Toda vez que vejo vocês falando de bicicleta me dá vontade de falar isso aqui ó

Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.

Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.

Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.

Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.

Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.

Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.


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Sobre o medo de perder dinheiro e pertencer ao passado

Josh Appel

Toda vez que faço compras online, eu fico muito tensa com medo de algo acontecer e eu não receber meu produto em casa. Não gosto de achar que perdi dinheiro. Nem imagino como deve ser investir na bolsa e conviver com variações diárias de perdas, mesmo que às vezes tenha ganhos. Muitos ganhos. Ganhos que provavelmente eu nunca vou ter, porque não invisto na bolsa e dinheiro para poder fazer isso com tranquilidade me parece uma ficção. Na verdade, especulação. Gostou da piada ruim? Fiz para te fazer pensar que talvez eu entenda o suficiente para ser pessimista tendo trinta anos e vivendo o capitalismo tardio. Me parece desperdício de tempo, energia e grana. Quem quer arriscar perder grana? Sei lá. Quem quer aprender ganhar dinheiro com tragédia? Todo mundo? Me parece errado correr esses riscos, financeiros e morais.

Mesmo nos meus dias mais loucos, eu devo ser conservadora nos meus costumes bancários. Se bem que nem tanto. Eu amo conta digital, carteiras que oferecem cashback quando você gastar e essas praticidades novas. Teve uma época que até segui o Picpay nas redes sociais e bem recentemente tentei edital cultural de banco tradicional. Na verdade, eu até sei o que é LCI, fundo de investimento e corretora. Eu já até investi dinheiro, pouco, claro, mas é porque não dá para deixar na poupança também, entende?

Eu só não gosto de achar que vou perder dinheiro. Quando faço uma compra online, eu morro de medo que o produto desapareça no mundo e eu não consiga reembolso, ou até consiga, mas só depois de tempo demais de espera e dúvida. Tem hora que o temor muda e se torna um medo de esquecer de pedir o reembolso porque passei muita raiva, troquei muito e-mail, li e ouvi mil vezes que o produto foi enviado e eles não podem se responsabilizar por mais nada além daquilo. Talvez eu me assuste com a possibilidade do tempo passar e eu esquecer para que precisava daquilo quando tocarem o interfone me avisando que minha encomenda chegou. Na verdade, eu tenho receio mesmo é de acabar apagando o e-mail que eu precisava para confirmar o número do meu pedido ou ter errado na hora de preencher o meu próprio endereço. Ou algo assim.

Eu não sou muito organizada, sabe? E nada que eu faça me impede de receber muito spam e eu já acatei que o meu destino é ter sempre uma Caixa de Entrada caótica. Eu também tenho medo de pagar o boleto. Ou pagar repetido. Inclusive já paguei uma vez e vi minha conta seguinte vir abatida depois de uma conversa tranquila com uma atendente de telemarketing com sotaque pernambucano que nem me julgou por ser tão lerda.

Nada me dá segurança numa compra online. Nada. E isso me faz me sentir meio negacionista, meio meu pai, meio como se eu me tornasse cada dia uma boomer, ou pior, uma millennial-boomer. Nada me dá mais medo do que isso, ainda que eu saiba que o tempo passa e quem nasceu no século XIX já deve estar rindo de mim usando o celular. Nem tiktok eu tenho instalado.


Esse texto foi originalmente publicado em minha newsletter e saiu também pelo site Salto Quebrado. Se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Conversando sobre o “O Peso do Pássaro Morto” ou um papo estranho sobre resenhas

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Já tem uns dias que quero escrever sobre esse livro da Aline Bei. Até pensei em um bom título — “O peso do Pássaro Morto: corpo, trauma e solidão” — mas nada sai. Alguns livros são irresenháveis por mim. O título pomposo e um parágrafo introdutório que não diz muita coisa ficam eternamente no rascunho, enquanto me coço para comentar todos os detalhes que quero destacar sem me importar com spoilers.

Um saco isso de spoilers, né? A gente escreve sobre livros muitas vezes só porque a gente quer falar sobre eles, mas essa limitação estraga tudo. Talvez seja por isso que eu agora só queira saber de promover leituras coletivas. Nesse tipo de espaço, todo mundo já leu e spoilers são liberados e a gente pode ficar falando numa boa do que seria proibido em uma resenha. Falando nisso, sabia que “O peso do pássaro morto” foi um dos livros mais lidos nos clubes do Leia Mulheres ano passado? Tá vendo? Todo mundo quer ler e comentar. Talvez contar uma história própria que dialogue com a do livro. Falar de forma genérica não tem muita graça. Aposto que em todo encontro teve alguém falando: “Avassalador”. Eu sei que eu falaria. Talvez também tenha sempre alguém que não consegue conter as lágrimas.

Nessa luta para escrever alguma coisa sobre o livro da Aline Bei, ontem consegui formular toda uma estrutura e várias ideias. Um dos parágrafos que pensei era muito bom e tinha só spoilers leves, aqueles que só provocam o leitor a procurar o livro com tanta avidez que ele até clica e compra um exemplar usando o meu link da Amazon. O problema é que fiz isso alguns segundos antes de dormir e dormi. Muitas vezes quando isso acontece, assim que começo a escrever a resenha no outro dia, me lembro o que queria dizer e tudo funciona muito bem, só que hoje acordei no susto, com um barulho de Mate Couro caindo no chão, estourando e molhando meu gato inteiro de refrigerante. A primeira coisa que fiz ao acordar não foi escovar dentes, fazer xixi, beber água ou pegar o celular, foi passar shampoo a seco em um gato bonito demais para ser verdade. O que significa que eu esqueci o que ia escrever e nem ler os destaques que fiz no livro no Kindle adianta alguma coisa agora. O Mate Couro caiu, estourou e todas as minhas melhores ideias foram para o ralo.

Lembro que em algum momento eu ia dizer que Aline Bei ganhou com esse livro o Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos. Um prêmio é sempre um prêmio, né? Acho uma boa jogada para convencer o leitor lembrar que a obra já foi lida, validada e aplaudida não só por mim, a autora da resenha. Só que uma resenha nunca pode falar só sobre isso. Ela fica sem alma. Ainda que eu não acredite em alma, acho que resenhas possuem uma e essa alma pode escapar do texto se você for formal demais e esquecer de acrescentar suas impressões pessoais da leitura. O problema dessa minha resenha entretanto é justamente o contrário. Ela tem a alma já sebosa de tanta informação pessoal não solicitada.

O livro, narrado em primeira pessoa em verso, começa com as memórias dos oito anos dessa protagonista sem nome, mesma idade que começa o livro de memórias da Vivian Gornick chamado “Afetos Ferozes”*. Oito anos parece ser um marco na memória de personagens reais ou ficcionais. Oito anos parece ser uma idade em que passamos a ter noção do nosso corpo, do corpo do outro e nossa identidade já existe o suficiente para que as lembranças que ficam fiquem mesmo e pareçam ser nossas. Oito anos é a idade em que nos tornamos um pouco mais sólidos e fixos. Provavelmente porque é quando paramos um pouco de orbitar em torno de nossos pais.

Os oito anos da personagem sem nome que protagoniza o livro da Aline Bei também é um marco porque é a idade que ela tem quando começa a perder, ou melhor, sofre sua primeira perda. E esse livro é um livro sobre perdas e como elas nos afetam e como certas perdas são bem específicas do gênero feminino. A própria autora falou uma vez que quando decidiu escrever sobre perdas sabia que a protagonista-narradora teria que ser uma mulher, por causa de toda opressão que cerca a existência feminina. Por isso é triste, avassalador e impactante. E esse sofrimento se intensifica porque essa história mostra o quanto o trauma dessas perdas torna a dona delas mais solitária. Os traumas criam mais um obstáculo entre ela e o mundo, inclusive o filho.

Só que o livro não fica só nos oito anos dessa mulher. A criança de imaginação fértil que de repente precisa aprender a lidar com a morte, segue. E dali avança aos dezessete, aos dezoito, aos vinte e oito e vai indo até os cinquenta e dois anos, enquanto tenta ser uma pessoa, não só uma acúmulo de perdas, culpas e memórias. E, apesar de tudo, ela vive, ela continua, ela existe, ela está ali até deixar de estar.

E também, apesar de tudo, acho que terminei essa resenha.

*Tem leitura coletiva organizada por mim sobre o livro Afetos Ferozes rolando agora em junho/julho. Saiba mais aqui.


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Retrato de Uma Jovem em Chamas: um exercício de observação

(Contém spoilers)

Cada cena do filme “Retrato de Uma Jovem em Chamas”, obra dirigida por Céline Sciamma, poderia ser um quadro, um quadro pintado por Marianne, a protagonista dessa história focada em mulheres. Cada frame capta algo da imagem além dela própria, como se a história fosse contada também pelos mínimos detalhes que só um olhar atento e meticuloso é capaz de trazer para um retrato. O olhar que Marianne tem como seu. O olhar que Marianne volta para Héloïse, inicialmente por esse ser o seu trabalho e depois porque esse é o olhar da aproximação, dos laços que surgem entre os seres humanos, do desejo. O olhar que Héloïse retribui.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma história de amor, de amizade, de descoberta e de observação que acontece a partir da contratação de Marianne para pintar, secretamente, um retrato de Héloïse. Essa pintura precisa existir, porque será um presente para o homem que casará com a retratada que se recusa a posar. O casamento aqui é uma obrigação que a personagem deve aceitar, ela querendo ou não, porque cabe às filhas servirem como moeda nessa transação comercial.

O retrato de Héloïse é o motivo de Marianne estar ali, olhando, trocando, e inicialmente se colocando como uma dama de companhia para assim poder pintar, em segredo, quando elas não estão juntas. Esse quadro, além do motivo dessas mulheres se encontrarem, é também uma fonte de reflexão sobre o apagamento do desejo das mulheres e como o poder e as regras dos homens fala mais alto em relação a tudo que se relaciona a elas e suas vidas.

Apesar da ameaça de casamento que espera Héloïse, esse é um filme que expõe uma série de trocas, situações e eventos cotidianos que acontecem quando ninguém de fora está olhando. Sendo esse ninguém de fora homens ou mulheres que defendem os interesses deles.

Por um breve período de tempo, três mulheres jovens — Héloïse, a mulher a ser pintada, Marianne, a pintora, e Sophie, a criada — usufruem a liberdade de não estarem sendo observadas e vigiadas para aproveitar o momento, se divertir e também amparar. Durante esse espaço temporal, há a construção de uma intimidade que só é possível existir quando se cria uma relação de confiança pautada no instante, no desejo, na troca e no apoio sem dever ou pecado. Quando ninguém de fora está olhando, há espaço para relações genuínas surgirem. De fora daquela ilha, as engrenagens continuam a rodar, prontas para afetar essas mulheres e corrigi-las, mas no interior daquela casa, brevemente, elas parecem quase esquecer disso.

A observação é o centro do filme, tanto como um meio de criar empatia, vínculo e interesse, quanto como meio de controle. Todas as três personagens, Marianne talvez menos, estão acostumadas a serem vigiadas em algum nível. Ali, isoladas umas com as outras, confinadas numa ilha, sem a mãe de Héloïse ou qualquer outro representante da sociedade para ditar regras, elas encontram menos solidão do que em suas rotinas tão afetadas pelo olhar desses que só sabem vigiar.

A troca só é possível quando não se está vigiando alguém. O que torna esse filme também sobre o desejo de liberdade e a construção de afetos a partir dessa vivência. Todas elas querem uma vida em que podem ser livres e esses dias umas com as outras significa isso.

Um filme como esse mostra como o olhar masculino sempre foi uma prisão para as mulheres. Esse olhar dita quais comportamentos são os corretos e vigia e pune para garanti-los. Esse olhar é o patriarcado que tenta restringir a intimidade, a privacidade e a liberdade das mulheres. Só que as mulheres sempre encontram brechas para viver suas vidas e tentar ajudar as outras. Marianne mostra isso quando conta sobre como as regras dos homens tentam afastar as mulheres de serem pintoras completas a partir da proibição de que elas pintem nus e comenta que há como burlar isso e depois expõe seu quadro numa galeria usando o nome de seu pai. Sophie, ao precisar de um aborto, e encontrar amparo com Héloïse e Marianne e com toda uma comunidade de mulheres também serve como exemplo disso. Mesmo no meio de tantos rostos prontos para julgar, há como encontrar algo diferente. Há como desrespeitar as regras. Encontrar algum refúgio. Talvez isso seja o que chamam de sororidade.

A descoberta das personagens vai além da sexualidade, da troca e da amizade e perpassa toda essa questão de controle versus liberdade, de forma sutil, porque todas ali sabem que aquela situação não poderá durar para sempre, porque há uma promessa de casamento e Marianne está ali somente para garantir o quadro que simbolizará esse futuro. Há uma data de validade e as três devem aproveitar antes que o tempo delas vençam. Especialmente Héloïse e Marianne, que vivem um amor impossível por esse breve período que parece mínimo perto do resto de suas vidas, mas é mais do que o suficiente para marcá-las. É possível burlar as regras, mas ainda não dá para reescrevê-las e elas precisam aceitar o futuro que virá.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma declaração de amor ao exercício de observação livre de amarras e sem o objetivo de domínio e a tudo que pode surgir a partir disso. Por isso é tão bonito. Por isso cada cena parece uma obra de arte. Por isso narra o amor entre mulheres.


O Cinema, enquanto indústria, privilegia o olhar masculino que aprisiona as mulheres e limita que o trabalho delas, como o bordado de Sophie, seja valorizado. Como em diversos outros espaços, há um apagamento do trabalho feminino e um fenômeno que mescla invisibilização e desvalorização em relação aos feitos dos homens. Mesmo quando esses homens são acusados de terem violentado, sexualmente ou não, mulheres. A arte está acima de tudo, quando se trata de homens brancos. A arte é uma distração, um hobbie, uma prenda feminina. Ou um trabalho, quando seu pai te coloca como herdeira dele, mas um trabalho que jamais poderá ganhar tanto espaço quanto o de um homem, porque o mundo ainda só valoriza o que parece cercear as mulheres de alcançar sua plenitude.

“Retrato de uma jovem em chamas” é um dos melhores filmes que já vi e, apesar de ter sido bem aplaudido, foi encarado por alguns homens que se colocam como críticos como uma obra somente voltada para mulheres, como se apenas mulheres se interessassem por histórias contadas por nós. Como se a falta de personagens masculinos tornasse a obra imediatamente desinteressante. A película se destacou principalmente por causa da maneira que foi filmada, mas Céline Sciamma perdeu o prêmio César de melhor direção para Roman Polanski, diretor que tem uma condenação de estupro no currículo. Pelo menos Claire Mathon, diretora de fotografia da obra, levou merecidamente o César voltado para essa atividade.

Esse filme diz muito sozinho, mas também diz muita coisa quando analisado em seu contexto. A obra mostra o potencial, afetivo e artístico, que as mulheres possuem quando não estão sendo avaliadas o tempo todo por uma ótica masculina que busca submissão às regras feitas por eles. Potencial que ainda hoje segue ignorado quando privilegiam homens sempre, inclusive estupradores condenados, ou atribuem rótulos e nichos reducionistas ao que deveria ser visto como arte.


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Sobre escolher, preferir e colocar obras para competir entre si

Morning Sun — Edward Hopper

Eu deveria escrever um prefácio sobre o meu livro favorito sem dizer o nome dele. O problema é que uma das minhas principais características pessoais é não conseguir escolher preferidos entre obras literárias, cinematográficas e televisivas. Imagina então O preferido. Pois é. Agora estou aqui, atrasada no desafio de escrita criativa que me propus a fazer durante a quarentena simplesmente por ser incapaz de comparar meus gostos.

Eu poderia pegar dez livros e fazer cada título batalhar com o outro até sobrar um e pegar esse nome que restou para prefaciar. Só que eu não consigo. Esse plano encontra muitos obstáculos dentro de mim. O primeiro deles é escolher dez. Dez parece muito, mas é pouco. Mesmo se eu conseguisse chegar perto do número dez, eu ia ter que deixar algum título que eu amo de fora e isso seria uma injustiça com a obra e comigo. Uma injustiça que poderia se basear no fato de que há assuntos e abordagens essenciais que não podem competir entre si, porque são muito diferentes e também muito importantes, ou uma injustiça que moraria na possibilidade de você escolher um livro de romance e essa escolha ser vista, erroneamente, como uma eleição desse formato frente ao conto, à crônica, à poesia, à não ficção, à autoficção, à biografia e todo resto.

Sabendo dessa minha limitação, pensei muito em como eu poderia burlar as regras. Considerei mentir. Fazer um prefácio de um livro qualquer como se eu gostasse dele mais do que de todos os outros ou escrever sobre um livro que sequer existe. Como uma das regras era não citar o nome da obra no texto, mentir não seria muito difícil, mas eu não consegui. Pareceu errado. Não com vocês, mas comigo que seria obrigada a fingir ser como eu não sou. Também cogitei que eu poderia pegar um livro que foi meu preferido no passado, quando eu ainda conseguia fazer obras competirem entre si, mas nesse caso o prefácio seria sobre Harry Potter e já tem coisa demais sobre a saga nesse mundo.

É difícil escrever sobre escolha ou escolher favoritos, especialmente quando tem um alarme tocando sem parar no vizinho e uma reforma em plena quarentena bem do lado de casa. É difícil demais falar em querer e preferir quando eu sei bem o que eu escolheria fazer agora se eu pudesse. Com ou sem barulhos de vizinhos, eu queria poder sair de casa, dar uma volta, sentir o vento no rosto e o sol esquentar a pele e ter certeza que eu estou segura de novo dessa ameaça invisível que agora nos enclausura, física e mentalmente.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena e é o resultado da minha decisão por burlar todas as regras do dia quatro e da proposta. Saiba mais sobre esse desafio de escrita criativa nesse post do Twitter ou aqui no Medium, participe e se divirta. E, talvez, desobedeça. Como eu optei por fazer agora nesse texto e faço todo dia com o Bolsonaro, especialmente quando ele minimiza de maneira completamente irresponsável a pandemia de COVID-19 e o isolamento social necessário para passarmos por ela.

Pequeno manual da pausa:

Talvez seja uma boa descansar um pouco

Acervo Pessoal
  • Vá caminhando;
  • Só tome café se o objetivo de cada gole não for ficar mais produtivo, concentrado ou qualquer coisa que o valha;
  • Coma sem culpa;
  • Lembre-se que comer sem culpa significa não pedir desculpas por comer, independente do prato escolhido;
  • Saboreie sem pressa;
  • Não saia imediatamente após terminar. Fique alguns minutos olhando o movimento. Ou lendo. Ou escrevendo. Talvez até mesmo interagindo com algo ou alguém;
  • Se permita criar histórias para cada pessoa que você ver passar. Se a rua estiver muito vazia ou com tudo se movendo rápido demais, foque no cenário no lugar;
  • Aprecie o que você encontrar de bonito ali ou no caminho ou mesmo na sua imaginação;
  • Volte para casa bem devagar. Pare para contemplar o mundo, se assim quiser. Cantarole durante o percurso. E, repouse, como se uma jiboia fosse;
  • Se possível, sonhe.

O pequeno manual da pausa não é autoritário, apesar do uso dos verbos no imperativo. Ele só tem validade, e ainda assim somente como uma sugestão, para quem precisar, quiser e puder. Aceita adaptações.

Perigosa

“I always want to be dangerous” disse a moça do Fleabag numa capa da Vogue. Ainda não vi Fleabag, preciso confessar, mas juro que está na minha lista desde que fui avisada que é uma série curta e que eu vou me apaixonar pela atriz que é também um tanto de coisa relacionada ao mundo da criação, da escrita e tudo mais. A revista não está aqui comigo, não, não. Nenhuma sala de espera tem revista super atual assim, imagina se uma repartição de prédio público que está sofrendo cortes e ataques do governo para cavar uma privatização vai ter?

Pois é. Tá foda, né? Vigora nesse país uma lógica tão nefasta que não há energia que dê conta de se manter tempo o suficiente em um corpo sem se dissipar em uma ação automática, como uma reclamação, um lanche ou um meme. A sensação é que estamos em processo de zumbificação. Eu, pelo menos, estou.

Fomos domados. Agimos de forma previsível e quase adestrada e é por isso que a frase da moça do Fleabag ecoa na minha mente sem parar desde que a li. Eu sempre quis ser perigosa. Muito mais do que uma femme fatale, já que todo o perigo que elas apresentam segue uma lógica que é cruel com as mulheres e serve, no fim das contas, para alimentar fantasias masculinas de controle, dominação e narcisismo. Eu queria ser perigosa mesmo. Inflamável, tempestiva, ousada, imprevisível, mercurial e, principalmente, forte o suficiente para garantir que nenhuma dessas características e comportamentos me prejudicasse. Queria poder ser desagradável, eu acho. Poder fazer coisas comuns sem pintar um sorriso no rosto, ainda que falso, e responder daquele jeito quem me tratasse de maneira paternalista ou me assediasse. É isso. Queria poder reagir ao que é sutil, mas ainda assim mexe com minhas estruturas e afeta como eu me vejo e vejo as mulheres ao meu redor. E não só elas. Queria também reagir ao que é óbvio, mas que é perigoso demais. Como quebrar um banco ou bater de frente com juízes que defendem somente seus próprios interesses. Eu queria tanta coisa e todas elas se relacionam com enfrentar um poder sem medo. Então, o que eu queria mesmo era ter menos medo. De desagradar, de me machucar, de destruir, de descobrir que algo pode ser diferente e construir qualquer coisa a partir desse impulso.

Eu queria ser perigosa, moça do Fleabag, porque eu queria conseguir me proteger desse mundo que nos engole mesmo sem a gente perceber. Eu queria ser perigosa, porque fantasio com o dia que eu não serei mais tão covarde. Eu queria ser perigosa para não ser presa, fácil ou não.

Talvez a zumbificação esteja em mim e em nós e em todos há muito mais tempo do que a gente imagina. Talvez a gente precise descobrir o perigo que mora nessas nossas feridas feias que nunca cicatrizam. Talvez eu esteja chorando no banheiro. Talvez eu esteja com receio de chamarem o meu número enquanto seco as lágrimas disfarçadamente numa cabine apertada com cheiro de xixi velho misturado com desinfetante de lavanda. Isso tudo porque chorar em público é visto como uma espécie de perda da dignidade e eu quero evitar que pensem que perdi a minha agora. Eu perdi faz tempo. Provavelmente quando não fiz muita coisa para tentar barrar a Reforma Trabalhista. Ou foi a da Previdência? A decadência humana, na verdade, é não chorar, sentir, agir quando a gente sente esse impulso vital, constantemente sufocado, mas que ainda assim continua a chamar, a chamar, a chamar…


Esse texto foi originalmente publicado na terceira edição da minha newsletter. Se você gostou e agora quer receber meus envios diretamente na sua caixa de entrada, assine aqui e não se esqueça de confirmar pelo e-mail.

O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


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Meu museu de papel

Em algum momento entre 24 de abril e 2 de setembro de 2007, eu estive com a escola no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Essa foi a primeira vez que visitei a cidade e um dos meus contatos mais esperados com a literatura, a palavra e a memória.

Lá eu ganhei uma caderneta que tem estampada uma foto da Clarice Lispector e, por incrível que pareça, eu ainda a uso. Mexer nela é muito estranho. É transitar por diversas épocas da minha vida. O passado distante, mas também aquele mais próximo, convergem no hoje, no agora.

Tem anotação de pontuações de jogos de baralho, protocolos, rascunho de trabalho de geografia, brainstorm para texto do Ativismo de Sofá, poemas que me contam sobre sofrimentos que nem lembro, lista de possíveis temas para meu TCC em Direito, trechos aleatórios de livros do Guimarães Rosa e até as anotações da palestra que dei dia 03/08 desse ano e do livro que li ontem.

É um caos, mas é um caos tão meu que é até bonito, principalmente porque toda vez que olho a capa desse caderno, eu me lembro dessa época em que eu descobria Clarice, Leminski, Caio Fernando, Carolina Maria de Jesus, Graciliano Ramos, Machado e o livro “26 poetas hoje”. Visitar esses papéis, enquanto eu escrevo o agora na folha da frente, é passear no museu particular de descobertas que me tornaram quem eu sou.


Nessa mesmíssima época, eu também descobria Fernanda Young, mas isso eu só me lembrei alguns dias depois de escrever esse texto, quando saiu nos jornais a notícia triste do falecimento da escritora. Fiz uma breve homenagem a ela e ao que ela me ensinou com sua obra em um texto que postei em minha página no Facebook na data. Confira aqui.


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