O cotidiano — e os causos — de uma livraria

Foto: Thaís Campolina — Adquira um exemplar aqui.

Em algum momento de 2011, Hillé Puonto, pseudônimo de Lilian Dorea, começou a publicar suas aventuras como livreira em um blog chamado [manual prático de bons modos em livrarias] e algumas dessas histórias foram escolhidas para integrar um livro com o mesmo nome.

Se você gostava de literatura, acompanhava vários blogs e vivia na internet nessa época, provavelmente vai se lembrar de ter visto esse nome em algum lugar ou vai reagir ao meu texto com um “aaaaaaaaaaa” de empolgação. Relembrar é viver, não é mesmo fã da Hillé?

Uma cliente diz detestar Clarice Lispector por odiar livros espíritas, outro pergunta sobre o livro do Freddie Mercury buscando uma obra de direito civil escrita por Fredie Didier e a gente espera — e encontra — a cada página diálogos tão ou mais surreais do que esses dois causos citados. Todos contatos de uma forma que torna as situações ainda mais divertidas.

Eu poderia facilmente ser a cliente que chega na livraria e fala “Quero o livro do Chuchu” buscando algo sobre a entidade lovecraftiana Chutlhu. Na foto: trecho da página 87 do livro [manual de bons modos em livrarias]

O mundo dos livros muitas vezes é intimidador. A gente teme errar pronúncias, autores, títulos e considera que não conhecer certos clássicos é algo que nos diminui, mas as coisas não precisam ser assim. A gente pode rir disso, dos erros dos outros e dos nossos.

Durante a leitura, é impossível não lembrar das inúmeras vezes que falamos a famigerada frase “aquele livro, daquela autora, sabe?” e suas variações cinematográficas, noveleiras e musicais. E é bem provável que você comece a rir de si mesmo ao recordar as situações em que inventou nomes de obras que não existem e aprontou muitas confusões ao pronunciar nomes alemães, russos ou até mesmo ingleses. Quem nunca errou ao falar Freud ou Nietzsche ou fez uma busca no Google para conferir como escreve o nome do escritor Dostoiévski, hein?

No [manual prático de bons modos em livrarias] também há uma parte destinada para as confusões que os livreiros aprontam, histórias que mostram que até mesmo quem trabalha com isso se confunde, erra e às vezes não sabe do que está falando. Através das risadas, a gente dá o primeiro passo para entender que livros são só livros, eles não servem para medir nosso caráter, inteligência ou nos dar status.

Todos esses constrangimentos servem como material para bons causos para serem postados no Medium, no Facebook ou serem contados na mesa de bar. Essa é a lição que o manual me deixou. Vamos, então, deixar a vergonha de lado e começar a compartilhar?


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Ainda hoje

A gente perde as palavras
quando vê
que a morte 
e o medo
são os meios

Os projéteis
enfiam na pele
Impedem a voz
destroem o corpo
perfuram os órgãos
a carne
a vida

Cada um deles 
tenta 
fazer desaparecer
a presença
de quem 
respirava ontem

A morte
está vestida
com roupa de gala
coberta com farda
feita com as fibras 
do poder

O silêncio não é quietude
nem sossego
é imposto por balas
facas
sumiços
dor
qualquer dor

Não há calmaria
a esperança 
é o alvo


#MariellePresente — 15/03/2018, poema escrito um dia após a brutal execução de Marielle Franco, vereadora do PSOL e militante de direitos humanos com foco no combate do genocídio da população negra e contra abusos estatais, e do motorista Anderson Pedro Gomes.

O mundo das letras

Imagem do jogo Scrabble

Numa sucessão de golpes e de candidatos falastrões que odeiam minorias conquistando o poder, chegamos até aqui. Depois de tantas maracutaias para passar reformas, apoiar guerras e explorar pessoas para fazerem roupas de pouca qualidade, o capitalismo entrou em colapso. A descrença fez surgir na população cinismo, medo, memes e luta, e o resultado disso foram anos e anos em que o mundo foi dominado pelo aleatório.

Nessa época de transição, todos os atores acreditavam fielmente que faziam algo de fato, mas a maioria apenas agia de modo automático. Em busca de um pouco mais de igualdade, alguns lutaram e forçaram a aleatoriedade para transformar o capitalismo em outra coisa, num sistema que parecia mais justo, mas que acabou também se baseando na meritocracia e na sorte de nascer na família certa, no lugar certo.

O dinheiro se transformou. Inicialmente as trocas substituíram as notas e as contas correntes. A intenção era que voltássemos a viver com um senso comunitário aflorado, mas o fim do capitalismo não derrubou os privilégios e o poder totalmente, já que nunca houve uma ruptura de fato, e a antiga elite conseguiu influenciar na construção desse novo mundo. O dinheiro passou a ser a pontuação que o indivíduo conseguia jogando Scrabble. A antiga — e nova — elite dizia que a sorte em tirar a peça da letra certa tornava o sistema aleatório, logo, justo, mas ignorava que o conhecimento das palavras existentes e alguns lugares no tabuleiro continuavam inacessíveis para parte da população.

O mundo passou a ser dividido de acordo com os idiomas. Algumas línguas não se adaptaram bem ao jogo e hoje servem só para serem faladas, o que, na prática, é inútil na hora de fazer dinheiro. Acredito que esses idiomas desaparecerão com a morte de seus falantes, já que a língua agora serve ao utilitarismo. O inglês e o espanhol são as moedas de maior força, mas o português até vai bem, já que a China o adotou por influência de Macau e da agridoce aleatoriedade.

A elite é composta por quem consegue formar, com frequência, palavras usando todas as letras do banco e por aqueles que nasceram em lotes de palavras duplas ou triplas. O tabuleiro continuou o mesmo, mas criaram um mecanismo para definir onde cada jogador nasce nele. O jogador participa do jogo de acordo com o local em que mora na vida real, o que coloca a periferia sempre nas áreas com poucos bônus. Alguma coisa mudou?

Sou classe média. Muitas vezes nasço numa letra dupla ou tripla e por isso treino horas e horas fazendo palavras com letras como Z e X, de preferência. Como nem sempre a sorte ajuda, treino bastante as letras Q, V, F e outras que também pontuam bem.

O sistema político e jurídico também sofreu modificações, mas essas ainda estão em curso em todo o mundo. Até então, no Brasil, tivemos apenas uma eleição, que foi decidida através do programa Soletrando, apresentado pelo Lúcio Hick, num canal de Youtube braço da emissora Lobo. Lúcio se tornou uma espécie de mesário bem popular e que anda de táxi nas horas vagas. A produção do programa tem algumas atribuições do antigo TSE e os espectadores, como eu, acham que fiscalizam todo o processo. Teoricamente, se a gente notar alguma coisa estranha, a gente leva para a justiça e ela decide através de análises que envolvem linguistas, gramáticos e nossos votos. Ainda não aconteceu, provavelmente vai rolar algo nas eleições regionais, por elas serem mais numerosas. Não há mais eleições municipais, porque é impossível para o Lúcio Hick apresentar tudo, né?

Quando eu era criança, uns quarenta anos atrás, eu era a única pessoa fascinada por sopa de letrinhas que eu conhecia. Eu sonhava com esse alimento, mas na vida real só encontrava letra em livro e no prato apenas argolinha, Ave Maria, conchinha, espaguete, Pai Nosso e até penne. Agora, a sopa de letrinhas é o antigo feijão com arroz e sofreu toda espécie de gourmetização possível para se tornar o grande destaque dos cardápios dos melhores restaurantes. Sigo fascinada, já que agora a gente encontra até bago de feijão em formato de letra.

Para quem nasceu no fim dos anos 1980, como eu, é bem divertido ver os novos rituais que surgiram. Para mim, mineira do interior, o mais engraçado é a mudança das cerimônias cristãs. Hoje, durante a Crisma, a galera come pedaço de dicionário embebido no vinho para fortalecer a fé e o seu conhecimento.

Estranho uma das minhas antigas diversões ter se tornado isso. Nos dias de hoje trabalho para receber letras coringa, bem elas, que sempre quis evitar usar porque antes não valiam nada, a não ser a chance de colocar uma palavra maior. Hoje o coringa vale muito e, se antes tinha que se pensar muito antes de usar, agora tem até curso que ensina a hora certa. O mundo é outro, mas também é um pouco do mesmo que vivi. É a mesma época, são as mesmas gerações e a cultura foi pouco modificada. O Scrabble não é mais só um jogo de tabuleiro, é o jogo da vida.


Texto escrito com base em tweets que fiz em minha conta pessoal em Maio de 2017.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Quem, afinal, é Grace Marks?

Cena de “Alias Grace” — Grace (Sarah Gadon) em sua cela.

“Quem é Grace Marks?” é a pergunta que nos acompanha durante todos os episódios da série Vulgo Grace, adaptação da Netflix do romance homônimo escrito pela canadense Margaret Atwood. Com Sarah Polley, como roteirista e produtora, e Mary Harron na direção, a minissérie nos prende com diálogos, boas atuações e uma personagem complexa e intrigante.

Em 1843, um crime abalou o Canadá. Nancy Montgomery, a governanta, e seu patrão, Thomas Kinnear, foram assassinados. A empregada Grace Marks, 16 anos na época, e o cocheiro James McDermott foram acusados de matá-los. Ambos foram condenados ao enforcamento, mas a jovem acabou sendo sentenciada somente à prisão perpétua.

Com base nessa história real, Atwood escreveu uma obra que nos faz pensar nos padrões de gênero da época e como eles impactavam toda a sociedade, inclusive no julgamento criminal, sem definir qualquer resposta sobre a inocência ou não da protagonista. A adaptação segue a mesma lógica.

Numa cena, ela reflete que é melhor ser uma assassina do que um assassino. Segundo ela, a primeira palavra aguça a curiosidade, enquanto a segunda nos faz pensar em um machado em movimento e sangue derramado pelo chão.

Pura e ingênua ou instrumento do demônio para tentar os homens? Uma louca ou uma sádica? Assassina ou vítima das circunstâncias? Santa ou a personificação do pecado? Mentirosa, viciada em agradar ou honesta? Grace narra sua história para o Dr. Simon Jordan e, enquanto conhecemos sua origem, seus sofrimentos e as poucas alegrias que teve na vida, percebemos que ela escolhe bem as palavras que vai usar. Ela provoca empatia, ao mesmo tempo que nos faz pensar “ela faz isso de maneira proposital?”.

Em sua narrativa, descobrimos que a protagonista é uma imigrante irlandesa que foi para o Canadá junto com sua família para fugir das perseguições que os protestantes estavam sofrendo em sua região. Filha mais velha de cinco irmãos, sua mãe morreu no trajeto marítimo e seu pai era um alcoólatra, violento e abusivo. Sem demora, ficou sozinha no mundo.

Sua vida foi marcada pela opressão feminina e suas regras opressivas e pela questão de classe. A obra conta um pouco das condições das servas do século XIX , expõe o medo constante da violência sexual e como os patrões usavam as jovens garotas que trabalhavam como empregadas. Uma realidade constantemente invisibilizada em vários estudos sobre o período, mas bem desenvolvida nessa obra literária.

O ideal de mulher era o de bela, recatada, obediente e casta. Todas as outras possibilidades eram vistas como pouco dignas. Sarah Gadon brilhou na atuação como Grace por conseguir passar essa imagem para a personagem e, ao mesmo tempo, trazer dúvidas sobre ela ser ou não ser assim. As mesmas dúvidas que ainda pairam sobre as mulheres até mesmo enquanto vítimas. Sentada na sala com o Dr. Jordan, ela borda sem parar, cita deus e fala sobre como as mulheres devem ser. “Quando você é encontrada com um homem em seu quarto, você é culpada, não importa como ele entrou”, ela diz e explicita as regras da sociedade vitoriana.

Em seis episódios, Grace nos faz acreditar, desconfiar e refletir sobre o quanto há de verdade em suas falas, enquanto nos revela os horrores dos hospícios, das prisões e das mulheres. “Quem, afinal, é Grace Marks?” é uma pergunta sem resposta. A única certeza é que a dualidade do “Santa e demoníaca? ou do “Vítima ou vilã?” parece ser algo que assombra todas as mulheres de uma época, não só as condenadas por assassinato.

Mais uma cena da série “Alias Grace”.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Leia a entrevista com a diretora da adaptação aqui.

Os rumos do Brasil, a PEC 181/15 e a obra “O conto da Aia”

Capa do livro “O conto da Aia”. Adquira seu exemplar aqui.

Há um Projeto de Emenda à Constituição em trâmite no Congresso Nacional que recebeu o apelido de “Cavalo de Tróia contra as mulheres”. O motivo? Transformaram um projeto que buscava ampliar a licença maternidade para as mães de prematuro em algo que define a vida como inviolável desde a concepção.

Se essa PEC se tornar realidade, o aborto nos casos de risco à vida da mãe, gravidez decorrente de estupro e feto anencéfalo podem ser criminalizados. Um retrocesso assustador.

Ao colocar a função reprodutiva da mulher acima de sua dignidade, isso relativiza o estupro e a visão de que mulheres são gente, como eu afirmei no meu texto “Por que a PEC 181 ganhou o apelido de “Cavalo de Tróia das Mulheres”?”.

Com o avanço da força do projeto conservador que busca controlar as mulheres, fica impossível não pensar nas relações entre o livro “O conto da Aia” com a atualidade.

Gilead é uma teocracia que se baseia no controle, especialmente das funções e do corpo das mulheres. Há Aias, Martas, Esposas, Econoespostas e Tias. Entre todas, apenas as Aias podem engravidar e sua função nessa sociedade é essa.

Quando 18 homens votaram sim para a PEC 181/15 e ela foi aprovada na Comissão Especial, eles disseram que a função das mulheres é engravidar e parir, independente dos riscos dessas gravidezes para a saúde física e mental das gestantes e da concepção ter sido ou não fruto de uma violência gravíssima. Eles mostraram que não se importam com nossas vidas, dignidade e saúde, eles nos veem apenas como receptáculos. Assim como os homens de Gilead veem as Aias, as únicas que ainda podem gestar e parir.

“O conto da Aia” é uma ficção que nos assusta tanto justamente por percebemos o quanto ela se baseia numa visão de mulher que ainda segue firme e forte no Brasil, nos EUA, no Canadá e no resto do mundo.

Não somos parideiras. Não somos receptáculos. Não somos incubadoras. Somos pessoas e temos direito à vida, saúde, autonomia e dignidade.


Texto publicado originalmente em minha página do Facebook. Se interessou pelo livro citado no texto? Adquira seu exemplar pelo meu link da Amazon.

#MeToo: a importância de se quebrar o silêncio

Imagem de YourStory

A hashtag #MeToo foi citada no Twitter mais de 800 mil vezes até a última terça-feira (17/10) e o número de pessoas participando segue aumentando. Atletas como as campeãs olímpicas McKayla Maroney e Tatiana Gutsu compartilharam suas histórias e celebridades como Lady Gaga, Bjork e as atrizes America Ferrera, Evan Rachel Wood, Lupita Nyong’o também falaram sobre.

A campanha ganhou tradução. #EuTambém e #YoTambien tomaram as redes e relatos de vários lugares do mundo vieram à tona e mostraram como a cultura do estupro se faz presente nos mais diversos lugares do mundo. A violência sexual, infelizmente, faz parte da vida de mulheres do mundo inteiro e vem acompanhada de culpabilização da vítima e do silenciamento delas.

#MeToo começou com Alyssa Milano publicando em seu Twitter a frase “se todas as mulheres assediadas ou agredidas sexualmente escrevessem #metoo em suas redes, talvez o mundo passaria a ter noção da magnitude do problema”. Seu post foi feito em apoio às denúncias de assédio e estupro contra o Harvey Weinstein, produtor hollywoodiano.

As mulheres de Hollywood resolveram falar. Os relatos continuam surgindo e a força da luta contra o machismo do meio crescendo. Além de Weinstein e seu irmão, Roy Price, da Amazon Studios, e o diretor James Toback também foram citados em relatos. James Toback foi acusado de assédio sexual por 38 mulheres.

Antes da hashtag e da multiplicação de relatos, muitas feministas temiam que o mundo e Hollywood encarassem o caso Harvey Weinstein como um fruto podre, algo isolado. Com a mobilização, escancarou-se a verdade dolorida de que há homens como Harvey nos mais diversos espaços e que lidar com o comportamento abusivo e reiterado desses caras é considerado parte do pacote de quem quer fazer parte de indústrias como a cinematográfica. As vítimas quebraram o silêncio e esse ato expôs como todos em torno delas também se silenciavam sobre o comportamento de Weinstein e de outros homens como ele.

Os movimentos brasileiros #PrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto, #ChegaDeFiufiu, #MeuCorpoNãoÉPúblico e #MexeuComUmaMexeuComTodas são bem semelhantes ao #MeToo e também ocuparam as redes sociais. A grande adesão nessas campanhas mostra não só quão grave é o problema, mas também como o silenciamento das vítimas é uma constante nos casos de crimes contra mulheres e como a teia de relatos formada fortalece a voz das denunciantes.

A catarse coletiva que essas hashtags representam mostra que as denúncias feitas por mulheres encorajam outras a também falarem sobre. Forma-se, espontaneamente, uma rede de solidariedade e empatia que impulsona outras a se abrirem e fortalece as que já se manifestaram. Essas histórias estão, enfim, sendo tiradas de debaixo do tapete e isso é importantíssimo para que haja uma compreensão coletiva do que é o machismo estrutural e que ele precisa ser combatido em todos os espaços.

Os relatos de tantas mulheres expõem uma realidade que a maioria se nega a reconhecer. Numa sociedade que culpa a vítima, dizer #MeToo é um ato de coragem, força e solidariedade. Isso é enorme, mas depois de tantas campanhas de conteúdo próximo, arrisco a dizer que quebrar o silêncio é essencial, mas precisamos ir além de expor quão ruim o mundo é para nós.

Mulheres são a grande maioria das vítimas de violência sexual. Homens, especialmente quando crianças, também são vítimas, apesar de ser em menor proporção. Há uma questão de gênero e de poder exposta em quem são as vítimas, mas também há em quem são os agressores e a gente precisa tocar nesse assunto. A violência sexual é, em enorme maioria, cometida por homens e falar sobre a construção da masculinidade se basear no poder, na violência e na visão de que mulheres e tudo que é considerado feminino são inferiores a eles é essencial para o combate desse fenômeno.

Além de expor a gravidade do machismo, a gente também precisa falar sobre as engrenagens por trás da violência que a gente chama de “violência contra as mulheres”. Sem isso, nossas denúncias continuarão sendo encaradas como menos importantes, já que seguimos sendo vistas como menos dignas que eles e, mais uma vez, toda a discussão não chegará em quem deveria, já que a violência cometida contra nós segue ignorada a maior parte do tempo.

O caso de Weinstein mostrou que muitos tinham uma noção do comportamento misógino do produtor e seguiam ignorando isso, trabalhando com ele e o apoiando de alguma forma. As vítimas quebrarem o silêncio é um passo importante, mas ainda falta a sociedade num todo encarar os relatos de crimes contra as mulheres com a seriedade devida. Enquanto isso, muitos seguirão acobertados, como o próprio Weinstein foi por anos, porque a cultura do estupro conta com o silêncio negligente de quem ignora a magnitude do problema.


Texto publicado originalmente no blog Ativismo de Sofá.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Feminismo Ilustrado: Livro reúne entrevistas relacionadas ao tema

Arte feita por Mariamma Fonseca para o livro “Você é feminista e não sabe” — Adquira seu exemplar aqui.

Sei dizer quando comecei a me definir como feminista, mas sou incapaz de determinar qual foi a primeira vez que me senti em desvantagem em alguma situação por ser mulher.

A memória não é feita de arquivos de vídeos de momentos, nem é organizada em pastas por idade e não tem um anexo em escrito sobre nossas percepções da situação quando ela aconteceu. Por isso, é difícil precisar qual foi a primeira vez que eu tive consciência de que o mundo era machista. Pode ter sido quando me impediram de jogar futebol por ser menina, quando me falaram que eu tinha que lavar a louça e os meninos não ou alguma outra situação. Eu não sei. Apesar de lembrar de circunstâncias machistas que me aborreceram nessa época, eu percebo que muitas lembranças que hoje entendo como de situações relacionadas ao meu gênero passaram batido por anos até eu tomar consciência de que elas não eram naturais e/ou certas.

Meu incômodo com a desigualdade sempre existiu, mas estar inserida numa cultura machista pode nos fazer duvidar de que esse sentimento é justo. Leva tempo para gente compreender que não estamos sendo loucas de irmos contra o status quo que define como devemos nos portar e esse processo perpassa diferentes esferas. O caminho varia, mas geralmente a gente começa de onde o nosso calo aperta. A internet funcionou como um potencializador desse processo para muito gente, já que ampliou a possibilidade de mulheres dividirem suas experiências, preocupações e trajetórias.

O canal “Você é feminista e não sabe” tem como proposta aprofundar o tema feminismo por meio de diferentes recortes e fazer com que as pessoas percam o medo dessa palavra. Por meio de entrevistas com mulheres diversas, o mundo da Outra é apresentado e conhecer diferentes realidades nos ajuda a entender melhor o porquê do feminismo ser além do eu.

Através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, Angélica Kalil e Mariamma Fonseca querem colocar no papel quinze entrevistas feitas pelo canal. Com temas variados, como maternidade, violência doméstica, cultura do estupro, história, política, mulheres lésbicas, periféricas, negras e indígenas, o livro promete ser um ótimo companheiro para todos que querem refletir sobre a realidade das mulheres.

Angélica Kalil, criadora do canal e do livro, comentou que no livro será possível encontrar informações sobre a história do movimento, termos usados pelo feminismo, personagens históricas que questionaram seu lugar de gênero e dados/informações sobre a situação da mulher no Brasil e no mundo.

Além das entrevistas, a obra contará com textos de apoio e com mais de 60 desenhos de Mariamma Fonseca para ilustrar informações e fatos citados pelas entrevistadas. “As ilustrações estão como complementos das falas e deixam a narração dessas mulheres ainda mais marcantes”, conta Mariamma.

Capa do livro

A campanha encerrará no dia 30 de setembro e, até então, apenas 60% foi arrecadado*. Através de contribuição, você pode adquirir o livro e, dependendo do valor, ganhar recompensas como pôsteres, adesivos e marcadores.

“Você é feminista e não sabe” promete ser uma leitura que acrescenta muito para quem acabou de chegar no rolê e quer saber mais sobre diversos temas, e também para quem já é velha de guerra, mas gosta de entrar em contato com novas abordagens de temas já conhecidos. Só sei que com um livro desses publicado, conhecer e difundir o feminismo será algo mais simples do que foi um dia.

*O livro foi financiado com sucesso! Quer adquirir um exemplar? Clique aqui e saiba mais. É possível comprar também pelo meu link na Amazon.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Origamis de utopia

Imagem retirada da matéria “Barco de papel gigante é criado para transportar pessoas em um lado na Inglaterra”

Depois de tudo
sigo como se fosse em linha reta
mas a estrada parece a da serra de Ubatuba
1ª marcha
e freio
para sobreviver
no passar das curvas

Seguimos atrás de uma promessa
tão bonita
dessas construídas no papel
como um origami de palavras
cheia de dobras
de vírgulas
de praias paradisíacas

Escrevo, recorto
dobro a folha
e crio um barquinho
Ele segue nas águas
se encharca
até naufragar
O papel se foi
mas o que foi escrito ainda não

Tsuru ou avião
só existem se uma mão
dobrar, dobrar e dobrar
Diz a lenda que é preciso mil tsurus
para conseguir ter um desejo atendido
Quero mil pessoas
fazendo mil tsurus
porque almejam a mesmíssima coisa
viver o sonho fantástico
do justo, do belo, do igualitário

Sonhar é meu trabalho
não remunerado


Esse poema foi feito por causa do Desafio do Editor proposto pela Revista Subjetiva. Fui uma das autoras desafiadas a escrever sobre utopia em forma de poema, tendo as palavras “distopia”, “realidade” e futuro” como opcionais.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Peripécias cotidianas olhadas com uma lupa

Elena Kalis — Underwater Fairytale

Da rodoviária de Montevidéu, peguei um táxi para meu destino. O motorista era um senhor idoso bem vestido, apesar das peças de roupa aparentarem serem bem antigas, assim como seu carro. Com as malas guardadas e o endereço informado, seguimos.

Assim que o veículo ligou, o aparelho de som começou a tocar “Sabe tchururuuuuu estou louco pra te veeeeeer, oh yessss, sabe tchururuuuuu entre nós dois um querer, eie…”

Entre os “tchururu”, os “olha eu te amoooo e quero tantoooooo beijar teu corpo nuuuu” e a informação prévia de que vivemos uma crise em nossa republiqueta, percebi como o Brasil anos 90 ainda vive até mesmo fora do país.


Quando eu era bem criança, minha mãe me disse que íamos para Belo Horizonte conhecer a Mônica. Esperei essa viagem com toda a ansiedade infantil que conhecer um ídolo pode causar. Chegando lá, descobri que Mônica, prima da minha mãe, não era a personagem dos gibis e sim uma mulher bem alta.

A decepção foi óbvia, mas a surpresa com o tamanho foi maior: “Nuh, que Monicão!”, eu falei.


Os pontos de ônibus das cidades servem como ambientação de diversas histórias. Na Curitiba, entre Augusto de Lima e Guajajaras, eu vi histórias de amores passageiros começarem com trocas de olhares apaixonados e terminarem com um dos amantes entrando no ônibus antes de qualquer “oi”. Parada ali, esperando o ônibus passar, também fiquei sabendo de roubos que rolaram no dia anterior e, com a contribuição de dois reais, fiz parte do momento em que um homem, em situação de rua, conseguiu adquirir um radinho para o grupo que fazia parte.

Uma vez, esperando ônibus às 06:40 da manhã nesse mesmo ponto, vi o amarelinho se aproximar vazio para o horário. Acenei, ele diminuiu a velocidade e passou por mim bem lentamente. O motorista me encarou, olhou no fundo dos meus olhos e acelerou. Diante desse sadismo cotidiano, o que pude fazer foi rir enquanto anotava a placa do veículo para fazer a denúncia mais tarde. Também sei ser sacana e transformar situações comuns em histórias de vingança


Muitos romances, filmes e até mesmo as novelas que passam na TV nos sugerem que a vida é feita de grandes emoções e momentos grandiosos. A verdade é que, na maioria das vezes, a maior emoção da semana é encontrar a cozinha e a área alagadas porque o cano da máquina de lavar saiu do lugar.


Nasceu uma afta na pontinha da minha língua e o meu medo agora é dar com a língua nos dentes.


Abri os olhos com preguiça essa manhã. A noite foi difícil. Acordei várias vezes durante a madrugada e, numa delas, descobri que fui servida como prato principal para um grupo bem numeroso de pernilongos famintos.

O despertador tocou novamente. Levantei relutante e fui ao banheiro. Ao me olhar no espelho, acabei me achando bem parecida com o Luan Santana. Com estranhamento, percebi que minha transformação no cantor sertanejo estaria completa se eu fizesse um coque desses que os caras estão usando e quase ri quando notei que meu cabelo está no comprimento ideal para isso. “Estou virando um galã feio!”, pensei enquanto encarava incrédula minha nova imagem.

A estranheza do momento passou quando cocei os olhos, embaçados pelo sono e pela miopia, e me percebi sem óculos.


Resfriada, cocei os olhos. Seria algo comum se eu não estivesse com o dedo sujo de molho de pimenta. O nome do molho? Brasinha.


Meu corretor troca Bolsonaro por Bolasterona sem eu nunca ter escrito isso na vida e eu fico rindo porque esse é o nome de um anabolizante descrito no google como uma droga ineficaz, muito perigosa e que deve ser evitada.


— Que barulho é esse, Thaís? Você ouviu?
— É jumento.
— Mas o som tá vindo aqui do banheiro!
— Ah, é jumento mesmo. Deve tá lá fora.

(Segundos depois, a gente descobriu que era a torneira da pia do banheiro e eu ri ainda mais porque o Lucas falou “tá vendo? Não era um jegue”)


Minha mãe acabou de me ligar para me contar que ela e o Billy, nosso doguinho, foram entrevistados quando faziam caminhada.

Minha mãe disse que perguntaram se eles faziam exercício sempre e ela respondeu que andam juntos todos os dias.

Reagi:
— Uai, o Billy não latiu nada não? Deixou você falar por ele? Não me parece muito do feitio dele isso não, hein?
E ela respondeu:
— Fora de casa ele é tímido.


Sábado vivi uma cena que caberia perfeitamente em um desses seriados de comédia que explora os pequenos absurdos do cotidiano como fonte de humor.

Um pouco antes de sair para comer canjica, dançar forró e curtir amigos, liberei o Billy, cão da minha família, para brincar um pouco na varanda. Enquanto ele mijava, cheirava tudo, corria e conferia se não tinha nenhuma lagartixa para caçar, fui me arrumar para a festa junina que me esperava.

Minutos depois, quando eu já estava com o rosto corado de blush, com minhas sardas falsas feitas, meu chapéu de palha com babadinho branco na ponta posicionado, meu cabelo em maria chiquinha na cabeça e vestido xadrez no corpo, corri para a varanda após ouvir o Billy, que é uma mistura de pinscher com chihuahua, logo muito barulhento e estridente, latir enlouquecidamente.

Ali me deparei com um cão, todo branquinho, peludinho, escovadinho e usando uma gravatinha xadrez fofíssima, rosnando, latindo e pulando na grade contra o Billy e Billy, tão bonitinho quanto, mas com certeza menos limpo, latindo de volta todo feroz. Antes de perceber o ridículo da situação, me envolvi nela e passei a correr, toda fantasiada, atrás do Billy mandando ele entrar logo em casa.

Todos estávamos muito irritados, inclusive eu pedindo silêncio. Todos estávamos muito pequenos, como sempre, e especialmente fofos, inclusive eu, que ralhava e perseguia o Billy que corria para onde cão felpudo com gravata ia.

A cena deve ter sido magnífica para os desavisados que passavam na porta curiosos com aquela barulhada.


O interfone tocou, eu atendi e o seguinte diálogo aconteceu:
— Quem é?
— Lucas?
— É você, amor?
— Uber Eats para o Lucas. (som de risadinha abafada)
— Ok. Tô indo pegar para ele. (som de constrangimento disfarçado)

Eu sou muito boa em passar vergonha, né?


Um dos meus erros preferidos de digitação e fala é chamar a tetralogia napolitana da Elena Ferrante de tretalogia.


Segundo minha mi band, hoje eu dormi melhor que 99% dos usuários. Venci a corrida de melhor dorminhoca do mundo.


Acordei com um estouro. Um gato jogou uma garrafa de Mate Couro no outro. A primeira coisa que fiz no dia foi tacar shampoo de banho a seco em um gato encharcado de refrigerante.

Tagore completamente ensopado de refrigerante ainda tentou fugir para debaixo da cama quando viu que queríamos pegá-lo. Paramos o bicho já quase em baixo do edredon. Agora ele se lambe todo, enquanto Adelaide nos observa de longe com uma expressão que diz “o que foi que eu fiz?”. Ela sabe que a situação foi criada por suas próprias patas.


Achei que tinha um vizinho distante cantando ópera na janela, mas é só uma Live do Bocelli em alto e bom som aqui do lado mesmo.


Minha mãe acabou de me mandar pelo WhatsApp um vídeo da minha vó. Pela data e pelas envolvidas, pensei que ia vir uma mensagem religiosa junto com palavras de conforto e saudade, mas no lugar veio um feliz Páscoa que uniu abraços virtuais para todos com um vídeo de recebidos de chocolate.


Decidi que vou fazer tai chi chuan, para a alegria do meu pai que defende a prática mais do que tudo, simplesmente porque ele me mandou um vídeo chamado “perfumado” que ensina movimentos com nomes maravilhosos como “dragão abana a cauda”.

VOU ABANAR MINHA CAUDA DEMAIS HOJE, AMIGUES

e não é dançando funk, é fazendo um movimento muito lento, muito lento mesmo, com os braços


Minhas habilidades na cozinha são bem na média: dá pra passar de ano, mas vez ou outra sou aterrorizada pela possibilidade de recuperação.


Tem hora que acho que estou sendo a própria Feiticeira com sua clássica mexidinha no nariz e na verdade eu estou é fazendo careta e explorando todos os limites dos meus músculos faciais. Tudo para tentar não me encostar. A rinite não dá trégua nem em tempo de pandemia.


Toda hora que lavo as minhas mãos, canto mentalmente “Dorime” em ritmo de forró, acabo dando uma dançadinha e me sinto vivendo num filtro de stories do Instagram e não no meio de uma pandemia.


A sinfonia da chuva tem vários sons característicos que todo mundo adora lembrar na hora de escrever ou contar caso, entre eles, o que tem mais cara de crônica é a barulhada de todo mundo correndo para fechar as janelas o mais rápido possível.

Ouso dizer que a movimentação humana para tirar roupa do varal, fechar as janelas rapidamente e outras atividades correlatas que unem chuva, urgência e cotidiano conseguem chamar mais atenção do que o barulho dos animais da vizinhança. E olha que pet tem carisma.


A crise na construção civil pode ser facilmente resolvida comigo fazendo uma tour pelo país. Se eu preciso de silêncio, todos ao meu redor conspiram para fazer uma reforma.


Todas as minhas histórias de terror terminam comigo descobrindo mais uma vez que aqueles sons estranhos que pareciam gemidos ou sussurros vinham da geladeira.

(Infelizmente a geladeira da casa dos meus pais, a grande protagonista dessas histórias, foi vendida e agora temos uma geladeira estranhamente silenciosa que acaba sendo mais assustadora que a barulhenta. A gente se acostuma com tudo mesmo, né?)


Acabei de ver uma mulher mais velha bem séria usando roupas “de adulta” saindo do trabalho, mas na blusa estava escrito “quebre as regras” em inglês e agora não consigo parar de imaginá-la obrigada a fazer um curso de compliance por causa dos comportamentos que ela incentiva talvez sem saber.


Eu adoro que a função real do vigia da padaria que frequento é a de acariciador de cães dos clientes.

Enquanto as pessoas compram pão e lanches, ele mima os pets.


Tenho me sentido um enorme clichê. Meu bloco de notas do celular está repleto de poemas sobre o fim do mundo e a minha cabeça não se cansa de produzir histórias de distopias que se passam no agora, agorinha.


Curte ler e ouvir “causos”? Então, confira meus textos “Janela indiscreta”, “O caso do homem explicador” , “Ainda bem que eu estava de botas” e “O brilho no olhar da mina que sempre vem comer coxinha”.

Todas as histórias postadas nesse texto foram publicadas originalmente na minha página do Facebook ao longo do tempo. Tenho copiado aqui histórias muito mais recentes do que a data da publicação desse texto. Se você gostou, me acompanhe também no Facebook, Twitter e Instagram.

Escrever como explosão

Imagem do filme “ My Brilliant Career”.

Desenhei, pintei, esculpi com papel machê. Li e escrevi. Cantei em coral, representei Pluft e falei em público. Joguei bola, dancei e toquei triângulo nas aulas de música da escola. Tive o privilégio de conhecer e experimentar uma gama de possibilidades de me apresentar ao mundo. Sem pretensão e medo de passar vergonha, eu entrei em contato com as mais diversas formas de contar histórias e manifestar sentimentos, vontades e opiniões.

Com meus ouvidos ansiosos para conhecer mundos reais e imaginários, eu escutava as narrativas adultas e infantis que eram detectadas no meu radar. Ouvi lendas, casos, cantigas antigas, risadas e adaptações de contos de fada. Com a leitura, eu descobri o que alguns estabelecimentos que faziam parte da paisagem que eu conhecia vendiam e passei a ser capaz de decodificar as letras dos livros até elas formarem palavras e mensagens.

Descobri uma infinidade de histórias e formas de contá-las. E, sem querer ou saber, me deparei com algo que faz parte da composição humana. Somos feitos de água, carbono, minerais e até nitrogênio. Somos feitos de memória e carregamos em cada célula histórias microscópicas que, em conjunto, se tornam visíveis a olho nu.

Bruxa Onilda, A Bruxinha Atrapalhada, O Fantástico Mistério de Feiurinha e várias outras obras infantis foram a porta de entrada para eu aprender a desbravar o mundo mediante a imaginação. Depois, a Agatha Christie e o suspense que mexe com a nossa necessidade de saber respostas me deixou apreensiva, com medo e curiosa. A J. K. Rowling me apresentou a possibilidade de crescer junto com os personagens de um livro com a série Harry Potter. Os livros da Coleção Vagalume me fizeram sonhar em conhecer o Egito e resolver mistérios; já Machado de Assis e sua capacidade de criar personagens humanos e ironizar nossa mesquinharia, me fez compadecer e desprezar um mesmo protagonista. Por meio da leitura, tomei conhecimento da capacidade humana de criar mundos, personagens e expor sentimentos e também provocá-los no leitor.

Em algum momento, depois de tanto ser tocada por cenas e acontecimentos escritos, eu quis ser escritora. Eu desejei afetar alguém como esses autores fizeram comigo. Eu já escrevia, mas não havia pretensão alguma de fazer desse ato algo além de uma forma de explosão. Continuei explodindo e expandindo no papel e na tela, enquanto tratava a vontade de ser escritora como um sonho desses que a gente tem dormindo.

Tirei a poeira desse sonho adormecido após ler o livro “Meus desacontecimentos”, da Eliane Brum. Na obra, ela interpreta a própria memória e nos apresenta sua infância rememorando pessoas próximas, situações e seu amor — antigo — pela escrita. O jeito que ela escreve, a forma que ela fala sobre escrever e o amor dela por ouvir e contar histórias me deu fôlego para arrancar o sonho do seu local confortável e onírico.

Li Eliane Brum relacionar a escrita dela com a raiva e me lembrei das vezes que incendiei a tela do computador quando escrevi porque tinha que escrever. Respondi escrevendo em fogo os absurdos que vi acontecer e usei, como combustível para as explosões, as dores que enxerguei no mundo e a ira que vive em mim. Lendo os desacontecimentos de Eliane, eu tive a noção do quanto a escrita vive em mim. Somos parte de uma só, porque em algum momento, eu a elegi como minha forma de me colocar no mundo. Todo mundo tem a sua, mas muitos sequer tomam consciência disso.

Expressar-se é marcar sua existência no mundo, talvez seja por isso que tantas mulheres encarem o ato de escrever — ou de pintar, ou de compor, ou de esculpir — como algo tão visceral. Tantos anos como musas, sendo apenas descritas, tendo sua educação negada ou sua capacidade literária questionada e servindo como deleite ou motivação de personagens masculinos de obras feitas por homens fez muitas de nós encararmos o ato de criar como uma forma de demarcar nosso território num mundo que disseram não ser o nosso.

Ler nos permite entrar em contato com personagens e acompanhar seus sentimentos, suas perspectivas e a realidade que foi imaginada para eles pelo autor. Além do lúdico, o escritor, muitas vezes, nos ensina a enxergar o Outro, quando nos permite vivenciar junto com um personagem mundos desconhecidos por nós. Quem escreve tem a possibilidade de ampliar a capacidade do leitor de encarar o mundo e enxergar vidas e histórias que ele não via antes e é por isso que quero tanto me definir assim. Quero fazer o invisível saltar aos olhos e contar as histórias que queria ler, que vivi ou mesmo que ouvi da boca da minha avó.


Este texto fez parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.