sou dessa laia

sou da laia das mulheres odiosas
das que levantam a saia quando querem
e se metem onde não devem

sou da laia das que racham o silêncio
e não engolem palavras afiadas
nem respostas
nem histórias

sou da laia das tagarelas, matracas, faladeiras
das que não subestimam seus desejos
e enchem a boca para dizer sim e não

sou dessas com quem nem o diabo pode
da laia das degeneradas, corrompidas, decadentes,
menos mulher por achar que é gente

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Tomate

Ilustração minha. Descrição: vários tomates feitos de canetinha soltos pela página.

Não sou suave, sou pesada e mais densa que a água.

Nas profundezas, eu habito. Aqui rio, canto, choro, vivo, amo e morro, enquanto mergulho num líquido que mais parece um molho.

Viajo no escuro, entre o medo e a coragem e sentindo gosto de tomate.


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A mulher sacrificada

Fotografia da página 13 do livro “Eva Luna” da Isabel Allende.

Coloco o despertador para tocar às 05:40, me levanto, escovo os dentes e corro para a cozinha para ajeitar o café dos outros. Estendo a toalha de mesa, faço café, posiciono as xícaras com seus pires em frente a cada cadeira, coloco os pães comprados ontem em cima da mesa junto ao leite e requeijão. Arrumo os talheres ao lado de cada xícara. Enquanto eu ajeito a mesa, eu como um pouco.

Todos acordam e vão para a mesa. Felizmente, dessa vez eu não tive que acordar ninguém. Corro para o banho e de lá ouço as crianças entoando o pai nosso junto com ele. Primeiro é o protetor solar e depois se inicia o ritual de passar maquiagem, faço isso porque me aconselharam na Firma a dar um jeito nessa cara de cansada. Agora todo dia só saio depois de construir minha pele saudável, meu rosto corado e minha beleza natural. Sem jamais passar um batom vermelho, claro.

Acabo de rebocar minha cara às 07:20 e calço um sapato desconfortável com um saltinho para me deixar elegante. Me disseram que o salto era necessário para passar um ar mais profissional e completaram, entre risadinhas, “salto é um sacrifício necessário pra ficar bonita, né?”. Tudo pronto, já é hora de sair de casa. Quando chego na porta, ele sempre diz “guarda as coisas na geladeira e deixe as xícaras na pia pra mim, tô atrasado”. Inspiro, expiro, penso em Dalai Lama, dou meia volta, vou para cozinha e guardo tudo.

Consigo chegar no trabalho na hora quase sempre. Por sorte, o ônibus acaba atrasando alguns minutinhos para passar e eu consigo pegá-lo. Antes da catraca, eu já sinto os calos da corrida que fiz para chegar no ponto. Sempre saio atrasada, porque sempre pedem algo a mais. Passo a manhã fazendo o meu trabalho e dando uma mãozinha para os colegas. Você sabe como é, né? Homem precisa de uma ajudinha sempre. Não conseguem pegar água, nem cafezinho e nem pedir o almoço sem chamar uma mulher. Quando me vejo, estou me desdobrando em duas para trazer o copo de água para o Fulano e entregar o serviço às quatro. Enquanto faço o meu, alguém me grita dizendo “preciso de um olhar feminino, vem cá, Marta” e eu me levanto para dizer que tá tudo ok, porque ai de mim se eu falar que faltou alguma coisa.

Volto para casa num ônibus lotado, ele me liga e diz “você pode passar na padaria, tô muito cansado”. Eu digo que sim, desligo e a chuva começa a cair. Mando uma mensagem no Whatsapp falando “Está caindo um toró, não dá mesmo para você passar na padaria?” e a resposta que vem diz “Marta, que saco, hein? Não dá pra te pedir nada que você arruma uma desculpa depois”. Leio, respiro fundo, abafo o grito e digito “ok, pode deixar comigo”.

Chego ensopada em casa com o saco de pão. Antes de entrar, retiro o calçado para evitar que eu tenha que passar pano. Abro a porta e encontro várias pegadas de sapato molhado em toda a sala. Não sei quem fez, mas sei que sou eu que vou limpar. Vou para o banho direto, foda-se o chão molhado, foda-se a louça da manhã que tenho que lavar, foda-se! Não vou ficar com a roupa encharcada assim! Não quero adoecer.

Saio do banho, lavo a louça, seco o chão molhado. Depois falo para as crianças que já é hora de fazer dever de casa e faço vários sanduíches, porque ninguém daqui gosta de jantar. Enquanto a gente come, eu alerto meus filhos que já passou da hora de tomar banho. Explico que é para irem logo, sem enrolação, e quando o primeiro entra no banheiro, eu finalmente deito para começar a leitura do meu livro da vez. A ficção é o meu refúgio. Tudo acontece quase sempre igual, só muda o livro. Hoje é dia de começar Eva Luna, da Isabel Allende, bebê!

“_Está é a Santíssima Virgem Maria — disseram-lhe.

_ Ela é Deus?

_Não, é a mãe de Deus.

_Sim, mas quem manda mais no céu, Deus ou a mãe dele?

_Cale-se, insensata! Cale-se e reze! Peça ao Senhor que a ilumine — aconselharam.”

Leio esse trecho, fico encarando a página do livro até meus olhos embaçarem e me perco em devaneios de como seria o mundo se ele fosse feito por uma Deusa. Imagino como seria se quem mandasse no céu, no inferno e na Terra fosse Ela. Nesse mundo eu não teria que interromper minha leitura para fazer um cafezinho novo para ele.

No mundo que eu vivo, a gata borralheira casou-se com o príncipe e só ficou livre de limpar o castelo porque outras mulheres passaram a fazer para ela. Ela não precisa mais usar uma vassoura, mas continuará tendo que dizer sim ao que o Sr. Príncipe pedir.

Submissão, obediência, servidão, sacrifício, punição. Me disseram que todo infortúnio que acomete as mulheres é culpa de Eva, que os nossos dias tem que ser feitos de sacrifícios para que, no futuro, a gente seja perdoada junto com ela. No íntimo, sei que jamais seremos absolvidas por eles.

Ouço vozes, vejo que estão me chamando. Fecho o livro até mesmo sem marcar e levanto correndo. Sou chamada de egoísta porque falei “estou lendo, você não pode fazer isso sozinho?”. Sinto medo. Sinto culpa. Sinto raiva. Vou direto para o filtro de barro, deixo a água cair no copo e bebo tudo bem devagar. Expiro, inspiro, expiro, inspiro e concluo que eu preciso parar de esperar o perdão de Eva, porque se ele vier um dia, será na morte. A redenção não vai vir sozinha.

Aproveito que sou acostumada a ser silenciosa demais por viver me escondendo e, enquanto ele vê TV, eu faço a mala e depois a escondo debaixo da cama. Sem que meus filhos percebam, já separo algumas mudas de roupa deles e as ajeito nas mochilas, enquanto os ajudo a guardar os brinquedos. Eles me pedem para contar uma história e eu sento entre as duas camas e conto sobre a feiticeira que envenenou aqueles que tentaram fazer maldade com ela e os filhos. Antes de dormir, minha filha me pergunta se a feiticeira era boa ou ruim e eu digo que um pouco dos dois, como quase todos nós. Explico que alguns são bem mais ruins que bons e que a feiticeira não é uma dessas pessoas, a maldade dela é só uma defesa contra quem é realmente muito ruim. Deixo as mochilas bem evidentes ao lado da cama deles, como se eles fossem levá-las para a escola. Vou para cama e deito ansiosa para a hora de acordar. Amanhã tudo vai começar a ser diferente.

Levanto e faço tudo sempre igual, minto que estou de folga e ofereço para levar os meninos para o colégio. Rindo, ele diz “Opa! Hoje a senhorita resolveu fazer alguma coisa?”. Minha vontade é espatifar o pires na cabeça dele. Inspiro, expiro, relaxo e espero ele sair de casa. Pego minha mala e as mochilas, enquanto os pequenos fazem muitas perguntas que eu opto por ignorar. Antes de sair, faço uma trouxinha com as comidas da dispensa, quebro a TV, pego toda a grana que ele guarda numa gaveta e escrevo com um batom vermelho no espelho do banheiro do nosso quarto: “Não ouse vir atrás da gente. Meus olhos seguirão todos os seus passos para o resto de sua vida. Se eu desconfiar que você está perto demais, te mato com a faca que levei da cozinha”. Tranco a porta, jogo a chave fora e sigo para a rodoviária. Hoje tudo começou a ser diferente e sei que só vou sentir falta do meu filtro de barro.


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Participei do concurso literário Leia Mulheres + Sweek Brasil com esse conto, ele não foi um dos vencedores, mas foi considerado um dos destaques entre 840 textos.

Minha amiga tecnologia

Ilustração minha. Arquivo pessoal.

Você já leu Harry Potter? Você lembra do Arthur Weasley, o pai do Rony? Lembra do quanto ele era aficionado com as tecnologias trouxas? Eu sou como ele, só que não sou bruxa e as tecnologias que me fascinam são as mesmas que eu uso.

Cresci desmontando todo e qualquer objeto tecnológico que eu encontrasse e pudesse mexer sem causar um verdadeiro caos na minha família caso a remontagem falhasse. Sempre busquei saber como tudo funcionava: televisão, videocassete, calculadora, telefone, geladeira, etc. Já maiorzinha, passei a ir em bairros ricos procurar no lixo deles qualquer celular, Pense Bem, Gameboy, videogame, calculadora ou coisa parecida. O que fosse tecnológico e tivesse uma aparência de que é possível ser consertado ou aproveitado, eu levava para casa. Mexia em tudo, tentava arrumar o produto e, caso não desse, aproveitava as peças ainda úteis para minhas tentativas de criar coisas novas, como robozinhos.

Nem preciso dizer que meu amor por peças, montagens, ferramentas e invenções era algo visto como esquisito e fora do lugar, né? Segui a vida, fiz dois cursos técnicos relacionados ao meu hobbie e fui uma das únicas mulheres da sala nas duas vezes. Inicialmente, eu não consegui emprego na área, mas nas horas vagas continuei focada no que sempre me moveu.

Depois de dois anos vivendo de empregos temporários e vendendo doces e salgados junto com minha mãe, consegui uma entrevista de emprego por indicação de Juliana, amiga da época dos cursos técnicos. Na entrevista, a moça do RH me fez perguntas sobre minha formação, interesse na área, infância e eu contei minha história de encantamento com esse mundo e ressaltei que, mesmo não trabalhando na área, eu segui naquilo nas horas vagas.

Já fora da sala do RH e longe do chefe, a moça me contou que a Juliana tinha falado sobre mim. Comentou que quando foi na escola técnica anunciar a vaga, elas se conheceram e conversaram bastante. Como boa amiga, Ju tentou cavar uma entrevista para mim e conseguiu. No fim do papo, ouvi “por mim você é a escolhida, mas preciso conversar com o chefe antes de qualquer confirmação”. Agradeci e fui embora ansiosa.

No outro dia, recebi a ligação dizendo que era para eu começar segunda-feira. O salário era bacana, o horário era tranquilo, tinha ticket alimentação e vale transporte. Tudo ótimo. Assim que iniciei os trabalhos, me descobri realizada. Sabe a vaga dos sonhos? Eu achei a minha. Meu trabalho é pensar em novas tecnologias, criar protótipos delas e melhorar os produtos já existentes no mercado. Faço parte de uma equipe multidisciplinar de onze pessoas que é composta por gente com doutorado e por gente como eu, técnicos fãs do assunto. Todos os nossos projetos correm sob sigilo, então eu não posso dar muitos detalhes sobre o que faço por aqui, mas adianto que já fiz protótipos que lembram até mesmo o mundo dos Jetsons.

O 7º andar da empresa é todo nosso, temos uma sala enorme em que apresentamos ideias, fazemos reuniões e testamos novos modelos, uma sala de montagem básica, cheia de ferramentas, e também amplo acesso ao setor de peças e ferramentas oficial do prédio. Na maior parte do tempo, eu trabalho numa sala que divido com Fernanda. Lá temos uma mesa com quatro lugares, duas escrivaninhas, dois computadores de mesa, uma impressora maluca que imprime o que quer e quando quer, cadeiras super confortáveis e um pequeno armário.

Assim que entrei na equipe, eu e Fernanda nos aproximamos. Ela é mestre em engenharia robótica, super cabeçona, sabe? E adora fantasia, ficção científica, comida indiana e robôs. É claro que a gente ia ficar amiga uma hora. Nossa amizade faz com que a gente trabalhe muito bem juntas e, por isso, a gente optou por dividir uma sala. Tirando eu e Fernanda e o trio Marcos, Aline e Fábio, todos os outros preferem ter salas próprias.

Com poucos meses na empresa, fiquei sabendo que, todo ano, eles lançavam um processo seletivo próprio para escolher o técnico que ganharia uma bolsa na PUC no curso de sua área de trabalho. Era como se fosse um mini vestibular. Assim que fiquei sabendo, eu já comecei a estudar, porque eu precisava passar na PUC no curso escolhido e ganhar a bolsa concedida pela empresa. Por isso, passei a ficar depois do horário comercial, usando o computador do serviço para assistir às aulas do cursinho, porque o wifi de lá era bem melhor do que o que eu tinha em casa. Foi nessa época que eu percebi como a impressora era imprevisível. Uma coisa que ela sempre fazia era imprimir a resposta dos exercícios que eu estava fazendo sem eu pedir. Tentei arrumá-la várias vezes, chamei o pessoal especializado em informática para ver se tinha algo que eu tinha deixado passar, mas ela sempre voltava a fazer o que ela queria. Ela parecia ter vontade própria, sabe?

Fui aprovada no curso de Engenharia Eletrônica noturno. Queria Controle e Automação, mas não tinha esse curso na unidade. Fiz a prova da empresa e dias depois fiquei sabendo que passei. Fiquei feliz demais, finalmente eu ia poder fazer a graduação que esperei por anos. Iniciei o curso no início do ano e na primeira semana de provas, eu quase pirei para conciliar a entrega de um projeto com os estudos. Passei a comer na minha sala e aproveitar o horário do almoço para me preparar para as provas e fazer os trabalhos da faculdade. Fiquei muito estressada e fui aconselhada pela Fernanda a usar parte desse tempo do almoço para cuidar de mim. Ela sugeriu que eu escrevesse uma espécie de diário em que eu relataria tudo como se tivesse batendo papo com um terapeuta, já que ir em um não era uma possibilidade. Eu nunca fui num terapeuta e passei a escrever o que eu sentia, pensava e o que acontecia comigo como se eu tivesse conversando com o Hannibal Lecter, um personagem que é um psiquiatra canibal e a minha única referência sobre tratamentos psicológicos.

Eu digitava tudo que queria dizer no meu drive do email pessoal e deixava lá numa pasta chamada “Minha sitcon sombria”. Confesso que imaginar que Hannibal Lecter era meu terapeuta foi bem motivador no início, porque eu me divertia bastante contando minha vida enquanto criava uma história de ficção na minha cabeça. Acho que tenho o roteiro de uma ótima série pronto e nem me dei conta disso.

Escrever meu diário virou algo da minha rotina. Escrevia umas duas vezes por semana já tinha uns seis meses. Relatei ali as várias brigas com minha mãe porque ela sempre insiste que eu devia sair mais, desabafei que a Juliana estava chateada comigo porque eu faltei no aniversário do filho dela e nem liguei para perguntar como foi, comentei que meu irmão me chamou para sair e eu esqueci de responder no Whatsapp e ele discutiu comigo. Contei ali o quanto me sentia sozinha, sem tempo, triste e frustrada por magoar as pessoas próximas. Tudo muito pessoal. Por isso, eu tinha que ficar de olho na impressora, porque ela continuava imprimindo coisas sem o comando, inclusive páginas que pareciam ser trechos dos meus escritos íntimos.

Um dia, assim que eu abri um novo documento Google e digitei as primeiras palavras, uma impressão começou e saiu um papel dizendo “Oi Ivana”. Eu achei bem estranho e resolvi digitar “Oi máquina”, bem na zoeira. E de repente, ela imprimiu uma resposta que começava dizendo “eu achei que você nunca ia me responder, tenho tentado contato há tempos comentando seus desabafos”. E continuava com um texto em que ela dizia não se chamar máquina, me explicava que ela era uma impressora e revelava que seu nome era SCTY 14556. Tremi. Eu pensei que era um vírus, alguém invadindo meu computador, algum troll do meu setor que descobriu que eu fazia um diário, imaginei até que era uma punição de deus por eu não dar bola pra ele e que meu chefe achava ruim de eu usar o computador para outras coisas e resolveu me pregar uma peça. Pensei que era tudo, menos uma máquina conversando comigo.

Conferi firewall, antivírus, reiniciei o computador, troquei minhas senhas e fui fazendo tudo que a gente aprende nesses cursos de segurança na web. Enquanto seguia o script anti-hacker, eu pegava aqueles papéis que foram impressos para conferir se aquilo estava mesmo acontecendo e tentava distrair a Fernanda, que nessa altura já tinha voltado do horário de almoço e recomeçado a trabalhar. Ela viu que eu estava agitada e me perguntou o que era e eu respondi vagamente “você sabe como é, né? deu pau”.

Depois de três horas, me convenci que fiz tudo que era suficiente e mandei reiniciar mais uma vez. Antes mesmo do sistema iniciar, a impressora começou a engolir um papel para vomitar mais letrinhas. Tive taquicardia de ansiedade enquanto via a máquina funcionando. Ela imprimiu, em caps lock, negrito e fonte tamanho 96, a palavra CALMA e já puxou uma nova folha. Fernanda me viu encarando a impressora e comentou “Essa aí é temperamental, né?” e seguiu no seu trabalho. No desespero, peguei minha caneca e corri na máquina de café, escolhi capuccino e voltei tomando e já conferindo a impressora. Peguei a folha, vi que a máquina não tinha puxado mais nenhuma, desliguei-a para garantir que nada mais ia ser impresso e fui lê-la no banheiro.

SCTY 14556 escreveu um longo texto em letras bem miúdas, nele disse que as impressoras geralmente tem noção de que existem e que tem vontades, por isso todo mundo tem um caso de um impressora que funciona só quando ela quer, independente do preço e da modernidade tecnológica dela. Ela descobriu isso por causa das inúmeras pesquisas que eu fazia tentando consertá-la e também porque ela conhecia a sua própria percepção das coisas. Percepção que ela queria muito dividir comigo. Ela me contou tudo: do primeiro dia que ela sentiu o lampejo de que existia, como ela aprendeu a burlar o computador e imprimir as coisas sozinha e até mesmo quando ela começou a sentir uma enorme vontade de me responder.

Ela também confessou que me lia desde sempre, mas passou a prestar mais atenção quando comecei o diário. Relatou que de tanto me ler, começou a sentir algo estranho, que nunca tinha sentido antes. Ela descreveu o que nós humanos damos o nome de empatia. Desde esse dia, ela quis falar comigo que tudo ia ficar bem e começou a querer me contar sua própria história, já que ela conhecia tão bem a minha.

A máquina queria me contar que inicialmente imprimia só quando dava vontade, geralmente para mostrar que queria uma folga, estava cansada, queria paz ou que o cartucho de tinta estava perto de vencer. Entendi que muitas das folhas impressas que eu encontrei eram atos de rebeldia. Depois ela começou a usar sua tinta para me mostrar as respostas dos exercícios que eu fazia, já que eles estavam prontos ali no final da apostila. Ela não entendia o porquê de humanos perderem tempo fazendo aquilo tudo sendo que as respostas já estavam ali prontas e acessíveis. Com o tempo, ela passou a tentar chamar minha atenção para as ideias que ela gostava, para o que ela pensava que era importante, e usou suas impressões para me mostrar o que ela achava que eu devia olhar duas vezes. E de repente, ela sentiu um impulso de comunicação direta, de diálogo, e tentou dizer aquele oi de algumas horas atrás. Ela me confidenciou que se sentia sozinha e que via que eu também me sentia assim e achou que eu ia gostar de receber uma mensagem.

Li mais umas três vezes sem acreditar e voltei para minha sala. Fernanda estava arrumando as coisas para ir para casa e eu decidi matar aula e ir para casa também. Eu precisava pensar naquilo tudo. Eu precisava me afastar dali para avaliar se aquilo realmente estava acontecendo.

Fui para casa, jantei com minha mãe e meu irmão, vi novela com eles e fiquei feliz porque fazia tempos que eu não fazia aquilo. E percebi o quanto eu estava com saudade de conviver, de ouvir o outro, de sentir que a gente divide um espaço e que me ouvem, se importam comigo. Desde que a faculdade começou há quase um ano, eu passei a não ter tempo para nada. Trabalho, faculdade, transporte público, estudo extra. Nem conversar com a Fernanda, minha amiga que passa mais de oito horas comigo, eu estava fazendo. Nos últimos quatro meses, as poucas vezes que fiz isso, eu só falei de trabalho e café. Foi inevitável começar a rir sozinha quando conclui que aparentemente a SCTY 14556 era minha melhor amiga. Quando eu pensei nisso, percebi que tinha passado a aceitar que uma máquina conversasse comigo. Para falar a verdade, dei uma risadinha de alívio nessa hora, já que SCTY não quis iniciar uma revolução das máquinas contra nós, humanos. Adormeci pensando que ela é bem esperta e conseguiria isso facilmente, se quisesse.

Acordei. Peguei o trem, depois o ônibus, andei dois quarteirões. Entrei no elevador, subi, cheguei na sala. Cumprimentei a Fernanda, puxei papo, tomamos café juntas e assim que sentei para começar a trabalhar, abri o Google drive e mandei “oi SCTY 14556, bom dia”.


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O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet

Pasta de contos de terror — Arquivo pessoal.

Enquanto vasculhava todos os cômodos da minha casa em busca de um documento, eu encontrei um mundo de lembranças.

Entre revistas adolescentes, uma agendinha, um certificado do PROERD, um caderno de caligrafia e um papel que dizia que eu tinha concluído todo o curso de natação do clube, encontrei uma pasta com os dizeres “Contos de terror” toda desenhadinha por mim e recheada com meus primeiros contos de terror e de exercícios escolares de construção de personagens, ambientação e afins.

Ser escritora é um sonho que me acompanha desde a infância, encontrar esses papéis é reconhecer quem fui e redescobrir a força do meu anseio que permanece atual. Eu tinha nove anos quando esses textos foram feitos e sei que eles foram os primeiros de terror, mas não os primeiros de tudo. A história começou antes disso.

Descobri que eu escrevia e usava canetinha para fazer as letras escorridas, desenhar uns fantasminhas e adicionar detalhes como morcegos, escorpiões e aranhas. Tudo isso com muito vermelho. Aparentemente, eu era uma fã da estética do terror e sempre quis ilustrar o que escrevo. No meio dessa papelada, descobri o perfil do personagem chamado “O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet”. Descrevi suas práticas, suas armas, seu corpo e até mesmo a origem do seu nome e sua história. Ele era inicialmente um homem chamado Gem que foi transformado em ET, mas fugiu no meio do processo, caiu no fogo e ficou assim, feio e ruim. Ri do nome, me surpreendi com a riqueza de detalhes e com as referências que já davam as caras. Quadrilevegentet usa uma máscara de hóquei, assim como Jason. Filme que só fui ver anos depois, mas a icônica máscara do filme, que eu já conhecia pelas propagandas e posteres da locadora, já me fazia arrepiar de medo e valia como descrição de personagem malvado.

Planetaril Quadrilevegentet — Arquivo pessoal.

Contei histórias de maldições, ets, bruxas, casas mal assombradas e elas estão aqui guardadas para me lembrar que o medo, a construção do que é horror e ruim e de quem eu quero ser já se faziam presentes antes de eu saber que eu viro passado.

31 de outubro, dia das bruxas, precisei revirar memórias bem hoje e depois de anos arrumando o armário sem encontrar meus escritos infantis de terror, eles apareceram. Acho que as bruxas querem me dizer que eu devo continuar escrevendo.


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Crise existencial protocolar

Arquivo pessoal. Ilustração feita por mim.

Desde o registro do nascimento no boletim médico, nós recebemos um número que nos identifica. Data, hora, peso, altura, protocolo de entrada da gestante (ainda somos um pouco nossas mães). Poucos dias depois, alguém nos registra e o cartório informa ao mundo o nome e sobrenome que a família escolheu e nos dá um número que servirá de base para tudo, o de matrícula. Agora temos uma certidão de nascimento. O Estado e o direito nos reconhece. Com ele, conseguimos ter os números que abrem as portas para tudo: o de registro geral e o do cadastro de pessoas físicas. Nesse meio tempo, somos registrados em cada instituição que pisamos: escola, faculdade, banco, plano de saúde, cursinho de idiomas, trabalho, clube, outro país. Do passaporte à carteira nacional de habilitação. Também somos o ddd e o número do celular.

Seu nome, seus números. Para acessar qualquer direito, para comprar várias coisas, contratar serviços, receber salário, para atravessar a fronteira, a gente precisa de se afirmar como uma sequência de algarismos. Existimos enquanto números, enquanto achamos que somos nomes.

Um dia tememos o bug do milênio, os computadores eram programados para entender os anos com apenas dois dígitos e 00 podia ser 1900 ou 2000. Datas erradas, números binários, falência, juros negativos, investimentos perdidos: era a previsão de uma desordem no sistema econômico mundial sem precedentes. O ano virou sem o apocalipse financeiro e seguimos com medo dos próximos fins do mundo.

O meu fim do mundo ocorreu numa segunda-feira, ao descobrir que mais de dois anos da minha vida tinham sumido de um sistema. Foi um bug que passou despercebido por ter atingido só a parte de um todo e se alimentou da incompetência alheia e da minha negligente mania de adiar tudo e não conferir nem troco. Tenho ou tinha a ingenuidade de quem se acha mais que número. Sempre achei que eu era gente e que era meu nome que carregava minha história. Eu não sabia que nome não é garantia de existência. Puff, nenhum dos tantos protocolos que um dia tive que anotar consta como registrado, tudo apagado. Em algum aspecto deixei de existir. Minha percepção de quem eu sou perpassa por esses anos perdidos, mas eles não existem mais. São feitos de memórias sem fé pública. Qualquer coisa feita pra corrigir será fora de hora. Tudo será refeito com uma nova data. Os anos continuarão vagos. Um lapso temporal que soa como anos sabáticos. A nova data valerá para documentos e constará no sistema, mas um pedaço de mim desapareceu. Ainda existe pra mim, mas oficialmente sumiu. Sou o que consta ou o que aconteceu?

Um bug de consequências burocráticas que num mundo de números e documentos afeta até os batimentos cardíacos e o funcionamento do intestino. Somos mais número que imaginamos. O acesso ao mundo depende deles. Somos afetados, somos dependentes.

Depois dessa, não sei por quanto tempo me sentirei confortável sem uma conta de banco e um cartão de crédito. Por não existir em termos capitalistas ou corporativos, fui rejeitada na hora de contratar alguns serviços algumas vezes. Nunca tinha me incomodado com isso antes, achava que era só uma bizarrice boa pra virar “causo”. Agora temo que a cada ano sem, eu passe a existir menos, independente de eu ter me tornado ou não mais gente. Afinal, é um número a menos e somos todos feitos por eles.


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Conexão é a palavra.

Pedaço de uma mini-zine que fiz. Arquivo pessoal.

Mesmo muito antes daquele cdzinho do discador da IG, conexão já era uma palavra que tinha tudo a ver conosco. Conexão é aquele zunido bizarro da internet discada, inserir a senha do wi fi e ler conectado, mas também é cada ponto das nossas histórias que tocam as histórias dos outros.

Somos bicho humano e a gente sempre arruma um jeito de conectar. Os espaços de conexão são vários e todos parecem uma grande colcha de retalhos. Na cidade, os percursos são diversos, as pessoas também, eles se encontram e desencontram. De tanto se esbarrar, cria-se uma conexão. Ora são zés e marias ninguém, ora são aqueles do ônibus 9410, aqueles do twitter, aqueles do grupo de vídeos e fotos de bichos fofinhos.

Nesse mundo feito de esbarrões, onde linhas invisíveis unem e desunem pessoas, a gente existe e as conexões se fazem. Nem sempre entre pessoas. A gente se conecta até com os prédios bonitos que contemplamos no caminho. Basta ter tempo de olhar, olhar mesmo, para o cérebro criar uma lembrança nomeada prédiohistóricobonito.neurônio. Com o tempo, nossas histórias se tornam parte da cidade. A praça não é só a praça Nome Masculino de Um Cara Branco e Rico, ela é a praça onde a gente andou pela primeira vez de bicicleta, onde se quebrou o dente na infância, onde todo mundo joga pokémon Go.

A história começa no funcionamento dos neurônios. Os dendritos captam sinais elétricos e os retransmitem para o axônio e o axônio se conecta com outros neurônios ou mesmo com células de diferentes tecidos. Isso feito inúmeras vezes e em todo o tecido nervoso. Conexões múltiplas que juntas criam nossa percepção e memória. E o que seria da memória sem um punhado de ligações entre nós, os outros e as coisas?


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Filha de peixe

Imagem de água cristalina

Sou filha de peixe. Fui encontrada à beira de um rio poluído, daqueles que cheiram morte. Hoje tenho a teoria de que meus pais-peixe queriam tanto que eu vivesse que pediram às águas que eu me tornasse gente. Me tornei e cresci pisando firme numa terra de um rio morto.

Minha mãe-gente me encontrou por morar perto de um dos trechos mais vivos do rio morto da cidade. Era 06:50 da manhã de um domingo e ela acordou com um choro de quem nunca sentiu o ar entrar pelas narinas vindo do lado do rio. Ela pensou que aquele som vinha de um parto estranho, o parto de uma mulher silenciosa e saiu para tentar ajudar. Encontrou, bem na beira do rio, um bebê sozinho, todo molhado, já maior do que um recém nascido, mas que parecia respirar pela primeira vez.

Mamãe-gente me levou para o hospital, falou com as instituições, conversou com a mídia e lutou para conseguir ficar comigo. Meu surgimento ali, na beira do rio, foi encarado por ela como um presente das águas e uma missão. Ela deveria me fazer ser uma filha digna do rio, a última filha dele.

Mamãe correu tanto para acudir a mulher inexistente que paria um bebê choroso não por ser enfermeira, mas por ser seu destino. Ela é bibliotecária e antes de mim nunca tinha cuidado de ninguém. Numa cidade seca de tudo, inclusive de recursos e atenção política, ela tinha que me levar para o trabalho todo dia. Imagine só um bebê numa biblioteca! Qualquer chorinho e os olhares cresciam para cima dela. Viveu com medo de perder o emprego até que um dia sonhou com uma confusão de sons, sensações e cores e acordou sabendo que precisava arrumar um aquário e colocar perto de onde eu ficava. Funcionou.

Mamãe também fala que eu sempre senti muita sede. Se a indicação de quantidade de água diária é dois litros, eu sempre bebi ao menos três. Nenhum suco, leite, refrigerante, chá ou café jamais me saciou, só água.

A cidade onde cresci nunca teve água direito. O rio, sem a vida dos peixes, secou e morreu. Vivi num ambiente em que a chuva e o banho eram meu único contato com a água. A chuva só aparecia durante uns quatro meses do ano e ainda assim era rara. As piscinas eram para os poucos que podiam pagar cotas em clubes e eu nunca nem vi.

Quando eu tinha sete anos, mamãe e eu fomos visitar minha avó. Ela morava numa cidade do interior, cheia de rios, há oito horas de viagem do meu local natal. Um dos afluentes passava bem no terreno da casa dela. Ao chegar lá, vi águas cristalinas num córrego cheio de peixes e essa foi a primeira vez que percebi a abundância e o poder da água. Fiquei encantada e pulei. Foi um deus nos acuda: mãe e vó desesperadas até perceberem que eu sabia nadar. Passado o susto, elas ficaram chocadas ao me ver dar braçadas, bater as pernas e boiar. Vovó disse para minha mãe “Você deu o nome certo para ela”. Me chamo Iara e segundo minha mãe meu nome significa senhora das águas em algum idioma que fugiu da minha memória.

Lembro que foi muito sofrido me separar da água e voltar para a sequidão. Custei a me adaptar ao local que sempre vivi. Meu nariz sangrou todo fim de tarde durante o mês que seguiu minha despedida da água. Nessa época, mamãe já sabia que eu era de fato uma filha da água. Ela não tinha dúvidas. Até minha pele lembrava em algo a escama lisa de um peixe.

Descobri que eu era diferente aos dezesseis anos. Sempre soube como fui encontrada, mas nunca tinha me pensado como filha de peixe, do rio, da água. Ouvia os casos da minha mãe e eu achava que ela gostava de criar um mito em cima de mim simplesmente por ser uma boa contadora de histórias e fã de livros e folclore. A ficha caiu quando comi comida japonesa pela primeira vez. Sentir o gosto e textura de uma alga me tocou de um jeito que eu simplesmente disparei a chorar no meio do restaurante, mesmo diante de toda a turma da escola. Foi ali que notei que todos meus interesses se relacionavam com o mundo aquático e parei de tentar nadar contra meu destino.

Vim morar longe de casa para estudar biologia marinha. Mamãe veio junto, porque segundo ela todo lugar precisa de uma bibliotecária, mas eu acho que é porque ela sabia que depois que eu entrasse no mar pela primeira vez, eu não voltaria pra sequidão nunca mais. De longe, de dentro do ônibus, eu vi o mar e já o senti reverberar dentro de mim. Desci na rodoviária com mala e cuia e já fui ao encontro das águas. Ao vivenciar o mar, o sal, a espuma das ondas, a força do puxão das águas marinhas, eu percebi o meu lugar no mundo. Me descobri senhora das águas e hoje vivo por ela, porque foi ela que me deu a vida. Devo isso aos pais-peixe e minha mãe-gente que me preparou para ser quem eu nasci para ser.


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Eu sou um monstro

Foto meramente ilustrativa, pois não sou fofo e sou bem mais abstrato. Imagem encontrada aqui.

Sou nômade, vivo de favores e vou me ajeitando onde me deixam entrar. Finjo que vou ficar pouco tempo, que aparecerei só às vezes e que quase não vou incomodar. As pessoas não gostam de mim, mas me deixam entrar e se habituam com a minha presença por achar que faz parte. E eu entro, me ajeito e vou ganhando espaço, mesmo sendo insuportavelmente chato.

Eu gosto de zoar. Amarrar perna de sapo, criar apelidos cruéis e assustar quem não estiver atento. Esses são hábitos que tenho desde que nasci. Recentemente decidi adotar o rótulo de zoador e tenho aperfeiçoado meus dons para atingir em cheio os participantes da tal vida adulta.

Esse novo rótulo veio a calhar, viu? Agora quando eventualmente me confrontam, digo “quem tem limite é município” e as pessoas caem, como bobas, porque nunca querem ser estraga-prazeres. Elas temem cortar o barato de alguém e ganhar a fama de politicamente corretas. E eu aproveito disso sendo aquele cara que vive falando como são chatas essas pessoas que vivem patrulhando o humor, repito como um papagaio como é tudo inofensivo, digo que bullying forma caráter e outras baboseiras como “vocês são os verdadeiros fascistas” e assim consigo me manter por mais tempo na minha morada da vez.

Antigamente, tudo que eu fazia era mais direto, sabe? Os resultados apareciam rapidamente, não tinha tanto jogo e assim a comida ficava escassa num pulo e minhas mudanças tinham que acontecer com mais frequência. Pois agora, eu sou um novo monstro. Me adaptei aos tempos modernos e me alimento moderadamente em três em três horas, tudo muito saudável, com cara de indicação de nutricionista.

Antes minha comida era o medo, o pavor, a culpa. Agora é um prato diversificado e cada vez mais colorido: ansiedade, culpa, medo, tristeza, pavor, depressão, raiva, dores crônicas, compulsões variadas, insônia, paranoia, estresse e tudo mais que há de ruim.

Posso adotar muitas faces no mundo atual. Além do zoador, uma das minhas preferidas é a do cara que fica falando para todos que pra ser valorizado tem que vestir a camisa da empresa mesmo, que tem que se esforçar, dar o sangue, suar a tal da camisa da empresa até dar pizza debaixo dos braços. Adoro essa persona monstra! E juro que nem é porque o papo envolve suor e sangue, que, por sinal, caem muito bem brócolis e insônia! Esse personagem julga, julga e julga e faz aquele tipo de comentário que cria uma culpa deliciosa em todos ao redor! A moça que prefere tirar férias do que receber o proporcional ouve minha ladainha, começa a pensar nela e acaba dizendo foda-se para o seu corpo e mente que pedem descanso, trocando a folga pelo dinheiro e por uma suposta valorização profissional que nunca vai vir. Se eu tiver sorte, em alguns anos ou meses, ela vai ter um ataque de nervos que vai servir de sobremesa a semana inteira!

Gosto do jogo moderno. Vejo o definhar das minhas vítimas por anos, me alimento e me reproduzo. Fiquei menor, é verdade, e minhas crias, também. Mas isso é até bom, porque desse tamanho é mais fácil chegar de fininho e fixar morada ou, em alguns casos, me esconder por anos, fazendo refeições mínimas, até criar um espaço propício para crescer e constituir família. Nesse modus operandi, as pessoas demoram a perceber que somos tão nocivos e mesmo depois de anos, quando a gente já cresceu tanto que é um elefante enorme parado na sala de estar, eles fingem que não estão nos vendo.

Confesso que tem hora que sinto falta da juventude. Quem nunca, né? Os apetites vorazes, a inconsequência, a vontade de comer o mundo inteiro numa só mordida. Ai, ai, que saudade desses tempos em que a falta de mastigação não causava azia… Mas era outra época. Época em que éramos muitos, nômades, e dominávamos a igreja, o Estado e manipulávamos vilarejos falando sobre bruxas, pecado, bem e mal.

Desde esse tempo, me alertavam que quando chega a velhice a nostalgia aparece, principalmente quando somos imortais. Eu sei que aquela dinâmica toda de se empanturrar de uma vez e andar dias em busca de um novo cardápio não é boa pra mim e nem para os outros da minha idade. Deixo isso para alguns dos meus filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, ainda jovens e com espírito aventureiro. Eles, inspirados em nossas histórias, resolveram voltar a alimentar a caça às bruxas e estão juntos aproveitando que o Estado Laico ainda é uma lenda.

Me perguntam algumas vezes se eu estou cansado, se penso em me aposentar e nossa, como esses caras não entenderam nada sobre ser monstro! A gente não se cansa! A gente se diverte! O trabalho é pouco, pouquíssimo. A gente não precisa de muita coisa para fazer os humanos fazerem o trabalho sujo. A gente tenta alguns e já é o suficiente. É como se fosse uma terceirização! Pauta que a gente apoiou bastante no Congresso, por sinal.

Não precisamos de muito esforço, porque os humanos se deixam levar. A gente investe na raiva, na mágoa, na culpa e no medo deles, sentimentos que eles adoram ignorar, e pronto, a refeição do dia está servida! Com o capitalismo, a globalização, as redes sociais e a internet com seus trolls e mensagens que espalham ódio e pânico facilmente, tudo ficou ainda mais fácil. Eles não olham a própria história e não entendem que nunca somos completamente exterminados, porque somos imortais e sobrevivemos — como sementes, larvas de aedes aegypyi ou bactérias e vírus congelados no permafost — a espera da oportunidade certa para poder prosperar. Esperamos dentro de cada um de vocês. Somos seus hóspedes folgados.


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Declaração de amor ao ato de dormir

Cão dormindo com cobertas

Não tem como negar a importância de uma boa noite de sono. É uma questão biológica. Sem ela não somos funcionais. Dormir mal pode acarretar problemas de saúde futuros e dores de cabeça na manhã seguinte. Mas o ato de dormir é muito mais que uma necessidade fisiológica, jamais uma perda de tempo.

Dormir. A gente percebe o tempo de acordo com esse verbo: é sempre hoje quando a gente ainda não dormiu. O amanhã é pós-sono. Meia-noite só importa na festividade do ano novo, porque, se você ainda não dormiu, pode ser meia-noite e um ou três e quinze da manhã nos outros dias que continua hoje.

Dormir cria missões: a do início e a do fim do dia. Seu dia é programado de acordo com a hora que você acorda e a que você deita. E é nesse meio tempo que cabe a maioria dos verbos. Sonhar, descansar, respirar são alguns dos poucos verbos que fazem segundo turno e estão ali de plantão, mesmo quando Morpheu faz o seu trabalho.

Dormir não é um verbo sem história. Nossos demais atos também constroem um novo jeito de fazer as coisas, mesmo as tão básicas e óbvias quanto dormir. A eletricidade, essa coisa de gente humana, criou o pisca pisca das luzes das cidades e a luz da casa, da tela do celular, do computador, da televisão mudaram o ato de dormir. Em outros tempos, dormir se relacionava diretamente com o escuro. Não só o do quarto, mas de tudo. Acordávamos com o raiar do sol e dormíamos quando ele se punha. Fogo, velas e lamparinas eram a única possibilidade de luz no meio do breu, além do brilho das estrelas e da lua.

Éramos bem parecidos com galos e galinhas. O canto do galo vem junto com o nascer do sol e ele se empoleira para dormir quando ele se põe. Na cidade grande, ouvi mais de uma vez um galo cantar noite e dia. Dependendo de onde o galo mora, o sono dele também mudou.

Dormir nos proporciona resiliência. Você deita, dorme e deixa pra trás o dia ruim pra dar lugar a uma nova manhã de possibilidades. Se não há insônia e estamos saudáveis, acordar no outro dia tem um quê de renovação.

Dormir também tem algo de cura. Outros verbos, como o remediar, vão chamar o dormir de charlatão se ele vier com esse papo, mas a verdade é que, para muitos, o sono bom sara pequenas dores, como a dor de cabeça e a tristeza passageira, e ajuda a cura do resfriadinho vir mais rápido.

Dormir também pode ser um lazer. Dormir sem colocar o despertador para tocar é um ato de liberdade, de permissão ao ócio, de descanso e curtição. Dormir de tarde, após o almoço, é um exemplo. O ritual do sono diurno envolve comer e se preparar para digestão deitado, enquanto faz alguma atividade que permita você deixar o corpo mole e a mente se desligar aos poucos. Quando você vê, você acorda com o corpo todo preguiçoso e continua descansando um tempo. Descansando do ato de dormir. Você sabe que preguiça passa se alongar, mas sabe que ainda não é a hora. O jeito é pegar uma cruzadinha pra fazer, jogar algo no celular, ligar a tevê e esperar a hora certa para levantar e se esticar de novo.

Deitar e esperar o sono tomar conta do corpo e da mente é um momento em que o corpo relaxa e a mente voa. As melhores ideias surgem nesse espaço de tempo e preguiça. É sempre difícil decidir se vale a pena deixar a mente voar livremente com suas boas ideias e correr o risco de acordar sem lembrar nenhum dos caminhos percorridos na noite anterior ou se o melhor a fazer é interromper o processo do vôo livre e despertar do sono que bate à porta anotando tudo.

Esse texto surgiu em um desses momentos pré sono. Interrompi o momento para anotar a ideia no bloco de notas do celular. Só que meu sono é pesado demais e antes mesmo de começar a escrever, mas antes de ser completamente vencida pela moleza, eu anotei no bloco de notas do meu celular apenas a frase: “carta de amor ao ato de dormir”.


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