“Falsa acusação”: a história de Marie é um exemplo do que é a cultura do estupro

Acervo pessoal — ilustrações feitas por mim — Adquira seu exemplar aqui.

Em 2011, durante um fórum sobre segurança e prevenção de crimes na Universidade de York, Toronto, um policial disse que as mulheres deviam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas de estupro. A fala causou incômodo e foi contestada publicamente através de um ato em repúdio que contou com a participação de 3 mil pessoas.

O caso, graças ao protesto, ganhou o mundo. Mulheres de cidades dos Estados Unidos, Holanda, Portugal, Argentina, Índia, Coréia do Sul, Israel, Colômbia, Chile, México e Brasil também foram às ruas para questionar a forma que os crimes sexuais são tratados pela polícia, pelo judiciário e pela sociedade.

Essa movimentação toda ganhou o nome de “SlutWalk” (“Marcha das Vadias” no Brasil) e se incorporou ao calendário de luta de diversos lugares. O nome e alguns slogans do movimento receberam críticas — bem válidas, por sinal — de muitas feministas, mas é inegável que essa pauta ter tido esse efeito viral diz muito sobre o mundo que vivemos e o quanto a cultura do estupro precisa ser discutida e combatida mundialmente.

Também em 2011, Marie recebeu a notícia de que seu estuprador tinha sido preso após dois anos, sete meses e uma semana desde sua denúncia. Denúncia que foi considerada falsa e fez ela ser processada pelo Estado.

Marie confundiu detalhes de seu relato. Marie reagiu ao estupro de forma diferente do que algumas pessoas esperavam. Marie foi intimidada pela polícia que deveria apoiá-la e interrogada com um método usado para obter confissões de criminosos e acabou voltando atrás sobre a acusação que tinha feito. Ela disse que mentiu, mas dias depois tentou confirmar a denúncia novamente. Não a ouviram e ela foi denunciada por falsa comunicação de crime. Todas as provas do caso dela foram descartadas por isso.

“Falsa acusação — uma história verdadeira” nasceu a partir de um artigo vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo investigativo e é um livro que aborda a cultura do estupro a partir da história de Marie e de outras vítimas de Marc O’Leary.

O trabalho feito pelos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong se divide em duas frentes: contar a história de Marie abordando o descaso que ela sofreu e os impactos disso em sua vida e expor como esse estuprador serial foi pego através de um trabalho investigativo e cooperativo liderado por duas detetives: Stacy Galbraith e Edna Hendershot.

Durante toda a obra, os autores apresentam dados, falas de especialistas e informações históricas sobre a abordagem do crime de estupro nos Estados Unidos.

Nossa sociedade, assim como a estadunidense, foi construída pautada no que homens falam sobre mulheres e, por muito tempo, o que eles disseram nos pintou como falsas, traiçoeiras, manipuladoras. Para eles, mentir sobre um estupro era o que vadias faziam após ceder à tentação do sexo. Séculos se passaram desde o primeiro homem a falar isso publicamente enquanto jurista nos EUA, mas a dúvida sobre quem é e o que quer a vítima de um estupro ainda prevalece quando a denúncia é feita.

Os jornalistas também relacionam a luta das mulheres com algumas conquistas básicas obtidas, enquanto expõem o quanto ainda é preciso mudar institucionalmente e culturalmente para que os números de subnotificação, processos e condenações se modifiquem.

Os mitos sobre estupro e sobre como mulheres agem e são na vida cotidiana ainda impactam em como elas são tratadas em todas as esferas de um processo legal e precisam cair por terra. Expor casos como o de Marie faz parte dessa luta, porque o silêncio que cerca a violência sexual torna as vítimas meras sombras e isso as coloca como um alvo fácil de desumanização.

“Tem algo estranho nesse caso” anda junto com o silenciamento histórico que acompanha as sobreviventes de estupro. Uma conversa franca sobre violência sexual é necessária para combater a manutenção desse imaginário popular sobre a vítima e o estuprador e a quebra do silêncio é parte desse processo de construção de uma nova visão sobre consentimento, violência, vítima e agressor.

A desumanização também está em assumir que todas as vítimas agirão de uma forma específica e duvidar de todas que não respondam ao que se espera conforme o senso comum. As estranhezas que podemos enxergar num relato fazem parte, muitas vezes, de como o cérebro reage ao trauma: o choque causado pela violência afeta a memória e isso dificulta que a narração do acontecido seja linear, por exemplo. As reações de distanciamento do fato podem ser apenas a forma que a pessoa encontrou para lidar com o que passou.

Marie foi estuprada por um desconhecido que invadiu sua casa, mas a maioria dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. Em casos em que a denúncia recai em ex-namorados, colegas e afins, a credibilidade de quem denuncia é ainda mais baixa. Isso nos faz pensar em como o problema é ainda maior do que o exposto em “Falsa acusação”.

A história contada no livro funciona como um alerta sobre o quanto a cultura do estupro está impregnada em nossa sociedade e como ela colabora para a revitimização das pessoas, especialmente mulheres, que sofreram violência sexual. Uma mensagem nada inovadora, ao menos no meio feminista, mas que precisa ser reiterada enquanto for necessário.

Seis anos separam a Marcha das Vadias do #MeToo e as discussões sobre culpabilização da vítima, consentimento e misoginia institucional seguem buscando uma transformação que virá a partir da informação, do debate e da contestação do machismo e da misoginia.

Que a gente quebre o silêncio e conteste o tratamento que nos é dado ao denunciar casos concretos ou falarmos sobre o assunto. Que a raiva que sentimos ao conhecer casos como o de Marie nos mova para a mudança.


Tradutora da obra: Daniela Belmiro.


Observação: A história do livro foi adaptada em formato de série pela Netflix. Unbelievable é o nome da obra audiovisual em questão.


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Roger Waters nos convida a resistir

Acervo pessoal

Roger Waters nos ofereceu um verdadeiro espetáculo sensorial na noite desse último domingo (21/10). Sons, imagens, luzes e até mesmo uns graves que fazem nossas entranhas vibrarem junto. No meio de tanta gente, nem o olfato é poupado. Pipoca, cigarro — legal e ilegal — e algum perfume bem doce, tudo isso bem misturado, invadem as narinas, enquanto a música nos faz sentir vivos como nunca.

Ao tirar os olhos do palco, o espetáculo também continua. Da arquibancada vejo gente, muita gente. São 51 mil pessoas e seus rostos e corpos juntos criam uma cena que me faz pensar no Mineirão como um quadro impressionista: quando olhamos o todo, vemos o público nas arquibancadas e pistas cheias, mas só enxergamos pontinhos manchados se tentamos focar.

Essa multidão canta junto clássicos como Time, Wish you are Here e Another Brick in the Wall, mas nessa última há uma disputa de narrativa. Quando as crianças tiram o uniforme de presidiário e exibem camisas com a palavra Resist estampada, a maioria grita #EleNão e, em oposição, parte do público diz #EleSim, Fora PT e Mito.

Acervo pessoal

As reações ao intervalo e suas palavras em vermelho variam: palmas, vaias e gritos de empolgação. Todos esperam a vez do “Resist neo fascism” para gritar ainda mais. Quando esse letreiro surge, alguns vaiam uma frase que deveria ser uma unanimidade.

O momento é marcado por mensagens ativistas. Temas como estado laico, guerras e a situação da Palestina são lembrados. Roger nos encoraja a resistir à poluição, ao Facebook e, principalmente, ao neofascismo. Na imagem dos neofascistas atuais, aquela que virou assunto nos jornais do país, o nome Bolsonaro continua tampado por uma tarja vermelha com a frase “ponto de vista político censurado” escrita.

Essa tarja diz mais até mesmo que a frase que estampava essa arte no primeiro show do artista no Brasil durante essa turnê. Ela é uma amostra de como funciona um Estado autoritário. Ela é, acima de tudo, um aviso, principalmente para aqueles que caíram no canto do neofascista tupiniquim. É assim que vai ser, Roger nos diz, nos alerta.

Diante do recente escândalo mundial que envolveu Cambridge Analytica e o uso de dados pessoais para influenciar as eleições estadunidenses, a crítica ao Facebook e ao Mark Zuckerberg merece uma atenção especial, principalmente após a denúncia de que empresários pagaram, sem qualquer declaração para a Justiça Eleitoral, para que empresas produzissem e espalhassem pelo Whatsapp conteúdo, muitas vezes mentiroso, para beneficiar Bolsonaro como candidato frente ao Fernando Haddad. Com isso, o músico evidencia a nova roupagem das ameaças que já conhecemos.

De repente, a capa de Animals começa a surgir a partir de uma imagem de destruição bem na nossa frente e vem Dogs. Depois um balão com um porco começa a circular. Nele está inscrito “Seja humano” em português e em inglês. Está na hora de Pigs.

Roger coloca uma máscara de porco e levanta um cartaz que diz que os porcos dominam o mundo. Depois ele arranca a máscara do rosto e dessa vez levanta outro cartaz. Esse diz ‘Fuck the pigs”.

Acervo pessoal

O telão zomba de Trump, enquanto a música acontece. As críticas ao atual presidente dos EUA são várias. Até suas falas problemáticas são expostas. Depois do letreiro “Trump é um porco” tomar conta de tudo, ouvimos uma máquina registradora. É a hora de Money. Agora vemos a imagem de diversos líderes políticos se sobreporem numa tela que exibe joias, notas, carros. Bush é um deles.

Com Us and Them, aparecem imagens de rostos diversos, manifestações e policiais posicionados. Em um close, ganha destaque um cartaz que diz Black Lives Matters, Love is Love, Women Rights are Human Rights e questões sobre imigrantes e meio ambiente.

O show continua. Mais uma capa de álbum aparece. Agora temos uma pirâmide de luz diante de nós. Cantamos, sorrimos, nos emocionamos mais uma vez e, após Comfortably Numb, a última música, agradecemos a experiência com todo um estádio gritando “Ole ole ole ole Roger Roger”.

Usando um telão e tecnologias visuais, o ex-baixista da banda Pink Floyd, apresenta algo muito além da música e mais uma vez faz um show que explora imagem, som, sensação, performance e manifesta o que está bem evidente em suas letras: é preciso ser mais humano e resistir ao neofascismo.


Observação: Existem muitas fotos incríveis desse show e de outros dessa turnê, mas eu optei por usar imagens que tirei como fã, porque esse texto é, sobretudo, uma narração de uma experiência.


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#EleNão: as mulheres fazem política e história

Belo Horizonte — Letícia Vianna/Bhaz

Antes, durante e depois

No final de semana anterior ao primeiro turno da eleição de 2018, milhares de pessoas tomaram as ruas de diversas cidades do país e do mundo para se manifestarem contra o presidenciável Jair Bolsonaro e tudo que ele representa.

O movimento #EleNão começou a partir da criação de um grupo no Facebook chamado “Mulheres contra Bolsonaro”, se tornou uma hashtag e, por fim, ocupou também as ruas.

O rápido crescimento do grupo chamou a atenção da mídia e isso atraiu a ira dos fãs do candidato. Através de ameaças e invasões hacker, eles tentaram calar as mulheres. O resultado disso foi a multiplicação de grupos como esse em toda a rede, ações virtuais e a organização da maior manifestação popular dirigida por mulheres na história do Brasil*.

Antes do grupo, a rejeição feminina ao candidato já aparecia nas pesquisas eleitorais. Depois dele, essa rejeição ganhou força, rostos e passou a fazer questão de marcar presença no debate político, apesar do medo de represálias.

Na semana que antecedeu a data marcada para a mobilização, se viu um certo alarmismo nos grupos das mulheres contra o candidato. As ameaças, os xingamentos, os atos pró Bolsonaro sendo marcados na mesma data e a, ainda recente, invasão do grupão, que agora contava com mais de 3 milhões de participantes, intimidava. Mas isso não foi o suficiente para esvaziar as manifestações e elas foram descritas pelas participantes como diversas, alegres, acolhedoras, emocionantes e cheias de vida.

“Se cuida, se cuida, se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista” é uma dessas músicas que sempre aparecem nos atos, mas que dessa vez me tocou diferente. Me senti acolhida, esperançosa e forte no meio de mulheres de lilás que entregavam flores de papel colorido com pétalas #EleNão e me emocionei ao ver tantas pessoas se abraçarem, se cumprimentarem, enquanto carregavam no peito adesivos e estampas que exibiam que estavam do meu lado na luta por um mundo mais igualitário, justo e digno. Mesmo sendo tão diferentes de mim em tantos aspectos.

As mulheres foram a maioria, como o esperado, e também as protagonistas. Idosas, jovens adultas, adolescentes e até crianças cantaram “hoje eu acordei e ecoava ele não, ele não, não, não”, segundo o ritmo da Bella Ciao, o hino antifascista italiano.

O ambiente ao meu redor celebrava o afeto, a pluralidade e a alegria e, após sentir isso tudo no peito, eu percebi que essa energia e essa esperança são essenciais para combater o medo e o autoritarismo. “Se não posso dançar, não é minha revolução” disse Emma Goldman e eu repito essa frase hoje porque sei que essa liberdade está em risco e a nossa luta é também uma celebração do mundo que queremos viver.

Belo Horizonte — Letícia Vianna/Bhaz

#EleNão, #ElasSim

Tudo isso me fez pensar em como as mulheres continuam uma minoria na política representativa, mas ganham cada vez mais espaço nas ruas e nas redes.

Nos últimos anos, temos sido protagonistas da maior parte das mobilizações do país, mas ainda assim continuamos vendo mulheres serem usadas como laranjas de partidos políticos que precisam de candidaturas como essas para cumprirem a cota feminina e um desdém pelas opiniões políticas das mulheres.

Durante o período de mobilização do #EleNão, por exemplo, vi muitos homens, inclusive alguns que se posicionam contra o fascismo, tratando as mulheres envolvidas nesse movimento com paternalismo. Alguns chegaram até mesmo a desprezar a importância da organização das mulheres como fato político, acusaram as participantes de seguir modismos e tentaram tutelar a massa feminina insatisfeita. Outros preferiram insinuar que a iniciativa do grupo e dos atos “Mulheres contra o Bolsonaro” partiu de homens como os candidatos Haddad, Ciro e até Alckmin. Todos esses expuseram o quanto têm dificuldades reais de verem mulheres como agentes de qualquer coisa.

Na mesma esteira, li também defensores do #EleNão falarem que essa seria a primeira hashtag a entrar nos livros de história do Brasil. Uma frase como essa parece um elogio e até seria se não tivéssemos diversos exemplos anteriores de mobilizações femininas de grande impacto.

As vozes femininas — e, principalmente, feministas — ecoaram no Brasil e no mundo nos últimos anos**. Vimos a primavera feminista florescer no Brasil com a hashtag #MulheresContraCunha, por exemplo. Essa mobilização merece um destaque especial por ter também o caráter de rejeição ao fato do cara ser misógino, LGBTfóbico e péssimo enquanto político. Um dos motivadores desse repúdio coletivo foram os projetos de lei de autoria de Cunha e outros deputados que buscavam dificultar o direito ao aborto legal para vítimas de estupro. Um deles, o que tentava revogar a Lei 12.845, tem como um dos autores Jair Bolsonaro.

Além do #ForaCunha feminino, vimos também mulheres compartilharem relatos de violência sexual com as hashtags #PrimeiroAssedio, #MexeuComUmaMexeuComTodas, #ChegaDeFiufiu, #MeToo e outras e provocarem um debate público sobre a misoginia, estupro, assédio, culpabilização da vítima e silêncio.

Sei que muitos podem dizer que esse fenômeno transformador da quebra do silêncio sobre violência sexual não tem caráter histórico e eu rebato dizendo: “só porque trata de uma questão que atinge principalmente as mulheres não seria importante o suficiente para figurar em um livro de história?”.

Esse esquecimento*** de mobilizações femininas e a surpresa de alguns em ver um fato político ser capitaneado por mulheres diz muito sobre o porquê de estarmos nas ruas, nas redes e nos bairros, mas ainda custarmos atingir 30% de candidaturas femininas e sermos eleitas.

As mulheres se encontram como protagonistas quando a mobilização parte delas. Fora isso, elas precisam competir por espaço entre os que se colocam como os detentores por direito dele. Por isso, dizer #EleNão junto com tantas mulheres das mais diferentes vertentes políticas significa também dizer que a política é um espaço feminino.

Quando tomamos as ruas porque consideramos um candidato misógino, LGBTfóbico, racista, autoritário, agressivo e incapaz, a gente incomoda todo um sistema que nos coloca como subalternas aos nossos maridos, pais e namorados. Esse incômodo acontece porque ainda é considerado subversivo uma mulher ter ideias próprias e defendê-las através de organização e resistência.

Rio de Janeiro — SILVIA IZQUIERDO AP

*Um levantamento feito por um usuário do Facebook chamado Jonas Medeiros mostrou que 366 cidades marcaram atos. Três deles foram impedidos de acontecer pela justiça.

**O feminismo negro ganhou muito espaço nesses anos também e mobilizações contra o genocídio do povo negro chamaram atenção. #OndeEstáAmarildo, #QuemMatouMarielleFranco? e #LiberdadeParaRafaelBraga são alguns exemplos de movimentações nesse viés.

***A presença das mulheres na política não é algo recente e o fenômeno de invisibilidade e esquecimento relacionados com essa seara também não. Dona Leopoldina, conhecida como esposa de D. Pedro I, por exemplo, esteve envolvida na articulação da independência do país, apesar de não ser lembrada por isso. Em diversos movimentos da história, nós tomamos frente de movimentos que são contados em muitos livros de forma que dá a entender que foram feitos por homens. Alguns exemplos são: Revolução Francesa, Revolução Russa e Comuna de Paris. Não saber sobre o passado político das mulheres contribui para os movimentos das mulheres serem vistos como uma grande novidade ainda hoje. Para quem cresce sem conhecer, por exemplo, as sufragistas, o ativismo político feminino parece fora do lugar. O apagamento do nosso passado contribui para que os movimentos femininos de hoje sofram com tanto descrédito.

O feminino na história do Brasil e a feminilidade esperada

Arquivo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

As aulas de história, por mais interessantes que fossem, sempre me pareceram falar de um mundo que não era o meu. Os nomes lembrados nos livros didáticos eram sempre masculinos, brancos e ricos. As mulheres eram ausentes. D. Leopoldina, Carlota Joaquina e Princesa Isabel foram as poucas que apareceram nomeadas nas salas de aula que frequentei e hoje sei que suas participações foram bem diferentes das narradas ali e as impressões que temos delas se relacionam com os ideias de feminilidade das pessoas que escreveram a história que temos acesso.

A minha sensação enquanto estudante era de que faltava alguma coisa. Fora do material escolar, eu via mulheres sendo participativas, ousadas, resistindo ao que era dito que elas podiam ou não fazer. Não conseguia ver como possível que as mulheres tivessem passado tanto tempo da história sem participar diretamente dela.

Esse incômodo me provocou e me fez buscar saber mais sobre onde elas estavam e quem elas foram. Cheguei ao feminismo por isso e posso dizer que elas sempre estiveram ali, mas foram apagadas ou tiveram seus papéis diminuídos para caberem no estereótipo de feminilidade vigente na época e, em grande parte, ativo também nos tempos atuais.

Paulo Rezzutti, em “Mulheres do Brasil — a história não contada”, fala sobre essa invisibilidade e apresenta para o leitor mais de 250 nomes femininos e suas trajetórias. Com essa obra, ele desmistifica a ideia de que as mulheres ficaram passivas enquanto viam a história acontecer.

Diferente dos dicionários de mulheres que reúnem minibiografias de notáveis, Paulo tece um retrato dos efeitos do patriarcado na vida das mulheres de várias épocas sem tentar esgotar nomes e assuntos. Ele apresenta os feitos, os entraves e as consequências sociais que atingiam as mulheres que agiam fora do que era esperado e assim revela o panorama da moral patriarcal de outros tempos, enquanto faz questão de lembrar também de mulheres recentes como Marielle Franco e Maria da Penha e mostrar o impacto das opressões também em suas trajetórias.

Em seu texto, o autor cita diversas historiadoras, compartilha histórias de mulheres célebres e também das que são conhecidas só por quem se debruça na temática. Expõe, por exemplo, que o apagamento sistemático que atingiu as mulheres é ainda mais intenso com as negras e indígenas por causa do racismo. Faltam ainda mais dados sobre elas. O silêncio documental sobre essas mulheres significa que o não contato é mais do que feminino. Ele é marcado também por outras opressões.

Conhecemos com a obra histórias individuais que se enlaçam e revelam o controle exercido através do machismo na vida de cada uma delas e das anônimas de suas épocas. Esse controle as afastava do espaço público, mas tornavam suas vidas públicas. Qualquer desvio era o suficiente para colocá-las como foco de um falatório que tinha como consequência o isolamento, o abandono familiar e até mesmo internações em manicômios. Muitas das que são lembradas na obra foram justamente as que sofreram por se portarem como pessoas, não acessórios. Chiquinha Gonzaga, Julieta de França, Gabrielle Leuzinger Masset, Yde Schloenbach Blumenschein (Colombina) e Luz del Fuego foram algumas delas.

A boa mulher sempre foi a boa esposa, a boa mãe e a boa cristã, desde que não fosse religiosa demais. Ela podia participar da vida pública somente através de ações de caridade. Qualquer coisa fora desses papéis era uma transgressão e a maioria das que foram lembradas nessa obra figuram nela por terem buscado um mínimo de autonomia.

“Mulheres do Brasil — a história não contada” humaniza o feminino. Paulo Rezzutti nos apresenta histórias de heroínas, vilãs, artistas, escritoras, mecenas, transgressoras e mulheres com poder e dinheiro e torna público o fato de que somos diferentes entre nós desde sempre e capazes de atuar nas mais diversas áreas, mesmo quando elas nos são proibidas.

Esse livro é um trabalho que resgata a existência do feminino no meio de um mundo narrado por homens e nos faz pensar sobre o presente e o futuro. A política, espaço considerado masculino, ainda é um desafio para nós. Temos poucas mulheres no poder e lutamos hoje contra o machismo e a misoginia nesse meio, principalmente quando ele se manifesta em projetos políticos autoritários que ganham cada vez mais espaço.

Conhecer o passado nos ajuda a entender os desafios de hoje e a leitura de um livro como esse nos permite perceber melhor o valor da resistência dos movimentos de mulheres em todas as áreas, principalmente daqueles que destacam a importância da memória dessa história constantemente invisibilizada.

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Casa limpa

A casa cheira a desinfetante. O cheiro é tão forte e a sala está tão organizada que nem dá para imaginar que ontem Flávio ainda engordurava as paredes, os azulejos e os demais móveis com suas mãos sujas de frango assado e cerveja, enquanto eu cozinhava e servia seus amigos.

O segredo para um chão tão limpo envolve mais que hábito e uma lista de produtos e marcas, abrange também ter uma motivação que torne aquilo uma tarefa que você faça com prazer. Tornar esse espaço um novo lar é o que me incentiva agora.

Daqui uns dias as coisas estarão fora do lugar e a casa vai aparentar ser habitada de novo, dessa vez só por mim, esposa desesperada pela volta do amado, e todo mundo, inclusive eu, vai descobrir que Flávio foi encontrado morto dentro de seu carro no extremo oposto da cidade após 30 horas de busca.

Vão me trazer a notícia em casa e eu vou pedir para sentar, fazer a policial me trazer um copo de água com açúcar e, aos prantos, contar mais uma vez que me sinto culpada, porque ele saiu bêbado atrás dos amigos após uma breve discussão comigo.

Arrasada, vou dizer que eu não consigo imaginar alguém que quisesse matá-lo. “Ele ficava meio valentão quando bebia, deve ter caçado briga com quem não devia”, eu direi, enquanto deixo as marcas do meu pescoço falarem por si mesmas.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroSegredo. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Hortifrúti

“Trinta ovos graúdos por dez reais” disse uma voz grave, rouca e mecânica. Me interessei, mas não parei por saber que teria que voltar para casa se comprasse algo e assim a caminhada acabaria ficando para outro dia.

Não dei nem três passos e ouvi “Temos batata, cebola, alho e manjericão”. “É, dá pra evitar uma ida ao supermercado”, pensei e fui procurar o carro de som. Não havia nenhum. “Maracujá baratinho”, a voz dizia enquanto eu andava pelo quarteirão sem achar qualquer estabelecimento aberto. Fui, então, atrás de alguma barraquinha, ambulante, ou qualquer coisa do tipo e não encontrei nem feirinha e nem vestígio de um homem com um megafone.

A voz agora anunciava batata baroa, ovos de codorna e tomatinhos por um preço nunca antes visto, mas eu já não queria mais saber. Segui o meu caminho, mas mesmo depois de três quarteirões, eu ainda ouvia o anúncio das promoções. E, de novo, não havia nada que indicasse de onde vinha o som ou onde estava a comida.

Tem quem comece a ouvir zumbidos um dia e passe a escutar esses sons o resto da vida. “Será esse o meu caso?”, cogitei enquanto refletia se os preço dos ovos nesses anúncios mentais continuaria o mesmo ou se modificaria por causa da inflação.

Corri para fugir desse pesadelo e, ao chegar na porta de casa, finalmente deixei de ouvir que as bananas pratas estavam no ponto.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroPorta. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Uma sexta excepcional

Por Thaís Campolina

Toda sexta tem trânsito, correria e gente desesperada para chegar logo em seu destino. Dá quatro horas da tarde e as ruas se tornam impraticáveis. É muita gente, é muito carro e todos os ônibus estão lotados.

Nessa última, o caos foi especial e começou até mais cedo. O Brasil tinha se classificado para as quartas da Copa do Mundo e jogaria contra a Bélgica às 15 horas. Às 12:35, uma mulher loira entrou no ônibus certa de que não havia risco de perder nem um minuto do jogo. A certeza logo passou.

Pela janela do ônibus, se via gente vestida de verde e amarelo e uma quantidade absurda de carros, ônibus e até mesmo caminhões parados. Alguns com bandeirinhas, mas a maioria sem. Trânsito igual a esse só em véspera de feriado prolongado e com chuva.

Logo os passageiros começaram a gritar para o motorista acelerar, e o homem, aflito, respondia que pra isso teria que passar em cima da carraiada toda. A trocadora tentou tranquilizar as pessoas ao seu redor e comentou sobre a possibilidade de ouvir o jogo pela rádio. Não adiantou nada. A essa altura, o que apertava mesmo era a fome. O receio maior não era mais perder algum lance e sim aparecer no churrasco da família bem naquela janela de tempo em que não há carne nenhuma na churrasqueira.

Para distrair, as pessoas começaram a organizar um bolão e tentar antever placares. Era gente demais e chutes considerados possíveis de menos, por isso o papo acabou se transformando em um bolão de quando o ônibus chegaria no bairro.

Uma mulher, vestida com uma blusa que falava em Hexa 2014, disse que chegaríamos no final do primeiro tempo e que teríamos tomado dois gols. O que foi a hipótese mais pessimista feita pelo grupo e a mais próxima do placar final. Um cara de terno e gravata estimou que chegaríamos aos vinte minutos e veríamos o primeiro gol do Brasil assim que sentássemos no sofá. Todos que acompanhavam esse blablabla vibraram com essa.

Uma jovem de tranças coloridas consultou um aplicativo no celular e afirmou categoricamente que em 25 minutos estaríamos na rua principal do bairro. Uma idosa, toda vestida de amarelo e com um semblante muito parecido com o do Canarinho Pistola, sentenciou contra a estimativa feita pelo Maps e veio com o papo de que o ônibus chegaria no ponto final bem na hora do hino nacional.

No fim das contas, ninguém acertou nem placar final e nem horário de chegada, mas todos viram o sonho do Hexa 2018 acabar com dois gols para a Bélgica ainda no primeiro tempo, sendo um deles gol contra. Quando o Brasil marcou um, a expectativa da virada preencheu corações, casas e bairros, mas toda essa esperança não foi capaz de evitar a desclassificação.

Ainda assim, as vuvuzelas tocaram, as pessoas comeram e mais cerveja foi colocada no congelador. Fora o meio horário e a temática verde & amarela, foi quase igual toda sexta-feira.


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Calamity Games: uma editora de boardgames feita por mulheres

Descobri a Calamity Games através do financiamento coletivo dos jogos Metro e Merlin no Catarse. Ao ler sobre o projeto, notei que as pessoas por trás dele eram duas mulheres, Paula Soares e Marina Mattos. Não é todo dia que posso unir minha veia “valorize as minas” com meu hobbie preferido, por isso, aproveitei para fazer essa entrevista.

O que é a Calamity Games? Como surgiu? Qual a origem do nome?

A Calamity Games é uma editora de board games, localizada em Belo Horizonte, que publica jogos para o mercado nacional. Somos grandes amantes de board games e achamos que esse mercado seria um bom investimento. Nosso principal objetivo é fornecer aos nossos clientes o que gostaríamos de receber como consumidores.

As investidoras e empreendedoras da empresa são todas mulheres e procuramos uma inspiração feminina que nos representasse. Foi assim que chegamos à personagem da Calamity Jane, uma mulher pioneira e destemida da História do faroeste americano. Ela fez de tudo um pouco, foi generosa e desafiadora e achamos que seria uma boa representação nossa e para o que queremos fazer: causar calamidade no mercado.

Os jogos Metrô e Merlin estão no catarse numa campanha de financiamento coletivo flexível feita por vocês. Vocês podem falar um pouco sobre os jogos, a escolha pelo financiamento coletivo e as metas estendidas?

O Merlin foi um grande sucesso na feira Spiel de Essen (Alemanha) no ano passado e achamos que seria um ótimo jogo de peso para trazermos. É um jogo pra jogadores um pouco mais experientes, não necessariamente pela complexidade, mas pela quantidade de possibilidades de ações e estratégias. Apesar disso é um jogo para a família e pode ser jogado com crianças de até 10 anos.

O Metro, em contrapartida, é um jogo que foi renovado pela Queen cuja caixa básica já vem com 4 expansões. É um jogo bem leve e ideal para iniciantes. Você consegue explicar o jogo em 10 minutos e as partidas são curtas. Também é um jogo que comporta até 6 pessoas, enquanto a maioria dos jogos é para até 4 jogadores. Uma das expansões faz o jogo mudar completamente, e adiciona um grau de complexidade maior que os jogadores experientes vão gostar e os iniciantes podem começar a evoluir. As expansões também são combináveis o que cria muitas possibilidades de jogos.

Escolhemos o financiamento coletivo exatamente por sermos uma empresa iniciante. Achamos que com isso ganharíamos visibilidade, credibilidade oferecendo segurança aos nossos clientes, em comparação com uma pré-venda realizada diretamente no nosso site, por exemplo. Vendendo diretamente ao cliente também poderíamos oferecer preços melhores e atrair mais pessoas a experimentarem os jogos.

Como os jogos já estão prontos e não são protótipos, não podemos oferecer melhorias nas metas estendidas, por isso achamos uma boa oportunidade pra oferecer alguns acessórios e fidelizar nossos clientes.

E os próximos planos da Calamity Games? Dá pra adiantar alguma coisa?

Bem, ainda queremos manter o suspense sobre os lançamentos, principalmente porque só queremos anunciar quando estiver absolutamente certo que o jogo vem. De preferência, só faremos o anúncio quando já estiver em produção.

Temos uma parceria sólida com a Queen Games e pretendemos trazer o máximo de jogos deles possível. Mas também queremos trazer jogos de outras editoras menos conhecidas. Já temos um jogo de uma estreante holandesa, um jogo consagrado de uma editora americana e temos contato com uma editora indonésia. Achamos que os jogos são uma experiência cultural e queremos jogos bem variados e que façam uso de diferentes habilidades.

O jogos de tabuleiro agradam vocês por quais motivos?

Paula: Acho que pra mim é uma atividade de lazer, um hobbie, que promove a interação com pessoas reais, a competição de uma forma saudável e desenvolve habilidades e raciocínio de maneira divertida.

Marina: Os jogos de tabuleiro hoje em dia para mim são a minha maior conexão com os meus amigos no Brasil, o que faz essa atividade 10 vezes mais especial. Mas como a Paula disse, gosto da forma como eles são uma forma divertida de desenvolver o raciocínio e estratégia.

Quando vocês começaram a jogar? Teve algum jogo que funcionou como um divisor de águas?

Paula: Acho que jogos modernos comecei no início da década de 2000. A gente começou vendo programas de jogos na internet e importando o que dava. Acho que o divisor de águas não foi um jogo, mas quando começaram a surgir editoras fazendo versões nacionais dos jogos. Aí o acesso cresceu exponencialmente.

Marina: Eu comecei a jogar com a Paula e os nossos amigos! Eles me introduziram na jogatina e daí meu interesse foi crescendo dia após dia. Mas o jogo que me fez ver que eu gostava mesmo desse hobby foi o Catan que é pra mim o clássico dos clássicos.

Marina e Paula, as amigas à frente da Calamity

Quais são os jogos preferidos de vocês hoje?

Marina: Pra mim ainda é o Catan, pois é um jogo que agrada todo mundo e é bom para se aprender o que são os jogos modernos, afinal, não é à toa que está aí há muitos anos. Além disso, estou sempre aberta a testar os jogos infantis e sou apaixonada por jogos de zumbi.

Paula: Nossa, acho que meus favoritos vão sempre mudando. Um que me apaixonei recentemente foi o Alquimistas. É um jogo dedução com a temática de alquimia, que eu adoro. Você tem que descobrir a natureza das plantas usadas pras poções. Mas acho que Lords of Waterdeep é um do qual nunca canso.

Hoje há aplicativos de jogos muito conhecidos. De cabeça, me lembro do Ticket to Ride, Black Stories e Tsuro. Vocês gostam dessa alternativa?

Acho que aplicativos são bons para ajudar as pessoas a conhecerem os jogos. Falar de um jogo e jogar são coisas bem diferentes e nem sempre existe acesso ao jogo para uma partida de experiência. Então através do aplicativo você tem acesso à mecânica geral do jogo e pode ver se gosta ou não. Mas acho que a substituição do jogo analógico pelo virtual, mata metade do propósito dos jogos de tabuleiro. A ideia é realmente sair do virtual, jogar e interagir com pessoas de maneira física. Mover as peças, olhar a cara do adversário, rir, fazer piada. A experiência de um jogo analógico é muito mais completa.

Um dos jogos que estamos trazendo, o Metro, tem uma versão de aplicativo bem legal. Quem quiser conhecer, fica aí o convite.

Curtem jogos online?

Marina: Eu adoro jogar Playstation e jogo todo domingo online com um amigo. No momento estou jogando Life is Strange que é um jogo sobre uma estudante de fotografia que descobre possuir a habilidade de voltar no tempo em qualquer momento, fazendo com que cada escolha sua crie um efeito borboleta; uma premissa muito interessante.

Paula: Eu gosto de MMORPG. Joguei muito WOW. Mas sou uma jogadora casual, mesmo jogando há muito tempo. Gosto da história, do ambiente, das missões da exploração mais do que da construção de habilidades e tal.

Temos visto muitas mulheres reivindicando espaço nos jogos online e fazendo denúncias sobre assédio e machismo do meio. Essa reação das mulheres jogadoras se dá muito pelas discussões sobre esses temas terem ganhado o mundo, vocês acreditam que o machismo afeta também o mundo dos jogos de tabuleiro? Vocês acham que essas discussões também tem impactado positivamente a comunidade dos jogos analógicos?

Com certeza há muito machismo nos jogos de tabuleiro também. Existem algumas iniciativas muito legais no sentido de promover um espaço seguro para as mulheres jogarem como o Lady Lúdica, LudoGirls e BoardGame Girls que fazem eventos em que homens não são permitidos ou são minoria. Se esses eventos existem e permanecem é porque há uma necessidade de espaços onde as mulheres são protagonistas e não “acompanhantes”. É fácil ver atitudes machistas não só dos jogadores individuais, mas também de lojas e eventos.

Como uma empresa formada e comandada por mulheres achamos super válido essas iniciativas e temos a intenção de apoiar e participar assim que possível.

Com certeza essas iniciativas fomentam discussões. Já vi muitos homens espantados, sem entender a necessidade de um evento só de mulheres, ou mesmo criticando a iniciativa (o que só reforça a necessidade de um espaço seguro). Os eventos são para as mulheres, mas eles fazem os homens pararem e pensarem, ou até discutirem sobre o assunto. E a solução do machismo não é a segregação; é a conscientização.


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Baronesa: um mundo feito de afetos e violências

Andreia (cena do filme Baronesa)

Baronesa é uma palavra utilizada para se referir às mulheres que receberam o baronato, um título de nobreza. Além desse significado de origem monárquica, Baronesa também é o nome de um bairro de Santa Luzia, cidade da zona metropolitana de Belo Horizonte, e o título de um filme dirigido, roteirizado, produzido e protagonizado por mulheres.

Quando Juliana Antunes, diretora da obra, se mudou para a capital mineira, ela notou um certo número de bairros que levavam nomes de mulheres. A maioria deles, periféricos. Isso a provocou e ela começou a pesquisar sobre, ir até eles e, depois de um tempo, o filme surgiu.

A premiada obra é centrada em duas personagens: Andreia e Leidiane. Leid espera o marido preso e cuida de seus filhos pequenos. Andreia quer se mudar e começa a se organizar para isso. A história é uma amostra do cotidiano e não segue os padrões de filme ficcionais. As personagens interpretam uma versão delas mesmas e a narrativa é uma vida que somente acontece.

Conversas, implicâncias, cumplicidade, afetos. Tudo isso faz parte do filme e também da vida. Só que em Baronesa — e na realidade de muita gente — o afeto existe lado a lado com a violência. Tiros, correria, a câmera caída. A violência interrompe uma conversa entre amigas sobre desigualdade.

Numa cena, Negão e Andreia conversam sobre a guerra entre os traficantes locais. Ele veste um colete à prova de balas e eles brincam sobre testá-lo. Andreia está com uma arma na mão. A conversa ora é séria, ora não é, mas está evidente que o assunto entre eles é também sobre a sobrevivência de si e dos seus. A morte e a tragédia parecem estar sempre à espreita.

O filme dá voz às mulheres antes escondidas em espaços privados e de cuidado e empregos precários. Nos diálogos, a gente observa que o único destino possível para elas parece ser esse, enquanto o dos homens dali, a maioria das vezes, é a prisão ou a morte.

Mas, além da violência, o filme também trata sobre afeto. Junto com uma amiga, as protagonistas conversam sobre vida sexual, enquanto bebem cerveja. “Cê pode gozar à vontade”, Andreia diz sobre masturbação, enquanto Leid ri constrangida. Elas batem papo, se aconselham e se apoiam. Entre elas, há uma cumplicidade que envolve até mesmo romper o silêncio sobre violência sexual e fazer recomendações sobre cuidado dos filhos em relação a esse assunto.

Essas mulheres são parte de um todo. Um todo que muitos fingem não ver. Juliana Antunes compartilhou que uma das dificuldades que teve para realizar o filme envolveu o fato de que as mulheres precisavam de autorização masculina para gravar. Com essa informação, é impossível não questionar: “Quantas histórias seguem invisíveis por causa do machismo?”.

Mesmo quando se aborda a vida na periferia, o que não é tão frequente assim, os homens são o foco. Quando um filme se propõe a ser diferente e é um projeto que envolve também pessoas reais, algumas mulheres podem acabar ficando de fora simplesmente por viverem numa cultura que as coloca como seres que devem obediência aos homens de suas famílias.

O trunfo da obra é tratar o cotidiano de forma atenta ao algo mais. A narrativa não foca em um recorte específico da realidade. Ela aborda um todo e isso envolve expor diversos problemas sociais, mas não ficar só nisso. A discussão é proposta, mas a voz delas não fica resumida apenas às dificuldades e denúncias. Nesse filme, as personagens se fazem presentes em várias nuances e protagonismo feminino é isso.

Confira o trailer:


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Desconforto

Obrigada, Canva

Calço os sapatos. Podia ser um par de tênis, de alpargata, meus queridos chinelos ou mesmo minha sapatilha que dá calo, mas dessa vez são sandálias de salto alto. Ouvi da moça do RH que ninguém vai me levar à sério sem sapatos como esses. De alpargata, pareço uma menina, segundo ela. Uma menina de incríveis 30 anos, eu penso.

Tec, tec, tec. Eu ando pela casa conferindo se deixei ração o suficiente para os gatos. Tec, tec, tec. Volto para o quarto para pegar minha pasta. Tec, tec, tec. Me direciono para a porta.

Joselino estranha o barulho que faço ao andar e nem se aproxima para se esfregar nas minhas pernas como sempre faz, mas mia baixinho, porque sabe que só voltarei dez horas depois. Juanita sobe na mesa e oferece a cabeça para eu acariciar antes de sair. Quando me aproximo, vejo seus olhos atentos aos meus passos. Nem ela aguenta o barulho desses sapatos.

Assim que entro na empresa, visto meu casaquinho. Sento. Ajeito a mesa. Checo e-mails. Bebo uma xícara de café. Confirmo minha agenda. Redijo um contrato. O tec, tec, tec dessa vez é barulho do teclado. Separo uns documentos, estudo o que eles dizem e me preparo para reunião do dia.

O homem mais velho da mesa me pergunta se eu sou filha do dono da empresa. Não, eu não sou. Meus pés doem por causa dessa maldita sandália, mas eu ainda não sou levada à sério. Filha, esposa, amante. Todas essas possibilidades parecem mais certas para eles do que uma promoção por mérito.

Apresento nossos produtos e os documentos que comprovam o bom desempenho deles no mercado. Exponho estatísticas e ressalto que conquistamos os primeiros clientes internacionais há poucos meses.

Ele troca de lugar e senta ao meu lado. Posiciono a papelada em sua frente para que ele possa ler os pormenores do contrato. Sorrio e espero.

Sinto algo na minha perna esquerda. Devo ter esbarrado em alguma coisa. O algo começa a subir. Cogito que seja uma barata. Olho para baixo e vejo a mão branca do velho subindo pela minha coxa. Me encolho toda. Ele ri e sobe ainda mais. Nojo.

Não consigo respirar direito, muito menos falar alguma coisa. De novo não. A mão dele continua em mim. Me culpo: “Se fosse uma barata, eu gritaria”. Olho para o nada, ainda paralisada, enquanto respiro fundo e junto toda a força que me resta. Com ela, me levanto, abandono a sala e sei que com isso perdi essa venda e alguma coisa em mim.

Me sinto anestesiada. Não noto mais os sons que faço ao andar, digitar ou mastigar e engulo a comida do meu restaurante preferido sem conseguir diferenciar o gosto dos alimentos.

Quando volto do almoço, meu chefe me chama para sua sala. “Esses clientes já eram certos, que merda você fez?”, ele berra. O andar inteiro ouve. Choro. Balbucio palavras. Nenhuma com sentido. Ele grita ainda mais comigo.

Respiro fundo e recomeço meu relato. Com a voz embargada, conto o que aconteceu. Meu chefe reage dessa vez sem gritaria e me manda ir para casa descansar. Mas antes de eu sair pela porta, ele faz questão de dizer: “Ele não ia fazer mais do que isso, dava para você ter aguentado e garantido o negócio”.

Saio da sala ainda aos prantos, pego minha bolsa e me direciono para o elevador. Ouço cochichos e todo mundo me olha como se eu tivesse feito uma cagada daquelas. A palavra incapaz parece estar escrita na minha testa. Não tenho dúvidas que continuariam me julgando dessa forma — ou pior — se soubessem como perdi a venda.

Os sinos da igreja me contam que são duas horas. Ouço as badaladas com uma atenção absurda. Me concentro em cada uma delas para fugir das memórias e pensamentos que vieram à tona. Tem algo errado comigo, concluo. Meu corpo me trai. Ele provoca os homens.

O ressoar dos sinos não é o suficiente. Dentro de mim, eu grito: “De novo não!”. O coração acelera, bate desritmado. Eu tento respirar fundo, olhar para as pessoas e imaginar suas vidas.

Vejo uma jovem de vinte e poucos anos. Ela tem o cabelo escorrido, diferente do meu, que é cacheado. Está de coturno, veste uma meia calça roxa, um vestido floral e uma jaqueta jeans preta. Esse é um look que eu usaria, penso. Ela parece bem.

Vejo também uma moça de dreads coloridos, calça jeans e camisete preta. Ela parece aflita com o tempo. Toda hora olha para a tela do celular e para o horizonte onde o ônibus alguma hora vai apontar. Ela está de mochila. Talvez atrasada para uma aula, algum estágio, uma prova. Não sei.

Não tem mais ninguém para olhar por perto. O ponto está vazio. Tento me concentrar então em quem passa. Eles andam rápido demais e eu volto a me perder nos pensamentos que tento a todo custo evitar. “Como eu me odeio” é um deles.

Um carro passa bem devagar e o homem dentro dele faz gestos sexuais e grita “Gostosas” para as três mulheres paradas sozinhas no ponto de ônibus.

Não aguento. Desabo. Reconheço as memórias que tento evitar. Vejo uma nova entre elas. Uma voz masculina ecoa na minha cabeça. Ela me chama de vagabunda, diz que tem algo de errado comigo e que eu provoco os homens. Ouço de novo “dava para você ter aguentado”.

As duas moças me olham chorar com solidariedade. Não me sinto digna desse apoio. Ambas se aproximam e falam que vai ficar tudo bem. Respiro fundo. Tento sorrir. A jovem de cabelo escorrido me oferece um abraço. Aceito. A moça de dreads diz “esses caras são nojentos”. Me ouço respondendo “uns desgraçados” e essa é a nova frase que começa a se repetir em minha mente, enquanto vejo elas entrarem no ônibus 9410.

O cheiro de churros domina o ponto de ônibus. Salivo. Corro atrás do carrinho, os sapatos de salto me atrapalham mais uma vez e eu os arranco dos pés. Descalça no centro da cidade, escolho se o recheio será doce de leite ou brigadeiro. O gosto da massa do churros se mistura com o salgado das minhas lágrimas.

Desgraçados.


Essa história foi publicada originalmente no meu perfil na plataforma Sweek e foi finalista no concurso literário SweekStars2018.


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