três poemas belo-horizontinos

frango frito

ouço pombos e passarinhos
gatos caçadores na janela
cachorros ansiosos com o barulho
de calçados familiares subindo as escadas
duas obras ou mais na vizinhança
um despertador que se esgoela 

bicicletas carros ônibus 
dividem espaço
com pessoas e carroças
e sacolinhas de supermercado 
apinhadas de lixo

a música parece a de sempre
mas é diferente
alguém matou os galos e as galinhas
que piavam e cantavam
a alguns metros daqui
em plena capital mineira

***

somos animais que migram no verão

já tentei
meditação yoga 
corrida krav magá
caminhada ansiolítico
terapia chás
mas é só olhar para o mar
que faço as pazes comigo

o problema é
moro em BH

(me desculpem 
as capivaras 
o jacaré da pampulha
cada dia mais gordo e tranquilo 
a lagoa não é suficiente: 
serve melhor aos meio-maratonistas)

***

inventário cidade nova

cinco marcas de ração coleiras brinquedos pipicat caixas de areia casinhas de cachorro peixes realistas com catnip dentro sachês e patês para pets linhas para costura agulhas alguma lã post its canetas lápis de cor giz de cera canetinhas vários tipos de papel pincéis kit aquarela tinta guache cola tesoura sem ponta cartolina caderno pastinhas coloridas pastas sanfonadas ecobags agenda planner papel de presente porta retrato squeeze enfeites de biscuit plantas de plástico canecas variadas dominó baralho jogo das varetas uno pilhas serviço de xerox impressão e scanner. quantas histórias mais guarda uma lojinha de bairro?

***

esses poemas fazem parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021. se você gostou desses poemas, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram para não perder a data do lançamento que vem aí.

Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

Esse texto foi publicado originalmente no meu perfil do Instagram. Se você gostou dessa leitura, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter, Apoia.se e  Instagram.

Breves observações sobre um livro incomum

Acervo pessoal – Instagram – Compre seu livro aqui!

“Pequena enciclopédia de seres comuns”, escrito por Maria Esther Maciel, ilustrado por Julia Panadés e editado pela Todavia, é um livro para quem gosta de contemplar e tem um interesse especial no singelo, no sensível e na natureza.

A cada página, o leitor encontra um verbete animal ou vegetal escrito de maneira criativa e poética, em um mix que une o olhar científico e as possibilidades do mundo inventado da linguagem.

Os verbetes seguem uma separação única que brinca com nomes e situações: primeiro as Marias, depois os Joões, sem esquecer das viúvas e viuvinhas e os seres híbridos e curiosos que em um mesmo nome unem espécies.

Em todas as partes da obra, encontramos plantas, aves, insetos, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes que são categorizados juntos a partir de um outro tipo de semelhança, aquela que surge das infinitas possibilidades da nomeação.

Nesse sentido, chama a atenção as espécies inventadas, como a Maria-Vai-Com-as-Outras, o João Doidão e a Viuvinha-Humana, e a abordagem ambientalista que se apresenta de forma sutil nas descrições.

Durante essa manhã fria de domingo, enquanto lia essas páginas tomando sol e a partir da curiosidade e do encanto que o livro me trouxe, reencontrei a Thaís criança, essa menina que sempre brincou de observar animais e depois, ao chegar em casa, corria para anotar e desenhar tudo o que viu, como uma pesquisadora de campo que investiga todas as coisas sem registro. Eu brincava de fazer relatórios que mesclavam o lúdico e o biológico, catalogando a partir da minha percepção tudo que ia conhecendo e fantasiando, como esse livro nos encoraja a fazer ao incentivar um reencontro com um outro mundo ao nosso redor, esse mundo fascinante feito de detalhes, que só podem ser vistos por quem ainda é capaz de olhar por olhar. Esse mundo que tento recriar a partir da linguagem quando escrevo.

Esse post faz parte da série #domingodabanalidade, hashtag que uso para reunir comentários e mini resenhas sobre livros que combinam perfeitamente com esse dia da semana. No caso de “Pequena enciclopédia de seres comuns”, a recomendação vem junto com um belo conselho que dei no Instagram e reitero também aqui no blog: quando vocês estiverem com esse livro em mãos, não se esqueçam de intercalar palavras lidas e desenhos observados com pausas para contemplação do céu, do mato, dos bichos ou da sua própria memória ou imaginação. A leitura ficará ainda mais gostosa.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram. Se interessou pela obra citada no texto? Compre-a com meu link da Amazon e me ajude a continuar escrevendo.

Relendo “Como se fosse a casa” durante a pandemia

Se nas minhas leituras pré-pandemia, meu foco ao ler “Como se fosse a casa (uma correspondência)”, livro de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge, era a dicotomia entre interior e exterior, a casa e a Europa, a gente e o Outro, o estar e o estar em trânsito, agora tudo mudou: a casa, a ideia de lar, o que significa morar, alugar um espaço, viver nele, numa cidade, num país.

A casa preenche meu olhar de forma quase completa, todo o mundo exterior, trazido pelos poemas do Eduardo Jorge, parecem agora uma miragem, um desejo, quase uma utopia. O mundo exterior me atravessa pela imaginação, aparece enevoado, evocando a saudade do que conheci e da possibilidade de conhecer, circular, pisar, estar de uma maneira diferente do estar entre quatro paredes, enquanto a casa se apresenta cada vez mais concreta mesmo nas suas abstrações.

Estar fora parece diferente, assim como estar dentro. Vem a ideia de casulo, de proteção, de conforto, mas também vem a angústia de nunca mais poder sair ou receber pessoas sem temer. Vem então a vontade de liberdade, mas também o medo de contaminação e uma dolorida noção de risco e culpa e de exceção.

Nos dois lugares, antes tão complementares e agora colocados como partes opostas de uma vida, há luto. Parece que nunca mais estar dentro ou fora será o mesmo.

Que saudade de ler esse livro como eu lia antes!

Esse texto foi escrito para o especial #domingodabanalidade, que faço quinzenalmente no Instagram para falar sobre livros-conforto ou algo próximo disso, mas não saiu tão banal como eu queria. A leitura de um livro, mesmo aqueles antes confortáveis, pode mudar dependendo do contexto. “Como se fosse a casa” dessa vez me fez pensar na saudade do entrelaçar dos verbos estar, morar e pertencer com as travessias, as mudanças de paisagens, a vida na cidade, no desejo de que minha casa e tudo que ela evoca volte a ser apenas uma parte muito importante da minha vida, mas não quase tudo.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo MediumTwitter, Tinyletter e Instagram.

Pães em formato de bicho

Carlos Avelino/PBH

Um pão capivara passou na minha timeline do Twitter esses dias. Ele era tão bem feito que até orelhinhas tinha. Fofinho e coradinho, como uma capivara deve ser. Ele era feito de trigo, como os pães são. Ele me lembrou a minha infância.

Quase todo sábado, eu ia para casa dos meus padrinhos. Eu amava aquela casa. Ela era ampla, tinha uma romãzeira, plantas de todo tipo, flores, livros, revistas e muitos gatos. Não tenho certeza se minha tia já era instrutora de ioga, mas sei que ela me ensinava alguns movimentos nas horas vagas. Eu amava quando ela elogiava a minha flexibilidade e todas as posições com nome de bicho. Já meu tio, professor de biologia, sempre estava pronto para me dar uma informação nova sobre algum animal da natureza. Inclusive, toda vez que o tempo permitia, ele me levava para caminhar na beira do rio Itapecerica. “Em tupi-guarani, Ita significa pedra e pecerica lisa ou escorregadia”, ele sempre me dizia ou eu dizia a ele, porque tinha ouvido algo assim na escola. Já não sei mais. De longe, caminhando ao lado dele, eu via capivaras, pássaros, borboletas e um rio sofrendo com assoreamento, enquanto recebia algumas informações sobre reino, filo, classe, comportamento e reprodução de cada ser vivo avistado. E, fora tudo isso, eles gostavam de me ouvir falar. E, caramba, como eu falava!

Nessa casa, além da ioga, da biologia, dos gatos e dos livros, eu tinha acesso a um pão doce em formato de jacaré. Ele era enorme, tinha rabo, patas e até aquele levantadinho perto da testa onde os olhinhos ficam. Sendo esses olhinhos, no caso, vermelhos, feitos com aquela cereja-chuchu típica dos anos 90. Lembro que o coco ralado representava as escamas do bicho. Ele era lindo, delicioso, fora os olhos, e fazia totalmente a minha cabeça.

Meus pais nunca compraram pão jacaré pra mim. Ele representava um achado dos meus padrinhos, algo que somente eles podiam ter encontrado e comprado para me agradar. Esse pão era vendido numa padaria próxima da casa deles e era especial: somente podia ser comprado aos sábados. Talvez era até algo encomendado. Não sei. Só sei que vez ou outra, ao chegar na casa deles, já era levada até a padaria e aproveitava o momento para observar tudo. Eu não podia deixar escapar nenhum detalhe daquele bairro com Velho no nome, daquele morro todo, daquelas pessoas, daquela rua movimentada, daquela padaria que fazia pães de jacaré.

Queria absorver tudo ao meu redor, aproveitando aquela ilusão infantil de que andar ali representava alguma liberdade especial, bem aquela que é dada a todos que se colocam como aventureiros, desbravadores e conhecedores do mundo. De cima, já quase na padaria, eu olhava para a rua que continuava, pra mim infinitamente, e pensava na ponte, no rio, no fato de que minha casa estava bem do outro lado, além do horizonte. Em algum lugar naquela vastidão toda que era Divinópolis para a menina Thaís, devia haver jacarés que não eram feitos de pão. Tinha que haver.


Se você gostou desse texto, faça um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Tinyletter e Instagram.

“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui

O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou leia pelo Kindle Unlimited.

Questão de sorte

Riho Kroll

Acabei de ler uma matéria no Nexo que diz que homens são mais resistentes a usar máscaras no dia a dia e cumprir o isolamento social necessário para combater a pandemia, porque tendem a acreditar que não serão contaminados pelo coronavírus e, caso forem, se recuperarão mais facilmente. O irônico dessa história é que a taxa de letalidade entre eles é maior do que entre mulheres. Um engano desses jamais aconteceria comigo e eu juro que dessa vez isso não tem nada a ver com uma certa hipocondria minha. Só tem a ver com cisma.

Desde que a pandemia começou, eu tenho pensado cada vez mais no temor de ter gastado com outras coisas menores toda a minha sorte, essa coisa mágica e inexplicável que até o mais cético às vezes sente que rolou ou faltou. Agora, justamente por esse gasto anterior totalmente impensado e impulsivo, eu estou mais desprotegida do que nunca. Tenho medo da minha reserva de sorte ter zerado, de não ter nada na despensa para me proteger do azar. Esse pensamento não é bem uma novidade, mas agora ganhou contornos mais mórbidos. Eu sinto que o esvaziamento da minha sorte parece ter acontecido bem antes, já que em todo concurso que eu tento eu não vejo qualquer atuação dela. Antes, a falta dela atuava pelo meu fracasso, agora eu temo que ela não apareça para proteger a minha vida ou a vida dos meus.

Eu, você, todo mundo, precisa de sorte quando vai ao supermercado ou na farmácia ou mesmo deixar o lixo na rua ou trabalhar. A gente precisa estar no corredor certo e bem longe, quando alguém espirrar ou tossir ou conversar ou mexer errado na máscara e depois tocar nas maçanetas do prédio e produtos todos. A gente precisa de sorte para continuar, porque, além de tudo, a gente também tem que lidar com esse governo que foca sempre na cloroquina, na Anitta e no autoritarismo.

Eu já ganhei dois sorteios no Instagram, uma viagem para o Hopi Hari, um mp3 e várias partidas de jogos de tabuleiro, baralho e outros formatos de games que envolvem um pouco ou um mucado bom de sorte em sua lógica. Fora a fase que eu gostava de jogar bingo online pelo Jogatina. Cada vitória ali pode ser revertida por uma onda de azar que vai me colocar frente a frente com um contaminado assintomático e bolsominion que se recusa a usar máscara de tecido na rua e se afastar de quem passa bem quando eu precisar sair para fazer qualquer coisa.

A última vez que eu achei que uma encomenda minha tinha sido extraviada ou furtada por algum vizinho, ela estava o tempo todo na caixa do correio. Fora que eu já perdi dois celulares, uma vez em um táxi muito antes de apps existirem e os taxistas serem rastreáveis facilmente e outra vez em um restaurante numa cidade que eu não vivia, e nas duas vezes, milagrosamente, os aparelhos voltaram para as minhas mãos são e salvos. E eu nem comento as vezes em que a sorte sequer foi percebida por mim ou que eu já esqueci. Eu pareço dever muito, muito, muito mesmo para sorte e não sei se quando criança eu a servi com trevos de quatro folhas o suficiente, porque eu lembro de procurar, procurar e procurar e encontrar quase sempre só os de três.

Esse papo todo me lembra que esses dias o tapetinho da porta do apartamento sumiu por mais quase três semanas e depois retornou, o que nesses tempos eu não sei se é sorte ou azar, porque ele pode ter retornado todo contaminado, apesar de que tudo indica que quem pediu emprestado o lavou junto com o meu chinelo ipanema que nem sequer chegou a sumir por uns dias. Por desencargo de consciência, eu evitei pisar nele durante 14 dias, mesmo saindo apenas para levar o lixo lá fora.

Só sei que eu tenho medo de faltar sorte bem agora, bem na hora que eu imagino que será a que mais preciso. Eu tenho medo de toda vez que marquei alguém em um sorteio nas redes sociais, eu tenha atuado para me colocar no centro do furacão sem qualquer proteção mística, ainda que eu nem sequer acredite nisso. Eu tenho medo, porque a minha regra é sempre pensar na pior possibilidade e, caramba, como todas as chances que se apresentam agora parecem ser ruins.

Por isso, eu não saio de casa, uso máscara de tecido e descorongo tudo que chega nesse lar e acho que todo mundo deveria fazer o mesmo também, porque o sortudo pode perder a sorte e o azarado pode ter muito azar ainda para gastar. Tudo é questão de sorte, ou azar, e para essas coisas não há regras.

O aleatório pode te pegar pela sacolinha do delivery de pizza que você entrega ou pega. O vírus bactéria filha da puta micróbio do caralho pode resolver fazer sua morada provisória ali e, como num jogo de dados, se o resultado for 1 ou 2, ele pode te contaminar na hora mesmo você tendo muito cuidado, se der 3 ou 4, ele pode te pegar porque você deu um beijinho no gatinho ou cachorrinho ou mesmo uma criança que se escondeu lá dentro brincando sem você ver, mas se der 5 ou 6 dessa vez você está livre, porque nessa sacolinha, bem nessa, não tinha nada de vírus. Sorte. Ou azar. Mesmo se você não der a bobeira de não descorongar o que devia desconrogar, a verdade é que a gente não tem controle de nada. A gente só tenta diminuir as possibilidade de tirar os piores dados e torce para dar certo.


Esse texto foi originalmente publicado em minha newsletter. Se você gostou,  compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium, Facebook, Instagram Twitter.

A batalha secreta dos ipês

Ipê capa da Vogue — Foto: Thaís Campolina (Acervo Pessoal)

Aqui na rua tem um ipê amarelo conhecido por ser atrasado em sua floração. Ele, além de tudo, é miúdo em relação a todos os outros. Eu não entendo nada de botânica, mas como uma pessoa adulta menor do que todas as outras, eu não consigo olhar para ele sem pensar que é uma sacanagem tremenda supor que ele é como é simplesmente porque ainda não se desenvolveu por completo ou tem algum problema.

A gente fala, fala e fala em respeitar as diferenças, vive argumentando que cada um de nós funciona de um jeito, mas quando a gente se depara com um ipê pequenininho e atrasado em relação aos seus colegas tão vistosos e já floridos, a gente ainda tende a supor que ele, que não se encaixa na trajetória linear ou mais correta segundo sei lá quem, só não se encontrou ainda. Ou teve uma infância difícil demais e cheia de traumas. Ou qualquer outra coisa que no fim das contas será usada para diminui-lo de maneira condescendente.

As pessoas sempre querem um porquê. Quase como se fosse um atestado que você leva para o trabalho para justificar que não deu para você chegar na hora como todos os outros. As pessoas não podem ver o diferente e simplesmente pensar “ok”. Elas sempre vão querer uma justificativa para aquilo, de preferência uma justificativa que evoque um papagaio dizendo “ô coitado!”. Sem isso, o que sobra é a zombaria direta e irrestrita.

Uma vez me perguntaram se eu passei fome na infância e por isso acabei tão pequena. Foi estranho. Ser toda inha, inclusive branquinha, sempre me fez ser colocada como bibelô, o que é inevitavelmente uma coisa meio patricinha. Dessa vez foi diferente. Muito pior. E olha que eu tenho um trauma não superado de ser vista como bonequinha. A pessoa ao me olhar pensou que somente a desnutrição justificaria a minha existência em paz, que eu precisava de ter um background de sofrimento para me tornar factível como personagem. O paternalismo de sempre se mostrou uma piedade feia, essa que alguns cristãos adoram sentir pelos outros quando dizem que vão ajudar alguém. A mesma piedade feia que eu vejo quando as pessoas olham para o ipê amarelo da esquina da minha casa e diz mesmo sem ser em voz alta algo como: “coitado, ele não é como todos os outros”.

Estamos em julho agora e a floração dos ipês já começou. Ao menos entre os adiantados. Eles, os ipês amarelos melhores da classe, já estão entre nós. Eles, os ipês capa da Vogue, já enfeitam as ruas. Eles, os ipês geniais, já estão sendo fotografados por quem passa com máscara na cara — ou no queixo — perto deles. Já os ipês de floração em agosto e setembro seguem seus processos ainda carregados de estigmas somados a pressão de, quando florescerem, florescerem bem. Todos os ipês vão ficar floridos por mais ou menos quinze dias, independente de quando começarem, mas não importa, porque até entre os ipês se impôs uma corrida de produtividade, modelo, status e essas coisas todas.

Todo mundo quer florescer primeiro. Todo mundo quer florescer melhor. E alguém ainda vai dizer que pensar assim é o mindset do sucesso. E quem, por qualquer motivo que seja, demora mais ou, quando floresce, não floresce tão bonito, se torna um fracassado que precisa apresentar justificativas até para si mesmo por não ser como o primo bonito, concursado e com a vida e família pronta. Sendo a melhor justificativa sempre algo que evoque dó, porque ela dá a ilusão de empatia para quem ainda quer olhar para os outros sempre de cima.

Eu ia chamar os ipês adiantados de Einstein, porque ele é o nome que todo mundo aprendeu como sinônimo de gênio, mas eu lembrei que existe um mito sobre ele na verdade ter sido um péssimo aluno, só que é um mito somente e não ia dar para tirar nenhuma lição bonita da história dele, porque não importa se o atrasado vai brilhar muito um dia, a gente tem que parar de querer cobrar que os outros sigam essa régua única que parece ter sido inventada para que a maioria sempre perca. Fora que aquele meme do “e aquela criança era ninguém mais, ninguém menos, do que Albert Einstein” estragou tudo.

Era para esse texto ser engraçadinho, mas acho que não funcionou.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Toda vez que vejo vocês falando de bicicleta me dá vontade de falar isso aqui ó

Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.

Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.

Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.

Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.

Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.

Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.