Higui: atacada por ser lésbica, presa por defender-se.

Fotografia de Sebastián Hacher. Na foto, Susana, mãe de Higui carrega um cartaz que diz “Higui, te queremos livre”.

Andando nas ruas do centro de Buenos Aires, entre pixos, lambes e stencils, encontrei cartazes que anunciavam uma manifestação para o dia 17 de maio, dia de luta contra a LGBTfobia. A ilustração de uma mulher com uma bola debaixo do braço e vestida para uma partida de futebol estava em todos eles acompanhada dos dizeres “Libertad Para Higui”.

Continuei meu trajeto de turista, avistei o Congresso, a rua Florida, o Obelisco, o Teatro Cólon, a Casa Rosada e a famosa Plaza de Mayo e segui me perguntando quem era Higui, o que tinha acontecido com ela e porque a queriam livre. No caminho, me lembrei de Rafael Braga.

A resposta veio e com ela tomei conhecimento de um triste caso de lesbofobia e de falhas estatais graves. Eva Anália de Jesus é o nome dela, Higui é um apelido que veio por ela ser goleira, como René Higuita, e apaixonada por futebol. Mulher lésbica, viveu o medo, violência e hostilidade diversas vezes e acabou presa por defender-se.

Durante a adolescência, recebeu pedradas, foi hostilizada, roubada e, em uma das vezes, seriamente agredida, entre gritos lesbofóbicos. Não denunciou por medo, foi embora do bairro de sua família e passou a carregar uma lâmina toda vez que se aproximava da região. No último dia das mães, retornou ao bairro e encontrou um de seus agressores do passado num beco. Ele disse: “Vou te fazer sentir mulher, sapatona mal comida” e a agrediu, junto com outros homens. Eles rasgaram sua calça e suas roupas íntimas e ela buscou a navalha que carregava para se defender. Nisso, matou um dos agressores, mas só soube disso já presa.

Foi achada praticamente inconsciente, machucada e, apesar dos ferimentos, foi levada detida direto para a delegacia. O processo contra ela é cheio de furos processuais. No primeiro documento policial sobre o ocorrido não consta informações sobre o estado em que Higui foi encontrada, por exemplo.

O ato de legítima defesa de Higui a protegeu de um estupro corretivo. Essa violência recebe essa denominação porque os autores estupram a vítima com a finalidade de punir o que eles consideram um desvio numa mulher. Para o agressor, o estupro de uma mulher lésbica “corrigiria” a lesbianidade dela, que pra eles é uma afronta.

Higui está em prisão preventiva por homicídio simples, por ter matado um de seus algozes, numa tentativa desesperada de se defender de um estupro motivado pela misoginia e pelo preconceito com sua orientação sexual. Seus agressores estão livres. Conheci seu nome andando nas ruas de um país vizinho, numa tarde de turismo, mas queria ver a história dela ecoando nas redes, jornais e rodas políticas brasileiras, porque nossa justiça, assim como a da Argentina, é oblíqua e a lesbofobia também faz vítimas por aqui e elas, assim como Higui, seguem invisíveis para a maioria.

Edit posterior: Higui foi absolvida!


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

O Mineirão é nosso: o dia que a festa foi das mulheres

Eu, minha blusinha e o Mineirão de fundo.

Era agosto, o Brasil era sede dos jogos olímpicos e eu estava a caminho de um Mineirão que receberia nesse dia o maior público do ano até a data. Na véspera, gastei alguns minutos com uma caneta para tecido escrevendo “Marta, Cristiane, Formiga & Beatriz” em uma blusa branca.

A seleção feminina de futebol estava fazendo uma belíssima campanha: dois bons jogos que garantiram a vaga nas quartas e um jogo mediano em que as principais jogadoras foram poupadas. O estádio estava cheio, bem colorido, encontrei uma moça que carregava uma faixa que divulgava o time em que jogava, minha camisa foi elogiada e conseguimos um lugar bem perto do campo.

Cheguei cedo e pude assistir o aquecimento das jogadoras e observar a arquibancada. Ela ainda estava se enchendo e, diferente dos outros jogos que já tinha ido, era predominantemente feminina. Marta, Cristiane, Formiga, Bárbara e Beatriz em campo fizeram muitas mulheres perceberem que o estádio, num todo, também era espaço para elas e mexeram com o ego de muitos homens que ainda insistem que futebol feminino é ruim de assistir. A modalidade feminina ainda é considerada chata, previsível e sem grandes emoções, mas o jogo Brasil x Austrália, e tudo que seguiu após esse dia, mostrou que não é bem assim. O mesmo time que perdeu do Brasil por 5 x 1, venceu a seleção brasileira nos pênaltis na semifinal, mostrando que o futebol feminino, assim como masculino, tem sua dose de imprevisibilidade e de estratégia.

O jogo foi marcado pela tensão. Passei a partida sentindo falta da Cristiane nas finalizações, já que o gol não queria sair. Formiga, como sempre, parecia estar em todos os cantos do campo. Marta, mesmo muito marcada, buscava oportunidade. Bárbara estava a postos. O Mineirão estava gelado, mas o público seguia gritando Marta, Bárbara e Formiga. O frio apertava, enquanto o tempo da prorrogação acabava e a decisão ia para os pênaltis.

Foi a primeira vez que vi disputa por pênaltis ao vivo. A ansiedade — e o frio — só aumentava e eu não aguentei ver as cobranças do meu lugar, me levantei e fui para perto da saída. Vi tudo dali, ou melhor, senti, já que fechei os olhos algumas vezes durante as cobranças. Bárbara nos salvou e foi eleita Santa por aqueles que são fãs de futebol e alcunhas cristãs, o que não é meu caso. O Mineirão virou festa.

A tensão e alegria se misturaram e seguiram comigo até chegar em Divinópolis, minha cidade natal. Elas foram minhas companheiras de estrada durante todo o percurso e encheram minha boca de palavras e “causos” sobre o primeiro jogo de futebol feminino que vi no estádio. Quando cheguei, o sono não foi tranquilo, porque as narrativas dentro de mim estavam ansiosas para serem contadas.

Nesse dia, eu fui uma mulher de vinte e muitos anos e também a criança que sempre sonhou em prestigiar atletas olímpicos e jogava bola todo dia após a aula. Nesse dia, eu vivi um jogo inesquecível nas arquibancadas.

Encontrei no Museu do Futebol a camisa que a Bárbara usou no famigerado jogo Brasil x Austrália.

Leia também: Museu do Futebol: o meu e o do Pacaembu

Esse texto faz parte da campanha #MulheresNoFutebol, organizada por mim e pela Francine Malessa. Saiba mais aqui.

Vadiagem qualificada

Imagem da Greve de Mulheres islandesas de 1975 feita por Olafur K. Magnusson.

aos vagabundos da história
agradeço
meus direitos
de origem resistente

muito além de artigos e leis
eles vivem
em forma de livros
ou correm no sangue
daqueles que sonham bonito

são os vagabundos
que param
as forças
de um governo fracassado

são as vagabundas
que puxam o grito
daqueles que peitam
o que é dito
da luta
substantivo feminino

pneu queimado,
pelas mãos suadas
de uma baiana arretada
incendeia de coragem
o peito daquele que grita
por sobrevivência
digna

Ouça:
é com a rua que se negocia
seja cheia
ou vazia
obstruída
quem para tudo
são as vagabundas
decididas


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

As histórias debaixo do tapete

Arte de Aleksandra Waliszewska

Muito mais doloridas que as histórias de gaveta, as histórias que vivem debaixo dos tapetes sufocam umas às outras, amontoadas em suas dores próprias, sem mesmo perceber que, no meio de tanta poeira, tem um mundo de semelhantes caladas encasteladas em suas solidões.

Debaixo do tapete, as histórias não sabem umas das outras. Elas narram seus acontecimentos num murmúrio que encontra com outros e, no fim, todo esses cochichos ecoam como um canto único e triste. Elas vivem solitárias, vagando num labirinto escuro, confuso e aparentemente infinito, como nossas mentes.

Quando uma narrativa, por acaso, escapa, encontrando uma fresta de som, luz e palavra, ela descobre que saiu de um tapete espesso que é capaz de abafar aquela música triste que toca o tempo todo. Estando fora dali, todos a encaram, enquanto ignoram e pisam naquele volume enorme e disforme que se movimenta debaixo do tapete que antes era sua moradia.

A primeira palavra que ela pronuncia de sua história vem como um grito, vem forte, e ela continua falando, falando e falando. Então ela ouve sussurros, percebe que apontam para ela, riem dela, duvidam dela e a acusam. Ela começa a perder a voz, quase emudece, até que lembra que ela foi atraída por essa fresta porque ouviu um relato visceral contado na voz de uma mulher e veio atrás por perceber que quem narrava ficou sem fôlego, sem coragem e deixou a história pela metade.

A história procura a outra história e a encontra caída, sem energia ou força alguma, quase desaparecendo em lágrimas. A história dá a mão para a outra, ambas se levantam e notam a força que têm juntas. Agora potentes, narram si mesmas, falam o que têm que falar, enquanto circulam em volta do tapete levantando sua borda e vendo surgir mais vozes.

Juntas, numa catarse, elas se descobrem um exército armado de palavras.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

10 dicas para um bom carnaval

Imagem da campanha #CarnavalSemAssédio.

1 — Se hidrate e vista roupas e calçados confortáveis.

2 — Mulheres vão para a folia por diversos motivos. Algumas querem ficar com pessoas, outras querem só dançar, algumas vão só para beber, outras vão pelas fantasias. A mulher estar ali não quer dizer que ela quer ficar com alguém e muito menos que esse alguém tem que ser você. Afinal, querer dar uns pegas não é querer dar uns pegas em qualquer um.

3 — A fantasia da moça é curta? Isso não quer dizer nada! O shortinho dela não é um convite e ela não merece menos respeito que ninguém por causa dele.

4 — Viu dois homens ficando? Viu duas mulheres se beijando? Respeite! E respeitar inclui não insistir para participar ou ficar encarando, viu? Deixe as minas em paz, a sexualidade delas não existe para seu entretenimento.

5 — Se interessou por alguém? Quer chegar mais? Troque olhares, flerte, converse, seja criativo. Puxão de cabelo e de braço não tem vez! E, lembre-se, beijo forçado, mão na bunda e afins não só te faz um babaca, te faz também um criminoso.

6 — Na hora de chegar mais, saiba que o não é sempre uma possibilidade e o respeite. Insistir não é respeitar, beleza?

7 — Não tem essa de “vou embebedar a mina pra ver se ela dá mais fácil”, viu? Se a pessoa está embriagada demais para consentir é estupro de vulnerável. Cu de bêbado tem dono sim!

8 — A pessoa topou? Aproveite, mas lembre-se que todo mundo pode mudar de ideia no meio do caminho, inclusive você. O “não” tem validade mesmo depois de um “sim”.

9 — Use camisinha, proteja-se.

10 — Lembre-se de que fantasiar-se de estereótipos de grupos oprimidos não é algo legal e nem engraçado, é ofensivo. Deixe o que você chama de “fantasia de nega maluca” em casa.


Texto meu originalmente publicado no Ativismo de Sofá em apoio à campanha #CarnavalSemAssédio.

O caso do homem explicador

Ilustração minha.

Tirei a chave da ignição, peguei a bolsa no banco ao lado, abri a porta e desci. Andei uns dois metros e vi que um homem me olhava fixamente e andava em minha direção. Imediatamente comecei a pensar em tudo que eu poderia fazer caso ele chegasse mais perto e me planejei tendo em mente o que eu via: um homem que andava com pouca firmeza e com duas mãos livres. Não foi preciso de tempo para me preparar, já que os planos de fuga brotam junto com o medo toda vez que uma mulher se depara sozinha com um homem numa rua deserta.

Segui meu caminho e alguns passos depois, ele estava bem próximo e eu sabia que era naquele momento que ia acontecer algo, caso essa fosse a intenção do homem. E era. Ele passava ao meu lado quando me abordou colocando a mão em meus ombros como se ele fosse me abraçar. Naquela hora, eu fiz tudo que arquitetei ao olhar pra ele dois minutos antes: me desvencilhei e o empurrei para fora da calçada, enquanto gritava “TIRA A MÃO DE MIM, VOCÊ NÃO ME CONHECE”, corria olhando para trás pra ver se ele estava ao meu encalço e mostrava de forma ameaçadora minha chave e repetia o meu jargão.

Vi o homem se levantar e correr para a direção contrária. O alívio ainda ia demorar a chegar. Sentia medo e tentava racionalizar se ele ia me roubar ou se ele ia me agredir sexualmente. Não sabia, não tinha como saber. Minha única certeza era que ele tinha me abordado e eu tinha conseguido me livrar, ao menos temporariamente. Temia, mas também me sentia uma pequena heroína, afinal, eu salvei meu dia.

Continuei andando com a chave em punho e, bem no fim da rua, um homem aleatório falou comigo “CUIDADO MOÇA!”. E eu já fui logo olhando para trás, esperando o homem anterior, pronta para lutar pela minha vida.

Não tinha nada atrás de mim, mas na frente tinha um cara que continuou a frase me informando que eu tinha sido abordada, me contando como foi e afirmando que a rua está perigosa demais, que não dá mais pra andar na rua naquele horário (incríveis e assustadores 19:50 no horário de verão).

Ele continuou falando essas coisas, enquanto eu encarava incrédula aquele espécime de homem que achou de bom tom me parar para explicar que eu, a mulher que tinha empurrado, gritado e corrido de um homem minutos antes, tinha sido abordada. Em tom de julgamento, ele finalizou seu blablabla dizendo “e ainda anda de bolsa?” e eu não consegui segurar um “pode deixar que na próxima vou guardar minhas coisas no cu”. Mais uma vez salvando o dia.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Eu continuo tentando

Print do site “E se o jogo Brasil x Alemanha ainda estivesse rolando?” porque o sentimento atual é como se fosse isso aí.

O Brasil vive vários 7 x 1 diários. Na verdade, tem dia que a gente nem consegue esse golzinho de honra. A gente tem sentido o cheirinho da ameaça de perder direitos toda hora, estamos acuados, assustados e tão impressionados com a rapidez de tudo que está acontecendo que simplesmente ficamos assistindo a cada perda e a cada ameaça sem piscar e sem conseguir fazer muita coisa. Quando se ataca a capacidade de ter esperança, é difícil fazê-la brotar de novo.

Eu continuo tentando. Sou dessas que ainda digita um textão na caixa de comentários do Facebook de páginas de grandes jornais brasileiros, sou dessas que continua buscando o diálogo, sou dessas que tenta não desistir e se apega às pequenas vitórias para conseguir seguir com esperança. Mas também sou dessas que tira férias de acreditar e deixa a vida seguir até conseguir fazer tudo isso de novo, porque acreditar tem vez que dói e a gente precisa se afastar para cuidar dessas feridas. Tem que ficar esperto, sabe? Porque se a gente não descansa de acreditar, a esperança não é mais capaz de regenerar e morre.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Filha de peixe

Imagem de água cristalina

Sou filha de peixe. Fui encontrada à beira de um rio poluído, daqueles que cheiram morte. Hoje tenho a teoria de que meus pais-peixe queriam tanto que eu vivesse que pediram às águas que eu me tornasse gente. Me tornei e cresci pisando firme numa terra de um rio morto.

Minha mãe-gente me encontrou por morar perto de um dos trechos mais vivos do rio morto da cidade. Era 06:50 da manhã de um domingo e ela acordou com um choro de quem nunca sentiu o ar entrar pelas narinas vindo do lado do rio. Ela pensou que aquele som vinha de um parto estranho, o parto de uma mulher silenciosa e saiu para tentar ajudar. Encontrou, bem na beira do rio, um bebê sozinho, todo molhado, já maior do que um recém nascido, mas que parecia respirar pela primeira vez.

Mamãe-gente me levou para o hospital, falou com as instituições, conversou com a mídia e lutou para conseguir ficar comigo. Meu surgimento ali, na beira do rio, foi encarado por ela como um presente das águas e uma missão. Ela deveria me fazer ser uma filha digna do rio, a última filha dele.

Mamãe correu tanto para acudir a mulher inexistente que paria um bebê choroso não por ser enfermeira, mas por ser seu destino. Ela é bibliotecária e antes de mim nunca tinha cuidado de ninguém. Numa cidade seca de tudo, inclusive de recursos e atenção política, ela tinha que me levar para o trabalho todo dia. Imagine só um bebê numa biblioteca! Qualquer chorinho e os olhares cresciam para cima dela. Viveu com medo de perder o emprego até que um dia sonhou com uma confusão de sons, sensações e cores e acordou sabendo que precisava arrumar um aquário e colocar perto de onde eu ficava. Funcionou.

Mamãe também fala que eu sempre senti muita sede. Se a indicação de quantidade de água diária é dois litros, eu sempre bebi ao menos três. Nenhum suco, leite, refrigerante, chá ou café jamais me saciou, só água.

A cidade onde cresci nunca teve água direito. O rio, sem a vida dos peixes, secou e morreu. Vivi num ambiente em que a chuva e o banho eram meu único contato com a água. A chuva só aparecia durante uns quatro meses do ano e ainda assim era rara. As piscinas eram para os poucos que podiam pagar cotas em clubes e eu nunca nem vi.

Quando eu tinha sete anos, mamãe e eu fomos visitar minha avó. Ela morava numa cidade do interior, cheia de rios, há oito horas de viagem do meu local natal. Um dos afluentes passava bem no terreno da casa dela. Ao chegar lá, vi águas cristalinas num córrego cheio de peixes e essa foi a primeira vez que percebi a abundância e o poder da água. Fiquei encantada e pulei. Foi um deus nos acuda: mãe e vó desesperadas até perceberem que eu sabia nadar. Passado o susto, elas ficaram chocadas ao me ver dar braçadas, bater as pernas e boiar. Vovó disse para minha mãe “Você deu o nome certo para ela”. Me chamo Iara e segundo minha mãe meu nome significa senhora das águas em algum idioma que fugiu da minha memória.

Lembro que foi muito sofrido me separar da água e voltar para a sequidão. Custei a me adaptar ao local que sempre vivi. Meu nariz sangrou todo fim de tarde durante o mês que seguiu minha despedida da água. Nessa época, mamãe já sabia que eu era de fato uma filha da água. Ela não tinha dúvidas. Até minha pele lembrava em algo a escama lisa de um peixe.

Descobri que eu era diferente aos dezesseis anos. Sempre soube como fui encontrada, mas nunca tinha me pensado como filha de peixe, do rio, da água. Ouvia os casos da minha mãe e eu achava que ela gostava de criar um mito em cima de mim simplesmente por ser uma boa contadora de histórias e fã de livros e folclore. A ficha caiu quando comi comida japonesa pela primeira vez. Sentir o gosto e textura de uma alga me tocou de um jeito que eu simplesmente disparei a chorar no meio do restaurante, mesmo diante de toda a turma da escola. Foi ali que notei que todos meus interesses se relacionavam com o mundo aquático e parei de tentar nadar contra meu destino.

Vim morar longe de casa para estudar biologia marinha. Mamãe veio junto, porque segundo ela todo lugar precisa de uma bibliotecária, mas eu acho que é porque ela sabia que depois que eu entrasse no mar pela primeira vez, eu não voltaria pra sequidão nunca mais. De longe, de dentro do ônibus, eu vi o mar e já o senti reverberar dentro de mim. Desci na rodoviária com mala e cuia e já fui ao encontro das águas. Ao vivenciar o mar, o sal, a espuma das ondas, a força do puxão das águas marinhas, eu percebi o meu lugar no mundo. Me descobri senhora das águas e hoje vivo por ela, porque foi ela que me deu a vida. Devo isso aos pais-peixe e minha mãe-gente que me preparou para ser quem eu nasci para ser.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Chuva na janela

Imagem encontrada aqui

Hoje parei para pensar em tanta coisa. Acordei e contemplei o som da chuva batendo na janela fechada e os uivos causados pelo vento passando no corredor que os prédios formam nos centros das cidades. O barulhinho da água caindo camuflava os sons urbanos. Não dava para ouvir o vai e vem de carros. As coisas pareciam calmas, simples. Tudo pairava. O tempo e a cidade pareciam suspensos. O mundo parecia nosso. Tudo parecia um sonho. Tudo parecia certo.

Voltei a dormir, a chuvinha me ninou até que o dia nasceu de vez. Nem a chuva e nem os uivos de vento nesse horário são capazes de camuflar a cidade. As buzinas chamam atenção e lembram que a cidade parou, mas o tempo não, ele corre, independentemente de ter alguém parado na frente dele. Nesses casos, ele passa por cima.

A cidade foi interrompida no seu fluxo cotidiano. Nem ela, nem eu, podemos nos dar o luxo de descontinuar o que tem para hoje. O movimento é obrigatório, todo mundo está proibido de estacionar e finalmente conseguir ver qual é o melhor caminho no meio do caos da chuva e da cidade. Somos baratas tontas, corremos em círculos buscando a rua que não está engarrafada. Pelo menos agora tem Waze e Google Maps para ajudar.

O destino é certo. Vou para o ponto de ônibus, espero, avisto o veículo e corro para fechar a sombrinha e me enfiar no meio dos outros tantos que querem entrar logo naquela caixa de metal que não cabe todo mundo. Entro, sinto cheiro de gente molhada, suada, cansada, sigo, desço, vivo, mas sei que tem hora que todo esse movimento é só estagnação. Sei porque mais cedo estava pairando no ar e pensei que o sonho segue vivo, por mais que às vezes eu esqueça de tentar.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Eu sou um monstro

Foto meramente ilustrativa, pois não sou fofo e sou bem mais abstrato. Imagem encontrada aqui.

Sou nômade, vivo de favores e vou me ajeitando onde me deixam entrar. Finjo que vou ficar pouco tempo, que aparecerei só às vezes e que quase não vou incomodar. As pessoas não gostam de mim, mas me deixam entrar e se habituam com a minha presença por achar que faz parte. E eu entro, me ajeito e vou ganhando espaço, mesmo sendo insuportavelmente chato.

Eu gosto de zoar. Amarrar perna de sapo, criar apelidos cruéis e assustar quem não estiver atento. Esses são hábitos que tenho desde que nasci. Recentemente decidi adotar o rótulo de zoador e tenho aperfeiçoado meus dons para atingir em cheio os participantes da tal vida adulta.

Esse novo rótulo veio a calhar, viu? Agora quando eventualmente me confrontam, digo “quem tem limite é município” e as pessoas caem, como bobas, porque nunca querem ser estraga-prazeres. Elas temem cortar o barato de alguém e ganhar a fama de politicamente corretas. E eu aproveito disso sendo aquele cara que vive falando como são chatas essas pessoas que vivem patrulhando o humor, repito como um papagaio como é tudo inofensivo, digo que bullying forma caráter e outras baboseiras como “vocês são os verdadeiros fascistas” e assim consigo me manter por mais tempo na minha morada da vez.

Antigamente, tudo que eu fazia era mais direto, sabe? Os resultados apareciam rapidamente, não tinha tanto jogo e assim a comida ficava escassa num pulo e minhas mudanças tinham que acontecer com mais frequência. Pois agora, eu sou um novo monstro. Me adaptei aos tempos modernos e me alimento moderadamente em três em três horas, tudo muito saudável, com cara de indicação de nutricionista.

Antes minha comida era o medo, o pavor, a culpa. Agora é um prato diversificado e cada vez mais colorido: ansiedade, culpa, medo, tristeza, pavor, depressão, raiva, dores crônicas, compulsões variadas, insônia, paranoia, estresse e tudo mais que há de ruim.

Posso adotar muitas faces no mundo atual. Além do zoador, uma das minhas preferidas é a do cara que fica falando para todos que pra ser valorizado tem que vestir a camisa da empresa mesmo, que tem que se esforçar, dar o sangue, suar a tal da camisa da empresa até dar pizza debaixo dos braços. Adoro essa persona monstra! E juro que nem é porque o papo envolve suor e sangue, que, por sinal, caem muito bem brócolis e insônia! Esse personagem julga, julga e julga e faz aquele tipo de comentário que cria uma culpa deliciosa em todos ao redor! A moça que prefere tirar férias do que receber o proporcional ouve minha ladainha, começa a pensar nela e acaba dizendo foda-se para o seu corpo e mente que pedem descanso, trocando a folga pelo dinheiro e por uma suposta valorização profissional que nunca vai vir. Se eu tiver sorte, em alguns anos ou meses, ela vai ter um ataque de nervos que vai servir de sobremesa a semana inteira!

Gosto do jogo moderno. Vejo o definhar das minhas vítimas por anos, me alimento e me reproduzo. Fiquei menor, é verdade, e minhas crias, também. Mas isso é até bom, porque desse tamanho é mais fácil chegar de fininho e fixar morada ou, em alguns casos, me esconder por anos, fazendo refeições mínimas, até criar um espaço propício para crescer e constituir família. Nesse modus operandi, as pessoas demoram a perceber que somos tão nocivos e mesmo depois de anos, quando a gente já cresceu tanto que é um elefante enorme parado na sala de estar, eles fingem que não estão nos vendo.

Confesso que tem hora que sinto falta da juventude. Quem nunca, né? Os apetites vorazes, a inconsequência, a vontade de comer o mundo inteiro numa só mordida. Ai, ai, que saudade desses tempos em que a falta de mastigação não causava azia… Mas era outra época. Época em que éramos muitos, nômades, e dominávamos a igreja, o Estado e manipulávamos vilarejos falando sobre bruxas, pecado, bem e mal.

Desde esse tempo, me alertavam que quando chega a velhice a nostalgia aparece, principalmente quando somos imortais. Eu sei que aquela dinâmica toda de se empanturrar de uma vez e andar dias em busca de um novo cardápio não é boa pra mim e nem para os outros da minha idade. Deixo isso para alguns dos meus filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, ainda jovens e com espírito aventureiro. Eles, inspirados em nossas histórias, resolveram voltar a alimentar a caça às bruxas e estão juntos aproveitando que o Estado Laico ainda é uma lenda.

Me perguntam algumas vezes se eu estou cansado, se penso em me aposentar e nossa, como esses caras não entenderam nada sobre ser monstro! A gente não se cansa! A gente se diverte! O trabalho é pouco, pouquíssimo. A gente não precisa de muita coisa para fazer os humanos fazerem o trabalho sujo. A gente tenta alguns e já é o suficiente. É como se fosse uma terceirização! Pauta que a gente apoiou bastante no Congresso, por sinal.

Não precisamos de muito esforço, porque os humanos se deixam levar. A gente investe na raiva, na mágoa, na culpa e no medo deles, sentimentos que eles adoram ignorar, e pronto, a refeição do dia está servida! Com o capitalismo, a globalização, as redes sociais e a internet com seus trolls e mensagens que espalham ódio e pânico facilmente, tudo ficou ainda mais fácil. Eles não olham a própria história e não entendem que nunca somos completamente exterminados, porque somos imortais e sobrevivemos — como sementes, larvas de aedes aegypyi ou bactérias e vírus congelados no permafost — a espera da oportunidade certa para poder prosperar. Esperamos dentro de cada um de vocês. Somos seus hóspedes folgados.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.