“Olhos d’água”: histórias de sangue, dor, afeto e esperança

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

É possível ver histórias em tudo: nos nascimentos, nas mortes, nas relações que vivemos, no cotidiano, na memória e até nos pensamentos, situações embaraçosas e objetos que nos circundam.

Somos contadores de história, querendo ou não, mesmo quando os relatos que saem de nós tratam sobre nossas próprias vidas e jamais se tornem um texto escrito. Narramos e justamente por isso gostamos tanto de ouvir e ler outras narrações. Narramos como um forma de nos colocar no mundo. Narramos porque precisamos. Conceição Evaristo sabe muito bem disso e por isso cunhou o termo escrevivência para definir a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, das experiências de vida e da cultura de seu povo, o negro. A narração, que é parte inegável da vida humana, ganha contornos políticos quando é feita para visibilizar histórias próximas que seguem ignoradas e se torna uma ferramenta poderosa de voz, preservação de memória, denúncia e humanização.

“Olhos d´água” reúne quinze histórias curtas de dor, sangue, vida, família, amor e morte. Nesse livro, a autora narra a fome, a miséria, a violência, o genocídio do povo negro e dá voz às mulheres negras e suas vivências. Sem esquecer de também mostrar os laços afetivos dos personagens, seus conflitos internos, reflexões e ancestralidade. Os contos escancaram o mundo de exclusão que muitos vivem e outros tantos se negam a ver e humaniza quem a sociedade a todo custo quer desumanizar com personagens humanos que sentem “dor-amor”, “coragem-desespero” e outros tantos sentimentos, entre eles, a esperança.

Conceição Evaristo narra acontecimentos brutais que poderiam ser realidade, mas não de um jeito jornalístico ou sensacionalista. A escrita da autora, muito poética, não explora os corpos vivos, mortos ou marcados para morrer de uma forma impessoal. Ela dá subjetividade, história e relações ao que é tratado comumente como estatística e faz com que aquilo soe como algo próximo ao leitor. Ao não explorar esses casos como meras manchetes, a escritora intensifica o incômodo e faz com que ele dure além do tempo de leitura do conto. Ela evidencia o que é brutal e as consequência da naturalização disso sem tornar seus personagens objetos. O conto “Maria”, “Ana Davenga” e o “Ei, Ardoca” são bons exemplos disso, porque nos apresentam histórias que facilmente estariam no jornal sendo contadas de uma outra forma.

Quando a autora usa palavras como mar-amor, flor-criança e viver-morrer, as contradições entre brutalidade e afeto ficam evidentes. Essa hifenização une muitas vezes antônimos, o que ajuda a compor a oposição entre o estilo de escrita da autora com o que é narrado, nos faz pensar no contraste entre essas histórias com as da elite branca e, principalmente, expõe como a vida é repleta de contradições.

Essa leveza do estilo de escrita, muito marcada pela oralidade, se contrapõe até mesmo com a linguagem dos personagens. Em “A gente combinamos de não morrer”, Bica conta que escreve desde sempre e relata um episódio que aconteceu com ela na escola quando tinha sete ou oito anos. Durante um exercício de separação de sílabas, ela pediu para ir ao quadro negro mostrar as palavras que tinha formado: pó, zoeira, maconha, craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde. O que a personagem escreve é uma amostra do mundo que a circunda e que Conceição expõe. Entre as tantas frases bonitas, bem feitas, cheias de sonoridade, há também a denúncia de qual é a linguagem que cerca as crianças negras que protagonizam essas histórias.

A sexualidade se faz presente na vida da maioria dos personagens criados pela escritora e nem todos são heterossexuais. Em “Luamanda”, a mulher que dá nome ao conto deseja e vive seu desejo sem se limitar, inclusive, a se relacionar somente com homens. Ela, ainda que já esteja um pouco mais velha, segue gostando de sexo e buscando viver histórias de amor. Já em “Beijo na face”, uma mulher vive uma história de amor secreta com outra mulher, enquanto está presa a um casamento infeliz e abusivo. Ainda que muitas personagens sofram violência misógina e não tenham acesso ao que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, elas ainda assim tentam se colocar como donas de suas próprias histórias.

O conto que dá nome ao livro e o inicia é movido pelas recordações de uma personagem que busca se lembrar da cor dos olhos da mãe que está distante. É delicado, poético e afetuoso, apesar das memórias narradas denunciarem as dificuldades passadas por essa família. Essa é uma das muitas histórias desse livro que trata sobre maternidade e ancestralidade. Iniciar com ela não é um mero acaso e a gente percebe bem isso quando chega ao fim da obra e se depara com o conto Ayoluwa.

É simbólico que o último conto seja sobre fazer brotar a força da esperança e que isso aconteça numa comunidade que ampara uma mulher em sua maternidade. Embora no caminho até essa história, a gente encontre a esperança surgindo, como acontece no “Beijo na face” e no “Quantos filhos Natalina teve?”, a violência, a exploração do trabalho, o abandono e a morte, principalmente dos homens, é o que se destaca.

Conceição Evaristo escreve sobre sobrevivência e sobre cotidiano, mas não sobre o cotidiano que é contato nas novelas e sim aquele que estampa de forma sensacionalista os jornais feitos de sangue. A autora, por meio da construção de personagens tão eles, tão gente, coloca essas histórias antes tão marginalizadas no centro do debate sem se amparar no senso comum racista e machista que vigora quando essas narrativas partem da visão dos brancos da elite. Com esse livro, a autora mineira transforma uma realidade marginalizada em literatura e denuncia as consequências da exclusão e da discriminação sem deixar morrer a esperança de que um dia isso seja diferente.

Se eu tivesse que definir esse livro numa frase, eu diria que ele é sobre a esperança de estancar o sangramento que o racismo causa.


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Direito adquirido

46 pessoas idosas atearam fogo em si mesmas com intenção de morrer em frente aos prédios públicos mais famosos de suas cidades somente nesse ano, dizem os jornais e as correntes nas redes sociais. A mídia só começou a divulgar depois que os números atingiram a terceira dezena. Antes disso acreditava-se que o melhor era omitir o que acontecia para não inspirar novos casos. Enquanto isso, a boataria circulava nas redes sociais desde a primeira ocorrência.

Tem quem acredite que esses atos são uma espécie de terrorismo, outros já acham que eles estão mais próximos de uma performance que conta com suicídios públicos e tem a finalidade de denunciar as condições físicas, psicológicas e financeiras de uma parcela da população, mas nenhum especialista sério teve coragem de cravar como verdade qualquer hipótese levantada para tentar explicar a natureza desses episódios cada vez mais frequentes. A maioria só diz que todos que esses eventos são um fenômeno multifatorial que envolve tudo o que conhecemos e também algo novo ainda invisível ao julgamento científico. Ou mesmo aos nossos olhos. Sejam eles estudados ou não.


O primeiro caso coletivo aconteceu hoje, apesar das proibições de manifestações políticas estarem vigentes desde muito antes da primeira vítima-algoz-suicida-terrorista surgir. Quatro mulheres e dois homens, todos com mais de setenta e cinco anos, como eu, se posicionaram em frente ao Ministério da Justiça e, completamente calados e sem cartazes, se queimaram. A polícia tentou impedir com a ajuda de bombeiros, mas não funcionou. Eles mal tinham começado a queimar quando foram apagados, mas ainda assim estavam mortos. Como todos os outros. Nenhum deles nunca sobrevivia.


540 idosos mortos nesses atos até então. Só com um número expressivo desses para o governo começar a olhar para os velhos. Agora, junto ao trabalho, eles recomendam o cárcere privado.


Eu não vou trabalhar até morrer. Consegui juntar documentos o suficiente para comprovar idade, tempo de contribuição e tudo mais e na próxima terça farei meu pedido oficial perante a Previdência Social. Tive sorte de ter trabalhado por muito tempo num lugar que repassava as contribuições dos empregados de fato. A maioria da minha geração não conseguiu nem isso.

A galera, no geral, tinha app como único chefe e se achava empreendedor por ter que arcar com todos os riscos e custos enquanto dividia seu pouco lucro com uns acionistas do Vale do Silício. Tudo na base do desespero. A autoenganação existia sim, não dá para ignorar, mas hoje vejo que era só uma forma da gente não ser obrigado a pensar na injustiça de tudo aquilo o tempo todo. Na verdade, ninguém conseguia ficar muito tempo empregado em qualquer lugar que assinava carteira e trabalhar com transporte de gente ou delivery era o que tinha. Mesmo quem tinha salário, quando precisava de uma grana extra, entrava nessas. Eu mesmo fiz muita corrida de bike alugada pela cidade.

Quem tinha emprego trabalhava como terceirizado nessas empresas rainhas em assédio moral e previsibilidade. Antes de você conseguir ser efetivado ou poder tirar férias ou algo do tipo, eles te despediam só para te contratarem de novo alguns meses depois e essa lógica se repetia até eles declararem falência e não pagarem ninguém. Três meses depois, se a gente tivesse sorte, arrumávamos um emprego numa pessoa jurídica irmã gêmea da antiga. Esse era o jogo e a pior surpresa a gente só veio descobrir uns 30 anos depois quando tentávamos nos aposentar e a Previdência nos avisava que não ia dar, porque não tinha contribuição paga em nosso nome durante aquele período todo. Perdi 2 anos de trabalho dessa forma, mas teve gente que perdeu 5, 10, 15 ou até mais.

Nenhuma surpresa que essas pessoas agora idosas e acabadas se incendeiem em atos públicos.


Quando finalmente vi a placa, mal posicionada e quase apagada pelo tempo, indicando a entrada do prédio, a lembrança de quando havia um tanto de gente querendo estudar para trabalhar como técnico ou analista do INSS me veio. Sentavam a bunda na cadeira e estudavam, estudavam e estudavam buscando o tão sonhando cargo público que logo passou a não valer mais nada. Eu mesmo tentei umas vezes, cheguei até a ser aprovado, mas nunca me chamaram. Deu ruim antes. Agora não tem mais quase ninguém aqui, nem como funcionário, nem como usuário. Não sei se aposentaram, se morreram, se queimaram, se adoeceram ou se simplesmente não há mais muito o que fazer.

Nem na época de ouro os prédios da Previdência Social eram bonitos. Nenhum palacete antigo todo reformado abrigou qualquer serviço da Seguridade Social na história, ao menos não aqui na minha cidade. Agora eles são ainda mais feios e nem ficam mais no centro.

Mesmo com o endereço em mãos e usando o Google Maps, foi difícil de encontrar. A portinha para o hall era bem pequena, quase invisível entre duas enormes lojas com nome estrangeiro. O saguão parecia imenso, como se alguém secretamente esperasse que um dia esse lugar voltaria a ser cheio, mas devia caber só umas quinze pessoas. O vazio faz tudo aparentar ser tão amplo.

Com meu envelope pardo e meu comprovante de agendamento em mãos, sentei numa das cadeiras, apertei um botão e esperei alguém aparecer. Quem apareceu não parecia saber mais como aposentar alguém.

Mostrei meus documentos: RG, CPF, Comprovante de Residência, PIS/PASEP, 48 carnês de recolhimento do INSS como contribuinte individual ou segurado facultativo, 17 holerites de pagamentos de salários do meu emprego atual e também meu Certificado de Reservista. Falei sobre o que eles comprovavam com veemência, mostrei conhecer os meus direitos e esperei acontecer alguma coisa. O homem na minha frente simplesmente se retirou sem falar qualquer coisa do procedimento e disse que ia chamar alguém. Antes de sumir por uma porta, ele enviou uma mensagem de voz para um de seus contatos pelo aplicativo de comunicação da moda da vez dizendo que tinha com ele ali um homem que se dizia aposentável. Ele falava como se eu só pudesse estar senil.

Durante a espera, eu passei os olhos ao redor de novo: poeira, cadeiras antigas demais, ar-condicionado extremamente barulhento e uma janela quebrada bem perto da entrada. Queria tentar entender melhor o meu desconforto com esse lugar. Não havia túmulos, mas ainda assim aquele vazio com seus computadores me lembrava um cemitério. Não havia macas, mas era inevitável pensar que entrei pela porta da frente em um hospital de pacientes terminais. Havia, na verdade, tantos indícios de abandono ali quanto no rosto de cada um dos idosos que ganharam manchetes no último ano.

Depois de pelo menos uns vinte minutos, o homem que me atendeu voltou sozinho. Ou ao menos foi isso que pensei. Ele sentou novamente bem na minha frente e deixou que o computador identificasse seu rosto, senha e digitais e perguntou novamente meu nome, minha data de nascimento e todos os meus números de identificação.

Enquanto dava minha resposta, vi uma cadeira estofada se arrastar e parar ao lado dele e ouvi uma voz feminina vir do vazio acima dela. Ela começou a me fazer perguntas, dar recomendações e explicar todo o processo. Eu ouvia bem o que ela dizia e a respondia quando era necessário. A dona da voz parecia realmente disposta a me ajudar, mas aos meus olhos a cadeira seguia vazia, apesar de vez ou outra eu ouvir o barulho de movimento de suas rodinhas.

Eu não era o único a ouvir o nada. A voz guiava o homem sobre protocolos, documentos e indicava até mesmo os códigos a serem utilizados para o meu caso. Ele obedecia e às vezes reclamava sobre como aquele software era antiquado. Eles, humano e nada, trabalhavam juntos, discutiam algumas coisas sobre meu pedido entre eles e vez ou outra comentavam sobre as últimas notícias do sistema ou do mundo comigo.

Eu suava frio, me sentia tonto e me preocupava mais com a possibilidade de ser um dos milhares inaposentáveis da minha geração do que com qualquer outra coisa. Era como se eu estivesse, enfim, pronto para morrer ou morrendo de fato, independente da resposta. Só que uma das mortes parecia ser bem mais dolorosa.

Foi um alívio ouvir que tudo indicava que eu tinha sim o direito de me aposentar e que, apesar de tudo, eu ia conseguir receber 64% do valor integral que me era devido. A Voz me avisou que a Carta de Concessão chegaria em mais ou menos um mês e me desejou boa sorte, boa vida.

Nessa hora, quando nós três nos levantávamos, eu vi um ser translúcido que parecia muito velho, muito mais velho que um dia eu seria, escorregar pela cadeira e ressurgir aos poucos enquanto flutuava em direção da porta. Ela comentava com o homem sobre eu provavelmente ser o último a conseguir me aposentar no país. Ela, morta, ainda estava trabalhando.

Por que?


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Urgência

Canva

Quero saber quantas horas são, mas a bateria do celular acabou faz tempo e eu não uso relógio de pulso há quase uma década. Com o ponto cheio desse jeito, já deve ter passado das seis, imagino.

Ao sentir aquele aperto no intestino, a preocupação com a hora desaparece instantaneamente e retorna com maior intensidade após a conclusão de que o banheiro mais próximo está a uma viagem de ônibus de quarenta minutos de distância.

A barriga se remexe toda, faz uns ruídos constrangedores, os olhos se arregalam, viram e a boca só faz careta. A mensagem do corpo afeta também o rosto: essa cara de cu é apenas um reflexo involuntário de um organismo rebelde. Não é ódio, desprezo, arrogância, é só meu intestino grosso avisando que está trabalhando.

O ônibus chega. O cobrador dá um grito e pede para todo mundo se ajuntar. Alguém pergunta: “Mais?”. Rio sozinha pensando que ninguém ali nem imagina que uma bomba de bosta prestes a explodir embarcou junto com eles para essa aventura cotidiana que é ir para casa numa sexta-feira.

O balanço do coletivo piora tudo. Respiro fundo, rezo, conto cabritinhos. Sim, cabritinhos. Nessas horas todas as nossas manifestações mentais são sugestivas.

Desço do ônibus já com as chaves nas mãos. Acelero os passos. Subo as escadas do prédio no gás e corro para o banheiro.

Coitado dos vizinhos, o desespero foi tanto que deixei até a porta do apartamento aberta.


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“Temporada”: cotidiano, cidade e a descoberta da autonomia

Cena do filme

O filme brasileiro “Temporada”, dirigido e roteirizado por André Novais Oliveira, foi o grande premiado do Festival de Cinema de Brasília de 2018 e chegou ao mundo do streaming pela Netflix agora em abril de 2019. A obra é sobre o cotidiano nas cidades e aborda a realidade de uma maneira tocante e simples sem ignorar o peso de opressões.

Em mais uma excelente atuação, Grace Passô dá vida à personagem Juliana, uma mulher que se muda para Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) para assumir um cargo concursado de agente de combate à endemias. A partir dessa mudança, Juliana vê sua vida se transformar junto com seu novo cotidiano.

Do que é feita uma cidade?

O novo emprego da protagonista envolve circular a pé em um lugar totalmente novo, entrar na casa das pessoas, buscar focos de proliferação de mosquitos, escorpiões, abelhas e afins. Essa rotina nos apresenta a cidade como ela é: cheia de personagens diversos, óticas variadas, paisagens e também uma dose de simpatia, troca e diálogo.

A relação dela com seus colegas de trabalho se constrói a partir desse espaço dominado pelo cotidiano repleto de histórias, cafés na casa dos moradores visitados, humor e dificuldades financeiras.

Ela, pela sua função de cuidar da cidade e sua população, adentra espaços de intimidade, mexe nas tralhas das pessoas, lida com o conflito entre o público e o privado. Os colegas já experientes nesse trabalho, inicialmente, a guiam nisso e desde logo ensinam que esse cuidado que ela é obrigada a dar como profissional muitas vezes é retribuído voluntariamente.

A cidade em “Temporada” é abordada de uma maneira tocante por mostrar a construção das relações entre os agentes de combate à endemias e a população atendida. As fronteiras do público e do privado, ao serem diluídas, mostram, com delicadeza, a importância do banal na vida de cada um.

Autonomia, solidão e descoberta

Juliana é uma mulher casada, mas se muda para Contagem sozinha. Estar só em um lugar novo faz com que ela reflita sobre quem é, o que quer e o que teme. Ela, nesse contexto, entra em um processo de descoberta que envolve autonomia e identidade. Assim, a protagonista se permite reinventar a partir das novas experiências.

Há uma dualidade na trajetória de Juliana. Seu desenvolvimento como personagem perpassa tanto a solidão quanto a construção de novas relações. Ela percebe a importância de construir amizades, do apoio mútuo e da troca de companhia, mesmo que descompromissada, e descobre novas possibilidades diante disso.

Juliana, mulher negra (contém spoilers)

“Temporada” é, a primeira vista, sobre cotidiano, mas por meio dele trata também de questões como machismo, racismo e espaço urbano.

O abandono marital sofrido pela protagonista é uma amostra da realidade de muitas mulheres brasileiras, especialmente as negras. Sua solidão, que antes tinha um tempo certo para acabar, ganha um ar de permanência. Ela precisa se adaptar ao novo emprego, ao novo lar e agora também carrega essa mágoa, mas também uma possibilidade de recomeçar.

Toda essa situação junto a dificuldade de processá-la verbalmente faz a personagem buscar descobrir-se. Isso desemboca, quase sem querer, em um corte de cabelo significativo. Em uma ida ao centro de Belo Horizonte com um dos seus novos amigos, ela abandona as madeixas artificialmente lisas e assume o cabelo crespo. Mudança que serve para coroar essa trajetória de aceitação dessa nova Juliana e da nova vida que se desenha.

“Temporada” é sobre uma nova fase

Os diálogos naturais, com suas gírias e silêncios, junto das cenas quase poéticas com recortes das casas e da cidade constroem uma obra marcada pela sutileza e pela vontade de seguir a vida apesar dos pesares.

O dia a dia, muitas vezes encarado como um espaço temporal onde não aparenta ocorrer nada importante, é quando a vida acontece. A plasticidade dos destinos e de quem somos se desenrola, a maioria das vezes, na banalidade da vida real.


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Confira o trailer:

A outra

Imagem: Natalia Goncharova — Autumn Evening

Ontem encontrei uma outra Thaís Campolina numa sala só de Thaíses. A ocasião que nos uniu foi uma prova de concurso. Eu sabia que havia outras que dividiam comigo o mesmo prenome e pelo menos um dos meus sobrenomes, mas eu nunca antes tinha ficado cara a cara com uma outra Thaís Campolina.

Antes de entrar na sala, um funcionário da banca perguntou meu nome e foi conferir meus documentos. Descobrimos juntos a existência da Outra. Ela já estava sentada em alguma das carteiras próximas a reservada para mim.

Eu era só perguntas. Nenhuma sobre Direito Administrativo dessa vez. Queria saber tudo da Outra. Sentar frente a frente e iniciar um interrogatório longo sobre ela, sobre nós. Eu precisava nos diferenciar, mas também queria conversar sobre a curiosa experiência de ter um sobrenome que também nomeia uma raça de cavalos e a coincidência desse encontro de prenomes e sobrenomes naquela sala.

Nessa estranha entrevista, eu perguntaria se os parentes dela também a zombavam ligando seus momentos de grosseria ao seu sobrenome e compartilharia umas histórias minhas sobre ser uma Campolina. Pediria para ela me contar toda sua vida em torno dessas letras que temos em comum e, antes de ir embora, avisaria que a próxima indagação seria estranha e diria: “Alguma vez você imaginou que sua família se originou de centauros poderosos que foram amaldiçoados a se tornarem humanos ou cavalos?”

Na hora de assinar meu nome na folha do gabarito, voltei a estranhar a situação. Com uma outra Thaís Campolina logo ao lado, me senti menos eu. Parte do nome que eu assinei, estava sendo assinado por outra pessoa naquele exato momento. O formato das letras com certeza seria diferente. As digitais e número do CPF, do RG e da inscrição também não seriam os mesmos, mas ainda assim a sensação era de ter me duplicado.

Todas sentadas ao meu redor compartilhavam um nome, sala e uma prova para o cargo de auxiliar administrativo. Fazíamos exatamente a mesma prova. Sem distinção de cadernos de cores ou ordenação diferente. Provavelmente eu não era a única ali que dividia um sobrenome com outra colega, mas não duvido que, entre essas, eu era a única impressionada com isso. As Silvas e as Souzas, por exemplo, já devem estar acostumadas.

Algumas das vinte e tantas Thaíses com certeza eram originais de Belo Horizonte, outras, como eu, não. Provavelmente a maioria nasceu e cresceu em Minas Gerais, seja capital, interior ou região metropolitana. Não sei. Pelo menos uma deve ter nascido bem longe daqui, talvez no Ceará ou no Pará, e vindo para cá criança ou já crescida, vai saber. Também deve ter uma canhota e umas outras duas que também amam escrever.

Um terço da lista de candidatas Thaíses, eu não veria o rosto naquele dia, já que elas se inscreveram, mas não foram fazer a prova. Eu via seus assentos vagos e pensava em todas as outras Thaíses que estavam fora daquele espaço delimitado e controlado. E, aterrorizada, refletia quantas dessas também eram Campolina. O que elas faziam? O que queriam? Seriam elas apenas humanas como eu, a Outra e todo o restante daquela sala ou seriam bem melhores como a Outra e todo mundo menos eu podem ser?

Fiz minha prova. A Outra também. Não houve nenhuma conexão entre nós. Ela seguiu inacessível para mim e eu para ela. Definitivamente, éramos duas, apesar de dividirmos partes essenciais de nossas identidades. Temos inúmeras características desconhecidas pela outra, às vezes até por nós mesmas. Características que podem, por sinal, ser comuns entre nós ou a outras pessoas que possuem outros nomes. O que me faz eu é mais do que o nome e sobrenome que dividimos, mas eu ainda não sei direito dizer o que exatamente me faz uma pessoa diferente da Outra ou de qualquer uma.

Quando me perguntam quem eu sou, eu digo meu nome. As Outras também. Me criei com esse nome que outras pessoas também têm. Sei, com toda a certeza que uma consulta em dados públicos pode me fornecer, que tenho até uma xará completa. Sim, há uma outra Thaís Campolina Martins, alguém que divide comigo todos os sobrenomes que tenho e nasceu em Contagem ou Betim, já não me lembro. Temos em nossas certidões um nome completo em comum que marca a origem de nossas famílias, mesmo elas não sendo as mesmas. Não há parentesco, apesar de dividirmos algo tão familiar. Somos diferentes, mas compartilhamos o nome, os sobrenomes e talvez até mesmo alguns apelidos. Tatá, Thaisinha, Thathu e Campolaine. Nossos números de identificação e muitas histórias diferem, mas gosto de pensar que ela, como boa mineira, também ama pão de queijo e vez ou outra é tomada pelo desejo de comer doce de leite.

Tomara que ela nunca seja ré de um processo que, por erro do judiciário, pode acabar por me condenar.


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Hortifrúti

“Trinta ovos graúdos por dez reais” disse uma voz grave, rouca e mecânica. Me interessei, mas não parei por saber que teria que voltar para casa se comprasse algo e assim a caminhada acabaria ficando para outro dia.

Não dei nem três passos e ouvi “Temos batata, cebola, alho e manjericão”. “É, dá pra evitar uma ida ao supermercado”, pensei e fui procurar o carro de som. Não havia nenhum. “Maracujá baratinho”, a voz dizia enquanto eu andava pelo quarteirão sem achar qualquer estabelecimento aberto. Fui, então, atrás de alguma barraquinha, ambulante, ou qualquer coisa do tipo e não encontrei nem feirinha e nem vestígio de um homem com um megafone.

A voz agora anunciava batata baroa, ovos de codorna e tomatinhos por um preço nunca antes visto, mas eu já não queria mais saber. Segui o meu caminho, mas mesmo depois de três quarteirões, eu ainda ouvia o anúncio das promoções. E, de novo, não havia nada que indicasse de onde vinha o som ou onde estava a comida.

Tem quem comece a ouvir zumbidos um dia e passe a escutar esses sons o resto da vida. “Será esse o meu caso?”, cogitei enquanto refletia se os preço dos ovos nesses anúncios mentais continuaria o mesmo ou se modificaria por causa da inflação.

Corri para fugir desse pesadelo e, ao chegar na porta de casa, finalmente deixei de ouvir que as bananas pratas estavam no ponto.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroPorta. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Em busca

Foto de Yannis Behrakis. De acordo com a Reuters, o homem que se vê dentro do ônibus chegou à capital grega Atenas em uma embarcação que transportava 2.500 refugiados que desembarcaram na ilha de Lesbos.

um mar
de água
terra
dinheiro
e angústia
entre o aqui
e onde nasci

estrangeiro
meu idioma diz
e minha face
concorda

em fuga
minha história conta
em desespero
engasgo minha esperança
há um oficial da imigração
à minha espera


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Técnicas de sobrevivência

Desci do ônibus por volta das 23 horas. A rua estava deserta. A madrugada anterior tinha marcado incríveis 7ºC e hoje a noite prometia um novo recorde. As minhas chaves estavam apertadas entre meus dedos mais centrais, como sempre, e eu tentava me convencer que estava munida de um soco inglês com pontas capazes de cegar um estuprador desavisado.

Faltando um pouco mais de um quarteirão para chegar em casa, a rua ficou mais escura e um homem apareceu na esquina da frente e veio em minha direção. Eu não tinha para onde fugir. Ele falava comigo, mas o medo e o barulho do vento não me deixavam entender bem o que ele dizia.

“Quando ele abaixar a guarda, enfio a ponta da chave na bochecha dele com toda minha força, chuto as bolas do desgraçado e corro”, planejei.

Eu tinha algo capaz de rasgar a pele e força o suficiente para usar minha chave como arma graças aos meses de musculação. Ele estava cada vez mais próximo e meu corpo cada vez mais tenso. Íamos nos encontrar de frente em alguns metros, mas antes disso, ele parou e começou a gritar “Mariana, é você? Sou eu, Seu João, seu porteiro. A luz do poste queimou, fiquei preocupado e vim te buscar”.

Não foi nesse dia que tive que usar técnicas de sobrevivência para conseguir chegar em casa sã e salva.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroChave.


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Origamis de utopia

Imagem retirada da matéria “Barco de papel gigante é criado para transportar pessoas em um lado na Inglaterra”

Depois de tudo
sigo como se fosse em linha reta
mas a estrada parece a da serra de Ubatuba
1ª marcha
e freio
para sobreviver
no passar das curvas

Seguimos atrás de uma promessa
tão bonita
dessas construídas no papel
como um origami de palavras
cheia de dobras
de vírgulas
de praias paradisíacas

Escrevo, recorto
dobro a folha
e crio um barquinho
Ele segue nas águas
se encharca
até naufragar
O papel se foi
mas o que foi escrito ainda não

Tsuru ou avião
só existem se uma mão
dobrar, dobrar e dobrar
Diz a lenda que é preciso mil tsurus
para conseguir ter um desejo atendido
Quero mil pessoas
fazendo mil tsurus
porque almejam a mesmíssima coisa
viver o sonho fantástico
do justo, do belo, do igualitário

Sonhar é meu trabalho
não remunerado


Esse poema foi feito por causa do Desafio do Editor proposto pela Revista Subjetiva. Fui uma das autoras desafiadas a escrever sobre utopia em forma de poema, tendo as palavras “distopia”, “realidade” e futuro” como opcionais.


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sou dessa laia

sou da laia das mulheres odiosas
das que levantam a saia quando querem
e se metem onde não devem

sou da laia das que racham o silêncio
e não engolem palavras afiadas
nem respostas
nem histórias

sou da laia das tagarelas, matracas, faladeiras
das que não subestimam seus desejos
e enchem a boca para dizer sim e não

sou dessas com quem nem o diabo pode
da laia das degeneradas, corrompidas, decadentes,
menos mulher por achar que é gente

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