulheres eram só musas. Fazer isso não é buscar apagar as contribuições dos homens, é apenas uma tentativa de visibilizar o que deixou e ainda deixa de ser visto por causa da dominação masculina e branca.


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O Conto da Aia: A sombra de um futuro distópico já vive entre nós

Imagem do livro — Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

O livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, foi publicado pela primeira vez em 1985 e, após mais de trinta anos de seu lançamento, foi adaptado ao formato de seriado e se tornou uma febre mundial.

“Nenhuma bugiganga imaginária, nenhuma lei imaginária, nem atrocidades imaginárias. Deus está nos detalhes, é o que dizem. O diabo também” foi a regra que Atwood criou para si mesma para escrever esse livro. E talvez seja justamente essa possibilidade dos acontecimentos narrados na obra serem o futuro por, de forma isolada, aqueles fatos já terem existido ou ainda existirem, tenha tornado a obra icônica. Há um reconhecimento em comum, um lembrete que a questão não é só o medo do que vai vir, há muito daquele horror no presente e no passado.

Após um golpe contra o governo dos Estados Unidos, Gilead, uma teocracia de direitos muito limitada, é criada. Com os graus de fertilidade cada vez mais baixos devido a contaminação de águas, terras e afins, garantir a procriação da população passou a ser o principal argumento da necessidade de imposição de leis absurdas e, mais uma vez, a culpa da esterilidade ficou na conta só das mulheres.

Nessa nova sociedade, as mulheres tiveram seus direitos restringidos ao extremo e suas existências passaram a depender de um encaixe em uma das quatro atribuições disponíveis para elas, essas muito ligadas ao que é definido como feminino na sociedade que vivemos hoje.

As mulheres de Gilead podem ser Aias, Martas, Esposas ou Tias e cada um desses papéis têm um código de vestimenta restrito e com cores específicas que sinalizam seu status naquela sociedade, criando uma rivalidade entre elas. As mulheres que não se encaixam são vistas como “não mulheres” e são mandadas para trabalhar em campos de trabalho forçado, um destino de morte certa. Extermínio.

As mulheres em idade fértil que pariram em algum momento de suas vidas se tornam Aias, mulheres treinadas para engravidar, parir e amamentar um filho destinado ao Comandante e sua Esposa. Suas vestem parecem hábitos, são vermelhas e são acompanhadas de um chapéu branco que escondem seus rostos. As Esposas vestem azul, como Virgem Maria, e são mulheres inférteis casadas com os Comandantes. As Martas vestem verde e são responsáveis pelos trabalhos domésticos, enquanto as Tias têm a função de educar as Aias a servirem e usam marrom. Também há as econoesposas, as esposas de homens de classe mais baixa que a dos Comandantes, ponto pouco explorado do livro. Esses homens não têm o direito de possuir Aias, maior símbolo de status dessa sociedade.

A situação de todas as mulheres na República de Gilead é de privação de direitos, mas o lugar das Aias é o de um receptáculo controlado. Elas são um objeto de poder, por possuírem um útero fértil, esse signo de sua opressão. A história do livro é narrada por uma Aia. Seu nome verdadeiro é desconhecido, mas dentro do regime, ela é Offred, que significa “De Fred”.

A narrativa do livro é um fluxo de pensamentos da narradora-personagem. Ora a protagonista fala de suas memórias, para a gente entender como tudo era antes e quem ela foi um dia, ora fala das cerimônias, regras e rituais dessa teocracia. A personagem nos apresenta, com recortes, um mundo dominado pelo conservadorismo, sem liberdades individuais e baseado na misoginia, enquanto fala sobre seus sentimentos. Ela se apega ao passado para resistir ao presente. Lembrar de quem ela foi um dia, da filha que teve e de seu marido, é a maneira que ela encontrou de se manter com vontade de viver.

Apesar da história expor um mundo extremo, tudo ali parece possível como um desdobramento do mundo que vivemos por se basear numa opressão real e em acontecimentos e discursos derivados dela. A obra tenta nos mostrar a possibilidade daquilo vir a acontecer, especialmente quando ela traz à tona suas memórias sobre os acontecimentos que antecederam a instauração desse Estado totalitário e teocrático.

O Conto da Aia já foi traduzido para cerca de quarenta idiomas, foi adaptado para cinema e tema de um balé, de uma ópera e agora de uma série que ganhou muitas categorias do Emmy Awards 2017.

O controle do corpo das mulheres nunca deixou de ser pauta em qualquer lugar do mundo e é por isso que essa distopia se parece tão próxima de nós. E, nesses tempos, ainda mais. O mundo avança novamente para o domínio do conservadorismo. Nos EUA, Trump representa um retrocesso para todos grupos vulneráveis, incluindo mulheres e, no Brasil, a bancada fundamentalista domina o legislativo federal, estadual e até mesmo municipal.

A obra é um fenômeno atualmente por provocar reflexões sobre família, religião, Estado, violência, poder e papéis considerados como femininos num momento crucial de avanço de retrocessos.

Com a exposição de um regime baseado em controle, violência, ameaça e religião, o leitor cultiva em si a certeza da importância da desobediência. Offred desobedece ao não esquecer quem foi no passado e, nas lembranças de quem foi um dia, encontra a força necessária para continuar existindo. Enquanto o mundo retira sua humanidade, lembrar que ainda é um indivíduo é resistência.

“Alguns livros assombram o leitor. Outros assombram o autor. The Handmaid’s Tale fez os dois”, disse Atwood uma vez num artigo do The Guardian e tenho que concordar. O mundo de Gilead faz soar um alarme interior que serve como um alerta para os rumos autoritários e assustadores que estão sendo desenhados agora.

Mulheres se vestem de Aias hoje e saem para protestar contra o controle estatal de seus corpos e mostram como essa história se tornou símbolo da resistência feminista contra todas as formas de opressão.


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Obs: Durante a Virada Feminista Online pela Legalização do Aborto, fiz uma transmissão ao vivo no Ativismo de Sofá falando sobre o avanço do conservadorismo, a necessidade de resistência, livro/série “Conto da Aia” e o controle do corpo das mulheres. Quer ver o vídeo? Basta clicar aqui e dar play.


Onde estão as mulheres em nossas referências?

Arquivo Pessoal — foto do livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” — Adquira seu exemplar aqui.

Quantas mulheres nomeiam ruas, parques, avenidas, praças e viadutos na sua cidade? Quantos desses nomes você consegue lembrar sem esforço?

Moro em Belo Horizonte há alguns anos e consegui pensar na Avenida Tereza Cristina, na rua Stela de Souza, no viaduto Henriqueta Lisboa e em bairros com nomes de mulheres da religião, como Santa Tereza e Santa Efigênia. Todos os primeiros nomes que vieram na minha mente eram masculinos, como Afonso Pena, Bias Fortes, Augusto de Lima, Cristiano Machado, Silviano Brandão e Raul Soares. Só depois me lembrei dos bairros Jaqueline, Maria Helena e Juliana.

A dificuldade que tive de lembrar nomes de mulheres ao pensar na ruas, avenidas e viadutos da minha cidade não se deu por eu conhecer pouco daqui ou por mero esquecimento, aconteceu porque elas são minoria. Apenas 16% das ruas da cidade de São Paulo têm nomes de mulheres. Uma pesquisa feita na Espanha em 2007 apontou que apenas 5% das ruas de lá tinham nomes femininos. Já na França, um levantamento feito pelo grupo feminista “Osez le Féminisme!” apontou que apenas 2,6% das ruas parisienses homenageavam mulheres notáveis.

A matéria “Nomes de rua dizem mais sobre o Brasil que você pensa” do Nexo afirma que nas rodovias, um tipo de logradouro que exige bem mais investimento, os nomes masculinos dominam com 98% e que ao analisar os trinta nomes femininos de ruas mais populares do Brasil, somente quatro não eram de religiosas. Já entre os trinta nomes populares masculinos, dezesseis não faziam referência à religião.

Os nomes dos logradouros são uma amostra do apagamento das mulheres como referências, das relações de poder e das forças envolvidas nas decisões políticas. Além da ausência de mulheres e pessoas negras, no geral, vemos também a manutenção de nomes de bandeirantes, que dizimaram indígenas, e de torturadores e ditadores.

Os nomes presentes no espaço público são, em peso, masculinos. Percebe-se como eles são escolhidos de acordo com uma narrativa que privilegia a elite, composta principalmente por homens brancos, e seus ideais da época. Santas, mães e esposas são bem presentes entre as poucas homenageadas por representarem o ideal de mulher que eles apoiam, essa mulher que praticamente só se pode ser branca. Nossas referências não são necessariamente nomes de ruas, mas elas são parte de um todo machista, racista e elitista. Um todo que nos influencia. Afinal, quem são as nossas referências?

Gandhi, Nelson Mandela, John Lennon, Einstein, Tiradentes, Che Guevara, Jesus, Marx, Zumbi e diversos outros nomes masculinos são lembrados toda vez que fazem essa pergunta. Quando lembram de mulheres, falam a maioria das vezes de santas, mães e avós. As nossas referências podem não ser as mesmas dos nomes das ruas, mas ainda reproduzem a mesma lógica de que o espaço público é deles.

A maioria das pessoas cresce sem pensar que a ausência de nomes de mulheres na história é fruto da falta de oportunidades dadas a elas e da invisibilidade dada pela história aos seus feitos. Apesar do machismo — e o racismo e as questões de classe — terem negado educação e acesso para tantas, ainda assim muitas conseguiram ser escritoras, artistas, cientistas, fazer descobertas e lutar por melhorias. Principalmente no século XIX e XX, mas não só.

Conhecer e divulgar nomes de mulheres que fizeram parte da história, mas que são constantemente esquecidas, é importante porque as crianças que crescem sem essas referências acabam acreditando que o papel da mulher é o de subalterna, especialmente no caso de mulheres racialmente oprimidas que continuam sendo referenciadas na nossa cultura dessa maneira mesmo quando se passa a discutir temas como mulheres nos negócios com mais frequência. Que mulheres são essas englobadas por esse termo, né? Isso prejudica a autoestima das meninas e faz ambos os gêneros acreditarem que elas são menos capazes que eles.

Se os nomes que as crianças conhecem como inteligentes, marcantes, desbravadores e criadores são só de homens, as meninas nunca acharão que são boas o suficiente, enquanto os meninos seguirão acreditando que eles podem chegar lá. Se elas recebem menos estímulos que meninos para conhecerem coisas novas e para determinadas áreas, elas são afastadas dessas possibilidades.

Uma pesquisa, publicada na Science, afirma que meninas, a partir dos seis anos, têm dificuldade de acreditar que são brilhantes, apesar de achar isso dos meninos. Outra pesquisa apresenta a informação de que professores dão notas melhores para meninas se eles não sabem que elas são meninas. Ambos estudos mostram como os estereótipos de gênero influenciam na vida e na autoestima delas. Lembrando aqui que há pesquisas que mostram que estereótipos de raça também afetam a maneira que os professores olham para crianças: Crianças negras são mais vistas como “bravas” do que crianças brancas e esse estereótipo atinge mais meninas negras que meninos negros.

Já na infância encontramos obstáculos específicos do nosso gênero e somos, desde muito novas, ensinadas a duvidar de nós mesmas. Uma dúvida que carrega em seu cerne o medo de falhar e acabar servindo como uma prova de que nosso gênero não é bom em algo.

Com a internet e tantas mulheres falando sobre representatividade, autoestima e machismo, surgiu uma necessidade e curiosidade coletiva por conhecer mais histórias de mulheres. As italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo perceberam isso e reuniram no livro “Histórias de ninar para garotas rebeldes” uma centena de nomes admiráveis de diversas áreas de atuação.

A obra foi idealizada por elas, mas só virou realidade por causa de uma campanha de financiamento coletivo. “Histórias de ninar para garotas rebeldes” foi o livro que arrecadou o maior valor na história do financiamento coletivo e contou com apoiadores de mais de 70 países. Esse recorde mostra que as pessoas têm percebido a importância de tirar a cortina da invisibilidade da história das mulheres e que muitos sentem falta de conhecer mulheres incríveis. O que é incrível, mas também nos faz pensar em como essa pauta pode ser facilmente capturada pelo capitalismo e por grupos com interesses antifeministas, principalmente a partir das escolhas de homenageadas.

Rainhas, atletas, cientistas, ativistas, escritoras, artistas e até piratas e espiãs recheiam as páginas da obra. Cada nome tem sua história e feitos contada começando com um “era uma vez”, num tom que aproxima o público infantil. Além dos textos, há também a participação de ilustradoras de diversos países.

Um livro encantador que, na minha opinião, peca no título. As histórias contidas nele servem para ninar crianças rebeldes, não só meninas. Sei que meninas são as maiores interessadas numa obra que fortalece a autoestima delas e também imagino que a intenção das autoras é que a obra seja para todas as crianças. Acredito, inclusive, até que há muitos meninos tendo contato com o livro por iniciativa de seus pais, porém, um título como esse reforça a ideia de que há coisas para meninas e coisas para meninos e que conhecer a história de mulheres notáveis não é algo importante para eles, sendo que é essencial que eles também tenham referências femininas para crescerem vendo mulheres como iguais.


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Sola Fiedler, a artista têxtil que retrata cidades

Sola trabalhando na tapeçaria Vancouver

Miami, Atlanta, Las Vegas, Sydney e Vancouver foram transformadas em bordados enormes e hiper realistas pela artista Sola Fiedler. Os trabalhos de Sola são verdadeiros retratos feitos ponto por ponto e representam a cidade homenageada no tempo em que a artista esteve lá. Detalhes como o número de janelas de cada prédio, por exemplo, são observados por ela. Ela considera que isso possibilita que as pessoas se conectem com as tapeçarias, já que esses pormenores permitem que as pessoas observem a imagem formada pelas linhas e encontrem onde moram, onde trabalham e outros lugares que carregam significados pessoais.

Para retratar uma cidade é preciso mostrar sua arquitetura e as características físicas que fazem parte de sua paisagem e as relações humanas que acontecem naquelas ruas, prédios, praças e casas. São os detalhes que fazem a parte humana se tornar visível, já que são eles que possibilitam os moradores da cidade visualizarem suas histórias ali.

Tapeçaria Vancouver

Sola captura os elementos que compõem uma cidade através da observação e dedicação. Ela procura um local perfeito onde dê para visualizar toda a cidade e se imagina num helicóptero ou como uma águia e sobrevoa a cidade em busca do que irá retratar. Depois, ela anda e observa suas características. Percorre ruas e repara em cada construção e em cada árvore que encontra no caminho, às vezes tem que voltar em locais que já foi para analisar melhor. O processo dura cerca de dois a três anos.

Sola Fiedler nasceu em 1936 e cresceu em Londres durante e depois a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, a reciclagem e a reutilização eram essenciais, já que a escassez fazia parte do cotidiano. O hábito que fez parte dos seus primeiros anos nunca a abandonou e seus bordados são feitos com fios de roupas que ela coleta, o que torna sua obra ainda mais única.

Seu lado artista só foi se manifestar de verdade após os quarenta anos. Antes disso, ela trabalhou no Canadá como pesquisadora científica e foi proprietária, junto com seu ex-marido, do The Riverboat Coffee House em Toronto. Esse café fechou em 1978, mas ainda hoje é lembrado por sua importância para a música folk. Músicos como Neil Young e Joni Mitchell se apresentaram por lá. Após se separar, ela se mudou para Vancouver e abriu o Soft Rock Café.

Seu trabalho artístico já foi premiado no Canadá e suas peças foram expostas em galerias. Além das cidades, ela faz peças abstratas, outras paisagens e fez uma adaptação da bandeira do Canadá.

Sola trabalhando

O bordado e outras formas de artes têxteis foram desvalorizados por muitos anos por serem vistos como femininos, mas há um fenômeno mundial de resgate, valorização e modernização dessas técnicas e temas e esse processo caminha junto com a recuperação de histórias de mulheres notáveis e de reconhecimento das mulheres num todo. Sola Fiedler é um dos nomes que merecem ser conhecidos. Por isso, tentei escrever aqui um pedaço de sua história e um pouco sobre suas lindas peças.

Tapeçaria Sydney

Saiba mais sobre ela em seu site oficial e assista ao vídeo sobre o processo criativo de Sola através do Vimeo. Acompanhe o trabalho dela também no Facebook e Instagram.


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“Mulher-Maravilha” e o impacto de ter uma heroína nas telonas

Quando eu era criança, assumia identidades diversas durante as brincadeiras. Lembro das várias vezes que fui Power Ranger Amarela, de ser bruxa, fada e até pesquisadora de vida extraterrestre da NASA. Num mundo em que o número de personagens femininas interessantes tendiam a zero, minha maior aliada sempre foi a imaginação. Eu criava as personagens que me agradavam e adaptava as histórias dos desenhos para que as que já existiam tivessem vez nas brincadeiras.

Nessa época, eu até tinha ouvido falar da Mulher Maravilha, mas ela não me interessava muito, já que eu via esse nome ser mais usado para se referir às mães do que para falar da heroína da DC Comics. Ela nunca fui um ícone para mim, jamais me serviu de referência, mas para as novas gerações ela será.

Mulher-Maravilha” foi o primeiro filme de super herói dirigido por uma mulher e teve a estreia mais lucrativa de uma diretora nas bilheterias americanas até hoje. Os recordes de bilheteria batidos pelo filme dirigido por Patty Jenkins podem abrir caminho para mais protagonistas femininas no cinema e aumentar a contratação de diretoras para filmes de maior orçamento.

A indústria do cinema ainda considera que apenas histórias masculinas — e brancas — interessam e duvida da capacidade de direção das mulheres. Patty Jenkins, que dirigiu “Monster — Desejo Assassino”, não podia falhar e sabia disso. Quando abriu mão da direção de “Thor: O mundo sombrio”, ela comentou que fez isso porque sabia que se o resultado final não fosse bem aceito, o peso disso seria bem maior por ela ser mulher. “Eu pensei que se eu dirigisse o filme (Thor 2), seria um grande desserviço às mulheres. Se eu assumir o posto sabendo que será uma enrascada, e o filme ficar ruim por minha causa, será um grande problema. Se isso acontece com um diretor homem, é apenas mais um erro do estúdio”, ela afirmou. As mulheres carregam o fardo de que seus possíveis erros e dificuldades sempre serão usados para desqualificar todas as mulheres. A cineasta sabia que se “Mulher-Maravilha” fosse um desastre, diriam que mulheres não sabem dirigir e que ninguém quer ver uma heroína nas telonas. Felizmente, isso não intimidou Patty Jenkins. Nesse projeto, ela acreditava.

O impacto do filme vai bem além da indústria do cinema, já que até eu, que tenho 27 anos e nenhuma ligação prévia com a heroína, saí do cinema me sentindo pronta para enfrentar o mundo. Diana Prince cresceu na ilha de Temiscira, cercada por amazonas e recebeu um treinamento intenso por parte de sua tia Antíope. Sua postura ao sair de onde sempre viveu não é de medo e, mesmo sem saber as regras implícitas do mundo fora de sua ilha, ela não se sente intimidada numa Londres que trata mulheres como inferiores. Mesmo subestimada, ela confia em si e em sua história e faz sempre o que quer e acredita.

Fora da ilha de Temiscira, mulheres são criadas prontas para duvidarem de si mesmas. Depois de anos sendo interrompidas, ignoradas e subestimadas, nós acabamos perdendo a capacidade de acreditar que somos capazes. A insegurança é um elemento feminino no mundo que faço parte, mas sei que pode ser diferente. Ver a Mulher-Maravilha nas telonas, e acompanhar a história de coragem de Patty Jenkins ao assumir a direção desse filme, apesar de toda pressão, me lembrou disso.

As meninas de hoje terão Diane Prince, Katniss Everdeen, Moama, Rey e muitas mulheres reais para se apegarem quando o mundo machista disser que elas não são capazes. Elas não precisarão criar personagens femininas quando quiserem um papel maior numa brincadeira, já que a cultura pop está se tornando aos poucos um espaço que nos sentimos parte. Com esse contato com protagonistas femininas, os meninos vão aprender que mulheres pertencem ao mesmo mundo que eles e que são tão aptas quanto eles a realizarem inúmeras tarefas. Ainda assim, as meninas de hoje não estarão livres de passar por muitos desafios que o machismo e outras opressões trazem, mas o caminho para a mudança está sendo traçado em todos os espaços e, com tantos exemplos reais e imaginários, elas saberão como resistir.


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“As cientistas” e o poder de descobrir que mulheres também mudam o mundo

Capa do livro “As cientistas — 50 mulheres que mudaram o mundo”. Adquira seu exemplar aqui.

Quando eu era criança, uma das coisas que eu gostava de fazer era passar horas e horas numa praça próxima da minha casa. Ali eu brincava na areia, no parquinho, jogava bola e observava insetos e plantas. Depois, o inseto observado era eternizado num papel com meus traços e ganhava um nome criado por mim, que era válido até eu descobrir a espécie dele ao consultar os livros de biologia do meu padrinho. Eu fazia isso por curiosidade e porque queria descobrir um animal ainda não encontrado. Adulta, por meio do livro “As cientistas”, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky e traduzido por Sonia Augusto, descobri Maria Sibylla Merian, uma alemã que nasceu em 1647 e marcou a história da ciência com as descobertas que fez sobre insetos. Com a observação e a ilustração, ela documentou a metamorfose da borboleta e classificou diversas novas espécies dessas criaturas.

Entre as muitas profissões que pensei em seguir nessa época, as que se destacavam se relacionavam com minha curiosidade sobre fósseis e rochas. Eu tinha no quarto uma pequena réplica de um esqueleto de Tiranossauro Rex e, como brincadeira, adorava procurar e colecionar pedras diversas. Sabendo que sou de Minas Gerais, muitos podem se enganar e achar que o meu gosto por pedras e escavações se relacionava com ouro, diamante e esmeralda, mas a fonte disso tudo era meu amor por dinossauros, o fóssil Luzia ter sido encontrado relativamente perto da minha cidade, um documentário que vi sobre vulcões e uma visita às Grutas de Maquiné e Rei do Mato. Adulta, mais uma vez com o livro “As cientistas”, conheci a história de Mary Anning, uma inglesa nascida em 1799, que colecionava fósseis e foi uma paleontóloga. Ela descobriu os primeiros esqueletos de ictiossauros e de plesiossauros e seu trabalho foi importante para ajudar a provar que a extinção acontece.

Durante a leitura do livro de Rachel Ignotofsky, eu lembrei muito da minha infância e a cada nome e história que eu descobria, eu pensava em como saber disso antes poderia ter me feito bem. Apesar de ter inúmeras anedotas para contar que se relacionam de alguma forma com ciência, em algum momento da minha história, eu aprendi que esse espaço — e muitos outros — não era pra mim. Eu conhecia Einstein, Pitágoras, Tales e Galileu, ouvia falar dos navegadores com nomes masculinos e dos tantos presidentes homens da história e, sendo mulher, um dia tudo isso começou a soar como se eu fosse uma intrusa num mundo de homens. Se eu tivesse em minhas mãos essa obra há vinte anos atrás, talvez eu fosse uma cientista hoje ou apenas confiaria um pouco mais no meu taco.

Escrevo e pesquiso sobre mulheres notáveis há algum tempo. Faço isso por considerar essencial que mulheres conheçam a sua história e que homens aprendam a reconhecer meninas e mulheres como tão capazes quanto eles. “As cientistas” tira a cortina da invisibilidade de diversos nomes de mulheres que fizeram ciência e prova, para aqueles que ainda duvidam da capacidade feminina de descobrir, pesquisar e estudar, que somos inteligentes e curiosas.

Nomes conhecidos como Marie Curie, Ada Lovelace e Hipátia dividem espaço com Mae Jemison, Katia Krafft, Sau Lan Wu, Annie Easley e outras. Além das mini biografias, têm glossário, linha do tempo e dicas de fontes para quem quer pesquisar sobre. Quem gosta de saber mais sobre história das mulheres ou sobre descobertas científicas vai adorar ler esse livro e apreciar a linguagem didática, as fofas e coloridas ilustrações de Rachel e a linda edição que a editora Blucher preparou.


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As histórias debaixo do tapete

Arte de Aleksandra Waliszewska

Muito mais doloridas que as histórias de gaveta, as histórias que vivem debaixo dos tapetes sufocam umas às outras, amontoadas em suas dores próprias, sem mesmo perceber que, no meio de tanta poeira, tem um mundo de semelhantes caladas encasteladas em suas solidões.

Debaixo do tapete, as histórias não sabem umas das outras. Elas narram seus acontecimentos num murmúrio que encontra com outros e, no fim, todo esses cochichos ecoam como um canto único e triste. Elas vivem solitárias, vagando num labirinto escuro, confuso e aparentemente infinito, como nossas mentes.

Quando uma narrativa, por acaso, escapa, encontrando uma fresta de som, luz e palavra, ela descobre que saiu de um tapete espesso que é capaz de abafar aquela música triste que toca o tempo todo. Estando fora dali, todos a encaram, enquanto ignoram e pisam naquele volume enorme e disforme que se movimenta debaixo do tapete que antes era sua moradia.

A primeira palavra que ela pronuncia de sua história vem como um grito, vem forte, e ela continua falando, falando e falando. Então ela ouve sussurros, percebe que apontam para ela, riem dela, duvidam dela e a acusam. Ela começa a perder a voz, quase emudece, até que lembra que ela foi atraída por essa fresta porque ouviu um relato visceral contado na voz de uma mulher e veio atrás por perceber que quem narrava ficou sem fôlego, sem coragem e deixou a história pela metade.

A história procura a outra história e a encontra caída, sem energia ou força alguma, quase desaparecendo em lágrimas. A história dá a mão para a outra, ambas se levantam e notam a força que têm juntas. Agora potentes, narram si mesmas, falam o que têm que falar, enquanto circulam em volta do tapete levantando sua borda e vendo surgir mais vozes.

Juntas, numa catarse, elas se descobrem um exército armado de palavras.

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