Baronesa: um mundo feito de afetos e violências

Andreia (cena do filme Baronesa)

Baronesa é uma palavra utilizada para se referir às mulheres que receberam o baronato, um título de nobreza. Além desse significado de origem monárquica, Baronesa também é o nome de um bairro de Santa Luzia, cidade da zona metropolitana de Belo Horizonte, e o título de um filme dirigido, roteirizado, produzido e protagonizado por mulheres.

Quando Juliana Antunes, diretora da obra, se mudou para a capital mineira, ela notou um certo número de bairros que levavam nomes de mulheres. A maioria deles, periféricos. Isso a provocou e ela começou a pesquisar sobre, ir até eles e, depois de um tempo, o filme surgiu.

A premiada obra é centrada em duas personagens: Andreia e Leidiane. Leid espera o marido preso e cuida de seus filhos pequenos. Andreia quer se mudar e começa a se organizar para isso. A história é uma amostra do cotidiano e não segue os padrões de filme ficcionais. As personagens interpretam uma versão delas mesmas e a narrativa é uma vida que somente acontece.

Conversas, implicâncias, cumplicidade, afetos. Tudo isso faz parte do filme e também da vida. Só que em Baronesa — e na realidade de muita gente — o afeto existe lado a lado com a violência. Tiros, correria, a câmera caída. A violência interrompe uma conversa entre amigas sobre desigualdade.

Numa cena, Negão e Andreia conversam sobre a guerra entre os traficantes locais. Ele veste um colete à prova de balas e eles brincam sobre testá-lo. Andreia está com uma arma na mão. A conversa ora é séria, ora não é, mas está evidente que o assunto entre eles é também sobre a sobrevivência de si e dos seus. A morte e a tragédia parecem estar sempre à espreita.

O filme dá voz às mulheres antes escondidas em espaços privados e de cuidado e empregos precários. Nos diálogos, a gente observa que o único destino possível para elas parece ser esse, enquanto o dos homens dali, a maioria das vezes, é a prisão ou a morte.

Mas, além da violência, o filme também trata sobre afeto. Junto com uma amiga, as protagonistas conversam sobre vida sexual, enquanto bebem cerveja. “Cê pode gozar à vontade”, Andreia diz sobre masturbação, enquanto Leid ri constrangida. Elas batem papo, se aconselham e se apoiam. Entre elas, há uma cumplicidade que envolve até mesmo romper o silêncio sobre violência sexual e fazer recomendações sobre cuidado dos filhos em relação a esse assunto.

Essas mulheres são parte de um todo. Um todo que muitos fingem não ver. Juliana Antunes compartilhou que uma das dificuldades que teve para realizar o filme envolveu o fato de que as mulheres precisavam de autorização masculina para gravar. Com essa informação, é impossível não questionar: “Quantas histórias seguem invisíveis por causa do machismo?”.

Mesmo quando se aborda a vida na periferia, o que não é tão frequente assim, os homens são o foco. Quando um filme se propõe a ser diferente e é um projeto que envolve também pessoas reais, algumas mulheres podem acabar ficando de fora simplesmente por viverem numa cultura que as coloca como seres que devem obediência aos homens de suas famílias.

O trunfo da obra é tratar o cotidiano de forma atenta ao algo mais. A narrativa não foca em um recorte específico da realidade. Ela aborda um todo e isso envolve expor diversos problemas sociais, mas não ficar só nisso. A discussão é proposta, mas a voz delas não fica resumida apenas às dificuldades e denúncias. Nesse filme, as personagens se fazem presentes em várias nuances e protagonismo feminino é isso.

Confira o trailer:


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Desconforto

Obrigada, Canva

Calço os sapatos. Podia ser um par de tênis, de alpargata, meus queridos chinelos ou mesmo minha sapatilha que dá calo, mas dessa vez são sandálias de salto alto. Ouvi da moça do RH que ninguém vai me levar à sério sem sapatos como esses. De alpargata, pareço uma menina, segundo ela. Uma menina de incríveis 30 anos, eu penso.

Tec, tec, tec. Eu ando pela casa conferindo se deixei ração o suficiente para os gatos. Tec, tec, tec. Volto para o quarto para pegar minha pasta. Tec, tec, tec. Me direciono para a porta.

Joselino estranha o barulho que faço ao andar e nem se aproxima para se esfregar nas minhas pernas como sempre faz, mas mia baixinho, porque sabe que só voltarei dez horas depois. Juanita sobe na mesa e oferece a cabeça para eu acariciar antes de sair. Quando me aproximo, vejo seus olhos atentos aos meus passos. Nem ela aguenta o barulho desses sapatos.

Assim que entro na empresa, visto meu casaquinho. Sento. Ajeito a mesa. Checo e-mails. Bebo uma xícara de café. Confirmo minha agenda. Redijo um contrato. O tec, tec, tec dessa vez é barulho do teclado. Separo uns documentos, estudo o que eles dizem e me preparo para reunião do dia.

O homem mais velho da mesa me pergunta se eu sou filha do dono da empresa. Não, eu não sou. Meus pés doem por causa dessa maldita sandália, mas eu ainda não sou levada à sério. Filha, esposa, amante. Todas essas possibilidades parecem mais certas para eles do que uma promoção por mérito.

Apresento nossos produtos e os documentos que comprovam o bom desempenho deles no mercado. Exponho estatísticas e ressalto que conquistamos os primeiros clientes internacionais há poucos meses.

Ele troca de lugar e senta ao meu lado. Posiciono a papelada em sua frente para que ele possa ler os pormenores do contrato. Sorrio e espero.

Sinto algo na minha perna esquerda. Devo ter esbarrado em alguma coisa. O algo começa a subir. Cogito que seja uma barata. Olho para baixo e vejo a mão branca do velho subindo pela minha coxa. Me encolho toda. Ele ri e sobe ainda mais. Nojo.

Não consigo respirar direito, muito menos falar alguma coisa. De novo não. A mão dele continua em mim. Me culpo: “Se fosse uma barata, eu gritaria”. Olho para o nada, ainda paralisada, enquanto respiro fundo e junto toda a força que me resta. Com ela, me levanto, abandono a sala e sei que com isso perdi essa venda e alguma coisa em mim.

Me sinto anestesiada. Não noto mais os sons que faço ao andar, digitar ou mastigar e engulo a comida do meu restaurante preferido sem conseguir diferenciar o gosto dos alimentos.

Quando volto do almoço, meu chefe me chama para sua sala. “Esses clientes já eram certos, que merda você fez?”, ele berra. O andar inteiro ouve. Choro. Balbucio palavras. Nenhuma com sentido. Ele grita ainda mais comigo.

Respiro fundo e recomeço meu relato. Com a voz embargada, conto o que aconteceu. Meu chefe reage dessa vez sem gritaria e me manda ir para casa descansar. Mas antes de eu sair pela porta, ele faz questão de dizer: “Ele não ia fazer mais do que isso, dava para você ter aguentado e garantido o negócio”.

Saio da sala ainda aos prantos, pego minha bolsa e me direciono para o elevador. Ouço cochichos e todo mundo me olha como se eu tivesse feito uma cagada daquelas. A palavra incapaz parece estar escrita na minha testa. Não tenho dúvidas que continuariam me julgando dessa forma — ou pior — se soubessem como perdi a venda.

Os sinos da igreja me contam que são duas horas. Ouço as badaladas com uma atenção absurda. Me concentro em cada uma delas para fugir das memórias e pensamentos que vieram à tona. Tem algo errado comigo, concluo. Meu corpo me trai. Ele provoca os homens.

O ressoar dos sinos não é o suficiente. Dentro de mim, eu grito: “De novo não!”. O coração acelera, bate desritmado. Eu tento respirar fundo, olhar para as pessoas e imaginar suas vidas.

Vejo uma jovem de vinte e poucos anos. Ela tem o cabelo escorrido, diferente do meu, que é cacheado. Está de coturno, veste uma meia calça roxa, um vestido floral e uma jaqueta jeans preta. Esse é um look que eu usaria, penso. Ela parece bem.

Vejo também uma moça de dreads coloridos, calça jeans e camisete preta. Ela parece aflita com o tempo. Toda hora olha para a tela do celular e para o horizonte onde o ônibus alguma hora vai apontar. Ela está de mochila. Talvez atrasada para uma aula, algum estágio, uma prova. Não sei.

Não tem mais ninguém para olhar por perto. O ponto está vazio. Tento me concentrar então em quem passa. Eles andam rápido demais e eu volto a me perder nos pensamentos que tento a todo custo evitar. “Como eu me odeio” é um deles.

Um carro passa bem devagar e o homem dentro dele faz gestos sexuais e grita “Gostosas” para as três mulheres paradas sozinhas no ponto de ônibus.

Não aguento. Desabo. Reconheço as memórias que tento evitar. Vejo uma nova entre elas. Uma voz masculina ecoa na minha cabeça. Ela me chama de vagabunda, diz que tem algo de errado comigo e que eu provoco os homens. Ouço de novo “dava para você ter aguentado”.

As duas moças me olham chorar com solidariedade. Não me sinto digna desse apoio. Ambas se aproximam e falam que vai ficar tudo bem. Respiro fundo. Tento sorrir. A jovem de cabelo escorrido me oferece um abraço. Aceito. A moça de dreads diz “esses caras são nojentos”. Me ouço respondendo “uns desgraçados” e essa é a nova frase que começa a se repetir em minha mente, enquanto vejo elas entrarem no ônibus 9410.

O cheiro de churros domina o ponto de ônibus. Salivo. Corro atrás do carrinho, os sapatos de salto me atrapalham mais uma vez e eu os arranco dos pés. Descalça no centro da cidade, escolho se o recheio será doce de leite ou brigadeiro. O gosto da massa do churros se mistura com o salgado das minhas lágrimas.

Desgraçados.


Essa história foi publicada originalmente no meu perfil na plataforma Sweek e foi finalista no concurso literário SweekStars2018.


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O cotidiano — e os causos — de uma livraria

Foto: Thaís Campolina — Adquira um exemplar aqui.

Em algum momento de 2011, Hillé Puonto, pseudônimo de Lilian Dorea, começou a publicar suas aventuras como livreira em um blog chamado [manual prático de bons modos em livrarias] e algumas dessas histórias foram escolhidas para integrar um livro com o mesmo nome.

Se você gostava de literatura, acompanhava vários blogs e vivia na internet nessa época, provavelmente vai se lembrar de ter visto esse nome em algum lugar ou vai reagir ao meu texto com um “aaaaaaaaaaa” de empolgação. Relembrar é viver, não é mesmo fã da Hillé?

Uma cliente diz detestar Clarice Lispector por odiar livros espíritas, outro pergunta sobre o livro do Freddie Mercury buscando uma obra de direito civil escrita por Fredie Didier e a gente espera — e encontra — a cada página diálogos tão ou mais surreais do que esses dois causos citados. Todos contatos de uma forma que torna as situações ainda mais divertidas.

Eu poderia facilmente ser a cliente que chega na livraria e fala “Quero o livro do Chuchu” buscando algo sobre a entidade lovecraftiana Chutlhu. Na foto: trecho da página 87 do livro [manual de bons modos em livrarias]

O mundo dos livros muitas vezes é intimidador. A gente teme errar pronúncias, autores, títulos e considera que não conhecer certos clássicos é algo que nos diminui, mas as coisas não precisam ser assim. A gente pode rir disso, dos erros dos outros e dos nossos.

Durante a leitura, é impossível não lembrar das inúmeras vezes que falamos a famigerada frase “aquele livro, daquela autora, sabe?” e suas variações cinematográficas, noveleiras e musicais. E é bem provável que você comece a rir de si mesmo ao recordar as situações em que inventou nomes de obras que não existem e aprontou muitas confusões ao pronunciar nomes alemães, russos ou até mesmo ingleses. Quem nunca errou ao falar Freud ou Nietzsche ou fez uma busca no Google para conferir como escreve o nome do escritor Dostoiévski, hein?

No [manual prático de bons modos em livrarias] também há uma parte destinada para as confusões que os livreiros aprontam, histórias que mostram que até mesmo quem trabalha com isso se confunde, erra e às vezes não sabe do que está falando. Através das risadas, a gente dá o primeiro passo para entender que livros são só livros, eles não servem para medir nosso caráter, inteligência ou nos dar status.

Todos esses constrangimentos servem como material para bons causos para serem postados no Medium, no Facebook ou serem contados na mesa de bar. Essa é a lição que o manual me deixou. Vamos, então, deixar a vergonha de lado e começar a compartilhar?


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Galeria de constrangimentos literários

Fotografia da livraria El Ateneo — Retirada do texto “Conheça as 10 livrarias mais interessantes do mundo”

A galeria dos constrangimentos literários de Thaís Campolina está em constante construção, o que pode fazer esse texto chegar aos quinze minutos facilmente.

Decidi criar esse acervo após ler o livro [manual prático de bons modos em livrarias] e pensar em todas as minhas histórias constrangedoras que com uma modificação aqui e ali poderiam me transformar facilmente numa personagem pitoresca que incomoda livreiros.


O clássico encontra o contemporâneo

Eu passei semanas chamado o escritor Ricardo Lísias de Ricardo Lusíadas e achando meio estranho, mas legal, ele ter como sobrenome um título de um clássico da língua portuguesa. Achei que nunca mais ia errar o nome dele, mas semana passada, fui comentar essa história e chamei o cara de Ricardo Lisíadas. Acho que na próxima eu vou falar “Aquele autor que foi processado pelo Eduardo Cunha, sabe?” porque daqui a pouco eu meto um Odisseia no nome do cara.

Uma confusão entre senhoras

Uma vez, ainda no Ensino Médio, eu fui xingar o clássico “Senhora” e acabei xingando a senhora do político e ex-vice presidente do Brasil José Alencar. Só depois de ouvir o interlocutor falar várias coisas doidas, eu entendi que faltou um “de” e o coleguinha estava certo ao ter continuado o papo com informações sobre política.

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Dia de caça

Obrigada, Canva

De salto e terninho, me sentei em um bar conhecido por vender chopp em dobro para engravatados durante o happy hour. Rapidamente, um cara me abordou. Respondi “Não, eu não estou acompanhada, moço” e o jogo começou.

Trocamos palavras, muitos beijos e alguns sorrisos e eu falei para ele vir comigo. Peguei sua mão e com jeitinho o guiei para fora do bar. “Vamos para um lugar mais reservado?”, eu disse enquanto o levava para o meu carro.

Encontramos minhas amigas pouco tempo depois. No olho, avaliaram com muito gosto o material que eu tinha levado e brincaram dizendo “Esse vai dar um trabalho, hein?”. Ele riu todo faceiro, com a certeza que tinha tirado a sorte grande. Juntos brindamos com cosmopolitans nas mãos.

Meia hora após o brinde, ele acordou e se deparou com muito mato, pouca luz, comigo e com minhas amigas. Nenhuma de salto, todas vestidas para matar: calça, coturno e espingarda. Demos uns minutos para ele tentar se esconder e saímos à caça.

Acertei suas costas e subi três posições no placar. Na próxima semana, já alcanço o primeiro lugar. É tipo um Counter Strike, mas no lugar das balas, usamos dardos tranquilizantes e depois devolvemos o animal para seu habitat, o bar.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroJogo.


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Técnicas de sobrevivência

Desci do ônibus por volta das 23 horas. A rua estava deserta. A madrugada anterior tinha marcado incríveis 7ºC e hoje a noite prometia um novo recorde. As minhas chaves estavam apertadas entre meus dedos mais centrais, como sempre, e eu tentava me convencer que estava munida de um soco inglês com pontas capazes de cegar um estuprador desavisado.

Faltando um pouco mais de um quarteirão para chegar em casa, a rua ficou mais escura e um homem apareceu na esquina da frente e veio em minha direção. Eu não tinha para onde fugir. Ele falava comigo, mas o medo e o barulho do vento não me deixavam entender bem o que ele dizia.

“Quando ele abaixar a guarda, enfio a ponta da chave na bochecha dele com toda minha força, chuto as bolas do desgraçado e corro”, planejei.

Eu tinha algo capaz de rasgar a pele e força o suficiente para usar minha chave como arma graças aos meses de musculação. Ele estava cada vez mais próximo e meu corpo cada vez mais tenso. Íamos nos encontrar de frente em alguns metros, mas antes disso, ele parou e começou a gritar “Mariana, é você? Sou eu, Seu João, seu porteiro. A luz do poste queimou, fiquei preocupado e vim te buscar”.

Não foi nesse dia que tive que usar técnicas de sobrevivência para conseguir chegar em casa sã e salva.


Texto publicado originalmente no meu perfil na Sweek para o concurso #MicroChave.


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Arábia e a escrita de si

Cristiano (Aristides de Sousa)

O filme “Arábia”, dirigido pelos diretores mineiros Affonso Uchôa e João Dumans, conta a história de Cristiano (Aristides de Sousa), um homem que viaja Minas Gerais trabalhando onde encontra lugar para isso. Minas aqui não é lembrada por ser um local de belezas naturais, destino de turismo, ela é colocada como um local de trabalho, de esforço, de sobrevivência.

A obra se inicia com o foco em outro personagem, André (Murilo Caliari). Ele anda de bicicleta, desenha, fuma, cuida do irmão mais novo doente e é ajudado pela tia. De sua janela, ele vê, ouve e respira a fuligem da fábrica. Cristiano e André se cruzam vez ou outra na vizinhança, mas não há ligação entre eles. Apenas dividem o mesmo espaço, um bairro industrial, mas Cristiano está dentro e fora da fábrica, André somente fora.

A história começa a ser realmente contada a partir do encontro de André com o caderno-diário de Cristiano. Nesse momento, Cristiano assume seu lugar de protagonista e conta sua própria história por meio do papel.

O caderno-diário é fruto de uma tarefa que foi solicitada, não é algo que parte espontaneamente do personagem. O exercício consiste em narrar algo da vida dele que ele considere importante. “No fim de tudo, o que sobra mesmo é a lembrança do que a gente passou”, ele diz ao introduzir suas memórias.

Ao sair da prisão, Cristiano decide abandonar Contagem com medo de acabar indo em cana novamente. A pé e de carona, ele busca trabalho. Governador Valadares, Paraíso, Itabira, Ipatinga, Ouro Preto são alguns dos destinos do personagem. O acaso parece ser o elemento comum de todos eles. Seu percurso acontece sem ele ter muito poder sobre ele.

Todas suas relações partem dos espaços de trabalho, inclusive Ana (Renata Cabral), o amor de sua vida. Nos breves intervalos entre os afazeres, ele cultiva afetos. Canta, bebe, joga baralho e ouve histórias. Todos com quem divide esses momentos também trabalha para sobreviver. Seus esforços nunca resultam em algo além disso.

Por meio da escrita, Cristiano parece olhar para si pela primeira vez. O trabalho como constante o objetifica e a escrita de suas lembranças é o que faz ele entrar em contato consigo novamente. Ele reflete sobre si, a vida e o mundo que o cerca e conclui que todo mundo tem uma história para contar. Inclusive ele.

A memória é colocada como um componente da nossa própria humanidade frente a um mundo que cobra que o trabalhador seja uma máquina. Cristiano se descreve como alguém que não consegue se expressar bem, mas com um papel e uma caneta em mãos, ele encontra sua voz. Essa que parecia estar à vontade somente quando cantava em momentos de descontração. A escrita de si faz o personagem reviver lembranças e se ver como alguém além do homem trabalhador.

Durante a leitura, André descobre quem Cristiano é, um cara muito além da fábrica, das obras, da tecelagem, da plantação de mexerica e da prisão. O caderno une os dois personagens, André curioso sobre o que o trabalhador tem a dizer descobre que Cristiano também o observava. Apesar das diferenças, ambos dividem o bairro e a solidão.

A história de Cristiano toca não só por retratar as condições do trabalhador, mas também por ser uma narrativa que parte de um personagem que compartilha seu próprio ponto de vista. Uma história que poderia ser de muita gente e é parte de um Brasil que é invisível para muitos. Cristiano olha para si e a gente olha junto. Saímos do cinema cientes da desigualdade, do abandono, do cansaço do trabalhador comum e do poder da palavra e da memória na construção da subjetividade de cada um, principalmente daqueles a quem isso é negado.


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Amanda Lovelace e a transformação dos contos de fadas

Acervo Pessoal — O livro “A princesa salva a si mesma neste livro” pode ser comprado aqui.

“A princesa salva a si mesma neste livro” começa com um poema que faz referência ao personagem icônico Harry Potter. Amanda Lovelace, norte-americana, formada em literatura inglesa e autora dessa obra, conta uma história sobre amadurecimento através de poesias e, ao lembrar da trajetória do menino que sobreviveu, eu, como boa millennial, pensei em tudo que a saga me ensinou ao narrar os caminhos de Harry, Rony e Hermione ano a ano.

Histórias sobre se tornar adulto são poderosas justamente por mostrar que a vida é um processo de aprendizados e a gente nunca está completamente pronto para lidar com algumas experiências que fazem parte dela. Livros e o que eles nos contam ajudam a gente a preparar o terreno para o que não é passível de controle e a entender que é possível continuar mesmo quando a gente acha que não.

Na obra escrita por Amanda Lovelace, o livro é colocado como mais que um objeto, ele é também um meio em que o eu-lírico encontra sua própria identidade. A princesa, a donzela e a rainha são personagens típicas de histórias infantis, mas recebem uma outra roupagem de acordo com o desenvolvimento dessa narrativa contada através de poemas e capítulos.

Amor, amizade, autoimagem, a morte de um ente querido e a dor do luto são tratadas pela autora de forma sensível e complexa. A jovem, apaixonada por livros e contos de fadas, descobre que as histórias podem ser diferentes das que ela está acostumada e seu processo de amadurecimento se mostra evidente quando ela percebe que princesas também podem salvar a si mesmas.

A literatura é também uma forma de se conhecer e um apoio para quem lê, a lembrança da saga de Harry Potter expõe a importância dessa e de outras histórias para quem as encontra. E “a princesa salva a si mesma neste livro” agora também é uma dessas obras que podem amparar alguém a descobrir sua própria força.

Esse livro pode dividir a estante com “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, “Carta de amor aos mortos”, de Ava Dellaria, e com a saga que tornou J. K Rowling célebre, já que todas essas obras também tratam sobre crescer, luto e descobertas.

Poemas não são uma linguagem considerada acessível, mas Amanda Lovelace faz parte de uma geração de mulheres que faz questão de escrever como quer, num formato simples e de fácil entendimento, o que, além de encorajar a leitura, também estimula pessoas a se expressarem através da poesia.


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O peso de ser vista como um objeto sexual

Acervo pessoal — Foto do livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”. Adquira o seu aqui.

Aos nove anos, ouvi um homem adulto completamente desconhecido mexer comigo enquanto eu andava de bicicleta na praça perto da minha casa. Eu não lembro o que ele disse, se eu entendi o que ele falou, só lembro que senti que ele me via como uma mulher. E que isso não era bom.

Enquanto crescia e essas situações se repetiam, eu percebia cada vez mais que ser vista como mulher era uma desvantagem. Era confuso, porque eu fui uma criança que pode jogar futebol, nadar, brincar na areia, que foi incentivada a ler, escrever e desenhar. Na escola, até passei por situações de meninos dizerem que eu, por ser menina, não podia fazer algo, mas eu encarava aquilo como uma rivalidade boba, não como algo que refletia uma sociedade que tentaria o tempo todo definir a minha existência como derivada da masculina.

Por ser uma menina que cresceu mais livre que a maioria, tornar mulher por muito tempo significou para mim apenas avançar idades, virar adulta, mas logo as primeiras experiências com a objetificação me mostraram que havia um fardo em pertencer ao sexo feminino.

Jessica Valenti, em seu livro “Objeto sexual — Memórias de uma feminista”, trabalha o impacto, inclusive psicológico, das mulheres serem tratadas como objetos durante toda a vida. Logo na introdução, a escritora questiona “Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres?” e afirma não conseguir encontrar uma resposta satisfatória e que há muito tempo vem guardando um luto por essa versão dela mesma que nunca existiu.

Ainda muito novas, as mulheres vivem experiências de assédio como as que relatei, de estupro e de ameaças. Muitas vezes, tais violências são naturalizadas em algum nível e colocadas como inevitáveis. Como se dá a construção de quem somos se a gente logo entende que essas experiências são comuns e provavelmente podem se repetir ao longo da vida?

Um homem faz comentários sobre a bunda de uma menina de dez anos. Outro, completo desconhecido, diz que ela é linda. O vizinho faz gestos sexuais para ela. Seus peitos em crescimento se tornam o assunto principal entre os meninos da sala. Ela ouve que tem que sentar direito porque os homens podem ficar olhando.

O que viver isso cotidianamente causa na gente? Como nossa personalidade se molda? Como todas essas experiências que envolvem objetificação afeta quem somos, como vamos reagir no futuro, como lidaremos com nossa sexualidade? Saberemos separar desejo de objetificação? Como esse medo se relaciona com o nosso desejo de sermos consideradas bonitas sendo que crescemos condicionadas a acreditar que a beleza é a mais importante das características que podemos ter?

A pergunta feita na introdução nos faz revirar nossas memórias, como eu fiz nos primeiros parágrafos desse texto, e também lembrar das histórias de nossas amigas, irmãs, mães e avós. Mas a gente não está sozinha nessa jornada de reflexão sobre o peso da misoginia, Jessica compartilha conosco um pouco da sua vida. Ela começa com um texto chamado “Linhagem de vítimas da violência”, o que tem tudo a ver com o sentimento que temos ao pensarmos no questionamento que Valenti levanta logo nas primeiras páginas. Somos várias reféns dessa dúvida.

A cada texto, a autora apresenta um recorte de sua vida. Infância, primeiras experiências sexuais, aborto, drogas, maternidade, carreira e universidade são alguns dos pontos que ela aborda, sempre sob a ótica de gênero. Durante essa viagem nas lembranças e reflexões da autora, a gente pensa o que poderia ser diferente na história dela, caso o mundo fosse outro.

Ser vista como um objeto sexual nos desumaniza. Nessa ótica, somos algo que existe para servir o outro, não nós mesmas, e o machismo que nos cerca tenta nos fazer acreditar que isso nos basta, que é isso que queremos. O impacto em nossas vidas de sermos consideradas coisas que causam desejo é algo que a gente não consegue mensurar bem, já que não são episódios isolados. É um todo que pode somar vários tipos de violência e que acaba por moldar quem somos.

Jessica Valenti criou o Feministing.com em 2004, uma época bem diferente do momento que vivemos hoje. A internet e as redes sociais se popularizaram e isso possibilitou que muitas mulheres tomassem conhecimento de suas vozes, compartilhassem suas histórias, ideias e descobrissem que não estão sozinhas contra a misoginia. Esse fenômeno continua e chegou até em Hollywood, mas as mulheres que falam publicamente e se colocam como pessoas e não mero objetos ainda recebem ataques. O foco de muitas dessas ofensas ainda é nossa aparência. Com isso, eles querem dizer que nem para objetos sexuais servimos. Eles não compreendem que a mudança começou e que a cada dia mais mulheres percebem que são gente, não coisa. Estamos em processo, a maioria de nós ainda precisa assimilar que nos bastamos e não precisamos de perseguir uma aprovação que se baseia num papel que mais parece um fardo. Um fardo que carregamos por gerações.


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Os homens explicam tudo até para Rebecca Solnit

Acervo pessoal — Foto do livro “Os homens explicam tudo para mim” da Rebecca Solnit. Adquira seu exemplar aqui.

Rebecca Solnit é jornalista, escritora e historiadora. Autora de mais de vinte livros sobre temas como política, arte, feminismo e outras questões sociais, ela é conhecida também por ter inspirado a criação do termo mansplaining através de seu ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que se tornou viral.

Numa festa com uma amiga, o dono da casa começa a puxar papo e pergunta sobre os livros dela. Ela comenta sobre o tema do mais recente e o homem a interrompe dizendo algo como “Já ouviu falar sobre aquele livro muito importante sobre isso que saiu esse ano?” e dispara a discorrer sobre e afirmar que ela deveria lê-lo. O famigerado livro citado era o dela. A amiga da escritora precisou dizer umas quatro vezes que a autoria da obra que ele tanto falava era de Solnit para ele, enfim, parar.

A escritora destaca que o tom usado pelo homem foi o mesmo que as pessoas costumam usar para falar com uma criança de sete anos sobre alguma aula que ela faz. Ao ler esse trecho, fiquei pensando que talvez a gente devesse começar a não usar esse tom nem com as crianças. Dá para incentivá-las sem tratá-las como bobas, não é?

Desse episódio, narrado com humor, ela inicia suas reflexões sobre silenciamento, apagamento e descrédito das mulheres. Em poucas páginas, ela expõe o quanto o silenciamento é parte de um todo feito de abusos de poder cometidos contra mulheres. Os homens que explicam tudo para nós fazem isso por nos verem como esponjas ansiosas para aprenderem com eles, porque a cultura patriarcal nos coloca nesse lugar e eles seguem encarando esse lugar como naturalmente feminino.

O ensaio seguinte, “A guerra mais longa”, fala da violência masculina de uma forma mais direta, e expõe que o assassinato de mulheres é uma questão autoritária, de controle. Notícias são citadas, estatísticas também. Esse texto é um retrato de uma realidade que muitos se negam a ver. O texto mais forte de todo o livro.

As reflexões continuam, os assuntos variam, a data dos ensaios também, mas é interessante como o livro todo se conecta, apesar da ausência de algumas temáticas essenciais infelizmente não trabalhadas na obra. A situação de mansplaining narrada por ela faz parte da teia que compõe a opressão feminina, que inclui atos como o desaparecimento dos nomes das mulheres nas árvores genealógicas, credibilidade das vítimas, estupro e assassinato. Assuntos também lembrados no livro.

“A caixa de Pandora e a polícia voluntária” é o título que finaliza a obra. Nele, lemos sobre os desafios que ainda permanecem e os caminhos que o feminismo está criando para as mulheres. Caminhos esses que se ramificaram tanto que parece impossível pará-los. As mudanças estão em trânsito, apesar dos pesares.

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