O Diário de Nisha: a Partição pelos olhos de uma menina

Além das notícias, muitas vezes bem superficiais, pouco conhecemos sobre as relações conflituosas entre Índia, Paquistão e a região de Caxemira. Ainda que essa animosidade entre povos, territórios e países possa colocar a vida de muitas pessoas em risco até hoje, as informações que chegam até a maioria de nós são insuficientes até mesmo para desenvolver empatia por qualquer das partes envolvidas. Tudo que acontece nessa região parece longe demais da gente. Embora nossa sociedade consiga se sensibilizar por tragédias e histórias tão distantes quanto, mas protagonizadas por outros personagens, esses geralmente europeus ou seus descendentes.

A verdade é que para sentir essa proximidade é preciso saber mais sobre o que se passa, de verdade, no cenário dessas histórias que, narradas de maneira tão distante pela mídia tradicional, parecem ser ficcionais de um jeito ruim. Falta, na maioria das vezes, conhecer o contexto e um pouco mais sobre os personagens. E, para isso acontecer, se faz necessário voltar ao passado e analisar os acontecimentos que influenciaram nos problemas atuais. Nesse caso, saber um pouco mais sobre a Partição se torna essencial, porque esse momento afetou e muito a história e o presente do sul da Ásia e tem relação direta com as consequências de anos de colonização inglesa.

A região onde se localiza hoje a Índia, o Paquistão e Bangladesh era uma só e passou 200 anos sob o domínio britânico, apesar das revoltas da população. A Partição aconteceu em 1947, após o fim da colonização, quando a Índia, maioria hindu, e o Paquistão, maioria muçulmana, se separaram e deram origem a dois países, a uma onda de violência e a um dos principais episódios de migração em massa da história mundial.

Estudiosos consideram que a interferência dos ingleses nas comunidades durante o processo de colonização e de descolonização desequilibrou a convivência entre os grupos que compunham aquele território, o que afetou como a população se via e percebia uns aos outros. Esse processo, junto com outras questões como as reações de lideranças, catalisou a animosidade entre hindus e muçulmanos durante o processo de criação dos dois estados soberanos em questão e deu origem a esse marco histórico carregado de dor, trauma e sangue.

Essas novas fronteiras, que agora já possuem mais de 70 anos de existência, ainda latejam. A Partição e o que aconteceu para e a partir dela afetou histórias individuais, familiares e de comunidades inteiras e isso reverbera desde então.

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“O Diário de Nisha”, obra de Veera Hiranandan, traduzida para o português por Débora Isidoro, é tão importante, ainda que seja uma obra de ficção, por contar uma história de uma família nesse contexto e possibilitar que os leitores das mais diversas idades entendam melhor esse momento histórico e as consequências dele na vida das pessoas.

Veera, que cresceu nos EUA, mas possui raízes em outras culturas, se inspirou na história da família de seu pai para escrever. Ele, com apenas nove anos, saiu de Mirpur Khas e foi para Jodhpur junto com seus familiares durante a Partição, assim como a protagonista do livro. A infância tímida e observadora e o fato de Veera ser filha de pai hindu e mãe judia, enquanto Nisha tem como pai um homem hindu e uma mãe muçulmana, são outras semelhanças entre personagem e autora.

O livro é narrado de forma epistolar por uma menina de 12 anos. As cartas que ela escreve no diário que ganhou de um empregado de sua família, que é muçulmano como sua mãe, são destinadas a ela. A mãe de Nisha, entretanto, não está viva. Ela faleceu faz tempo e as cartas que contam tanto sobre a Índia e o Paquistão são, principalmente, um meio que a personagem encontrou para se expressar e lidar com essa ausência.

Durante a trama, vemos as consequências dessa divisão de territórios e povos se infiltrarem na realidade de uma família e, nós, como leitores, acompanhamos cada momento com o coração apertado e conhecemos, pelo diário da protagonista e imaginação da autora, algo que vai muito além do conteúdo jornalístico, histórico ou mesmo enciclopédico sobre esse episódio.

A narrativa, além de um diário de uma pré-adolescente e um relato de um conflito, é também sobre a condição humana. Nisha não só passa por uma viagem migratória forçada e perigosa, ela lida com quem ela é e descobre mais sobre si, suas relações e vive um embate entre passado, representado pela mãe e suas raízes muçulmanas, e futuro, que é totalmente incerto, especialmente diante da Partição.

Nesse sentido, a culinária se transforma para a menina, tão calada e tímida, em um meio de refúgio, comunicação, conexão e manifestação de afeto. Aquela comida tão colorida, temperada e com raízes, aparentemente diversas, se transforma na voz dela perante as pessoas que a cercam. Os vários pratos que ela come e prepara nos dá meios para que imaginemos melhor o mundo que cerca Nisha e o que ela quer manter junto dela. Assim vemos chapatis, parathas, biryanis, rasmalais, sai bhajis e muitas outras iguarias comuns da região se tornarem uma espécie de novo lar e algo que representa as ligações daquela família.

Vale ressaltar que Amil, irmão da protagonista, é quase um oposto dela e ainda assim um de seus maiores companheiros. Ele não é quieto, fala bastante, não presta atenção nas aulas e prefere desenhar, enquanto ela, por outro lado, é estudiosa e fala pouquíssimo. Nisha admira seu irmão por ser quem é, ao menos na maior parte do tempo, e defende seus talentos. Amil sofre com as expectativas do pai médico, que a gente imediatamente pensa que se dá daquela forma por questões de gênero. Nesse sentido, acaba impossível não imaginar como seria a vida de Nisha se ela fosse como Amil.

“O Diário de Nisha” conta uma história que se passa sete décadas atrás, mas que contém valiosas lições para o mundo contemporâneo. Nós precisamos olhar para as migrações forçadas, para os refugiados um a um, pensar em Direitos Humanos, promover a dignidade da pessoa humana e também investigar, para evitar que aconteçam ou remediar seus efeitos, as origens desses deslocamentos, que hoje se manifestam, inclusive, por questões relacionadas ao colapso climático.


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Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

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Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

Bacurau: comunidade, rituais de morte e resistência

Obs: o texto contém alguns spoilers.

Cena do filme

Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é sobre muita coisa, inclusive sobre a morte, seus rituais e o impacto disso numa comunidade fictícia localizada no oeste pernambucano. Já nos primeiros minutos do filme, nos deparamos com um caminhão pipa que carrega água potável destruindo caixões de madeira caídos na estrada, um corpo e um caminhão que carrega caixões tombado e cercado de pessoas pegando a carga. A morte ronda Bacurau. Ela está próxima. Esse é o aviso e ele funciona. Tudo aquilo que se relaciona com a morte e seus símbolos é encarado pela nossa sociedade como um mau presságio, ainda que morrer seja parte indissociável da vida, e está ali nas primeiras cenas.

Na cidade, a morte já se faz presente. Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), 94 anos, está sendo velada em casa, com parentes, amigos e conhecidos ao redor. A morte está próxima, é triste, mas é encarada ali como um momento de despedida, homenagem e reforço de laços afetivos. Diferente do corpo anônimo na estrada, que é visto de maneira distante e triste simplesmente. Ainda que ambos sejam colocados como algo inevitável que faz parte da vida.

O ritual de morte de dona Carmelita é, apesar de tudo, tranquilo. Tirando a interferência de Domingas (Sônia Braga), outra idosa, que parece sentir muito aquela partida. Talvez a idade da falecida contribua para isso. Afinal, a velhice avança e a proximidade com a morte passa a ser lembrada o tempo todo pelas próprias pessoas e também por quem próximo. Talvez a personagem, com sua sabedoria, já tivesse preparado o terreno para aquilo. O bolo que Carmelita faz antes de morrer e Teresa (Bárbara Colen), sua neta, come com a irmã após o velório parece dizer isso. Ela deixa afeto para quem ainda ia chegar e não poderia ter a chance de se despedir dela em vida.

Quase toda a cidade participa da celebração/ritual de morte, nos mostrando que a falecida é uma espécie de matriarca e referência. Tem música cantada em coro junto com o violeiro da cidade que lidera o canto, tem caminhada, tem enterro e lenços brancos sendo balançados. Ali, todos, por mais diferentes que sejam, parecem dividir a saudade que sabem que vão ter. O luto é compartilhado.

Cena do filme

Comunidades não emergem do nada, elas são construídas a partir de laços, trocas, tempo e até mesmo conflitos. Dona Carmelita, junto com o museu de Bacurau, representa a união a partir desse compartilhamento e a história do grupo que forma aquela cidade e que começa a ser apresentado para o espectador a partir do velório. Há algo que une todos ali, a história de uma pessoa ou de uma população, e é isso que faz Bacurau existir. Rituais de morte, principalmente quando são vividos e preparados de forma coletiva, costumam ser uma forma de preservação da memória de alguém, de um contexto, de uma família e até de um povo e isso importa tanto para quem fica porque é uma forma de dar continuidade ao que foi partilhado.

Os falecimentos, no filme até então, se apresentam como parte da vida cotidiana. Acidentes acontecem, velhos morrem, mas nos detalhes se percebe que viver ali é resistir a um destino específico fruto de um abandono e de uma época. O Estado não se apresenta como deve, aquelas pessoas estão desamparadas. Restaram a elas apenas o apoio uma das outras. A morte, nesse tempo que a gente só sabe que é depois de agora, está explícita na tevê. Há execuções públicas no Vale do Anhangabaú. De fato, ela ronda Bacurau e também o país.

Em Bacurau, se luta contra a morte todos os dias. Seja pela falta de água potável, de remédios, de vacinas ou de comida. A morte morrida, essa causada pela falta ou pela natureza mesmo, também pode ser política, mas a morte matada que surge posteriormente deixa evidente o quanto aquele povo é considerado invisível. Quem nasce em Bacurau é gente, mas parece que só quem mora lá sabe disso.

Quando Teresa, frente ao caixão da avó, diz que dona Carmelita é a segunda morta que viu no dia, há um estranhamento que surge talvez do quanto aquilo parece cotidiano e ao mesmo tempo fora do lugar. Teresa vê, numa alucinação, o caixão da avó transbordar em água. A morte, por mais cotidiana que seja, parece estar mais presente do que deveria mesmo quando a gente ainda não conhece o que há de vir. A água transborda ali, mas a gente não sabe o que isso significa ou se é para significar algo. Seria a morte e o sangue dos que vão embora? Seria um símbolo para a vida e o afeto que cercam aquele corpo? Seriam lágrimas de quem sabe o que vai vir? Seria a água da represa voltando a jorrar?

Quando os corpos mortos por tiros começam a surgir, o mau presságio é confirmado. Numa cena, Pacote/Acácio (Thomás Aquino) encontra os cadáveres de dois de seus amigos, coloca-os dentro no carro sentados, ainda ensaguentados e sujos e, durante o trajeto, explode de raiva numa conversa sem respostas. Aquela perda não era esperada. Ele entende que ela poderia ser evitada, sente culpa por ter pedido a eles para irem até aquele lugar em que foram executados e a raiva, parte indissociável do luto, é a resposta dele para aquela dor.

A cidade chora seus mortos, ainda que em choque e se preparando para se proteger. Antes do encontro da cidade com os assassinos, os rituais de morte do menino, dos homens e da família acontecem junto a uma outra espécie de ritual, o de preparo para uma batalha. Enquanto um buraco, que a gente ainda não sabe para que serve ,é cavado, tem capoeira, tem reza, tem desespero, busca pela prostituição e também conexão e contato. A proximidade com a morte é o que guia ambos os rituais e cada um reage à sua maneira.

Bacurau quer viver em paz, mas sabe reagir para proteger os seus e manter a comunidade viva. As vestes sujas de sangue dos corpos mortos de sua população se tornam bandeiras de luta. A escola, cravejada de balas e lotada de gente escondida debaixo de carteiras, também reage. O museu também é um centro de resistência ao ataque. As engrenagens da cidade, com toda sua gente, inclusive aqueles que um dia já rejeitaram aquele povo e aquele lugar, se movimentam para impedir o massacre de seu povo.

Museu é lugar de história de gente que já morreu faz tempo e representa o passado. Escola é lugar de gente que acabou de chegar no mundo, local onde o futuro se desenha. Nenhum deles está protegido de quem quer ver sangue, como sabemos ao ler as notícias do Rio de Janeiro ou dos EUA, mas no filme esses lugares, considerados tão vulneráveis e que costumam ser alvos de tentativas de controle e descaso, se tornam focos de resistência por serem espaços em que se celebram e preservam a coletividade e a memória. Nesse sentido, faltou, na minha opinião, maior participação feminina na violência e menos hiperssexualização. Apesar de algumas personagens femininas serem parte ativa da resistência, usarem armas e se posicionarem, os protagonistas da ação — e, na prática, até do filme — são homens, ainda que Lunga (Silvero Pereira) não se encaixe bem nesse lugar masculino e a comunidade, substantivo feminino, seja o centro da história. As mulheres, que são colocadas pela obra como importantes mantenedoras da comunidade viva, ficam em segundo plano nessa hora, como se a elas coubesse o papel de serem lideradas ou buscarem sempre as vias do diálogo. Vide Teresa, essa que é filmada como protagonista, mas que o roteiro não a valoriza o suficiente, e Domingas.

As mortes em Bacurau servem como um lembrete de que o Brasil foi construído e ainda o é a partir da violência, mas essa violência foi perpetuada, permitida, ainda que não às claras, e alimentada por quem representa o Estado. E, no caso do Nordeste, como bem expõe o filme, incrementada por sudestinos e sulistas que se consideram superiores a quem vive nessa parte do Brasil, enquanto são tratados como menos gente por quem eles consideram próximos e parecidos com eles. Esse passado — e o nosso presente — repleto de um tipo sangue específico derramado precisa ser considerado sob o risco de vermos a resistência de quem quer simplesmente se manter vivo ser encarada como a real face da violência. Os bárbaros não são os que atacados buscam lutar pela vida e pela sua dignidade, ainda que alguns defendam que histórias como essas sejam contadas assim.

Cena do filme

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Duas chaves e um apartamento

Eu decidi me mudar. Depois de dez anos morando em repúblicas com gente de todo jeito, eu aluguei um apartamento para mim. Finalmente eu ia poder seguir minha vida sem pensar no que a mãe da Tati ia fazer quando descobrisse que a moça que estava sempre comigo era a minha namorada e parar de brigar todo dia antes mesmo de tomar café porque só tem um banheiro com chuveiro e quatro mulheres que saem na mesma hora para trabalhar.

Estava feliz. Cheguei a me sentir uma adulta de verdade. Apesar de ter precisado pedir meu pai para ser meu fiador. Depois deixei de me sentir assim. Quando decidi que era hora de me mudar, o maior motivo foi a minha vontade de ter um lugar em que pudesse ficar à vontade com a Juliana. Estávamos juntas há três anos e toda vez que eu visitava apartamentos para escolher minha futura moradia, eu pensava nela comigo naquele espaço. Avaliava se a cozinha era boa para a gente cozinhar em dupla, como gostamos, e julgava se naquele lugar daria para adotar um cão vira-lata caramelo que na minha cabeça se chamaria Megan por causa da Megan Rapinoe. Antes de analisar se o preço do aluguel valia a pena, eu olhava no Google a distância entre o apartamento e os nossos trabalhos e quais ônibus a gente teria que pegar para irmos onde sempre vamos. Tudo foi pensado em nós, mas eu me mudaria em três semanas e ainda não tinha falado para Juliana que eu queria que ela se mudasse comigo e a felicidade de dar esse passo tinha virado uma angústia sem fim.

Me sentia ridícula por não conseguir convidá-la para morar junto. Nunca me dei bem com palavras faladas. Elas sempre saíam da minha boca entrecortadas e artificiais. Eu tentei várias vezes. Desistia quando eu notava que ia parecer discurso de agradecimento do Oscar. Tudo soava forçado. Nos ensaios, eu parecia um robô programado a fazer um discurso amoroso. Por isso, pensei em escrever uma carta. Desisti. Achei coisa de covarde. Eu sou covarde, mas há níveis de covardia que até hoje eu me recuso a atingir.

Decidi comprar um cupom no Groupon e convidá-la para jantarmos num restaurante chique. No caminho, conferi se estava com minha chave do novo apartamento e uma cópia. Ambas já com chaveiro, porque eu sempre penso em tudo, mesmo antes de falar qualquer coisa. Queria entregar a dela já com o símbolo da casa Stark posto. Ela adora “As crônicas de Gelo e Fogo”. A minha, no entanto, já estava com o emblema da casa Lufa-Lufa, porque eu morro de preguiça do George Martin e sou lufa-lufana com orgulho.

Tudo estava pronto, perfeito até. Tinha que ser no jantar. Não dava mais pra fugir. Eu precisava falar. Não queria montar a casa sem ela saber que é algo nosso, sabe? Seria injusto com ela e até comigo.


Entrada, prato principal e sobremesa. O cupom nos permitia escolher várias opções. Peixe não. Salada de entrada não. Se bem que tem palmito. No fim das contas, fui no prato que levava um creme de batata baroa. Estava delicioso ou eu me lembro assim porque essa noite terminou muito bem.

“Será que a gente devia pedir um vinho?”, eu disse enquanto pensava que aquilo com certeza daria um ar mais romântico ao jantar, mesmo que a gente deixasse a taça praticamente intocada ao lado do prato. A verdade era que a vontade era de chamar o garçom e dizer: “Desce uma subzero aí, parça!”. Compartilhei esse pensamento com ela. Ela riu bastante. Pedimos chopp artesanal no lugar. “Acho que dá para falar que conseguimos achar um meio termo entre o vinho chique que deixa a gente com a língua estranha e a subzero de sempre”, ela disse.

Enquanto a gente comia, ela contava coisas engraçadas que aconteceram no trabalho dela. Tinha surgido um cara chamado Segunda-feira por lá. Todo mundo da repartição achou que ele ia requerer mudança de nome, mas ele só queria ver como ia o processo dele contra um banco. Também tinha uma outra história, mas eu não sei mais sobre o que era. Eu estava lá, sem prestar atenção, nervosa e pensando que tinha que ser naquela hora, que eu tinha tudo ao meu favor, mas, só para variar, eu não conseguia falar.

“Petit Gateau ou Crème Brûlée?”, Juliana disse totalmente formal quando acabamos de comer o prato principal. “O que diabos é Crème Brûlée? Como fala isso? Será que eu peço?”, reagi. Pedimos o creminho, mesmo sem saber o que era. Um pouco de coragem ao pedir o prato podia me ajudar a agir e fazer o convite oficial e, para falar a verdade, eu até acho que isso me ajudou no final das contas.

Eu tinha que abrir o jogo antes do jantar acabar, mas pensar na palavra oficial me deixou ainda mais desconfortável. Não queria soar como um ofício institucional. As sobremesas deviam chegar em minutos. O tempo estava acabando e eu estava ainda mais ansiosa com tudo aquilo. Decidi ir ao banheiro para enrolar, fazer um xixizinho e jogar uma água na cara.

“Que limpo! Nem parece que alguém mija aqui!”, pensei ao passar por aquela porta de madeira enorme e me deparar com azulejos claros, um vasinho de planta, uma pia bem decorada e cheirinho de lavanda. Tinha papel higiênico na cabine, infelizmente um luxo na maioria dos bares que frequentávamos na época, e ainda era um daqueles super macios e cheio de camadas! Sei que isso vai soar decadente, mas esse papel era uma novidade e tanto para minhas partes! Nessa hora, segurando a risada, decidi que tinha que voltar para mesa logo e fazer o convite nem que fosse do jeito mais tosco possível só para depois falar com a Juliana sobre ela precisar conhecer o banheiro antes de ir embora. Infelizmente toda a coragem me escapou quando me olhei no espelho ao lavar as mãos e me deparei com o meu olhar inseguro de sempre. Ali iniciei um breve monólogo encorajador e, para vergonha minha, em voz alta. Não lembro bem o que falei comigo, mas acho que foi algo assim: “Vai, Letícia, pense em outra coisa. Pense no papel higiênico macio. Pense na ousadia de pedir o creminho francês. Pense na Juliana e no cachorro que vocês vão adotar juntas. Pense em como vai ser bom acordar sempre ao lado dela. Pense que só falta suas palavras para fazer isso tudo acontecer. Respira fundo. Joga uma água na cara. Deixe vir espontaneamente. Pare de falar consigo mesma se olhando no espelho. Vai que alguém entra aqui e te vê falando sozinha desse jeito. Vão achar que você está metida com coach, Letícia! Vai para mesa agora! Vai logo!”

Lembro de ter voltado para a mesa morrendo de vergonha pensando que alguém podia ter tentado ir ao banheiro e se deparado comigo falando sozinha e decidido dar a meia volta porque era melhor ficar apertada do que lidar com uma possível doida, mas sei que logo me esqueci disso, porque assim que sentei de novo na cadeira, a Ju me perguntou sobre uma oficina literária que eu estava fazendo.

As aulas de escrita criativa foram divertidas, falei, e disparei a contar todos os detalhes: os exercícios feitos em aula, os deveres de casa, o medo do meu trabalho ser visto como ridículo, o incentivo que ouvi dos colegas e blablabla. No meio disso, me lembrei que a professora me aconselhou a criar cenas na hora de escrever e a parar de achar que preciso colocar todos os pingos nos is, deixar tudo explicadíssimo. Segundo ela, há formas mais fáceis de mostrar o que queremos. Criar cenas, por exemplo. Ao falar isso em voz alta, eu finalmente soube o que fazer e coloquei a minha chave na minha frente. Me levantei e posicionei a dela bem ao lado do pratinho de Crème Brûlée que ela saboreava. Parei ali, ao lado dela, olhei para aqueles olhos brilhantes e sorri. Ela me olhou de volta com uma expressão de alegria e surpresa. A risada dela é sempre deliciosa.

Só precisei falar “Vamos?”, logo depois de nos beijarmos, para ela dizer sim e o garçom que viu toda a cena começar a aplaudir e assim puxar as palmas das mesas ao nosso redor.


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Observação: Quando tentam censurar e intimidar quem publica, vende, lê e escreve literatura com presença de LGBTs, a gente vê o quanto é necessário escrever, publicar, ler e vender mais e mais livros com essa temática e/ou esses personagens.

Conservadores fanáticos surfam no medo das pessoas pelo que elas não conhecem para buscar votos ou apoio e é por isso que é tão importante espalhar essas histórias. Quanto mais elas forem lidas e conhecidas, menos terror vai dar para fazer com base nisso. É com o contato com histórias de amor, sexo e descoberta que envolvam casais de mulheres ou de homens que a sociedade vai, enfim, entender que não há o que temer.

A questão por trás dessas atitudes autoritárias não é “proteger as criancinhas” e nem uma mera questão de classificação indicativa ou qualquer outra desculpa. A intenção deles é cercear o direito das pessoas conhecerem narrativas que fujam da heteronormatividade e dos papéis tradicionais de homens e mulheres, ainda que elas sejam adequadas para crianças, e a gente não pode se esquecer disso. Para eles, mesmo as ingênuas mãos dadas podem ser vistas como um conteúdo perigoso, pornográfico, promíscuo, se forem um carinho entre pessoas do mesmo sexo. O problema deles não é só com o erótico e o sexual em si. Vai muito além. É homofobia, bifobia e lesbofobia.

Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


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Amora: amor, paixão e descoberta nas relações entre mulheres

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Quando falamos de histórias de amor, pensamos em príncipes e princesas, reis e rainhas, pais e mães, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Elizabeth e Mr. Darcy e vários outros casais, compostos por um homem e uma mulher, que protagonizam novelas, filmes, livros, peças de teatro, séries e até pinturas. Crescemos com essas referências de amor, paixão e relacionamento. Elas nos cercam desde muito jovens e, de alguma forma, nos ensinam sobre o mundo, nossa cultura e as relações e sentimentos humanos.

Nessa vasta lista de histórias de amor famosas, não há um casal composto somente por mulheres ou somente por homens. Não há nenhum relacionamento aberto, nenhum trisal, nada que fuja do casal homem e mulher “tradicional”. Mas há, em várias casos, ciúme doentio, controle obsessivo, um certo grau perseguição e insistências que, quando feitas por homens, são quase sempre colocadas como atos de romantismo. O que isso nos ensina sobre amor, paixão e relações humanas?

Com base nessas histórias que nos cercam, dá para gente pensar que homens têm tendência natural a trair e mulheres a se sacrificar e que o amor tem arranjos fixos e é uma exclusividade heterossexual e até branca. Afinal, quantos casais negros ou de brancos com negros vimos em filmes, novelas e livros? Muito poucos, não é mesmo? Só que amor não é isso, pelo menos não necessariamente, e o “natural” e o “comum” são construções culturais que influenciam como percebemos e vivemos o sentimento mais falado pela humanidade.

Em Amora, livro de contos escrito por Natalia Borges Polesso e premiado com o Jabuti, as histórias de amor contadas são várias, algumas também apresentam traições, términos e mágoas, outras são de descoberta, família, desafios, rotina e amor de uma vida toda. A ligação entre elas está no fato de todos os contos falarem sobre as relações amorosas entre mulheres ou na reação que essas relações causam ao redor das personagens ou nelas mesmas, ainda que não haja um relacionamento particular em destaque.

Os encontros, permanências e desencontros entre as personagens permitem que a autora discorra sobre a condição humana, lembrando a quem lê que a vida das mulheres que se relacionam com mulheres é comum como a dos heterossexuais que tanto vemos na literatura, no cinema e outras mídias. Com exceção, claro, das experiências específicas relacionadas à vivência da discriminação e preconceito, como o estupro corretivo, que é assunto de um único conto da obra.

A velhice, o medo de morrer, o cotidiano, os traumas de relacionamentos passados, os conflitos familiares, o cuidado, a dor da rejeição, a doença, o estranhamento, a insegurança, a descoberta, a vontade de fugir, o sexo e o amor perpassam pelos contos em diferentes formas, ritmos e estruturas, mostrando o quanto tudo isso e mais um pouco são questões comuns a todos nós, ao menos em algum nível.

Em “Vó, a senhora é lésbica?”, conto que foi tema de questão de Enem e de um curta-metragem, se une, numa mesma história, questões como a invisibilidade lésbica, idosas que se relacionam entre si, família, omissão e a descoberta, ainda cheia de receio, de uma personagem jovem sobre sua própria sexualidade. O amor e a paixão estão presentes, como também estariam numa história sobre relações heterossexuais, mas há questões que surgem na trama justamente porque apenas um formato específico de casal é encarado como correto em nossa sociedade.

A sexualidade lésbica ou bissexual é tratada de forma natural pela autora, que aborda algumas dificuldades específicas de quem vivencia o amor entre mulheres numa sociedade ainda tão preconceituosa, mas também conta histórias que não tratam necessariamente de lesbofobia.

Os relacionamentos abordados em Amora não são perfeitos. São humanos em tudo, inclusive nas falhas e nos prazeres, e às vezes reproduzem até certas lógicas problemáticas comuns ao padrão dos relacionamentos heterossexuais, como a de chamar outra mulher de vadia devido ao comportamento sexual que ela tem. Isso dá um ar muito verossímil e comum ao que é contado, mostrando o quão complexas são as relações humanas, independente da sexualidade dos envolvidos.

Durante a leitura, sentimos que todas aquelas narrações poderiam ser casos que chegam aos nossos ouvidos por uma das partes ativas da história e o poder desse livro está justamente nisso. Tudo ali parece próximo demais e é humano demais, apesar do mundo ainda insistir em excluir esses casais. Nessa obra, a heterossexualidade não é a dona do amor, da paixão e dos relacionamentos amorosos. Ela está em segundo plano. O que foge totalmente do que vemos cotidianamente quando falamos sobre isso. Diante desse contexto, a literatura de Amora também serve como uma ferramenta dialógica e de enfrentamento.


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Meu museu de papel

Em algum momento entre 24 de abril e 2 de setembro de 2007, eu estive com a escola no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Essa foi a primeira vez que visitei a cidade e um dos meus contatos mais esperados com a literatura, a palavra e a memória.

Lá eu ganhei uma caderneta que tem estampada uma foto da Clarice Lispector e, por incrível que pareça, eu ainda a uso. Mexer nela é muito estranho. É transitar por diversas épocas da minha vida. O passado distante, mas também aquele mais próximo, convergem no hoje, no agora.

Tem anotação de pontuações de jogos de baralho, protocolos, rascunho de trabalho de geografia, brainstorm para texto do Ativismo de Sofá, poemas que me contam sobre sofrimentos que nem lembro, lista de possíveis temas para meu TCC em Direito, trechos aleatórios de livros do Guimarães Rosa e até as anotações da palestra que dei dia 03/08 desse ano e do livro que li ontem.

É um caos, mas é um caos tão meu que é até bonito, principalmente porque toda vez que olho a capa desse caderno, eu me lembro dessa época em que eu descobria Clarice, Leminski, Caio Fernando, Carolina Maria de Jesus, Graciliano Ramos, Machado e o livro “26 poetas hoje”. Visitar esses papéis, enquanto eu escrevo o agora na folha da frente, é passear no museu particular de descobertas que me tornaram quem eu sou.


Nessa mesmíssima época, eu também descobria Fernanda Young, mas isso eu só me lembrei alguns dias depois de escrever esse texto, quando saiu nos jornais a notícia triste do falecimento da escritora. Fiz uma breve homenagem a ela e ao que ela me ensinou com sua obra em um texto que postei em minha página no Facebook na data. Confira aqui.


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“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

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Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


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“Olhos d’água”: histórias de sangue, dor, afeto e esperança

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É possível ver histórias em tudo: nos nascimentos, nas mortes, nas relações que vivemos, no cotidiano, na memória e até nos pensamentos, situações embaraçosas e objetos que nos circundam.

Somos contadores de história, querendo ou não, mesmo quando os relatos que saem de nós tratam sobre nossas próprias vidas e jamais se tornem um texto escrito. Narramos e justamente por isso gostamos tanto de ouvir e ler outras narrações. Narramos como um forma de nos colocar no mundo. Narramos porque precisamos. Conceição Evaristo sabe muito bem disso e por isso cunhou o termo escrevivência para definir a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, das experiências de vida e da cultura de seu povo, o negro. A narração, que é parte inegável da vida humana, ganha contornos políticos quando é feita para visibilizar histórias próximas que seguem ignoradas e se torna uma ferramenta poderosa de voz, preservação de memória, denúncia e humanização.

“Olhos d´água” reúne quinze histórias curtas de dor, sangue, vida, família, amor e morte. Nesse livro, a autora narra a fome, a miséria, a violência, o genocídio do povo negro e dá voz às mulheres negras e suas vivências. Sem esquecer de também mostrar os laços afetivos dos personagens, seus conflitos internos, reflexões e ancestralidade. Os contos escancaram o mundo de exclusão que muitos vivem e outros tantos se negam a ver e humaniza quem a sociedade a todo custo quer desumanizar com personagens humanos que sentem “dor-amor”, “coragem-desespero” e outros tantos sentimentos, entre eles, a esperança.

Conceição Evaristo narra acontecimentos brutais que poderiam ser realidade, mas não de um jeito jornalístico ou sensacionalista. A escrita da autora, muito poética, não explora os corpos vivos, mortos ou marcados para morrer de uma forma impessoal. Ela dá subjetividade, história e relações ao que é tratado comumente como estatística e faz com que aquilo soe como algo próximo ao leitor. Ao não explorar esses casos como meras manchetes, a escritora intensifica o incômodo e faz com que ele dure além do tempo de leitura do conto. Ela evidencia o que é brutal e as consequência da naturalização disso sem tornar seus personagens objetos. O conto “Maria”, “Ana Davenga” e o “Ei, Ardoca” são bons exemplos disso, porque nos apresentam histórias que facilmente estariam no jornal sendo contadas de uma outra forma.

Quando a autora usa palavras como mar-amor, flor-criança e viver-morrer, as contradições entre brutalidade e afeto ficam evidentes. Essa hifenização une muitas vezes antônimos, o que ajuda a compor a oposição entre o estilo de escrita da autora com o que é narrado, nos faz pensar no contraste entre essas histórias com as da elite branca e, principalmente, expõe como a vida é repleta de contradições.

Essa leveza do estilo de escrita, muito marcada pela oralidade, se contrapõe até mesmo com a linguagem dos personagens. Em “A gente combinamos de não morrer”, Bica conta que escreve desde sempre e relata um episódio que aconteceu com ela na escola quando tinha sete ou oito anos. Durante um exercício de separação de sílabas, ela pediu para ir ao quadro negro mostrar as palavras que tinha formado: pó, zoeira, maconha, craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde. O que a personagem escreve é uma amostra do mundo que a circunda e que Conceição expõe. Entre as tantas frases bonitas, bem feitas, cheias de sonoridade, há também a denúncia de qual é a linguagem que cerca as crianças negras que protagonizam essas histórias.

A sexualidade se faz presente na vida da maioria dos personagens criados pela escritora e nem todos são heterossexuais. Em “Luamanda”, a mulher que dá nome ao conto deseja e vive seu desejo sem se limitar, inclusive, a se relacionar somente com homens. Ela, ainda que já esteja um pouco mais velha, segue gostando de sexo e buscando viver histórias de amor. Já em “Beijo na face”, uma mulher vive uma história de amor secreta com outra mulher, enquanto está presa a um casamento infeliz e abusivo. Ainda que muitas personagens sofram violência misógina e não tenham acesso ao que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, elas ainda assim tentam se colocar como donas de suas próprias histórias.

O conto que dá nome ao livro e o inicia é movido pelas recordações de uma personagem que busca se lembrar da cor dos olhos da mãe que está distante. É delicado, poético e afetuoso, apesar das memórias narradas denunciarem as dificuldades passadas por essa família. Essa é uma das muitas histórias desse livro que trata sobre maternidade e ancestralidade. Iniciar com ela não é um mero acaso e a gente percebe bem isso quando chega ao fim da obra e se depara com o conto Ayoluwa.

É simbólico que o último conto seja sobre fazer brotar a força da esperança e que isso aconteça numa comunidade que ampara uma mulher em sua maternidade. Embora no caminho até essa história, a gente encontre a esperança surgindo, como acontece no “Beijo na face” e no “Quantos filhos Natalina teve?”, a violência, a exploração do trabalho, o abandono e a morte, principalmente dos homens, é o que se destaca.

Conceição Evaristo escreve sobre sobrevivência e sobre cotidiano, mas não sobre o cotidiano que é contato nas novelas e sim aquele que estampa de forma sensacionalista os jornais feitos de sangue. A autora, por meio da construção de personagens tão eles, tão gente, coloca essas histórias antes tão marginalizadas no centro do debate sem se amparar no senso comum racista e machista que vigora quando essas narrativas partem da visão dos brancos da elite. Com esse livro, a autora mineira transforma uma realidade marginalizada em literatura e denuncia as consequências da exclusão e da discriminação sem deixar morrer a esperança de que um dia isso seja diferente.

Se eu tivesse que definir esse livro numa frase, eu diria que ele é sobre a esperança de estancar o sangramento que o racismo causa.


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Direito adquirido

46 pessoas idosas atearam fogo em si mesmas com intenção de morrer em frente aos prédios públicos mais famosos de suas cidades somente nesse ano, dizem os jornais e as correntes nas redes sociais. A mídia só começou a divulgar depois que os números atingiram a terceira dezena. Antes disso acreditava-se que o melhor era omitir o que acontecia para não inspirar novos casos. Enquanto isso, a boataria circulava nas redes sociais desde a primeira ocorrência.

Tem quem acredite que esses atos são uma espécie de terrorismo, outros já acham que eles estão mais próximos de uma performance que conta com suicídios públicos e tem a finalidade de denunciar as condições físicas, psicológicas e financeiras de uma parcela da população, mas nenhum especialista sério teve coragem de cravar como verdade qualquer hipótese levantada para tentar explicar a natureza desses episódios cada vez mais frequentes. A maioria só diz que todos que esses eventos são um fenômeno multifatorial que envolve tudo o que conhecemos e também algo novo ainda invisível ao julgamento científico. Ou mesmo aos nossos olhos. Sejam eles estudados ou não.


O primeiro caso coletivo aconteceu hoje, apesar das proibições de manifestações políticas estarem vigentes desde muito antes da primeira vítima-algoz-suicida-terrorista surgir. Quatro mulheres e dois homens, todos com mais de setenta e cinco anos, como eu, se posicionaram em frente ao Ministério da Justiça e, completamente calados e sem cartazes, se queimaram. A polícia tentou impedir com a ajuda de bombeiros, mas não funcionou. Eles mal tinham começado a queimar quando foram apagados, mas ainda assim estavam mortos. Como todos os outros. Nenhum deles nunca sobrevivia.


540 idosos mortos nesses atos até então. Só com um número expressivo desses para o governo começar a olhar para os velhos. Agora, junto ao trabalho, eles recomendam o cárcere privado.


Eu não vou trabalhar até morrer. Consegui juntar documentos o suficiente para comprovar idade, tempo de contribuição e tudo mais e na próxima terça farei meu pedido oficial perante a Previdência Social. Tive sorte de ter trabalhado por muito tempo num lugar que repassava as contribuições dos empregados de fato. A maioria da minha geração não conseguiu nem isso.

A galera, no geral, tinha app como único chefe e se achava empreendedor por ter que arcar com todos os riscos e custos enquanto dividia seu pouco lucro com uns acionistas do Vale do Silício. Tudo na base do desespero. A autoenganação existia sim, não dá para ignorar, mas hoje vejo que era só uma forma da gente não ser obrigado a pensar na injustiça de tudo aquilo o tempo todo. Na verdade, ninguém conseguia ficar muito tempo empregado em qualquer lugar que assinava carteira e trabalhar com transporte de gente ou delivery era o que tinha. Mesmo quem tinha salário, quando precisava de uma grana extra, entrava nessas. Eu mesmo fiz muita corrida de bike alugada pela cidade.

Quem tinha emprego trabalhava como terceirizado nessas empresas rainhas em assédio moral e previsibilidade. Antes de você conseguir ser efetivado ou poder tirar férias ou algo do tipo, eles te despediam só para te contratarem de novo alguns meses depois e essa lógica se repetia até eles declararem falência e não pagarem ninguém. Três meses depois, se a gente tivesse sorte, arrumávamos um emprego numa pessoa jurídica irmã gêmea da antiga. Esse era o jogo e a pior surpresa a gente só veio descobrir uns 30 anos depois quando tentávamos nos aposentar e a Previdência nos avisava que não ia dar, porque não tinha contribuição paga em nosso nome durante aquele período todo. Perdi 2 anos de trabalho dessa forma, mas teve gente que perdeu 5, 10, 15 ou até mais.

Nenhuma surpresa que essas pessoas agora idosas e acabadas se incendeiem em atos públicos.


Quando finalmente vi a placa, mal posicionada e quase apagada pelo tempo, indicando a entrada do prédio, a lembrança de quando havia um tanto de gente querendo estudar para trabalhar como técnico ou analista do INSS me veio. Sentavam a bunda na cadeira e estudavam, estudavam e estudavam buscando o tão sonhando cargo público que logo passou a não valer mais nada. Eu mesmo tentei umas vezes, cheguei até a ser aprovado, mas nunca me chamaram. Deu ruim antes. Agora não tem mais quase ninguém aqui, nem como funcionário, nem como usuário. Não sei se aposentaram, se morreram, se queimaram, se adoeceram ou se simplesmente não há mais muito o que fazer.

Nem na época de ouro os prédios da Previdência Social eram bonitos. Nenhum palacete antigo todo reformado abrigou qualquer serviço da Seguridade Social na história, ao menos não aqui na minha cidade. Agora eles são ainda mais feios e nem ficam mais no centro.

Mesmo com o endereço em mãos e usando o Google Maps, foi difícil de encontrar. A portinha para o hall era bem pequena, quase invisível entre duas enormes lojas com nome estrangeiro. O saguão parecia imenso, como se alguém secretamente esperasse que um dia esse lugar voltaria a ser cheio, mas devia caber só umas quinze pessoas. O vazio faz tudo aparentar ser tão amplo.

Com meu envelope pardo e meu comprovante de agendamento em mãos, sentei numa das cadeiras, apertei um botão e esperei alguém aparecer. Quem apareceu não parecia saber mais como aposentar alguém.

Mostrei meus documentos: RG, CPF, Comprovante de Residência, PIS/PASEP, 48 carnês de recolhimento do INSS como contribuinte individual ou segurado facultativo, 17 holerites de pagamentos de salários do meu emprego atual e também meu Certificado de Reservista. Falei sobre o que eles comprovavam com veemência, mostrei conhecer os meus direitos e esperei acontecer alguma coisa. O homem na minha frente simplesmente se retirou sem falar qualquer coisa do procedimento e disse que ia chamar alguém. Antes de sumir por uma porta, ele enviou uma mensagem de voz para um de seus contatos pelo aplicativo de comunicação da moda da vez dizendo que tinha com ele ali um homem que se dizia aposentável. Ele falava como se eu só pudesse estar senil.

Durante a espera, eu passei os olhos ao redor de novo: poeira, cadeiras antigas demais, ar-condicionado extremamente barulhento e uma janela quebrada bem perto da entrada. Queria tentar entender melhor o meu desconforto com esse lugar. Não havia túmulos, mas ainda assim aquele vazio com seus computadores me lembrava um cemitério. Não havia macas, mas era inevitável pensar que entrei pela porta da frente em um hospital de pacientes terminais. Havia, na verdade, tantos indícios de abandono ali quanto no rosto de cada um dos idosos que ganharam manchetes no último ano.

Depois de pelo menos uns vinte minutos, o homem que me atendeu voltou sozinho. Ou ao menos foi isso que pensei. Ele sentou novamente bem na minha frente e deixou que o computador identificasse seu rosto, senha e digitais e perguntou novamente meu nome, minha data de nascimento e todos os meus números de identificação.

Enquanto dava minha resposta, vi uma cadeira estofada se arrastar e parar ao lado dele e ouvi uma voz feminina vir do vazio acima dela. Ela começou a me fazer perguntas, dar recomendações e explicar todo o processo. Eu ouvia bem o que ela dizia e a respondia quando era necessário. A dona da voz parecia realmente disposta a me ajudar, mas aos meus olhos a cadeira seguia vazia, apesar de vez ou outra eu ouvir o barulho de movimento de suas rodinhas.

Eu não era o único a ouvir o nada. A voz guiava o homem sobre protocolos, documentos e indicava até mesmo os códigos a serem utilizados para o meu caso. Ele obedecia e às vezes reclamava sobre como aquele software era antiquado. Eles, humano e nada, trabalhavam juntos, discutiam algumas coisas sobre meu pedido entre eles e vez ou outra comentavam sobre as últimas notícias do sistema ou do mundo comigo.

Eu suava frio, me sentia tonto e me preocupava mais com a possibilidade de ser um dos milhares inaposentáveis da minha geração do que com qualquer outra coisa. Era como se eu estivesse, enfim, pronto para morrer ou morrendo de fato, independente da resposta. Só que uma das mortes parecia ser bem mais dolorosa.

Foi um alívio ouvir que tudo indicava que eu tinha sim o direito de me aposentar e que, apesar de tudo, eu ia conseguir receber 64% do valor integral que me era devido. A Voz me avisou que a Carta de Concessão chegaria em mais ou menos um mês e me desejou boa sorte, boa vida.

Nessa hora, quando nós três nos levantávamos, eu vi um ser translúcido que parecia muito velho, muito mais velho que um dia eu seria, escorregar pela cadeira e ressurgir aos poucos enquanto flutuava em direção da porta. Ela comentava com o homem sobre eu provavelmente ser o último a conseguir me aposentar no país. Ela, morta, ainda estava trabalhando.

Por que?


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