O universo alimentado pelo grão de arroz

Imagem retirada de uma publicação da Revista Globo Rural

Sentei em frente ao computador para almoçar. Entre uma garfada e outra, eu lia notícias e trocava mensagens com meus contatos. Concentrada na leitura, deixei cair um grão de arroz no teclado. Ele caiu bem entre as teclas, já se ajeitando para ficar bem longe dos meus dedos. Funcionou. Quanto mais eu tentava tirá-lo dali, mais ele se encaixava e se enfiava, até que perdi o arroz de vista.

“Por que narrar um pequeno acontecimento desses?”, você pode se perguntar. E eu responderei que por mais simples que seja um acontecimento, ele pode virar uma história. “Mas o que pode estar por trás de um grão de arroz caindo num teclado?”

Alguns diriam que essa é só mais uma história da lei de Murphy agindo, diriam até que essa era uma tragédia anunciada. Tudo que pode dar errado, dará. Comer em cima do teclado é um risco. Retirar o pendrive sem remover hardware com segurança também. Risco do século XXI, sabe? Outros, como eu, acham que pode até ter a atuação da lei em questão, mas suspeitam que tem uma história por trás desse arroz irresgatável.

Dizem “não coma em cima do teclado, qualquer farelo pode atrair um mundo de formigas”. E quem não ouve esse conselho acaba se chocando com as tantas poeirinhas, nojeirinhas, sujeirinhas e claro, as bactérias, ácaros e vírus, que não podemos ver, que encontramos ao fazer uma limpeza do teclado. Para mim, tantas migalhas reunidas é um indício de que há um universo além do nosso em cada teclado.

Esse universo se sustenta com os pedaços de pele morta que deixamos para trás a cada toque, com os pedacinhos de comida que deixamos cair, com o que o vento leva para ele e com as várias outras formas de juntar sujeira que existem. Note a importância do arroz nesse contexto: ele é uma enorme fonte de alimento que não surge todo dia. E agora você vê como a narrativa desse acontecimento bobo pode ser diferente?

O arroz caiu e foi impossível pegá-lo para jogá-lo no lixo, porque o universo presente ali e invisível aos meus olhos, o arrastava para debaixo das teclas. Eles queriam aquele arroz. Eles precisavam daquele arroz. Quando ele caiu, um mundo de possibilidades de novas vidas surgiram e por isso ninguém queria deixá-lo escapar. E agora? Agora eu preciso limpar meu teclado antes que esse universo fique grande demais e engula um cômodo do meu apartamento.


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O mundinho por trás da anulação da vez

Imagem do Congresso Nacional retirada da Wikpedia

09 de maio, 2016.

O horário de almoço do brasileiro foi marcado por conversas em que todos os presentes teorizavam sobre a manchete “Presidente em exercício da Câmara anula votação do impeachment da Dilma”. Antes da última garfada, havia mais teorias sobre o que motivou Maranhão, presidente interino da Câmara agora que Cunha foi afastado, do que especulações sobre o que vai acontecer na série Game of Thrones.

Todos querem saber o vai acontecer e, de tão acostumados com esse clima político semelhante ao da série House of Cards, todos também querem presumir quais as articulações nortearam esse acontecimento. A sociedade clama por uma cobertura próxima ao que o site Ego faz dos famosos para saber detalhes dos últimos dias de Waldir Maranhão e assim alimentar suas suposições. Todos querem saber com quem Waldir Maranhão fez suas últimas refeições. Todos querem sabem se ele teve um encontro secreto e com quem. “Será que foi Cunha querendo mostrar seu poder na Câmara mesmo afastado?”, perguntam vários. Enquanto outros largaram as especulações de lado ao lembrarem que a comida ia acabar esfriando e optaram por parar de presumir e começar a mastigar.

Eu, narradora onipresente, dona dessa história, sei muito bem o que está por trás disso tudo. Para entender o que aconteceu, a gente precisa voltar ao fatídico dia 17 de abril de 2016.

Durante a votação pela admissibilidade do impeachment da presidenta Dima Rousself, a maioria dos deputados citaram deus e membros de suas famílias em seus votos. Um deputado, ao citar vários e vários familiares, se esqueceu justamente de seu filho e tentou corrigir o erro voltando ao lugar onde se proferia os votos e citando o nome do menino esquecido. Ele, esse mesmo, o cara que esqueceu de falar do rebento, é o articulador da anulação da votação. Liderados por esse deputado, parlamentares agiram para que uma nova votação acontecesse só para esse senhor voltar a ter paz nos grupos de família do Whatsapp.

Eu, a narradora que tudo vê e ouve, mais uma vez dei uma de intrometida e por isso ouvi todos esses caras confessando uns para os outros coisas como “Minha filha me pediu para citar a amiga imaginária dela nessa nova votação e eu não consegui dizer não” e “Meu tio-avó não me deixa mais em paz, ele quer ser lembrado por mim numa votação em que o Brasil inteiro está assistindo e todo mundo sabe que a maioria das pessoas só descobriu que tinha um tv Câmara na votação do impeachment, o que eu faço agora?”. São essas e muitas outras falas do mesmo teor é que foram a origem da articulação do plot twist da vez.

E eu, ingênua, por alguns momentos, enquanto ouvia os desabafos dos deputados, imaginei que algum deles concluiria que não deveria ter citado nenhum de seus familiares num voto em primeiro lugar. Achei que ouviria um “é, é isso que ganhamos quando misturamos o privado com o público”, imaginei que algum aprendizado ia sair dessa série de lambanças, mas descobri que essa visão patrimonialista pautada pela “Tradição, Família e Propriedade” also know as “Boi, Bíblia e Bala” não fraqueja nunca.


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